Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página34/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   30   31   32   33   34   35   36   37   ...   110

Nesses conflitos entre o interesse geral da população das ci-

dades e ns intermediários e açambarcadores do comércio de carne

#

M



pLAWA DE UMA CASA

DE CHÁCARA DO RIO DE

SANEIRO NA SEGUNDA

bWADZ DO SÊCULO XIX

- L0 ANDAR.

(Duenho de Carios Leão.)

LK2

MQMTO


CRQAIL70

W, la


' ~r 141

RUNOTO ~Q~UAIITO

W(L

C2

fresca, de peixe, de farinha, convém recordar que os governa-



dores Coloniais quase sempre estiveram ao lado do povo e con-

tra os magnatas. No Rio de janeiro, Luís Vaía Monteiro enfren-

tou os próprios frades contrabandistas; castigou com desterro

o próprio Abade de São Bento; e tal foi seu desassombro que

acabou vencido e deposto pela Câmara. O Conde da Cunha foi

outro que pelo seu espírito público e pela brava defesa do inte-

resse geral contra o particular, levantou contra o seu governo

os grandes negociantes de sobrado do Rio de janeiro, os explo-

radores, os contrabandistas .46

Nos fins do século XVIII, escrevia de Pernambuco para a Corte

o Governador D. Thomaz de Mello que, ao tomar posse do governo

o

da Capitania, em 1787, encontrara o Recife em "grande penuria



dos eneros de primeira necessidade". Inclusive a farinha de

manIoca.


#

170 GrLBWTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 171

"Os poucos que havia,os atravessavam sujeitos de reprovada

conducta", informava o caliitão-Ceneral. De modo que D. Thomaz

vira-se forçado a proceder "se,~eramente contra os monopolios".

E repetindo o gesto do Conde Maurício de Nassau, no século

anterior, "com todo o calor e recommendação" fizera "promover

a plantagem de mandioca "41 de que haviam descuidado os lavra-

dores, alucinados então com o grande preço do algodão, como

outrora-e novamente no século XIX-com o preço do açúcar.

"Foi preciso tomar tambem promptas medidas"-acrescenta D.

Thomaz no seu relatório, um dos vários documentos que demons-

tram o que foi a sabedoria- política de alguns dos governadores

portugueses durante a época colonial-"foi preciso tomar tambem

promptas medidas a respeito da carne fresca, e salgada, da que

já de outros annos atraz se experimentavam grandes faltas; in-

formei-me da sua origem ouvindo na materia as pessoas que maior

Razão tinham de o saber; e vindo a collidir que nos Portos de

Assú e Mossoró, . donde ~odíam vir os gados em pé para esta

a

a



Praça e conseguir. artura de carne fresca, havião varias

officinas de salgar e seccar carnes, nas q~,aes se matavão os bois

daquelles sertÓes visinhos e delarcos se transportavam

as carnes para outras Capitanias não ficando nesta mais que 3

ou 4 barcos para o seu consumo arinual; suspendi a labutação

das ditas officinas nos mencionados Portos dando conta a S. Ma-

gestade pela Secretaria do Ultramar de como o ficava executando

emquanto a mma. Senhora não mandasse outra coiza: e ordenei

mais que os barcos empregados neste negocio fossem fazer as

suas salgaçoens da Va. de Aracati para o Norte, e que viessem

fundear, e dar entrada no Recife, ara eu aqui deixar os que

fossem bastantes para sustentaçã Xá Praça e das Fabricas dos

Engenhos de fazer assucar, e das gentes do trato, que de ordi-

nario não uzão de outro alimento: bem persuadido de que não

devia deixar a fome em caza para ir fazer a abundancia dos de

fóra. . ."48

Com as iniciativas que hoje se chamariam de "economia diri-

gidd' desse admirá-vel D. Thomaz não se conformaram os indi-

viduos de prestígio e os grupos poderosos, entregues em Per-

nambuco (tanto uanto na Bahia, em Minas e no Rio de janeiro)

à desbragada exPEação dos negócios de suprimento de farinha

e de carne fresca ao povo da colônia. Principalmente àquela

parte da população, concentrada nas cidades, que não podia matar

boi, porco ou cabrito em casa e nem possuía terra ou sítio onde

plantar mandioca. Mas não só a essa gente urbana mais pobre;

também, como se vê do relatório, até a engenhos de açúcar, que

alguns líricos teimam em imaginar fossem todos autônomos, pro-

duzindo o necessário, e mesmo o supérfluo, para a sua alimentação.

"Não me perdoou comtudo"-informa D. Thomaz--"a malevo-

#

lencia de alguns individuos que afferrados ao seu unico interesse



e a pretenção de huma liberdade sem limites, ouzarão denegrir

na face do Ministerio todos esses meos esforços consagrados à

Saude Publica, com a especioza contemplação do Vrejuizo dos

creadores mais chegados ás officinas embaraçadas... ' Admitindo

esses prejuízos o grande administrador português do século XVIII

não hesitava em contrastar o interesse particular de "3 e 4 ho-

mens, que dellas [das oficinas] se aproveitão" com "a utilidade

de 20 a 30 mil que estão clamando pelo remedio contra o grande

mal, q'ellas lhe fazem..."Ig

Foram governadores desse

porte, dessa coragem e dessa nitidez

de visão, mais do que as Câmaras ou os Senados, que defenderam

os povos das capitanias, particularmente a gente mais pobre das

cidaoes, contra a exploração de intermediários, de atravessadores

e de exploradores do comércio de carne e de farinha. Interme-

diários, muitas vezes, a serviço de grandes senhores de terras e

escravos.

As Câmaras, no que se refere ao suprimento de víveres às cí-

dades, mais de uma vez estiveram do lado dos interesses parti-

culares e contra os gerais. Mas se dentre os governadores e en-

viados del-Rei houve alguns que se deixaram subornar, que faci-

litaram as exploraçÓes do povo pelos magnatas e ate articiparam

delas, é preciso não esquecer a atitude dos que, . VÓ contrário,

com risco até de vida, levantaram contra os privilégios e os mo-

nopólios todo o seu poder e toda a sua autoridade de agentes

del-Rei.


Um documento de 1800 denuncia a inércia das Câmaras de

Olinda e do Recife diante da escassez de carne verde nas duas

cidades mais importantes da capitania de Pernambuco. E des-

creve as duas Câmaras como "zelozas muitas vezes mais dos pon-

tos de jurisdicção e talvez de interesses particulares sem jamais

1,50


se unirem no ponto central do bem publico...

Em 1814, em ofício ao Marquês de Aguiar, o Capitão-General

Caetano Pinto de Miranda Montenegro salientava entre os males

da vida colonial no Brasil, prejudicada por constantes crises e

irregularidades no suprimento não só de carne, como até de

farinha e de peixe, o fato de algumas Câmaras Municipais se

acharem dominadas pelos exploradores: "[ .... ] vejo que estão

alguns no governo municipal, os quaes longe de cohibirem abu-

sos, antes são suspeitos de os praticarem pelo seu interesse par-

ticular".

Entre as causas daquela irregularidade e da diversidade de

preços de carne de vaca-verde ou seca-e da própria farinha,

indicava Caetano Pinto "as seccas a que as Capitanias de Per-

i~

#



172 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 173

nambuco, Parahyba, Rio Grande e Ceará são sujeitas, algúas das

uaes como a de 1790 e 1793 destruirão inteiramente as fazendas

e gado dos SertÓes; e outras, como a de 1800 e 1803 cauzarão

nas mesmas fazendas grande estrago".51 Mas devia-se também

salientar o efeito, sobre os preços da carne, dos tributos que eram

impostos a cada boi de açougue; oitocentos réis de dízimo à

Fazenda Real; seiscentos de subsídio militar, trezentos e vinte

de subsídio literário e, em 1809, novo subsídio de mil e seiscentos

réis. Calculando-se o peso de cada boi em dez arrobas, "porque

o gado aqui é miudo", custando ele regularmente nas feiras oito

mil-réis-à exceção de dezembro e janeiro, quando os preços su-

biani-pouco ou nenhum lucro honesto restava ao marchante pobre,

que talhando a carne no açougue a quatro patacas a arroba,

gastava em direitos e no custo, 11$520. Nas outras capitanias só

se pagavam o subsídio militar e o literário; na de Pernanibuco,

porém, os impostos sobre os bois de açougue se extremavam, tor-

nando quase impossiVel um comércio honesto de carne verde. 52

Caetano Pinto quisera ver esse comércio nas mãos de pessoas

abonadas que se obrigassem a dar carne ao povo por um preço

certo; e se insurgia contra as Câmaras que não faziam outra coisa

senão aumentar os tributos sobre a carne, como para favorecer

marchantes privilegiados.

Quase o mesmo sucedia com relação ao peixe, que à primeira

vista se supÓe fosse um alimento fácil para a gente mais pobre

das cidades; para a populaçao das casas térreas, dos mucambos

e dos cortiços dos fins do século XVIII e dos primeiros decênios

do XIX. Mas também o su

,Xrimento de peixe tornou-se um co-

mércio dominado por gr es proprietários de terras, donos, no

Nordeste, de currais entre as praias e os arrecifes ou com viveiro

dentro do sítio; pelos atravessadores e pela própria burguesia

dos sobrados. Pernambuco, especialmente, chegou aos começos do

século XIX, sem redes de alto nem armaçÓes: o peixe ou era

pescado em jangadas ou em currais, formados entre a praia e os

arrecifes, "com morÓes cravados no fundo, tecidos com varas, ata-

dos com cipós"; e "com ostos de 3 divisÓes", ou "repartimentos":

o LO, "a que os pescaEres chamam sala", es açoso, dando cri-

trada e saída franca ao peixe; o 2.0 a que Zinam "chiqueiro

do meio", mais apertado, porém deixando ainda entrar e sair o

peixe; O 3.0, "chiqueiro de matar", construido de maneira a não

permitir a saída do peixe. Além desses repartimentos, havia mais

a espia, "q. e como uma caniçada, ou espaldão, muitos delles

de 40, 50 e 100 braças de comprido, feita com os mesmos morÓes

e varas, a qual espia serve de encaminhar o X eixe para o curral. . ."

Esses grandes viveiros, não eram , , ade de nenhum pes-

cador nem de grupos de pescadores. Seus donos eram geralmente

proprietários de terras que os arrendavam aos pescadores junta-

mente com sítios de coqueiro. Aí os pescadores levantavam seus

#

mucambos, pagando 12 vinténs por ano por pé de coqueiro. Às



vezes o arrendamento do curral era em separado, sendo a renda

mais comum, de dez mil-réis, que entretanto variava conforme

* melhor ou pior localidade.53

Só a Provisão Régia de 17 de julho de 1815 declarou "injusto,

* abusivo tudo que se exigia pelo uzo do mar, e praias", tendo-se

verificado então uma revolta dos pescadores contra os proprie-

tários de terras: decidiram não só não pagar a renda dos currais

mas nem mesmo a renda dos SItiOS.54Foi talvez um dos primeiros

movimentos de rebeldia de homens de mucambo ou de cabana

contra os de sobrados; mas tão vago, que a exploração se resta-

beleceu, logo depois, embora menos desbragada. Na chamada

Cabanagern é que essa rebeldia se revelaria em traços mais fortes

e como autêntica revolta de populaçÓes das cabanas ou imicambos

contra seus exploradores, em geral homens de sobrados. Na Caba-

nagem, na Balaiada e na Revolta Praieira.55

Feita a Independência, desaparecida da nossa vida econômica

e da nossa paisagem política a figura do Vice-Rei ou a do Capitão-

-General-que tantas vezes enfrentou, durante o século XVIII, a

arrogância de magnatas e de Câmaras Municipais a serviço dos

mesmos magnatas, atenuando-a nuns casos, noutros contrariando-a,

e esmagando-a-os meios de subsistência da gente mais pobre, so-

bretudo dos moradores dos mucambos e dos cortiços das cidades,

tornaram-se ainda mais precários. Os reços ficaram flutuando ao

sabor não só dos interesses exclus.;ves Na monocultura latifundiária

como das exploraçÓes de açambarcadores de contratos de carne

e peixe.


Em 1823 vamos encontrar a propria Câmara Municipal do Re-

cife registrando reclamaçÓes contra o contrato de carnes verdes:

nas mãos de hum só homem com exclusão da liberdade -de que

todos devem gozar". Tão mau era o sistema, que "nas Villas em

que não lia contracto tinham carnes melhores e mais baratas". E

em 1824-nas vésperas da revolução que teve Frei Caneca entre

seus mártires-o Senado do Recife se apresenta "condoído athé o

fundo do seu coração dos males que a tanto tyranizão esta des-

graçada Província, o e providencias nos ramos de primeira

sustentação. . ." Prin=nte no que se referia aos peixes, cuja

falta e cujos preços estavam afligindo de modo todo particular o

povo da cidade.56

Diante de todos esses abusos "as corporaçoes municipacs são

inermes". Não podendo, entretanto, "os habitantes do Recife soffrer

por mais tempo a carestia, ou antes a ladroeira do peixe", o Senado

se dirigiu em 1824 ao Presidente da junta Provisória do Governo,

#

174


GELBERTO FREYRE

para que " tomasse providências imediatas contra os "malvados san-

guesugas . Na opinião do Senado, uma das causas da carestia do

peixe era a preguiça dos pescadores "que se contentam com a

pesca de hum só dia, quanto baste para a carne, e farinha do

seguinte, gastando o resto da semana em jogar, tocar viola pelas

praias, etc., etc." Mas a raiz do mal talvez não fosse a vida de

jogo e de viola dos pescadores, que por esse meio se distraíam,

já que não achavam interesse nem alegria num trabalho tão larga-

mente explorado pelos grandes proprietários. A raiz do mal talvez

fosse o sistema econômico: os sobrados, as casas-grandes, as chá-

caras estendendo seu poder mar adentro, ou se assenhoreando do

produto das pescarias através dos negros portibeiros; dominando

esse comércio, do mesmo modo que dominando, ou então difi-

cultando, o de carne verde, o de cereais e legumes, o de leite, o

da própria água de beber, que algumas casas-grandes de sítio

vendiam a tanto por balde à pobreza dos mucambos ou dos

casebres.

Dos barcos de pesca na costa da Bahia colonial, Andrew Crant

escreve à página 177 da sua History of Brazil, publicada em Lon-

dres em 1809, que eram "propriedade de poucos indivíduos com-

parativamente ricos". O peixe, quando não vendido a dinheiro,

trocavam-no esses indivíduos "comparativamente ricos" na capital

da capitania por diferentes artigos de alimentação e de vestuário,

que vendiam a retalho à gente pobre do litoral capaz de adquirir

tais artigos, Entretanto podia-se generalizar que o alimento dos

habitantes da Bahia-isto é, da população livre que não podia

dar-se ao luxo da carne fresca, embora má, e das conservas im-

portadas da Europa-consistia principalmente em peixe e farinha

de mandioca. A essa dieta alguns podiam acrescentar, é certo,

frutas que na Europa-lembra o inglês-eram luxo das mesas opu-

lentas: laranjas, bananas, cocos. Mas isto em certas subáreas ru-

rais menos afetadas pela fúria da monocultura; e nas suburbanas

onde a produção de frutos dos sítios das casas-grandes ou so-

brados excedesse ao consumo dos proprietários e dos seus escra-

vos, sempre mais beneficiados que a população livre e pobre

pela abundância de fruteiras patriarcais,

Em estudo anterior, já procuramos indicar quanto a monocul-

tura dificultou, primeiro, nos engenhos de açúcar, depois, nas

fazendas de cacau e, por algum tempo, até nas de algodão, a

cultura de cereais e de legumes e a criação de vacas, ovelhas e

cabras, não só de corte como de leite. Pelo menos, essa criação

em número suficiente para servir de base a uma indústria de

manteiga e de queijo que, beneficiando a família rural, sobrasse

para proveito da, -idades e das vilas mais próximas. Que todas

pLANTA DE UMA

CARA DE CHÁCA-

#

RA DO RIO DE JA-



NEIRO NA SEGUN-

DA METADE DO

SÉCULO XIX -

ANDAR TÉRREO.

(Desenho de

Carios Leão.)

60WA

91010A ***



O9 'Ag;,Z

I

11.- 111111 4



IMA *e MMO te calmésisitt,4

SALA


cost*$&

wà *e


JANTA4

qu %U OC VISITA$

tinham de contentar-se com a rançosa manteiga importada da

Europa desde os tempos coloniais.

Com a urbanização mais intensa da vida brasileira, a situação

só fez piorar. De tal modo se acentuou a alta dos preços da carne,

dos legumes e do leite que os economistas da época se preocupa-

ram gravemente com o problema. E o atribuiram às causas mais

diversas. Uns, vagamente, à "diminuição de producção e aug-

mento de consumo". Outroís, à falta de braços que vinha ocor-

rendo depois do fechamento do tráfico negro e da devastação

dos escravos pela epidemia de cólera. Sebastião Ferreira Soares,

nas suas Notas Estatísticas Sobre a Produccao Agaricola e Carestia

dos Generos Alínienticios no Imperío do'ÉrasiT, embora salien-

tando o monopólio dos especuladores de gêneros alimentícios

como a causa principal da carestia e dos preços altos, teve a

#

176 GiLBERTO FR=E SOBRADOS 'E MUCAMBOS - 1.' Tomo 177



intuição da causa que hoje nos surge como a mais séria e a mais

rofunda de todas: a maior concentração dos braços na cultura

os gêneros exportáveis-o açúcar e depois o café-com desprezo

pelos de alimentação comum: "os braços [ .... ] teern sido nos

ultimos tempos occtipados exclusivamente na grande lavoura. .."

O café, ainda mais que o açúcar, desde os fins do século XVIII,

começou a agravar essa situação, absurda para uma sociedade

agrária, que, aos poucos, se urbanizava, à custa do ge- o Pro-

a

fessor Normano *à hamou "produtos-reis",57 s--- ar de de-



10 e

senvolver ou pe menos, assegurar as bases rurais de sua ali-

mentação.

Mas na monocultura do café apenas se prolongou a do açucar.

Foi justamente nas grandes províncias monocultoras que se sen-

tiu mais agudamente, no meado do século XIX, a carestia dos

gêneros alimentícios. Nelas e nas regiÓes mais urbanizadas. Na

Corte, no Rio de janeiro, na Bahia, em Pernambuco. Em geral,

escrevia Soares em 1860, "os terríveis efeitos deste flagelo por ora

só têm-se tornado sensiveis nas provincias marítimas de maior

comércio".58 O que é confirmado por minucioso inquérito que

então se realizou por iniciativa do Governo central e que nos

permite considerar a situação econômica criada para o Impeno

pelos abusos da monocultura através de significativas diferenças

regionais de produção.59

Soares assinala o fato em traços exatos, errando porém na ma-

neira de caraterizá-lo, ou pelo menos de sittiá-lo: o flagelo era

mais intenso naquelas províncias, não pela circunstância de se-

rem marítimas, mas, principalmente, porque eram as regiÓes de

monocultura mais profunda. Pernambuco e a Bahia, entregues

à produção quase exclusiva de açúcar. A Província do Rio de

janeiro e parte da de São Paulo, à de café. E as cidades prin-

cipais-Rio de janeiro, o Recife, Salvador, São Paulo-vivendo

não das zonas rurais próximas, porém das remotas: do Rio Grande

do Sul, de Santa Catarina, do Mato Grosso, do Piauí. Sem falar

dos produtos importados do estrangeiro, como o chá, o queijo,

o vinho, o azeite, por algumas casas-grandes e por muitos so-

brados consumidos mais do que rodutos da terra. Para os pobres

importava-se da Europa o bacUau; e de Montevidéu e Buenos

Aires, a carne-seca. A carne-seca como o bacalhau e a farinha

de trigo, por maiores reduçÓes de direitos de consumo que so-

fressem, continuaram a custar caro ao consumidor. Isto devido

à liberdade para especulação e para lucros ilícitos de que ge-

zaram, durante o Império, os manipuladores do comércio de gê-

neros. Não se viu um presidente de província ou de gabinete

arriscar o futuro, colocando-se contra exploradores de carne com

aquela mesma decisão de D. Thomaz de Mello rios tempos dos "reis

velhos"; nem mesmo Câmara do Império que se destacasse pelo

#

vigor de ação contra os atravessadores de carne e de outros ali-



mentos como a de Salvador, por exemplo, no seculo XVII.110

Donde os abusos da monocultura terem se acentuado no Brasil

sob o liberalismo econômico do Imperio, com prejuízo maior

para aquelas regiÓes onde os monocultores eram os unicos, ou

quase os unicos, a se beneficiarem com os lucros dos "gêneros

exportáveis" à custa da produção, quase nenhuma, de alimentos.

Em 1865, o médico Manuel da Cama Lobo observava que a

alimentação dos escravos-e podia acrescentar que a dos senhores

também, embora em menor escala-variava não só das cidades

ara as fazendas, como das re iÕes do açúcar e do café para as

' 1'

Se relativa variedade de p Jução: Rio Grande do Sul, Mato



Grosso, Pará, Amazonas. Nas ovincias de monocultura, cuja

população-principalmente a Xors rmicambos-raramente comia

carne e peixe, eram mais freqüentes os abortos; comuns as ulceras

crônicas e a cegueira noturna. Naquelas de produção mais va-

riada onde ate fruta entrava na dieta dos negros em quantidade

apreciável, as moléstias areciam mais raras, a reprodução abun-

dante, a duração de viga mais longa.61

Muita gepte imagina que a alimentaçao nas casas-grandes de

engenho era sempre superior à dos sobrados de cidade. Mas já

sugerimos que não. Muito sobrado recebia da Europa uma va-

riedade de alimentos finos que faltavam à mesa patriarcal dos

engenhos e das fazendas menos opulentas. E a esses alimentos

finos podiam juntar frutas e legumes dos seus próprios sitios ou

quintais, consumidos também pelos negros das senzalas urbanas

e suburbanas.

Quanto a esses negros das senzalas, asevidências, ou pelo

menos os indícios são no sentido de que, como nos engenhos e

fazendas, eles foram beneficiados por uma alimentação mais re-

gular e por um passadio mais farto que o da gente livre dos

cortiços, dos mucambos e das casas terreas das cidades; e que

os moradores aparentemente livres das próprias fazendas e enge-

nhos. Isto de modo geral, sem nos esquecermos de que havia

fazendas ou en enhos de proprietários que apenas começavam a

fazer fortuna: Óomens ansiosos de lucros ryidos. Fazendas ou

c

c

engenhos onde se explorava o escravo do mo o mais rude: espre-



mendo-se o coitado até o último pingo de rendimento. E o mesmo

sucedia nas engenhocas de senhores mais pobres. Estes, na falta

de outros recursos, procuravam tirar todo o proveito do seu ca-

pital-homem. Daí fazendas onde os senhores davam apenas aos

escravos feijão cozido com angu, um bocado de toucinho, jerimuni




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   30   31   32   33   34   35   36   37   ...   110


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
Universidade estadual
união acórdãos
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande