Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página40/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   ...   110

sofás, não se suponha que no século XVIII e nos yri~ncípios do

XIX fossem pretos, pardos, arroxeados, cor da propria madeira

nobre, de que eram feitos-em geral o jacarandá. Não; eram orien-

talmente pintados de vermelho e branco; ornamentados com pin-

turas de ramos de flores. Tais os que o observador inglês viu

nas casas do Rio. Alguns desses moveis rijos, pesadões, lhe infor-

maram que eram peças de quase cem anos-isto é, do começo do

seculo XVIII.158

Saint-Hilaire, mais indulgente que Luccock, louva algumas

salas de visitas que conheceu no Brasil. As paredes pintadas

de cores frescas. Nas salas das casas mais antigas, viam-se pin-

tadas figuras e arabescos; nas das casas novas, a pintura imitava

papel pintado. As mesas faziam as vezes das chaminés das casas

da Europa: era nelas que se colocavam os castiçais com as man-

gas de vidro, as serpentinas, os relógios.159 Gravuras, viam-se às

vezes. Os anúncios de jornal dão notícias de várias: as quatro

estações, cenas de guerra, retratos de heróis franceses e ingleseS.160

Também nos dão notícias de candeeiros para mesa chegados de

Paris como os que aparecem num anúncio do Jornal do Commercio

de 25 de outubro de 1848: "candeeiros para mesa, de pregar

na parede, suspender, etc., de todas as qualidades , e do "ultimo

gosto", Nas casas mais elegantes rebrilbavam os lustres como os

anunciados no JGrnal de 30 de outubro do mesmo ano pelo lei-

loeiro Carlos, ao dar notícia do Ieilão extraordinario" que fazia de

ordem e por conta da 11.--- Ex.ma Sr.a Baronesa de Sorocaba no

seu palacete da Ladeira da Glória.

A moda de arrumar os sofás e as cadeiras hierar uicamente

atravessou todo o século XIX, merecendo a atenção 2è Fletcher

quando aqui esteve por volta de 1850. 0 que desapareceu quase

por completo foi a moda de pintar os jacarandás nas casas. Nas

#

#



INHRRO

.IARDIM


01

POMAR


um ir em~

ALMOÇO COPA

111~ /Al

wn

C,91ADOS



VF5r1341L0 I

a . lijY,4k

00W Jin Ka jua

PRAIA L)E SOTAFOC~0

~ or NEM VE R!M Em

QUARTO 1 QUARrO XALA DE

1 em A ner R="

F840XIDOW

UZ

SA

'J0q0



Miff

J,4L A Of

w EZ W0 ~ qp ma Ir me

F£SrAS SALA DE QUARrO QUARrO

COSTUAM

ESCA DA 4



4 1023 RA D 0

CN

-V 4 F~ ~L



QUARro

#

I amw



1

PIANO XAIA AMAPRA X4LA VEROf

mal " ma i

SA CA Z


SOBRADO NOBRE DO RIO DE JANEIRO (1850) - RESIDÊNCIA DO BARIO

DE ITAMB1 NA PRAIA DE BOTAFOGO.

dARDIM

FORT40


Explicaçdo das plantas: 0 Bario de Itambi, proprietário do palacete, faleceu

em 1876, e a Baronesa, em 1881. Seus filhos continuaram a residir ali até a venda

do palacete, em 1889, ao Conselheiro Rodolfo Dantas, Que nele pretendia morar,

mas depois, o demoliu. Dona Evelina Nabuco. neta dos Barões de Itambi, all

pass~u sua infância e mocidade, e ditou. rogada, as seguintes reminiscências do

palacete, complementares à planta também traçada por ela:

M6VEIS E DECORAÇÃO

A galeria que circundava escada, no sobrado, era mobilada com quatro sofás,

a '

sendo um ao centro de cada parede. As visitas Intimas eram recebidas, às vezes,



nesta galeria. 0 teto de estuque, com clarabóia ao centro, era abobadado, tendo, nos

quatro ângulos,ar~edalhões afresco representando quatro estadistas brasileiros. A

sala Amarela, sim chamada por ter móveis e cortinas de seda amarela, era pouco

usada. 0 lustre e as arandelas, muito bonitos, eram de bronze. 0 tapete era

Aubussion, como nas demais salas deste andar (menos a de festas, de parquet). As

salas Vizinhas à Amarela eram uma verde, outra azul. Esta última, chamada Sala

do Piano, para distingui-Ia da Sala Azul do andar térreo, era usada quase diariamente.

A Baronesa costumava coser no sofá de seda azul, ao lado da janela, durante as

lições de piano das filhas. Nesta sala, havia um sofá chinês incrustado com madre-

pérola, uma cadeilra para duas pessoas chamada conversadeira, e, além do piano, urna

harpa. Na Sala Verde, ao centro, havia um sofá circular, de seda verde, com eixo

muito alto e enfeitado. Neste sofá as pessoas ficavam impossibilitadas de conversar.

Na mia de jogo a mobilia era de carvalho torneado e entalhado, e constava de duas

mesas de jogo, de um sofá forrado de couro, um aparador e varias cadeiras também

de couro, sendo que duas destas eram chamadas cadeiras de jogo. Podiam ser comoda-

mente usadas às avessas, à moda de selim, apoiando-se os braços no encosto, proposi-

tadamente baixo. 0 tope deste encosto estofado abria-se, formando caixa para

fichas, ete. Esta sala não era usada senão como passazem para a Sala do Piano.

0 Boudoir era mobilado de seda solferina. A mais antiga recordação de Dona

Evelina era desta sala, onde assistiu, aos três para quatro anos, ao casamento de sua

tia Carlotinha com o Senhor Plínio de Oliveira. Ali armou-se o altar.

A Sala de Festas servia todas as quintas-feiras para banquetes políticos. 0 Barão

de Itambi tinha força eleitoral no terreiro distrito, e era irmão do Visconde de

Itaboraí.

#

Habitualmente a família comia embaixo, na Sala de Alrnoço, que dava para o



jardim e pais o arco sob o qual se tornava a carruagem. Depois do jantar, reuniam-se

#

224



GELBFR,i,o FREiRE

igrejas ainda se encontram jacarandás e até azulejos pintados de

branco, é certo, porém, raramente. Surgiu no seculo XIX a moda

de enfeitar de rendas com lacinhos de fita vermelha ou azul, o

encosto das cadeiras-moda que chegaria aos fins do século.

Nas alcovas, camas enormes, os tálamos patriarcais quase-sa-

grados. "Camas bem-feitas porém nada modernas", reparou tola-

mente Luccock, que entretanto se viu obrigado a confessar que

os lençóis eram excelentes. Os colchões e os travesseiros eram,

muitos deles, de lã de barriguda. Raras as casas com lençóis de

cama sujos ou encardidos; só mesmo, talvez, aquelas onde fal-

tasse dona de casa ou mucama vigilante, como o casarão de

Noruega do Capitão-Mor Manuel Torné de ~esus 2, uando já viúvo,

velho e quase caduco. Aí o inglês Mans jeld z que teve de

dormir numa cama imunda. Caduquice ou sovinice cio velho Ma-

nuel Tomé. Porque sobre as camas dos sobrados mais ricos não

era raro verem-se colchas da India ou da China, tradição conser-

vada em Pernambuco desde o século XVI. Os já referidos irmãos

Gomes Ferreira que faleceram em Olinda em idade já muito avan-

çada, conservaram no seu sobrado do Pátio de São Pedro, até

1937, colchas e panos do Oriente, outrora comuns nas casas mais

opulentas do Recife. Haviam sido do sobrado grande de seus

avós, em Ponte d'Uchoa, famoso pelas festas presididas pela bela

Dona Ana Siqueira.

As camas, como em geral os móveis mais nobres, repita-se que

eram de jacarandá. Outras madeiras geralmente empregadas no

fabrico dos móveis dos sobrados foram o viríliático, o conduru e

o pau-santo. Também para as madeiras de construção e de móvel

o sistema patriarcal estabeleceu hierarquia. Só as madeiras nobres

deviam ser empregadas na construção das casas nobres. Só de

madeiras nobres deviam ser feitos os móveis das mesmas casas.

Desses móveis, alguns eram fabricados no Brasil. Outros, com

madeiras brasileiras, na Europa, por artistas requintados. Os anun-

cios de jornais da primeira metade do século XIX, nos falam de

móveis importados de Portugal, como os que aparecem no Diário

todos na Sala Azul ou, mais raramente. na Sala de Bilhar. Num canto desta havia

um estrado com cadeiras para melhor se acompanhar as partidas. E. nas noites de

bom tempo, ficavam no Jardim, junto ao portio aberto. para onde se traziam cadeime.

0 Vestíbulo era Pavimentado de mármore branco e preto e revestido, até certa

altura, do mesmo mármore, e tinha quatro ou cinco degraus rasos, em toda a largura;

depois vinha a escada de madeira, que, na parte superior, se abria em lance duplo,

próximos às portas da Sala de Festas.

COCHEIRA E ESTREBARIA

Na Cocheira havia um coupé, um landau, uma victoria e uma caleça, ou vis-a-vi8.

Na Estrebaria havia uma parelha de cavalos, que custavam na Argentina qui-

nhentas libras esterlinas e uma de bestas, para uso noturno ou com mau tempo.

#

(Desenho de L. Cardoso Ayres com base em informações



da Família Joaquim Nabuco ao autor.)

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

225

do Rio de janeiro de 20 de dezembro de 1821; de "berço de jaca-



randá construido em Londres" (Diário do Rio de janeiro, 7 de

março de 1822); de "trastes novos de jacarandá da última moda

lustrados a lustre Francez" (Diário do Rio de janeiro, 12 de se-

tembro de 1821). jacarandá cortado, polido, lustrado na Europa

ou por europeu ou com lustre francês mas jacarandá do Brasil,

com o qual não se podia comparar mogno ou carvalho algum

da Europa.

Usava-se muito o mosquiteiro. As muriçocas ou pernilongos

deviam ser terríveis naquela época de muitos pântanos perto das

cidades: as muríçocas e as moscas. Também as pulgas e mesmo

os percevejos. Havia mulequinhos e negrotas encarregados de

enxotar as moscas com abanos, do rosto dos senhores brancos

e das moças quando jantavam, dormiam ou jogavam. E queima-

vam-se ervas dentro dos quartos. Saint-Hilaire diz que nas partes

mais úmidas do Rio de janeiro a muriçoca era um horror e Debret

retratou senhores do mesmo -Rio de janeiro protegidos contra os

mosquitos pelos abanos dos negros. Sabe-se que Joaquim Nabuco

tinha suas saudades de Pernarribuco diminuídas pela má recor-

dação dos mosquitos.

Em volta da cama, uma variedade de balaios e de baús de

couro felpudo completava o quarto de dormir patriarcal, nos so-

brados ou casas típicas do Rio de janeiro ou de Salvador ou Re-

cife. Era onde se guardava a roupa melhor: nesses baús e cestos.

Às vezes, como já referimos, a roupa era pendurada pelas paredes

e pelo teto, para evitar as baratas e os ratos. Raramente-notou

Luccock nos princípios do século XIX-se via alguma coisa que

se parecesse com um guarda-roupa. 161

Antes de a pessoa se ir deitar era costume lavar os pés. Antes

e depois do jantar, lavar as mãos. Saint-Hilaire diz que no interior

de Minas Gerais, nas casas da gente de cor, era o próprio dono

que vinha lavar os pés do viajante, com uma simplicidade dos

tempos apostólicos. Nas casas-grandes e nos sobrados, a água

vinha numa bacia grande, às vezes de prata, trazida por um dos

muleques da casa. Também era costume, antes do jantar, se ofe-

recer à visita um paletó leve, de alpaca ou doutro pano, que subs-

tituísse a casaca ou o croísé de pano grosso. As senhorasoluando

faziam visita era algumas vezes para passar o dia; de in o que

também ficavam à fresca, de nwtinée, chinelo sem meia.

Muita superstição se agarrou ao complexo "casa" ou "sobradó"

no Brasil patriarcal. Várias nos vieram de Portugal. Quando a

pessoa batia palmas à porta de um sobrado, segundo costume

oriental e gritando "ó de casa!"-até lá de dentro perguntarem

quem é?" ou "ó de fora!" e o muleque vir abrir-devia entrar

#

com o pé direito. Nada de chapéu-de-sol aberto dentro de casa:



226 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBQS - 1.' Tom 229

era agouro. Nem de chinelo virado: morria a mãe do dono do

chinelo. Ninguém quisesse saber de morar em casa de esquina:

ou:


-casa de esquina

morte ou ruína11;

-casa de esquina

triste sina".

No Recife, como no Rio de janeiro, se apontam vários sobrados

de esquina onde tem havido morte ou ruína. Num, incêndio e

saque; noutro, um assassinato no pé da escada; de um terceiro,

raptaram pela varanda uma moça que depois foi muito infeliz.

Compreende-se: as casas de esquina são mais expostas, não a

um vago destino mau, mas aos assaltos, aos raptos, às vinganças.

Igual superstição desenvolveu-se noutras cidades do Brasli, onde

também se encontram casas ou sobrados de esquina marcados

por desgraças ou "tristes sinas".

Várias aves eram consideradas agourentas, quando entravam

nas casas ou pousavam no telhado; a coruja vinha anunciar morte

de pessoa da casa que estivesse doente; o acauã também; o anum

uando vinha sentar-se nos arvoredos vizinhos das casas habita-

as, era agouro; também eram tidos por agourentos a alma-de-

gato, o jacamim, o beija-flor sempre que penetrasse em casa ao

romper da aurora. Borboleta preta que entrasse voando dentro

de casa era outro agouro. Esperança, dependia da cor da boca:

a de boca preta, agouro; a de boca encarnada, felicidade. Sapo,

gafanhoto, formiçra de asa, gato preto-agouro. Besouro mangan-

gá, um horror! Iduita. gente ainda tem cisma com pavão e pombo;

mas não eram poucos os casarões de sítio com seu pombal e seu

pavão, este escancarando o leque no meio do jardim. Outros bi-

chos que estavam sempre perto das casas eram a lagartixa e a

rã aos quais entretanto não se atribuía nenhuma significação.

Apenas eram os bichos mais fáceis de os meninos da casa judia-

rem com eles. já o sapo era outro pavor. Bicho de feitiçaria contra

a~ casas ou sobrados, junto aos quais as vezes amanheciam sapos

de boca cosida ou "despachos" de candomblé ou macumba com

sua luz de vela sinistra.

í`lantas, já vimos que algumas eram consideradas profiláticas:

~-Liardavam, a gente e os bichos e as árvores da casa contra o

o~l----;-inau, contra o terrível olho-de-seca-pimenta que bastava olhar

i,,ana im) nenenzinho de peito para o nenenzinho definhar e mor-

para am pé de pimenta, e o pé de pimenta secar; para uma

rC- U. e a rosa desfolhar-se toda. Outras plantas se evitavam em

#

renor d~, casa, ~ram também agourentas, Hera nas paredes, por



exemplo. Pinheiro que atingisse a altura da

deiras. À flor de maracujá dava-se certo ser7

a forma da cruz de Nosso Senhor e conter

de Cristo.

Aliás é curioso observar que o misticisry

deu-se a uma série de animais de corte,

cação religiosa e considerando-os tabus, inteirai,_

para a mesa ortodoxamente patriarcal. já o velho Toni,

sabe-se pelos primeiros cronistas que não comia cabeça de pc-

em memória da cabeça de São João Batista. Luccock indagando

do motivo de quase não se comer carne de carneiro no Brasil

soube-como já recordamos-que, na opinião de alguns, não era

animal que os cristãos devessem comer: "por causa do Cordeiro

de Deus que tira os pecados do mundo". 162Came de porco, mui-

tos comiam, e faziam garbo de comer; mas para mostrar que não

eram judeus. Já contra a banana havia quem tivesse esta supers-

tição: "nenhum Católico verdadeiro no Brasil"-observou Lue-

cock-"corta uma banana em sentido transversal, pois no centro

s.e acha a figura da Cruz. . .-163

E convém não nos esquecermos dos papeis com oraçoes tam-

bém profiláticas-guardando a casa de cidade dos perigos de

ladrões, de peste, de malfeitor-que se Xregavam às portas e às

paredes. Nem da fogueira que se acen ia diante da porta prin-

cipal noite de São João, para afugentar o Diabo. Nem dos espessos

panos pretos de que se revestia por sete dias a fachada da casa

ou a do sobrado quando morria alguém da família de cujo luto

a casa participava, como participava de suas alegrias, revestindo-

-se, nos dias de festa, de colchas da India, de ramos de laranjeira,

de folhas de palmeira, de galhos de itangueira, de bandeiras e

lanternas de papel. Também dia de Uta. o sobrado deixava-se

atapetar por cheirosas folhas de canela.

No sobrado patriarcal não deixava nunca de haver, guardando

a casa, cachorros mais ou menos ferozes. De noite soltavam-nos

os senhores no quintal ou no sítio. Latiam como uns desesperados

ao menor barulho. Às vezes morriam de "bola"-bolões de comida

com veneno ou vidro moído dentro que os ladrões mais espertos

ou os vizinhos mais intolerantes lhes atiravam.

Quase sempre, os cachorros de sobrados nobres tinham nomes

terríveis. Chamavam-se Rompe-Ferro, Rompe-Nuvem, Nero. E

Gavião, Trovão, Furacão, Sultão, Plutão, Vulcão, Dragão, Zàngão,

Papão, Grandão, Negrão, Barão, Tição, como se os nomes em

"ao" lhes aumentassem o prestígio de animais ferozes, capazes de

estraçalhar estranhos ou intrusos. Às vezes eles se contentavam

em tirar um pedaço da calça de estopa ou mesmo um fiapo de

carne do muleque de rua que viesse roubar algum manguito atraen-

1~ ' De


1

#

#



228 GmwmTo FREYRE SOBP-kDOS E MucAiwos - 1.0 Tomo 229

temente maduro em mangueira do sítio; algum coração-da-índia

já quase se espapaçando de podre; algum caju ou araçá ainda

verde. Em alguns sítios era tanto araçá ou goiaba ou caiu ou

manga a cair do arvoredo farto que o chão ficava uma lama de

fruta podre. Mas nem assim certos donos de sítio ou quintal

grande perdoavam as afoitezas dos muleques; e lançavam contra

eles seus cães mais bravos.

Na estrebaria, o sobrado ou a casa de chácara tinha seus ca-

valos de passeio; al amas chácaras tinham vaca de leite, cabra,

carneiro; Rurna deixava de ter seu carneirinho mocho

com um laço de fita amarrado no pescoço. Esse carneirinho bem

tratado, limpo, bonito, era para os meninos passearem de tarde.

Não deixava de haver galinha e peru no galinheiro; algumas

casas tinham também pato e galinha-da-angola; criação de coe-

lho; chiqueiro de porco; caritó com gaiainum engordando-tudo

defendido dos ladrões pelos Rompe-Ferro e pelos Trovões.

0 gato, porém, foi o animal mais ligado ao interior dos so~

brados: o que tinha regalias de colo e era mais alisado pelas iaiás

e mais mimado pelas mucamas dengosas. Com suas patas de lã

descia as escadas sem fazer barulho, sem fazer ranger um degrau

ou uma tábua, correndo todos os andares, fiscalizando todos os

recantos, todos os buracos de parede e todas as frinchas. Entrava

nas alcovas mais íntimas; dormia nas melhores sombras da casa,

às vezes nos óculos das Paredes, outras vezes nos colchões das

camas de jacarandá; nos sofas; nas marquesas; nas esteiras; nos

balaios; subia aos telhados; desa 1 s cafuas e pelos

saçrecia pe a

in

porões; namorava com os passar os mais belos das gaiolas ou



do viveiro. Uma vez ou outra pegava distraído um sanhaçu, um

galo-de-campina, um canário e variava de sua dieta de peixe, de

rato, de fiambre, de tudo que era resto de comida fidalga que

não tivesse pimenta. Sua função era importante, na defesa das

roupas e da comida, contra os catitas, os gabirus, os camundon-

gos, as baratas-inimigos internos do sobrado que estavam sem-

pre rondando os guarda-comidas ou os baús e querendo roer as

roupas, os móveis, os livros, que tinham outros inimigos: o mofo,

a traça e o cupim. Daí terem sido raros os livros e niss. guar-

dados nas estantes ou nas secretárias das casas-grandes e sobra-

dos patriarcais que passaram de avós a netos. Daí e, também do

pouco amor da gente nova por livros, papeis e até retratos velhos

que eram às vezes queimados nos fundos dos sitios em pequenos

autos-de-fé. Na sua casa-grande de Muribeca, o Morais do Dicio-

nário viu-se obrigado a deitar no rio todo o seu arquivo que

devia ser um dos mais preciosos documentários da cultura brasi-

leira _da era patriarcal, por medo aos revolucionários de 1817.

0 mofo também estr~gava, as coisas. Era difícil combatê-lo como

também ao cupim e a traça. As formigas, só com oração. De

#

modo que às vezes pregavam-se Tapeis com oração nos potes



de melado ou nas compoteiras de oce, entregando sua guarda a

São Brás.

Os santos mais domésticos, já sabemos que eram nas casas de

engenho Santo Antônio, São João, São Pedro; falta referirmos

aqui Santa Engrácia e São Longuinho, também ligados à vida

de família das casas e dos sobrados dos tempos patriarcais. Todos

dois, excelentes para achar objetos perdidos. Depois de Santo

Antônio, eram os mais milagrosos. Nos sobrados, nas casas asso-

bradadas, nas casas-grandes, com espaços enormes, recantos inal-

-assombrados, corredores escuros, estava sempre se perdendo algu-

ma coisa, um dedal, uma costura, um rolo de bico, uma moeda

de ouro, de modo que os três santinhos tinham sempre o que

fazer. São Longuinho, era considerado santo "amante do barulho";

e para se achar o objeto perdido sob sua proteção ou inspiração

devia-se dar três gritos em intenção do santo. Em mais de um

sobrado de Salvador a devoção princXal era pelos S.S. Cosme e

c

c

Damião; entre a fidalguia de s o da Corte, o santo mais



festejado foi por muito tempo São Jorge, no qual os nobres que

só saíam de casa a cavalo viam uma espécie de protetor, e não

apenas representante, dos privilégios de sua classe contra a dos

peões. Assunto a que voltaremos em capítulo seguinte.

0 sobrado grande raramente envelhecia sem criar fama de mal-

-a~ssombrado. 0 Rio de janeiro, Salvador, São Paulo, o Recife,

Ouro Preto, Sabará, Olinda, São Cristóvão, São Luís, Penedo-to-

das essas cidades mais velhas têm ainda hoje seus sobrados mal-

-assombrados. Num, porque um rapaz esfaqueou a noiva na es-

cada: desde esse dia a escada ficou rangendo ou gemendo a noite

inteira. Noutro, por causa de dinheiro enterrado no chão ou na

parede, aparece alma penada. Num terceiro, pbr causa de judia-

rias do senhor com os negros, ouvem-se gemidos de noite. E às

vezes, quando cai um velho sobrado desses, dos tempos patriarcais,

ou quando o derrubam, ou quando lhe alteram a estrutura, apa-

recem mesmo ossos de pessoas, botijas de dinheiro, moedas de

ouro do tempo del-Rei Dom José ou del-Rei Dom João.

0 sobrado que, no século XVII, já dominava a paisagem da

costa do Brasil, nos pontos mais povoados, europeizando-lhe o

perfil, sofreu nos três séculos do seu domínio uma série de alte-

raçoes não só de estrutura como de fisionomia. Até certo ponto,

também as sofreu a casa assobradada ou o palacete de rico, reti-

rado nos subúrbios.

0 mucambo, a palhoça ou o tejupar é que quase não mudou.

Apresenta diferenças no Brasil mais de natureza regional, con-

#

230 CILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 231



forme o material em regado na sua construção-folha de buriti,




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   ...   110


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
Universidade estadual
união acórdãos
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande