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científica da natureza. Essa curiosidade, esse gosto, essa alegria

nos foram comunicados nos fins do século XVIII, e atraves do

XIX, pelos Enciclopedistas e pelos revolucionários franceses e

anglo-americanos. Através do século XIX, também por mestres

franceses e ingleses que aqui estabeleceram colégios, para grande

indignação dos padres.

Esses mestres, como aqueles Enciclopedistas, fizeram ao bra-

sileiro um bocado de mal, comunicando-lhe um liberalismo falso;

mas fizeram-lhe também algum bem. Abriram-lhe nova zona de

sensibilidade e de cultura, refazendo um pouco da es ontaneidade

intelectual, em tantos pontos abafada, não tanto pefo Santo Ofi-

cio, como pelo ensino uniforinizador dos padres da Companhia.

Ensino uniforinizador útil, utilíssimo à integração social do Brasil,

como já foi acentuado em capítulo anterior; mas que nos r . etardou

e quase nos feriu de morte a inteligência, a capacidade de dife-

rencíação, de iniciativa, de crítica, de criação.

Nada mais amolecedor da inteligência que o ensino exclusivo

ou quase exclusivo do latim ou de qualquer língua morta. Foi o

ensino que se desenvolveu entre nós sob a influência dos co-

légios de padre.

À proporção que o ensino dos jesuítas foi criando pelas cidades

da colônia, elitezinhas de letrados, quase todos simples latinistas

untuosos, seráficos, de livro de missa no bolso-dos quais, entre-

tanto, se desgarraram alguns temperamentos agrestes como o de

Gregório de Matos-a leitura dos livros latinos tornou-se a única

leitura nobre e digna: Virgílio, Tito Lívio, Horácio, Ovídio.

Quem lesse Díana ou alguma novela ou romance em língua po-

ular tinha o olhar desconfiado do Santo Ofício e do Jesuíta

entro de casa. 0 único prazer intelectual dos bacharéis e mes-

tres em artes formados pelos jesuítas era ler e decorar os velhos

`P" I ~~.

1.1... Ala.`

#

;.J 1-i



- w~

SUBSTITUIÇAO DA CASA CHAMADA "COLONIAL" PELO CHALÉ ASSOBRADADO: FEN6-

MENO DE REEUROPEIZAÇÃO CARATERISTICO DO MEADO DO SÉCULO XIX NO BRASIL.

(Desenho de M. Bandeira segundo notas do autor.)

poetas latinos. Sabendo de cor trechos enormes dos autores clás-

sicos alguns rivalizavam com os Eadres no conhecimento da lín-

gua oficial da Igreja que, dando-1 e acesso a tão grandes riquezas

antigas, segregava-os da literatura viva, moderna, atual.

Também nos seminários fundados no Rio nos princípios do sé-

culo XVIII e no de Mariana e no de Olinda-estabelecimentos de

orientação pedagógica já diversa da dos jesuítas e até em anta-

gonismo com o ensino da S. J.-continuou-se a dar importância

uase exclusiva ao estudo do latim, embora no de Olinda cui-

à'ndo-se já do estudo das ciências e das letras vivas. Sistema-

tizado pelo Padre Pereira na sua gramática-o Novo Método-e

começando com a leitura das Fábulas de Fedro, o ensino do

latim ia até Ovídio e Horácio. Era uma disciplina severa; e teria

sido ótimo, se não fosse exclusivo. 0 aluno atravessava a fase

mais dura das declinações e dos verbos sob a vara de marmelo

e a palmatória do padre-mestre. Mas acabava não sabendo escre-

ver um bilhete, senão com palavras solenes e mortas; e evitando

as palavras vivas até na conversa.

#

318


GIILBERTo FRF.YRE

A retórica se estudava nos autores latinos-lendo Quintiliano

recitando Horácio, decorando as orações de Cícero. Lógica e Fi-

losofia, também: eram ainda os discursos de Cícero que consti-

tuíam os elementos incipais de estudo. A filosofia era a dos

oradores e a dos p es. Muita palavra e o tom sempre o dos

apologetas e corrompe a dignidade da análise e compromete

a honestidaTe da crítica. Daí a tendência para a oratOria que

ficou no brasileiro, perturbando-o tanto no esforço de pensar

como no de analisar as coisas, os fatos, as g~soas. Mesmo ocupan-

) I

do-se de assuntos que peçam a maior so riedaue verbal, a pre-



cisão, de preferência ao efeito literário, o tom de conversa em

vez do de discurso, a maior pureza possivel de objetividade, o

brasileiro insensivelmente levanta a voz e arredonda a frase corno

se estivesse prestando exame de retórica em colegio de padre.

Efeito do muito latim; da muita retórica de padre de que se im-

pregnou entre nós o ensino; de que se deixou marcar a formação

intejectual dos homens.

0 ensino do grego-que teria dado, talvez, outro ritmo ao estilo

dos nossos letrados e outra ~erspectiva intelectual aos estudos

dos bacharéis coloniais-não alcançou nunca, entre nós, a impor-

tância do ensino do latim. Os frades franciscanos que nos fins do

século XVIII estabeleceram no Rio de aneiro, erri virtude da

ordem régia de 1772, o primeiro arremeJó de universidade que

se esboçou no Brasil, incluíram o grego entre as novas cadeiras

de ensino superior. 0 grego e o liebraico. Mas a tentativa uni-

versítária dos bons frades de São Francisco não teve a ação

nem a eficácia ie prometera. Nunca foram os Franciscanos entre

nós senão unsToêmios da ação religiosa em contraste com os

jesuítas, sempre bem ordenados nos seus esforços. Data, entre-

tanto, do curso de estudos superiores fundado por eles Francis-

canos, o ensino oficial, entre nós, das línguas francesa e inglesa.8

Nessas línguas se sentiria ainda, e por muito tempo, o ranço

da heresia política ou religiosa, certo gosto de pecado intelectual;

mas mesmo assim foram elas revolucionando a vida das élites

brasileiras segregadas, até então, das novas correntes intelectuais,

pelo estudo quase exclusivo do latim. Pela monocultura intelectual

representada por esse estudo único. Através do estudo da língua

francesa-que aliás deixara, segundo pensam alguns, traços, po-

rém muito vagos, no português popular do Maranhão-começou

o contágio com aquelas doutrinas novas que, aprendidas, depois,

na própria França, por estudantes brasileiros de Medicina e de

Filosofia, animaram a Revolução Mineira-dirigida por bacharéis

afrancesados ou anglo-americanizados-e a Pernambucana, de

1817, esforço de padres que já não se contentavam corri a leitura

do latim: liam francês e até decifravam inglês. Luccock notou

#

SOPRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tmio



319

no Rio de janeiro, nos p'rjncípios do século XIX, a procura de

livros franceses;' os ingleses é que, segundo ele, continuavam

evitados, talvez por ser a língua considerada de hereges mais

ferigosos que os franceses. 0 mesmo horror parece ter cercado a

ingua dos flamengos quando ocuparam o Norte. A língua dos

flamengos e também a francesa e a inglesa que foram também

línguas faladas naquela parte do Brasil durante o domínio ho-

landês.

0 Recife do século XVII ouvira por trinta anos o ruído de



muitas línguas vivas, faladas nas ruas e dentro dos sobrados. Da

língua holandesa, porém, os filólogos não acham jeito de iden-

tificar na fala daqueles nortistas, senão uma ou outra recordação

como a palavra "brote". "Pichilinga" talvez seja outra recordação

dos dias de ocupação holandesa daquela parte do Brasil.

Entretanto, as crônicas neerlandesas deixam claramente ver

que se ensinou o holandês em escolas para os índios, dirigidas

por pastores e missionários Calvinistas. É verdade que algumas

atas de congregações indicam que os catecismos e livros de dou-

trina eram escritos não só em holandês como em português e

tu i, exigindo-se dos missionários o conhecimento da língua dos

íSos ou da portuVesa. E deve-se salientar que os proprios no-

mes de pessoa de olandeses que a u ficaram, casando-se com

ui

portuguesas, aportuguesaram-se ou Jesapareceram. A diferencia-



ção no sentido holandês díssolveu-se, em grande parte, dentro

da integração no sentido português. Mesmo assim, a influência

holandesa marcou, na parte do Brasil onde se exerceu mais im-

erial e profundamente, durante o século XVII, a europeização

o Brasil noutro sentido que não o português. Através de urna

série de infecções de cultura norte-européia, o Nordeste se dife-

renciou um tanto e para sempre, do grosso da colônia.

Vários traços dessa europeízação (noutro sentido que não por-

tuguês) persistiram na paisagem e no espírito do povo, depois

de reconquistado o Norte pelos portugueses Católicos. Dizemos

portugueses Católicos, porque durante o domínio holandês,

sob nomes liebraicos traduzidos em português-Isaacs, Jacobs,

Abraliões-e nomes de família impossíveis de serem distinguidos

dos portugueses-Campos, Cardoso, Castro, Delgado, Pinto, Fon-

seca-atuou entre nós, no sentido da diferenciação social e inte-

lectual dos colonos, poderosa corrente de cultura sefárdica: a de

judeus portugueses vindos de Amsterdã. Aliás, parece que já

encontraram aqui, principalmente na Bahia, praticando a medi-

cina, numerosos cristãos-novos; outros no comércio e até na in-

dústria do açúcar.

Se na Bahia desenvolveu-se o primeiro centro de cultura médica

no Brasil, é que na cidade de Salvador, já no século XVII, encon-

#

320


GYL13ERTo FREY11E

travam-se à sombra das igrejas cheias de Nossas Senhoras ma-

ternalmente gordas e de santos triunfantes, marranos peritos na

ciência de tratar dos doentes e que receitavam carne de porco

para que nenhum volutuoso da delação desconfiasse deles. A

edicina foi sempre uma especialização muito

dos sefardins; seu

meio de cOrnpetir com os padres confessores e os capelães na

influência sobre as grandes famíliw dos países Cristãos e a gente

poderosa dos governos. Foram decerto eles que a trouxeram para

o Brasil, nas suas formas mais adiantadas, e a desenvolveram na

Bahia e no Recife. Do Recife sairia Velozino, um dos maiores

médicos judeus do século XVII.10

0 Recife judaico-holandês tornou-se o maior centro de diferen-

ciação intelectual na colônia, que o esforço Católico no sentido

da integração procurava

às novas línguas. Com o

conservar estranha às novas ciências e

Conde Maurício de Nassau levantou-se

do meio dos cajueiros o primeiro observatório astronômico da

1 o

America; um jardim botânico e outro zool'gico surgiram dentre



os mangues; apareceram Piso e Marcgraf-os primeiros olhos de

cientistas a estudarem sistematicamente os indígenas, as árvores,

os bichos do Brasil; pastores da religião de Calvino pregando

novas formas de Cristianismo; Franz Post e Zacarias Wagner pin-

tando casas de engenho, palhoças de índios, mucambos de pretos,

cajueiros à beira dos rios, negras com trouxas de roupa suja à

cabeça, figuras de índios, de mestiços, de negras; Peter Post tra-

çando os pianos de uma grande cidade de sobrados altos e de

canais profundos por onde se pudesse passear de canoa como

na Holanda. Luxo e não apenas riqueza de diferenciação inte-

lectual, artística científica, religiosa. A exclusividade portuguesa

e Católica esta~a quebrada em Pernambuco: exclusividade de

ar itetura de religião, de estilos de vida. Por algum tempo, a

p ria exilusividade de língua.

Nesse Recife que se diferenciou tanto das outras cidades da

colônia pelo seu gênero de vida e pela sua população desigual

de neerlandeses, franceses, alemães, judeus, católicos, protestantes,

negros e caboclos, não só se falaram, por trinta anos, quase todas

as línguas vivas da Europa e várias da África, como estudou-se

e escreveu-se nas sinagogas um liebreu diverso do manchado e

gasto pela boca dos Ashkenazic: o velho e aristocrático hebreu

guardado em toda a sua pureza pelos rabinos de barba preta e

olhos tristes que a Congregação de Amsterdã mandara para Per-

nambuco. Nas cozinhas dos sobrados, corri a liberdade que Nassau

#

deu aos judeus, cozinhou-se, decerto, muito quitute israelita e é



possível que dos liebreus nos tenha vindo o hábito da feijoada

dormida, isto é, do alimento preparado de véspera e corno que

encoberto, guardado, dormido; nos quintais, debaixo dos cajuei-

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

321

ros, criaram-se carneiros e engordaram-se galinhas para serem



sacrificadas e preparadas, segundo o rito de Moisés, e comidas

nos dias de preceito, com o pão da Páscoa e as ervas picantes.

E nos fundos das lojas, e até em público, adorou-se o Deus de

Israel; praticou-se o judaísmo. E é possível que até a Cabala,

tão do gosto dos sefardins de imaginação mais ardente.

Circuncidaram-se meninos, Recitaram-se, nem sempre em voz

baixa nem de medo, piyyutirn saudosos. Talvez à mesma hora

em que dentro das igrejas papistas e até na rua, em procissões

que saíam com licença do Conde, se entoassem louvores em latim

à Virgem Maria e ao Menino Jesus; e nas capelas dos Refor-

mados, os crentes cantassem em holandês, francês ou inglês, hinos

Nlorificando outro Deus: o de São Paulo e de Calvino. Enquanto

os matos mais próximos, dos mucambos dos mangues, chegava

até às igre as e às sinagogas de pedra e cal, a assuada de alguma

santidadej' de índios ou o alarido de bandos de negros de Xangô

ou Santa Bárbara adorada à africana; loas pedindo ao céu mil o

ue desse para encher as cuias; outras encomendando aos santos

ZIgum defunto; as mais atrevidas, chamando Exu.

No meio dos mangues, em lugares esquisitos e ermos, talvez

já no trecho do istmo ligando Olinda ao Recife, onde depois se

assassinou um estudante, se fuzilou um soldado e uma negra-

conta a tradição que de toutiço gordo- desapareceu uma noite

de escuro, uns dizem que engolida pela lama, outros afirmam

que levada por Exu; no meio dos mangues e dos ermos, perto das

praias, onde se enterrava negro pagão, é ue as formas mais

atrasadas de religião floresciam. Nos dias 1 domingo, porém,

sua algazarra parece que era enorme. Bandos afoitos vinham

cantar e dançar nos oitões das igrejas e sobrados. Contra tais

excessos reclamou mais de uma vez a Assembléia dos Refor-

mados do Recife. Contra os excessos dos negros, dos Papistas

e dos judeus. Os Reformados queriam que dia de domingo, so-

mente a voz deles louvasse o Senhor. Que era uma profanação do

grande dia de Deus a maneira escandalosa por que os Papistas

e os outros praticavam seus cultos. Que os cantos e os pinotes

dos negros provocavam a cólera divina. Que tanta assuada de

rua perturbava o serviço religioso nas igrejas do Deus verdadeiro

(que era sem nenhuma dúvida o deles: Reformados holandeses

ou nórdicos).

Sente-se, entretanto, através das queixas inúteis dos ranzirizas

nas assembléias religiosas que o governo holandês, pelo menos

no tempo de Nassau, teve quase sempre ouvidos de mercador para

#

esses incitamentos ao ódio teológico. Que deixou Papistas, judeus,



e até negros abusar da liberdade que lhes era concedida. Foi

abusando dessa liberdade, que as parteiras da terra deram para

i,

#

322 GrLBERTo FRE:YRE



batizar os meninos dos Protestantes segundo o rito Católico; os

judeus, para se reunirem publicamente no mercado e até ri Sara

seduzirem cristãos para o judaísmo, os mais afoitos chega o a

circuncidar filhos de cristãos. Em Serinhaérn, uns Protestantes re-

crisando-w a ajoelhar-se diante dos santos de andor, na ocasiao

em que descia pela rua uma procissão do Rosário, não somente

foram insultados pelos Papistas mas até levaram pancada. E quase

todos os senhores de engenho holandeses não só caíram na prática

portuguesa de começar a moer os engenhos dia de domingo,

como alguns na de mandar benzer os engenhos pelos padres;

enquanto nas cidades, muito Calvinista .,'o; adotando o costume

da terra de fazer o sinal-da-cruz ao toque dos sinos.11 0 cristia-

nismo lírico e mais poeticamente misturado à vida e ao trabalho

foi vencendo o prosaicamente puritano dos Re-

dos homens

formados. im, uma época de interpenetração

0 domínio holandês foi, asssigiram enormemente

de influências diversas: conquistadores tran eriência

com os povos conquistados. Mas estes ficaram com a exp

do tempo dos flamengos a agir sobre a sua vida no sentido

ecurriênico; nunca mais seria perfeita sua acomodação ao império

português na América. Não seria absoluta sua reintegração social

no complexo lusitano.

No sentido da diferenciaçao agiu de modo particular sobre o

Norte do Brasil a influência da cultura sefárdica e do comércio

judeu, sempre tão cosmopolita nas relações que cria e estabele~e.

0 mesmo comércio cosmopolita foi depois agir sobre zona pro-

fundamente mediterrânea como a de Minas que, no século XV111

e nos princípios do XIX, se apresentaria, de repente, tão cheia

de relações com a Europa. 0 que diminui um pouco a força do

determinismo estaticamente geográfico para acentuar o prestígio

do fator dinamicamente cultural-ou, antes, dos fatores culturais-

no condicionamento das sociedades.

0 e a pura oceanidade não fez com territórios mais fáceis

de so rerem a influência européia (certas zonas levantinas da

colônia cedo se apresentando com os caraterísticos de segregação

ou de estagnação social, que geralmente, se associam às zonas

mediterrâneas, isto é, centrais~ fez com Minas Gerais a variedade

de cortatos de cultura, criados pelo desenvolvimento da indústria

dos diamantes. Ao contrário da indústria do ouro, a dos diamantes

e das pedras preciosas, pela sua própria natureza econômica, pela

técnica do seu comércio, não se deixou prender pela segregaçao

da metrópole sobre o produto colonial. Foi procurar os mercados

Pprios, que eram principalm ente os da Holanda, sob o con-

2 da técnica e __ f' - ~. dos judeus. Daí as relações comer-

tró, da irtançe

~ ,- a Vimona iião-ibéríca12

ciais de Mi~ - - --- . --- - 1 -relações a que se

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d1*4 ULLA

SOBRADO DE RESIDÊNCIA SENHORIL URBANA, JÁ REEURO-

PEIZADA, DO RECIFE (SEGUNDA METADE DO SÊCULO XIX).

(Desenho de M. Bandeira.)

juntaram as intelectuais e Políticas no sentido liberal; e também

as técnicas, as de estilos de vida, que se deixariam surpreender

no maior uso do vidro nas suas casas-grandes e sobrados-neste

ponto superiores aos dos 1-*-oral, durante o século XVIII. 0 luxo

Á,

do vidro na Minas cio século XVI11 significa-corno já sugerimos-



verdadeiras audácias de transporte, através de caminhos horri-

velmente maus e perigosos. Grandes despesas, também. 0 luxo

de vidro, como o de outros artigos finos importados da Europa

para as casas dos mineiros ricos. As camas com cortinas-e não

redes ou catres-o traio dos homens e até das mulheres, as idéias

e as leituras dos indivíduos mais instmidos mostram como aquela

sociedade, tão segregada da Europa pela distância e pela-, mon-

tanhas, ganhou às levantinas, às da beira-mar, às talássicas, às

mais próximas da Europa, em qualidades e estilos urbanos, civis

e polidos de vida.

N,~o se alegue o simples fato da nqueza das Minas e dos mi-

neiros, nara exp 1 licar todo esse seu esplendor de vida e de idéias

no século XVIKI. '~á nos refer,ii-rio~ àqueles ricaços de Campo dos

Coitacases nue c'Príreirie 1,laxími`;'

-e_no conheceu nos principios

do século X ' '1~ ~~?( )brem,~Iit erri casebres de barro. Quase

em nn-ajam,~)os, --:Lde ordem intelectual, ou de

#

324 GILBERTO FRE= SOBRADOS E MUCAMI3OS - 1.' Tomo 325



natureza psicológica, que completasse o estímulo econômico. A

casa nobre, o sobrado, o luxo de roupa, de móvel, de cavalo, de

carruagem, o requinte da moda, nem sempre corresponderam, no

Brasil, à situação puramente econômica dos moradores. As regiões

ue mais se europeizaram nem sempre foram as mais ricas. 0

eterminismo econômico falha, sozinho, na interpretação de longa

série de processos sociais, do mesmo modo que o determinisiric

geográfico, quando pretende, isolado e puro, explicar fatos tão

complexos e dinâmicos como os humanos. 0 que se vê na história

social da família brasileira, desde o século XVI tão desigual nos

seus tipos e nos seus momentos de cultura e tão cheia de altos

e baixos nos seus estilos de habitação e de trajo e na sua técnica

de transporte-élítes de vida européia, vizinhas de tabas, o se-

culo XYIII português, vizinho do século XIX francês ou inglês-é

uma grande variedade nos contatos de cultura da população pa-

triarcal com a Europa, desde o século XVII, já burguesa. Essa

variedade, quase sempre, pelo estímulo-raramente pela impo-

sição ou determinação-de condições economicas ou de facilidades

geográficas. Mas às vezes, como no caso de Minas, o fator cul-

~61ral vencendo a dificuldade geográfica. Superando-a. Outras

vêzes, como no caso dos ricaços de Goitacases, a segregação

social-por motivo ainda a esclarecer: psicológico talvez-criando

um gênero de vida que, por imposição do puro elemento econô-

mico, devia,ser outro.13

A segregação social esteriliza o homem ou o grupo humano e

leva-o ao retardamento nos estilos da vida, como os estudiosos

das culturas isoladas estão fartos de indicar. No caso brasileiro,

não se suponha que a degradação da cultura atrasada, que aqui

se verificou ao contato da adiantada, desminta o fato da chamada

cross-fertilization. Apenas deve-se notar que a reciprocidade

nunca se verifica com inteiro sucesso entre culturas, não diremos

radicalmente diversas, mas desiguais nos seus recursos técnicos

* militares. A conquistada nem sempre dispõe de meios de evitar

* desprestígio moral de elementos, na aparência decorativos ou

exteriores, mas na realidade fundamentais da sua vida e da sua

economia. Elementos atingidos pela ciência-principalmente a mé-

dica-pela religião e pela ética do imperialismo, ansioso-repita-Se-

or motivos econômicos, não de diversidade regional, mas da estan-

ardização da vida por toda parte e em todos os climas; sôfreSa

de mercados mais largos para a sua indústria-a de materiais e

construção, a de móveis, a de roupa, a de produtos farmacêuticos,

a de alimentos em lata ou conserva, a de artigos de decoração pes-

soal e da casa. A nudez dos primitivos ou a diferença de trajo e

a de calçado entre os civilizados-o pé deformado e o rabicho nos

:~,nineses de outrora, por exemplo-são diferenças moralmente re-

pugnantes aos europeus imperialistas. Mas sobre essa repugnância




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