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ticular, íntima, desenvolver maiores relaçÓes com a vizinhan-

ça, com o bairro, com a cidade. Sobre a transição do pri-

vativismo excessivo para maiores relaçÓes da família, no

Brasil, com outras instituiçÓes, publicou há pouco interes-

sante trabalho, do ponto de vista do e3ucador-sociólogo, o

Professor Roberto Moreira, que, entretanto, não parece ter

se apercebido da crescente importância da organização do

lazer numa civilização moderna; nem da necessidade de ser

o homem de hoje educado para o lazer e não apenas, calvi-

nisticamente, para o trabalho.

#

Torna-se evidente a importancia da automatizacão como



centro de todo um novo sistema de relaçÓes do homem não

só com o meio social como com o meio físico. Estamos em

face de uma revolução de tal amplitude que ao lado dela a

chamada Revolução Industrial se amesquinhará num brin-

quedo sociológico; e a outro brinquedo. sociológico ficará

reduzida a Revolução Social julgada definitiva pelo Mar-

xismo ortodoxo; e que importava - na sua primeira fase

- em uma generalizada ditadura do Proletariado, ou do

Trabalho, ou dos seus agentes nem sempre fiéis, sobre as

sociedades libertadas do capitalismo burguês.

Sabemos hoie que semelhante concepção de

ção mundial no sentido de um mundo socialmente novo está

de todo ultrapassada. Caminhamos para um mundo social-

mente novo, não há dúvida: mas não através de uma revo-

lução social à moda Marxista - soluçdo já sem sentido -

-e sim através de uma revolução total que tem desde já por

causa e, ao mesmo tempo, por instrumento, a automatização.

A automatização e a automação.

Pela automatização, o Homem se libertará tanto do que

na civilização é burguesismo como do que nela pretende ser

trabalhismo estreitamente antiburguês no sentido da glo-

rificação de um elemento de civilização - o trabalhador -

que pelo fato de ser o trabalho humano o centro de toda ci-

vilização moderna, deveria ser considerado o senhor de seus

antigos senhores. Domínio ora exercido não tanto por ele,

trabalhador, diretamente, como pelos que se vêm j ' ulgando

aptos, mais pela audácia que pela virtude, a representá-lo.

Dentro de uma civilização automatizada desaparecera -

segundo os melhores indícios sociológicos - o atual antago-

nismo capitalista-trabalhador para se estabelecerem novas

formas de relaçÓes entre os homens. E o problema central

para esses homens, o maior desafio à sua inteligência, ao

seu gênio, à sua ciência, à sua arte, à sua técnica, nao sera,

o da organização do trabalho mas o da organização do lazer.

0 lazer terá que ser organizado de acordo com uma varie-

dade de aptidÓes, de inclinaçÓes, de preferências, combinan-

do-se o gosto pessoal de cada um com as conveniências do

todo social no sentido de uma música, de uma arte, de uma

devoção religiosa, de estudos, de experimentos, de especu-

laçÓes, dos quais participe cada um conforme sua capacidade.

Será que Brasília, com seus arranha-céus - nem sempre

boas ampliaçÓes ecológicas de sobrados já funcionalmente

brasileiros - está sendo construída tendo-se em vista a

grande Revolução - a Revolução pela automatização - para

a qual camivhamos com rapidez tal que não só o chamado

#

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO



xxxvil

Comunismo Russo como o próprio Trabalhismo inglês já

se estão tornando "ismos" de museu sociológico? Temem

alguns que não. Pelo que se sabe do que na arquitetura de

Brasília - antes escultura monumental do que arquitetura

- e no seu próprio urbanismo, é social, esse social se volta

ainda para um coletivismo ou para um trabalhismo já em

processo de ser quase de todo superado por novas formas

de solidarismo e por novas formas de relaçÓes do homem

não só com o,meio físico porém com o meio social. Essas

formas terão de se refletir em sobrados especificamente

brasileiros - e não indistintamente modernos - de um novo

ou moderno tipo; e em novas relaçÓes desses sobrados uns

com os outros e com a paisagem brasileira do interior. Em

sobrados de um novo ou moderno tipo que sejam a aliança

técnica e artística, sociológica e psicológica, da tradição com

a modernidade, e, no caso de cidades como Brasília e como

Goiânia, da modernidade com o sertão brasileiro.

e'tt

Santo Antônio de Apipucos, Inarço de 1961.



#

PREFÁCIO


I

PRIMEIRA EDIÇÃO

A tentativa de reconstituição e de interpretação de certos

, aspectos mais íntimos da história social da família bra-

sileira, iniciada em trabalho anterior, é agora continuada,

dentro do mesmo critério e da mesma técnica de estudo.

Nestas páginas, procura-se principalmente estudar os pro-

cessos de subordinação e, ao mesmo tempo, os de acomodação,

de uma raça a outra, de uma classe a outra, de várias reli-

giÓes e tradiçÓes de cultura a uma só, que caraterizaram a

formação do nosso patriarcado rural e, a partir dos fins do

século XVIII, o seu declínio ou o seu prolongamento no pa-

triarcado menos severo dos senhores dos sobrados urbanos

e semi-urbanos,` o desenvolvimento das cidades; a formação

do Império; íamos quase dizendo, a formação do povo bra-

sileiro.


A princípio, os processos mais ativos foram os de subor-

dinação e até de coerção. 0 Procurador do Estado do Ma-

ranhão em 1654, Manuel Guedes Aranha, chega a ser tão in-

cisivo na expressão de ruas idéias de subordinação dos índios

ou dos pretos aos brancos, como qualquer arianista ou oci-

dentalista moderno: "Si os nobres nos paizes civilisados"-

pensava ele- "são tidos em grande estima, com maior razão

devem ser estimados os homens brancos em paiz de hereges;

porque aquelles creados com o leite da Igreja e da fé christã."

Além do que, "sabido é que diferentes homens são proprios

para diferentes coisas; nós [brancos] somos proprios para

introduzir a religião entre elles [índios e pretos]; e elles

adequados para nos servir, caçar para nós, pescar para nós,

trabalhar para nós."

Mas ao lado de procuradores do tipo e das tendências ex-

clusivistas de Guedes Aranha, foram aparecendo, desde os

princípios do século XVII, teóricos da acomodação entre as

raças. Estas não estariam destinadas tão rigidamente por

Deus - uma a dominar, as outras a servir. Um desses teó~

ricos foi o Padre Antônio Vieira - ele próprio neto de preta.

Diante da invasão da colônia por um povo mais branco que

o português - os holandeses - perguntou um dia o grande

orador se "não eramos tão pretos em respeito delles como os

índios em respeito de nós?" Se podia "haver maior inconsi-

deraçÓo do entendimento nem maior erro de juizo entre ho-

mens, que cuidar eu que hei de ser vosso senhor porque nasci

XXXV111

#

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO



XXXIX

mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, por-

que nascestes mais perto?"

Era a dúvida em torno do próprio fundamento da escravi-

dão nos trópicos: a inferioridade das raças de cor. As duas

tendências continuariam a ter seus apologistas francos, atra-

vés do século XVIII e do XIX. Uns, certos da necessidade

de continuarem as raças de cor - pelo menos a negra - su-

bordinadas à branca, que seria a raça superior; outros de-

fendendo, como Arruda Câmara, a livre incorporação dos

negros e mulatos à sociedade brasileira, sua ascensão às res-

ponsabilidades políticas e intelectuais.

Em 1834, o Dr. Henrique Félix de Dacia, não sabemos se

negro ou mulato, mas "Bacharel e advogado publico" muito

orgulhoso do seu título e até de sua cor, aparece n0 Censor

Brasileiro, insurgindo-se contra o preconceito de se reser-

varem "as sciencias e os cargos" para os brancos: "querem

que um pobre homem de cor não passe de um simples artis-

ta"; "querem antes dar-lhe uma esmola do que franquear-

lhe aquellas condecoraçÓes, e lucros, que por direito lhe per-

tencem: eu não tenho descançado; hei de ser sempre victi-

ma desses soberbos, porém, jamais serei humilde com elles."

Era a voz do Bacharel de cor fazendo-se expressão já arro-

gante dos seus próprios direitos. Querendo livrar-se quase

revolucionariamente da subordinação ao branco.

Motivou o grito de orgulho e até de arrogância do-Dr. Da-

cia a circunstância de não o terem admitido às funçÓes de

juiz de fato. Mas noutro jornal da mesma época surge-nos

voz bem mais brasileira, isto é, bem mais acomodatícia, dis-

cutindo o assunto. Embora o jornal se chame Sentinella da

Liberdade na Sua Priineira Guarita, a de Pernambuco, onde

Hoje brada Alerta!! os termos do artigo são todos no senti-

do da acomodação: , "Pergunto qual he mais: ser Juiz de

facto, ou ser Padre, Deputado, Senador, Ministro d'Estado,

Official Militar, Camarista, Lente de Academias, Magistra-

do, Empregado em Tribunaes etc? Parece-me que todos es-

tes cargos são maiores do que ser Jurado. Ora, nós vemos

Padres Pardos e Pretos (o meo V~ a Bahia era Preto),

n

vemos hum, Senador Pardo, hum, Deputado Rebouças Pardo,



Membros das Camaras Municipaes Pardos e o Senhor Cana-

merim, de cor preta em circunstancias de tomar assento na

Camara da Bahia; vemos na Medicina e Cirurgia pardos,

meos honrados amigos e companheiros; vemos Lentes de Aca-

demias medicas Pardos em grande numero; temos visto Mi-

nistros d'Estado pardos; e nos tribunaes estão Pardos; nas

RellaçÓens tambem Pardos; e -nos Cursos Juridicos estudão

#

XL



GLLBEiATo FREYRE

Pardos; em todas as sociedades chamadas Secretas estão

Pardos nossos Carissimos Irmãons; & nada pois influe o ac-

cidente das cores pois andamos iguaes em direitos, em tudo

oecupamos logares e cargos sem distincção mais do que nas

luzes e comportamento... He pois necessario dispir pre-

vençÓens e enamar os animos 4 conciliação, evitando estimu-

los sem justo motivo; todos somos filhos da Patria; ella per-

tence a todos; nós a devemos amar, soccorrer, defender e pôr

em socego, por que isto redunda em nosso beneficio; haja

união bem serrada em nossas almas..."

A situação, porém, não era idílica. A subordinação da

gente de cor, baseando-se na diferença de raça, era também

uma subordinaçdo de classe. E a ascensão de uma classe a

outra, embora muito menos áspera que em velhos países euro-

peus ou asiáticos, não se fazia tdo facilmente, nem era possí-

vel que se fizesse, num Império escravocrático e agrário co-

mo o Brasil. Em 1835 salientava o General José Inácio de

Abreu e Lima, no seu Bosquejo Historico, Politico e Litera-

rio do Brasil, que a nossa população, dividindo-se em dois

grandes grupos - pessoas livres e pessoas escravas - estes,

por sua vez, se subdividiam em outros grupos ou "familias

distinetas", como ele chama aos subgrupos, "tão oppostas e

inimigas umas das outras como as duas grandes secçÓes en-

tre si." E acrescentava: "Que somos todos inimigos e rivaes

uns dos outros na proporção de nossas resp2ctivas classes, não

necessitamos de argumentos para proval-o, basta que cada

um dos que lerem este papel, seja qual for sua condição, met-

ta a mão na sua consciencia e consulte os sentimentos do seu

coração."

Essas distâncias sociais, se por um lado diminuíram com

o declínio do patriarcado rural no Brasil através do século

XIX, e com o desenvolvimento das cidades e das indústrias,

por outro lado se acentuaram - entre certos subgrupos, pe-

lo menos - com as condiçÓes de vida industrial desenvolvi-

das no país, outrora quase exclusivamente agrícola; com os

maiores e mais freqüentes atritos entre os homens, que a Re-

volução Industrial excitou em nosso meio. A casa patriar-

cal perdeu, nas cidades e nos sítios, muitas das suas qualida-

des antigas: os senhores dos sobrados e os negros libertos,

ou fugidos, moradores dos mucambos, foram se tornando ex-

tremos antagônicos, bem diversas, as relaçÓes entre eles, das

que haviam se desenvolvido, entre senhores das casas-gran-

des e negros de senzala, sob o longo patriarcado rural.

Entre esses duros antagonismos é que agiu sempre de manei-

ra poderosa, ;w scntido de amolecê-los, o elemento social-

#

PREF,icio I PREmxERA EDIgXO



XLI

mente mais plástico e em certo sentido mais dinâmico, da

nossa formação: o mulato. Principalmente o mulato valo-

rizado pela cultura intelectual ou técnica.

0 centro de interesse para o nosso estudo de choques entre

raças, entre culturas, entre idades, entre cores, entre os dois

sexos, não é nenhum campo sensacional de batalha - Palma-

res, Canudos, Pedra Bonita - onde os antagonismos de ra-

ça, e, principalmente, os de cultura, tomaram, por vezes, for-

mas as mais dramáticas em nosso país. Nem mesmo as ruas,

como a da Praia, que chegaram a dar nome a algumas das

nossas revoltas de povo das cidades contra os restos de feu-

dalidade das casas-grandes de engenho e de fazenda a se es-

tenderem sobre o governo das províncias. 0 centro de in-

teresse para o nosso estudo desses antagonismos e das aco-

modaçÓes que lhes atenuaram as durezas, continua a ser a

casa - a casa maior em relação com a menor,'as duas em re-

lação com a rua, com a praça, com a terra, com o solo, com o

mato, com o próprio mar.

0 sistema casa-grande - senzala, que procuramos estudar

em trabalho anterior, chegara a ser - em alguns pontos pe-

lo menos - uma quase maravilha de acomodação: do es-

cravo ao senhor, do preto ao branco, do filho ao pai, da mu-

lher ao marido. Também uma quase maravilha de adapta-

ção do homem, através da casa, ao meio físico, embora, neste

particular, o sobrado e o mucambo talvez tenham superado o

sistema inicial.

Quando a paisagem social começou a se alterar, entre nós,

no sentido das casasgrandes se urbanizarem em sobrados

mais requintadamente europeus, com as serzalas reduzidas

quase a quartos de criado, as moças namorando das janelas

para a rua, as aldeias de mucambos, os "quadros", os corti-

ços crescendo ao lado dos sobrados, mas quase sem se comu-

nicarem com eles, os xangôs se diferenciando mais da reli-

gião Católica do que nos engenhos e nas fazendas, aquela

acomodação quebrou-se e novas relaçÓes de subordinação, no-

vas distâncias sociais, começaram a desenvolver--se entre o

rico e o pobre, entre o branco e a gente de cor, entre a casa

grande e a casa pequena. Uma nova relação de poder que

continua, entretanto, a ser principalmente o dos senhores,

o dos brancos, o dos homens. Maiores antagonismos entre

dominadores e dominados. Entre meninos criados em casa

e muleques criados na rua (sem a velha zona de confra-

ternização entre as duas meninices que fora a bagaceira

nos engenhos). Entre a dona de casa e a mulher da rua.

Entre a gente dos sobrados e a gente dos mucambos. Maior

#

XLII


GILNERTo FREYRE

desajustamento económico entre os dois extremos, as casas-

grandes com cacimba no fundo do sítio chegando a vender

água à gente das casas mais pobres como "a grande casa

de pedra e cal, estribaria, bastantes cafeeiros que dão annual

10 a 12 arrobas, algum arvoredo de fundo" que aparece num

anúncio de jornal de 13 de abril de 1835.

Só aos poucos é que se definem não tanto zonas como mo-

mentos de confraternização entre aqueles extremos sociais.-

a procissão, a festa de igreja, o entrudo, o carnaval. Porque

os jardins, os passeios chamados públicos, as praças som-

breadas de gameleiras, e, por muito tempo, cercadas de gra-

des de ferro semelhantes às que foram substituindo os mu-

ros em redor das casas mais elegantes, se limitaram ao uso e

gôzo da gente de botina, de cartola, de gravata, de chapéu-

de-sol - insígnias de classe e ao mesmo tempo de raça, mas

principalmente de classe, no Brasil do século XIX e até dos

princípios do século atual. Ao uso e gozo do homem de cer-

ta situação social - mas do homem, só do homem, a mulher

e o menino conservando-se dentro de casa, ou no fundo do sí-

tio, quando muito na varanda, no postigo, no palanque do mu-

ro, na grade do jardim. Porque o menino que viesse empi-

nar seu papagaio ou jogar seu pião no meio da rua tornava-

se muleque. A dona de casa que saísse rua afora para f a.2er

compras corria o risco de ser tomada por mulher pública.

Mme Durocher - um virago, uma mulher-homem, vestindo-

se de sobrecasaca, calçando-se com botinas de homem - foi

uma das primeiras mulheres a andarem a pé pelas ruas do

Rio de Janeiro; e causou escândalo.

Não só aos negros de pé no chão - grandes pés, chatos

e esparramados, alguns de dedos torados pelo ainhum, outros

roídos de aristim, ou inchados de bicho - como aos próprios

caixeiros de chinelo de tapete e cabelo cortado à escovinha e

até aos portugueses gordos de tamanco e cara rapada esta-

vam fechados aqueles jardins e passeios chamados públicos,

aquelas calçadas de ruas nobres, por onde os homens de posi-

ção, senhores de barba fechada ou de suíças, de botinas de

bico-fino, de cartola, de gravata, ostentavam todas essas in-

sígnias de raça superior, de classe dominadora, de sexo pri-

vilegiado, à sombra* de chapéus-de-sol quase de reis. Cha-

péus-de-sol de seda preta e cabo de ouro. Às vezes de pano

de cor, os cabos formando cabeças de bicho, os grandes bi-

chos quase simbólicos do domínio patriarcal no Brasil, os

mesmos dos umbrais dos portÓes das casas: leÓes, gatos, ca-

chorros, tigres.

C

#



PREFÁCIO À PRIAIEIRA EDIÇÃO

XL111


Aqueles momentos de confraternização entre os extremos

sociais, a que nos referimos - a procissão, a festa de igreja,

o entrudo - é que foram fazendo das ruas e praças mais lar-

gas - da rua em geral - zonas de confraternização. Mar-

caram um prestígio novo no nosso sistema de relaçÓes so-

ciais: o prestígio da rua.

A partir dos princípios do século XIX, a rua foi deixan-

do de ser o escoadouro das águas servidas dos sobrados, por

onde o pé bem calçado do burguês tinha de andar com jeito

senão se emporcalhava todo, para ganhar em dignidade e

em importância social. De noite, foi deixando de ser o cor~

redor escuro que os particulares atravessavam com um es-

cravo na frente, de lanterna na mão, para ir se iluminando a

lampião de azeite de peixe suspenso por correntes de pos-

tes altos. Os princípios de iluminação pública., Os primeiros

brilhos de dignidade da rua outrora tão subalterna que era

preciso que a luz das casas particulares e dos nichos dos

santos a iluminasse pela mão dos negros escravos ou pela

piedade dos devotos.

Ao mesmo tempo, a partir daquela época, as posturas mu-

nicipaís começaram a defender a rua, dos abusos da casa-

grande que sob a forma de sobrado se instalara nas cidades

com os mesmos modos derramados, quase com as mesmas

arrogâncias, da casa de engenho ou de fazenda: fazendo da

calçada, picadeiro de lenha, atirando para o meio da rua o

bicho morto, o resto de comida, a água servida, às vezes até

a sujeira do penico. A própria arquitetura do sobrado se

desenvolvera fazendo da rua uma serva: as biqueiras des-

carregando com toda a força sobre o meio da rua as águas

da chuva; as portas e os postigos abrindo para a rua; as ja-

nelas - quando as janelas substituíram as gelosias - ser-

vindo para os homens escarrarem na rua. Aí também se der-

ramava o sobejo das quartinhas e das bilhas, ou moringues,

onde se deixava a água esfriar ao sereno, sobre o peitoril das

janelas. Estas, em certos sobrados mais desconfiados das

ruas, eram raras no oitão - duas ou três, as outras sendo

apenas fingidas, janelas falsas, pintadas na parede imensa.

As posturas dos começos do século XIX são quase todas

no sentido de limitar os abusos do particular e da casa e de

fixar a importância, a dignidade, os direitos da rua, outrora

tão por baixo e tão violados. Tão violados pelos proprietários

de terras; tão violados, no Rio de Janeiro, pelos Jesuítas que

aqui se fizeram donos de muitos~ sítios e casas de sítios ou

chácaras. Alguns desses sítios compreendidos na sesmaria

da cidade e estendidos ou explorados contra o interesse pú-

#

blico. 0 Padre Cepeda, em documento célebre, refere-se aos



"insignes ladrÓes que havia neste Collegio" (o Colégio dos

Jesuítas do Rio de Janeiro). Um deles, o "Padre Luiz de

Albuquerque que em vinte e quatro annos foi Procurador de

Causas" [ .... ] e "tantas terras furtou para a Religião". Era

vulgar, entre os mesmos Jesuítas - acrescenta a exposição

de Cepeda - "que nunca perdia uma demanda porque se via

alguma mal parada, furtava os autos custasse o que custas-

se". Por tais meios é que grandes sítios, verdadeiras fazen-

das de padres e de particulares, se derramaram pelas ses-

marias das cidades, encarecendo o terreno, obrigando as ca-

sas menores a se ensardinharem ao pé dos morros e até nos

mangues (depois por cima dos morros) e concorrendo para

o agarrado anti-higiênico das habitaçÓes pobres e mesmo dos

sobrados mais modestos. Os moradores das casas de sítio

dos padres eram no Rio de Janeiro simples caseiros; o tra-

balho desses caseiros beneficiava o solo e valorizava as ter-

ras, também valorizadas - informa João da Costa Ferreira

em pesquisa recentemente publicada sobre o termo da cidade

- pela "proximidade em que se achavam do centro urbano

que prosperava incessantemente, pelo crescimento de sua po-

pulação, pelo desenvolvimento do seu commercio". Mas essa

valorização, com sacrifício da parte mais pobre da população

e do património da cidade. Com sacrifício das ruas que de-

viam existir e não existiam, seu lugar tomado e suas fun-

çÓes pervertidas pelos simples caminhos dos sítios dos pa-

dres e dos particulares, pelos becos, pelas vielas sempre fe-

dendo a mijo.

Por muito tempo, as Câmaras, os juízes, as Ordens Reais,

quase nada puderam contra particulares tão poderosos. A

sombra feudal da casa-grande do rico ou do Jesuíta caía em

cheio sobre as cidades. As ruas eram simples caminhos a

serviço das r-asas poderosas.

A partir dos princípios do século XIX é que as leis foram

proibindo aos proprietários de casas dentro das cidades uns




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