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exceção ou outra, os donos eram portugueses. De portugueses,

muitas tavernas e padarias-novídade, as padarias no Brasil, do

século XIX, certo como e que durante a era colonial foram raros

entre nós os padeiros públicos, amassando-se quase sempre em

casa o pão de trigo feito para os raros europeus intolerantes do

beiju ou da farinha de mandioca ou da broa ou do cuscuz de

milho;. e quase ~todas as tavernas, padarias e lojas situadas nas

#

.Erincipais ruas 1, ao contrário das de brasileiros, colocadas em



ecos tapados", "travessas", "camboas"; e instaladas em casebres,

em contraste com os vastos sobrados nos~ quais acabavam espa-

lhadas as mercadorias dos portugueses prosperos, moradores com

seus caixeiros nos andares mais altos dessas fortalezas comerciais.

já não era, como outrora, tão forte o preconceito contra a mer-

cancia da parte dos brasileiros, porque o crítico d0 Conciliador,

falando por considerável corrente de opinião ou sentimento, opu-

nha à palavra dos que consideravam os portugueses "tão bons"

que aqui ficavam -casados com nossas filhas"-vários com mes-

tiças ou mulatas, pelas quais ficou célebre sua predileção-o argu-

mento de que não era para ficar nas cidades e casar com as

.'nossas filhas" que abriamos o Brasil aos estrangeiros mas para

que eles viessem trabalhar nos campos: "porque o Brasil é agri-

cola e offerece grandes vanta ens a quem vem esfaimado procurar

o pão; porem as nossas cidaJes não podem nem devem admittir

esses "estrangeiros" que "não trazem corrisigo mais que fome,

cebola e estupidez". Que viessem portugueses ou estrangeiros para

trabalhar nos campos. Que viessem portuguesas "de doze a vinte

annos de idade para na qualidade de amas substituirem as afri-

canas que tão prejudiciaes nos são na educação das nossas fa-

milias". Mas não portu. ueses que continuassem a se apossar do

comércio de retalho e Na cabotagem, reduzindo os brasileiros "à

condição de escravos". Não portugueses que, a título de ado-

tivos, viessem participar da nossa política, alguns "dando dinheiro,

para se guerrear, aos brasileiros, nas eleições" e "todos agradando

os homens do poder contanto que os deixem desfrutar esse ma-

nanciçil de grandeza..." De modo que a 12 de julho de 1850 a

linguagem de redatores de jornais como 0 Conciliador continuava,

com relação aos estranjeiros, quase a mesma dos panfletários

dos dias, ainda quer e sangue, da Revolta Praieira. A mesma

linguagem daqueles outros nativistas que, no Rio de janeiro, pelo

0 Homem do Povo Fluminense (24 de dezembro de 1840) cha-

mavam aos portugueses "esta raça de judeus", acompanhados no

furor antilusitano por 0 PavilUo Nacional (1850), 0 Sino dos

Barbadinhos (1840), A Sineta da Misericórdia (1849). E a ati-

tude de muitos brasileiros já agora era a de que o comercio-

outrora atividade considerada inteiramente vil-devía ser deles,

filhos da terra; e não de "adotivos" e de estranhos que estavam

constituindo-se em poder, na verdade, maior que o dos senhores

de terras trabalhadas or escravos em volta de casas-grandes cujos

donos dependiam e Ta vez mais'dos negociantes de sobrados.

#

270 GILPERTo FRYYHE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tc)mo 271



Um dos pontos destacados pelo jornal A Revolução de Nevem-

bro,4 em seu editorial de 29 de setembro de 1850, foi precisa-

mente este: a "classe dos agricultores" estava reduzindo-se a uma

classe de "pessoas arruinadas pelas dividas immensas que con-

trahem com os portuguezes. . ." 0 editorial tocava noutro pro-

blema de interesse particular para este nosso estudo: o de que

11 os filhos dos portuguezes 11 eram pelos pais considerados seus

inimigos e "substituidos em suas casas, em seus legares, em suas

riquesas, por outros portuguezes, por meio de casamentos com

suas filhas. . ." Os filhos brasileiros ou mestiços tornavam-se "os

miseraveis das sociedades", isto é, das sociedades comerciais orga-

nizadas pelos pais lusitanos que, por uma perversão, econômica

e sociologicamente explicável, do sentido-para não dizer "ins-

tinto'~ ao modo de Veblen-de continuidade patriarcal de poder,

favoreciam as filhas nas pessoas dos genros vindos de Portugal

como caixeiros. Caixeiros quase impossibilitados, pela sua con-

dição de indivíduos nascidos em Portugal, de dispersarem a "for-

tuna da casa" tornando-se romanticamente poetas, políticos, advo-

gados, doutores, bacharéis, intelectuais brasileiros.

Amigos das mestiças ou mulatas, os portugueses temiam nos

mestiços ou mulatos-mesmo quando seus filhos-o romantismo

boêmio de brasileiros que, desdenhosos da mercancia e empol-

gados pelas rofissões liberais, pelas belas-letras, pelas belas atri-

zes, pelo bef-canto, comprometessem a continuidade da riqueza

feia e forte conseguida e acumulada com esforço às vezes heróico,

embora prosaico e desacompanhado de qualquer mUsica: violão

era para brasileiro. Modinha também,

Também banho, sabonete, perfume. 0 caixeiro português enri-

quecia com sacrifício do ~,róprio, asseio do corpo, no 1 à

(Clima


5

vezes se exagei eiro. Como se exagerava na oê Í

às vezes turbulenta. Temiam os portugueses do Reino na plebe

de ente de cor o ódio de miseráveis e, principalmente, de ma-

lanáros ou vadios-os capoeiras do Rio de janeiro, de Salvador

e do Recife, por exemplo-contra eles, portugueses, mercadores

ou ainda caixeiros de sobrados e de loja, enriquecidos penosa-

mente no comércio de charque, de bacalhau, de azeite, de vinho;

e n~- arpnas no de escraves,

A rivalidade, tão forte, durante o século XIX, naquelas cidades

do Brasil ao mesmo tempo comerciais e acadêmicas como o Rio

de janeiro e São Paulo, no Sul, e Salvador e o Recife, no Norte,

entre estudantes e caixeiros, às vezes envolveu filhos branC03

ou mestiços de negociantes po rtugu eses-estu dantes em escolas de

Direito ou de IMedicina, onde encontraram-se ao lado de filhos

de senhores de engenho, de fazendeiros, de militares e de altos

C,

funcionários públicos-e futuros cunhados desses rapazes, isto é,



#

caixeiros de armazéns, de lojas, de trapiches çjue tornaram-se,

q ase sempre, os continuadores dos sogros armazenários, trapi-

u9

cheiros, negociantes. Foi rivalidade que tomou às vezes as ectos



pitorescos como o monopólio que pretendiam ter os estuSantes

-e trajar, como os doutores, sobrecasaca e, como eles, usar car-

tola, bengala e botina preta em contraste com os caixeiros, obri-

gados pelo duro trabalho cotidiano de balcão ou trapiche a con-

servarem-se de mangas de camisa e, às vezes, de tamancos. Só aos

domingos os estudantes ficavam à fresca-às vezes até escandalo-

samente nus-nas suas "repúblicas", geralmente em seguceiros andares de sobrados. Enyanto os caixeiros desciam de- seus

a a


a

castelos"-quase sempre insta ados nas águas-furtadas ou nos

andares mais altos dos sobrados dos armazéns ou das lojas, onde

lhes era patriarcalmente servido, durante a semana inteira, pelos

patrões mais generosos, almoço bom e farto (su erior ao da

maioria dos estudantes, boêmios cujas mesadas cX se esgota-

vam, passando eles então a economizar na alimentação), em

mesas que tinham alguma coisa das mesas hospitaleiras das casas

de família mais ricas e acolhedoras. Desciam os caixeiros às

ruas e às praias, aos cafés e às cervejarias, nos dias úteis

triunfalmente ocupados por estudantes, por doutores e mili-

tares. Só aos domingos, eies, caixeiros, apareciam bem ves-

tidos, bem perfumados e às vezes bem lavados, alguns até de

brilhantes nos dedos e nos punhos da camisa e de bengalas com

castão de ouro ou de prata como se fossem estudantes ou já

doutores. E a bengaladas é que se decidiam entre os dois grupos

rivalidades em torno de atrizes ou cômicas de teatro. Um inci-

dente entre caixeiro português e estudante brasileiro fez explodir

no Recife o mata-mata-marinheiro de 1848: um dos aspectos da

complexa Revolta Praieira-tão complexa que teve também algu-

ma coisa de socialista, igualitarista ou populista, dentro do seu

nativismo quase feroz contra portugueses e europeus.

Explica-se, em parte, que o negociante português preferisse

para primeiro-caixeiro o genro portugues ao próprio filho, mes-

tiço ou apenas nascido rio Brasil, em face da disciplina severa a

ue tinha de submeter-se nos armazéns e lojas o caixeirinho vindo

e Portugal para o nosso País, quase como escravo. Escravo louro

cuja formação se fazia dentro do próprio armazém despotíca-

mente patriarcal e monossexual. Crescia ele sob uma disciplina

que muitas vezes faltava ao filho do próprio português, mimado

pela mãe e educado por ela e às vezes pelo pai de modo a parecer

filho de senhor de terra ou de engenho e não de mercador ou

taverneiro. E não era de filho de senhor de terra ou de engenho

que precisava uma casa de comércio para continuar próspera ou

simplesmente forte. E sim daqueles quase escravos louros que

#

272



GILBERTO FREYRE

aqui chegavam, das aldeias portuguesas, uns inocentes de oito,

nove anos. Em seu número de 6 de setembeo de 1849, no artigo

"Portu ral e Brazil" comentavÉt a Revista Universal Lisbonense 5

.9

que a quasi totalidade da emi ração ortugueza~iXara o Brasil,



a

9 a


consistia, até há poucos anos, em inSividuos d ade infantir.

É que no Brasil eram os mais procurados para caixeiros e ate

para trabalhos de fábricas: os meninos de dez, doze, treze, qua

torze anos: "Precisam-se de alguns meninos de idade de 12 a 14

annos, particularmente portuguezes, para fabrica de charutos",

dizia um anuncio no Diário de Pernambuco de 4 de dezembro

de 1841. E pelo mesmo Diário de Pernambuco de 21 de outubro

de 1841 oferecia-se um "moço portuguez" para "armazern de as

sucar" ou para "cobranças". "Um rapaz portuguez chegado a pouco

dezeja-se empregar em qualquer arrumação: quem o pretender

dirija-se à rua da Cadeia, Botica, D. 5 ou annuncie", dizia outro

anúncio no Diário de Pernambuco de 8 de fevereiro de 1842.

No mesmo jornal~ de 11 de fevereiro de 1842, anunciava-se um

-moço portuguez . que sabia "sofrivelmente contar e escrever",

para loja de fazenda: tinha apenas 14 anos. E ainda no Diário

de Pernambuco, de 11 de janeiro de 1840, aparece anunciado

um menino portuez para caixeiro de uma loja de fazenda, tem

bastante pratica, Sue idade de 13 a 14 annos, sabe bem ler e

escrever..." No mesmo Diário de 12 de outubro de 1844 apa

recia "Um Portuguez" lamentando: "[ .... ] não me he possivel

ver a sangue frio o escandaloso trafico q. ha tempos certos nego

ciantes fazem em transportar das Ilhas dos Açores immensos

pass 1 os a maior ~arte "sem passaportes" para serem

r

veriZois como "vis escravos



Às vezes os caixeiros fugiam, como os escravos: tal o caso de

José Manuel Arantes que fugiu da casa do comercianter. Joaquim

Guimarães, segundo anuncio que este publicou no Diário de Per-

nambuco de 15 de fevereiro de 1843: anúncio um tanto parecido

aos de escravos fugidos. E anúncios desse sabor encontram-se

com freqüência nos jornais da época. Mesmo com os riscos de

fuga, porém, eram os meninos portugueses que os negociantes

preferiam para caixeiros de lojas e armazéns.

A 11 de março de 1852 iniciava a Revista Universal L~çbonense

a publicação de si ificativa série de artigos "A Defeza dos Por-

tuguezes no Brasif. Transcrevia-se no primeiro artigo de um

jornal brasileiro: "0 lavrador brazileiro remette do interior os

seus productos ao negociante portuguez [ .... 1 mas quando er-

tende [sie] para seu filho um logar de caixeiro encontra-s, face

a face com uma negativa brusca e desabrida-os brazileiros não

#

dão para o commercio, não se ageitam.. ." 0 negociante por-



tuguês preferia aos filhos de lavradores b rasil eiro s -rapazes que

SOBRADOS E MucAmBos - 1.' Tomo

273

ele sabia viciados pela vida, demasiado solta e irresponsável, de



filhos de pequenos senhores quase feudais-os portuguesinhos que

lhe chegavam virgens do interior de Portugal: "[... j creados ao

pé da i~abiça do ~rado, da enxada; precisando de trabalhar para

ganhar 9 ao quotidiano desde que souberam andar [ .... ] cos-

tumado Sésde o nascer ás privações...", dizia o autor de "A

Defeza, dos Portuguezes no Brazil", no seu segundo artigo, na

Revista Universal Lisbonense de 18 de março de 1852. A esses

adolescentes ou meninos de Portu al não podia convir a aven-

tura agrária ou pastoril nos sertões No Brasil. Não chegavam aqui

senão com os próprios corpos-que às vezes serviam para os

Fatro-es mais econômicos de corpos de mulher. COM que meios

Zantaria um deles estabelecimento de lavoura ou criação? "Para

isso é mister possuir terras e braços mas elle não tem meios para

comprar nem uma nem outra coisa. Forçoso lhe é consequente-

mente seguir a profissão mais apropriada ás suas circumstancias

e efi-o no commercio aonde para principiar lhe basta fazer-se

caixeiro." Palavras do autor da "A Defeza"-o bacharel formado

em Coimbra João Antônio de Carvalho e Oliveira-no seu segundo

artigo, provocado nincipalmente por agressoes aos comerciantes

portugueses estabSecidos no Brasil da parte de 0 Argos Mara-

nhense no seu numero 11, do ano de 1851.

Interessa-nos do terceiro artigo da série-o de 25 de março

de 1852-o ponto em que o defensor dos portugueses rebate com

evidente vantagem a afirmativa de 0 Argos Maranhense de des-

denharem os comerciantes e artistas lusitanos, estabelecidos no

Brasil, a gente de cor do mesmo ofício ou atividade: "Percorram

os redactores do Argos as officinas do ferreiro, sapateiro, alfayate,

carpinteiro, marceneiro, ou quaesquer outras, e lá acharão mui-

tissimos portuguezes trabalhando no meio da gente de cor, ao

passo que nenhuns ou bem raros brazileiros brancos ahi toparão.

Percorram as quitandas e ainda ahi encontrarão bastantes portu-

guezes que quasi somente vivem com a ultima classe. E se o

Argos averiguar bem até por essas casas achará não poucos

portuguezes cercados de filhos, mesmo legitimos, que pelo lado

materno pertencem à raça africana. 11

Entretanto, não eram poucos os brasileiros brancos e pobres

Jue não faziam serviço militar nas fileiras-mas só como oficiais-

a Guarda Nacional, para não se ombrearem com gente de cor.

Neste particular-o ânimo de confraternização com a gente de

cor-parece que raramente o português pobre deixou de ser no

Brasil o europeu mais pronto a dissolver-se em descendência mes-

tiça. Sua predileçao pelo nr ~ português como seu sucessor na

direção do armazém ou da oja é evidente ue obedeceu a motivos

#

2 icos e não à rígida solidariedade e raça européia ou de



econom 2

#

274 G11-13ERTo FBEYRE S013RADOS E MUCAMBOS - 1.0 ToNfo 275



sangue puro. 0 que ele temia no b rasileiro-m esmo no brasileiro

seu filho-era a aversão à rotina comercial, ao duro, monótono

e então sujo trabalho de balcão, de loja, de armazém.

Mais de um português no Brasil chegou a ser assassinado pelo

próprio filho. "Est'outro dia um brazileiro adoptivo foi assassi-

nado em sua casa por um de seus filhos"-recordava o autor de

"A Defeza" no seu artigo de 8 de abril de 1852 na referida Re-

vista Universal Lisbonense. Casos raros, raríssimos, e que não

corpo do Cominercio da Bahia". R presentação de que se encon-

tra o ms. na Seção de Mss. da Biblioteca Nacional do Rio de

janeiro.6 E em 1822, nos Annaes Fluminenses de Sciencias, Artes

e Lítteratura, publicados no Rio de janeiro por "huma Sociedade

Philo-Technica" já se combatia "a odioza dístinçam de Mechanicos

e LiberaeS".7 Pois "todas as Artes uteis sarri tanto mais nobres

quanto mais necessarias r( ara a mantença da sociedade~'. 0 co-

mércio, anta

v joso -- quer nação, devia ser prestigiado do

justificariam nunca a generalização de terem sido em qualquer mesmo modo que as artes e as indústrias. "Á elle sarri devidas

época os brasileiros, filhos de negociantes portuguezes, parricidas as grandes massas que ornam as frented e

fachadas dos mais so-

sistemáticos. Tais parricídios, porém, ocorreram. E tendo ocor- berbos edificios, os aquedutos, as ricas mobilias, os utencilios. .

."

rido, parecem mostrar que houve em muitos brasileiros filhos de (pág. 11). Por isto mesmo, devia-se deixar correr o ouro ou a



portugueses-moços a seu modo rornáriticos-a revolta, que só em prata. Acabar-se com a prática do "metal enthesourado", isto é,

raros, raríssimos, chegou àquele extremo, de homens inconfor-. o ouro ou a prata, a moeda ou o dobrão, uardado em casa,

mados com a ascendência, sobre eles, de cunhados nascidos em escondido debaixo dos tijolos das casas ou Sentro das paredes

Portugal. Não foram poucos os bacharéis, doutores ou intelectuaís dos sobrados, às vezes no interior dos

santos de pau oco nos

brasileiros, filhos de portugueses, que se fizeram notar pelo ardor oratórios ou nas capelas.

da lusofobia: es écie de substituição ou compensação à fúria par- Se desde os começos do século XVIII

os reis de Portugal vi-

ricida. 0 caso Ye mais de um Casimiro de Abreu do século XIX: nham S, restigiando os "mascates" e negociantes contra os excessos

adolescentes brasileiros que, influenciados por "paixões român- de po er econômico e político desenvolvidos pelos senhores de

ticas", de origem principalmente literária-e essa origem lite- terras brasileiramente feudais, agora-começos do século XIX-era

rária, francesa, inglesa ou alemã-revoltaram-se contra o patriar- na própria imprensa brasileira que se

esboçava a glorificação da

calismo não já rural ou, a seu modo, feudal, mas urbano e co- figura do comerciante, da do industial, da do artista, aos quais

mercial. Sentindo-se inconformados com a condição de caixeiros se foi atribuindo função importantíssima na vida já quase na-

ou enojados dela e alarmados com a perspectiva de se estabfli- cional do Brasil. -

zarem. em comerciantes prosaicamente sólidos, gordos e rotineiros, Em 1821 já havia quem, no Rio de

janeiro, desejasse "ardente-

-foram ao outro extremo. entregaram-se à boêmia, à vida de café, mente que a Industria Nacional deste Reino Unido se anime mais"

às mulheres, ao jogo; deixaram-se fascinar pela própria tísica, e, para tanto, abrisse no Rio de janeiro "com permissão de S. A.,

doença dos românticos, dos poetas, dos boêmios. huma subscripção annual com cujo producto se vão comprando

Isto sem nos esquecermos de que houve caixeiros-e não apenas Machinas ou Modellos". Máquinas ou modelos com os quais se

11

comerciantes, industriais e artistas-que, desde os fins do século desenvolvessem entre nós a ind'stria, as



artes, o comércio, inde-

#

XVIII, foram se tornando conscientes da dignidade de sua con- pendentes do despotismo de produtor



estrangeiro. Esse pioneiro

dição pelo maior contato das cidades brasileiras com a Europa do industrialismo no Brasil-Reino-um

industrialismo identificado

já industrial, comercial, burguesa e até proletária, e das possi- com a dignidade brasileira-foi Inácio

Álvares Pinto de Almeida

bilidades do seu poder econômico tornar-se político e assumir de quem aparece significativo manifesto

no Diário do Rio de

aspectos enobrecedores ou decorativos das suas pessoas. Tão eno- Janeiro de 12 de setembro de 1821.

brecedores quanto as decorações conferidas a ?essoas e até a No mesmo sentido-no sentido de

favorecer-se o industrial ou

a

a

famílias inteiras pela posse de vastas terras cavoura e de es-o artista brasileiro-é a "Falla Dirigida ás Senhoras", publicada



cravos de eito em grande número. no mesmo Diário de 18 de setembro de 1821. Reprova-se aí "o

"A Agricultura he a fonte da Riqueza mas o Comniercio he quedepravado uso, em que estamos, de só nos vestirmos do que

poen engiro o fruto da industria da Agricultura", diziam, em

1808, em "Representação [ .... 1 perante ao Principe Regente, ue

os extrangeiros se não estabeleção com casas de negocio nos %o-

minios do Brasil pa. os não prejudicar", os negociantes ou "o

fabricão os Estrangeiros, a 2uem se dá o alimento que se nega

ao Artista Nacional, envian lo-se a remotos, climas o numerario

que, circulando dentro do Reino, o livraria do abismo de pobre

a que está reduzido". Contra isso, as senhoras poderiam -

#

276


GILBERTo FEtEYRE

privando-se de "usar de inimensas cousas que lisongeão o appe~-

tite, e ue não se fazem ainda, ou se fabricão mal, entre nós...

São âOcumentos expressivos do movimento de valorização social

daqueles brasileiros que concorressem para o engrandecimento

do País através do comércio, das artes, dos ofícios, da indústria,

por tanto tempo economicamente insignificantes e socialmente des-

prezíveis em face da quase exclusiva glorificação da figura do

grande senhor de terras que era também o chefe militar na sua

qualidade de sargento-mor ou capitão-mor nomeado por el-Rei.

Expressivo da valorização de novas figuras da economia e da

sociedade ainda patriarcais e já burguesas, tornou-se a concessão

de títulos de nobreza imperial a industriais e comerciantes: quase

sempre comerciantes que haviam começado a atividade comercial

como simples caixeiros. Varrendo lojas. Madrugando em armazeris.

Trabalhando como mouros nos trapiches. Donde a valorização,

também, da figura do caixeiro com possibilidades de tornar-se

comendador, visconde ou barão, mesmo quando menino da terra

como o futuro Barão de Mauá e não português importado de

remota aldeia para o Rio de janeiro ou Salvador, para São Luís

do Maranhão ou o Recife.

No meado do século XIX já era o caixeiro, quando filho da

terra, uma figura um tanto romântica, a favor de quem apresen-

tara-se na Câmara dos Deputados o projeto de 1848. já se íden-

tificava a causa do caixeiro com a causa da soberania nacional:

o caixeiro brasileiro era, como o artista brasileiro, alguém que

as leis do Império estavam na obrigação de defender dos rivais

estrangeiros. E essa defesa importou em sua valorização social e

até em sua romantização, embora em 1867 jornais como 0 Con-

servador (Recife) em sua edição de 27 de agosto, em artigo

intitulado "A Agricultura, o Cominercio e a Industria" ainda lamen-




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