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se generalizou o uso das carruagens e que foram o Rio de janeiro

e o Recife. No Recife ainda conhecemos, guardado entre relíquias

numa das mais antigas cocheiras da cidade, entre velho coupé de

bispo e a vitória de lanternas de prata por onde rodou triunfal-

mente pelas ruas principais o Marquês de Herval, o carro fechado

ue nos informaram ter servido a aventuras galantes de linda sinhá

e sobrado. O cocheiro escravo teria sido o alcoviteiro. Os coches

de luxo foram às vezes uma espécie de alcovas ambulantes.

Alguns passam pelos anúncios de jornal com o odor de pecado

a comprometer-lhes a dignidade senhoril. Este, por exemplo, reco-

lhido do jornal do Commercio, do Rio de janeiro, de 27 de junho

de 1849: "[ .... 1 riquissimo coupé Wurst [ .... 1 o interior acha-

-se guarnecido de damasco de seda cor de cereja, com espelhos,

sendo de prata os caixilhos das rodas, etc."

A alcovitíce teve também a seu serviço negros ou escravos de

profissÓes ainda mais caraterísticas da convivência urbana que-

a de cocheiro: os vendedores de doces e de flores, por exemplo.

com entrada em sobrados ilustres. Ficou célebre no Rio de ja-

#

neiro do meado do século XIX certo "nwrchand de fleurs", do



qual diz um cronista que era "pernostico molecote que, por ter

servido como copeiro em uma casa francesa, engrolava passavel,

mente aquela lingua..." E houve também à Rua da Carioca,

instalado em "sobrado com sacada de madeira tendo no alto um

macaco empalhado", o francês Chahomme .22 Eram atividades, as

desses alcoviteiros ou corretores do amor, que, disfarçadas por

trás de flores, de doces, de macacos empalhados, faziam-se antin-

ciar nos jornais, onde também se ofereciam aos olhos dos liber-

tinos que sabiam ver nas entrelinhas, mulatas ou negras de formas

provocantes. Também apareciam nesses anúncios "comadres", ca-

pazes de resolver casos difíceis de burguesas de sobi,,~cio (~;!jis

? -1~ 3


barrigas o amor ilícito ou inconfessável arredondara. As chama,-L~5

"faze,doras de anjos" .23

"A dissolução de costumes parece ter sido uma das notas

dominantes dessa fase", escreve do Primeiro Reinado o ~,ntu- âe

Estudo Histórico Sobre a Polícia da Capital Federal de ISO, a

1831 que acrescenta terem os "desregramentos de vida do primeiro

imperador. seu proceder altamente censurável com a Niqropiesa

de Santos, os fatos escandalosos sucedidos na Corte, ia alta socie-

I

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162



GILBERTo FRE:YRE

dade e no proprio clero" in-adido "todas as classes sociais", le-

vando."a desmoralização ao lar doméstico, com o afrouxamento

dos laços de mútuo respeito e estima que esposos, pais e filhos

deviam entre Si".24 Eram os grandes dos sobrados mais nobres a

darem maus exemplos à gente das casas térreas e dos próprios

casebres. Era a "dissolução dos costumes" a ostentar-se nas pro-

prias gazetas: nos seus anúncios. Em anúncios como o publicado

no Diário do Rio de Janeiro de 22 de agosto de 1825 que fez

o Intendente Aragão dirigir-se ao Promotor a fim de que "de-

nunciasse o autor". Dizia o anúncio mais do que escandaloso:

"Tendo chegado ao conhecimento do Publico que certas Senhoras

casadas, como consta até por huns processos civis nos quaes as

mesmas ditas Senhoras se querem intitular por virgensi!l (sem o

já poderem ser, do que he bem constante nesta Corte do Rio de

janeiro) mas no caso de quererem ainda parecer ou fingirem,

que o sejão para certas pessoas, que sejão faceis de se capacita-

rem de tal cousa; e como para isso seja natural se passarem por

algum exame de Facultativos e de parteiros, se lhes applica hum

novo remedic, de cuja applicação resulta hum novo Himen, sendo

o seu preço mediocre e o seu uso facilimo, o qual he composto

de hum emoliente (no caso que ainda não tenhão applicado

outro remedio que faça o mesmo effeito, dos quaes saberão muito

bem os Senhores Facultativos e mesmo alguns Parteiros). Este

remedio se annuncia pela rasão de sua finalidade de composição

e ser commodo em preço: quem o quizer procure por este diario."

Numerosos se tornaram também nos jornais do tempo do Im-

perio os remédios contra os males venéreos. E vinha da época

colonial o uso e até abuso do mercúrio contra eles. Do mercúrio

e de negrinhas virgens nas quais os fidalgos sifilizados limpassem

o sangue

O vício do álcool foi outro que tomou um desenvolvimento

alarmante na cidade do Recife durante a ocupação dos holan-

deses-talvez por maior predisposição dos nórdicos ao álcool-e

no século XVIII na área da mineração. Em 1667, passando pelo

Recife os missionários Capuchinhos Frei Miguel ~ Ângelo de Gattina

e Frei Dionysío de Carli de Piacenza ficaram admirados de ver

os habitantes avessos ao uso do vinho: quase todo o mundo bebia

água pura.25 Os negros e os caboclos é que gostavam de beber

sua cachaça.

O Recife holandês, ao contrário, foi um burgo de beberrÓes.

Pessoas da melhor posição social eram encontradas bêbadas pelas

ruas. Os próprios observadores holandeses da época se espantavam

do contraste enti-e soa aente e a luso-brasileira. A luso-brásileira

quase só bebia água fresca, às vezes com açúcar e suco de fruto:

refresco ou garapa. Os nórdicos preferiam as bebicias `ortes.---

1

#

SOBR"OS E MUCAMBOS - L' ToNio



163

Mas não se deve supor, a esta altura, que nas zonas rurais e

entre os luso-brasileiros virgens de qualquer influência nórdica,

nunca se desenvolvesse o alcoolismo. Em zonas rurais-é verdade

que conservando reminiscências de uma Nrimeira colonização ur-

-aDa-é que Burton encontrou, no ~ o do século XIX, evi-

dências de um abuso tão grande do álcool-da cachaça, da

cana, da branquinha-que não hesitou em comparar a gente do

interior do Brasil com a da Escócia: "the consumption of ardent

spirits exceeds, I believe, that of Scofland". Ele próprio confessa

seu assombro diante do fato-desde que lera em livros de via-

jantes, seus predecessores, principalmente em St. Hilaíre e Gard-

ner-que era raro encontrar gente embriagada no BraSil.21 Burton

encontrou-a e com freqüência. E no princípio do século XIX,

viajando no interior, o Príncipe Maximiliano também encontrara

muito matuto encachaçado.111

Os mineiros, observou Burton, não podiam gabar-se da supe-

rioridade moral de que outros brasileiros se gabavam sobre os

ingleses: a de não serem os mesmos "baetas" que eles. Era difícil

encontrar tropeiro ou barcaceiro, livre ou escravo, que não ama-

nhecesse bebendo agurdente para "espantar o Diacho" ou "matar

o bicho"; que de noite não se juntasse aos camaradas para tocar

viola e esvaziarem juntos gordo garrafão de cachaça. Quando o

estrangeiro se escandalizava com a enorme quantidade de aguar-

dente que se consumia no interior do Império os brasileiros lhe

recordavam que grande parte da cachaça era para a água do

banho.2'

Nas cidades marítimas-contra toda a expectativa-é que se

notava a temperança, tão elogiada por Gardner no brasileiro. Mas

mesmo nas cidades, essa temperança era mais um traço da gente

fina que da população em geral. Mais um traço dos fidalgos

aburguesados de sobrado que do proletariado dos mucambos e

dos cortiços. "O brasileiro quase só bebe água", notaram, como já

vimos, os Capuchinhos, em Pernambucç), no século XVII e Tol-

3 ~ 41W~

lenare, no século ~XIX;30 também Denis, , Rio de janeiro dos

primeiros tempos do Império 31 Mas evidentem~ntP_11mitando seu

reSaro à nobreza ou à burguesia das casas-grand~ ~.ue quase

to os bebericavam seu vinhozinh9.~0o-porto, seu licor de caju

feito em casa, soa "imaculada" de manhã cedo para fechar o

corpo antes do banho de rio ou para abrir o apetite antes da

feijoada ou da mão de vaca. Mas raramente entregavam-se a ex-

cessos. Isso de excesso era só uma ou outra vez na vida, quando

se quebravam as taças entre saúdes cantadas: as famosas saúdes

cantadas dos jantares das casas-grandes e dós sobrados patriarcais.

Nos banquetes de senhores de en,genho mais ricos ou mais espo-

taculoSos-que desde o século XVI escandalizavam os europeos

#

164 GILBERTO FBEYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo 165



pela sua fartura de comida e bebida-o vinho corria livre. Era

tanta comida, que se estragava; no fim, aquelas saúdes cantadas.

Muito vinho corria à ha, pela toalha, pelo chão, só por luxo. O

velho Major Santos Dias, de jundiá, foi um dos últimos senhores

de engenho a se celebrizarem pela opulência da mesa. Nela não

faltava vinho e do melhor. Lordes inaleses vindos a Pernambuco

para a caça de onça nas matas dos engenhos, hospedaram-se em

Jundiá, iniciando-se na cozinha brasileira. E o almirante português

Ferreira do Amaral, recebido no velho engenho de Escada, outrora

de Albuquerques Meles, com muita comida e bebida, escreveu,

depois, em relatório oficial, para o seu Governo, que o velho

major tinha verdadeira "mania da hospitalidade".

Nos começos do século XIX, Bento José da Costa e Maciel

Monteiro-o pai do poeta-deram também almoços escandalosos

debaixo das jaqueiras de seus sítios,, onde os sobrados eram ver-

dadeiramente patriarcais. Nos banquetes de Bento José o vinho

não corria tão à toa como em jundiá; doutro modo não se explica

que ele e o Ca itão-General de Sua Majestade, Luís do Rego

Barreto, fossem Sepois do almoço, e naturalmente alegrados pelo

álcool mais bebido que derramado, para o muro da casa e dai

se divertissem como dois meninos de internato atirando caroço

de fruta em quem passava .32

Pela mesma época-isto é, começos do século XIX-na capi-

tania de Minas, o Desembargador Manuel Ferreira da Câmara

Bittencourt Aguiar e Sã regalava seus amigos, na sua casa-grande

de sítio, perto do Tijuco, com vinho fino, guardado numa adega

singularmente mineira: vasta escavação semicircular, aberta a o-

der de ferro e fogo, numa rocha granítica, com rateleiras for-

madas também na pedra. Só o ortão enorme, Te oito pa!mos

de altura, era de madeira. Uma asega, essa, de sobradão de sítio,

adaptada às condiçÓes brasileiras, e onde o vinho se conservava

fresco "pela humidade"-diz um cronista-"que transudava dos

póros de granito" .33 o fato se apresenta cheio de interesse para

o estudioso não s0 da história social da casa e do sobrado no

Brasil, como para o historiador da nossa arquitetura colonial.

Mas não vamos generalizar, confundindo esses sobrados e essas

casas-grandes mais cheias de luxo de Pernambuco, de Minas, do

lUo de janeiro e do Recôncavo, com aquelas onde o passadio era

de macaxeira, de carne-seca, de farinha, de bolacha, de bacalhau,

de vinho de jenipapo ou de caju. Casas onde não sobrava dinheiro

para presunto nem para as latas de ervilha, os boiÓes de ameixa,

.is naixas de passa, os vinhos franceses que os J . ornais anunciavam

(---tarse vendendo nas lojas do Rio de janeiro, do Recife, de

S -~-mIor, Neni para o virilio-do-porto com que nos sobrados mais

se recchiam as visitas.

o vinho de mesa das casas-grandes opulentas do interior e,

p cipalmente, o dos sobrados ricos das cidades, desde o século

~~I que veio da Europa. Recebido diretamente, não estava su-

#

jeito às adulteraçoes em que se especializavam os importadores



de bebidas menos aristocráticas. O Desembargador Câmara, por

exemplo, podia gabar-se da pu_reza dos vinhos de sua adega de

pedra porosa; mas o morador de casa mais pobre que um dia,

na vida, quisesse variar da aguardente de engenhoca tinha de se

satisfazer com vinho, não só zurrapa, mas falsificado. "Muitos

das classes pobres e quase todos os escravos [das cidades] são

dados às bebidas alcoólicas", escrevia em 1851 Antônio José de

Sousa em seu estudo sobre o regime das classes pobres e dos

escravos na cidade do Rio de janeiro;34 e essas bebidas, quando

vinhos de mesa, quase sempre falsificadas. Pela mesma época

observava Francisco Fernandes Padflha que os liluidos-"vinhos,

vinagre, &"-consumidos pela classe pobre do Ri e janeiro eram

todos falsificados.35 Em 1865 Sousa Costa escrevia da mesma classe

de habitantes da capital do Imperio que quando bebiam vinho,

era sempre "vinho sofisticado". Vinho com mel, pau-campeche e

diversos sais, acrescenta o higienista.36

A mesma falsificação de vinho se verificava na Bahia, cujo re-

gime de alimentação foi estudado por Eduardo Ferreira França

em ensaio sobre A Influência dos Alimentos e das Bebidas Sobre

o Moral do Homem. E, provavelmente, no Recife e nas demais

cidades de população pobre numerosa, sujeita, durante o Império,

à livre exploração dos importadores de bebidas e de víveres.

Exploração de que se resguardava a fidalguia dos sobrados im-

portando diretamente seu vinho, seu vinagre, seu azeite; matando

em casa seu carneiro, seu bode, seu porco; criando no quintal

ou engordando no sítio seus perus, suas galinhas, às vezes suas

cabras e suas vacas de leite.

Porque a falsificação não se limitava ao vinho, nem ao vinagre,

Era geral. Falsificação, por um lado; escassez por outro. O re-

gime de economia privada dos sobrados, em que se rolongou

quanto pôde a antiga economia autônoma, patriarcal Nas casas-

-grandes, fez -do problema de abastecimento de víveres e de ali-

mentação das famílias ricas, um problema de solução doméstica

ou particular-o animal abatido em casa quase sempre dispensando

a carne de talho, as frutas do sítio dispensando as cultivadas

para a venda regular no mercado, as cabras e as vacas criadas

nos sítios das casas nobres diminuindo a importância do problema

de suprimento de leite para a população em geral. Tornou-se

assim desprezível o problema da alimentação da gente mais pobre

das cidades, isto é, os brancos, os pardos, os pretos livres, os

moradores dos cortiços, a gente dos mucambos e dos próprios so-

#

166



GILBERTo FREYRE

brados e casas térreas menores: às vezes filhos e netos de grande

senhor rural cuja morte deixara de repente a viúva e os filhos

na situação de náufragos refugiados em sobrados de aluguel.

O caso de Félix Cavalcanti de Albuquerque.37

Ao contrário dos escravos domésticos dos sobrados que parti-

cipavam, como nas casas-grandes dos engenhos, da alimentação

patriarcal, a xobreza livre desde os tem os coloniais teve de ir

se contentan o, nos mucambos, nas pal oças, nos cortiços, nas

próprias casas térreas, nos próprios sobrados ou sobradinhos &

aluguel, com o bacalhau, a carne-seca, a farinha e as batatas

menos deterioradas que comprava nas vendas e nas quitandas.

E com uma insignificância de carne fresca e de vaca. O corte de

carne de vaca tendo atingido no Rio de janeiro, em 1785, quando

a população era de cerca de 50.000 bocas, a 21.871 cabeças por

ano, ou fossem 59 quilos e 60 gramas por ano, para cada boca,

e por dia, 165 gramas, para cada indivíduo, estabilizou-se no

tempo do Império, com a maior densidade de população, numa

média ainda mais baixa. Em 1789 a população da capital do

Império consumia por ano, segundo o cálculo de um higienista

da época e na sua própria terminologia, 9.447.453 quilogramas

de alimentos gordurosos, 184.934.553 quilogramas de cereais; e

19.162.500 de carne de açougue. Incluía-se porém, em "carne de

açougue", toda espécie de salmoura, tripas, língua, paios, e até

a carne-seca, de que principalmente se alimentava a parte mais

pobre e mais numerosa da população. E nos cereais, incluíam-se

legumes em conserva, frutas secas e passadas, farinha de trigo,

féculas, pós e massas alimentícias, biscoitos, raízes alimentares,

chá, açúcar, cebola, alho, canela, batata. Mesmo assim, calculando-

-se por dia e por habitante a relação de cada habitante de cidade

com a massa de alimentação, chega-se, por uma estatística da

época, a 140 gramas de carne, ou menos ainda, feito o desconto

da parte não nutrítiva dos produtos incluídos em "carne" e da

que tocava aos animais a serviço do homeM31-tão numerosos nos

sobrados patriarcais e nos próprios cortiços e imicambos.

Sabemos pelas cartas dos jesuítas que nas cidades do primeiro

século de colonização quase não havia açougue, tendo os padres

de criar boi e vaca nos seus colégios para alimentação dos no-

viços, dos seminaristas e dos alunos internos. E as atas das Câ-

maras da cidade de São Paulo, onde o problema de suprimento

de víveres foi talvez menos angustioso que no Norte do Brasil

e em Minas, por não haver sido nunca tão intensa a monocul-

tura-pelo menos nos tempos coloniais-nem tão absorvente a

mineração, acusam difículdades constantes rio suprimento de carne

verde.`~u

I

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SOB~S E MucAmBos - 1.1 Tomo

167


Além do que o pobre ou o homem médio que não tivesse casa

com viveiro de peixe, no dia que quisesse dar-se ao luxo de comer

peixe fresco, para variar do seco, tinha que enfrentar não um

atravessador apenas, mas toda uma série de intermediários. E

esses intermediários não eram judeus nem ciganos-cabeças-de-

-turco para todo negócio desonesto; nem gente bengalafumenga.

Eram cristãos-velhos dos mais puros, gente das casas nobres e

até militares em quem se encarnavam, algumas das virtudes mais

cavalheirescas da classe dominante. Queixando-se do fato de ser

tão caro o peixe fresco em Salvador de Todos os Santos, então

a cidade mais importante da colônia, Vilhena escrevia no século

XVIII que era inevitável o preço alto: o peixe passava "por quatro

ou cinco mãos antes de chegar ás de quem o compra para co-

mel-o..." E comentava: "[ .... ] todos sabem esta dezordem. mas

ninguern a emenda por ser aquelle negocio como privativo de

ganhadeiras ue de ordinario são ou foram captivas de casas

ricas e chama3as nobres, com as quaes ninguern quer intrometter,

pela certeza que tem de ficar mal, pelo interesse que de corrimuni

teern os senhores naquella negociação. Vendem as ganhadeiras o

peixe a outras negras para tornarem a vender e a esta passagem

chamam carambola."40

quase o mesmo sucedia com a carne verde. Com os legumes.

Com toda espécie de alimentação, que o pobre da cidade tinha

de comprar pelos olhos da cara, por culpa menos da terra, ye

c

dos seus donos-os proprietarios de latifúndios e sesmarías, os



primeiros tempos da colonização, que no século XVIII continua-

vam a servir de "covis de onças e tigres nas proprias irrimediaçÓes

das cidades".41 Quando nessas terras abandonadas bem podia estar

se criando gado que abastecesse de carne a população urbana.

Salvador de Todos os Santos, com toda essa terra boa em redor

da cidade, dependia de bois do Piaul; e estes, explorados da

maneira mais sórdida por militares, que foram dos maiores atra-

vessadores de gêneros nos tempos coloniais. Não só era deficiente

e magra a carne de boi de Salvador-vinha de 300 léguas de dis-

tincia-como faltava à primeira cidade oficial e episcopal do

Brasil, galinha, fruta, legume. Frézier deixou a Bahia sem ne-

nhuma saudade da alimentação. A carne, magra. Os frutos e os

legumes, raros.42 E Barbinais escreveu que nem galinha ou peru

se encontrava que prestasse: tudo duro, magro, coriáceo .43

O desequilíbrio entre a população das cidades e os víveres

de origem rural européia, desequilíbrio que houve no Brasil desde

os primeiros tempos da colonização, por efeito, principalmente, da

monocultura latifundiáriaà~entuou-se com a fúria pelo ouro. Corri

a exclusividade da miner o no século XVII.

#

168



Gu_xERTo FREYRE

As cidades mineiras cresceram com a sua população mais pobre

lutando contra a falta de víveres e o alto preço dos gêneros. Os

aventureiros felizes é que foram se enobrecendo em fazendeiros

ou se arredondando em burgueses de sobrado. E estes, fechados,

tanto 9 uanto as casas-grandes dos senhores de engenho na área

do açucar, na sua economia privada ou patriarcal. Os donos ma-

tando em casa seus porcos e seus erus e engordando no sítio

suas vacas de leite. O resto da po . -fação que se arranjasse como

pudesse.44

E assim como no Norte houve militares que se entregaram a

negócios desbragados de fornecimento de carne, enriquecendo à

custa da exploração do povo mais miúdo das cidades, nas cidades

de Minas apareceram, entre os exploradores da falta de víveres

na área de mineração, não tanto os tão falados judeus, nem Ci-

ganos, nem "Cringos", mas frades. Simplesmente frades. Um deles,

religioso da Santíssima Trindade, Frei Francisco de Meneses.

AXnncípio o fornecimento de gado aos açougues, no distrito

dos iamantes, estivera nas mãos de Francisco do Amaral, comer-

ciante rico, que conseguira tal privilégio do governo. Firmado em

1701, o contrato das carnes devia terminar para Arriaral em 17 O6;

mas era tão bom o negócio que o magnata se empenhou Sor

todos os meios pela sua prorrogação; justificando o pedido, iz-

-nos um cronista, "com sacrifícios feitos, o pouco lucro, e o bem

dos povos"; e além disso, recorrendo ao suborno. Distribuindo

dinheiro entre a gente do governo. Mas contra a pretensão de

Amaral, levantaram-se os paulistas "nunca envolvidos no coirimer-

cio [ .... 1 entregues ás suas lavouras". Lavouras, deve-se salien-

tar 1 quase iguais às dos índios, sem a relativa fixidez das de

açucar na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba do Sul.

Foi diante do conflito entre Amaral e aqueles lavradores nó-

mades, e da indecisão de D. Fernando Mascarenhas em resolvê-

-lo, que surgiu Frei Francisco de Meneses à frente de uma das

mais grossas negociatas que ainda se organizaram no Brasil. Vi-

sava o monopólio do fornecimento de carne à população mineira.

Tinha aliados poderosos-outro frade, um Frei Firmo; Manuel

Nunes Viana, dono de ricas fazendas de gado; Sebastião Pereira

de Aguilar, também proprietário de fazendas de criar.

Mas os paulistas não cederam. Deu-se o choque dramático

entre os dois grupos. E venceram os magnatas. Venceram os atra-

vessadores e os negocistas .45 Sua vitória quase envolveu a depo-

sição do governador. É das que marcam com nitidez a supremacia

's

da economia privada sobre a pública; dos interesses particulares,



sobre os gerais. Supremacia tão ostensiva na formação brasileira,




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