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rendar nos dias de calor. No século XVI o Padre Cardim já me-

rendara ao ar livre, debaixo de um parreiral de Pernambuco. E

a tradição da merenda ou do almoço ao ar livre se conservou

nas casas de sítio do século XIX. Donde o atrativo de casas

assobradadas ou de chácaras das quais os anúncios de jornal

podiam dizer que tinham parreirais.113

O muro fechava sempre o jardim patriarcal da vista da gente

da rua: muro às vezes ouriçado sinistramente de cacos de vidro.

Nas casas dos burgueses mais avançados em suas idéias de civi-

lidade ou urbanidade é que foi aparecendo, ainda na primeira

metade do século XIX---e em grande parte sob pressão dos anún-

cios de ingleses importadores de ferro-gradis de ferro. E por

cima dos pilares, e dos umbrais dos portÓes, como no alto dos

sobrados, -figuras de louça representando a Europa e a Ásia, a

Ãfiica e a América, vasos e pinhas, bustos de CamÓes e do Mar-

quês de Pombal. E não apenas dragÓes, leÓes e cachorros ter-

ríveis. Não nos esqueçamos de que, desde os primeiros decênios

do século XIX foram aparecendo no Rio de janeiro jardineiros

franceses conio o que suige de Lim anúncio do Diário do Rio de

11

janciro de 12 de janeiro de 1830: "Jardineiro France7 nara tra-



tamento de horta e jardim de flores, entende de toda planta de

fora. . . "

#

Do lado de dentro dos muros alguns senhores mandavam cons-



truir sofás de alvenaria, revestidos de azulejo. E a certa altura

do muro, nas casas de patriarcas menos ranzirizas, foram-se le-

vantando os palanques onde até as moças iam tomar fresco de

tarde e olhar a rua ou quem passava na estrada. Passava muito

ne

,)Nro. Um ou outro cinglês a cavalo. Às vezes algum figurão



ando de carro da idade para casa. Mas, nos primeiros decê-

nios do século XIX, quase sempre carro fechado: uni ou outro

com a inovação inglesa da capota que arríava-as "Carruagens

nglezas de vidro" com "cabeça de arriar para traz", de que fala

um anúncio do Diário do Rio de Janeiro de 6 de dezembro

de 1821.


Se nos velhos sobrados com orta e varanda para a estrada ou

a rua, vé-se, pelo que resta tieles, que os jardins eram quase

sempre jardinzinhos acanhados-jardins um tanto à moda dos da

Andaluzia-nas casas de sitio e nas chácaras eles eram vastos,

confraternizando com a horta, emendando com a baixa de capim,

com o viveiro de peixe, com o vasto proletariado vegetal de

aqueiras, araçazeiros, cajueiros, oitizeiros, mamoeiros, ]em ei-

r-as árvores sim lesmente uteis, que davam de e er

os

aos homens. Ouseley, que conheceu o Brasil da eira metade



do século XIX, nos fala com alguma minúcia da Limcara chamada

Vfia das Mangueiras" onde residiu em Botafogo e que foi depois

ocupada pelo Príncipe Adalberto da PrUssia. Considerando-a tí-

pica das chácaras atriarcais do Rio de janeiro, salienta que

estava no meio de Wanjeiras de toda espécie, limoeiros, bana-

neiras, palmeiras e também de muitas frutas e plantas importadas

da China e da India.114 Nos sobrados mais afrancesados é que

foi se separando jardim de horta ou de pomar.

A casa de sítio, recordaremos mais uma vez que conservou,

perto das cidades, quase dentro delas, farturas de casa de en-

genho ou de fazenda, Foi, quanto pôde, casa-grande rural. O

que permitiu que em torno dela se espalhassem jardins extensos,

quase parques, e purificavam ou perfumavam o ar das ruas

ou estradas. VeZadeiras criaçÓes brasileiras de arquitetura pai-

sagista que, segindo Araújo Viana, foram ensaiadas primeiro nos

pe~ienos ~airdins dos quintais mais burgueses.115

sítio o o ponto de confluência das duas especializaçÓes de

habitação patriarcal e de arquitetura paisagista no Brasil: a ur-

bana-ísto é, o sobrado, COM a porta e a yaranda para a rua-e

a casa de engenho ou de fazenda, do tipo da de Elias José Lopes,

no Sul, ou da de Caraúna, no Norte. Foi nas casas de sítio que

Mansfield viu os jardins mais bonitos do Recife-"jardins e hor-

1

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



intenþão de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestaþão do pensamento humano..

204 GILBERTO FBEYRE SOBRADOS E MUCAmBos - 1.' Tomo 205

tas"."6 Os arredores da cidade lhe parecerain formar "um grande

jardim, um pouco descuidado", o de uma casa quase emendando

com o da outra; todos com suas bananeiras, suas palmeiras, seus

coqueiros.

Na sua arquitetura, a casa de sítio ou a chácara parece que

foi por muito tem o mais casa de fazenda do que de cidade.

Mais horizontal àcp é vertical. Mais casa assobradada do que

r,

Yr

sobrado. Mesmo asso adada, sua massa era quase um cubo.



Na casa assobradada-nem casa térrea, - nem sobrado-Allain

encontrou uma das peculiaridades mais interessantes da arquite-

tura doméstica no Brasil."' Pereira da Costa dá como carate-

rístico principal, da chácara do Norte, o aspecto de casarão qua-

drado e com alpendre que geralmente tinham as casas de en-

enho. Kidder notou a predominância dos alpendres nas chácaras

o Pará. E com relação ao Sul, Araújo Viana salienta os mesmos

traços, isto é, que nas moradas de abastados, fora do limite

urbano, adotou-se o tipo de abarracados com avanço dos telhados,

dando nascimento a varandas, sustentadas por pilares ou colunas

de alvenaria rebocada.118 Eram alpendres de telha-vã sustentados

por pilares ou colunas de alvenaria rebocada.

Quanto ao interior, sobradões e chácaras assobradadas se pa-

reciam com as casas de fazenda ou de engenho no luxo de

espaço. Mas não na aeração. Nos sobrados, a uma ou duas salas

grandes sobre a rua, opunha-se o resto da casa-alcovas e cor-

redores-quase sempre fechado e no escuro. Essa má distribuição

de eças, nos sobrados do Rio de janeiro, De Freycinet atribuiu

ao fato de a família passar a mal te do tempo dormindo,

sem precisar de luz; ou então olhan a rua pelas grades das

janelas, vendo quem passava, através dos postigos; e uma vez

por outra recebendo visitas. Não precisava senão de sala de vi-

sitas-que noite de festa se iluminava toda-e de alcovas escuras,

ue favorecessem o sono.119 Exagero ou malícia de francês, evi-

3entemente.

0 que é certo, entretanto, é que dentro dum velho sobrado

urbano, mais ortodoxamente patriarcal, estava-se quase sempre,

no Brasil do século XVIII ou -a primeira metade do século XIX,

como num interior de igreja. A luz só entrava ela sala da frente

e um pouco pelo pátio ou pela sala dos fungos; pelas frinchas

das janelas ou pela telha-vã dos quartos. Evitava-se o sol. Tinha-

-se medo do ar.

Os morcegos é que gostavam desse escuro de igreja: e eram

íntimos amigos dos velhos sobrados e das casas-( grandes mais som-

brias. Eles, os camundongos, as baratas, os grilos, as próprias

corujas, Todos os bichos que gostam do escuro. Os morcegos

#

rondavam também as casas de sítio; mas por causa dos sapotis



e dos cavalos. E não tanto pelo escuro do interior dos quartos.

Os oratórios ou as capelas de casas-grandes ou de casas assobra-

dadas é que principalmente atraíam as corujas.

As paredes grossas refrescavam o interior dos sobradões patriar-

cais, quando o material ruim não as tornava úmidas e pegajentas.

como adiante veremos. Eram paredes, como notou Fletcher, quase

de fortaleza; nas próprias casas de taipa-algumas construídas tão

solidamente* que atravessaram séculos-as paredes tinham uma

grossura espantosa: dois, três palmos.

Naturalmente, a arquitetura patriarcal dos ortugueses, na sua

adaptação ao Brasil, teve de resolver o probfema de excesso de

luminosidade e de calor. 0 que os portugueses em parte conse-

guiram, valendo-se da experiência adquirida por eles na Ásia e

na África-fato já salientado pelos principais estudiosos de his-

tóría de nossa arquitetura civil: Araujo Viana e José Mariano

Filho, entre outros. E que não escapara, na primeira metade do

século XIX, ao olhar de Vauthier, a quem se devem páginas tão

inteligentes sobre a arquitetura patriarcal no Norte do Brasil: quer

120

a de casa-grande , quer a de sobrado.



A proteção do interior da casa de cidade contra os excessos

de luminosidade e de insolação direta foi grandemente exagerada

no Brasil patriarcal, devido principalmente a preconceitos morais

e sanitários da época e por imposição do regime social então

dominante. Procurava-se a segregação da família contra uma serie

de inimigos exteriores: desde o ar e o sol ate os raptores, os

ladrões e os muleques. Dormia-se com as portas e as janelas de

madeira trancadas, o ar só entrando pelas frinchas. De modo

que os quartos de dormir impre navam-se de um cheiro com-

ost de sexo, de urina, de pé, 11 sovaco, de barata, de mofo.

or~qoue nas alcovas também se guardavam roupas, às vezes pen-

duradas do teto-como certas comidas na despensa-por causa dos

ratos, dos bichos, da umidade. Quando a inhaca era maior, quei-

mavam-se ervas cheirosas dentro dos quartos.

Só nos tempos como o do Correia-o terrível Chefe de Polícia

do Governador D. Thomaz de Mello, da Capitania de Pernambuco,

que embuçado num capote e empunhando uma espada rondava

as ruas a noite inteira, atrás de gatunos e de malandros-os bur-

gueses dos sobrados puderam dormir sossegados: de "janelas aber-

tas ao refrigerío dos aliseos", diz um cronista.121 0 ar entrando,

se não pelos quartos, pelas salas e desabafando-as.

Ao contrário da casa de engenho e da de sítio-protegidas dos

exageros de insolação direta pelas mesmas paredes grossas e pelos

mesmos telhados de beiral acachapado, mas com os oitões todos

livres e as vezes com alpendres ou copiares rodeando a casa e

vigias rondando-lhe as imediações durante a noite-o sobrado de

#

206


GrLBERTo FREYRE

rua, de tanto se defender do excesso de sol, do perigo dos ladrões

e das correntes de ar, tornou-se uma habitação úmida, fechada.

Quase uma Srisão.

0 Coman ante Vaillant notou nas casas do Rio de janeiro

do tempo de Pedro 1 que não eram bem construções para o clima

dos trópicos. Ao contrário: mal ventiladas. Não tinham a leveza

que ao seu ver devia ser a primeira qualidade das casas nos

países quentes. 122

Rugendas viu no Rio algumas casas muito esguias, "num con-

traste desagradável entre a altura e a lar ura muito exígua. . ."

E tristes. Ida Pfeiffer também; em vez Sas gelosias tristonhas

ela quisera ter encontrado, na Corte do novo Império americano,

uma cidade de casas com terraços e varandas alegres. 123 Na Bahia,

Pfeiffer as teria encontrado: Martius, como já vimos, exprimiu

seu entusiasmo pelas casas de Salvador com as varandas escan-

caradas para o mar; e depois dele, Fletcher teve a mesma opinião

da capital da Bahia. Cidade de-casas desafogadas, salas de visitas

em que os moradores estavam sempre acendendo luzes de festa

e tocando piano. 124

Rugendas achou as casas do Rio não só sem alinhamento como

mal situadas: espremidas entre a colina e o mar. Havia, entre-

tanto, as desafogadas, que nem as de Salvador: com boas va-

randas e construídas por cima dos morros. Casas com a vista

do mar e da baía e recebendo o ar puro das matas. Eram, em

grande número, casas de estrangeiros. Ingleses, principalmente.

Mas também de brasileiros com hábitos rurais, que se aproxi-

mavam das cidades sem se entregarem às exigências urbanas. Tam-

bém eles tinham seu faro para os bons lugares de residência.

Fletcher ficou encantado com as casas suburbanas que conheceu

em Santa Teresa, Laranjeiras, Botafogo, Catumbi, Engenho Ve-

lho, Praia Grande, destacando o palacete do Barão de Andaraí

e a chácara de um Afr. Cinty.125 já Maria Graham tivera a mesma

impressão das casas dos arredores do Rio, como das que vira

perto do Recife, para os lados de Monteíro e do Poço da Panela;

Debret, das residências patriarcais que conheceu no Rio da mes-

ma época; James Henderson, dos casarões do Benfica, da Mada-

leria e do Poço em Pernambuco; Saint-Hilaire, das chácaras de

S,-' 1 "lb ~ i '1

--- , . , - , ---e~, 1 : - - 'aranj~,~ras, ~--, ~l-js

sobradões de Ouro Preto. Que melhores juízes senão do conforto

- que eles talvez quisessem mais à européia-da boa ou má

situacálo das casas de subúrbio no Brasil, nos primeiros anos do

SécLá XW


A casa- grande, térrea ou assobradada, de subúrbio, se arite-

cipou ci)t~e rios, tauto à rural, conio ao sobrado de rua, ern (lua-

lidades e cin condá,,Óes de higiene e de adaptaçao an nicio tro-

#

5 SALA



DE

JANTAR


4ZUARTO

SALA


DOIS TIPOS DE MUCAMBO.

(Desenho de M.

1" lu I-

AO z


SALA

#

208 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' To.-.ic) 209



pical. 0 sobrado teve dificuldades maiores a vencer. A rin-

cípio, quando dominou o tipo mourisco de casa gradeaXa, o

privatismo exagerado da família atriarcal, para evitar maiores

contatos com a rua, impôs-lhe a( 1 fés resguardos orientais. Depois

da chegada do Príncipe Regente, foi a casa urbana, o sobrado

b lês, que sofreu europeização mais rápida e nem sempre no

13ur

meRor sentido. A europeização da casa suburbana seria mais



lenta. "As casas do Rio de janeiro"-escrevia em 1851 o médico

Paula Cândido, referindo-se particularmente aos sobrados de rua-

"parecem destinadas antes à Laponia ou à Groenlandia do que

à latitude tropical de 200".12"

já Vaillant notara que no Rio tudo era europeu e, por conse-

qüência, antitropical: casa, mobiliário, modo de, vestir. Mas é

Paula Cândido quem melhor pormenoriza os inconvenientes da

europeização das casas burguesas, algumas delas construídas "so-

bre hum pavimento..." E quanto ao plano: "huma fatal alcova,

dormitorio predilecto; escura e modesta sala com hum corredor

escuro; huma sala de jantar, de costura, de tudo, excepto de saude,

pouco mais escura que a sala da frente, mas munida de infallivel

alcova, mediante ou não outro corredor", a "cozinha terrea". 127

Tal era a habitação da família burguesa menos abastada.

A gente mais rica, dos sobrados, não'vivia em condições muito

diversas: suas casas eram também mal divididas e escuras. Nelas

Paula Cândido não perdoava o mau hábito de se reservarem os

melhores salões das casas às visitas-"acis outros", dizia ele-en-

quanto a dormida era a pior possível, nas tais alcovas entaipadas,

nos quartos úmidos e sem janela. Aí, "envolvido em mosque-

teiro', o burguês mais opulento do meado do século XIX pas-

sava pelo menos "huma quarta parte da sua vida, deSois das

11 da noite até ás 6 da manhã..." Isto quando não se ava aos

prazeres da "apopletica sesta".128

Na habitação do burguês intermediário, tanto quanto.na do me-

nos abastado e na do mais opulento, o sistema de divisão de

peças era o mesmo: sala da frente, grande e às vezes bem are-

jada; o resto da casa, úmido, escuro. Alcova e corredores som-

brios. A cozinha, dada a sujeira que Luccock surpreendeu nas

casas do Rio de janeiro e Mawe nas do Sul do Brasil, devia ser

igualmente suja nos sobrados do Recife e da Bahia Dos escravos

que fugiam das casas burguesas, salientavam alguns anúncios que

estavam -imundos por serem cozinheiros" ou "se ocuparem da

cozinha". Luccock diz que nas casas do Rio de janeiro os fornos

de cozinha eram uns buracos de tijolo; não havia grelha; 129 tudo

muito rudimentar e muito sujo. 0 fogo se animava com abanos

de folha; tirava-se água das jarras com quengas de coco. Isto

no maior número das casas; nos sobrados patriarcais mais opu-

lentos havia cocos de prata.

As casas, levantavam-se quase todas ao sabor dos próprios

#

- "cada Proprietario



donos, cada qual "arvorado em Engenheiro",

traça o risco de seu predio". Daí erros grosseiros de construção.

De Freycinet salientou as escadas-quase sempre tão mal cons-

truidas que eram "verdadeiros quebra-costas.

Quase meio século depois de De Freycinet, já no Segundo

Reinado, o Dr. Luís Correia de Azevedo, em discurso na Aca-

demia Imperial de Medicina, dizia que a construção das habi-

tações no Rio de Janeiro era "a mais defeituosa que existe no

mundo". E quase repetindo o velho Paula Cândido: "Ao exa-

minal-as suppõe-se serem construcções para o Esquimó ou Groen-

landia; pequenas e estreitas janeDas, portas baixas e não largas,

nenhuma condição de ventilação, salas quentes e abafadas, alcovas

hurnidas, escuras e suffocantes, corredores estreitissimos, e sem-

pre esse ex otto na cozinha, essa sujidade bem junto à prepa-

ração dos Ifilmentos quotidianos, tendo ao lado uma arca, lugar

infecto, nauseabundo, onde os despejos agglomerados produzem

toda a sorte de miasmas."131 Os miasmas eram a obsessão dos

higienistas da época.

Deve-se notar, entretanto, a solidez de muitos dos sobrados

do tempo do Imperio, sem

Ingre que o material era de primeira

qualidade, e não de se. a; ou adulterado. A adulteração de

material, como já sugerimos, foi praticada à grande nas cons-

truções urbanas. Os comerciantes de tijolo e de madeira impin-

giam aos proprietários incautos, ou forneciam-lhes por preços

mais baixos, material ruim, só com a aparência de bom. Daí

resultava se agravarem as condições de umidade das casas, deter-

minadas pelo próprio plano dos edifícios. Estes tomavam-se 11 eter-

na morada de erysipelas" e de outras doenças, da descrição

melancólica de Paula Cândido. Ou "tumulos em vida". Resultado

da desonestidade dos fornecedores de material de construção e

não tanto da incompetência dos mestres-de-obras ou da ganância

dos capitalistas.

Sem pretendermos inocentar os mestres-de-obras nem tampouco

os capitalistas, construtores de sobrados, muito menos diminuir

a importância do fato, que Correia de Azevedo já destacava em

1871, da arquitetura nas cidades do Império servir só e baixa-

mente "à economia individual, que pretende haurir altos aluguéis

de tugúrios mal levantados e, ainda mais, mal divididos" e cons-

truídos com o mínimo de gastos por "analfabetos mestres-de-obra,

maus pedreiros ou péssimos carpinteiros" 132-tudo reflexo do sis-

tema econômico de escravidão então dominante-devemos fixar

a responsabilidade dos comerciantes de material de construção.

#

210



GILBE:R-ro FREYRE

0 tijolo qüe vinha sendo empregado há anos nas construções da

Corte, informava em memória apresentada ao Ministro e Secre-

tário de Estado dos Negócios do Império em 1884, o Engenheiro

Antônio de Paula Freitas, depois de estudo minucioso do assunto,

que era "geralmente mal feito e de má qualidade, provindo este

resultado não somente da má preparação do barro, que nem

sempre é lavado ou expurgado de certas substâncias estranhas,

frej~diciais à construção, como de os fabricantes empregarem

r'equentemente na confecção da pasta a areia, que além de não

ser conveniente e necessária, não é escrupulosamente escolhida,

pois quase sempre a extraem do mar". Daí o fato de, demolindo-se

um prédio antigo, encontrarem-se " as suas paredes carregadas

de umidade até nas partes mais elevadas".

Seria que o barro da região não fosse bom? Ao contrário: "do

melhor que se pode imaginar", escrevia no seu relatório o Enge-

nheiro Paula Freitas. E 'muitas vezes ao lado da barreira encon-

tra-se o rio que fornece água doce.. ." 0 que sucedia era a má

fabricação da pasta-defeito já notado por Freycinet-ou por im-

perícia técnica do mestre-de-obras ou do operário, talvez escravo;

Sor sovinice do proprietário (que desejava seus prédios construi-

os com o menor gasto possível, devendo-se ter ria lembrança

o fato de que grande parte do capital empregado em sobrados

urbanos no Brasil foi o de capitalistas impossibilitados de con-

tinuarem a negociar com a importação legítima ou clandestina de

africanos); ou ainda, por desonestidade do fornecedor de material,

que vendia às vezes pelo preço da telha ou do tijolo de primeira,

o de segunda ou de terceira. 0 que é certo é ter sofrido grande

parte da po ulação urbana dos maus efeitos de tanta casa cons-

truída ao slor dos interesses da economia privada; material, o

pior ossível; tijolo, mal fabricado; argamassa de areia de água

salga~a; cal "contendo matérias deliqüescentes em maior ou me-

nor quantidade"; operários de terceira ordem ou simples escravos

(que os de primeira e livres só trabalhavam por salários que os

ricaços achavam exagerados). E o plano-o risco dos proprietá-

rios. A fiscalização do governo, nula. Poucos cogitavam "de obter

bom material", diz-nos Paula Freitas dos fornecedores e fabri-

cantes de tijolo e cal: "tratam a enas de produzir muito e barato;

porque geralmente os compraSores fazem somente questão de

preço".133

0 morador que suportasse a umidade das paredes, da telha,

do tijolo ruim. Telhas que apodreciam sob uma crosta pegajenta

de limo. Paredes donde escorria sempre soro esverdinhado. Pa-

redes que soravarri sempre. E essa umidade envolvendo tudo o

mais na estrutura como na superfície da casa: as madeiras, os

metais, a camada de pintura a óleo ou o papel pintado das pa-

SOBRADOS E SIUCAMBOS - 1.0 Tomo

#

211



redes. De fibrosa, a madeira ficava granulosa; e sob a ação dos

parasitas vegetais-"certos protococos e os insetos xilófagos", diz-

-nos o Engenheiro Paula Freitas na sua linguagem dura de téc-

níco-não tardava a madeira a danar-se, esfarelando-se. 0 cupim

regalava-se nessas casas úmidas; esfuracava traves; das traves

descia aos móveis, aos livros, às roupas guardadas nas arcas e

nos armários ou penduradas nos caibros. Com a umidade, oxi-

davam-se os metais; o ferro perdia parte de sua resistência; alte-

ravam-se o zinco, o chumbo e o cobre; e a família patriarcal,

condenada a viver nesses sobrados úmidos, essa também sofria;

que a sua carne não era mais forte que os metais; nem seus

ossos mais resistentes que o ferro.

Daí o brado de higienistas como Correia de Azevedo contra a

indiferença das Câmaras Municipais. As Câmaras Municipais cru

zavam os braços diante da comercialização criminosa da arqui

tetura pela economia privada, tão ansiosa de lucros exagerados




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