Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página45/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   41   42   43   44   45   46   47   48   ...   110

por escrito as suas últimas vontades.

Depois das invocações habituais à Santíssima Trindade, aos Santos

da Corte Celestial e aos Anjos de sua guarda, de minuciosas disposições

sobre os enterros de ambos e o número avultado de missas de corpo presente

e de sétimo dia, passam à enumeração dos bens do casal.

Primeiramente vêm os bens de raiz: além do mencionado sobrado, pos-

suíam "três moradinhas térreas, de pedra e cal, em chãos próprios, em

Fora de Portas; quatro sítios, três pegados uns aos outros, no lugar das

Salinas, adiante da Igreja de Santo Amaro, e outro na Ponte de Uchoa,

onde costumavam passar as festas; no Sertão de Curimataú, quatro fazen-

das ou sítios de criar gado vacum e cavalos, sendo duas já com currais feitos

de pau-a-pique e açudes; no agreste da Ribeira da Mamanguape mais três

fazendas, a cargo de quatro vaqueiros escravos".

Em seguida resenham as jóias e alfaias, constantes de "duas libras

e quarenta e uma oitavas de ouro lavrado em várias peças; um breve gran-

de de diamantes em prata; outro de diamantes em ouro; uma jóia de dia-

mantes, e um topázio em ouro, um adorno de pescoço com seis quilates e

brincos e pulseiras de diamantes e aljôfares; uma corrente de braço de

ouro com diamantes; mais dois pares de brincos de diamantes e dois tran-

celins com dois cordões de ouro; wn relicário de pescoço com três voltas

de valor, com o peso que se achar, mais quatro flores de diamantes; um

laço de peito em ouro com diamantes, cinco anéis de diamantes, dois de

topázios e diamantes e um de esmeraldas, três pares de botões de dia-

mantes, de camisas".

No bem provido oratória contavam-se "o Senhor Crucificado com o

título de prata com letras de ouro e resplandor de ouro; São José com seu

varão de prata e com angélicas do mesmo e resplandor de ouro; a Senhora

Mãe do Povo e seu menino com resplandor de ouro; a Senhora Mãe do

Povo e seu menino com coroa de ouro; São José com seu varão de prata

e angélicas do mesmo com sementes de ouro de neve; o mesmo São José

e seu menino; Santana e São Joaquim, Santo Antônio e São Francisco de

Paula, todos com seus resplandores de ouro, e o Menino Jesus com res-

plandor e pendão de ouro e no peito uma medalha do Santo Ofício com

trancelim e diamantes, e no peito de Santo Antônio outra medalha do

Santo Ofício de ouro."

A prataria constava --- duma salva, urna caldeirinha com sua corrente,

uma cuspideira, uma dúzia de facas com cabos de prata, doze colheres e

doze garfos e de uma rl 7ia de colheres de chá, uma escumadeira, um es-

padim, um florete, um punho e fivela, um par de esporas, três pares

de fivelas de sapato, dois pares de ligas e um relógio de algibeira, corr,

corrente de prata e ponteiro de ouro."

Não arrolaram os móveis de suas casas de cidade e do campo; mas de-

clararam possuir em ambas "vários trastes de coser, uns tachos de cobre,

bacias de arame, almofariz, candeeiros e outras miudezas.-

Além dos mencionados quatro escravos vaqueiros, possuíam mais dez

outros, entre homens e mulheres, a oito dos quais, mandavam os seus

testamenteiros que depois do falecimento deles testadores, passassem "suas

#

cartas de liberdade e os deixassem ir em paz para onde muito quisessem".



Como se vê, já um século antes da lei de 13 de Maio havia abolicio-

nistas em Pernambuco.

A julgar do precedente inventário, o farmacêutico José de Abreu Cor-

deiro era homem bastante abastado para a época em que viveu; os bens

do casal estavam, porém, quase todos gravados de hipotecas e de dívidas

no valor de muitos mil cruzados; saldadas estas, libertos os escravos e

satisfeitos os numerosos legados a instituições pias e de caridade, o rema-

nescente do espólio caberia, como herdeira universal, à Irmandade das

Almas do Recife, com o compromisso de fazer celebrar um sem-número

de missas.

Falecendo D. Catarina em 1792, o seu marido acrescentou um codicilo

ao testamento, alterando-lhe algumas das disposições. Foi assim que resol-

veu conservar cativo o mulatinho Vitorino, primitivamente alforriado "em

benefício do mesmo pela pouca capacidade que lhe achava"; em compen-

sação, ao preto Antônio Canoeiro deixou forro, legando-lhe mais por esmo-

la, e para poder sustentar-se, uma sua canoa.

A previdência humanitária do boticário Abreu ia, desta forma, ao extre-

mo de assegurar aos seus ex-escravos os meios de subsistência, pois a todos

além da liberdade fez mercê de vários bens.

A roupa de seu uso, tanto branca como de cor, deixou ao seu afilhado

Máximo José de Abreu, cabo-de-esquadra do Regimento de Olinda, garan-

tindo-lhe ainda na hipótese de chegar a alferes, quarenta mil-réis por

uma farda.

Faleceu o boticário Abreu em 1794, e liquidado o seu espólio, parece

apurou apenas a Irmandade das Almas livres e desembaraçados os três

predios n.09 2 do Largo do Corpo Santo e 20 e 22 da Rua do Farol atual-

mente desapropriados para as obras do porto e a serem demolidos dentro

em breve.

Este pálido resumo, forçadamente minguado, mal pode dar idéia do ín-

teresse documental do testamento antigo que um acaso me fez versar ulti-

mamente..." (Diário Popular, São Paulo, 30 de maio de 1910).

162Luccock, op. cit., pág. 138.

163Luceock, op. cit., pág. 139.

MA. Bezerra Coutinho, 0 Problema da Habitação Higiênica nos Paises

Quentes em Face da Arquitetura Viva, Rio de janeiro, 1930. Também

Joaquim de Aquino Fonseca, Algumas Palavras acerca da Influencia Bene-

fica do Clima do Sertão de Pernambuco sobre a Phthysica Pulmonar e da

Causa mais Provavel da Frequencia dessa Affecção na mesma Provincia,

Recife, 1849.

Vejam-se, dentre os trabalhos mais recentes sobre o assunto: The Ar-

chitectural Use of Building Materials, publicação do Ministério de Obras

#

262



GNA-1ERTO FRFYB1;

da Grã-Bretanha, Londres, 1946; J. Compredon, Le Bois, Matériaux de

Construction Moderne, Paris, 1946; John B. Drew e E. 'Maxwell Fry, Village

Housing in the Tropics, Londres, 1946; Robert C. Jones, Low Cost Housing

in Latin America, Washington, 1944; J~ W. Drysdale, Climate and House

Design, Camberra, 1947; An Appraisal Method for Measuring the Quality

of Urban Housing, Washington, 1946; Anatole A. Solow, "Housing, in

Tropical Areas", Housing and Town and Country Planning, Lake Success,

1949, n.0 2.

165j. R. Lima Duarte, Ensaio Sobre a Higiene da Escravatura no Brasil

(tese), Rio de janeiro, 1849.

166Azevedo Pirrientel ocupou-se das doenças de que foram portadores

negros ou africanos trazJ3os para o Brasil como escravos e, antes de sua dis-

tribuição por fazendas, plantações, indústrias, etc., acumulados à sombra

dos sobrados urbanos do Rio de janeiro, do Recife e de Salvador numa

espécie de cortiços ao ar livre ou de mucambarías provisorias, capazes,

mesmo assim, de empestar as partes nobres da cidade.

167No Rio de janeiro, de tal modo cresceu o Valongo ou o espaço re-

servado aos negros nem sempre passivos ou submissos, recém-chegados da

África, que cronistas alarmados chegaram a considerar a cidade brasileira

1. sitiada" por essa subeidade africana (H. J. do Carmo Neto, 0 Intendente

Aragão, cit., pág. 27). Daí - do pavor dos senhores de sobrados a esses

mucambos dentro das próprias portas da cidade - providências como a da

Polícia da Corte, em edital de 1825, ordenando que 'todas as portas de

entrada das moradias de sobrados ou corredores de risa, térreas deveriam ser

fechadas logo que anoitecesse, salvo as que conservassern lampião aceso e

proibindo a negros ou mulatos, desde o cair da noite, ficarem parados, sem

motivo manifesto, nas vias públicas ou darem assobios ou fazerem outro

qualquer sinal equívoco. Antes de tornar-se, simples manifestação de mu-

lecagem de rua, o assobio foi temido como sinal de guerra ou conspira-

ção de malungos ou gentalha de cor contra os brancos dos sobrados. Veja-se,

sobre o assunto,' o significativo edital do Intendente Aragão - Francisco

Alberto Teixeira de Aragão, Intendente-Geral da Polícia d a Corte do Bra-

sil - publicado no Diàrio do Rio de janeiro de 31 de janeiro de 1825. Por

esse edital se vê também a importância do sino de igreja cristã no resguardo

ou na defesa da população cristã ou cristianizada de uma cidade como o Rio

de janeiro contra os "mouros na costa", agora sob a forma de escravos

recém-ch e gados da África: escravos aglomerados em mucambos nas vizi-

nhanças da própria cidade e negros ou mulatos vadios ou capoeiras. "De-

pois das dez horas da noite no Verão e das nove no Inverno até a alvorada",

diz o edita]; e mais adiante: " ... e para que todos saibão serem dez horas

da noite no verão e nove no inverno, o sino da Igreja de S. Francisco de

Paula e o Convento de S, Bento dobrarão pelo espaço de meia hora sem

interrupção, para não se allegar i,,nor,,incia."

1 1

11~'Az,,vedo Pirn-itel, op. cit.



~~MIAZINHA DE SOBRADO

#

(Desenho de Lula Cardoso AYres segundo retrato da época,



da coleção do autor.)

#

AINDA 0 SOBRADO



VI - E 0 MUCAMBO

FIXANCISCO DE SiERnA Y MARiscAL em suas "Ideas Geraes sobre

a Revolução do Brasil e suas Consequencias", chegou a es-

crever, sob a impressão, ainda quente, da independência política

do Brasil, que aqui o "Commercio se se quer he quem he o unico

corpo aristocrata. Os previlegios dos Senhores d'Engenho, do unico

que lhes servem he de os dezacreditar, por que estão auctorisados

até serto ponto para não pagar a ninguem. . ." E contra a idéia

geral de serem os senhores de engenho uma classe só, 'e esta

opulenta e bem nutrida, observava: "[ .... 1 qualquer pode ser

Senhor d'Engenho e lia muitas qualidades Xengenho. . ." Acres-

centando: "[ .... ] tem chegado a maior parte d'elles a tal estado

que para comerem carne de vacca duas vezes por semana e terem

hum cavaUo d'estrebaria se faz necessario que, morrão 200 pessoas

de fome, que são os escravos do Engenho, aquem lhes dão unica-

mente o Salobado livre para com seu producto sustentarem-se e

trabalharem o resto da semana para seus senhores".'

Daí terem os senhores de engenho-a maior parte deles-che-

gado aos princípios do século XIX elemento de perturbação, e

não de defesa, da ordem: . esta classe não forma Ordern", isto é,

ordem aristocrática no sentido de conservadora. Ao contrário:

pertenciam, em grande parte, à ordem democrata dos que "nada

tem a perder [ .... 1. Os Senhores d'Engenho estão nesta Ordem

por que he o partido das Revoluções e com ellas se vem livres

dos seus credores." Na mesma situação estava "a maior parte do

clero, pela mesma razão"; e também "os Empregados publicos que

ambeciorião os restos da fortuna'dos Europeos". Todos instáveis:

mesmo os aparentemente ricos pois raros cuidavam de conservar

ou desenvol0 resultado é que muitos, nascidos ricos, clielavam à velhice

desdenhosos de ofícios

melancolicamente pobres. Mas sempre

I SOBRADOS E N1uC.Ax1130s - L' ToNfo 265

mecânicos que abandonavam a europeus e a escravos. Daí o vio-

lento contraste entre europeus que aqui chegavam pobres e mor-

riam ricos e brasileiros nascidos ricos que envelheciam e mor-

riam pobres.

Sierra y Mariscal fixou o contraste entre o filho de brasileiro

nco que, apenas saído da infância, "porque o carinho patemal

lhe da Rendas soltas", degradava-se, e o filho de português que

chegava ao Brasil tendo deixado a "Caza Paternal" apenas com

,.suas p~? nas e fracas forças"; na falta de conhecido ou parente

~ 1


no Brasíl%zia do "portico d'huma Igreja o seu primeiro

leito e a sua primeira morada"; recebido "ou de Caixeiro ou de

Aprendiz não ha nada a que elle se não sugeste"; com a eco-

#

nomia e o trabalho" chegava a ter "grandes cabedaes"; uma vez



rico, che ava a ter "consideração"; desprezado pelos brasileiros

1

por ter Segado aqui pobre ou miserável, depois de rico, ele é



que desprezava os brasileiros por serem 'Iracos, irrimoraes, pre-

guiçozos e pobres"; e tendo, na sua mocidade de pobre, con-

traído relações com "mulheres pobres"-muitos, ~ederia Sierra y

Mariscal. ter acrescentado, com mulheres pobres cor, enquanto

outros, com filhas mestiças e ricas de patrões também portugue-

ses-"isto tambem tem sido hum elleinento de re roxes mutuos".

E ainda não tendo sido o portuguesinho aqui Zegado aos dez

ou doze anos, bem-educado na mocidade, raramente sabia educar

bem os filhos.

Mesmo assim, tornara-se o

dores como Sierra y Mariscal, "o

o mais estável na sua condição

comércio, no Brasil, para- observa-

unico corpo aristocrata", por ser

e o mais interessado na manu-

tenção do Estado tal como o concebia no Brasil o patriarcalismo

da época, isto é, um patriarcalísmo já um tanto mais urbano do

que rural nas suas tendências decisivas. Para esse patriarcalismo

o Estado era o pai dos pais de família. Principalmente dos mais

ricos, dos mais conformados com a ordem estabelecida, dos mais

ordeiros; e só dentro da ordem, mais progressistas. Estes amigos

da ordem e, apenas em segundo lugar, do progresso, já não eram,

no século XVIII, senão em número pequeno, os senhores de enge-

nho, os senhores de terras, os fazendeiros, tantos deles endivi-

dados e, como todos os endividados, predispostos à inquietação,

à revolta, à desordem; e sim os grandes do comérciol da indústria

e das proprias artes mecânicas consideradas ingresias em con-

traste com as francesias (que significavam principalmente novi-

dades em matéria de governo e de organização social e não ape-

nas de trajo).

Principalmente os grandes do comércio e da indústria das gran-

des cidades, tomaram-se os defensores por excelência da "Ordem".

Novos comendadores, novos barões, novos viscondes em cujo cham-

#

266 GiLBERTO FREYBE SOEHADOS E MUCAMBOS - 1.' TOMO 267



panha de dia de festa podia sentir-se, como no champanha de

certo negociante opulento do Recife enriquecido no comércio de

co, sentiu um humorista boêmio do fim do século XIX,

1

P eixe se



gosto de bacalhau"; mas que passaram a constituir uma força

mais sólida, na economia nacional, do que a nobreza da terra

com todo o aroma de mel de cana ue irradiava de suas terras,

de suas plantações, de suas fábricas, E seus tachos, de suas casas,

de suas próprias pessoas, outrora quase sagradas. Tão sagradas

que na era colonial se julgavam com o direito de não pagar dí-

vidas, de ínsultar credores, de adulterar produtos, embora consi-

derando-se sempre superiores aos .1 vilões", aos "traficantes", aos

. taverneiros", aos "mecânicos". Não imaginavam então que viria

época de mendigarem crédito, esse crédito que, em 4 de dezembro

de 1875, escrevia nA Província "Um Negociante", em "Breves

Considerações Sobre a Praça Comercial de Pernambuco", ter desa-

parecido para os senhores de terras da velha Provincia agrária.

Não foi, entretanto, o plantador ou lavrador na fase de tran-

sição da sede do domínio patriarcal no Brasil das casas-grandes do

interior para os sobrados das capitais-isto é, nas áreas do País

social e culturalmente mais importantes na época decisiva dessa

transição-vitima passiva ou inerme dos novos poderosos. Ele pró-

prio concorreu para sua degradação.

Como observava um cronista do meado do século XIX, se era

certo que os "desgovernos" do Império vinham fazendo a agri-

cultura definhar com o excesso de "tributos", dela exigidos em

benefício da Corte e das cidades, por outro lado, "os lavradores

dos nossos campos são ainda mais culpados e dignos da mais

aspep censura pelo desleixo e estupida miseria com que traba-

lhão . Ao trabalho escravo juntavam-se pragas como as de "for-

migas, bezouros, gafanhotos": "mas aceresce a tudo isto a man-

dreisse orgulhosa em que vivem a maior parte dos nossos pro-

prietarios de lavouras, respondendo com fofa basofia a tudo. . .",

julgando-se "os fidalgos da provincia", "os ricos da terra", os "pro-

tectores do commercio" quando "da forma em que vão são os im-

ostores da provincia, são os pobres da terra, são os sanguesugas

So commercio": "os tributos que pagão à nação não equival~em

aos calotes que pregão aos particulares, salvas algumas excep-

ções que são tão poucas como dias de sol em tempo de inverno".

Acrescentava o cronista, referindo-se principalmente à Província

da Bahia: "Falla-se em machinas, falla-se em apparelhos." Mas

em vez de chegarem OS ajrícultores a soluções concretas, dos

roblemas de substituição e escravos e animais or maquinas,

ficavam tontos com palavras e cálculos em torno Xé máquinas e

aparelhos; e continuavam explorando os negros e os bois, embora

sem cuidarem de sua conservação corno os antigos agricultores.

0 que primeiro deviam fazer cra ---darstimação aos .~se -avos e

#

aos bois, principais moveis ou utencilins da lavoura.. ." Em vez



disso, o que se via agora "por este desalmado recoiica~,G'~? Negros

alimentados com "uma triste i-ação de carne secca podre", sur-

rados e "tendo por botica e medico, purgante de sal e vomitorio

de Leroy, applicados estes remedios loucamente por uma negra

chamada enfermeira que por ser bruta no serviço do engenho e

removida para directoia do hospital; os bois, esses dão alguns

passos e puxão os carros opprimidos pelas cangas e fustigados

pelas espetadelas do ferrão: findo o trabalho são elles atirados

ao campo e alii ficão ao desamparo de dia e de noite, expostos

à chuva, sol e sereno; e se por maior desgraça o boi é novato no

sitio e não Eode saber dirigir-se a um certo charco chamado

tanque _, - - a no pasto, ahi morre elle berrando dairmado de

sede. E ainda se queixão da morte de escravos e da falta de

gado!" E sarcástico, caricaturesco, exagerado, notava que se res-

guardavam nos engenhos e fazendas da Bahia "os objectos ou

obras materiaes de ferro e de madeira, porque podem se estra-

gar". Mas não se resguardava o corpo dos bois: "o boi que morre

ao desamparo do campo devia ser iminediatamente esfolado e o

couro ser vestido no Sr. de engenho para andar de quatro pés

e outros animaes vivos fazerem delle o bumba meti boi",

Assim se expressava desabusado crítico do estado da lavoura

na Província da Bahía em artigo, "A Agricultura", que A Marniota

Pernambucana publicou a 30 de juibo de 1850, naturalmente por

se aplicar parte da crítica à situação de outras áreas do Imperio,

tão desintegradas ou minadas nas suas antigas bases patriarcais

de economia quanto o Recói)cavo. Era artigo em que também se

criticava a "agricultura dos qtiintaes", ou das "roças" ou "sitios"

em torno das casas de chácaras dos arredores de Salvador: roças,

em geral, "reduzidas a plantar capim tão somente, o que dá muito

má idéa da cidade aos observadores de fora. . ." Entretanto, por

essas casas e pelas ruas, era arande o número de "escravos ociozos

e desnecessarios", fora "um milhão de negras africanas e creoulas"

ocupadas em vender "mamões entupidos" e "cocadas remellosas

que o lucro que dão não serve nem para o concerto do taxo".

E sem contar os crioulinhos vadios-"crias de vóvó" que levavam

os dias inteires a quebrar telhados-as "cevadas creoulas [ .... ]

intituladas costureiras, rendeiias e bordadei-as" das quais havia

então em Salvador "um quarteirão em cada casa".~` Pois o crítico

não deixava de salientar que, em contraste com os negros de

eito do Recôncavo-xim Recôncavo já perturbado nas suas antigas

e doces condições de economia patriarcal pela introdução de má-

quinas noutras áreas tropicais-os domésticos e os sáurbanos e

urbanos, viviam no ocio ou quase no ocio, muitos deles bem ali-

#

268 GiL=To FRF.YFF SOMkDOS E MUCA?,~ - 1.1 Tomo 269



mentados e até cevados pelos senhores dos sobrados. Sobrados-

acentue-se sempre-já burgueses e ainda patriarcais onde o luxo

tomou relevos raramente atingidos pelas casas-grandes que para

alguns dos senhores de engenho mais ricos Ao Rio de janeiro, da

Bahia, de Pernambuco, desde a primeira metade do século XIX

assaram à condição de casas de campo, enquanto os sobrados

e cidade se elevaram à de palacetes onde os mesmos senhores

residiam mais tempo do que no interior. "Proporcionalmente ás

nossas circuinstancias creio que não ha no mundo cidade onde

o luxo tenha chegado a tão alto ponto como em o nosso Per-

nambuco", escrevia o padre d0 Carapuceíro em artigo "0 Luxo

no Nosso Pernambued, transcrito pelo Diário de Pernambuco de

31 de outubro de 1843. Era o luxo de senhores de engenho, resi-

dentes principalmente em sobrados urbanos, a rivalizar com o

dos negociantes fortes, seus comissários e armazenários, donos de

sobrados igualmente suntuosos.

Na mesma época, outro jornal, 0 Conciliador (Recife), em ar-

tigo publicado na sua edição de 25 de junho de 1850, reconhecia

estar a agricultura no Império "toda dependente do comrnercio"

e "conseguintemente delles", isto é, dos armazenários, taverneiros

e lojistas que, exagerando a realidade, dava como sendo todos

portugueses", alguns dos quais, tidos por "capitalistas honrados"

e "grandes negociantes", não passavam de "moedeiros falsos". De

9 ualquer modo, o Recife do meado do século XIX, a despeito da

Revolta Praieira% como que voltava a ser o do tempo dos mas-

cates, com os portugueses "senhores absolutos do commercio" e

alguns dos Cavalcantis, Regos Barros, Albuquerques Melos, Wan-

derleys, Aciolis, Sousa Leões, Carneiros da Cunha, amparados por

Çortugueses ricos que às vezes davam presentes de casas aos

ornens de governo, cavalgando, do alto de sobrados, os mora-

dores de casas térreas e de mucambos.

0 Almanack Commercial de Pernambuco, relativo ao ano de

1850,3 trouxe uma "lista de negociantes" que, analisada pelo 0

Conciliador, de 18 de julho do mesmo ano, resultava em demons-

tração da tese de que toda a força econômica do Império estava

passando de novo a mãos de portugueses, agora sob a forma de

trapicheiros e de outras figuras de comerciantes, dos quais de-

pendia grande parte da agora só aparentemente soberana nobreza

agrária. Dos lojistas de fazendas, poucos eram os brasileiros; das

casas de ferragens e miudezas e dos armazéns de recolher carne-

-seca e até dos de açúcar-a aristocracia do comércio-feita uma




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   41   42   43   44   45   46   47   48   ...   110


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
Universidade estadual
união acórdãos
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande