Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página51/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   47   48   49   50   51   52   53   54   ...   110

para adotar as maneiras, os estilos e o trem de vida da nova

camada de europeus e foram se estabelecendo nas nossas ci-

dades. Desde as dentalras postiças ao uso-até o contato maior

com os ingleses quase insignificante-do pão e da cerveja.

Em três séculos de relativa segregaçao do Brasil da Europa

nao-íbérica e, em certas regiões, de profunda especialização eco-

nÔmica e de intensa endogamia-em São Paulo, na Bahia, em Per-

nambuco-definira-se ou, pelo menos, esboçara-se um tipo bra-

sileiro de homem, outro de mulher. Um tipo de senhor, outro de

escravo. Mas também um meio-termo: o mulato que vinha aos

poucos desabrochando em bacharel, em padre, em doutor, o di-

lorna acadêmico ou o título de capitão de milícias servindo-lhe

~e carta de branquidade. A meia-raça a fazer de classe média,

tão débil dentro do nosso sistema patriarcal.

308

SOBRADOS E MUCAMMOS - 1.0 Tomo



I

11

1.09



Definira-se igualmente uma paisagem social com muita coisa

1

1



de asiático, de mourisco, de a ricano: os elementos nativos de-

#

formados num sentido francamente oriental e não puramente por-



tuguês; a casa com os bicos do telhado vermelho em forma de

asa de pombo lembrando as da Ásia; lembrando também as do

Levante com seus abalcoados salientes, suas janelas recortadas

em losangozinhos miUdos; os meios de condução da gente mais

opulenta-os palanquins e os bangü^-s-os da Ásia; o ideal de

mulher gorda e bonita, peitos grandes, nádegas opulentas de

carne-o dos mouros; o jeito das senhoras se sentarem de pernas

cruzadas, pelos tapetes e pelas esteiras, em casa e até nas igre-

jas-ainda o das mulheres mouras; mouro o costume delas taparem

o rosto quase todo, só deixando de fora os olhos, ao sairem de

casa para a i reja; mouro o gosto do azulejo na frente das casas

ou dos Jos, no rodapé aos corredores, nas fontes, nos chafa-

rizes; porcelana de mesa, a da India e de Macau; as colchas dos

ricos, também do Oriente; asiáticos e africanos muitos temperos,

muitos adubos, muitas plantas e até processos inteiros de pre-

parar comida como o do cuscuz; asiáticas e africanas muitas das

árvores de fruto em volta das casas-o coqueiro da India, a man-

gueira, a frutaTão, o dendezeiro, a ameleira; asiático ou afri-

c

c

cano, o gosto os lordes p - w Xes chapéus-de-sol com que



atravessavam as ruas. Quase que tinham sido transplantados

para cá pedaços inteiros e vivos, e não somente estilhaços ou

restos, dessas civilizações extra-européias; e utilizado o elemento

indígena apenas como o rude humano que ligasse à terra todas

aquelas importações da Ifrica e da Ásia, e não apenas as eu-

A colónia portuguesa da América adWurira qualidades e con-

e ~

dições de vida tão exóticas-c - e vista europeu-que o



século XIX, renovando o contatol do Brasil com a Europa-que

agora já era outra: industrial, comercial, mecânica, a burguesia

triunfante~teve para o nosso Pais o caráter de uma reeuropeizaçao.

Em certo sentido, o de uma reconquista. Ou de uma renascença-

tal como a que se processou na Europa impregnada de medie-

valismo, com relação à antiga cultura greco-romana. Apenas nou-

tros termos e em ponto menor.

No Brasil dos princípios do século XIX e fins do XVIII, a

reeuropeização se verificou (perdoe o leitor os muitos mas ine-

vitáveis "ão") pela assimilação, da parte de raros, pela imitação

(no sentido sociológico, primeiro fixado por Tarde), da parte do

maior numero; e também por coação ou coerção, os ingleses, por

exemplo, impondo à colônia portuguesa da América-através do

Tratado de Methuen, quase colônia deles, Portu al só fazendo

reinar politicamente sobre o Brasil-e mais targe ao Império,

#

310 GILBERTO FREYRE i SOBRADOS E MUCAMMOS - 1.' Tomo311



~,,,S-J- ~

uma serie de atitudes morais e de padrões de vida que, espon-

taneamente, não teriam sido adotados elos brasileiros. Pelo menos

com a rapidez com que foram seguiãos pelas minorias decisivas

nessas transformações sociais.

A reconquista, porém, teve de seguir suas cautelas. De tomar

suas precauções. Porque houve resistências, de ordem natural,

umas, outras de ordem cultural. 0 clima, por exemplo, resistiu

ao nórdico. E sob o favor do clima, a malária e a febre amarela

agiram contra o europeu. À sombra das condiçoes precarias de

higiene, agiram contra ele a peste bubônica, a sífilis, a bexiga,

o bicho-de-pé. Elementos, todos esses, de resistência antieuropeia;

alguns de origem terrivelmente asiática ou africana. Operaram eles

no sentido de moderar a reeuropeização do Brasil e de conservar

o mais 1, no País, os traços e as cores extra- européias, avi-

vadas = séculos profundos de segregação.

Houve mesmo nativistas que se regozijaram com a ação vio-

lentamente antietiropéia da febre amarela. Febre terrível que,

oupando o nativo, não perdoava o estrangeiro. Principalmente o

ouro, de olhos azuis, sardas pelo rosto.

Mas o estrangeiro louro insistiu em firmar-se em terra tão sua

inimiga com um heroísmo que ainda não foi celebrado. Só vísi-

tando hoje alguns dos velhos cemitérios protestantes no Brasil-o

do Recife ou o de Salvador ou o do Rio de janeiro-que datam

dosXnncípios do século XIX, e vendo quanta vítima da febre

apo rece por esses chãos úmidos e cheios de tapuru, debaixo de

Salmeiras gordas, tropicalmente triunfantes sobre o invasor nór-

ico, faz alguém idéia exata da tenacidade com que o inglês, para

conquistar o mercado brasileiro e firmar nova zona de influência

para o seu imperialismo, se expôs a morrer de febre tão má nesta

parte dos trópicos. As inscrições se sucedem numa monotonia

melanc6lica: "James Adcock-architect of civil engineer who after

nearly three years of residence died here of yellow fever in the

39th year of his age", "in memory of Robert Short-fifth son of

lVill0m Short of Ilarrogate-died of yellow fever-aged 19 years"I

"in loving memory of my beloved husband Erneq Renge Williams

tcho died of yellow fever-aged 26, . ."

Em Salvador o imediato do Whitecloud foi um dos mortos de

febre arriarela, em IS49, aos 32 ano,~ dn barco Dorcas faleceram

também de febre amarela, no irresmo aim, 5 homens; o Hope-,rell

perdeu 4 jovens; o Wanderer, outros 4; Alex Frazer, emprerado

numa casa de comércio, faleceu aos 42 anos; J. Williamson,' mi-

nistro qnglicano, aos 26. Dezemas de técnicos foram vffirnas da

febre , XV. 11. (11apnIali siácidou-se.12

(:~n,i vCv. inici,~;la a ree(implista do ~!w~àI~1,mf

Europa pelo quase-europeu dos Estados Unidos da América do

Norte. Os mártires louros é que venceram-em parte, pelo menos

#

-a batalha entre os nórdicos e o trópico, travada no Brasil. A



febre amarela é que terminou vencida. E essa reconquista alterou

a paisagem brasileira em todos os seus valores. Reeuropeizou-a

ou europeizou-a quanto pôde.

A reeuropeização do Brasil começou fazendo empalidecer em

nossa vida o elemento asiático, o africano ou o indígena, cujo

vistoso de cor se tornara evidente na paisagem, no trajo e nos

usos dos homens. Na cor das casas. Na cor dos sobrados que

eram quase sempre vermelhos, sangue-de-boi; outros, roxos, e

verdes; vários, amarelos; muitos de azulejas. Na cor dos palan-

quins-quase sempre dourados e vermelhos-e dos tapetes que

cobriam as serpentinas e as redes de transporte. Na cor das cor-

tinas dos bangüês e das liteiras. Na cor dos xales das mulheres

e dos onchos dos homens; dos vestidos e das roupas; dos chi-

nelos Xe trançado feitos em casa; das fitas que os homens usavam

nos chapéus; dos coletes que ostentavam, opulentos de ramagens;

dos chambres de chita que vestiam em casa, por cima do corpo

só de ceroulas; das flores que as moças espetavam no cabelo. Na

cor dos interiores de igreja-os roxos, os dourados, os encarnados

vivos (em Minas, chegou a haver igreja com enfeites franca-

mente orientais); das redes de plumas; dos pratos da India e da

China; das colchas encarnadas e amarelas das camas de casal.

Na cor dos móveis que, mesmo de jacarandá, eram pintados de

vermelho ou de branco.

Tudo isso que dava um tom tão oriental à nossa vida dos dias

comuns foi empalidecendo ao contato com a nova Europa; foi se

acinzentando; foi se tomando excepcional-cor dos dias feriados,

dos dias de festa, dos dias de procissão, carnaval, parada militar.

A nova Europa impôs a um Brasil ainda liricamente rural, que

cozinhava e trabalhava com lenha, o preto, o pardo, o cinzento, o

azul-escuro de sua civilização carbonífera. As cores do ferro e

do carvão; o preto e o cinzento das civilizações "paleotécnicas"

de que fala o Professor Muinford; o preto e o cinzento dos fogões

de ferro, das cartolas, das botinas, das carruagens do século XIX

europeu. Talvez "coloração protetora", insinua o sociólogo riorte-

-americano para explicar esse excesso de preto das coisas e do

vestuário, da Europa burguesa e principalmente da Vitoriana.

Ou o efeito de "uma depressão dos sentidos" sob o industrialismo

capitalista? 0 certo é que esse cinzento nos atingiu com uma

rapidez espantosa de efeitos: antes mesmo do carvão e do ferro

nos substituírem, nas zonas A- econom`a rnais adiantada, a veilia

U- -

lenha de alimentar as f,3me- das casas e das fábricas, a boa ma-



#

312 GMBERTo FREYRE SOBRADOS E MucAmBos - 1.0 Tomo 313

deira de construir os sobrados, o pau de lei das engrenagens dos

engenhos de cana, dos tornos, das prensas de espremer mandioca.

A sobrecasaca preta, as botinas pretas, as cartolas pretas, as

carruagens pretas enegreceram nossa vida quase de repente; fize-

b

ram do vestuário, nas cidades do Império, quase um luto fechado.



Esse período de europeização da nossa paisagem pelo preto e

pelo cinzento-cores civilizadas, urbanas, burguesas, em oposição

às rústicas, às orientais, às africanas, às plebéias-começou com

Dom João VI; mas acentuou-se com Dom Pedro 11. 0 segundo

imperador do Brasil, ainda meninote de quinze anos, já vestia

e pensava como velho; aos vinte e poucos era o monarca "mais

triste do mundo", na opinião de um viajante europeu. Parece que

só se sentia bem dentro de seu croisé e de sua cartola preta; e

rnal, ridículo, desajeitado, sob o papo de tucano, o manto de

rei, a coroa de imperador. Só se sentia bem-vestido à européia;

e de acordo com a civilização nova da Europa: a industrial, a

inglesa, a francesa, a cinzenta, a que acabaria pedindo pela boca

de Verlaine-uma de suas vítimas, aliás-"las de couleur; rien

que la nuance". Com a civilização gótica e a militar, com a Cató-

lica e eclesiástica, as afinidades de Dom Pedro II eram vagas.

Não gostava nem de montar a cavalo: era o tipo do europeu de

cidade.

Esse imperador de sobrecasaca. que foi uma das primeiras pes-



soas no mundo a falarem de telefone naquela sua voz fina, quase

de mulher, ridicularizada pelos Republicanos, tornou-se um mo-

delo para as gerações novas do Brasil: uma propaganda viva

das modas recentes da Europa num pais que se distanciara das

coisas européias pela segregação de três, séculos, pelos contatos

com o Onente e a África, pelo seu patríarcalismo rural um tanto

agreste, pelo desenvolvimento de estilos de vida adaptados ao

clima-o 'copiar das casas de engenho e de sítio, a roupa leve

dentro de casa, o chinelo sem meia. Estilos de acordo com as

condições regionais de clima e talvez as, físicas e fisíologicas,

de raça: gente, na sua grande maioria, morena, escura e até ne-

gróide. Porque no tocante ao gosto das cores há quem suponha

haver nos indivíduos de pele escura uma como predisposição, por

influência da maior pigmentação da retina, para o encarnado;

os indivíduos louros seriam, por outro lado, mais sensiveís ao

azul e, naturalmente, ao cinzento. Rivers chegou a realizar pes-

quisas neste sentido cujos resultados, não podendo ser aceitos

como definitivos, não deixam de ser ricos de sugestões.

Não é por simples retórica que dizemos que o preto das rou-

pas, das máquinas, dos sapatos, das carruagens, dos chapéus,

trouxe para o Brasil uni ar de luto fechado. Tudo indica que a

niortalidade entre nô,~ subiu con) essas primeiras e largas man-

chas de reeuropeização da nossa vida e dos nossos hábitos. A

tuberculose tornou-se alarmante. Os homens de croisé preto, de

#

cartola preta, de botinas pretas tinham sempre algum enterro a



acompannar nas suas carruagens também pretas e tristonhas.

Em 1849 levantou-se uma voz de médico dando o sinal de

alarme diante do aumento da tuberculose no Império. Enume-

rando as causas do desenvolvimento espantoso que a tísica estava

tomando no Brasil de Pedro II, esse médico, que era o Dr. Joa-

quim de Aquino Fonseca, salientava, entre as mais importantes,

as relações mais próximas do Império com a Europa. Essas rela-

ções haviam modificado notavelmente os hábitos de alimentação,

trazendo "grande variedade de abuSOS";3 e também os hábitos

da gente brasileira de cidade vestir-se. Hábitos-repita-se-que ha-

viam se alterado no sentido de uma imitação mais passiva de

trajos de climas frios e de civilizações parda e cinzentamente

carboniferas. No sentido da substituição das cores vivas pelo

preto solene e pelo cinzento chíc-problema não apenas de esté-

tica mas de higiene, pelo menos mental, criado pela repressão

de um gosto de base possivelmente fisiologica, e certamente, tra-

p

dicional. No sentido de novas espessuras de ) nos: o uso, sob um



sol como o nosso, de vestuários de panos grossos, felpudos, quen-

tíssimos, fabricados ara paísès de temperatura baixa, mas que

estava no interesse So novo industrialismo europeu sobre base

capitalista, e portanto estandardizador e uniformizador dos cos-

tumes e trajos, estender às populações tropicais. Ãnsia de mercado.

Fome de mercado. "Imperialismo colonialista", diria um marxista

ortodoxo.

A parte estritamente médica das palavras do Dr. Aquino Fon-

seca-que, aliás, estudara Medicina na França-tem o pitoresco

das terminologias arcaicas; mas não lhe falta sua nota de bom

senso. "Outrora os vestuarios"-dizia o Dr. Aquino-.eram. ligeiros

e feitos com amplidão; e isto estava inteiramente em harmoffia

com o clima quente da cidade, e facilitava não só os movimentos

respiratorios, e por consequencia a hernatose, como vedava que se

estabelecesse a transpiração, evitando por este modo que qualquer

viração, tão frequente aqui, désse causa a sua suppressão, donde

resultam males incontestaveis; mas as modas francezas, trazendo

a necessidade do arrocho, para que se possam corrigir as formas

irregulares de certos individuos ou fazer sobresaffir as regulares,

embaraçam o jogo respiratorio das costellas e diapliragnia, e in-

fluem sobre a hernatose; e os pannos espessos de lan, reduzindo

os vestuarios a verdadeiras estufas, tornam os homens sempre

dispostos a contrahir affecções do systema respiratorio, ela sup-

pressão da transpiração, que por muitas vezes e com 7acilidade

tem logar ."4 Daí, ao seu ver, o aumento alarmante da tuberculose

#

GRANDE SORTIMENTO



DE

Roupas feitas e fazeudas

NA RUA DO QUEIMADo N. 46-

LUL


19

~2,


ÇZ à â`

Nk

ã~



GOES oú BAST0*

]Paletotos de cisemira de cores, meros

pelo diminuto prevo de JOS, ditos de dito

sobre casaco a 3 1 ditos de, case-

mira preta fort 2

a a 185, ditos Ao-

brecameo de panno preto maito fino COM

golla de refludo a 22$, ditc,s de panno

pr~to sacro a 10Ó, calca da melhor caso- . R~- 1= :;9

mira de cores a 6S, ditas mús 111184 que ~Rei; ,0 c

o n, x# ro-- - V e

admira a'$, ditas PretWA e

ows q i ia 'es g e

ocolletes (fe divlidades e todas

8.1 corom de 3S a.5~, calcas de brim de li-

~ iam.,


nho de cores a Sic 35500, paletoN de, ai- * 1* -

~ à. 9


aca pretos e de exes a 4,~, ditos do laft a Gw í; -7

a

0, ditos de seda e- cores a 9#, rimg man- CC



ta para çravaia 4 18,500, flivas de Jouvin 95---2~, J2

preta e (le cores (AntO para liomem como '=.

para senhora a cernulaR de bra- ~ 11, z w -

mente a 10600 1 e ~outra-s muitas fazenda3 e

obra,s feitas quesoo com à vista he que o

fregupz pode avaliar o que he vender ba-

rato.

itiotica fr^lacoeza e drogaria de Ro U-



quayroi Froêrca, euccieneures de A.

Gagra


N" cetabalecimente fundado desde 1821 ou-

oçontra-se os productos chimio^ drogas, tintas:

oleos, pinccis, vernizes das melhoras maroas,

todas ia especial idades pharinaosusiona doa legi-

#

timoe autores, em variado sortimento de fandam



o aguas raineraca, os granulo@ docimeirícos de

Barg-grav* o produoWs esp~ da Flora Bra-

silo@Íria.

22--Rua da Orna, Recife.

.1 Í

à Z).É L.M ie .



À (Ko-J~M o

-9 o 11


1c29 a .

- - -2 U. lZE a

's : 2 a . - =. 8 @a

Í- R E, 2- r>

.. 0, -V" -

.Z--se - .1

3 o 2 - :0

S. W8,2 Á30,

4). o = B C

vs - 4 W,

2a119

X o 1 Lu t: Q f



0,5 Am o 2

o .3) â o 2;xw w

-0 ci (LI8,0

a 11 11 e U 0) *X

4) 92. Q #à

M ci 00 L) - c, >.

Ro-

.0 cá. i_



w o "

Fw ÕS -1,~o' -.,i

ro

^ o 0 92. 51



,V. e

(MOS


1 a) Z-0 E r

Festa de Nossa Serilior

Conceição na igreja ule

Pantaleão no Monteiro.

No gabbado 19 do corrente as 9 horas da noilé ao

Jevantará a bandeira da mã-i de Deos, que será, ç3r

1 coro de meninas e percorrenão o

uzi"' um


costume icompan~

#

ote iim4 ãi~5 L



P - g, , e .'dor _!e

lhores musicas minteres será collocadt, so resp-e-ti-

vo Tugar, subindo ao ar dous balà-~s de goste espé

cial; no dia seguinte haveà um., p~m resia

Te-Deum. e ~ de esperar çue.as .--jsicao f~1Çlin rea

car a festa com novas = -&r aess ' -~

te-Deum haveráum á_ní-

por um dos bons ariÍstes.

AN-éNCIOS DE J0BN,~IS

a estilos de cmivr-èm,:ç.

principais área- do Pais

a 2 ià,


4

à*



k ' CZ

ala


é

~ â. 7.


9, v

rerativos

--- cí,i então

. 1 i,-


Grande

1 ~ (me VU.

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

315


coincidir com 0 Período de reeuropeização ou eurcopeização dos

hábitos de comer e de vestir: ou com as modas francesas e

inglesas de roupa a que se refere quase furioso.

No século XVIII-que foi, talvez, quanto aos costumes, o mais

autônomo, o mais agreste, o mais brasileiro na história social do

Pais-Vilhena rebatera as críticas de alguns viaja,~tes euro~peus,

com relação ao trajo solto, à vontade, charnado a fresca , dos

brasileiros, quando na intimidade de suas casas. Mostrara que

esse relaxamento, tão repugnante para quem vinha de climas

mais frios, correspondia às condições de clima tropical da co-

lonia.1 Luccock, crítico tão severo das nossas maneiras nos úliri-

mos tempos de vida propriamente colonial, associou o fato de

as crianças andarem em casa nuas, algumas só de roupa de baixo-

.nothíng but under linen garment" os antigos sunga-nenens-ao

#

clima quente, inimigo das roupas de pano grosso.6



Mas com a reetiropeização do País, as próprias crianças torna-

ram-se martirezinhos das modas européias de vestuário. Os ma.o-

res mártires-talvez se possa dizer. As meninas, sobretudo. Os

figurinos dos meados do século XIX vêm cheios de modelos de

vestidos para meninas de cinco, sete, nove anos, ue eram quase

camisinhas-de-força feitas de seda, de tafetá ou 1 "poil de chè-

vre". Meninas de cinco anos que já tinham de usar duas, três

saias por cima das calçolas, as de baixo bordadas com "ponto

de ~ Spinhos ~' e guarnecidas com franja Tom-Pouce. Ou então

S g


saia parnecidas com três ordens de fofos. E não só excesso

de saias: gorra de veludo preto. Botinas de pelica preta até o

alto da perna. Penas de perdiz enfeitando a gorra.

Em vão clamavam os Aquino Fonseca, os Correia de Azevedo,

anos mais tarde, os Torres Homem. Correia de Azevedo dizendo

que no caso do menino brasileiro, o vestuário devia "apenas res-

guardar-lhe o corpo das variedades da temperatura". Que as crian-

ças, num país tropical, não podiam nem deviam "Ser criadas nem

à in2,:-:sa, nem à alemã, nem à r-ussa".7 OS pais brasileiros, prin-

cipaímente nas cidades, não queriam saber dessas advertências

de médicos esquisitos. Vestiam seus filhos ortodoxamente à curo-

ela. Os coitados que sofressem de brotoejas pelo corpo, assa-

uras entre as pernas. A questão é que parecessem inglesinhos

e francesinhos.

Mas não foi só o vestuário da criança: a educação toda reeuro-

S,

peizou-se, ao contato maior da colôniQ- e, mais tarde, do Império,



com as idéias as modas inglesas e francesas. E aqui se observe

um contraste: contato corri as modas inglesas e francesas operou,

Prípc;,nalmen,':-, ro sentido de nos artificializar 2. vida, de nos

nara; )-, senikics e de nos tirar d,,,s olhos o goste. nas enisas

--,,s -_~ ConItato con-i a,- Licia,, w

#

316



GH.BER-ro FREYRE

trouxe, em muitos pontos, noções mais exatas do mundo e da

própria natureza tropical. Uma espontaneidade que a educaç,~o

portuguesa e clerical fizera secar no brasileiro.

A monocultura, devastando a paisagem física, em torno das

casas, o ensino de colégio de padre jesuíta devastando a paisagem

intelectual em torno dos homens, para só deixar crescer no indi-

víduo idéias ortodoxamente Catolicas, que para os jesuítas eram

só as Jesuíticas, quebrara no brasileiro, principalmente no da

classe educada, não só as relações líricas entre o homem e a natu-

reza-rotura cujos efeitos ainda hoje se notam em nossa igno-

rância dos nomes de plantas e animais que nos cercam e na indi-

ferença pelos seus hábitos ou pelas suas particularidades-como

a curiosidade de saber, a ânsia e o gosto de conhecer, a alegria

das aventuras de inteligência, de sensibilidade e de exploração




1   ...   47   48   49   50   51   52   53   54   ...   110


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal