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curitivo das molestias. 0 mesmo doutor, tem deS-

.inado uma sala para partos, cuja utilidade.he in-

contestavel.

SÃO ENCARREGADOS DA CLINICA

Operações.-O filin. Sr. José Francisco Pinto Gui

marães, cirurgião do Grande Hospital de Carida

de, cuja perícia he bem coliliccida.

Médico consultante.-O 111m. Sr. Conimendador Dr.

José Joaquim de Moracs Sarmento.

Partos.-O 111m. Sr. Dr. Silvio Tarquinio Villas

Uas.


Pothologia dutrina.-O proprietario do estabeleci

niento.


A diaria será de 3$000 o 29000, conforme a gravi

dade e durarão da inolestia.

As pessoas que quízerem um tratamento distincto,

pagarão na razão da despeza que fizerem.

OperílCões, sanguesugas, conferencias serão pagas

apaÉte da diaria.

Para a entrada dos doentes se tratará a toda hora

do dia o da noite no estabelecimento, e das 10 horm

as 6 da tarde na rua de Hortas n. 12, ou no Pateo

do l~ermo n. 9.

. Passagem da Magdalena 22 de dezembro de 1858.

Dr. Ignaciolfirmo Xavier.

DE

. MASCARAS Ç PHANT Si



?(o

MAGESTOSO EDIFICIO

IDO

CAESDEAPOLLO



Sabbeido 19 do corrente.

No dia acima designado, as duas espaçosas salas

aquelleedifiéio estarão brilhante e pomposamente

Preparadas, afim de nelias ter lugar uni grande bai-

#

le de nascaras e pliantasias.



--Mona~

Unica casa, no norte do Brazil,que

se acha em condições de satisfa-

zer qualquer pedido concernente ao

seu genero de negocio.

D,-posi.to permanente de doces de

todr,s as q~alidades, tev,d~ sempro

gr3n e s~.rtimento de v:illits impor

tÃos dircCtamen;f da Euroi-, assim

coirio uma variedade e,,., it,e de cog-

nac de todos os fabricantes, vinho de

Genipapo, cajà Lima, Figueiro, col-

lares o 1 cores de todas as marcas.

Tendo hoje, devido a esforços de

um appirelho

u3 p~oprietarios'do café

electrico para a rnoagem

Y;sta do comprado-, e um gr3tide ap-

parelUo moderno para a torrificaÇão

do mesmo ; pos-uindo alèm destes,

outrcs rnachinismos appropriados ao

fabrico da essencia do café.

RUA B. DA VICTORIAN . .56

I

Sorvete Familiar



( vrniiriplarin do-te estabele

,,.peíl'tn emuimunica a se(ts fregue

~eç e an liuliiit-.n em gêral qnv

,nensitrarão, a qualquer hora do

na; stiperinr e.!xfó prornisto.

rninn wn e.spleiidi,lo w-

,inerito de bebidas dasq. incilviros

~'.ircas, bol(s, b~plinhos, emp(Was

te c,2 ma rão, pno de lói, ch,2 ridos

.:igr?,ro.9 linn*L

V nnuto o oltiP se IMP deseiRr

ie wêlhor eii) çorvete dó frocta.,

A41-Adn e çinceridado no sni~rE

RUA V0 BARAO DA VICTORIA

N 67

AN-&NCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO MEADO E DO FIM DA ERA impERiAL relativos



a estilos de convivência ainda patriarcal e já urbana em algumas das então

principais áreas do País (Bahia, Rio de janeiro, Pernambuco, Rio Grande

#

do Sul). Grupo V.



SOBRADOS E MUCAMBOS - 1? Tomo

293


longada exposiçao ao sol, contrastava, na verdade, o horror social

à nudez e ao sol-horror que era ostentação de classe e de raça

superior-do branco ou do senhor de casa-grande, de sobrado e

mesmo de casa térrea. Era o branco de sob~àdo e mesmo de casa

térrea resguardado excessivamente, na rua, do sol e da nudez.

De sua pessoa, o chapéu-de-sol tomou-se não só insígnia de su-

perioridade como meio de proteção da pele branca, ou apenas

morena ou pálida, contra o sol forte, tropical, capaz de escurecê-la.

0 africano preto ou pardo-escuro não necessitava de tal defesa da

pele contra o sol, embora, quando livre e senhor de algum di-

nheiro, um dos seus primeiros cuidados fosse, no Brasil, usar cha-

péti-de-sol, calçar botinas e, sendo possível, vestir sobrecasaca de

seda ou farda com dragonas douradas e brilhantes. Ir ao extremo

oposto ao do trajo-ou ausência de trajo-do escravo que, entre-

tanto, dessa escassez de trajo derivava benefício para o corpo, ou

a saúde, desconhecido pelo branco ou quase-branco, senhoril, extre-

mamente resguardado do sol não só pelo chapéu-de-sol quase sa-

grado como pelas cortinas da rede ou do palanquim em que atra-

vessava a cidade. Pela própria casa ou sobrado de pedra e cal,

em contraste com o mucambo de palha penetrado beneficamente

pelo sol, pelo ar, pela luz.

Supunha de ordinário o preto ou pardo livre que toda a van-

tagem para ele estava em vestir-se e até alimentar-se como o

branco senhoril, de quem a condição de livre o agroximava. Em

deixar a cachaça pelo vinho. 0 bredO F-- - e porco. 0 pé

descalço ou a sandália pela botina-mesmo que lhe doesse nos pes.

A casa de palha pela de pedra. No que, em mais de um ponto,

enganava-se.

Geralmente, orém, o que buscava era libertar-se do complexo

de escravo e Xe africano; parecer-se com o branco senhoril no

trajo, nos gestos, na pro ria alimentação. Ninguém mais feliz que

antigo escravo ou filho Se escravo dentro de sobrecasaca de dou-

tor ou de farda da Guarda Nacional ou do Exército-mesmo que

a farda o fizesse parecer ridículo aos olhos dos senhores brancos

ou dos próprios muleques de rua. No seu diário ffitimo, conta

Francisco José do Nascimento-preto cearense que se tornou fa-

moso como abolicionista-ter experimentado profunda mágoa ao

ser escarnecido nas ruas de Fortaleza, quando as atravessava um

dia fardado de oficial da Guarda Nacional, Nas suas próprias

alavras: "Nunca pensei passar por uma vergonha como a de

oje. Fardado de Oficial superior da Gloriosa Guarda Nacional,

ao passar pela Praça do Ferreira, um grupo de senhores mangou

de MiM."2'

Outros negros livres foram escarnecidos nas ruas por andarem

de sobrecasaca e chapéu alto; outros por aparecerem de luvas e

#

I



#

294 GU-BERTo FREY-RE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tww 295

chapéu-de-sol; outros por ostentarem botinas de bico fino que lhes

davam ao andar alguma coisa de ridículo ou de grotesco; ainda

outros, por se esmerarem em penteados, barbas, unhas grandes

imitadas dos brancos dos sobrados .27 Nevas, por se exibirem de

chapéus franceses em vez de turbante~' africanos. Ou de véus

curo


,Xeus em vez de ~anos-da-costa. A verdade é que, acomo-

c

o-se esses neços ivres e possuidores de algum dinheiro, a



usos e hábitos se oris e europeus, se, nuns pontos, avantajaram-

-se aos negros escravos, presos a hábitos e usos africanos, noutros

pontos romperam seu equilíbrio ecológico de gente melhor adap-

tada que a euroTeia e senhoril ao meio tropical do Brasil. Meio

semelhante ao da África.

As mucambarias ou aldeias de mucambos, palhoças ou casebres,

fundadas nas cidades do Império e não apenas como Palmares

nos ermos coloniais, representaram, evidentemente, da arte de

negros livres ou fugidos de engenhos ou fazendas, o Isejo de

reviverem. estilos arricanos de f~abitação e convivência. Em algu-

mas dessas aldeias a convivência parece ter tomado aspectos de

organização de família africana, com "pais", "tios" e "malungos"

sociologicamente africanos, espalhados por mucambos que for-

mavam comunidades suprafamiliais ou "repúblicas". Mas é certo

também que muito escravo impregnou-se, à sombra das casas

patriarcais do Brasil, de sentimentos europeus e cristãos de fa-

mília que acrescentaram aos básica ou tradicionalmente africanos.

E esse fato talvez explique o afã, da parte de vários negros e

pardos livres, moradores em cidades, em imitarem brancos, euro-

peus, senhores de sobrados. Em parecerem brancos, europeus,

senhores desde que, como eles, eram livres. Moradores de

casas e não, mais, de senzalas-embora as casas fossem pequenas

e de material precário (palha, tábua, zinco, capim, folha, sapé,

barro) e as senzalas, na sua grande parte, edifícios de talfa

1 E

E

e até de pedra e cal. Mesmo porque eram prisões e não sir . es



habitações coletivas.

A frase tradicional entre negros livres de Sergiz quando se

deslocavam da área de senzalas para a de mucarn os-frase co-

lhida pelo jovem pesquisador sergipano Felte Bezerra e regis-

trada no seu recente e interessante estudo sobre "etnias sergipanas"

-é significativa. Diziam eles: "Vou tê agora jinela e porta de

fundo."" A negação da senzala típica que não tinha nem janela

de frente n~Ern porta de fundo, sendo, como era, prisão; ou "pom-

bal", como a denominou Joaquim Nabuco.

£ também merecedor de atenção o fato de mais de um mu-

cainbo de pardo ou neçrü livre ter-se dado ao luxo de ostentar

alpendre na fiente-onáé o nego ou o pardo livre passou a osten-

tP -I Õe.---~Ode~ti 't, ~ !"_,~ç sç -inor-Inien!e em rede; e a negra ou

#

a parda, também livre, a ostentar a volúpia de se fazér catar



piolho pela filha, um tanto à maneira de senhora de casa-grande

ou de iaia de sobrado.

Também se ergueram mucambos-sobrados, isto é, com sótão

ou primeiro andar. imitação ainda mais ousada de arqu~tetura

patriarcal e européia, por parte de negros e pardos livres, que os

numerosos mucambos com alpendre à frente ou ao lado. Mas

foi, talvez, o alpendre patriarcal-que alterou até a arquitetura

das capelas ou igrejas do interior domesticando-as, secularizan-

do-as, abrasileirando-as-o elemento mais ostensivo de enobreci-

mento de mucambos em habitações patriarcais, com os estilos

europeus de organização de família desenvolvidos no Brasil pelo

colonizador português do alto de casas-grandes e de sobrados,

irritados por negros e pardos livres sôfregos por se assemelharem

aos brancos livres nas formas de habitação.

Vantagem-a do alpendre de casa-grande imitado por mucam-

bos e não apenas reproduzido nas senzalas de algumas casas se-

nhoriaís-que faltava às habitaçoes de porta e janela das cidades.

"Casas de pequenas frentes, grandes fundos, nada ventiladas, e

formigando de habitadores", é como Miguel Antônio Heredia de

sã eneralizando, descreve as casas do Rio de janeiro em seu

esão Algumas Reflexões Sobre a Cópula, Onanismo e Prosti-

tuição, tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de ja-

neiro e publicada na mesma cidade em 1845. E continuando suas

eneralizaçoes: "[ .... ] nesta cidade a hygiene publica é coisa

e que ninguem cuida, ou antes é perfeitamente estranha e des-

conhecida" .29

Em meio ou ambiente tão sem higiene cresciam as pessoas; e

tão má era sua educação Tie "corpos de dez a doze annos encer-

ram almas já envelhecidas . Falta de "hygiene publica". Falta de

higiene doméstica. Falta de "hygiene alimentar". Falta de "Gym-

nastica". Todas essas deficiéncias e mais o clima "humido, abra-

zador, a atmosphera impura, impregnada de vapores aquosos,

miasmas, &C." e, ainda, a "vida sedentaria", a "syphilis", o "ona-

nismo", a "sodomia" explicavam por que o homem da cidade

do Rio de janeiro era um predisposto à tísica. 0 homem e a

mulher.


Pois no Rio de janeiro era "espantosa" a "destruição do nosso

bello sexo". 0 belo sexo podia ser considerado a maior vítima

do 1uxo e seus terriveis effeitos" e do "despotico tyranno chamado

moda". É que "nós, os brasileiros, sempre imitadores, sempre aco-

lhedores do mao, sempre macacos, como mui bem nos chamam

os extrangeiros, pouco curamos de que as modas tenham nexo

ou não com o nosso clima e nossa constituição physica. E assim

no Rio de janeiro onde o clima humido e quente predispõe emi-

I

#

296



GELBERTo FREYBE

nentemente a enfermidades do canal intestinal e ás pulmonares,

as senhoras attacam os espartilhos e colletes de uma maneira tão

exaggerada que chegam não poucas, pois isto bem comezinho nos

é, a terem syncopes: passam noites inteiras em bailes e saráos,

onde dançando ligeirissimas valsas, só proprias dos paizes frigidos,

vão dahi a pouco refrigeirarem-se com geladas orchatas, &C..."

Não era só isso. As mulheres do Rio de janeiro-referia-se prin-

cipalmente às senhoras dos sobrados-excediam-se em ler roman-

ces, dos quais vinham aparecendo grande número: "livros [ .... 1

só roprios a vulcanisar os corações", reparava o medico refe-

rinJo-se decerto aos romances condenados também-já o vimos

noutro capitulo- or moralistas. Aos romances, juntavam-se "o

uso do e "repetidos banhos tepidos e mor-

nos [.......cedores cuja influencia tem formado

um care um typo peculiar para as Cariocas, e

u~

as diss Brasileiras .30 Mulheres molemente gorJas,



que tin.-se nos espartilhos ou coletes a que já nos

referimos. Ou m ças franzinas que, ao contrário, tinham de usar

anquinhas para fazerem enchimentos, uns de pano, outros feitos

de "huma fazenda [ .... ] de crina de cavallo", como refere o

jornal 0 Boticário, do Rio de janeiro, de 22 de maio de 1852.

Isto quanto às moças ou senhoras de família de sobrado pa-

triarcal. Havia, porém, em sobrados e sobradinhos de ruas co-

merciais como a da Alfândega, a do Sabão e parte da de São

Pedro outra,9 expressões de "bello sexo": prostitutas que não só

padeciam de vários dos mesmos males das mulheres honestas de

sobrados e de casas térreas como comunicavam à população mas-

culina alguns dos mais terríveis males. Principalmente a sífilis:

"Nenhuma lei pelicial as impede de copular quando infectadas da

syphiliS"~31 exclamava no seu estudo o médico ansioso por ver a

"hygiene publica" triunfante na capital do que ainda era princi-

palmente vasta "colonia de plantação".

Na mesma época foi discutida em tese médica, A Prostituição,

em Particular na Cidade do Rio de Janeiro,32 por Herculano

Augusto Lassance Cunha, assunto que alguns decênios deXois

a

a



serviria de tema a outro estudo medico, apresentado à Facu ade

de Medicina do Rio de janeiro, por Francisco Ferraz de Ma-

cedo.33 É que o problema-por nós ferido em capítulo anterior-

cresceu de importância à proporção que aumentou na Corte o

capiruio-por

chá com frequencia"

..] agentes enfraque

acter especial

tingue das outra

#

ham de apertar



o

número de sobrados.

A prostituição desenvolveu-se de tal modo, no Rio de janeiro,

depois da chegada de D. João VI, que em 1845 já havia na ca-

pital brasileira, em grande número, as três ordens de prostitutas

referidas em capítulo anterior: as "aristocráticas" ou de sobrados

- até de palacetes; as de "sobradinhos" e ~'rótulas"; e a escoria, que

SOBRADOS E MUCAI~MOS - 1.' Tomo

297

se es alhava por casebres, palhoças, mucambos. As prostitutas



de 1.Tordem, freqüentadas pelos "homens serios"; as de 2.a~ pelos

homens ue "medeiavam entre a pobresa e a abastança"; as de

3.a, por lomens de "uma baixesa indíscutivel".

Pontos de reunião alegre do alto meretrício foram, no Rio do

meado do seculo XIX, sobrados outrora patriarcais já transforma-

dos em sobrados públicos como o Hotel Pharouxs com seus bailes, o

Chico Caroço, também com seus bailes, no Largo de São Do-

mingos n.O 8, o Caçador, com bailes e casa de jogo. Aí, em 1865,

assassinaram um homem e precipitaram o cadáver da janela do

sobrado abaixo.

São as~ectos do assunto versados principalmente or Ferraz

c

c



de Macedo que ain lia a classificação de Lassance 8unha num

'mapa classificativo T em que a prostituição é dividida em pública

e clandestina e a primeira subdividida na classe das difíceis (que

incluía no seu primeiro gênero, floristas, modistas, vendedoras

de charutos, figuristas de teatro, comparsas, etc. e no segundo

gênero, "ociosas" isoladas em sobrados ou casas aristocráticas

ou já em hotéis caros), na das fáceis (mulheres de sobrados, de

estalagens, de bordéis) e na das facílimas ("reformadas ou gas-

tas", mulheres de "zunçs., amancebadas). A prostituição domés-

4

tica dividia-se em - eres de primeira classe, subdividida em



mulheres "em boas condições" (viúvas, casadas, divorciadas, sol-

teiras) e mulheres "em baixas condições" (livres, libertas, escra-

vas) e em indivíduos, objeto de irregularidades sexuais, quer num

sexo quer no outro: coito contra a natureza, onanismo, lesbia-

nismo, pederastia.31

Foi no meado do século XIX que se acentuou, no meio brasi-

leiro, sob a forma da atriz ou cômica de teatro, em geral italiana,

espanhola ou francesa, a figura da prostituta de luxo. Algumas

residindo em "casas isoladas", outras em hotéis caros, passaram

a rodar pelas ruas em 'luzidos trens": carros de capota arriada

com cocheiro e lacaio, onde ostentavam vestidos, chapeus e sa-

patos de última moda. Acabaram, por esse meio, influindo sobre

#

os estilos de trajo, de chapéu e de calçado das mulheres honestas



mais mundanas que às vezes as viam passar de carro, do alto

dos sobrados senhoriais. Aspecto nas relações entre os dois tipos

ou as duas expressões de---ello sexo" que procuraremos estudar

em ensaio próximo. Pois essa influência-embora seus começos

datem do meado do século XIX-só se faria notar nos fins do

século passado e nos começos do atual. Por longo tempo foi tão

rígida a separação entre mulheres honestas e "mulheres da vida"

que, por essa separação, parece principalmente explicar-se o re-

tardamento no uso de chapéus pelas senhoras do Brasil: chapéu

#

298 GILBERTo FREYRE SOBRAT)GS E MUCAMBOS - L' Tomo 299



era para "mulher da vida". A senhora verdadeiramente honesta

só devia sair resguardada por mantilha.

Os anúncios de jornal parecem ter concorrido para o uso gene-

ralizado, entre nós, de produtos que até os começos do século XIX

destinavam-se nitidamente a esta ou aquela classe, a este ou

aquele grupo, da sociedade; e não a mulheres, sem discriminaçao

entre se nhoras e mulheres; não a homens, sem discriminação da

classe a que pertencessem. Para essa generalizaçao areCern ter

concorrido notadamente anúncios norte-americ; - - Se remédios

como que polivalentes: anunciados pelo seu poder de curar nu-

merosas e diversas enfermidades em qualquer indivíduo e não

apenas no "fidalgo" ou no "delicado" , por um lado; ou no "es

cravo" por outro. Também anúncios de Iam iÕes de parede ou

para corredor de casa, COMO OS chegados Nos Estados Unidos

ao Rio de janeiro em 1850 e anunciados pelo Jornal do Commercio

de 22 de janeiro do mesmo ano: Iampiões feitos debaixo do

mesmo principio e por isso os mais baratos dão tão boa luz como

os mais caros". Produtos- assim-remédios, lampiões, brinquedos

para crianças-não poderiam deixar de fazer empalidecer as fron-

teiras entre classes e subelasses, grupos e sulogrupos da sociedade

-brasileira, senhoras e "mulheres da vida". Pastilhas como as do

Dr. Sherman, se a princípio foram só usadas por um tipo de

mulher parecem ter, no meado do século XIX, alcançado a gene-

ralidade, pelo menos no Rio de janeiro. Destinando-se a curar

certas obstruções peculiares de sexo", qualquer mulher de "má

cor" e " má saúde" poderia ser beneficiada por elas: e não apenas

a "fidalga" ou a "Senhora", como no caso de outros remédios da

primeira metade do mesmo século.

Nos perfumes é que se prolongou até quase nossos dias a hie-

rarquia caraterística da sociedade pairiarcal brasileira não só

quanto a ti~? de mulher-certos perfumes só se compieendendo

em "cômicas ou atrizes, nunca em senhoras honestas, outros só

em mulatas, nunca em brancas finas-como quanto a classe e,

menos rígidamente, quanto a sexo. Ou por influência oriental,

ou por influência outra, ainda a ser apurada, o homem foi sempre,

no Brasil, indivíduo quase ta-ocrerfumado quanto a mulher. Mes-

ia

i,

mo assim, as mulhe--- iam no uso de cheiros e pomadas,



algumas vindas do Oriente ainda por volta de 1830. Em These

apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de laneiro35 Fran-

cisco Bonifácio de Abreu, referindo-se principalmente à primeira

metade do século XIX, salientava que as senhoras saíam dos tou-

cadores para ir aos bailes, excessivamente perfumadas ou chei-

rosas. Umas cheirando a âmbar, outras a -essencia de formosura",

ainda outras a "castorie."36-perfumes então em moda. Desse ex-

cesso resultavam "palpitações, tonturas, nauseas, vomitos, etc."

E não se compreendia que algumas senhoras fossem a bailes

#

"mesmo estando incommodadas"; nem que moças doentes saíssem



para festas, ajoelhando-se antes aos pés da imagem de Santo

Antônio ou de São Conçalo para ue o santo as protegesse contra

o sereno ou os golpes de ar. DoJe moças finas que entisicavam.

Moças e rapazes, Para o que parecia a Abreu concorrer o uso

imoderado do gelo, nos meios finos. E também "o vicio de Onan".

Mas não era só o gelo. Nem era só o abuso do chamado "vicio

de Onan". já vimos que também o abuso do chá e do banho

morno tornou-se caraterístico da sociedade patriarcal de sobrado,

notadamente no Rio de janeiro. 0 abuso do café, destacou-o Melo

Franco como causa de nervosismo e de "mãos tremulas", no que

o apoiava, em 1846, Joaquim Pedro de Melo nas suas Generali-

dades acerca da Educação Physica dos Meninos, publicada no

mesmo ano no Rio de janeiro.

Eram novidades para o brasileiro da primeira metade do seculo

XIX: o chá, o café, o gelado, assim como a expansão do hábito,

durante largo tempo tão insignificante em nosso País a ponto de

ter sido sociológica ou culturalmente quantidade ou traço des-

prezível-do pão de trigo e da cerveja. Como novidades é natural

ue tenham provocado abusos; que por amor deles tenham se

esprezado bebidas, refrescos, broas de milho, cuscuz de man-

dioca, altiá, doces de frutas da terra, talvez mais de acordo com

o clima ou o meio; ou costumes como o de esfriar-se a água em

moringas ou quartinhas ou bilhas de barro, deixadas à noite ex-

postas ao sereno nos parapeitos das janelas dos sobrados ou das

casas assobradadas que davam para as ruas ou para os jardins.

Às vezes, deixavam-se essas bilhas-ou vasos de flores-nó para-

peito das janelas dos sobrados, com tanto desdém pelos transeun-

tes que em 1844, nas suas posturas de 17 de junho, a Câmara

de Salvador cuidou severamente do assunto; e proibiu que con-

tinuasse na cidade aquele costume ortodoxamente patriarcal. 0




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