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iticas do ingás Mansfield à sociedade brasileira, um dos pontos

em que mais orgulhosamente insistiu foi neste: no cuidado das

iaiás e sinhá-donas em nunca mostrarem as pernas: só a ponti-

nha do Sé. Ao contrário das inglesas, que não falando nunca em

1

pernas e mesa, exibiam as pro



arrias com o maior desembaraço.

f

Quando tinham de atravessar a guma poça de lama, por exem-



plo, só faltavam levantar a saia até os joelhos.24

Em minucias de moral, em preconceitos de pudor, foi talvez on-

de a brasileira, impregnada de tradições árabes, mais resistiu à

penetração inglesa ou francesa. Aliás, o estrangeiro era sempre

visto em nossa sociedade colonial, e mesmo durante longo pe-

1

riodo do Império, como um possiVel. Don Juan; e evitado no in-



terior das casas e dos sobrados. Tollenare, já vimos como se ma-

goou com a burguesia do Recife por esses excessos de retrai-

mento da parte das mulheres, até vingar-se das pernambucanas,

esquivas como mouras, vendo nuas, no banho, as nádegas todas

de fora, as filhas do Senhor N.25 Nas casas, porém, era o frances

se anunciar e as senhoras correrem para os quartos, deixando as

costuras e as rendas por cima da mesa. Saint-Hilaire notou o

mesmo retraimento nas sinhá-donas de Minas.26 Diante do es-

trangeiro as mulheres só faltavam morrer de vergonha. E não

#

só as matutonas, das fazendas, porém as mesmas fidalgas bur~



guesas finas de sobrado que ele vira nos bailes oficiais vestidas

à francesa; e nessa ocasião tão desembaraçadas que no intervalo

das contradanças tocavam e cantavam. Seu acanhamento excessivo

era nos dias comuns, ordinários, rotineiros.

É curioso observar, nos nossos velhos retratos do tempo do

nas fotografias antigas de família que amarelecem no

2oriojas gavetas ou dentro dos álbuns de capas às vezes de

madrepérola, a muito maior europeização não só de trajo como

que de fisionomia, vamos dizer social, dos homens. As senhoras

parecem às vezes, ao lado dos maridos, as sinhazinhas, ao lado

dos pais, ou dos irmãos, mulheres malaias ou chinesas ao lado

de missionários ingleses de bigodes ou de médicos norte-ameri-

canos de barbas. Duas r'aças-ou aparências de raça-criadas pela

profunda diferenciação social entre os sexos. 0 homem mais eu-

#

334


GILBERTO FBEYRF

ropeu pelo trajo, pelo porte, pela como urbanização da fisiono-

mia e do tipo; a mulher-mesmo quando branca pura ou quase

pura-mais oriental, mais asiática, mais rural, quando não pelo

trajo menos europeu que o do homem, pela fisionomia tristo-

nha de recalcada ou de segregada, que lhe aproximava do tipo

das grandes recalcadas e segregadas do Oriente.

Aliás, a maior europeização de trajo nem sempre significou,

entre nós, a libertação da mulher do excessivo domíni(~do ho-

mem. Nem a libertação do Iróprio homem, dos preconceitos e

tradições que criara, para ele, uma segregação intelectual pro-

funda da Europa burguesa, industrial, nórdica. 0 hábito nem

e~

sempre faz o monge.



Em 1872 Correia de Azevedo lamentando ver, há anos, tão

generalizado nos homens o uso da "pesada casaca de Londres

ou de Paris" e substituído o chapéu de palha "por esse informe

canudo preto, desairoso, quente, pesado", que era a cartola, des-

tacou entre as senhoras da Corte e das capitais, o francesismo

de maneiras, que Ilso a palavra coqiíetterie" definia .27 Consistia

em cumprimentar à francesa, em vestir à francesa, em falar um

pouco de francês e de inglês, tocar no teclado de um piano valsas

sentimentais. Música francesa ou italiana, em vez do fado com

sua tristeza árabe e da modinha adocicada, meio africana, du-

rante o século XVIII tão tocada ao som do violão. 0 piano em

vez do violão ou da harpa. Os anúncios de jornais documentam

abundantemente essas transformações de gosto que, durante a

revolucionária primeira metade do século XIX, foram afastando o

brasileiro de costumes já castiçamente luso-brasileiros para apro-

ximá-los de modas francesas, inglesas, italianas, alemãs, eslavas; e

também norte-americanas que, desde então, começaram a com-

petir com as européias. Tal o caso da cerveja fabricada nos Esta-

dos Unidos e em 1848 já importada pelo Brasil, segundo anúncio

no jornal do Conimerdo de 11 de dezembro: cerveja que "tem

tomado o lugar da cerveja ingleza em quasi todos os climas dos

tropicos onde é inteiramente preferivel". 0 caso, também, de

danças: no mesmo jornal, de 18 de setembro de 1848, certa Mme.

Degremonte, "discipula do Conservatorio de Paris", anunciava-

-se mestra de "todos os generos de danças de sociedade assim

como tambern a PoIka, a Mazum-ka, a Cracovienria, a Tarantella,

o Bolero, o Styrin". Danças exóticas.

Com a decadência da economia apoiada no escravo, acentuou-

-se a importància do europeu que aqui viesse, não como simples

negociante, como os inuleses desde os tempos coloniais, à som-

bra do Tratado de Methuen, nem como modista e dentista para

europeizar o traio das senhoras e, consertar os dentes, sempre

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo

#

335



tão estragados, do brasileiro, nem apenas como médico, parteira,

n, estre de -dança, professor, governante, mas como operário,

construtor, pedreiro, marceneiro, carpinteiro, pequeno agricultor,

trabalhador de fazenda. Como operario ou artífice, que substi-

tuísse o negro e a indústria doméstica e, ao mesmo tempo, viesse

satisfazer a ânsia, cada vez maior, da parte do mais adiantado

burguês brasileiro, de europeização dos estilos de casa, de móvel,

de cozinha, de confeitaria, de transporte.

Vieram então alemães, irlandeses, italianos e suíços para os

campos, de preferencia para os lugares de clima mais doce e

de terras mais altas, uns entregando-se ao fabrico da manteiga

e do queijo, outros à pequena lavoura, alguns indo mesmo traba-

lhar nos cafezais de São Paulo e até nos canaviais da Bahia, como

o grupo de irlandeses que ali degradou-se pelo abuso da aguar-

dente.2' Os mais ousados ou mais loucos se aventuraram a ir se

estabelecer nas matas das províncias do Norte, como aquele

bando de louros que tomou romanticamente o rumo de Catucá,

mato grosso e quase virgem de Pernambuco, onde deram para

fabricar carvão. Mesmo assim, com tanta infelicidade, que sen-

do as matas dominadas por quilombolas ou negros fugidos, os

negros, um dia, trucidaram muitos dos invasores ruivos.29

Ainda outros europeus se instalaram pelas cidades como ope-

rarios e artífices; tal o grupo que veio para o Recife, em 1839,

com Augusto Koersting, a chamado do Presidente da Província,

o afrancesado Barão de Boa Vista. Mecânicos, pedreiros, car-

pinteiros, canteiros. Datam dessa época, os chalets, as casas em

estilo gótico ou toscano, que foram substituindo as do velho es-

tilo da era colonial já acomodado à paisagem: casas quadradas,

de quatro águas, o beiral com as pontas orientalmente arrebita-

das em asas de pombo ou cornos de lua. Datam também dos prin-

cipios do s,-',culo XIX, os sobrados com cornijas construídas a mol-

de; o estuque; as vergas de alvenaria. A europeização da arqui-

tetura-do plano e da técnica-começando nas cidades, e com os

edifícios publicos terminou nas casas de engenho, onde muito'

sobradão orientalmente gordo acabou substituído por chalet es-

de dois andares. A casa do Engenho Gaipió, em Pernam-

Cuicoó, casa com luxos de palacete de cidade, é dessa época de

europeização. Dessa época de casas um pouco com o ar de edi-

fícios públicos e de teatr,)s; vistosas; salientes; sem aquele re-

cato das antigas, que se escondiam por trás de cercas de espinho,

de muros altos, de grades de convento.

No Rio de janeiro a curopeização dos ediFícios públicos e

dos sobrados de a',muns d-)s nomens niais ricos da Corte, come-

#

336 GILBERTO FBEYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - U Tomo 337



çara com a chegada do Príncipe. Com a missão de artistas fran-

ceses que veio para o Brasil no tempo de Dom João VI.

Grandjean de Montigny foi quem traçou o plano para a edi-

ficação de palácios e escolas à francesa; também o plano ou o

risco de algumas casas-grandes. 0 gosto francês, não só de ar-

quitetura como de sobremesa, de vinho, de verniz de boneca para

dar brilho ao móvel, de imagem de santo, juntou-se ao do vestido,

dominando os burgueses mais instruídos e mais ricos. Coincidin-

do com as tendências mais acentuadas para o separatismo e para

a independência, o gosto pelo artigo ou pelo estilo francês ou in-

glês de trajo ou de móvel, pelas idéias dos tratadistas franceses

e ingleses-Montesquieti inspirou e orientou Frei Caneca, já li-

berto da tradição intelectual portuguesa-foi se aguçando num

gosto político, de reação ao gosto português. Tudo que era por-

tuguês foi ficando "mau gosto"; tudo que era francês ou in-

glês ou italiano ou alemão foi ficando 'bom gosto".

As gazetas coloniais, e mais tarde as do Império-a Gazeta do

Rio de janeiro, que era a da Corte, e a Idade d'Ouro do Brazil,

de Salvador, o Diário do Rio de janeiro e o Jornal do Commercio,

o Diário de Pernambuco-vêm cheias de réclames de coisas fran-

cesas e inglesas; de anúncios de técnicos e artistas europeus-prin-

cipalmente ingleses, franceses e italianos-e de suas habilidades ou

de suas artes. Réclames não s0 de clássicos latinos, mas das obras

completas de Voltaire, das Viagens de Gulliver, das Poesias de

Bocage, das operetas de Bellini, da Graniática Inglesa de jonathan

Abbot, das Novelas de Saavedra, dos livros de Say e Adam Smith,

de Bentham e Milton. 0 Almanach do Rio de janeiro começa a

aparecer cheio de nomes franceses, ingleses e italianos de par-

teiras, cabeleireiros, confeiteiros: Teissier, com seu "grande sorti-

inento de cabellos postiços"; Franccioni, com seus "sorvetes a qual-

I er hord'; outro com seus novos processos europeus de enxertar

untes "nas 11 i ceos

de bocca"; ainda outro com sua "descoberta milagrosa para curar

bebados", a qual já teria curado '1900 pessoas".

Em 1818 a Idade dOuro do Brazil anunciava, em Salvador, uma

companhia de dançarinos ingleses que era uma maravilha; e mui-

to digno de nota o seu sucesso pelo fato de significar uma subs-

tituição social: exibia-se na velha Praça de Touros. Em vez de

ver correr os touros, como no tempo do Senhor Dom José, o

povo de Salvador da Bahia de Todos os Santos agora se divertia

com dançarinos ingleses. Dançarinos um tanto mecânicos que

subiam "ao ar huma machina com hum homem equilibrado em

cima, com a cabeça para baixo e dois mais por baixo da mesma".

Terminava a função, segundo o anúncio, com um "admirável fogo

raizes dos podres"; firmar dentaduras, que xos,

artificial" mostrando no fim as Armas Reais e um dístico com

Viva Dom João VI".

#

Quase pela mesma época-em 1809, 1810, 1811-a Gazeta do



Rio de janeiro anunciava carruagens vindas de Londres: car-

.rinhos ingleses com seus arreios; carruagem inglesa de quatro

rodas, "muito ligeira" e-detalhe digno de atenção---~"Lanterrias

de patente, Almofadas de marroquim". Era o prestigio da roda,

da máquina, do cavalo, seu triunfo sobre o palanquim, o braço

do escravo e a pata do boi vagaroso de carro. Quem anunciava a

carruagem de quatro rodas era mesmo um inglês, Jorge Thomaz

Standfast, que tinha também para vender na sua casa da Rua

Direita ri.0 35 "huns poucos de Barris de Manteiga e queijos de

primeira qualidade". "Huma Ingleza", cujo nome não vem no

anuncio, mas que morava na Rua dos Ourives ri.0 27, se ofere-

cia, pela mesma época e na mesma gazeta, para ensinar meninas

a ler, escrever, contar, coser, bordar e "fallar Inglez e Portuguez".

Mr. Gardner, "Doutor , em Medicina, Membro das Sociedades

Mathematicas e Philosopifficas de Londres", informava pela mes-

ma Gazeta do Rio de Janeiro, de 27 de junho de 1810, que suas

1eituras sobre chimica e Philosophia Natural" principiavam "Sexta

feira 29 de junho ás 6 horas da tarde infallivelmente esperando

ser honrado por um auditorio capaz de poder cooperar o grande

trabalho e despesas, que elle tem feito em apparatos chimicos,

proprios para fazer as leituras mais completas".

Por outro anúncio-da mesma Gazeta, de 27 de julho de 1811

-se vê que as tais leituras do Doutor Gardner foram concorridas;

que tiveram até "a presença de S.A.R. o Principe Regente Nosso

Senhor e sua Augusta e Real Familia".

Também um Mr. Blake aparece pelo jornal do Comrnercio de

16 de outubro de 1827 anunciando "novas preparações chimicas".

0 prestígio do "Laboratorio Chimico". 0 prestígio da droga de

laboratório ou vinda da Europa. Seu triunfo sobre o remédio

caseiro, patriarcal, aprendido com a índia ou com a preta velha,

preparado na cozinha da casa-grande ou do sobrado, numa cuia

ou numa simples tigela de sopa.

Os anúncios de comidas importadas também aparecem com

freqüencia nas gazetas coloniais, acentuando-se nas do tempo do

Reino e do Imperio. Eram presuntos frescos de Vestfalia, a 240

réis a libra como os que anunciava a Confeitaria de Horacio Me-

seri pelo jornal do Commercio de 25 de outubro de 1827, confei-

taria que chamava também a atenção dos seus fregueses para a

sopa de tartaruga à inglesa que servia pelas onze horas da ma-

nhã. Era a passa, era o vinho engarrafado francês borgonha, era

o porto em barril, o champanha, a sardinha de Nantes, o molho

#

338 GILBERTo FREi-RF



inglês, a mostarda inglesa, a conserva inglesa, o queijo parmesão,

o queijo flamengo, o queij . o suíço, o queijo londrino, o toucinho

delisboa, o biscoito em lata. Era o "cosinheiro Genovez" Tho-

maz Galinho a anunciar sua "caza sita no Beco do Piollio" onde

aceitava "todas as encoirimendas de pratos de cosinha como ravio-

lis cruas e cosidas, perus rexeados, gallinhas e frangos e differen-

tes pratos de massas, tortas de fructas e creme de leite", como

consta de um anúncio do Diário do Rio de janeiro, de 16 de feve-

reiro de 1822. Era o "Cosinheiro de Nação Italiana" que não só

cozinhava corno fazia "todas as qualidades de massas, pasteis e

doces" anunciado pelo mesmo Diário de 13 de janeiro de 1830

-a mesma epoca em que Auguste, cozinheiro francês, brilhava

nos anúncios do Diário de Pernambuco.

A pintura para a barba, a fazenda, o calçado, o vestido, o cha-

péu, o remédio, o alimento, o adorno de pessoa e de casa, o

meio de transporte, tudo passou a ser importado da Europa, um

ou outro artigo dos Estados Unidos. Eram artigos nem sempre

da melhor qualidade, embora os preços fossem os mais altos. Os

vestidos, os calçados, os chapéus nem sempre eram os de última

moda, embora vendidos aqui por duas, três vezes, o preço de

Paris. A louça de mesa tornou-se também a inglesa ou a francesa.

Louça q~ase sempre branca e dourada: "apparelhos para chá dou-

rados", '.casaes de chicaras douradas", "apparelhos para meza

dourada", tudo "francez e de muito bom gosto", como anun-

ciava a Idade d'Ouro do Brazil a 3 de julho de 1818.

Raro a?arecerem depois de 1830, avisos, nos jornais, de 1ouça

da India', outrora tão comum. Entretanto continuou a ser im-

portada para mais de um volutuoso da tradição. "Louça da

India chegada proximamente de Macau no Bergantin Novo Dou-

rado"1 aparelhos de mesa chineses de 172 e 174 pares, meias-

-tigelas para almoço, de Nanquim e Cantão, xícaras e pires de

louça da China, para chá e café. Em capítulo seguinte procura-

remos indicar que esses e outros artigos vindos do Oriente, tão

abundantes no Brasil do século XVIII e dos primeiros anos do

século XIX, não se deixaram vencer sem resistência pelos im-

portadores do Ocidente. De tal modo, porém, se fez sentir so-

bre o Brasil a pressão do imperialismo europeu-da Inglaterra e

da França, principalmente-que o europeu não tardou a tornar-

-se senhor do mercado brasileiro de louça, expulsando daqui

fino artigo oriental.

Grandes cargas de panos, móveis, louças, artigos de luxo, fran-

ceses, inundaram OS portos do Brasil, logo que a França pôde com-

petir com a Grã-Bretanha na conquista do mercado brasileiro. E

são de um francês, D'Assier, estas palavras um tanto duras para

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

339


#

os ouvidos franceses: "Nous ne croyons pas qu'il existe dans les

annales du comnierce une époque ou la fièvre du gain, se soit

étalée dune manière aussi scandaleuse".30

Antes de D'Assier, Denis contrastara o comércio francês no

Brasil com o inglês, concluindo pela superioridade do inglês.31

E Charles Expilly, no seu Le Brésil tel qu'íl est, destacaria hor-

rores do comérico francês entre nós, na primeira metade do século

XIX: num Brasil que procurava fugir tão às tontas do "mau gosto"

português e das coisas feitas em casa ou por mão de amarelo,

de pardo ou de negro, para agarrar-se aos artigos de fábrica, de

oficina, de loja, de laboratório europeu, os mais finos fabricados

por mãos cor-de-rosa de parísiense, "Les affiances de cuime et de

zínc furent verdus pour 1'or", informa E ill E ainda: "le

x~'argen

, Y,


cuivre blanc de VA11entagne passe pour de ' C82 Vestidos

do tempo do Diretório, com um atraso de dezenas de anos, eram

vendidos no Rio de janeiro como o "dernier go-út" de Paris. A

mistificação em larga escala.

0 brasileiro, mal saído das sombras do sistema patriarcal e

da indústria caseira, deixou-se estontear da maneira mais com-

pleta pelos brilhos, às vezes falsos, de tudo que era artigo de

fábrica vindo da Europa. Um menino diante das máquinas e

das novidades de Londres e de Paris. A situação atenuou-se com

a competição: casas suíças e alemãs e não somente francesas

vendendo artigos de luxo e de sobremesa. Mas a exploração con-

tinuou até o meado do século. Os anúncios de dentistas, de má-

gicos e sonâmbulos, de mestres de música e de dança, de pro-

fessores, de retratistas, de tinturas para a barba, de remédios, de

cozinheiros, deixam suspeitas de muita charlatanice da parte de

europeus, a ,indo sobre meio tão fácil de explorar, tão tascinado

9

pelo prestígio místico do inglês, do francês, do italiano, do ale-



mão, da máquina, da novidade européia, do teatro em vez do

carrossel, da festa de igreja em lOs depoimentos de D'Assier, quanto ao Imperio, em eral, e

9

o de Arsène Isabelle, quanto ao extremo Sul, em particular, con-



firmam o fato de que alguns franceses excederam-se no Brasil na

mistificação comercial. No meado do século XIX-que foi quan-

do esteve no impé~io aquele agudo observador europeu-não era

raro encontrar-se o mesmo aventureiro francês praticando no

Brasil as mais diferentes profissões: saltimbanco aqui; dentista

ali; professor de francês mais adiante. Dai, reparava D'Assier, a

expressão "negócio afrancesado" ter-se tornado na boca dos bra-

sileiros o mesmo que fides punica, na boca dos latinos. E

Arsène Isabelle reparou que os artigos franceses que chegavam

a Porto Alegre na primeira metade do século XIX-vinhos e con-

#

340


GrLBERTo FREYRE

servas-eram "de uma qualidade detestáVel".33 No Norte do

Brasil, "francês" tomou-se, na boca do povo, equivalente de

falso ou fingido.

Num navio, informa ainda D'Assier ter ouvido conversa bem

carateristica, da atitude dos negociantes franceses com relação ao

Brasil. Era um grupo que conversava na intimidade. Um contava

como fazia contrabando de relógios. Outro que chegara ao Brasil

apenas com "40 soUS" no bolso: sua fortuna já subia a 200 contos.

Ganhara tão gorda soma vendendo chapéus-de-sol. Chapéus-de-sol

de pano e de armação ordinária; mas tão bonitos, que brasileiro

nenhum resistia ao encanto deles. E quando algum ingênuo lhe

aparecia para se queixar da má qualidade do artigo, ele alegava

todo espantado que a mercadoria era de Paris: Paris, o nome

mágicol Que nos climas temperados o artigo resistia admiravel-

mente ao tempo. Mas que não havia chapéu-de-sol de seda, por

mais fina, que resistisse ao clima do Brasil, às chuvas dos tró-

picos, a um sol inimigo dos produtos finos da Europa como o do

Brasil. Ainda outro falou para dizer como explorava as senhoras

na sua loja de modas da Rua do Ouvidor. E quando alguém ob-

jetou que vender por cem mil-réis o que custava cinco francos

talvez fosse furto, todos perguntaram a um tempo, e indignados,

que espécie de furto. Furto o deles, que se aventuravam ao pe-

rigo da febre amarela, às picadas dos mosquitos, a vida no meio

de negros fétidos? Além do que, tudo era tão caro no Brasil-

caríssimos, na verdade, os alimentos, com a monocultura dificul-

tando a sua produção-que se os negociantes europeus não ven-

dessem por tão alto preço seus artigos aos súditos de Dom Pedro

II, eles, euro eus, é que acabariam arruinando-se no Brasil. "E

)? _'1


os brasileiros-perguntara um francês do grupo não roubam

os negros?"34

Com a maior europeização e a.inais larga urbanização dos

estilos de vida, o Brasil atravessou um período de muito artigo

falsificado e velho a fazer as vezes do bom, do novo, do vindo

direto de Paris para as lojas do Rio de Janeiro, do Recife, de

Salvador, de São Paulo, de São Luis do Maranhão, de Porto

Alegre. Éeoca de muito alimento adulterado. As cozinhas das

casas-grandes e dos sobrados eram decerto umas imundices; mas

a comida pre arada nelas mais sã que a maior parte da vinda

em cons Na Euro

,j~a. Que a servida às vezes nos hotéis fran

ceses ou pelos cozin eiros italianos. Foi entretanto tornando-se

chíc comer à francesa, à italiana, à inglesa.

0 chá e a cerveja dos ingleses se propagaram rapidamente entre

a fidalguia dos sobrados. Também as massas e o astéis dos

s Zaria das

italianos. 0 queijo flamengo ou suíço. A própria o

#

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo



341

casas-grandes, das iaiás solteironas dos sobrados, das freiras dos

conventos, dos negros de tabuleiro, foi desaparecendo, perdendo

o encanto até para os meninos. E os doces e os doceiros elegan-

tes tomando-se os franceses e os italianos, como indicam os

anúncios de jornais.

Denis escreveu em 1839 que os confeiteiros da moda no Rio




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