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indivíduo desejoso de bebida fria ou fresca que fosse à sorveteria

da cidade. Aí encontraria, não apenas refrescos gelados, mas

sorvetes.

Quanto ao menor uso de banho morno, em casa, isto é, sua

substituição pelo de mar, nas praias-outra campanha dos médicos

brasileiros da primeira metade do século XIX que resultou no des-

prestí 'aio do antigo patriarcalismo , dada a uase impossibilidade

de cada casa assobradada ou de cada sobral patriarcal ter praia

ropria ou particular-recorde-se mais uma vez ue foi substituição

ifícil. Em 1846, Joaquim Pedro de Melo ainZ se via obrigado

a esciever nas suas citadas Gciwralidades: "Os mesmos banhos

de mar não pc-derri ser sem custo toinados pelos moradores do

#

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 301



300 GILBERTo FREYRE

centro da cidade, orque as praias que estão proximas são inimun-

das e servem de Seposito onde o povo vae lançar o que quer. "37

Mesmo assim, era vantajoso no Rio de janeiro, já muito cheio

de sobrados e de casas terreas, do meado do século XIX, residir

a pessoa no alto de morro ou à beira do mar: "adição esta pre-

ciosissima em qualquer predio nesta cidade onde não há esgoto",

dizia 0 Boticário de 26 de maio de 1852.

E desde 1825 que José Maria Borntempo nos seus Estudos

Medicos ofterecidos à Magestade do Senhor D. Pedro 138 batia-se

po 1 r um Rio de janeiro mais exposto às brisas vindas do mar ou

a "huma livre ventilação" que corrigisse os perigos das "exhalações

das impurezas" das valas, das igrejas, dos cemiterios. Os perigos

da umidade do solo. Ia ao ponto de desejar a demolição dos mor-

ros de Santo Antônio e do Castelo; e de considerar seu "dever

medico" dizer e escrever 2ue "se deveria procurar a habitação em

o

sobrados assaz elevados o terreno" evitando-se "a habitação nas



casas terreas", embora reconhecesse: "imperiosas circunistancias

forção a este expediente" (a habitação em casas térreas).35) 0

ideal era o sobrado perto do mar, exposto ao vento, purificador

das imundícies da terra. Mas nem todos podiam dar-se a este

-luxo: muitos tinham de contentar-se em viver rasteiramente em

casas térreas e até em mucambos ou palhoças levantadas nos

piores lugares das cidades. Às vezes nos pântanos ou à beira dos

mangues.


Não eram poucos os brasileiros da primeira metade do século

XIX para quem a gente boa, o casal de bem, a família bem cons-

tituída segundo a ortodoxia patriarcal, devia residir, nas cidades,

em sobrado ou casa assobradada, deixando para os indivíduos

socialmente menos sólidos as casas térreas de ualquer especie.

Alguns aSologistas do sobrado como residência 1 gente de bem

partiam e considerações higiênicas, a que não eram estranhas

preocupações de classe, de raça e de status patriarcal ;40 outras

partiam francamente de preocupaçoes sociais impregnadas de pa-

triarcalismo. Entre estes, o Bacharel Antônio Luís de Bríto Aragão

e Vasconcelos, em páginas que datam dos primeiros dias da inde-

pendência brasileira.

Em suas "Memorias sobre o Estabelecimento do IrnXerio do

Brazil, ou Novo Imperio Luzitano", dizia nos começos o seculo

XIX esse Bacharel Antônio Luís de Brito Aragão e Vasconcelos

considerar dever do Estado-num país como o Brasil do seu

tem,~%"fazer com que o estado de cazado pareça mais appete-

cive, , menos pezado e mais vantajozo do que o de solteiro". E

dentro da concepção patriarcalista, então dominante entre nós,

de que "Hum Monarcha he o Pay Civil dos seus vassallos", enten-

dia o Bacharel Aragão e Vasconc`elos que o Soberano devia dispor

#

dos "Officios publicos" para remediar, em primeiro lugar, "as



essoas mais necessitadas que são os Paes de família", a quem

eviam ser dados, de preferência aos solteiros, "porçoens de ter-

reno para cultivar. . ."41

Compreende-se sua preferência pelos casados e pelos casais

dada sua preocupação de ver o Brasil desenvolver-se dentro da

"boa polícia dos Povos", inseparável de casais estáveis e de casas

também sólidas, bem construídas, levantadas nas cidades em li-

nha reta e, sempre que possível, sob a forma de sobrados e não

de casas térreas. Donde dizer ainda em suas "Memorias": "Tam-

bem não deixava de ser util ao bê publico que qualquer pro-

prietario que possuir caza terrea não podendo levantar sobrado

seja obri ado a vendel-a a outra qualquer pessoa que o eira,

e possa fazer, recebendo por ella o seu justo valor evi

tando-se que as melhores ruas, e as do interior dellas, onde podião,

e devião haver os mais bellos edifícios, estejão oecupadas por

terreas e insignificantes habitaçoens ."42

Essa concepção-a de que o sobrado ainda patriarcal e ]à bur-

guês é que representava a melhor ou mais alta civilização bra-

sileira, ao findar o século XVIII e começar o XIX-parece ter

sido geral entre os homens esclarecidos da epoca. Não só brasi-

leiros como europeus do Norte da Europa-estes, quase todos, im-

pregnados até à alma de noções burguesas e urbanas de civilização.

Em Voyaae dans les D~ Amériques Publié sous la Direction

de M. Alci& d'Orbigny, Ouro Preto, longe de brilhar como ci-

dade de opulenta arquitetura, é descrita como de "mesquinha apa-

-ncia": "b plus part dentre elles sont d'une mesquine appa-

re

rence 11~43 diz-se das casas da cidade mineira, então já decadente.



Melhor relevo é dado a São Luís do Maranhão: "Les nwisons,

hautes de deux à trois étages, sont, pour la pl~rt, Uties en

terres de grès taílées et bien distribuées à rintérieut", afirma-se

os sobrados de São Luís. Sobrados de três andares. Sobrados

que refletiam um contato da parte dos maranhenses da ca~,,ital

com a mais alta civilização européia da época, que não se ) ser-

vava mais da farte dos mineiros, já em decadência como socie-

dade induStria e reabsorvidos, em vários dos seus estilos de vida,

pelo complexo rural de que o ouro desviara aqueles brasileiros

do interior.

Um dos caraterísticos da elegância ou da modernidade de vida

na capital maranhense-modernidade do ponto de vista de um

francês ou de um inglês da cidade-era, evidentemente, a impor-

tância, maior do que em Minas, que tinha a mulher nessa pe-

quena area urbana do extremo Norte do Brasil: "Aussí ont-elles

fait les moeurs de cette vílle, en prenant sur les hommes cet as-

cendant domestique, plus doux à suivre quà combattre." Educa-

#

302 GILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.` Tomo 303



das algumas delas na Europa, quase todas enviavam os filhos

a colégios da França e da Inglaterra. Donde o europeísmo do

ambiente de São Luís do Maranhão na primeira metade do século

XIX: precisamente quando esse europeísmo se apresentava quase

superado em Ouro Preto por influências rústicas. Patriarcalmente

rústicas. Influências que eram ainda, em conjunto, as mais fortes,

no Brasil, a despeito de toda a reeuropeização que vinha se pro-

cessando com relação a certas modas e a certos costumes.

Processando-se-convém nos lembrarmos sempre deste aspecto

da reeuropeizaçao do Brasil, de que o sobrado burguês, embora

ainda patriarcal, foi sempre um índice-desigualmente de área

para área. Tendo essa reeuropeização, sob a forma de urbani-

zação, ocorrido no Nordeste-ou antes, no Recife-no século XVII,

manifestou-se na área mineira no século XVIII, para na primeira

metade do século XIX fazer-se sentir principalmente no Rio de

janeiro, em Salvador, em São Luís, em São Paulo e novamente

no Recife.

Em Vila Rica Rugendas observou curioso aspecto de predo-

minância de influência européia não-portuguesa sobre a portu-

guesa ou luso-brasileira: telhados, nos sobrados, "construídos em

ponta como no Norte da Europa, o que se compreende melhor

em Vila Rica, em razão do clima e da altitude, do que nos

portos do Brasil onde são, no entanto, comuns", escreveu ele. 44

Esse telhado "pontudo" encontrava-se no Rio de janeiro-na

parte ant~a da cidade, caraterizada por sobrados de três ou

qua ares, estreitos, somente com três janelas nas fachadas,

em contraste com "as casas rnais baixas" das "partes modernas

da cidade" e com os sobrados altos mas de "telhado chato" de

Salvador .45 Encontrava-se principalmente o telhado pontudo nos

antigos edifícios [ .... 1 construídos inteiramente no estilo euro-

peu" da cidade do Recife: casas "altas, estreitas e com tetos pon-

tudoS"46 com reminiscências do Norte da Europa talvez mais acen-

tuadas que nos sobrados de Vila Rica.

Nos começos do século XIX, Andrew Grant41 dizia dos sobrados

ou casas de Salvador que a maioria delas eram construídas no

estilo do século XVII: em geral vastas porém sem elegância ou

comodidade, observou ele. Nos "últimos anos" é qi.,- vinham

aparecendo nos arredores da cidade "habitações eleganlcç-", das

11 classes superiores" de habitantes. As "classes inferio-,-2,~" viviam

em "low tiled huts or cabins.. ."I' isto é, pequenas casas térreas,

cabanas, mucambos. De pedra, eram as melhores casas, embora

algumas fossem de taipa; de palha, as dos pobres.

0 Professor Pedro Calmon no capítulo "As Primeiras Casas",

de sua recente História da ~undação da Bahia, saliepta ter a

construção de taipa-usada na Península, conforme recorda ba

seado em Costa Lobo (História da Sociedade çm Portugal no

Século XV, Lisboa, 1904), desde o tempo dos romanos, enquanto

também os árabes "construíam assim suas habitações"-se ene-

#

ralizado na Bahia dos primeiros tempos, onde ficou "p , Jar e



rural" por uma "fácil aliança": a taipa portuguesa e a cabana de

varas e Salmas dos indios, a que o negro da África ajuntou o

sistema e as cobrir de lama ou arremessos de barro que cha-

mamos de "sopapo".19 A taipa foi técnica empre ada tanto na

construção de sobrados como de casebres. Tanto E casas rurais

como urbanas. Não foi exclusivamente nem "rural" nem "popular".

James Wetherell, que por quinze anos residiu na Bahia durante

a primeira metade do século XIX, deixou em suas Stray Notes

from Bahia descrição minuciosa de um mucambo ou casebre de

cidade: "built of stakes of bamboo, &C, interwoven with pliant

twigs. These net-like walls are built double, and the interstices

are filled up with mud and clay. The roof is thatched with alm

leaves, and this is frequently finished previous to the walls feling

commenced, so as to preserve the earthen walls from destruction

by rain during the process of building. .."50 "The floor is the

natural earth . . ."

Os animais geralmente criados pelos habitantes de mucambos

eram palinhas às quais se juntavam às vezes cachorros magros

ue a tu

,ráentavam timbus e raposas. Cachorros magros diferentes



3os g os e ferozes, dos sobrados. Ferozes só contra timbus ou

raposas.


Timbus ou gambás, mais numerosos numas regiões. Raposas,

mais perigosas noutras. Pois nunca nos devemos esquecer de que,

num país da extensão do Brasil sempre variaram grandemente os

elementos naturais e culturais de paisagem em torno das formas

sociológicas quase invariáveis representadas pelos dois tipos prin-

c,pais de habitação: a senhoril e a servil. E não só os elementos

naturais e culturais de paisagem: também os morais e invisíveis.

Emile Adet, no seu "0 Império do Brasil e a Sociedade Brasi-

leira em 1850", de que a Revista Universal Lisbonense de 25 de

dezembro de 1851 publicou tradução portuguesa, antecipou-se

em tentativas de caraterizar o brasileiro segundo as principais

regiões do País. E aventurou-se a marcar até diferenças de ca-

ráter ou de espírito. Das populações ao sul do Rio de janeiro

escreveu que "algum tanto herdaram o espirito bellicoso dos pri-

meiros coionos europeus . , assemelhando-se aos pernambucanos de

"humor variavel" e dominados por um "espirito revolucionario"

que "os perde muitas vezes", en uanto entre . os povos da Bahia

e do Maranhão" a "indolencia Jo creolo" era compensada -por

felizes faculdades de applicação ue attestam pro ressos lentos

porém seguros na ordem dos trabalhos intellectuaes' e em Minas

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#

'E.Pte. impeirtinte- ~n13-1r, inionto

Mujonrin. fundis(locril 18.69, rstá fune

.cionando agora -1 rua -Larga do Rosa -

rÀri, ri, 9.

0 Peu pimprietKrio encarregado dn

Regula mexi Nção dos relugioa, . Estra-

da de Ferro da lárnoriro. Corripinhin 6j2 e reto

Ferro Corri[ de Pernambuco, Associa-

ção Comirsercift1 Beneficente, Estrailix o/,.

. te , C

(à Ferro do R~rife a Caxan~A Esti-a- 4 tiat 4)

de de Ferro do Recife n Olin, n e Be- 4e0

licribe, Rítrsida de Ferro (te Carnarô, pr.

Ropartiçáo das Obras Publicas a Esi 410 4

,cola Nurmis1 e cercado de )inbeN e in-

teitigentes RoxilistreR, fnz concertos

por maiss difficeis que sejam, não ao

em relogiosi de Apribeirit, mas de pen-

d.ula, torres de igrojiii. caixo.a de inu-

Piessi. sippare4hos electricos etelegra-

,pillicos,

0 mesinsis zcabn da receber variado

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rosdeuaples bordad80 -

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ANNUNCIOS

E . XCELLENTE MORADA

PREÇO COMMODO

Aluga se ou vende-se a excel

ente- casa do Dr. Caminha, em

Sant*Anna.

A tratar à rua do 132rão da

Victoria ri- 43, Pharmaciado Dr-

Sábino.

AN-úNCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO MEADO E DO FIM DA ERA 11-"EIUAL relativos



a estilos de ~onvivência ainda patriarcal e já urbana em algumas das então

principais áreas do País (Bahias, Rio de janeiro, Perríambuco, Rio Grande

do Sul). Grupo VT

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

305

os habitantes se destacavam pela energia e robustez. 0 "senti-



mento religioso" parecia-lhe comum a esses vários grupos; e o

Rio de janeiro uma especie de síntese nacional, notando-se que

aí, como nas outras grandes cidades, o chefe de família, isto é,

de família patriarcal, conservava, no meado do século XIX a

autoridade primitiva".

Grande parte da "autoridade primitiva" teria dito melhor o

observador europeu. Pois para os observadores brasileiros nascidos

ou formados na era colonial, uma das mais ostensivas alterações

na organização social do País, desde a chegada ao Rio de janeiro

de D. João, vinha sendo precisamente o declínio do poder a-

triarcal familial, como que substituído nas cidades pelo 1 Ner

suprapatriarcal-embora ainda patriarcal em vários dos seus as-

pectos--não só do Bispo como do Regente, do Rei e, afinal, do

Imperador. Ou do Estado, representado também pelo poder ju-

diciário de magistrados revestidos de becas orientais para melhor

enfrentarem, como rivais, o puro poder patriarcal dos chefes

de família.

NOTAS AO CAPITULO VI

#

'Anais da Biblíoteca Nacional do Rio de janeiro, 1920-21, vol.



XLIII-IV, pág. 62.

2Marmota Pernambucana, 30 de julho de 1850.

8Publicado na Tipografia Figueiroa, Recife.

4Recife.


5Lisboa. Publicou no meado do século XIX muito artigo relffivo ao

Brasfi.


OSeção de Mss. Biblioteca Nacional do Rio de janeiro, 1, 31, 28, 213.

7Annaes Flurninenses de Sciencias, Artes o Lítteratura, tomo 1, 1822.

SA Reciolta de 1720 - Díscur3o ~rico-Polítko, Ouro Preto, 1898,

pág. 16.


9Andrew Grant, Hístory of Brazili, Landres, 1809, pág. 151.

1OPágina 56.

111`ágina 64.

12Geografia Geral do Brasil, 2.1 esd., Rio de janeiro, 1889, pág. 148.

l3Grant, op. cit., pág. 224.

14Stray Notes from Bahia, LÁverpoci~ MDCCCLX.

l5Grant, op. cit., pág. 240.

16,1bid., pág. 154.

171bid., pág. 169.

ISSão Paulo, 1949 (4.a ed.), pág. 180.

lí)Ibid., pág. 183.

201bid., pág. 179.

#

306 GILBERTo FREYRE SOBBADOS E NIUCANiBOS - 1.0 TOMO 307



27ovoamento da Cidade do Salvador, Salvador, 1949, pág. 307.

2-'Geo,-rafia da Fome, Rio de janeiro, 1946, pág. 279.

23Tales de Azevedo, op. cit., pág. 311.

241bid., pág. 312.

25Ibid., pág. 311.

2611ecolhido e divulgado por Edmar Morel, Dragão do Mar - 0 jan-

gadeiro da Abolição, Rio de janeiro, 1949.

2,james Wetherell ern Stray Notes from Bahia: being Extracts from

Letters, &C, during a Residence of Fifteen Years (Liverpool, MDCCCLX)

nota à página 18 que o costume de usar o brasileiro unha ou unhas com-

pridas, como evidência de ócio aristocrático, vinha degenerando, pois já as

usavam, na primeira metade do século XIX, "some of the lower class of

whites, and the half-breeds . . ."

Era evidentemente costume desenvolvido no Brasil através do contato

dos portugueses com o Oriente, embora dessa relação não se tenha aperce-

bido o observador inglês com a agudeza com que se apercebeu de outras.

Assim, descrevendo um "cortejo" no Palácio do Governo da Bahia, e as

zumbaias orientais dos súditos diante dos retratos do Imperador e da Im-

peratriz, Wetherell recordará à página 60 do mesmo livro que essa ceri-

mônia brasileira, tão detestada pelos europeus, era quase igual à que se pra-

ticava na China diante de lápides com os sagrados nomes do Imperador. 0

beija-mão de súditos ao Imperador - também comum no Brasil e detestado

pelos europeus - era praticado por filhos, afilhados, escravos com relação

aos patriarcas.

Wetherell salienta à página 77 das suas notas sobre a Bahia da primeira

metade do século XIX o "hábito quase universal" - e igualmente, de

influência oriental, que não lhe ocorreu assinalar - do guarda-sol, feito de

seda de diferentes cores: azul, vermelha, verde, etc. Hábito senhoril que

a gente de cor procurou também imitar da branca e de sobrado. Mesmo

os pretos e pardos que, segundo o observador in-lês, não tinham pele bran-

o

ca e fina a defender do sol, sempre que possível, ostentavam guarda-sóis



como ---aluxurious article of their toilet". A respeito do que é interessante

recordar os versos populares:

'Toi coisa que eu nunca vi

Negro de chapéu-de-sol:

Pra que anda esse tição

Se resguardando do sol?

2SEtnias Sergipanas - Contribuição ao seu Estudo, Aracaiu, 195

pág. 160.

29Página 13.

---Heredia de Sã, op. cit., pág. 19.

31I1)id., pág. 32.

32Rio de janeiro, 184.5.

33Tese, Rio de janeiro, 1872.

341bid., pág. 74.

#

35Rio de janeiro, 1845.



361bid., pág. 35.

37Generalidades acerca da Educação Physica dos Meninos, Rio de Ia-

neiro, 1846, pág. 35.

3811io de janeiro, 1825.

89josé Maria Borntempo, Estudos Médicos, pág. 10,

40Neste número deve ser incluído o Dr. Carolino Francisco de Lima

Santos. De seus "Conselhos Hygienicos aos Europeus que abordam o Bra-

sil" (Diário de Pernambuco, 18 de agosto de 1855) transcrevemos: "Se

os habitantes do Brasil e mesmo aos indigenas cumpre fugir dos perigos

de uma temperatura elevada, humida e variavel, vivendo ou habitando em

casas de sobrado como tambem, de não se exporem despidos à influencia

do ar - aos estrangeiros recem chegados esta regra deve ser ainda com

mais rigor observada. A habitação em casas terrias he sempre uma das

peores, principalmente no Brasil, cuja temperatura he respeítavel; porque

o ar carregado de miasmas que se desprendem das materias animaes e

vegetaes em putrefacção, oceupa por seu peso especifico as camadas infe-

riores da atmosfera, e exerce sua acção delecteria. Entretanto que a

altura de um primeiro andar he quanto basta para pôr à abrigo o homem

destes effeitos nocivos; por que o ar carregado de miasmas, em geral, não

pode chegar a uma tal altura, e quando chegue já he rarefeito, purificado

em parte, e não se toma por isto tão nocivo. E tanto mais necessario se

faz entre n6s este preceito, que as nossas ruas, se não são verdadeiros

fócos de infecção, pela inconstancia no aceio, servem ás mais das vezes de

deposito aos lixos das casas particulares, mormente à noite, que das sacadas.

lançam aguas carregadas de princípios de facil decomposição etc., etc.".

41Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1920-21, vol.

XLIII-IV, pág. 12.

421bid., pág. 44.

4SParis, MDCCCLIV, pág. 169.

44Rugendas, op. cit., pág. 41.

45Ibid., pág. 18.

461bid., pág. 59.

47Grant, op. cit., pág. 206.

48Ibid., pág. 208.

4gBahia, 1949, nota 12.

5OPágina 51.

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- - -1



V 11 - 0 BRASILEIRO E 0 EUROPEU

DIZEm que Dom João VI quando chegou à Bahia em 1808

foi logo mandando iluminar a cidade: era "para o inglês

ver". Outros dizem que a frase célebre data dos dias de proi-

bição do tráfico de escravos, quando no Brasil se votavam leis

menos para serem cumpridas do que para satisfazerem exigências

britânicas. Foi a versão colhida no Rio de janeiro por Emile Allain

que a apresenta como equivalente do francês -pour jeter de la

poudre aux yeux".' De qualquer modo a frase ficou. E é bem

caraterística da atitude de simulação ou fingimento do brasileiro,

como também do português, diante do estrangeiro. Principal-

mente diante do inglês, em 1808, não mais o herege nem o "bicho"

3ue era preciso salpicar de água benta, para se receber dentro

e casa, mas, ao contrário, criatura considerada, em muitos res-

peitos, superior.

Sob o olhar desse ente superior, o brasileiro do século XIX foi

abandonando muitos de seus hábitos tradicionais-como o de

dançar dentro das igrejas no dia de São Gonçalo, por exemplo-




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