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Teatro Público do Recife-um do melhores do Império-que, pelo

Diário de Pernambuco, a propósito de estar então o teatro com-

pletamente iluminado a gás ministrado por um AIr. Chardon,

referia-se ao "perigo imaginario" desse sistema, desejando que

os habitantes da cidade desprezassem "a antiga rotina das ma-

terias oleosas" para terem "nos candieiros de gaz, alem de excel-

lente luz, um asseio a toda prova". já havia então um dourador

-Cauniojit--que, negociando com candelabros e lustres,

1~

gava-se de "por os candieiros de azeite para gaz". Sobrados e não



apenas teatros começaram a ser iluminados a gás, ficando o azeite

#

para as casas térreas, os mucambos, as casas do interior.33



Um brasileiro educado em París-Soares d'Azevedo-não tar-

daria a clamar-pelo jornal do Recife de 4 de junho de 1859-por

um "Passeio público" para a cidade: agora que "o esplendor do

gás hidrógeno veio substituir a luz amortecida do azeite-de-car-

rapato". "Passeio público" qpe, alias, já existia no Rio de janeiro:

mesmo sem "gás hidrógeno'. O que predominava, entretarito, era

ainda o jardim particular-jardim emendado à horta e ao pomar-

em sítios que eram verdadeiros parques. tão vastos que se rea-

lizavam, dentro deles, procissÓes. Esses parques particulares fo-

ram, tanto quanto as casas, atingidos pela reeuropeização que

tão ostensivamente alterou formas e cores, na paisagem urbana,

suburbana e até rural do litoral do Brasil, durante a primeira

metade do século XIX. Reeuropeização-acentuese sempre-no

sentido inglês e francês; e não no português. Ao contrário: reeu-

ropeização em sentido quase sempre antiportuguês, como se para

os anglófilos e francófilos mais exagerados a tradição portuguesa

não fosse senão aparentemente europeia.

Wetherell observou na Bahia, Onde residiu durante a primeira

metade do século XIX, que na velha cidade tornara-se moda o

jardim em torno às casas. Onde, outrora, só se viam poucas plan-

tas, alguns abacaxis, algumas roseiras, começaram a surgir jardins

afrancesados. Da França haviam chegado jardineiros com plantas

européias e exóticas, principalmente roseiras. De Portugal vinham

importando algumas pessoas, delicadas camélias plantadas em

cestas. Entretanto, as orquídeas tropicais, que pareciam tão en-

cantadoras aos olhos daquele inglês, tinham oucos cultores ou

colecionadores. O entusiasmo era-todo pelas pUtas européias. E

* que ele registra à página 149 do seu Stray Notes from Bahia

* é confirmado por anúncios de jornal da época por nós exa-

minados. Realmente, um dos aspectos mais ostensivos da recuro-

peização do Brasil, após a chegada ao Rio de janeiro da Família

Real, foi esse culto exagerado de plantas e flores européias, com

sacrifício das tropicais, nativas ou já aclimadas entre nós. Se mui-

tas dessas plantas não se deixavam destruir e superar pelas im-

portadas da Europa é que grande era o seu viço, sendo quase

todas como as chamadas---marias sem-vergonha" que, cortadas ou

arrancadas dos jardins, não tardavam a rebentar de novo.

Nos "Avisos Diversos" do Diário de Pernanibuco de 2 de feve-

reiro de 1839, aparece expressivo anúncio de um Sr. Ramel,

Morista membro da sociedade real de agricultura de França",

~o qual esse francès, em palavras salpicadas de termos científicos

as vezes estropiados, "tem a honra de avisar aos srs. amadores

I

i 1


~ 11

#

138 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo 139



que elle acaba de chegar a esta capital com um sortimento de

toda a qualidade de arvores, arbustos uns que só dão flores outros

fructos, como rosas do Japão, as camelias, magnolias, cletoras,

depreas, Rhodendrum Kalmias, jasmins, peonias, arborca metros-

deros, andromedas, arabas, e roseiras de mais de 200 variedades,

cebolas e flores como jacinthos, tulipas, junquilhos, narcisos, lirios,

amarilis, dalias raiaunculos e animonas." Também dispunha de

sementes de hortaliças, árvores de fruto como pereiras, macieiras,

ameixeiras, pessegueiros, damasqueiros, cerejeiras, amendoeiras,

grosmeíras, ribes-preto, avelãzeiras, nogueiras, castanheiros (mar-

rons), vinhas "das melhores especies da França" e "um grande

numero de outras plantas, cujo detalhe se tornaria muí longo,

que serão vendidas ao mais modico preço."

Parece que havia então muito comércio de charlatão em torno

de sementes de plantas estrangeiras, pois o Sr. Ramel rogava

aos "Snrs. amadores de agricultura e botanica de o não confun-

direm com os Charlatans que tão indignamente abuzarão lia dias

de sua confiança." Além de que "elle atreve-se a lisongear-Se que

merecerá a confiança dos conhecedores pela fresquidão, bom

arranjo e apparencia de seus vegetacs e o zelo que porá a pre-

hencher os desejos desses senhores." O Sr. Ramei encarregava-se

também de mandar vir da Europa "as encominendas q. lhe fi-

zerem". Solícito, ele se transportava "à casa das pessoas que lhe

fizerem a honra de o mandar chamar". E os "encaixamentos ara

o interior por-se-lião com toda a cautella que exigem as sobi Sitas

mercadorias". O seu depósito era à Rua Nova n.o 17, na Livraria

Francesa.

É claro que essas plantas finas, delicadas e caras só as podiam

adquirir senhores de sobrados e de casas-grandes. Claro, também,

que a ostentação de tais plantas, ao lado ou à frente das casas,

tornou-se ostentação de classe superior-principalmente do seu

belo sexo. Que mucambos e casebres foram-se contentando com

aquelas plantas nativas ou africanas ou asiáticas, úteis à eco-

nomia doméstica ou tidas como profiláticas; muitas das quais,

no novo ambiente-o de recuropeização-passararri à categoria de

desprezíveis. Plantas de "gente baixa". Plantas de "negro". Plantas

de macumba". Plantas de "mucambo". Mucambo ou equivalente

de mucambo. Foi também desaparecendo o costume português

da horta emendada com o jardim. Do cominbo, da erva-doce, do

açafrão, ao lado de angélicas, cravos, açucenas brancas.

O historiador mineiro Augusto de Lima Júnior, em seu ensaio

A Capitania das Minas Gerais - Suas Origens e Formação, cujo

capítulo "A Casa, o Mobiliário, as Alfaias- é particu Ia rin ente rico

de informaçÓes interessantes sobre a subárea mineira de sobrados,

pretende ter sido absobita a -ausência de "Iriucainbos nos povoados

mineiros do século dezoito e mesmo em grande parte do de-

zenove". 31 Afirmativa que nos parece discutível. Apenas o mu-

cambo nos povoados mineiros não se chamava mucambo.

#

Entre as plantas de jardim e de horta que se encontravam,



segundo o mesmo pesquisado~, na Capitania das Minas-"o cactus-

-de-jerusalém [ .... ] a inalva-cheirosa, o alecrim, o manjericão

[ .... 1 as couves-gigantes de Portugal" e "anil" de grande con-

sumo para clarear a roupa e de largo emprego como pintura

de portas e janelas de residências coloniais [ .... ]", plantas medi-

cinais como "a macela-galega, o poejo, a malva, a cânfora her-

bácea, o bálsamo e a arruda-africana" (esta sobretudo para neu-

tralizar os "maus-olhados") -eram várias as de gente baixa ou de

mucambo. O que não exclui o fato de plantas pfofiláticas ou de

resguardo de pessoas e casas, como a arruda, terem sido tão

gerais-de todas as classes-ou nacionais-de todas ou quase todas

as regiÓes-como, entre as plantas alimentares, o feijão, conside-

rado por sociólogos e antropólogos sociais-entre os quais nos

incluímos desde dias já remotos-e por modernos nutrólogos-um

dos quais, o médico Rui Coutinho-fator de unificação brasileira .35

Menor foi, talvez, a diferenciação social estabelecida através

do animal ju.e através da planta de jardim e de horta. Mas sem

e tenha eixado de se processar. O cão de raça-grande, feroz,

?aud(rador, gordo, bem nutrido-veremos em capítulo roximo que

foi animal carateristicamente de sobrado: especie Se expressão

viva, máscula e útil dos leÓes ou dragÓes de louça ostentados aos

umbrais dos portÓes senhoriais. O gato, também. A vaca de leite

em contraste com a cabra. O cavalo em contraste com a mula.

E o pavão, cujo leque dourado tornou-se tão simbólico de casa

nobre como o penacho da palmeira-imperial. Pavão e pombo

acabaram com a fama de serem animais que "dão má Sorte às

casas". O que talvez se explique pelo fato de que eram animais

simbólicos de casas nobres ou ricas: casas, no Brasil, de ordinário

efêmeras na sua grandeza ou na sua opulência.

Raro o sobrado nobre que não conservasse das casas-grandes

do interior o hábito das gaiolas com passarinhos cantadores-pai-

xão principalmente do homem senhoril como a flor ou planta

de jardim, da senhora ou mulher nobre. Nos sobrados, entretanto,

às vezes as gaiolas foram substituídas por viveiros sob o arvoredo

do sítio ou do jardim: viveiros cuidados por homem e não por

mulher. Pelos anúncios de jornais passam "rolas boas cantadeiras

da terra da Angola", "canarios do I Terio", "banguelinhas". Pas-

in

sain outros pássaros "mui bons canta ores": "bicudos", "patativas



da Parahyba", "bigodes". Pássaros caros. Pássaios raros. Pássaros

bons para viveiros de sobrados de que se orgulhavam alguns

senhores como as senhoras de suas flores. Pássaros bons para

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140 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAIS&BOS - 1.1 Tomo 14



gaiolas de casas nobres. Pássaros aristocráticos que entretanto,

eram vistos às vezes em gaiolas de mucambos ou jasas térreas,

alegrando a vida de pobres apaixonados por passarinhos e por

canários e galos de briga a ponto de não os venderem para os

sobrados dos ricos. Menino, conhecemos velho funileiro nascido

no tempo da Regência, que se gabava de ter passado até fome

na sua casinha térrea, sem nunca ter vendido a certo barão de

sobrado a patativa que o ricaço desejava mais do que uma jOia.

NOTAS AO CAPITULO IV

'Alfredo d'Escragnolle Taunay, ---AExpedição do Cônsul Langsdorff` ao

Interior do Brasil", Rev. Inst. Hist. Geog. Br., Rio de janeiro, XXXVIII,

pág. 337. Também Hércules Florence, "Viagem de Langsdorff', Rev. Inst.

Híst. Geog. Br., XXXVIII, 2.', pág. 231.

2Várias têm sido as expressÓes de pseudornatriarcalismo no Brasil, veri-

ficado, principalmente, ao fazer a mulher, por natureza ou constituição

masculina, as vezes do pai ou do esposo morto ou ausente, do irmão ou do

marido efeminado ou incapaz de ação ou mando. Verificado, também, em

casos de inferioridade de status social, econômico ou político, do marido

em face da mulher, cujo nome tem sido, então, adotado por filhos e pelo

próprio marido. Autran, de origem francesa, adotou no Brasil o nome pres-

tigioso da família da mulher: Albuquerque. Outro fato típico: Manuel Luís,

de modesta origem portuguesa, tendo entrado no Brasil para o serviço das

armas como simples soldado, em Santa Catarina, conheceu no Rio Grande

do Sul o Tenente Tomás José Luís Osório, que o empregou como pião em

suas lavouras. Enamorou-se Manuel Luís da filha do prestigioso protetor,

com a qual veio a casar-se, a despeito da oposição da madrinha rica da

moça que dizia à afilhada: "Um furriel! um pião da casa consorciar-se con-

tigo! 2 o que faltaval Não aprovo" (Fernando Luís Osório, História do

General Osórío, Rio de janeiro, 1894, 1, pág. 44-45). Fez Manuel Luís

questão de que os filhos herdassem o apelido Osórío "por consideração à

sua esposa e ao seu sogro. . . " (Ibid., pág. 51 ).

3Sobre a freqüência de efeminados entre certos grupos ameríndios parece

não haver dúvida da parte de pesquisadores autorizados do assunto. Avé-

-Lallement (Reise durch Nord-Brasilien im, jalire 1859, Leipzig, 1860) des-

taca que, entre indígenas do -Brasil por ele estudados, a figura humana,

quase não variava de um sexo a outro, não marcando assim aos desviados

dos extremos o mesmo relevo que mareava aos efeminados entre grupos de

diferenciação acentuada entre os sexos. Os homens efeminados ou as mulheres

amazônicas.

Em recente comentário à revista Ata Venezolana (Caracas, 1945), na

Revista do Arquivo Municipal (São Paulo, 1946, CVII, pág. 114) o erudito

Professor Herbert Baldus destaca daquela revista o estudo do Sr. Antônio

Requena, "Noticias y Consideraciones sobre Ias Anormalidades Sexuales de

los Aborígenes Americanos: Sodomía", no qual encontra "graves senÓes".

Nota ter o seu confrade venezuclano citado a respeito do delicado assunto

certa observação de von den Steinen, encontrada no 9ivro Casa-Grande &

#

Senzala (edição espanhola)" e assinala: "Esta obra, aliás, é a única fonte



acerca de índios do Brasil usada por Requeria. .." Exclusividade que tám-

bém nós lamentamos pois são numerosos os estudos sobre a cultura ou os

costumes de indígenas do Brasil, de ilustres autores brasileiros e estrangeiros,

especializados em pesquisas etnológicas.

Mas conclui o Professor Baldus: "a frase em questão [isto é, a obser-

vação de von den Steinen (Unter den NaturvÓlkern Zentral-Brasiliens, Ber-

lím, 1894, pág. 502) sobre a prática da pederastia nos baito dos Bororo]

reza: "Dizem que a pederastia não é desconhecida na casa-dos-homens, ocor-

rendo, porém, somente quando há falta extraordinária de raparigas".

Entretanto, se o Professor Baldus reler a tradução da obra de von den

Steinen publicada em 1940 pelo Departamento de Cultura (São Paulo) sob

* título Entre os Aborigines do Brasil Central, tradução de Egon Schaden

* prefácio de Herbert Baldus, encontrará à pág. 622, capítulo XVII, inti-

tulado "Os Bororo" (" ... reproduzido da Rev. do Inst. Hist. e Geog. Bras.,

tomo LXXVIII, 2.a parte. A tradução do Sr. Basílio de Magalhães prescinde

de revisão. N. do V% o seguinte trecho: "Quão elegante e nitidamente

os homens trabalhavam - notava-se principalmente no arranjo das flechas.

Havia aí muitas habilidadezinhas que parecia mais natural devessem ser

confiadas às delicadas mãos femininas. Por exemplo, o adorno feito de miu-

dinhas e variegadas penugens, que eram postas uma a uma no chão e

meticulosamente arranjadas. E mesmo em uma roda de fiandeiras não se

podia mais tagarelar e rir do que aí no baitol Certamente, era pouco femi-

nino quando, de repente, para variar, levantavam-se dois dos trabalhadores,

oferecendo o espetáculo de uma regular luta corporal, que os outros acom-

panhavam com o maior interesse. Erguiam-se, lutavam, derrubavam-se, e

continuavam depois o seu trabalho, ou deitavam-se para o dolce far Mente.

Pois nunca faltavam preguiçosos e indolentes; muitas vezes encontravam-se

pares enamorados... que se divertiam debaixo de um comum cobertor

vermelho." Que pares seriam esses? Constituídos com mulheres irregular-

mente admitidas em reuniÓes monossexuais? Ou com homens que substituíssem

mulheres com especiais "habilidadezinhas- femininas?

É certo que mais adiante (pág. 637) von den Steinen escreve cautelo-

samente as palavras destacadas pelo Professor Baldus: "Dizem que a pede-

rastia não era desconhecida no ranchão, porém que só ocorria quando ali

era muito grande a falta de raparigas" (Tradução de Basílio de Magalhães).

Mas depois de ter registrado aquelas atividades femininas entre homens e

de ter se referido a pares amorosos que se divertiam "debaixo de um co-

mum cobertor vermelho" em reuniÓes monossexuais: "posto que as mulheres

não aparecessem ali".

Westermarck (The Origin and Development of Moral Ideas, Londres,

1926, 11, pág. 66) cita von den Steinen a propósito das práticas homossexuais

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142 GIELBERTo FRE:YrLE SOBRkDOS E MUCAMBOS - L' Tomo 143



entre primitivos ou civilizados, quando causadas pela ausência ou escassez

do sexo oposto; e não por inversão sexual. Os Bororo estariam na companhia

dos Australianos ocidentais, dos Chineses de Java, dos montanheses do Norte

de Marrocos, dos Sickhs, Aghans, Dorianos, dos soldados persas e marro-

quinos, dos Barrakas, dos Bapukus, de vários dos indígenas da América do

Norte, etc., isto é, na companhia de grupos ou tribos somente dadas a

práticas homossexuais quando forçadas ou estimuladas a isto pela ausência

ou escassez do sexo oposto ou por outras causas ou pressoes sociais. Simples-

mente sociais. A essa interpretação sociológica do fato deve juntar-se a

circunstância, notada por von den Steinen, dos Bororo entregarem-se, nos

baito, a atividades requintadamente femininas, embora não conste que hou-

vesse entre eles mahoos como entre os indígenas de Taiti: homens que

desempenhavam ofícios ou cultivavam artes peculiares às mulheres. Do que

resultava se efeminarem também "sexualmente", se é que essas atividades

não visavam essa deformação ou não a acompanhavam, acentuando pre-

disposiçÓes.

Westermarck cita, além de von den Steinen, vários autores que se refe-

rem a práticas homossexuais entre indígenas do Brasil: von Spix e von

Martius (Travels in Brazil, II, pág. 246); von Martius (Von dem Rechtszus-

tand unter den Ureinwohnern Brasiliens, pág. 27 e ss.); Lomonaco ("Sulle

Razze Indigene del Brasile", in Archivio per rAntropologia e la Etnologia,

XIX, pág. 46); Burton (Arabian Nights, X, pág. 246). Só Lomonaco era

especialista em etriologia, é certo; mas todos, homens de ciência eminente-

mente respeitáveis pelo rigor na observação e escrúpulo nas afirmativas. A

esses também poderia ter recorrido o ensaísta venezuelano; e mais ao estudo

de Guido Boggiani, Os Caduveo, cuja tradução, feita por Amadeu Amaral

Júnior, foi publicada há pouco em São Paulo (1945) com prefácio e um

estudo histórico e etriográfico de Q A. Colini e revisão, introdução e notas

de Herbert Baldus. Em apêndice ("Notícia Histórica e Etriográfica sobre

os Guaicuru e os Mbayá"), escreve C. A. Colini que também entre os Mbayá

"é recordada uma classe de homens que imitavam as mulheres, não só se

vestindo à sua maneira mas se dedicando às ocupaçÓes reservadas às mesmas,

isto é, fiar, tecer, fazer louças, etc." Em nota, acrescenta: "A presença de

homens vestidos de mulher se notou pela primeira vez na América seten-

trional entre os Illinois, os Sioux e outros Indios da Luisiana, da Florida

e do Iucatã. É tanto mais digna de nota a existência de tal uso num território

do Brasil meridional tão afastado daqueles juízes quanto permanecem um

da otriografia americana P. PlItIUC7~ R O zi".ificado deste costi)lne"

(págs. 289-290). Desses efeminados destaca o mesmo autor que "em vir-

tude da sua vida que saía das regras comuns eram encarados como Manitu

ou sagrados" (pág. 290, nota).

4Sobre a tendència, de muitos dos grupos ou sociedades primitivas, para

igualarem o tipo do homem e o da mulher num tipo de homem-mulher,

evitando extremos de diferenciação entre seu físico e seu comportamento

embora separando-os por algumas ocupaçÓes, vejam-se Mathilde e Mathias

Vaêrting, Die weibliche Eigenart im Alãnnerstaat und die indrinliche Eigenart

in Frauenstaat, Karlsruhe, 1923, The Dominant Sex - A Study in the

Sociology of Sex Differentiation, trad., Londres, 1923; Havelock Ellis, Man

#

and Woman (6.2 ed.), Londres, 1926 e Sex in Relation to Society, Filadélfia,



1923; Fritsch e Hellward vêm citados por M. Vaêrting, "Dorninant Sexes",

,Our Changing Morality, Nova Iorque, 1930, Dág. 151.

5AIberto Rangel em seu Gastão d'Orléans, o último Conde d'Eu, São

Paulo, 1935, lembra ter sido vaiado no Rio de janeiro um ator que se apre-

sentou sem barba.

Sobre o assunto veja-se o estudo de J. Leite Vasconcelos, A Barba em

Portugal - Estudo de Etriografia Comparativa, Lisboa, 1925. O mestre

português salienta que "de ser a barba sinal de virilidade nasce o ser sinal

de honra pois um homem para ser perfeito, tem de ser honrado" (pág. 98 ).

E lembra ter sido corrente entre portugueses o ditado: "hornem que não

tem barba não tem vergonha". Donde os homens de pundonor da era orto-

doxamente patriarcal, em Portugal, não se deixarem tocar na barba e jurarem

pela barba, costuines que os colonizadores trouxeram para o Brasil. Também

o costume de não cortarem ou apararem barba ou cabelo, quando de luto

fechado.

ONa arte plumária, como na de renda e bordado, esmeraram-se as brasi-

leiras da época colonial, quando essas artes se distinguiram como especiali-

dade de "mãos de mulher" ou "de mãos de anéis" inclusive da mulher

aristocrática. Especialidades que continuam a vigorar hoje, embora sua prá-

tica se venha limitando a uma ou outra área mais arcaica do país. Dificil-

mente se imagina, no Brasil, renda ou bordado feito por homem.

7M. Vaêrting ("Dominant Sexes", loc. cit., pág. 158) salienta a relação

do lazer com a auto-ornamentação, relação que pode ser observada na

história da sociedade patriarcal do Brasil. Note-se que no Brasil a ornamen-

tação excessiva da aristocracia che gou a ponto de ser ostentada em mucamas

que acompanhavam as senhoras, exibindo nos braços, nos cabelos, nas ore-

lhas, nos pescoços, jóias e anéis que não podiam ser exibidas pelas já sobre-

carregadas sinhá-donas. Vejam-se também Floyd Dell, Love in the Machine

Age, Londres, 1930 e Geoffrey May, Social Control of Sex Expression,

Londres, 1930, L. Pruette, Wornen and Leisure: a Study of Waste, Nova

Iorque, 1924, V. F. Calverton e S. D. Schmalhausen, Sex in Civílizatíon,

Nova Iorque, 1929.

8A negros ou negras que não fossem mucamas ou pajens de ricos e,

como tal, portadores de ornamentos e jóias dos seus próprios senhores, fre-

qüentemente se dificultou ou se proibiu, no Brasil, o uso do ornamento ou

jóias. Típica dessas proibiçÓes é a que consta da Carta Régia de 7 de feve-

reiro de 1696 proibindo que os escravos, no Brasil, "ilzassem de vestidos

de seda ou de qualquer objecto de lilxo". (\Is., Arquivo Nacional, Rio de

janeiro, -Oficios para os Vice-Beis do Brasil".)

9Paul Topinard, ÉLements d'Anthropologie Générale, Paris, ISSI

11

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144 CILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 145



1OHavelock Ellis, Man and Woman, cit., pig. 54. Veja-se tamb6m C,

estudo de L. Hollingwor-th e H. Montague, "The Comparative Variability

of the Sexes at Birth", American Journal of Sociology, 1914-1915, vol. XX,

pág. 335, que completa o estudo das mesmas pesquisadoras, "Variability as

Related to Sex Differences in Achievement", Am. J. of Soc., 1914, vol. XIX,

pág. 510. Para uma avaliação moderna dos estudos de Ellis e de outros

investigadores e pensadores, sobre o assunto, veja-se Viola Klein, The Ferní-




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