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ou abóbora cozida; e esta comida rala, a homens que na região

cafeeira tinham de levantar-se às três da madrugada para traba-

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178



GILBERTO FREYBE

Iharem até nove ou dez da noite. Homens que trabalhando tanto

só dormiam cinco ou seis horas por dia. Porque mesmo no tempo

de chuva, o negro de fazenda tinha de levantar-se durante a

noite para recolher o café. "O trabalho excessivo, a alimentação

insufficiente, os castigos corporaes em excesso"-escreveu um

observador do regime de trabalho escravo nas fazendas de café:

o Dr. David jardim-"transformam esses entes miseraveis em ver-

dadeiras machinas de fazer dinheiro [ .... 1 sem laço algum de

amisade que os ligue sobre a terra.. . "62

O surto do café representou no Brasil a transição da economia

patriarcal para a industrial, com o escravo menos pessoa da fa-

~nília do que simples operário ou "machina de fazer dinheiro"

-assunto que voltaremos a ferir noutro capítulo. O Dr. David

Gomes jardim, indagando de um fazendeiro, dos tais em quem

se encamava o espirito dessa fase de escravidão mais industrial

que patriarcal que foi se desenvolvendo no Sul, porque lhe adoe-

ciam e morriam tantos negros, ficou surpreendido com a resposta:

"Respondeu-nos pressuroso que [a mortandade], pelo contrario,

não dava darrino algum, pois que quando comprava um escravo

era só com o intuito de desfructal-o durante um anno, tempo alem

do qual poucos poderiam sobreviver, mas que não obstante fa-

zia-os trabalhar por um modo que chegava não só para recu erar

o capital que nelles havia empregado, porem aind_ a __ - - Cro

consideravel."63

À mesma fase de industrialização, do trabalho negro, re,fere-se

Sebastião Ferreira Soares, quando escreve nas suas já citadas

Notas Estatisticas: .1 .... 1 sou informado. que o fazendeiro que

comprava 100 captivos, calculava tirar no fim de tres annos 25

escravos para seu serviço". O resto ou tinha morrido ou fugido.

O horror dos escravos do Nordeste mais docemente patriarcal,

ou mesmo do Recôncavo da Bahia, ao castigo, de que os amea-

çavam os senhores nos seus dias mais terríveis de zanga, de os

venderem para as fazendas de São Paulo, para as minas, para

as engenhocas do Maranhão e do Pará, representava, evidente-

mente, o pavor do negro ao regime de escravidão industrial, ao

trabalho sob senhores pobres ou de fortunaapenas em começo.

Havia escravos que fugiam de engenhos de senhores pobres

ou sovinas para os de senhores mais abonados, moradores de

casas-grandes assobradadas e homens quase sempre mais liberais

nas suas relaçÓes com os escravos e nas suas exigências de tra-

balho ue os menos opulentos. É que nesses engenhos grandes

o trabaL era mais dividido e portanto menos áspero.

Quanto à fuga de negros, e sobretudo mulatos, dos engenhos

para as cidades, tinha provavelmente outro fim: o de passarem

nor livres. Os mais peritos em oficios-funileiro, marceneiro, fer-

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo

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reiro-às vezes ganhavam com a aventura, não só a liberdade,

como o sucesso profissional e social. As mulatas e as negras

mais jeitosas se amigavam com os portugueses e italianos recém-

-chegados da Europa aos quais convinham mulheres de cor ca-

azes de ajudá-los com os lucros de suas atividades de lava-

eiras, engornadeiras, boleiras, quitandeiras. E algumas, sempre

fiéis a esses primeiros amantes, acabaram esposas de negociantes

ricos e até de "senhores comendadores": senhores de sobrados.

Quando não tinham mrte, no ofício ou no amor, o destino

dessas mulatas e daqueles mulatos não seria melhor que o dos

escravos das senzalas de engenho, muitas delas, casas de pedra

e cal, com janela e alpendre; casas superiores a habitaçÓes de

trabalhadores rurais na França, como notou Tollenare em Per-

nambuco;64 e onde a comida podia ser sempre a mesma ou variar

pouco, mas não faltava nunca. Nem comi-a, nem mel de furo,

nem cachaça.

A liberdade não era bastante para dar melhor sabor, pelo menos

físico, à vida dos negros fugidos que simplesmente conseguiam

passar or livres nas cidades. Dissolvendo-se no proletariado de

mucamEo e de cortiço, seus padrÓes de vida e -e alimentação

muitas vezes baixaram. Seus meios de subsistência tornaram-se

irregulares e precários. Os de habitação às vezes degradaram-se.

Muito ex-escravo, assim degradado pela liberdade e pelas con-

diçÓes de vida no meio urbano, tomou-se malandro de cais, ca-

oeira, ladrão, prostituta e até assassino. O terror da burguesia

os sobrados.

Os ex-escravos bem sucedidos é que aos poucos iam melho-

rando de vida. As negras e mulatas, amigadas com portugueses

ou italianos, repita-se que chegaram às vezes até aos sobrados;

algumas tornaram-se senhoras de escravos. E os negros e mulatos

marceneiros, ferreiros, funileiros, chegaram às vezes à pequena

burguesia. A moradores de casas térreas de porta e janela.

O Dr. Antônio Correia de Sousa Costa estudando, no meado

do século XIX, o regime de alimentação e de vida do proletário

da Corte-desde os-empregados públicos subalternos aos ope-

rários propriamente ditos-deixou-nos alguns detalhes expressivos

sQbre as condiçÓes de habitação da pequena burguesia, formada,

em sua maior parte, por artífices ou pequenos negociantes euro-

pe rece chegados ao Brasil, por brancos de casa-grande em-

us m_


pobrecidos e por gente de cor, bem sucedida nas artes e nos

oficios manuais. Eram casas donde estavam saindo sempre enter-

ros de anjos, isto é, de crianças, de meninos pequenos. E tudo

indica que inferiores, em condiçÓes de aeração e insolação, aos

mucambos ou às palhoças da gente mais pobre. "Geralmente de

acanhadas dimensÓes, baixas, edificadas ao nível do solo, e mu-

#

180 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MIJCA1103OS - 1.' Tomo 181



nidas de um pequeníssimo número de janelas: muitas vezes são

destituídas de assoalho e têm por cobertura a telha", informa

Sousa Costa. Mas estas eram as casas mais habitáveis e mais

decentes; aquelas onde morava o pessoalzinho melhor. Nas outras,

de barro, o chão era um horror: a própria terra, úmida, preta,

pegajenta, como a dos cemitérios; a coberta, folha-de-zinco; "a

preterição a mais completa de todas as regras higiênicas na sua

construção". A situação dessas casas pequenas se agravava com a

circunstância da aglorneração de indivíduos".65

Melhor aboletadc~ estava decerto o pessoal de muitos dos mu-

cambos. Alguns mucambos tinham por cobertura, como as pri-

meiras palhoças de índios descobertas nas praias pelos portu-

gueses, duas ou três camadas de sape. Boa proteção contra a

chuva e até contra o calor. Detalhe que não passara desaper-

cebido aos portugueses, sempre mais prontos que outros europe~is

a assimilar dos indígenas a experiência do meio. E a tradição

é ainda conservada pelos construtores mais ortodoxos de palhoças.

Mas esse tipo indígena de palhoça recebera a influência euro-

péia da choça ou choupana "à maneira das campesinas do Reino",

levantadas pelos portugueses menos remediados. Pelos que não

podiam dar-se imediatamente ao luxo de casa de pedra ou adobe.

Foi a palhoça indígena influenciada depois pelo mucambo de

origem africana. Pode-se mesmo associar principalmente ao afri-

cano, sobretudo ao mucambeiro, ao quilombola, ao. negro de

Palmares, ao escravo fugido para os matos, o uso da palha de

coqueiro, depois tão utilizada na construção da palhoça rural,

de praia e mesmo de cidade, no Norte, quanto em larga zona da

mesma região, as palmas de carnaúba.6"

As coberturas de capim ou sape parecem ter sido gerais, nos

rimeiros tempos; de sapé teriam sido cobertas as próprias casas

os colonos mais ricos dos primeiros tempos; em São Paulo, as

casas das Câmaras, as igrejas, os edifícios mais nobres. As pri-

meiras casas-grandes, os primeiros sobrados, foram um pouco mu-

cambos, na sua primeira fase: cobertos de sapé. Morales de Ios

Rios supÓe que em volta dos pelouros levantaram-se "edificaçÓes

' * "67


sumárias de origem indígena e de procedência europeia -chou-

panas, tejupares, casebres, ocas. Teodoro Sampaio nos fala de

igual modo das primeiras casas que se levantaram em Salvador;68

e o Mestre Afonso Taunay e o Sr. Ernâni Silva Bruno, das pri-

meiras casas de Piratininga, cobertas com sapé ou "palha agua-

rirana ou guaricanga 11 , ate que em 1590 aparecem casas cobertas

de telha e o primeiro sobrado."" Casas rasteiras, quase todas, e

um ou outro sobrado, que foram preparando o terreno para os

futuros sobrados, fortes e grandes, alguns com óleo de baleia na

o

argamassa.



Com o correr dos anos, a gente abonada foi cada vez se dife-

#

renciando mais da pobre pelo tipo menos vegetal do casa. A



nobreza da casa estava principalmente nos elementos mais dura-

douros de sua composição: pedra e cal, adobe, telha, madeira de

1e4 grade de ferro. Mas estava também na elevação do edifício:

sobrado; na sua vastidão: casa-grande. Koster, viajando pelo Norte

do Brasil, de Pernambuco ao Maranhão, aprendeu a distinguir

a situação social dos moradores pelo material da casa, que va-

ríava da pedra e cal à palha .70 Podia distingui-la também por

aqueles Outros dois elementos-não , obstante já se encontrarem

então casas-g-andes em ruirias. Os sobrados degradados em cor-

tiços é que só nouta fase apareceriam na paisagem brasileira;

e tomariam no Rio de janeiro o nome de "cabeças-de-poreo".

Com a maior urbanização do País, viriam os cortiços, prefe-

ridos aos mucambos pelo proletariado de estilos de vida mais

europeus. Sua origem talvez date do Recife holand^s iro

ponto do Brasil colonial a amadurecer em cidade m as

rreocupaçÓes de comércio dominando as militares e juntando-se

s próprias condiçÓes topográficas, no sentido de comprimir a

população e verticalizar a arquitetura. Estes males foram porém

atenuados no burgo holando-brasileiro, quanto às suas conse-

quencias anti-higiênicas, pelo fato de dois rios grandes banharem

e servirem a cidade, toda ela plana. Plana e sem morros que for-

massem bases naturais a altos e baixos sociais. Banhada e servida

também pelas camboas do plano de urbanização do engenheiro

Post e desafogada pelas pontes, mandadas construir por Maurício

de Nassau e que permitiram, como já se observou em página

anterior, a expansão da área urbana.

No Rio de janeiro, e parece que, até certo ponto, na capital

da Bahia, em Ouro Preto, em Olinda, as casas da gente pobre

foram construídas a princyio ao pé dos morros. Dos morros, os

e

ricos, os jesuítas e os - es se assenhoreararri logo, para levan-



tarem nos altos suas casas-grandes, suas igrejas e seus conventos.

O inconveniente das ladeiras não era tão grande, havendo escravo

com fartura ao serviço das casas e dos conventos. Ficou para os

pobres a beira de "lodaçais desprezados e ate' conservados alguns,

aumentando-se-lhes às vezes as propriedades nocivas pela adição

jornaleira de dejetos orgânicos"." De modo que os casebres e

mucambos foram-se levantando, rasteiros, pelas partes baixas e

imundas das cidades. Pelos mangues, pela lama, elos alagadiços.

Só de ois de aterrados esses mangues e esses afagadiços menos

por - Çm esforço sistemático do governo que pela sucessão de

casebres construidos quase dentro da ó ria lama e à beira do

pr )


próprio lixo, é que os ricos foram desceriNo dos morros e asse-

nhoreando-se também da parte baixa da cidade. Deu-se então a

#

S013~05 E MUCAMBOS - 1.0 Tomo



182

Ga.BERTo FREYRE

compressão das NopulaçÓes pobres em áreas ou espaços não sã

pequenos como esfavoráveis à saúde.

Em 1871, estando o Rio de janeiro no auge de sua glória

imperial, o médico Luís Correia de Azevedo salientava que, na

construção da cidade, vinham-se aclimulando há séculos, erros

enormes. Erros que datavam dos primeiros tempos coloniais. E

a Câmara Municipal não cuidara nunca de corrigir, nem sequer

atenuar, esses erros, Daí o horror das habitaçÓes das ruas como

São José, Ajuda, Misericórdia, Guarda-Velha, Saúde, Imperatriz,

72

Livramento. HabitaçÓes imundas. Cortiços onde as condiçÓes de



vida chegavam a ser sub-hunianas.

A cidade, aumentara; e com a cidade, esses velhos "antros".

Eram cada vez mais "um flagelo"; "um perigo de cada instante

para a saúde pública"; "a transmissão de moléstias, mais ou menos

graves" era "a sua natural conseqüência~. Nascendo e criando-se

os meninos em casas tão más e numa parte da cidade tão "mal

delineada, mal construída, mal ventilada, umida, quente, fétida,

insalubre, mesquinha em pro orçoes arquitetÔnicas e defeituosis-

c

c

sima no tocante a trabalhos Ne higiene pública, à polícia médica



e à educação higiênica" como se poderia esperar, perguntava o

higienista, uma mocidade "forte, enérgica", "uma raça" que sou-

besse "conduzir a seus destinos grandiosos o Í deste Im-

Yério"? Admitindo-se que os sobrados dose dos ricos

óssern casas bem construídas e higiênicas, s os não cons

tituíam, salientava Correia de Azevedo, "o povo, esse sangue

ardente das grandes artérias do trabalho"; povo do qual teria de

sair "toda a força, todo o talento patriótico de constituir um

grande e abençoado paíS".7:1

O certo é que no Rio de janeiro, com os padres, os frades e

os ricos, donos de verdadeiras fazendas dentro da cidade, e as

populaçÓes pobres forçadas a habitarem pequenos espaços de

terra desprezíveis, os cortiços desenvolveram-se de tal modo a

ponto de em 1869 existirem 642, com 9.671 quartos habitados

por 21.929 pessoas: 13.555 homens e 8.374 mulheres; 16.852 adul-

tos e 5.077 menores. A porcentagem dos cortiços era de 3,10%

e a da sua população de 9,65%, elevando-se em 1888 a 3,96% e

1172%.74


~obrados velhos, outrora de fidalgos, degradaram-se em cor-

tiços. A zona dos mucambos estendeu-se até eles. Estendeu-se aos

morros. Depois de 1888-período que escapa aos limites do pre-

sente estudo, para servir de assunto a trabalho próXiM075-0 cor-

tiço só fez aumentar, não tanto de área, como de densidade.

#

Assenhoreou-se de muito sobrado velho. De muito morro. O des-



tino dos sobrados maiores tem sido este: transformarem-se, os

mais felizes em armazéns, botéis, colégios, pensÓes, quartéis,

183

repartiçÓes públicas, sedes de sociedades carnavalescas. Os outros



em cortiços, "cabeças-de-porcá" e casas de prostitutas.

O contraste da habitação rica com a pobre no Brasil não se

pode dizer que foi sempre absoluto, atraves do atriarcalismo

e do seu declínio, com toda a vantagem do lado No sobrado, e

toda a desvantagem do lado do mucambo ou da palhoça. Pode-se

até sustentar que o morador de mucambo construido em terreno

seco, enxuto, a cobertura dupla protegendo-o bem da chuva, foi

e é indivíduo mais higienicamente instalado no trópico que o

burguês e sobretudo a burguesa do antigo sobrado. Ou que o

pequeno-burguès de casa térrea.

. O antigo sobrado foi quase sempre uma casa de condiçÓes as

mais anti-hígiênicas de vida. Não tanto pela quantidade do ma-

terial empregado na sua construção, muito menos pelo plano de

ar?uitetura nela seguido, como gelas convençÓes de vida patriar-

ca., que resguardavam exagera amente da rua, do ar, do sol, o

burguês e sobretudo a burguesa. A mulher e principalmente a

menina.

Quanto, à natureza do material, os sobrados variaram desde



o primeiro século de colonização, 1) - segundo os recursos. dos

habitantes, 2) - segundo o seu maior ou menor contato com a

civilização européia e, principalmente, 3) - conforme o caráter

do solo da região onde se estabeleceram. Cabriel Soares diz que

na Bahia os colonos se serviram de ostras para delas extrair cal

para as primeiras casas nobres .70 Martius, nos princípios do sé-

culo XIX, encontrou no Brasil material favorável à construção

nobre e durável71 e o Sr. Roy Nash surpreenderia em Penedo

(Alagoas), tanto quanto em Diamantina (Minas Gerais), cidades

com sobrados e casas de pedra. O pesquisador norte-americano

verificou ainda, no Brasil, que, ao contrário do fellah do delta

do Nilo, a quem tudo falta para levantar habitaçÓes dç material

sólido, o brasileiro sempre dispôs largamente de pedra, de ma-

deira e de cal; e de lenha para fabricar tijolo.711 De modo ue a

Nobreza que o mucambo ou a casa de palha ou de barro e corertã

e sapé acusa, ainda hoje, não é do solo, abundante em ele-

mentos os mais duráveis de construção, mas do morador. O fato

desse tipo de casa ter se generalizado tanto no Pais se explica

pela pobreza ou pelo nomadismo do grande número; por sua

situação de constante mobilidade social. Quando não horizontal,

vertical.

Também se ex lica, no caso dos ricaços rurais que o Príncipe

Maximiliano conEeceu morando em casebres, sem conforto ne-

nhum, pela quase ausência de contatos com a Europa; e conse-

quente predominância, entre eles, dos padrÓes indígenas ou semi-

-indígenas de vida. Mas o motivo principal seria o primeiro,

#

#

1&4 CILBWTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 185



numa terra rica de pedra, de cal, de madeira. Tudo, porém,

sob o dorninio de uma minoria tão reduzida, que milhÓes de

brasileiros chegariam ao fim do século XIX sem um palmo de

terra, em contraste com os poucos mil, donos de usinas, fazendas,

seringais, cafezais, canaviais: alguns donos de grupos inteiros

de sobrados-cortiços, de aldeias imensas de mucambos, de de-

zenas de casas térreas.

Discute-se qual tenha sido no Brasil a primeira casa de branco

com feição européia-da qual saisse depois o sobrado. Ou a

casa terrea de pedra e cal diferenciada do mucambo ou da pa-

lhoça não só pela ualidade do material como pelo contraste do

estilo europeu de Tabitação com o ameríndio ou africano.

Alguns supoem que foi a casa da Carioca. Acredita-se que em

1504 Gonçalo Coelho tivesse levantado junto a um riacho uma

casa, talvez num pequeno arraial, que os indígenas ficaram cha-

mando "casa de branco".79

Os Protestantes franceses tentaram depois estabelecer-se nas

imediaçÓes do povoado português e de forma a,mais burguesa.80

Em "casas de branco" onde pudesse florescer a mesma -vida. de

família que nas aldeias da França e da Suíça, com donas de casa

vindas da Europa. Nada de chamego de branco com índia nem

negra: a . casa de branco" seria também a casa da mulher - branca.

A mulher branca tem sido sempre um elemento de solidez

fias colonizaçÓes da América, da África, da Ásia. Como já obser-

vamos, sua presença é um estímulo à arquitetura doméstica mais

nobre e mais duradoura. Esse estímulo não faltou ao esforço de

celonização francesa do Rio de janeiro. E se a tentativa não

chegou nunca a amadurecer, foi pela ausência de outros ele-

mentos de sucesso; e não tanto deste.

Onde essa condição-a presença da mulher branca como ele-

mento estável de colonização-juntou-se a outras qualidades de

solidez, dando aos começos de colonização urbana do Brasil um

tipo nobre e mais duradouro de "casa de branco"-taipa, pedra

e cal, madeira de lei, sobrado-foi, como já sugerimos, em São

VIcente, em Iguaraçu, em Olinda, em Salvador.

Em Olinda, em 1575 já havia setecentas casas de pedra e cal;

e é provável que aí como em Salvador, tiNo da cidade talássica,

com as ruas e as próprias casas es( , as para o mar, alguns

sobrados corri terracenas para a água, se aproveitasse o marisco

no fabrico da cal. Duarte Coelho, que construíra Olinda, dando

à colonização da Nova Lusitânia aquele caráter semí-urbano que

conservaria por longo tempo, com muitos senhores de engenhos

morando metade do ano nos sobrados de Olinda, trouxera da Eu-

ropa artiff`ces que foram aproveitados na construção de "casas de

branc,,)"z , não, simplesmente, na montagem de encrenhos de cana

b

e na edificação de igrejas. Esses artífices devem ter vindo ga-



nhando salários quase tão altos quanto os dos mestres do reino

#

que vieram para a Bahia e aí construíram as "nobres casas" de



que fala Gabriel Soares. O luxo de "casas bem consertadas' não

era dos mais fáceis; para ostentá-lo, o colono rico do século XVI

teve que gastar com elas alguns dos seus melhores cruzados.81

Na construção de sobrados utilizaram-se, muitas vezes, as pe-

dras de Lisboa trazidas nos navios como lastro de carga. No Rio

de janeiro, utilizou-se largamente o granito das colinas próximas

da cidade, fazendo-se argamassa de cal de mariscos com areia

do mar e barro. Nas cidades do interior, o barro parece ter pre-

dominado na argamassa; nas do litoral, a areia e o marisco. Sabe-

-se que na edificação de casas, em Piratininga, muito se utilizou

o barro branco chamado tabatinga; e que para as primeiras edi-

ficaçÓes da mesma vila aproveitou-se pedra de Iocal mais tarde

chamado Morro da Forca".82

Os viajantes que estiveram nas primeiras cidades brasileiras-as

do século XVI e do XVII-falam à solidez dos sobrados. Froger

não se admirou só das fortalezas, dos edifícios públicos e do

coléeio dos Tesuítas que viu em Salvador no século XVII: também

- pírticu

das casas lares. Eram altas e grandes, essas casas assobra-

dadas.811 Ao contrário daquelas casas de sertanistas de que falava

o Padre Mancilla: casas de "tierras y de tapias" que "en qual-

quier parte que estieren pueden hacer otras semejantee. Pelo

que "dejar sus casas no se tes da nada..."84

Quase pela mesma época estiveram na capital do Brasil, Fré-

zier-outro francês-e o inglês William Dampier. Salientam os

dois o número de casas: cerca de duas mil. Casas mal mobiliadas,

diz Dampier; as paredes nuas, as salas sem aquele conforto que

para a burguesia inglesa já ia se tornando a marca principal das

civilizaçÓes. Os sobrados de dois e três andares de Salvador

deixaram entretanto no célebre viajante uma impressão boa de

solidez e até de nobreza de estrutura e de material. Fachadas

de,cantaria. Sacadas largas. Paredes grossas. Os tetos de telha.

E essas casas burguesas, no meio de fruteiras e de plantas, umas

da terra, outras importadas da India ou da África.85




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