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uase sempre mais sedentária ou caseira. Especialmente dentro

o sistema patriarcal, inimigo da rua e até da estrada, sempre

que se trate de contato da mulher com o estranho.

Essa influência, exerceu-a de modo decisivo sobre a famíl,ia

patriarcal, no Brasil, a casa-grande de engenho ou fazenda, *a

considerada em estudo anterior. Corrigiu-lhe certos em - - - - de

privatismo acentuando outros, o casarão assobradado da cidade.

Enquanto a casa de sítio-a chácara, como se diz da Bahia para

· sul-mareou a transição do tipo rural de habitação nobre, para

· urbano. Três tipos distintos de casa e um só verdadeiro: a casa

patriarcal brasileira com senzala, oratório, camarinha, cozinha que

nem as de conventos como o de Alcobaça, chiqueiro, cocheira,

estrebaria, horta, jardim. As casas de engenho e de sítio dando a

frente para estradas quase intransitáveis; outras para os rios; os

sobrados, para ruas sujas, ladeiras imundas, por onde quase só

passavam a pé negros de ganho, muleques a em

aXinarem, seus pa-

pagaios, mulheres públicas. Menino de so o que brincasse

na rua corria o risco de degradar-se em muleye; laia que saisse

sozinha de casa, rua afora, ficava suspeita e mulher pública.

O lugar do menino brincar era o sítio ou o quintal; a rua, do

muleque. O lugar de iaiá, a camarinha; quando muito a janela,

a varanda, o palanque.

A verdade, entretanto, é que a casa-grande, sob a forma de

casa nobre" de cidade ou de sobrado antes senhoril que burguês,

em contato com a rua, com as outras casas, com a matriz, com

o mercado, foi diminuindo aos poucos de volume e de comple-

xidade social. As senzalas tornando-se menores que nas casas de

ongenho: tornando-se "quartos para cria(los". Ou "dependências".'

1.52


SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo

153


Mas enquanto as senzalas diminuíam de tamanho, engrossavam

as aldeias de mucambos e de palhoças, perto dos sobrados e das

chácaras. Engrossavam, espalhando-se pelas zonas mais despre-

zadas das cidades.

A compressão do patriarcado rural por um conjunto poderoso

de circunstâncias desfavoráveis à conservação do seu caráter lati-

fundiário e, sociologicamente, feudal, fez que ele, contido ou

comprimido no espaço físico como no social, se despedaçasse aos

poucos; que o sisterrÇa cas a- grande- senzala se partisse quase pelo

meio, os elementos soltos espalhando-se um pouco por toda parte

#

· completando-se mal nos seus ant de cultura européia



· de cultura africana ou cultura i agonismos outrora

mantidos em equilíbrio à sombra s ou das fazendas

e estâncias latifundiárias.

Com a urbanização do País, ganharam tais antagonismos uma

intensidade nova; o equilíbrio entre brancos de sobrado e pretos,

caboclos e pardos livres dos mucambos não seria o mesmo que

entre os brancos das velhas casas-grandes e os negros das sen-

zalas. É verdade que ao mesmo tempo que se acentuavam os

antagonismos, tomavam-se maiores as oportunidades de ascensão

social, nas cidades, para os escravos e para os filhos de escravos,

que fossem indivíduos dotados de aptidão artística ou intelectual

extraordinária ou de qualidades especiais de atração sexual. E a

miscigenação, tão grande nas cidades como nas fazendas, arria-

ciou, a seu modo, antagonismos entre os extremos.

Terminado o período de patriarcalismo rural, de que os enge-

nhos bangüês, com as suas casas-grandes isoladas, procurando

bastar-se a si mesmas, foram os últimos representantes no Norte

e seus substitutos no Sul, as fazendas mais senhoriais de café e

as estâncias mais afidal adas no gênero de vida de seus senhores;

e iniciado o período in ustrial das grandes usinas e das fazendas

e até estâncias exploradas por firmas comerciais das cidades mais

do que pelas famílias, também na zona rural os extremos-senhor

e escravo-que outrora formavam uma so estrutura econômica

ou social, completando-se em algumas de suas necessidades e em

vários dos seus interesses, tomaram-se metades antagônicas ou,

pelo menos, indiferentes uma ao destino da outra. Também no

interior, as senzalas foram diminuindo; e engrossando a popu-

lação das palhoças, das cafuas ou dos mucambos: trabalhadores

livres quase sem remédio, sem assistência e sem amparo das

casas-grandes. Ite-

As relaçÓes entre os sexos sofreriam, por sua vez, uma a

ração profunda, ao se distanciarem senhores de escravos, tão

íntimos dentro do patriarealismo integral; ao se aproximarem as

casas nobres umas das outras, e todas das igrejas, dos teatros e

I

#

~I



1~

1

deias de mucambos, com o predo-



de vida e de moral. Numa dessas

hinho descobriria, espantado, que

se dando à prática de trocar de

nismo sexual. O frade no Brasil

te com a poligamia das casas-

pelo homem poderoso; com a

lade do homem rico. Aquele

leus deixou o Captichinho ita-

,iasil pode-se dizer que se tornou um tipo

doméstica especializado neste sentido quase freu-

guardar mulheres e guardar valores. As mulheres dentro

de grades, por trás de urupemas, de ralos, de postigos; quando

muito no pátio ou na área ou no jardim, definhando entre as

sempre-vivas e os jasmins; as jóias e moedas, debaixo do chão

ou dentro das paredes grossas.

Caso expressivo de influência recíproca foi o desse tipo de

casa vir a refletir novas tendências sociais, vindas da rua, e ao

mesmo tempo influir sobre elas e sobre a rua, um tanto à maneira

das relaçÓes que se estabelecem entre veículo e estrada. O so-

brado conservou quanto pôde, nas cidades, a função da casa-

-grande do interior, de guardar mulheres e guardar valores. Dai

os cacos de garrafa espetados nos muros: não só contra os ladrÓes

mas contra os donjuaw. Daí as chamadas uruperrias, de ar tão

agressivo e separando casa e rua, como se separasse dois inimigos.

Foi na chácara, através do palanque ou do caramanchão ou

do recanto de muro debruçado para a estrada, e foi no sobrado,

através da varanda, do postigo, da janela dando para a rua, ue

se realizou mais depressa a desorientalização da vida da muEr

no Brasil. Sua europeização ou recuropeização.

A varanda e o caramanchão marcam uma das vitórias da mu-

lher sobre o ciúme sexual do homem e uma das transigências

do sistema patriarcal com a cidade antipatriarcal. Ciúme que se

exprimira em termos tão fortes na arquitetura quase de convento

da casa-grande. Com a varanda e o caramanchão veio o namoro

da mulher senhoril não apenas com o primo mas com o estranho.

Uni namoro tímido, é verdade, de sinais de lenço e de leque.

Mas o bastante para romantizar o amor e torná-lo exógamo.

Qiiando as urupernas foram arrancadas à força dos sobrados do

Rio de janeiro, já no tempo de Dom João, e dos sobradÓes do

Recife e das cidades mais opulentas da colonia já quase inde-

pendente de Portii , gal, I)odc-,,,e dizer que se iniciou no-,,,a fase nas

relaçÓes entre os ~exos.

IERTo FREYaE SOBRADOS E IMUCAMBOS - 1.0 To,,fo 155

#

E, ao mesmo tempo, nas relaçÓes entre a casa e a rua. Salvador



teve desde os seus primeiros dias, no século XVI, aquela "rua

muito comprida, muito larga e povoada de cazas de moradores"

de que fala Gabriel Soares. Mas eram casas que se fechavam

contra a rua, dentro dos "seus quintaes [ .... 1 povoados de pal-

meiras carregadas de cocos, outros de tamareiras, e de laran-

jeiras e outras arvores de espinhos, figueiras, romeiras e pe-

reiras. . . "3

No Recife, sendo a cidade socialmente uma ilha e fisicamente

um meio-termo entre ilha e península, o sobrado quase sem quin-

tal se impôs. Questão de espaço que era pouco. O sobrado fe-

chado dentro de si mesmo, às vezes com a frente, outras com o

"traseiro"-como se diz em documentos do século XVII-para

o rio, foi o tipo de habitação ecológica. Sobrado magro, vertical.

Às tradiçÓes de arquitetura holandesa, que condicionaram o de-

senvolvimento do Recife, parecem ter se juntado imposiçÓes de

natureza ecológica para consagrarem aquele tipo de casa mais

estreito e magro como que em harmonia, também, com um tipo

mais estreito e mais magro de homem do que o baiano.

Para Morales de los Rios a arquitetura holandesa no Recife,

cuja influência ainda hoje se surpreende-diz o técnico-nas "em-

penas laterais dos prédioS"~4~poUCO se inspirou no meio ambiente.

Os holandeses a impuseram a cidade tropical, sem nenhuma adap-

tação que lhe quebrasse a estrutura européia de casa para os

frios do Norte. A verdade é que, ainda hoje, os telhados conser-

vados, por tradição, nos sobrados mais velhos do Recife pare-

cem acusar reminiscência tão forte de telhados flamengos que

ninguém se surpreenderia de ver escorrer por eles neve pura,

neve do Norte da Europa, neve escandinava. Alguns telhados se

apresentam inclinados quase a pique.

Não é de admirar. Sem a plasticidade do português, sem aquele

seu jeito único, maravilhoso, para transigir, adaptar-se, criar"con-

diçÓes novas e especiais de vida, o holandês viveu aqui uma vida

artifícialíssima, importando da Holanda tudo que era comida:

manteiga, queijo, presunto, carne em conserva, bacalhau, farinha

de centeio, farinha de trigo, ervilha em lata. E ainda: vinho, cer-

veja, azeite, vinagre, pão, toucinho. Mas não era só o alimento:

a casa só faltou vir inteira da Europa. Vinham cal, pedras cor-

tadas, ladrilhos, arames, vigas, lonas, artigos de metal. Vinha

tudo.5

Convém entretanto atender às condiçÓes de topografia e de



solo no Recife: não eram as mesmas que as da Bahia ou do

Rio-para só falar das outras cidades talássicas. Impuribarn outro

rumo às relaçÓes de espaço do homem com a área urbana; do

I

#



156

GILBERTO FRE:YRE

sobrado com a rua; do sobrado com o mucambo; da casa com

a água. Impunham à cidade outra configuração ecológica.

Durante os seus oito anos de governo, Nassau empenhou-se na

urbanização mais inteligente do Recife-encarregando da tarefa

um dos seus melhores técnicos, Peter Post. E um dos maiores

beneficios ?ue fez à cidade foi o de a ter dotado de pontes: para

a é,, - , , vez, as pontes tecnicamente mais adiantadas da Amé-

rica tropical. As primeiras pontes paleotécnicas que houve no

Brasil. Com elas, parte da população passou-se da quase-ilha do

Recife para a Ilha de Antônio Vaz, onde ~ntes só havia um con-

vento de frades e algumas palhoças de pescadores.

O problema de habitação, sem esse desafogo, teria se tornado

um horror. Sobrados estreitíssimos e, dentro deles, um excesso

de gente. Gente res irando mal, mexendo-se com dificuldade. Às

vezes oito pessoas Siormindo no mesmo quarto. Verdadeiros cor-

tiços. Os primeiros cortiços do Brasil.

Mesmo assim, nos começos de 1640, não havia lugar para quem

chegasse da Europa. Só se improvisando. Maurício e seus conse-

lheiros se empenharam com o maior afã em fazer construir casas

para os recém-chegados em Antônio Vaz; mas "alguns mais po-

derosos", sem dúvida comprando terras nas zonas a se desen-

volverem em subúrbios, aproveitaram-se da situação para explo-

rarem a falta de casa e a angústia de espaço. E o aluguel de casas

e quartos subiu a alturas fabulosas. Por dois quartos com uma

saleta, chegou-se a pagar 120 florins por mês.O

Com os burgueses mais ricos indo morar em casas quase de

campo, para as bandas de Antônio Vaz, a quase-ilha do Recife

ficou o bairro do comércio e dos judeus, dos pequenos funcio-

nários e dos empregados da Companhia das Indias Ocidentais;

dos artífices, dos operários, dos soldados, dos marinheiros, das

prostitutas. Alguns destes vivendo em verdadeiros chiqueiros,

entre tavernas sujas da beira do cais e no meio dos "bordéis mais

imundos do mundo". "Ai do jovem que aí se perdessel Estaria

destinado a irremediável ruína!" Estas palavras são de um rela-

tório holandês da época.7 Encontram plena confirmação nos re-

paros de um observador francês do mesmo período-Moreau.8

Muita mocidade foi engolida por essa Sodoma de Judeus e de mu-

latas; de portugueses e de negras; de soldados e marinheiros de

todas as partes do mundo.

O Recife, com seus sobrados-cortiços e seus sobrados-bordéis,

foi um dos pontos mais intensos de sifilização no Brasil, a sífilis

ocorrendo com freqüência, diz Piso,9 tanto entre holandeses como

entre portugueses. As "prostitutas do porto" tornaram-se umas

terríveis disseminadoras de sífilis. Não eram só mulheres de cor

-negras, mulatas, cabrochas-qije aqui despertavam a curiosí-

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo

#

157


dade pelos prazeres exóticos nos homens ruivos, até mesmo nos

pastores da Igreja reformada, um dos quais tornou-se célebre por

sua vida imoral. O Recife se encheu também de prostitutas holan-

desas. Não três ou quatro: grandes carregamentos de marafonas

ruivas ou alvas. Para alguns dos flamen os tudo tinha de ser

aqui como na mãe-pátria: a casa, a comiga, a mulher. Nada de

exotismos. Em 1636, orem, um conselheiro holandês mais sisudo

pediu do Recife aos dignitários da Holanda que evitassem aquela

vergonha. O Diretório era o primeiro a recomendar-notava o

Conselheiro-que se punissem severamente os delitos de ordem

sexual; todavia deixava que viessem para a colônia, em grandes

levas, "aquelas portadoras de desgraça".10

A Nova Holanda , primeira tentativa de colonização urbana do

Brasil, em que os sobrados superaram casas térreas e palhoças,

excedeu-se à Nova Lusitânia em delitos de ordem sexual, em irre-

gularidades morais de toda espécie. Pernambuco apresenta-se ao

estudioso da nossa história social como o ponto ideal para a

análise e o balanço de influências dos dois tipos da colonização:

o urbano e o rural. O predominantemente feudal e o predomi-

nantemente capitalista. O holandês e o português. A colonização

que se firmou na casa-grande de engenho completada pela sen-

zala e a que se desenvolveu rincipalmente em volta do sobrado

urbano, às vezes transformaSo em cortiço. E aqui se impÓem

consideraçÓes que completam, em certos pontos, o pouco que

rapidamente se sugeriu, em capítulo anterior, sobre o antagonismo

entre a cidade e a zona rural, na formação social do brasileiro.

Dificilmente se podera concluir pela superioridade do coloni-

zador holandês sobre o português, ou do tipo urbano sobre o

rural, de colonização do Brasil, em termos de raça ou de cultura

nacional. A ação colonizadora do flamengo não se exerceu com

elementos de raça e de cultura exclusivamente holandeses, nem

mesmo norte-europeus: aproveitou, como nenhuma na América,

o elemento judeu, e procurou aproveitar o português, o negro, o

índio, o alemão, o francês, o inglês, toda a salsugem cosmopolita

que a aventura tropical foi atraindo às nossas praias.

A vida moral na Nova Holanda de modo nenhum foi superior

à do Brasil rural e português. Ainda que fossem severos os cas-

tigos contra as mulheres adúlteras, foram freqüentes os casos de

esposas infiéis, principalmente de esposas de soldados. Pelos pro-

tocolos do Conselho Eclesiástico, ve-se que muitas foram pendu-

radas na polé, na praça do Mercado do Recife. Numerosos foram

também os casos de bigamia. Eram freqüentes, como refere Mo-

reau, os de sodomia e crimes contra a natureza, destacando-se

entre os sodomitas certo capitão holandês, enviado primeiro para

Fernando de Noronha, depois para os cárceres de Amsterdã.""

#

156



sobrado com a rua;

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-i-as que floresceram à

..o. Foram muitos os so-

-.L como em cidades mineiras

-,eiro, seu destino patriarcal des-

,~ervertido, sua condição cristã man-

,,ertinagem. Não é de admirar desde que

casas-grandes de engenho ou de fazenda

_ostíbulos ou serralhOS13 por senhores desviados

principal de pais de famílias legítimas, aos quais

sempre o direito de acrescentarem filhos naturais aos

is. E não só a casas-grandes do interior: até a igrejas. Em

o Padre Francisco da Silva, domiciliado em Olínda, era sus-

penso de ordens por vir abusando do confessionário para seduzir

#

jovens penitentes. E não são poucos os casos dessa natureza re-



fistrados nas confissÓes e denunciaçÓes reunidas no Brasil co-

onial pelo Santo Ofício.14 Na Baffia, ficou célebre Frei Bastos,

tão grande na libertinagem quanto na eloqüência;15 no Rio de

janeiro, ganhou fama não de conquistador de jovens mas de efe-

minado, que se deliciava em ser conquistado, outro frade, tam-

bém orador sacro: o apelidado Sínhazinha, cuja fama a tradição

oral trouxe até nós.

Em 1798 era o físico-mor Bernardino Antônio Gomes que, em

resposta ao questionário dirigido a médicos pelo Senado da Câ-

mara do Rio de janeiro, salientava ser a prostituição "maior no

Brazil, que na Europa", como "consequencia indefectivel do ocio

e da riqueza adquirida sem trabalho" e "fomentada pelo exemplo

familiar dos escravos.. ."16 O médico Pires de Almeida calcula

ue, ao findar o século XVIII, houvesse no Rio de janeiro cerca

e 255 das chamadas "mulheres de janela", isto é, "mulheres pú-

blicas", sem contar a prostituição clandestina de escravas que

devia ser considerável."

Na primeira metade do século XIX o número das mulheres pú-

blicas aumentaria enormemente. E para esse aumento concorreria

de modo notável a imigração de mulheies dos Açores. Em estudo

sobre A Prostituição, em Particular na Cidade do Rio de janeiro,

S013FLADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo

159

outro médico, o Dr. Lassance Cunha, escrevia em 1845 que a



capital do Império possuía então três classes de meretrizes que

eram: a) - as (ou de sobrado); b) - as de

"sobradinho" e as de "rotula"; c) - a "escori~i"." A escória, for-

mavam-na mulheres de casebres ou de mucambos, e para elas,

principalmente, é que havia as chamadas "casas de passes ' ou

zungus", isto é, "nauseabundas habitaçÓes pertencentes a negros

quitandeiros" ou os "fundos das barbearias que, por modico preço,

e para esse fim, eram alugados por pretos libertos". Havia tam-

bém no Rio de janeiro as "casas de costureiras", "hotéis" em Bota-

fogo e no jardim Botânico e no meado do século XIX os con-

ventilhos da "Barbada": aí o roceiro rico, o filho de fazendeiro

ou de senhor~de engenho, o rapaz de fortuna da cidade encon-

travam nao so estrangeiras como bonitas mucamas ou mulatinhas

ainda de vestidos curtos, meninotas e meninas. "Barbada" era ela

própria mulher de cor: gorda, ostentava "bigode espesso e quase

cavaigrwc".19

Considerável chegou a ser no Rio de janeiro da primeira me-

tade do século XIX a pederastia; especialmente no baixo comércio:

entre aqueles portugueses que viviam vida um tanto à parte e,

por economia, serviam-se de caixeiros, em vez de mulheres, para

acalmar seus ímpetos sexuais. Para reduzir ou extinguir a pros-

tituição masculina no baixo comércio, urredominantemente lusi-

tano, do Rio de janeiro é que o Côns de Portugal na mesma

#

cidade, Barão de Moreira, teria promovido, em 1846, a impor-



tação de mulheres ilhoas. Seriam elas sucedidas pelas polacas e

francesas, cujo perfil procuraremos traçar em estudo próximo.

Embora seu começo date da fundação do Alcázar Francês em

1862, foi no fim da era escravocrática que a figura da "francesa"

ou da "polaca" tomou relevo na vida libertina do Brasil, até então

dominada principalmente pela mulher de cor ou pela branca

dos Açores.

A sífilis cresceu no Rio de Janeiro depois que aí se intensifi-

caram as condiçÓes de cidade, no século XVII mais fortes no

Recife e em Salvador e no XVIII, em Minas Gerais. As infor-

maçÓes reunidas por Pires de Almeida, no seu estudo já citado,

documentam essa crescente sifilização do Rio de janeiro. Salienta

o mesmo autor terem "as devassidÓes mais bizarras da sociedade

mineira durante o periodo do V de 13 cujos feitos no

gênero o constituiram principal assunto das belas Cartas Chilenas"

reflorescido no Rio de janeiro durante o Primeiro Reinado, fi-

cando "desde então salientes", assinala ele, "as -,',lebres Maiq ....

de ..e Baron de . . . . . . . --'11 Cita ainda, como evidências

da devassidão nos altos meios urbanos, isto é, entre a fidalguia

dos sobrados do Rio de janeiro, a "Marquesa de A . .--- o Dr.

#

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Para ver o fazer oucommenda3 trata se na

ANéNCIO TíPICO DE "l~l~--,IiATOs ANIERICANOS", freqüente nosj . oriials brasileiros

dos últimos decênios do século XIX e notáveis pelos exageros e em e ezamento

1

e de arianização das fisionoinias de ah,mis dos retratados.



1

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

161

A., e a Marquesa de O. que se entregava até aos seus propri~os



cocheiros", sem esquecer-se de aludir ao "bondoso velho- que não

"deixava de ser encontrado a desoras, embuçade e guardado pelo

cocheiro Narciso na escura rua de Santa Teresa. . ."21

As crônicas da época indicam que os coches e os cocheiros pas-

saram quase de repente a desempenhar papel importante na vida

libertina ou galante das cidades brasileiras onde mais rapidamente




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