Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página36/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   32   33   34   35   36   37   38   39   ...   110

Visitando o Rio de janeiro no meado do século XVIII, o escan-

dinavo Johan Brelin viu também casas bem construídas: "casas

construídas de pedra à maneira espanhola ou portuguesa, com

balcÓes diante dos postigos das janelas, que são cercadas de

grades, porque as vidraças são ali muito dispendiosas e encontram-

-se, pois, somente nas residências mais riobres, assim como nas

igrejas e claustros"."'

Salvador parece ter conservado no século XVII e no XVIII

o ar meio agreste da descrição de Gabriel Soares. O mesmo Johan

#

Z



LLJ

(0)


cc

-0. .:. :j ~ -

43 ~ o

CIL E3


104

o ; -V to o =



's

C, ---,



. ,r, w

93 -d a J e ; ;

o o o 12 C3 o O0

5~ -= Ú 104 e -5 W-

a. o 1;

C3 C% o


C3

ci. OD 11~

til 92

c

o M Cr O,



1-1

E3 O


os r2

-4 ~0 " E

W. '"

W w a.


ao C11

G À.-i c: - _:: --0 P-

O ._ -- - ._ =o

, - a. O11 ~O g.. I-

O: Ci

,0 CC


C$ a- ç-) E3 -0 O

ID

C5



r~ - E3 a, 4

o 12 O0


#

1 rá ~5 O-

o-

r,

O



e4 Cn ;8

o

E1~ o g



Q4

O

e 1 o o ca o



Cl~ o CO-0 O0X

= 4) #*~ r. 9 w[- ,~

.,~ -0 Cn -sa C)

e Ct C5 . r~ f..OE-4

1 e O -52 o P.,C ~D

o

10 U) Cn ca



. co

-, (D c> E,%-. ~

2~ o o co = o ;:)

~ ~." o Cr-

cn C, C.E ~: -~

O a


í_ ai z~ O

o --- 14.a w

z U~w= o c.

;_--- Z q$

G. Adolphe Bourg

RUA NOVA H. 6 Èm casa de Rwbe Selimettan

vendi, carros novos e ino(loria * de

rua da Cadeia n. 37, vendem-se elegan.

os c021 PwICO liso, arroios novote& pianos do afamado fabricante Trau-

Cio o


rOE-

o

o



#

o co


4, O,

*0,


o

o



""",C

C,

a



, O0

É

c



o

o

co



O

O

O



O0

e out 1


out

e

,0



,I)C

'I'~a e seiri ella, parelhas de cava ~ mann de Ilamburgo.

bons cavaliDs para cabriolet, tudo pi

L~n~


ti'tl'

Iki(t


o

ons


~ondsc

ANÚNCIOS DE JORNAIS BR---AS1LEIROS DO MEADO E DO FIM DA ERA. IMPERIAL rel,aivos

a sti.'rjs de convivéncia ainda patriarcal e já urbana ern algurnas das então

principais áreas do Pals (Bahia, Bio de J-,t,-,ei-o, PernamIii(c), Rio Grande

cio Sul). Grupo 1.

SOBRADOS E MUCA?"OS - 1.0 TOMO

187

#

Brelin viu em Salvador bonitos jardins entre as casas .87 E era



muito o mato dentro da cidade. Muita árvore. As casas-grandes

dos ricaços quase rivalizando com as de engenho não só na massa

enorme, patriarcal, do edifício, como no espaço reservado à cul-

tura da mandioca e das frutas, e à criação dos bichos de corte.

Os moradores dos sobrados não podiam depender de açougues,

que quase não existiam, nem de um suprimento regular de ví-

veres frescos, que viessem dos engenhos e das fazendas do inte-

rior para os mercados da beira-mar.

Precisavam assim de se assegurar dessa regularidade de gê-

neros de primeira necessidade, produzindo-os o mais possível em

casa. Bolacha, queijo, peixe seco, vínharri. pelos navios; e até man-

t biscoito, vinho, chapéus, meias inglesas, negros africanos

a as casas ficaram recebendo diretamente da Europa, da

. das ilhas, por suas bocas abertas para o mar. O qual tam-

bém lhes fornecia óleo de baleia para dar força à argamassa das

raredes das casas; azeite de peixe para alumiar as salas; peixe

resco para a, mesa; marisco ara o fabrico da cal dos edifícios.

As cidades brasileiras não, poiliam depender mais do mar e menos

da terra.

Daí poder falar-se da casa-grande no Brasil não só como o

centro de um sistema rural de economia e de família mas como

um tipo de habitação patriarcal que existiu, modificado, nas ime-

diaçÓes das cidades (cliácaras, casas de sítio, casas assobradadas)

ou mesmo dentro delas e à beira do mar (sobrado), Dependendo

do que o mar lhe dava sob a forma de alimento, azeite, marisco

para a cal das paredes e também do que lhe vinha pelo mar de

saíses de civilização adiantadamente industrial em troca dos pro-

utos das plantaçÓes e das matas dominadas pelas casas-grandes.

Em anúncios de casas para vender, nosjornaís dos princípios

do século XIX, as chácaras e até os sobra os patriarcais das ci-

dades ainda aparecem anunciados como "casas-grandes". "Arren-

da-se hum sitio no logar do Piranga corri muita boa casa grande

de pedra e cal, estribaria para cavallo, um bom systema de agua

de beber, muitas arvores de fructo que dão bastante e terreno

sufficiente pa'ra plantação de rossas e o mais que se queira, que

tudo produz bellamente pelo dito sitio ser em terra tresca", diz

um anúncio no Diário de Pernanibuco de 17 de setembro de

1835. Noutros anúncios, em vez de casa-grande de sítio ou de

sobrado, díz-se "chacra" ou "caza nobre", ou "chacara ou grande

morada de casa de sobrado", como num anúncio do jornal do

Commercio de 7 de dezembro de 1827: sobrado, por sinal, corri

muita plantação de laranjeiras, vasto cafezal, o sítio cercado todo

em roda de limÓes, um grande parreiral de uvas, uma gran e

fonte. Outra casa de sítio se anuncia, no jornal do Commercío de

#

188


GILBERTO FREYRE

10 de janeiro de 1828, como de "pedra e cal, envidraçada", vista

para o mar, senzala, armazém, cavalariça, 60 Mil é de café

prirícipiando a dar, mato virgem. Verdadeira fazenNas junto da

cidade, quase dentro do centro urbano, quase à beira-mar.

Por aí se explica, em arte pelo menos, a extensão de área

das cidades brasileiras. EM Íoram crescendo com os interesses

de concentração urbana prejudicados pelos de autonomia econo-

mica das casas dos ricos, que precisavam de verdadeiro luxo de

espaço para senzala, chiqueiro, estrebaria, cocheira, horta, baixa

de capim, pomar, parreiral, árvores grandes a cula sombra se

almoçava nos dias mais quentes, açougue, viveiro, banheiro de

palha no rio ou no riacho. Para todo um conjunto de atividades

* osta às casas burguesas pela imperfeita urbanização da vida

mlp s

e pela escassa ou difícil



nhos e as fazendas.

comunicação das cidades com os enge-

A urbanização se foi fazendo, entretanto, em sentido vertical,

naquelas cidades de topografia mais difícil para o transborda-

mento da população ou do casario em sentido horizontal. No

Recife, por exemplo. Aí os sobrados de três andares tornaram-se

comuns desde o século XVII. Era um meio de as casas continua-

rem grandes e satisfazerem muitas das necessidades patriarcais

sem se espalharem exageradamente para os lados.

Em Salvador, no Rio de janeiro, na capital de São Paulo, em

Ouro Preto, os sobrados parecem ter variado entre um e dois

andares, alguns indo a três, no Rio de janeiro; raros a quatro

ou cinco, na Bahia; no Recife é que chegaram a cinco e ate seis.

As icasas de residência no Rio de janeiro, escreveu nos princípios

do século XIX um viajante in les que eram geralmente de dois

andares; mas havia "algumas Se três; eram sobrados bem cons-

truidos, de granito ou tijolo, as paredes revestidas de cal de

marisco. . . -811 Spix e Martius viram na Bahia sobrados de três e

11

at4 cinco andares, as mais das vezes construídos de pedra".89



Conservou-se nesses sobradÓes do princípio do século XIX a tra-

dição, o velho gosto da vista para o mar: "do lado do mar, corri-

pridas varandas de madeira..." repararam os alemães. Rodeando

os sobrados, touceiras de bananeiras e laranjeiras. OitÓes livres.

Nenhum excesso de agarrado, como o das casas menores, os so-

bradinhos, as casas térreas de taipa e de barro, que até nos luga-

rejos do interior ainda hoje tendem no Brasil a agarrar-se umas

às outras.

O norte-americano Roy Nash-observador arguto e sempre bem

documentado-julga ter descoberto uma explicação psicolo - a

#

s)PC


1

para essa tendência das pequenas casas burguesas no Bra se

agarrarem tanto umas às outras: seria uma espécie de desforra

contra o silêncio opressivo dos largos espaços entre as cidades,

O,

NASCENTF-



n)

I_Vr


PASTO (Ó, ia PASTO

o

O:E O



TANQUE o

CX

ima 9



PADA

PLANTA DE UMA CHICA-

RA DO RIO DE JANEIRO

NA SEGUNDA METADE DO

SÉCULO XIX.

(Desenho de Carloa Lelo.)

5

C Ob


ou

-,11 g


O 1

O

O



Y

NJ

X



.9

#

190 GmBEEtTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 19



uma espécie de reação contra as distâncias enormes que separam

um povoado do outro.90 Principalmente no interior.

Nas cidades maiores, essa tendência para as casas pequenas

se agarrarem tanto e se comprimirem talvez venha obedecendo

mais a motivo econômico que ao psicológico, sugerido elo obser-

vador norte-americano. Mas nas cidades de Minas &erais, por

exemplo, a sugestão de Nash parece aplicar-se aos Sróprios so-

brados grandes que se apresentam quase tão ag- - os uns aos

outros quanto as casas pequenas. No Recife, já vimos datar dos

holandeses a tendência para maior concentração e maior verti-

calidade dos sobrados: imposição da topografia favorecida, ao

que parece, pelo sentido holandês de cidade e de arquitetura

ufbana. Mas acabou a cidade deixando de se limitar à quase-ilha

do Recife, para transbordar, em casas mais ordas, pelos aterros

e pelos mangues, já saneados por palhoças fe pescadores.

Em São Paulo, os sobrados de residência-em geral de dois

aavimentos, e quase todos de taipa, ao contrário dos da Bahia,

o Recife e do Rio de janeiro, construídos, mais nobremente, de

tijolo ou de pedra com cal de marisco- rece que nunca tiveram

o prestígio social das chácaras. Nas cCcaras era onde os pau-

listas mais abonados preferiam morar, guardando melhor nessa

vida semi-urbana o possível sabor da rural. Eram casas de um

pavimento só, caiadas de branco, rodeadas de jabuticabeiras, li-

moeiros, laranjais. Seus moradores, ainda mais ariscos que os do

centro da cidade, quase só saíam para a missa e para as festas

de igreja. Os menos retraídos é possível que fossem também ao

teatro onde se representavam peças do tipo do Avarento com

atores mulatos. Quase todos os moradores de chácaras saíam

decerto de casa para ver das varandas dos sobrados de conhecidos

ou dos parentes as procissÓes que Mawe observou atraírem tanta

gente. Brancos, caboclos, negros, mulatos.91 Aliás esse viajante

inglês viu em São Paulo, à sombra dos sobrados de taipa, muito

negro e mulato. Seu depoimento não favorece a teoria daqueles

ue imaginam a população paulista dos te os coloniais virgem

mÇorn selvagem", isto

3e sangue africano e enegrecida só ~elo do)

é, o índio. Antes do esplendor da avoura do café, que foi na

segunda metade do século XIX, já São Paulo tinha seus negros

e seus mulatos em número considerável; e não apenas salpicos

de sangue africano.

Algumas chácaras, notou Saint-Hilaire em São Paulo que do-

minavam não somente laranjeiras e jabuticabeiras, como até ca-

fezais. Quase umas fazendas. Numa delas, a de um brigadeiro,

a meia légua da cidade, havia também muita macieira, pereira,

castanheira, pessegueiro, além de parreiral; e pasto para os ani-

mais, como nas fazendas do interior. Na de Joaquim Roberto de

Carvalho estava-se como numa casa-grande de engenho: terraço

onde se podia fazer o quilo; pomar; e nem era preciso ir à igreja

#

para ouvir missa, porque a casa tinha capela.92



Essas casas de sitio, com capela, baixa de capim, muita árvore

de fruta, olho-d'água ou cacimba donde se vendia água à gente

mais pobre da vizinhança, existiam também nas imediaçÓes do

Rio de janeiro e do Recife. Os anúncios de jornal estão cheios

delas. No Recife, dos últimos anos da era colonial e dos primeiros

da Independência, as casas-grandes de sítio floresceram menos

como residências do ano inteiro do que como casas de verão,

onde os moradores mais ricos, sem se afastarem muito dos seus

sobrados da cidade, iam passar a festa e fazer suas estaçoes

de água, tomando banho de rio e chupando caju para limpar o

sangue. Modificado, o costume prolongou-se até o fim do sé-

cujo XIX.

Eram em geral casas de um pavimento só, como as chácaras

aUlistas. Edifícios de quatro águas, como as casas de engenho.

rotegiam-nos terraços acachapados ou copiares. As árvores mais

comuns nessas casas do Norte eram as goiabeiras, os araçazeiros,

os cajueiros, as laranjeiras, os cogeiros; depois se generalizaram

as mangueiras, as jaqueiras, as rvores de fruta-pão.

Nos terraços, os homens jogavam cartas; debaixo das manguei-

ras havia almoços ao ar livre, alegres e às vezes com vinho. Os

salÓes quando se iluminavam era a vela, a luz protegida pelas

Srandes mangas de vidro, para as moças de saia-balão brincarem

e padre-cura com os rapazes de calças justas, estreitíssimas,

apertadas nas virilhas; ou dançarem as quadrilhas aprendidas

com os mestres franceses. James Henderson e Maria Graham

puderam observar um pouco da vida social nas casas-grandes de

sítio das imediaçÓes do Recife: Poço da Panela, Monteiro, Ponte

d'Uchoa. E o Padre Lopes Cama nos deixou também vários fla-

grantes desses passamentos de festa.93 Evidentemente, as casas

âe sítio do Recife não eram tão tristonhas quanto as chácaras

de São Paulo; a iluminação, mesmo na era colonial, era mais

farta, mais alegre, mais viva do que em São Paulo; de ordinário

de azeite de peixe, e não a econômica luz das lâmpadas de azeite

de mamona, preferida pelos paulistas.

Quanto aos sobrados-nos quais devemos ver o tipo de arqui-

tetura nobre mais intransigentemente urbana que se desenvolveu

no Brasil-já observamos que variavam em número de andares

e na qualidade do material, os do Recife parecendo ter sido os

mais altos, e quase sempre, como os da Bahia e do Rio de janeiro,

de pedra ou tijolo; os de São Paulo, de taipa e, na média, de dois

pavimentos, os do Rio, de dois e três andares. Robert Burford,

que descreve o Rio de janeiro de 1823, diz-nos o que era por

#

192 GiLBER-ro FREYRE SO~OS E MUCAM3OS - 1.' Tomo 193



dentro um desses sobrados de um, dois ou três andares: sala de

visita pintada com cores vistosas, varanda onde às vezes se comia,

alcovas, cozinha, estábulo, para o qual se entrava, tendo de atra-

vessar a parte mais nobre da casa. O material de construção, o

granito ou o tijolo. janelas, já de vidro, que há pouco tinham

substituído as gelosias. Nas chácaras melhores, muito mais con-

forto à européia, pelo menos P, ara um inglês, do que nos so-

brados, talvez mais orientais: they aboutid in the conifort of

Europe". Mas também muito encanto dos trópicos: grandes jar-

dins, fontes jorrando água, laranjeiras, goiabeiras .94

Entretanto é curioso: certos requintes, como a vidraça dasja-

nelas, tudo indica que primeiro se desenvolveram nos sobra os

e ate nas casas-grandes de fazenda de São Paulo e de Minas. Na

região mediterrânea e não na levantina, mais em contato com

a Europa. No pró io Rio de janeiro predominou até os fins da

21

era colonial a jane a de grade de madeira. O que se explica, em



arte, pelas exigências de um clima mais áspero nas províncias

e São Paulo e Minas, com os dias mais escuros, mais cheios de

nuvens, a garoa freyente. Sem vidraça, o interior das casas

e

tomava-se quase ii- -o erável, dia de chuva.



Saint-Hilaire notou na cidade de São Paulo que era raro o

sobrado em que as janelas não fossem envidraçadas. Luxo que

raramente faltava aos sobradÓes mineiros. Ainda há poucos anos,

vimos perto de Barbacena velho casarão de fazenda, ao que

parece do século XVIII, com o terraço todo envidraçado. Um

terraço magnífico onde se Sodia passar o dia inteiro de chuva,

sem ter de acender a can eia de azeite ou a vela de castiçal

para as senhoras coserem ou os homens jogarem as cartas. Entre-

tanto, devia ser difícil e caro o transporte de vidro para o inte-

rior de Minas.

Em São Paulo, diz-nos Saint-Hilaire que eram só as casas me-

nores que tinham rótulas: os sobrados ostentavam vidraças. Do-

minava o verde na pintura das sacadas e das venezianas. Os bei-

rais das casas não eram tão exagerados como noutras cidades

do Brasil, tendo apenas largura suficiente para que protegesse

os transeuntes, da chuva.95

Entretanto, a outros viajantes da época, a cidade de São Paulo,

mesmo com as janelas envidraçadas, pareceu cidade um tanto

triste. Mais triste, decerto, que a Bahia, onde talvez fosse menor

o número de vidraças e maior o de gelosias; mas onde as casas

tinham no alto terraços para o mar. Onde as noites tinham mais

luz com o farto azeite de peixe. Os dias, mais sol.

Em São Paulo, o sobrado teve um desenvolvimento mais vaga-

roso do que no Recife. Mas desde 1611 e 1617, lembra Alcântara

Machado que os inventários dão notícias desse tipo mais nobre

de edifício. Às vezes eram casas híbridas: meio lanço de sobrado

#

e meio lanço térreo. Outras só apresentavam assobradada uma



camarinha. Eram raras as forradas; mas todas tinham seu cor-

redor, seus compartimentos de taipa de mão, suas câmaras e

camarotes. A coberta, a principio de sapé ou de palha, foi, como

já reparamos, desde os fins do século XVI, sendo substituída,

nos sobrados e nas casas melhores, pela telha. Cuidou-se em São

Paulo, desde os fins daquele século, do fabrico de telha mas

não ao ponto de produzir-se telha barata. De modo que a coberta

de telha, em contraste com a de sapé ou a de palha, deve ter

sido sinal de nobreza da casa. A telha era caríssima: o milheiro

"vendido a mil e seiscentos e dois mil-réis, preço enorme para o

tempo", recorda o Professor Alcantara Machado.96

A casa híbrida-metade térrea, metade sobrado de um, dois e

até três andares-desenvolveu-se particularmente nas cidades cons-

truidas em terreno desigual ou em planos diversos. Em Ouro

Preto e na capital da Bahia, por exemplo, às vezes a frente da

casa era térrea e as costas, assobradadas, davam para barrancos

e até para precipícios.

, Mas foi sem dúvida no Recife que se antecipou, entre nós,

por um conjunto de circunstâncias já sugerídas, o tipo de edifício

mais carateristicamente urbano. Sobrados patriarcais de três, qua-

tro e, na primeira metade do século XIX, até cinco e seis andares.

Sobrados onde as atividades da família-ainda patriarcal e já bur-

guesa-começaram a espalhar-se em sentido quase puramente ver-

tical mas com o mesmo luxo e a mesma largueza de espaço das

casas-grandes de engenho. Assim, o sobrado que Kidder conheceu

no Recife dos primeiros tempos da Independência-casa de seis

andares, escreveu ele, "de um estilo desconhecido nos outros

pontos do Brasil". Esse estilo de casa era tipico da habitação dos

recifenses mais ricos-os comissários de açúcar. Os fidalgos do

comércio. No andar térreo, ficavam o armazém e a senzala; no

segundo, o escritório; no terceiro e no quarto, a sala de visitas

e os ~tiartos de dormir; no uinto, as salas de jantar; no sexto, a

a

cozin a. E ainda por cima 3esse sexto andar havia um mirante,



ou cocuruto, donde se podia observar a cidade, admirar a vista

dos arredores, gozar o azul do mar e o verde dos mamoeiros,

tomar fresco.97

O missionário norte-americano subiu ao cocuruto do sobrado

patriarcal de que nos deixou descrição minuciosa-lugar ideal, diz

ele, para o estrangeiro colher uma idéia exata da cidade. Viu o

porto cheio de jangadas de vela; navios ancorados no larriarão;

Olinda branquejando entre o arvoredo; casas de sítio rodeada~

de cajueiros, mangueiras, palmeiras-casas acachapadas, rasteiras,

11

,i



#

194


GILBERTO FRFYRE

de um só pavimento, contrastando com os sobrados altos como

aquêle.

Às vezes, em vez de cocuruto ou mirante o re havia eram



águas-furtadas ou óculos nas grossas paredes e fortaleza do

sobrado, que talvez fossem já o refúgio dos gatos menos mimados

pelas iaiás da casa. Óculos donde se podia ver o mar ou o casario

ou o arvoredo distante.

Kidder salienta entre as vantagens da cozinha situadá no sexto

andar o fato de a fumaça e os cheiros de comida não incomo-

darem a família, nos andares de baixo. 98 A desvantagem era o

transporte de água, o da carne, o das coisas de cozinha, ter de

ser feito todo ere através de vários lanços de escada. Mas para

que tanta fartura de negro e de muleque, nos sobrados? Porque

não era apenas nas casas-grandes de fazenda ue os negros, os

muleques e os crias se acotovelavam dentro Je casa: também

nos sobrados ricos. Uma senhora do Rio disse ao Rev. Fletcher

que os seus escravos eram um aperreio, não porque fossem pou-

cos, porém muitos;"" gente de mais dentro de casa; a pobre sinhá

não sabia mais o que havia de inventar para dar que fazer a

tanto mulecão malandro, agachado pelos cantos. Essa fartura e

até excesso de negro permitia, aos sobrados do meado do século

XIX, instalarem no sexto andar sua cozinha e no térreo, a senzala.

Como permitira aos ricos e aos Tesuítas instalarem nos séculos

XVI e XVII suas casas-grandes e' seus colégios enormes no alto

do morros. Não faltava escravo para subir e descer as ladeiras,

com carretos à cabeça e palanquins nas mãos possantes.

Foi também no Recife que alcançou maior esplendor o sobrado

de azulejo. O Sr. Roy Nash dá como a região brasileira de em-

Srego mais largo de azulejo na arquitetura não só de igreja como

e casa, o trecho levantino entre Maceió e São Luís do Mara

nhão.100 Exatamente aquele onde foi maior o domínio da cultura

holandesa. Esta teria agido, com as suas qualidades tradicionais

de asseio, sobre a higiene da casa burguesa do Nordeste, no sen




1   ...   32   33   34   35   36   37   38   39   ...   110


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal