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tantos abusos: as biqueiras que desaguavam tão arrogan-

temente sobre a rua; as janelas e as portas que se escanca-

ravam tão insolentemente sobre a rua; o abuso de certos mo-

radores de criar porco no meio da rua. Só o porco "com can-

ga triangular e argola no beiço", determinava em 1834 a Câ-

mara de Olinda que se deixasse solto pelas ruas. As ovelhas

e cabras, também: só de canga.

As Câmaras foram também proibindo às negras dos mu-

cambos lavar roupas nas bicas do centro das cidades: que

fossem para os riachos fora de portas. Porque algumas ci-

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PREFÁCIO À PaimEiR~A EmçÂo



XLV

dades, como o Recife, tiveram seus arcos, fora dos quais es-

tava-se medíevalmente fora de portas.

Vieram também outras restriçÓes à liberdade dos particu-

lares: a dos senhores dos sobrados surrarem seus escravos

depois que o sino da igreja - de tão grande influência sobre

a vida doméstica e até pública, das cidades brasileiras, ante4

da vulgarização dos relógios - batesse solenemente nove ho-

ras da noite. 0 sino da igreja batia nove horas da noite;

acordava o burguês para o. banho de rio; batia meio-dia; ba-

tia ave-maria; anunciava incêndio - algum sobrado grande

e velho se queimando; anunciava missa, enterroi casamento.

Outras posturas foram aparecendo no sentido de se fazer

respeitar a rua pelo matuto que descia da serra, dos sertÓes

ou dos engenhos e entrava pela cidade muito descansado de

seu: no alto do seu ca-nalo de cangalha ou dentro do seu car-

ro de boi. Que descesse e puxasse o animal pela arreata ou

pelo cabresto sob pena de vinte e quatro horas de prisão; os

negros escravos, de dfíãs dúzias de palmatoadas. E ninguém

tivesse mais a sem-cçrimônia de entrar pela cidade de camisa

e ceroula; nem esq4~pando ou galopando a-cavalo pelas ruas,

por onde desde os fins do século XVIII começaram a rodar

carruagens: a princípio coches, seges, traquitanas; depUs

cabriolets, cabs filburys, balancés, todos aos solavancos pe-

las pedras e pelos buracos.

Os construtor , es e os proprietários dos prédios urbanos

também foram sendo obrigados a respeitar a rua. Obrigados

a levantar seus áobrados com as testadas em alinhamento re-

gular e não a esmo ou-à toa como antigamente. Obrigados a

entulhar os buracos e as poças de lama defronte das casas

com caliça, areia, osso queimado. Obrigados a conservar o

mesmo alinhamento nos passeios e calçadas, acabando-se com

os constantes degraus e batentes de uma calçada para outra,

cada proprietário não fazendo senão sua vontade nem aten-

dendo senão aos interesses de sua casa.

E, por sua vez, a rua foi se desf orrando do antigo domí-

nio absoluto da "casa nobre", da "casa-grande", do sobrado.

0 muleque - a expressão mais viva da rua brasileira -

foi se éxagerando no desrespeito pela casa. Emporcalhando

os muros o as paredes com seus calungas às vezes obscenos.

Mijando e defecando ao pé dos portÓes ilustres e até pelos

corredores dos sobrados, no patamar das escadas.

Mas mesmo desprestigiada pela rua e diminuída nas fun-

çÓes patriarcais (que manteve até no centro de algumas. ci.,

dades); diminuída pela matriz, pela catedral, pela fábrica,

pelo colégio, pelo hotel, pelo laboratório, pela botica - a casa

#

GiLBERTo FREYnE



do século XIX continuou a influir, como nenhuma dessas f or-

ças, sobre a formação social do brasileiro de cidade. 0 so-

brado, mais europeu, formando um tipo, o mucambo, mais

africano ou indígena, formando outro tipo social de homem.

E a rua, a praça, a festa de igreja, o mercado, a escola, o car-

naval, todas essas facilidades de comunicação entre as clas-

ses e de cruzamento entre as raças, foram atenuando os an-

tagonismos de classe e de raça e formando uma média, um

meio-termo, unw contemporízação mestiçamente brasileira

de estilos de vida, de padrÓes de cultura e de expressão física

e psicológica de povo.

0 "sobrado de esquina" ou "com a porta para a rua" re-

presenta o máximo de aproximação entre o patriarcalismo

em declínio e a rua já triunfal. 0 fim da fase de grande dis-

tância, de distância quase profilática entre os dois; de urupe-

mas em vez de vidraça nas janelas; de muros e cercas de es-

pinho separando a casa, da rua. No Recif e, no meado do

século XIX, os burgueses dos sobrados mais modestos já

vêm cear na calçada aproveitando a luz da Lua.

Da habitação rigidamente patriarcal - como foi entre nós

a casa-grande de engenho ou mesmo a de sítio - pôde dizer

Gustav Schmoller, em página hoje clássica, que a sua arqui-

tetura criara nos homens, costumes, métodos de trabalho, há-

bitos de conforto. E não é sem razão, segundo o sociólogo

europeu, que em história econômica se faz da "economia da

casa" o fim da barbaria e o começo de uma cultura mais alta.

Como não é sem razão, lembra ainda Schmoller, que os po-

vos civilizados desig~ ainda hoje toda forma de explora-

çÓo e atividade criadora pela palavra que em grego queria

dizer casa. Poderia, aliás, recordar que também a polavra

ecologia tem a mesma origem que economia.

Spengler quase repete Schmoller quando exalta a ínfluên-

cia do atrium patriarcal. Quando opÓe a influência da casa,

com tudo que ela representa de "economia" - e, poderia ter

acrescentado, como meio de adaptação ecológica do hom, tn

ao meio - à influência da raça e à capacidade desta persis-

tir, estatuesca e brônzea, dentro de estilos diversos de habi-

tação e de vida e de climas diferentes. E a casa é, na ver-

dade, o centro mais importante de adaptação do homem ao

meio. Mesmo diminuída de importância, como nas fases

de decadência da economia patriarcal, ou com a economia

agrária substituída pela metropolitana, o antigo bloco partido

em muitas especializaçÓes - residência, igreja, colégio, bo-

tica, hospital, hotel, banco - não deixa de influir poderosa-

mente na formação do tipo social,

#

Pr,UEF;CIO I PRim:EiRA EDIgX0



XLVI

0 brasileiro pela sua profunda formação patriarcal e pela

semipatriarcal, que ainda continua a atuar sobre ele em vá-

rias regiÓes menos asfaltadas, é um tipo social em que a in-

fluência da casa se acusa ecológica e economicamente em

traços da maior significação. Gosta da rua, mas a sombra

da casa o acompanha. Gosta de mudar de casa, mas ao po-

bre nada preocupa mais que comprar seu mucambo; e o ri-

co, logo que faz fortuna, levanta palacete bem à vista da rua.

0 , fenômeno de'preferência pelo hotel, pela pensão, pela casa

de apartamento - que aliás ainda é casa - limita-se, por

ora, ao Rio de Janeiro e a São Paulo. No resto do Brasil

ainda se prefere

"a minha casa, a minha casinha,

não há casa como a minha".

0 privatismo patriarcal ou semipatriarcal ainda nos do-

mina. Mesmo que a casa seja mucambo - o aliás tão calu-

niado mucambo.

Continuação de estudo já publicado, este ensaio resulta da

mesma série de pesquisas. De modo que os andaimes foram

os mesmos, não sendo preciso conservá-los todos agora em

volta do desenvolvimento mais livre - porém de modo ne-

nhum autônomo, e sim condicionado por aquelas bases -

que tomou o assunto, em sua nova fase. Nesta segunda edi-

ção as principais fontes de que se socorreu o autor, para és-

te trabalho, vão, entretanto, indicadas; e indicadas com o

máximo de precisão possível, sempre que forem fontes uti-

lizadas pela primeira vez. Verá facilmente o leitor que este

ensaio repousa em grande parte em mss. de arquivos públicos

e particulares e em anúncios de jornais. Em material vir-

gem ou quase virgem.

Impossível esquecer, num estudo que se ocupe do desenvol-

vimento das tendências urbanas no Brasil do século XV111 e

principalmente do século XIX, em contraste com as tendêm-

cias rurais, os trabalhos de João Ribeiro e Oliveira Viana

sobre a formação das cidades entre vós; os de Pizarro

e Baltasar Lisboa, Haddock Lobo e Moreira de Azevedo, so-

bre o Rio de Janeiro; o de Felisbelo Freire, o de Escragnolle

Dória, os de Delgado de Carvalho, Noronha Santos, Morales

de los Rios e Gastão Cruls, também sobre o Rio de Janeiro;

o de Luís Edmundo sobre esta cidade no tempo dos vice-reis;

os de Afonso de E. Taunay sobre a formação da cidade de São

Paulo; o de Oliveira Lima e o de Tobias Monteiro sobre o

Brasil - particularmente o Rio de Janeiro - no tempo de

#

XLV111


GiLBFRTo FREYRE

Dom João VI; o de Wãtjen e o do Sr. José Antônio Gonsat-

ves de Melo, sobre o Recife durante o domínio holandês;

os de Teodoro Sampaio e Silva Campos sobre a Bahia;

os do Sr. Ribeiro Lamego, sobre Campos. Mas o ponto de

vista especializadíssimo em que se colocou o autor diante do

desenvolvimento daquelas tendências - o ponto de vista qua-

se proustiano de estudo e interpretação da casa em suas rela-

çÓes mais íntimas com as pessoas - obrigou-o a socorrer-se

menos desses ilustres historiadores e dos cronistas do tipo de

Macedo, de Vieira Fazenda e de Pereira da Costa do que de

material quase esquecido: arquivos de família, livros de as-

sento, atas de Câmaras, livros de ordens régias e de corres-

pondência da corte, teses médicas, relatórios, coleçÓes de jor-

nais, de figurinos, de revistas, estatutos de colégios e reco-

lhimentos, almanaques, álbuns de retratos, daguerreótipos,

gravuras. Sem desprezar, é claro, diários e livros de via-

jantes estrangeiros.

Na tradução e na cópia de alguns desses documentos ou

livros, foi valiosíssimo o auxílio recebido de José Antônio

Gonsalves de Melo, que se vem especializando no estu-

do da língua holandesa, para melhor conhecimento da histó-

ria do domínio holandês no Brasil; também o de Manuel

Diegues Júnior, José Valadares, Diogo de Melo Meneses,

nos arquivos da Bahia, do Recife e de Alagoas e o do já ilus-

tre escritor Francisco de Assis Barbosa, na cópia de anúncios

das gazetas coloniais, da excelente coleção da Biblioteca Na-

cional que tão gentilmente nos franqueou o seu diretor, o ve-

lho e sábio mestre Rodolfo Garcia. Devemos também agra-

decer as gentilezas e facilidades que nos dispensaram o Dr.

Alcides Bezerra, antigo diretor do Arquivo Nacional e o

atual, Dr. Vilhena de Morais, e o Dr. José Maria C. de Albu-

querque, diretor do Museu e Olímpio Costa, diretor da Bi-

blioteca Pública de Pernambuco. Valiosa, ainda, a colabo-

ração de D. Vera Melo Franco de Andrade, que traduziu do

sueco, especialmente para este trabalho, as páginas que Jo-

han Brelin dedica à arquitetura doméstica da cidade do Rio

de Janeiro, no seu livro de viagens do século XVIII, obra

rara outrora da coleção Alfredo de Carvalho e hoje nossa por

gentil oferta de um dos filhos do ilustre historiador e biblió-

filo. E não devemos nos esquecer da excursão a Minas Ge~

rais - a visita a algumas de suas casas-grandes mais típicas,

a alguns dos seus sobrados mais caraterísticos, o contato,

embora rápido, com alguns dos seus arquivos - na boa com

panhia dos Srs. Afonso Arinos de Melo Franco e Luís Cami-

lo de Oliveira. Nem as horas passadas no Museu Paulista,

#

F'REFICIO X PAX)"ERA EDIg;O



XLIX

entre as reconstituiçÓes de velhos sobrados da cidade de São

Paulo e até do burgo inteiro, no fim da primeira metade do

zéculo XIX, trabalho de inteligência e de pachorra, realiza-

do por mestre Afonso de E. Taunay. Nem - ainda - as ex-

cursÓes pelo interior do Estado do Rio, pelos Estados de São

Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia,

Alagoas, Sergipe. Aí e no Rio de Janeiro pudemos entrevis-

tar sobreviventes ilustres dos últimos dias de opulência pa-

triarcal e escravocrática em nosso país, cujos depoimentos

e reminiscências de antigos residentes de sobrados ou casas

patriarcais de cidades foram elementos valiosos de esclare-

cimento do material de arquivo. Recordaremos, entre ou-

tros, os Srs. Raul Fernandes, a Baronesa de Bonfim, a Viú-

va Joaquim Nabuco, a Baronesa de Estrela, o General Moreio-

ra Guimarães, a Viúva Oliveira Lima.

E' considerável a massa de notícias, avisos e principalmen-

te de anúncios de jornal da época colonial e do tempo do

Império em que se baseiam algumas das generalizaçÓes, nes-

te livro. Anúncios de escravo, de casa, de móvel, de dentis-

ta, de sapato, de chapéu, de -médico, de modista, de teatro, de

mágico, de colégio, de livros, de comidas e gulodices recebi-

das da Europa. Anúncios nos quais vêm se acusando, através

do século XIX, a admiração quase supersticiosa do brasileiro

pelo estrangeiro, pelo europeu, pelo inglês, pelo francês -

cujos nomes "Edgar", "Lamartine", "Arthur" e até "Ben-

jamin Franklin", foram substituindo, no batismo dos meni-

nos, os "Thales", "Ulysses" e "Themistoeles", dos princípios

do século XIX, e competindo com os nomes indígenas - a

ponto das melhores casas, as melhores criadas, os melhores

móveis, acabarem sendo anunciados "para familia extran-

geira", para "casa extrangeira", para "senhor extrangeiro"

- fato, aliás, que ainda se observa em anúncios dos nossos

dias. Há mais de cinqüenta anos o fenômeno já servia de

assunto a uma das crônicas mais interessantes e finas de

França Júnior.

0 estudo dos anúncios de jornal, nos quais antes só se en-

xergava o pitoresco, parece-nos ter sido utilizado larga e sis-

tematicamente neste trabalho, pela primeira vez, dentro de

técnica antropossociológica, para interpretaçÓes sociológicas

e antropológicas. A essa utilização e a essas interpretaçÓes

outras poderão se ajuntar com igual ou maior proveito: mé-

dicas por exemplo. Amplamente filológicas. Folclóricas. Pu-

ramente históricas. Aliás, já o Dr. Luís Robalinho Caval-

canti, em trabalho que escreveu sobre o ainhum, no Brasil,

#

L



GELBERTo FREYRE

colheu naquela fonte sua melhor e mais flagrante documen-

tação histórica.

Se as possibilidades de utilização de material, na aparên-

cia tão vil, ou apenas pitoresco, mas na verdade rico e até

opulento de substância do maior interesse histórico e da mais

profunda significação social, escapam aos que só compreen-

dem os estudos sociais, solenes e grandiosos e servindo-se

apenas de documentos ilustres, mestres como Afonso de E.

Taunay e Paulo Prado souberam reconhecer a importância

e o valor de riqueza tão grande e, até hoje, tão desaprovei-

tada. Distinguiu-nos Afonso de E. Taunay com boas pa-

lavras de animação, e mais do que isso, de lúcida e simpática

compreensão, primeiro em carta, depois em artigo, justa-

mente quando críticos menos autorizados e mais afoitos pro-

clamavam não enxergar sendo "pitoresco" em todo' aquele

esforço de utilização à grande dos anúncios de jornais para

esclarecimento de zonas mais íntimas de nossa história social.

0 presente trabalho tem, como o anterior, defeitos de dis-

tribuição de material; repetiçÓes; às vezes a matéria de

um capítulo transborda no outro. Também fomos obrigado

a insistir em certos assuntos já tocados no estudo anterior;

mas de ponto de vista diverso. Considerados em relação com

outras situaçÓes sociais e psicológicas.

0 que João Ribeiro estranhou na primeira parte do tra-

balho - a já publicada - também estranharia nesta: não

conclui. Ou conclui pouco. Procura interpretar e esclarecer

o material reunido e tem, talvez, um rumo ou sentido novo

de interpretação; mas quase não conclui. Sugere mais do

que afirma. Revela mais do que sentencia.

A quase-ausência de conclusÓes, a pobreza de afirmaçÓes,

não significa, porém, repúdio de responsabilidade intelectual

pelo que possa haver de pouco ortodoxo nestas páginas. De

contrário ao estabelecido, ao aceito, ao consagrado. Porque

essa qualidade revolucionária vem da própria evidência do

material reunido e aqui revelado e interpretado dentro da

maior objetividade possível, de método e de técnica.

É tempo de procurarmos ver na formação brasileira a

série de desajustamentos profundos, ao lado dos ajustamen-

tos e dos equilíbrios. E de vê-los em conjunto, desembara-

çando-nos de pontos de vista estreitos e de ânsias de conclu-

são interessada. Do estreito ponto de vista econômico, ora

tão em moda, como do estreito ponto de vista político, até

pouco tempo quase o exclusivo. 0 humano só pode ser com-

preendido pelo humano - até onde pode ser compreendido;

e compreensão importa em maior ou menor sacrifício da ob-

#

NEFÁCIO À PiUMEiRA EDIÇÃO



Li

jetividade à subjetividade. Pois tratando-se de passado hu-

mano, há que deixar-se espaço para a dúvida e até para o mis-

tério: a história de uma instituição, quando feita ou tenta-

da sob critério sociológico que se alongue em psicológico está

sempre nos levando a zonas de mistério, onde seria ridículo

nos declararmos satisfeitos com interpretaçÓes marxistas ou

explicaçÓes behavioristas ou. paretistas; com puras descri-

çÓes semelhantes às da história natural de comunidades bo-

tânicas ou animais.

À "humildade diante dos fatos", a que ainda há pouco se

referia um mestre da crítica, ao lado do sentido mais huma-

no e menos doutrinário das coisas, cada vez se impÓe com

maior força aos novos franciscanos que procuram salvar as

verdades da História, tanto das duras estratificaçÓes em dog-

mas, como das rápidas dissoluçÓes em extravagâncias de

momento.

Rio, 1936-1949-1961.

G. F.

#

PREFÁCIO



SEGUNDA EDIÇÃO

HÁ anos que se encontra esgotada a primeira edição des-

te ensaio. Aparece a se gunda quase um decênio depois

de esgotada a primeira.

É natural que para esta nova publicação tenha sofrido o

ensaio minuciosa revisão do texto ao qual foram acrescenta-

das, em número considerável, notas de esclarecimento e indi-

caçÓes bibliográficas. Cinco novos capítulos se juntam aos

antigos, por sua vez reformados ou ampliados e não apenas

revistos.

Na série de estudos do passado social brasileiro iniciada

com Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos foi o se-

gundo ensaio dedicado por nós ti reconstituição e à interpreta-

ção - ou à tentativa de interpretação e de reconstituição -

do patriarcado ou da família tutelar no Brasil. Aparece ago-

ra, do mesmo modo que aquele primeiro estudo, sob o título

geral de Introdução à História da Sociedade Patriarcal no

Brasil.


É nosso propósito procurar completar a série com outros

dois ensaios: Ordem e Progresso, dedicado ao estudo da tran-

sição do trabalho escravo para o livre em nosso país e ao

processo, na sua última fase, de desintegração das socieda-

des patriarcal e semipatriarcal entre nós, e Jazigos e Covas

Rasas, que será uma tentativa de estudo não só dos métodos

como da mística de sepultamento em nossa sociedade pa-

triarcal, considerados esses métodos e essa mística como ex-

tensão do complexo patriarcal de segregação e de sobrevi-

vência de família e de expressão do espírito patriarcal de cas-

ta, em contraste com o descaso pelos mortos quando escravos

pagãos e extradomésticos, ou indivíduos pobres, ou sem eira

nem beira.

Vê-se pelo desdobramento desse plano de estudo ou de ten-

tativa de estudo (pois não se trata de tarefa para um índiví-

duo só, devendo por isto o indivíduo que se aventurou a es-

forço tão grande contentar-se em tentar simples obra de 8u_

gestão em torno do assunto extremamente complexo) que

não está, nem nunca esteve, no nosso propósito, fazer do açú-

car ou da comunidade ou da área açucareira no Brasil (lito-

ral do Rio de Janeiro, o Recôncavo da Bahia, a "mata" de

Pernambuco e de províncias ancilares, o litoral do Mara-

nhão), a base única do estudo histórico-sociológico, a que nos

#

PREFÁCIO À SEGUNDA EDiçÃo



L111

arriscamos, do patriarcado escravocrático no Brasil. As crí-

ticas que nos têm sido feitas nesse sentido pecam pela preci-

pitação, considerando, como consideram, um estudo ainda em

começo como se fosse já a obra inteira; e como se uma obra

de caráter principalmente sociológico devesse ou pudesse ser

julgada ou considerada do ponto de vista convencionalmente

cronológico ou sisteinaticamente geográfico ou corográfico.

0 nosso intuito tem sido sempre o de retirar da História

e da Ecologia o bastante para o estudo sociológico, ou psi-

co-sociológico, do assunto - isto é, para a revelação e a ten-

tativa de interpretação de situaçÓes, formas e processos pa-

triarcais, ou tutelares, de convivência ou de associação hu-

mana, no Brasil, menos afetados pelo seu conteúdo ou pela

sua substância particular - açúcar ou café, escravo indígena

ou africano, colono de origem nórdica ou moura - ou pelas

circunstáncias particulares, de situação apenas física, ou es-

peciais, de época ou de tempo, dos senhores, dos escravos e

dos intermediários e de suas respectivas habitaçÓes e das re-

laçÓes deles entre si e com outras populaçÓes do mundo. Cir-

cunstâncias cuja determinação incumbe antes ao ecologista

ou ao historiador puro que ao sociólogo, mesmo misto ou múl-

tiplo, isto é, alongado em historiador, em antropólogo ou em

ecologista social e não apenas em psicólogo.

Além de acréscimos substanciais ao texto dos capítulos

primitivos, repetimos que muitas foram as notas acrescen-

tadas ao ensaio que aparece agora em segunda edição. E não

apenas isto: aparece ele com cinco capítulos inteiramente

novos: "Ainda o Sobrado e o Mucambo"; "Raça, Classe e

Região"; "0 Oriente e o Ocidente"; "Animal, Escravo e

Máquina"; "Em Torno de Uma Sistemática da Miscigena-

ção no Brasil Patriarcal e Semipatriarcal." Trata-se, por-

tanto, de trabalho de tal modo renovado que, sob alguns as-

pectos, é trabalho novo.

Dele foram retirados os documentos que apareceram na pri-

meira edição cemo apensos: deverao aparecer em volume

dedicado exclusivamente à publicação de mss. e documen-

tos ilustrativos da história e da interpretação da sociedade

patriag-~,al---no Brasil, esboçadas nos volumes iniciais. A bi-

bliografia geral e as fontes principais de que nos servimos

para elaborar o estudo que se segue repetimos que foram,




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