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tassem o fato de serem as atividades de caixeiros e guaria-livros

consideradas, no Brasil, "muito abaixo da hierarquia dos bacha-

reis e doutore~".

"A bem dos caixeiros brasileiros", batiam-se, entretanto, desde

1835 jornais como 0 Defensor do Commercio, do Rio de janeiro.

E às vezes a bem do caixeiro' em geral: "[ .... ] neste paiz que

se presa de ser hum dos primeiros entre os paizes christãos, este

divino preceito [o descanso aos domingos e dias santos] está

completamente esquecido" pois "ve-se nos dias santos abertas as

casas de negocio e em completa actividade e as aucthoridades

civis e ecclesiasticas mudas espectadoras deste abuzo tanto mais

pernicioso quanto praticado por huma tão eminente corpora-

ção..." E acrescentava 0 Defensor do Commercio no seu nu-

mero de 5 de junho de 1835: "[ .... 1 o miseravel caixeiro preso

ao balcão não tem licença para d'ali saffir, muitas vezes nem para

SOB~S 1c MucAmBos - 1.0 Tomo

#

277



ouvir missa, porque seu amo não quer erder o ganho que pode

ter. . ." Ao caixeiro não restava senão Xiezer à namorada:

"Não posso, meu bem, não POSSO,

He impossivel lá ir,

Que o diabo do balcão

Não me consente sahir."

A verdade, porém, é que muito caixeiro, no próprio sobrado

do armazém ou da loja do comerciante, achou namorada e es-

posa; e esta, a filha ou a sobrinha ou a afilhada-sociologicamente

filha-do patrão rico. 0 sistema comercial brasileiro tornou-se uma

como expressão urbana do sistema agrário, isto é, foi também,

a seu modo, patriarcal e até endogãinico, com os nomes das fir-

mas fazendo as vezes dos antigos nomes de fazenda ou de en-

genho-Suaçuria

ou Cedro, por exemplo-que absorviam os nomes

e famílias, mesmo ilustres, como Cavalcanti, Holanda, Marques,

Carneiro Leão. Silvas passaram a ser Ferreiras, Sor honra de

firmas comerciais mais importantes que o nome e família de

cada um.

0 patriarcalismo, o familismo, o personalismo caraterístico do

alto comércio do Rio de janeiro-na verdade, das grandes cidades

do Império tanto quanto das pequenas-no meado do sCCulo XIX,

surpreendeu arguto europeu, Ladislas Paridant, que escreveu o

livro uase de!~conhecido mas deveras sugestivo que é Du Sys-

Ume =mercial à Rio de Janeiro, publicado em Liège em 18ã6.

Escreveu ele à página 85: "La matière commerciale, à Rio de

janeiro, est régie par un ensemble d'us et de coutumes abusifs

et surannés que les Partugais, dans leur état de décadence, n'ont

pas su reviser, et que les autres étrangers traficants au Brésil, peu

nombreux à cóté des premiers, Wont pu encore réformer."

Esse conjunto de usos arcaic?s ara um europeu do Norte da

a

Europa era caraterizado prinel almente or "un caractère tout



g2 p Í pour les lon.

Of

4



particulier de familiarité, un t très-prononc ues

et bruyantes causeries~'. Mais do que isso: ao comprador - ere-

ciam-se doces e vinhos como nas casas patriarcais aos viajantes

e até aos caixeiros-viajantes, aos quais também os senhores de

engenho mais patriarcalmente generosos mandavam à noite ne-

grinhas ou mulatas que lhes fizessem companhia e lhes aquietas-

sem a fome sexual de comerciantes solteiros-ou mesmo casados-

em viagem pelos campos. Nos armazéns e nas casas

mércio do Rio de janeiro ainda patriarcal do meado

#

-se, segundo refer



XIX, ao lado da sala de vendas, via ~r~

à página 103 daquele seu livro, "une table couverte de ~

et de vins, parmi lesquels les plus fumeux sont les plus à

.1

#



278 CIL=To FREYRE S~OS E SIUCAMBOS - 1.' Tomo 279

E não nos esqueçamos de que havia nos armazéns para patrões,

caixeiros, comitentes do interior, compradores estrangeiros) mesa,

também patriarcal, onde se almoçava fartamente no alto dos

sobrados.

Pode-se generalizar: a tendência no Brasil, depois que as artes

e os ofícios e, principalmente, as indústrias e o comércio foram

se impondo como atividades necessárias ao País e compensadoras

do estorço de quantos soubessem cultivá-las ou organizá-las e

dirigi-Ias foi para que seus cultores ou diretores tomassem ma-

neiras, gestos e usos dos patriarcas rurais, adaptando-os a novas

condições de convivência. Neste ponto anteciparam-se a brasi-

leiros de outras re iÕes os de Minas Gerais: aqueles mineiros

de quem o Conde XAssumar-ou alguém que se supõe ter sido

ele-escrevia nos começos do século XVIII que, sendo homens

de origem obscura, quando enriqueciam, enfeitavam-se com titulos

de "Coroneis, Mestres de Campo e Brigadeyros", imitando assim

a nobreza territorial e, ao mesmo tempo, militar, das regiões mais

antigas do País. São bem expressivas as palavras atribuídas àquele

homem de Estado e que se encontram em A Revolta de 1720-

Discurso Historico-Politico, documento do século XVIII publi-

cado em Ouro Preto em 1898. Ai pormenoriza o observador por-

tuguês a respeito dos indivíduos que, nas Minas Gerais dos co-

meços do século XVIII, tornavam-se ricos pela mineração ou pelo

comércio e que, uma vez ricos, "differenceam-se entam dos outros

mineyros com a periphrase de grandes e poderozos: de Briga-

deyros, Mestres de Campo e Coroneis se bem que, pella diver-

sidade das insignias ainda agora se sabe menos o que elles sam;

porque vereis que se neste o bastam de Marte mostra que he

Mestre de Camp,), ou Coronel, o Malho de Vulcano dis que he

ferreyro: notareis que naquelle a vara de Mercurio insinua que

he juis, o tridente de Ne~tuno declara que he barqueyro. E eu

conheço neste paiz hum omê honrado, o qual com outros nam

entra nesta universal dos mineyros que (desdé húa varanda das

suas cazas, que ficam onde o ribeyro dos Raposos entra no rio

das Velhas) gracejando ao passar das carregações do Rio de

janeyro, que todos alli veem ter' cõ alguns pobres reyrioes, que

com o seu saco ás costas vinham atraz tocando cavallos, apontava

para elles, e contando-os dizia: eis aqui dois Juíses1 alli vam tres

Coroneis; acolá cinco Mestres de Campo."8

Caixeirinhos de tamancos tornaram-se no Brasil do século XIX

senhores comendadores, excelências, titulares. Caixeiros-repita-se

-chegaram a barões, a viscondes, a grandes do Império. Comer-

ciantes, industriais e até artistas de extrema habilidade morreram

no século XIX tão ostensivamente nobres quanto os senhores

de terras e mais do que muitos destes, donos de palacetes sun-

tuosos, de carruagens elegantes, de porcelanas marcadas com

coroas de barão ou de visconde, de fardas douradas, de conde-

corações brilhantes como as dos militares. A mesma mobilidade

#

ue favoreceu entre nós a ascensão de mestiços, de mulatos, de



omens de cor, à condição sociológica de brancos, favoreceu a

ascensão à condição política de nobres, de comerciantes, indus-

triais, artistas de origem obscura e de começos difíceis.

0 mais que acontecia era acompanhar em alguns casos ao

triunfador o comentário malicioso e às vezes injurioso dos que

murmuravam, muitas vezes despeitados com o triunfo ou a vitória

do mestiço ou do plebeu: "filho da mulata Fulana ou do taver-

neiro Manuell", "neto da negra Sicrana ou do galego da qui-

tanda~'. Ou "descendente da escrava Eva, creolai" Com efeito,

um jornal da Corte, A Contrariedade pelo Povo, chegou a pu-

blicar na sua edição de 13 de maio de 1848, contra brasileiro

eminente daqueles dias, e descendia de "Eva, creola, natural

de Taubaté ou suas immeTiações" onde tivera do capitão-mor da

aldeia dos índios daquela vila uma filha "de nome Arma, perfeita

mestiça de cor escurissima", ambas vendidas para o Rio de ja-

neiro e compradas "pelo negociante, da classe então chamada com-

missarios, José Francisco Cardoso, morador na rua Direita casa

hoje n. 73 e como houvesse na familia outra escrava tambem

creola e do mesmo nome foi aquella chrismada em Eva da Serra";

que Ana, ou Aníca, dera à luz em 1783 ou fins de 1782 uma

filha de nome Maria, parda muito clara, "que se chamou depois

Maria Patricia"; ue Cardoso, tendo falecido em 1804 ou 1805,

deixara forros tãos os seus escravos "[ .... 1 os quaes conser-

vando a educação que lhes deram seos senhores foram juntos

morar no Beco do Fisco, casa hoje n. 23, vivendo em commum

do seu trabalho"; que Maria Patrícia se tornara conhecida por

Você-me-mata lirase de que constantemente usava nos seus

extraviados e deCrites transportes amorosos"; que Maria-você-

-me-niata se tornara mulher de certo Apolinário, padre ou, pelo

menos reconhecido como tal, pelo Cônego Vilas Boas, vigário-

-geral e governador do Arcebispado do Rio de janeiro; que dessa

união nascera o político ou estadista depois enobrecido pelo

Império.

Outras vezes, a artistas, mecânicos ou taverneiros improvisados

em fazendeiros, senhores de engenho, estancieiros, barões, viscon-

des, a malícia porular não perdoou a origem. Marcou-os com a

pecha de "vilões . Tal o caso de Francisco Rodrigues Pereira

que, segundo Alexandre Rodrigues Ferreira na sua "Notícia His-

tórica Sobre a Ilha do Marajó" (de que se guarda ms. na Bi-

blioteca Nacional do Rio de janeiro), foi quem primeiro fundou

ali fazenda com fortuna acumulada no ofício de carpinteiro em

#

LOJA DE FAZENDAS, RUA DO CRESPO



NUMERO 10.

Venhei-se os mais ricos vestidos de seda

de cores cQm duas saias bordadas a ve!!'u-

do gosto inteiramente novo; cbapéos de

seda de superior qualidade para senhoras

a 18 000, ditos para menina a 12$ ; cór-

tos le vestido de tarialaria, bordados, fa-

zenda inteiramente no¥a e simpertor, gor-

gorão de lâa, çolorido o largo para colchas

o encosto do soffá a 1$500 o covado ; cór-

tos de cambraia de cores com Ires baba-

dos, fazenda muito moderna a 7# ; pentes

de tartaruga a Eugenio do mais moderno

modeW quê se tem visto. Nesta loja

existe'con-3tan temeu te um completo sorti-

Pato de fazendas de gosto, que se ven-

nnr barato preço.

1,:nxoval para noivos, casacas-Ex-

osição, roupas feitas finissimas,

rins Silva Braga, roupa branca, ao-

bretudos o sobre-ossacas Coutard.

roupinhas paracrianças, roupas para

luto, roupas para verão, roupas sob

modida, tudo esplendído e por pre-

,as resumidissimos (30 % de abati-

mentoy 96 ga Imperial Alfaiataria

Aguia de ouro, de F. A. Forreira do

Mello. aètualmente à rua do Ouvidor

R.30,

és Em]PQ


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Selim de masquim, fazenda (te lindos de-

senhos, de apurado gosto, para vestidos

de senhoras, que sabem apreciar o , o

bello ; ricas romeiras de frocos, de diie-

le

indo


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liZ

Pr o


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os de d 1



, rentes oores o enfeites; guarnição t -3

lhos deveslidós Lambem de frocos ; meias

1 5

nretas e brantas de algodão inuito finas o



amito elastícas, proprias pata vu~.ora.

gorda, ou de quem soffre das pernas.

na rua do Queimado n. 39, loja pintada

de amarello, na esquina da Congregação,

onde se darão as amostras

ANúNCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO MEADO E DO FIM DA ERA IMPERIAL

relativos a estilos de convivência ainda patriarcal e já urbana em algumas

das então principais áreas do PaíS (Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio

Grande do Sul). Grupo IV.

SOBRADOS E MucAiw~ - 1.0 Tomo

281

vila ou povoação: ficou conhecidoXor " o ViRão". E vilão parece



0.

ter se conservado ele> de certo mo ' depois de senhor de terras

e de bois, sob a forma de fornecedor de carne à vila ou cidade,

a dois vinténs o arrátel. Mas já agora vilão "coronel" ou "capitão".

Vilão de botas de montar a cavalo. Vilão dono de terras, de gado,

#

de escravos.



Em Pernambuco outro vilão-vilão no sentido de residente em

vila ou cidade-chamado Gabriel Antonio, tornou-se senhor de

engenho sem saber, entretanto, trocar por botas de montaria os

tamancos de português enriquecido em tavema. E ate barões fi-

caram conhecidos noutras províncias do Império por "barões de

tamancos". A verdade, porem, é que desde os fins do século XVIII

foi se verificando no Brasil-nas áreas mais europeizadas-consi-

derável invasão das atividades industriais e até mercantis por

gente nobre mais afoita em desembaraçar-se do preconceito

ruralista.

Andrew Grant: observou que a atitude dos homens de prol do

Brasil dos começos do século XIX com relação às atividades

industriais vinha alterando-se nos "últimos poucos anos". Até

mesmo os "inveterados preconceitos" contra o comércio, da parte

dos nobres, vinham modificando-se sob a "crescente liberalidade"

-ou liberalismo-da época. Vários deles, nobres, estavam ligados

a manufaturas estabelecidas no Rio de janeiro. Um "gentlenwn

of high rank" levantara uma casa de beneficiar arroz, empre-

gando aí cerca de cem escravos."

Era pena-para o observador inglês-que, ao lado do desen-

volvimento das indústrias, das artes e do comércio, continuasse o

Brasil a importar negros como se importasse gado. 0 que sucedia

era o senhor branco, mesmo quando morador de "mansões" sun-

tuosas-isto é, casas-grandes e sobrados-ser criatura mais degra-

dada e infeliz que o escravo.

Realmente sucedeu, no Brasil, verificar-se a transigência da

parte intelectualmente mais avançada da nobreza rural com as

indústrias, com as artes, com o próprio comércio-com ingresias

e até com francesias essencialmente burguesas-sem que se veri-

ficasse o abandono do sistema de trabalho escravo. Nessa com-

binação de contrastes, anteciparam-se Minas Gerais e, de certo

modo, Pernambuco, no século XVIII e no próprio século XVII.

Mas onde o contraste tomou-se mais evidente, cremos que foi

no Maranhão dos princípios do século XIX-ao mesmo tempo tão

rotineiro e tão progressista.

"Instrumentos agrarios não ha, senão a simples enxada, e ma-

china senão o miseravel escravo... As conduções em geral são

feitas pelos rios e algumas que se fazem por terra são em carros

de bois, ainda mais defeituosos que os que se usão em Por-

I i


#

282 CILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 283

tugal. . ." Assim escrevia em livro publicado em Lisboa em 1822

-Estatistica H isto rica-Geographica da Provincia do Alaranhão

ofterecida ao Soberano Congresso das Cortes Geraes-Antomo

Bemardino Pereira do Lago.10 Observava mais haver naquela

área colonial brasileira, apesar do alvará de 5 de janeiro de 1785

que proibira fábricas ou indústrias no Brasil, "fabricas de des-

cascar arroz, de descaroçar algodão, de fazer assucar, de distilla-

ções e de tecer pano de algodão". Fábricas movidas antes a braço

de escravo que a máquina: "[ .... ] podemos dizer jue a força

motriz de todas he só a resultante de muitos braços e escravos,

parecendo aquellas fabricas mais huma masmorra d'Africa que

interessante e agradavel edificio de industria"."

Vê-se por depoimentos como este que a área maranhense-eno-

brecida desde o começo do século XIX por sobrados rivais dos

baianos e dos pernambucanos-antecipou-se à paulista, do café

-que só mais tarde seria enobrecida por tais Sobrados-e acom-

panhou de perto a da mineração-desde o século XVIII famosa

por cidades bem edificadas-como área de precoce ou prematura

industrialização, mas não de mecanização, de sua economia, que

continuou a basear-se, tanto quanto a agrária, ou ainda mais que

a rusticamente agrária, na energia ou no trabalho do escravo.

Perdeu, entretanto, sua organização social, com aquela anteci-

pação, alguns dos traços mais doces de familismo tutelar ou de

patriarcalismo benevolente. Explica-se assim terem sido aquelas

três áreas caraterizadas, nas suas fases de precoce industrialização

da economia, por um abandono do escravo pelo senhor ou por

uma exploração do operário-reduzido à condição de substituto de

máqu . ina-pelo patrão, que não caraterizaram nem o Nordeste

agrario nem o Rio Grande do Sul e os sertões pastoris, nas suas

relações entre senhores e escravos ou servos: entre senhores de

engenho tutelares e escravos quase pessoas da família; entre fa-

zendeiros e estancieiros, igualmente tutelares, e servos quase

pessoas de casa.

Tais relações teriam de refletir-se, como se refletiram, na ali-

mentação dos escravos que, nas areas industrializadas, alterou-se

quase sempre no sentido de sua degradação, desde que ao indus-

trial precoce-como foram o mineiro, desde o século XVIII, e o

maranhense e o paulista, desde o começo,do século XIX-interes-

sava mais esgotar rápida, comercial e eficientemente a energia

môça do escravo (substituto de máquina e não apenas de ani-

mal) que prolongar-lhe a vida de pessoa servil e útil-mas pessoa

ou, no mínimo, animal-através de alimentação f~rta e protetora-

embora com aparência de rude-e de habitação igualmente pro-

tetora-embora com caraterísticos de prisão: as senzalas de pe-

dra e cal.

Foram estes os escravos-evidentemente a maioria da popula-

ção escrava da época colonial e dos primeiros decênios do Im-

pério, dado o fato de que o Brasil ortodoxamente patriarcal foi

#

antes agrário e pastoril que industrial e urbano como na área



de mineração-que impressionaram os observadores estrangeiros

mais enetrantes e mais objetivos nos seus reparos sobre condi-

ções Xé vida e de alimentação que pareceram a vários deles-Tol-

lenare, Pfeiffer e Hamlet Clark-superiores às dos operários ou

camponeses europeus e livres da mesma época.

0 que conhecemos, por outras fontes de informação, do regime

alimentar daqueles escravos que foram os típicos-e não os atí-

picos-do nosso sistema patriarcal, autoriza-nos a generalizar ter

sido o escravo de casa-grande ou sobrado grande, de todos os

elementos da sociedade patriarcal brasileira, o mais bem nutrido.

Nutrido com feijão e toucinho; com milho ou angu; com pirão de

mandioca; com inhame; com arroz-dado pelo geografo alemão

A. W. Sellin como, em algumas regiões brasireir~s, "alimento

fundamental"12 " para os escravos. e não apenas para os senhores.

Também o quiabo, o dendê, a taioba e outras "folhas", outros

verdes" ou "matos" de fácil e barato cultivo, e desprezados pelos

senhores, entravam na alimentação do escravo típico. São "matos"

cuja introdução na cozinha brasileira-em geral indiferente ou

hostil à verdura-se deve ao africano: como Tituteiro ou cozi-

nheiro, contribuiu ele-principalmente através a chamada "cozi-

nha baiana"-para o enriquecimento da alimentação brasileira no

sentido do maior uso de óleos, de vegetais, de '1olhas verdes".

E até-com os Malês-de leite e de mel de abelha. Escravo, o

africano foi, de modo geral, elemento melhor nutrido que o negro

ou o mestiço livre e que o branco pobre de niucambo ou pa-

lhoça do interior ou das cidades, cuja alimentação teve que li-

mitar-se, de ordinário, ao charque ou ao bacalhau com farinha.

Melhor nutrido que o próprio senhor de engenho ou o fazen-

deiro ou o dono de minas quando meão ou médio nos seus re-

cursos-e os fazendeiros ou senhores de engenho de,se tipo foram,

entre nós, a maioria-de alimentação também caraterizada pelo

uso excessivo do charque e de bacalhau mandados vir das cidades,

junto com a bolacha, o peixe seco e a farinha de mandioca. En-

quanto à mesa do estancieiro, farta de carne fresca ou sangrenta,

parecem ter sempre faltado o legume, e, por muito tempo, o

arroz, ausente também da mesa do sertanejo do Norte, farta ape-

nas de queijo e de carne chamada de-sol ou de-vento; e tão

pobre de legume quanto as outras mesas de patriarcas.

Quanto à mesa dos ricos senhores de casas-grandes e dos so-

brados mais opulentos, não nos esqueçamos de que foi ela quase

sempre prejudicada pelo excesso de conservas importadas da

#

284 GiLBFRTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMMOS - lao TOM0 285



Europa, em condições de transporte que estavam longe de com-

parar-se, do ponto de vista da higiene ou da técnica de conser-

vação de alimentos, com as dominantes no século atual. Doride

muito alimento deteriorado ou rançoso consumido pela gente

nobre dos sobrados que desdenhava das verduras ou matos frescos,

comidos pelos negros ou pelos escravos.

São pontos, estes, que devem ser recordados com insistência

contra a generalização, baseada quase sempre no sentimentalismo

antiescravocrático ou no furor doutrinário dos que desejam aco-

modar a história das sociedades patriarcais a este ou aquele ismo,

de que, em tais sociedades, o escravo foi sempre e sob todos os

aspectos, um "mártir", um "sofredor", um "irial-alimentado". A

verdade é que houve sociedades, como a brasileira, nas quais, de

modo geral, o escravo das áreas ortodoxamente patriarcais-as

caraterizadas pelo maior domínio de família tutelar-tiveram um

tratamento, um regime de alimentação, um gênero de vida supe-

riores aos dos escravos em áreas já industriais ou comerciais,

embora ainda de escravidão, caraterizadas pela tendência à im-




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