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tido do maior uso do azulejo. Mas não se pode atribuir a esse

domínio, nem aos holandeses, o relevo que tomou o azulejo na

arquitetura de sobrado e de igreja do Brasil. Em Portucral o azu

leio era emprecrado largamente, e daí é que primeiro se comu

nicou ao Brasi'. ~nÁluência dos inouros,Jcs Iv)rt~ig,i-'es.

O comandante rlo navio francês La Venus foi o traço que mais

sentiu nas cidades do Brasil, a começar pelo tipo de arquitetura-o

traço dos mouros--surpreendido também, com olhos de técnico,

or outro franc(- que esteve no nosso País ria primeira metade

o século XIX:' o encr(-ril---ieiro Vautffier.1111 Aos mouros se deve

atribuir o ~~osto -)~, 12,~ ~cutes, tão corwins nos jardins e nos pátios

dos sol)I"£~i,-,

-~ ~;, ~~---::"_'' , ~ 1:1 e pelas bicas onde a

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SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo



195

equena-burguesia de Salvador ia de noite refrescar-se, tomar

anho, lavar os pés. O muito gasto de água nas cidades. Os ba-

nhos de rio ate - * t das pontes. Especialmente no Pará, onde

s yn

e

Kidder e, ano epois, Warren viram tanta gente nua-homens



e mulheres, velhos e meninos-regalando-se de banho de rio à

vista de toda a cidade.102 Influência do caboclo, supÓem uns;

mas influência, também, talvez mais profunda, do mouro, através

do português.

Nunca nos deverrio~ esquecer da influência do mouro através

do português, nem da do muçulmano através do negro, no sen-

tido da higiene do corpo e da casa nas cidades do Brasil. Foi

ela que atenuou a falta da higiene pública, em burgos imundos

e tão à-toa que a limpeza das ruas, dos quintais, das praias, dos

telhados esteve, por muito tempo, entregue quase oficialmente aos

urubus ou às marés. Os urubus vinham com uma regularidade

de empregados das Câmaras pinicar os restos de comida e de

bicho morto e até os corpos de negros que a Santa Casa não

enterrava direito, nem na praia nem nos cemitérios, mas deixava

no raso, às vezes um braço inteiro de fora. Com a mesma regu-

laridade burocrática a maré subia e lavava a imandície das

praias; às vezes alagava, como ainda hoje alaga, aldeias inteiras

de mucambos ou palhoças.

As praias, nas proximidades

dos muros dos sobrados do Rio

de janeiro, de Salvador, do Recife, até os primeiros anos do sé-

culo XIX eram lugares por onde não se podia passear, muito

menos tomar banho salgado. Lugares onde se faziam despejos;

onde se descarregavam os àordos barris transbordantes de excre-

mento, o lixo e a porcaria as casas e das ruas; onde se atiravam

bichos e negros mortos. O banho salgado é costume recente da

fidalguia ou da burguesia brasileira que, nos tempos coloniais e

nos primeiros tempos da Independência, deu preferência ao banho

de rio. "Praia" queria dizer então imundície. O rio é que era

nobre. Muita casa-grande de sítio, muito sobrado de azulejo, no

Recife todo o casario ilustre da Madalena-que hoje dá as costas

para o rio-foi edificado com a frente para a água. No rio se

tomava banho de manhã e de tarde se passeava de canoa ou de

bote, os chapéus-de-so! qtc,tos sobre os botes. Pelo rio, e de

canoa, se faziam mudanças de casa: aquelas constantes mudancas

de casa que eram quase um divertimento Xara as famílias sedá-

, c -outro"

tárias. O diário, hoje em nosso poder o velho "Papai

-Félix Cavalcanti de Albuquerque-e o ye recorda com mais

freqüência: mudança de casa. Quase não ouve sobrado grande

#

da Rua Imperial, no Beci-fe, que ele não ocupasse por algum



tempo.101

#

196 GILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAXIMOS - 1.1 Tomo 197



De noite, tempo de luar, os estudantes do Recife saíam de

bote, pelo rio, fazendo serenata às meninas dos sobrados da Ma-

dalena e de Ponte d'Uchoa. O costume viria quase aos nossos dias.

Os trovadores de rio tornaram-se admirados ela voz e pelo sen-

timento poético e dentre eles emergiu mais Sé um poeta ilustre.

Muita casa de sítio, e até sobrado, tinha seu banheiro de palha

à beira do rio mais próximo. Banheiro onde o pessoal fino se

desEia, caindo então, regaladamente, dentro da água. Algumas

sen oras mais recatadas conservavam o cabeção por cima do

corpo. Quase todas faziam antes o pelo-sinal e encomendavam a

alma aos santos, como a avó do Padre Lopes Cama. Os homens

raramente dispensavam um gole de cachaça para fechar o corpo

-gole tão profilático quanto o pelo-sinal das mulheres. A água

atraía-era talvez a influência indígena ou a moura; a influência

Saga. Mas por outro lado, fazia medo. Repugnava. Tinha seu gosto

e pecado. Talvez resto de influência do Cristianismo medieval,

que degradara a água e tornara o banho de no ase um pecado.

Aos poucos é que o banho de rio foi ganha no Brasil um

caráter docemente cristão-a ponto de irem se tornando comuns

os lugares onde a gente tomava banho sob a invocação de Nossa

Senhora da Saúde, curava-se das dores e das febres com os banhos

e com a água.

Mas o banho mais caraterístico da gente de sobrado foi o de

gamela e o de assento, dentro de casa. O banho de cuia. Os

anúncios dos jornais da primeira metade do século XIX estão

cheios de gamelas, aos poucos substituídas por tipos mais finos

de banheiros.104 Para a gente de mais idade, o banho era sempre

morno, inteiro ou de assento. Se£,undo a12uns viajantes dos tem-

pos coloniais-um deles Mawe-~'S senhor~ás dos sobrados abusa-

vam do banho morno; e isto concorria para amolentá-las. Opinião,

também, de alguns higienistas do tempo do Império, que se

ocuparam do assunto em teses e dissertaçÓes.

Uma das gabolices de alguns sobrados ilustres era que deles

escorresse para a rua a água dos banhos mornos. Água azulada

pelo sabonete fino e cheirando a aguardente de qualidade. Os

Édalgos das "cazas nobres" se orgulhavam de não feder a negro

nem a pobre.

Deve-se notar que o sabão, a princípio fabricado em casa, foi

um dos artigos que se industrializaram mais depressa no Brasil.

Sabão de lavar roupa-branqueada também a anil. Sabão de es-

fregar o corpo da gente fina e embelezá-lo ainda mais. Importava-

-se da Europa muito sabão de luxo. No século XIX os negros mais

ricos deram para importar sabão da Costa. Um consumo enorme

de sabão, A tal ponto que no meado do século XIX, grande parte

das fábricas do Império eram de sabão.105

Quanto à gente dos mucambos, é claro que entre ela o luxo

do sabão não se desenvolveu. Nem entre ela nem entre a preta-

Ihada das senzalas. O budum, a catinga, a inhaca, o "cheiro de

#

bode", dos negros, em torno da qual cresceu todo um ramo de



folclore, no Brasil, deve ter sido o exagero do cheiro de raça-tão

forte nos sovacos-pela falta, não tanto de banho, como de sabão,

em gente obrigada aos mais duros trabalhos. 1

]Porque do banho, o negro, a gente do povo mulata-e não ape-

nas a mameluca e a cabocla-nunca se mostraram inimigos no

Brasil. A tradição de excessivo gosto da água de bica, em regalos

de banho ou pelo menos de lava-pés, não se encontra só no Norte;

também no Centro e no próprio Sul do País. O muleque brasi-

leiro tornou-se célebre pelo seu gosto de banho de rio. Os jornais

da primeira metade do século XIX e até da segunda estão cheios

de reclamaçÓes contra muleques sem-vergonha, e mesmo homens

feitos, que, nos lugares mais públicos, ou ao pé dos sobrados mais

nobres, despiam-se de seus mulambos, de seus trapos de estopa

ou de baeta, e iam tomar banho completamente nus. É assunto a

que voltaremos a nos referir em capitulo se

Uma palavra, agora, sobre o saneamento Noms sobrados e dos

mucambos. Sabido que o sistema de saneamento nas cidades bra-

sileiras foi por muito tempo o do "tifre(i.-O barril que ficava

debaixo da escada dos sobrados, acumu. an o matéria dos urinóis,

para ser então conduzido à praia pelos negros-facilmente se ima-

gina a inferioridade, neste ponto, clas casas burguesas ou urbanas

com relação às de fazenda, de engenho ou de estância.

Martius, em Salvador, agradou-se dos sobrados, Achou magni-

fícos aqueles casarÓes quadrados, bons, com varanda na frente.

Mas lamentando a falta, em quase todos, de "certa c~didade,

com o que o asseio das ruas nada tem a lucrar".106 Luccock toca

no. assunto cheio de repugnância. Tanto que, ^para disfarçar o

nojo, ostenta erudição romana e escreve que Gloacina has no

Altar erected to her in Rio and a sort of Pot de Chambre is subs-

M

tituted for her Te Vè.107 Mas esses urinóis, às vezes grandes,



chamados "capitães , outras vezes de louça, muito bonitos, cor-

-de-rosa com enfeites dourados, onde as mulheres-contam pessoas

mais velhas-se sentavam fumando e conversando, nas suas carria-

rinhas; esses urinóis eram dos aristocratas, dos burgueses mais

lordes. Ainda hoje, alguns não querem saber de meio mais cômodo

de defecar; morreu há pouco no Rio um médico ilustre, da ge-

ração mais antiga, e de formação ainda ortodoxamente patriarcal,

que sentado no seu vasto urinol, lia e estudava todas as manhãs.

Alg~ins fidalgos mais comodistas, de sobrado ou de casa-grande,

tinham na alcova poltronas especiais, furadas no meio do assento,

por baixo do qual ficava o urinol.

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198



GFLBERTo FREYRE

O grosso do pessoal das cidades defecava no mato, nas praias,

no fundo dos quintais, aoXe dos muros e até nas praças. Lugares

jue estavam sempre w os de excremento ainda fresco. Luccock

iz: "thickly strewed wíth ever fresh abonzinations".108 Isto sem



falarmos da urina, generalizado como era o costume dos homens

de urinarem nas ruas; e de nas ruas se jogar a urina choca das

casas ou dos sobrados sem quintal. A 3 de março de 1825 apa-

receu no.Diário do Rio de Janeiro esta reclamação típica: "já lia

tempos que se roga aos vesinhos que ficam da Igreja de S. Jorge,

da parte da rua da Moeda, que ouvessem de não deitar na rua

à noite, aguas irrimundas e ourinas chocas, e que ainda continuão;

portanto por este annuncio se torna a rogar, prevenindo de que

se tornarem a continuar se representará ao juiz competente pois

que basta a extação em que estamos de grande calor e ainda

offrer os mais vesinhos semelhante mal pestifero à saude dos

Mesmos.


O hábito de defecar de cócoras, à maneira dos índios, de tal

modo se generalizou não só entre a gente rural como entre a

população mais pobre das cidades, que ainda hoje há brasileiros

distintos, de origin rural, ou então humilde, incapazes de se sen-

-se

tarem nos _q. hos sanitários: só acham jeito de defecar pondo



de cócoras sobre a tampa do W.C., que às vezes deixam toda

emporcalhada. Daí serem tão raros, no Brasil, os W.C. públicos

limpos ou asseados. Mesmo em algumas casas de família, nas

cidades já saneadas, não se concebe que os W.C. possam ser lu-

ares limpos, inteiramente diversos dos seus predecessores: as

casinhas" com simples barris sem o fundo enterrados ate o meio

sobre uma fossa. O uso desses barris, em "casinhas" distantes do

sobrado ou da casa, generalizou-se nas casas suburbanas da se-

gunda metade do século XIX.

A casa- rande de cidade e de subúrbio-o sobrado com a porta

e a varará , a para a rua, a chácara, a casa de sítio-tem tido, como

a de engenho, seus detratores, do mesmo modo que apologistas

liricos ou sentimentais. Quem é que às vezes não se lembra da

casa, às vezes feia, onde nasceu e brincou menino, repetindo o

poeta: "A -minha casa, a minha casinha, não há casa como a

minha"? E e mais fácil de perdoar-se o tradicionalista sentimental

que o modernista sem sentimentos: o que pretende sentenciar

sobre o passado, sem se colocar no ambiente ou nas condiçÓes

do passado.

Para criticar o sobrado ou a casa de sítio patriarcal-no sentido

de discriminar suas qualidades dos seus defeitos e não no outro,

de detratá-lo puramente-devemos considerar seu plano de arqui-

tetura em relação não somente com o clima mas com as necessi-

dades e exigências sociais do tipo de cultura, de família e de eco-

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SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo



199

nornia então predominante. Também quanto ao material empregado

não apenas por imposição do meio fisico como pela maior ou

menor pressão dos estilos europeus de vida sobre a fidalguia

das cidades.

Ainda se deve atentar no fato de que, dentro do ambiente de

desonestidade nas transaçÓes e nos negócios que costuma criar

em torno de si o sistema escravocrático, quando menos feudal e

mais comercial, muitas vezes se adulterou e falsificou entre nós

o material usado na construção dos sobrados e de outras casas

urbanas. De modo que alguns defeitos dos velhos sobradÓes atri-

buidos ao plano de arquitetura resultavam do material inferior,

desonestamente empregado em lugar do bom.

Não que o plano de arquitetura das velhas casas urbanas fosse

no Brasil um ideal de higiene doméstica para os trópicos. A hi-

giene dificilmente se conciliava com as exigências, mais graves

,para a época, de ordem moral e de natureza econômica. O sistema

patriarcal de família queria as mulheres, sobretudo as moças, as

meninotas, as donzelas, dormindo nas camarinhas ou alcovas de

feitio árabe: quartos sem janela, no interior da casa, onde não

chegasse nem sequer o reflexo do olhar pegajento dos donjuans,

tão mais afoitos nas cidades do que no interior. Queria que elas,

mulheres, pudessem espiar a rua, sem ser vistas por nenhum atre-

vido: através das rótulas, das gelosias, dos ralos de convento, pois

só aos poucos e a~ue as varandas se abriram para a rua e que

apareceram os p anques, estes mesmos recatados1 cobertos de

trepadeiras. Queria a gente toda da casa, especialmente as se-

nhoras e os meninos, resguardados do sol, que dava febre e fazia

mal; do sereno; do ar encanado; das correntes de ar; do vento;

da chuva; dos maus cheiros da rua; dos cães danados; dos cavalos

desembestados; dos marinheiros bêbados; dos ladrÓes; dos ciganos.

Dentro das paredes grossas dos sobrados não nos esqueçamos 'de

que se enterrava dinheiro, ouro, jóia-valores cobiçados pelos ci-

ganos, pelos ladrÓes, pelos malandros.

Dai a fisionomia um tanto severa dos sobrados; seu aspecto

quase de inimigo da rua; os cacos de arrafa de seus muros; as

lanças pontudas dos seus portÓes e gas suas grades de ferro

(onde às vezes os mulecotes, simples ladrÓes de manga ou de

sapoti, perseguidos pelos cachorros, deixavam fiapos de carne); a

frossura de suas paredes; sua umidade por dentro; seu ar aba-

ado; sua escuridão; o olhar zangado das figuras de dragão, de

leão ou de cachorro nos umbrais dos portÓes, defendendo a casa,

da rua, amedrontando os muleques que as vezes se afoitavam

a pular o muro para roubar fruta; ou simplesmente sujá-lo com

palavras ou filuras obscenas. Contra este últinio abuso a Câmara

Municipal de Salvador pronunciava-se de modo severo nas pos-

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200


Gw3ERTo FREYRE

turas de 17 de junho aprovadas pelo Conselho Geral da Província,

de acordo com o artigo 71 da lei de 1.' de outubro de 1828:

"Todo aquelle que escrever nos muros ou paredes de qualquer

edificio palavras obscenas,ou sobre efles pintar figuras desliones-

tas, soffrerá quatro dias de prisão."

Aliás, desde os dias de Dom João VI que a rua, por sua vez,

começou a defender-se dos sobrados. As gazetas daquela época

e os livros de atas das Câmaras da primeira metade do século

XIX vêm cheios de editais e de pronunciamentos contra os so

brados e a favor das ruas. RestriçÓes contra os desmandos a

triarcaís das casas assobradadas que ainda faziam das calç As,

terreno de partir lenha e escoadouro de água durante o dia. Pelo

que as Posturas declaravam, como as da Câmara da Capital de

Pernarribuco, em 1831:" Ninguém poderá lançar aguas lim as da

varanda de dia e só o poderá fazer das 9 horas da , Za n t e,

procedendo primeiro tres annuncios intelligiveis de-agua vai-sob

pena de 1$000 de multa e de pagar o prejuiso que causar ao

passageiro." E as de Salvador, em 1844: "O despejo immundo

das casas será levado ao mar à noite em vasilhas cobertas: os que

'orem encontrados fazendo tal despejo nas ruas [ .... ] incorrerão

1

.... ] na pena de 2$000 ou 24 horas de prisão."109



Fletcher não achou atrativo nenhum nas velhas casas de cidade

que conheceu no Rio de janeiro. Sobrados feios e trisfonhos; e

por dentro muito mal divididos. Que eram tristes, já nos dissera

Macedo: "tinham os sobrados engradamentos de madeira de maior

ou menor altura e com gelosias abrindo para a rua; nos mais

severos, porém, ou de mais pureza de costumes, as grades de

madeira eram com letas...""O Os do tempo de Fletcher já não

ostentavam as graTés coloniais, mas continuavam carrancudos e

mimi,tos da rua. E por dentro, o mesmo horror. No andar térreo,

E

a eira e a estrebaria, dando a frente ara a rua; no primeiro



andar, a sala de visitas, os quartos de Sormir, a cozinha. Um

pátio interior geralmente separava, no andar térreo, a cocheira,

da estrebaria; no primeiro andar, a cozinha, da sala de jantar.

Esse pátio, no interior da casa ou atrás do sobrado, muitas

vezes em forma de U, e lembrando um pouco os da Anda-

luzia, encontra-se ainda nos velhos sobrados grandes das cidades

mineiras. E até em algumas casas de engenho do Norte como a

de Maçangana, em Pernambuco. Era aí que, entre as flores de

um pequeno jardim, as senhoras, enclausuradas a maior parte do

tempo, costumavam tomar um pouco de ar fresco, tagarelando

com as mucamas, brincando com os papagaios, com os saguins,

com os mulequinhos. Nem todas as casas de cidade podiam dar-se

ao luxo dos jardins opulentos, no gênero daquele que um ricaço

mandou fazer em Minas para a sua mulata de estimação. Nem

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SOB~S E MUCAM33OS - 1.' Tomo



201

daqueles jardins com altos e baixos, os canteiros trepando por

cima dos morros, que Mawe admirou nas casas ricas de Ouro

Preto.`u' Jardins quase suspensos.

No Recife, como no Rio de janeiro, tomaram-se comuns, nas

melhores casas de cidade, os jardins com alguma coisa de mou-

risco, a água escorrendo o dia inteiro de alguma bica de boca de

dragão, azulejos brilhando no meio das lantas e nas fontes. o

Rio de janeiro chegou a ter casas-granges de chácara famosas

Selos seus jardins alegrados por azulejos, por figuras raciosas

e louça, enobrecidos por jarros que desde os começos to século

XIX aparecem nos anuncios dos jornais.112Verernos no capítulo

seguinte que a composição desses jardins-suas plantas-sofreu

notável reetiropeização no meado do século XIX.

Do século XIX restam-nos litogravuras de jardins de sobrado

e de chácaras, não só animados pela água das fontes e pela fres-

cura dos repuxos, como povoados de figuras de anÓezinhos bar-

bados, de meninozinhos nus, de escravos bronzeados, fortes, res-

eitosos como para servirem de exemplo aos de carne, de mulheres

onitas, representando as quatro estaçÓes e os doze meses do

ano, umas sumidas entre folhagens, outras bem ao sol, ostentando

brancuras reco-romarias; algumas em atitudes solenes, segurando

fachos ( - E que no fim do século XIX se tornariam bicos de

ás. Também se encheram os jardins de pagodes ou palanques,

Se cercas de pitangueira ou de flor de maracujá , de aléias de

palmeiras, de jarros, de quiosques com avencas.

O jardim da casa brasileira, enquanto conservou a tradição do

ortuguês, foi sempre um jardim sem a rigidez dos franceses ou

Nos italianos; com um sentido humano, útil, dominando o esté-

tico. Irregulares, variados, cheios de imprevistos. Essa variedade

parece ter sido aprendida com os chineses: foram talvez os por-

tugueses que introduziram na Europa a moda dos jardins chineses.

Eram também caraterísticos dos velhos jardins de casas brasi-

leiras os canteiros, feitos às vezes de conchas de marisco. Várias

plantas eram cultivadas neles sem motivo decorativo nenhum:

só por profilaxia da casa contra o mau-olhado: o alecrim e a

arruda, por exemplo. Com o mesmo fim espetavam-se chifres de

boi nos paus das roseiras. Outras plantas eram cultivadas princi-

palmente pelo cheiro bom; pelo "aroma higienico"-2ualidade tão

4

estimável naqueles dias de ruas nauseabundas e e estrebarias



uase dentro de casa: o resedá, o jasinim-de-banha, a angélica, a

ortelã, o bogari, o cravo, a canela. As folhas de canela se espa-

lhavam pelas salas nos dias de festa. Sua casca se ralava para

fazer o o' com que se sal 'cava o arroz-doce. Quando se sentia

o cheirop~e canela vir de Wntro de uma casa já se sabia: casa-

mento, batizado, o filho doutor que chegava da Europa ou da

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. 1


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202 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 203

Corte. Cheiro de alfazema era menino novo. Cheiro de incenso,

missa na capela ou defunto.

Ainda outras plantas se cultivavam no jardim para se fazer

remédio caseiro, chá, suadouro, purgante, refresco, doce de res-

guardo: a laranjeira, o limoeiro, a erva-cidreira. Outras se deixava

crescer pelo sítio com o mesmo fim higiênico das plantas de

jardim.

Muita planta se tinha no jardim só pela cor sempre alegre das



suas flores-a papoula, por exemplo, que, entretanto, servia tam-

bém para dar brilho às botinas ou aos sapatos pretos dos burgueses.

Várias, ao contrário, serviam para o Culto doméstico dos mortos

e dos santos: a saudade, a perpétua, a sempre-viva. Flores roxas

ou de um azul muito pálido. A filha do Mart~ties de Sapucaí

cuidava de um canteiro de violetas, que quando ela morreu o

pai celebrou num poema sentimental. Eram flores que estavam

sempre se cortando para enfeitar os caixÓes de anjinhos e das

moças que morriam tuberculosas. Às vezes, dos mucambos vinham

pedir nos sobrados, flores para enfeitar as caixas de camisa ou

os tabuleiros de bolo onde a pobreza enterrava, seus anjinhos.

Alguns sobrados, com jardins grandes, vendiam flores, como, tam-

bém água à gente das casas pobres.

Havia sempre nos jardins das chácaras, um parreiral, susten-

tado por varas ou então colunas de ferro : parreiras com cachos

de uva doce enroscando-se pelas árvores, confraternizando com

o resto do jardim. Recantos cheios de sombra onde se podia me-




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