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conveniência do homem, dominador exclusivo dessa sociedade

meio morta.

O fato, alegado por Proudhon, de que a mulher nem a roca

inventou, não tem a significação que a primeira vista parece ter

fara J . ustificar teorias de "inferioridade" do sexo feminino, tão

rágeis como a maior parte das teorias de "inferioridade" da raça

africana ou das "raças de cor". Explica-o, em grande parte, o

constrangimento em que viveu o sexo chamado fraco durante a

fase da indústria doméstica, correspondente ao patriarcalismo. O

homem pelo seu domínio sobre a cultura acumulada dentro de

sistemas de civilização masculinos, tem desfrutado-salientam os

antropólogos e os sociólogos-melhores oportunidades de expressão

e de realização cultural. Quase o mesmo caso das raças consi-

deradas superiores, cuja maior riqueza de expressão ou de rea-

lização cultural se prende, pelo menos até certo ponto, a melhores

oportunidades históricas de acumulação de cultura pelo contato,

pela imitação, pela assimilação.

Sylvia. Kopard insiste em estender ao caso da mulher a inter-

pretação social de Boas, para o caso da raça negra, negando,

aliás, a maior vari , abilidade do sexo masculino.31 Não vamos a

tanto, antes nos inclinamos a acreditar em diferenças psíquicas

entre as raças, do mesmo modó que entre os sexos, predispon-

do-os a especializaçÓes culturais que não implicariam necessaria-

mente em superioridade ou inferioridade de inteligência. Mas nem

todas as diferenças seriam removíveis pela estandardização social

ou cultural dos dois sexos e, se possível, das várias raças, se sua

pureza biológica resistisse à miscigenação.

Na formação patriarcal brasileira, as diferenças sociais de sexo

-favoráveis ao homem-andaram às vezes em conflito com as

diferenças sociais de raça-favoráveis ao branco. Nos casos de

iaiás brancas e finas apaixonadas por mulatos, aquelas diferenças

sociais perturbaram-se. Mas raras vezes.

A distância, não só social como principalmente psíquica, entre

a mulher branca e o escravo preto, foi sempre maior, no Brasil,

do que entre o senhor branco e a escrava preta. Por outro lado,

procuraremos indicar, em capítulo próximo, que foi em grande

parte através da mulher branca e fina, sensível ao encanto físico

e ao prestígio sexual do mulato-homem aparentemente mais

forte, mais vivo, mais estranho (reação contra a endogamia), tal-

vez mais ardente do que o branco; que foi, em grande parte,

através do amor da aristocrata sentimental, e às ~ezes sensual,

e despreocupada de escrúpulos de branquidade, pelo mulato se-

xualmente mais atraente que o primo branco ou quase branco

-primo demasiadamente familiar e semelhante a ela, moça bran-

ca-que, durante o declínio do patríarcalismo, se fez, nas próprias

áreas aristocráticas e endogâmicas do país, a ascensão do mu-

lato claro e do bacharel ou militar pobre à classe mais alta da

#

sociedade brasileira. Os pais nobres, no maior numero dos casos



não queriam saber de casamento senão entre iguais étnica, social

e economicamente. E os iguais eram quase sempre os primos, o

tio e a sobrinha, os parentes próximos. As filhas, porém, as iaiás

dos sobrados, as sinhás das próprias casas-grandes de engenho,

deixando-se raptar por donjuans plebeus ou de cor, perturbaram

consideravelmente, desde os começos do século XIX, o critério

patriarcal e endogâmico de casamento.

Sellin assinalou o grande número de moças raptadas dos so-

brados e das casas-grandes, na segunda metade do século XIX.

Eram moças a quem os pais não consentiam, ou por questão de

sangue, ou de situação social, o casamento com homens de sua

predileção sexual ou sentimental. Elas, porém, já não se sujei-

tando, com a doçura de outrora, à escolha de marido pela fa-

mília, fugiam romanticamente com os namorados, que nem as

moças das novelas; e muitas vezes com homens de situação infe-

rior a sua e até de cor escura, sendo elas alvas, louras ou de um

moreno claro ou pálido.

Esses raptos marcam, de maneira dramática, o declínio da fa-

mília patriarcal no Brasil e o começo da instável e romântica.

Patriarcas arrogantes ficaram reduzidos quase a reis Lear. A ascen-

são do mulato e do bacharel-de que adiante nos ocuparemos-

acentuou-se através desses raptos; mas também a ascensão da

mulher. Seu direito de amar, independente de consideraçÓes de

classe e de raça, de família e de sangue. Sua coragem de deso-

bedecer ao pai e à família para atender aos desejos do sexo ou

do "coração" ou do "querer bem".

"De tempos a esta parte"-comentava o redator do "Retros-

pecto Semanal" do Diário de Pernambuco, a 31 de julho de

1854-"tem-se tornado tão frequentes entre nós os casamentos

pelo rapto e acompanhados de tanta iminoralidade que espan-

tam e fazem tremer aquelles que olham para a familia como o

fundamento da sociedade. Moças (e até moços!) teem havido

que, sendo menores, são raptados da casa de seus pacs e d'ahi

a pouco estão casados sem a intervenção do consentimento pa-

ternol" E notando a intrusão da magistratura do Império em

assuntos que deviam ser exclusivo domínio da autoridade pa-

triarcal: "Outras vezes apparece o supprimento desse consenti-

mento dado por juizes [ .... 1 que mesmo contra as leis o con-

cedem por entenderem que para se realisar um casamento tudo

se deve fazer. E qual o resultado de tão graves abusos? O enfra-

quecimento da autoridade paterna, a dissolução dos mais pode-

#

130



GILBE.RTo FREYRE:

rosos vinculos da familía e consequentemente a desmoralisação e

o anniquilamento da sociedade." E o mesmo jornal noticiava, na

sua edição de 28 de agosto de 1854, um dos raptos, então fre-

qüentes. "Mais um rapto teve lugar na madrugada de 20 do

corrente. Dizem-nos que ao sahir da missa do Livramento foi

uma moça violentamente raptada do braço de seu pae sendo o

retendente acompanhado de alguns auxiliares para o bom exito

e sua diligencia, como suceedeu. Deste modo os casandeiros se

não limitam ao ranto chamado de subomação; recorrem à força

aberta e a sorte das familias torna-se cada dia mais precaria e

~ed,oravel."

s jornais brasileiros do meado do século-na verdade de toda

a segunda metade do século XIX-estão cheios de notícias de

raptos de moças. O Jornal do Recife de 20 de fevereiro de 1868

registrando o fato, ocorrido em Niterói, de ter sido uma menor

raptada da casa dos pais por certo Capitão H. H. da S., lembrava

que não era a primeira vez que o dito capitão roubava moça: na

cidade de Alegrete raptara a noiva de um cadete que, deses-

perado, tomara uma porção de verdete e falecera.

Do mesmo jornal do Recife, de 2 de abril de 1859, é a notícia

de ter sido raptada na Bahia uma menina por Frei Teodoro da

Divina Providência.

Estes eram, porem, os casos de donjuanismo. Don!uanismo em

que até o meado do século XIX distinguiram-se principalmente

militares e clérigos; depois, principalmente, médicos como o re-

quintado Maciel Monteiro que parece, entretanto, ter se espe-

cializado em desencabeçar senhoras casadas.

Os raptos mais comuns tomaram-se, no meado do século XIX,

os de moças por homens ou rapazes que o critério patriarcal desa-

provava para a condição de genros; e em numerosos casos a

questão de branquidade parece ter sido o motivo da desaprovação

paterna a uniÓes que afinal se realizavam romanticamente; ou

romanticamente se resolviam com o recolhimento da moça a con-

vento e o suicídio, às vezes, do rapaz apaixonado. A verdade,

porém, é que, a partir do meado do século XIX, a solução que

se generalizou foi a do rapto: solução favorecida pela intrusão

da "justiça de juiz" em zona outrora exclusivamente dominada

-repita-se-pela "justiça" do patriarca de casa-grande on rle

C1 , -


sobrado.

Em , seu ensaio A República na América do Sul, publicado em

segunda edição em 1906, dizia à página 62 ilustre jurista do

tempo do Império, o Professor A. Coelho Rodrigues, a propósito

de "herança necessária", que a "íntrusão do legislador" entre o

pai e o filho-principalmente entre o pai e a filha-vinha anu-

lando, no Brasil, desde o Império a 'confiança recíproca que

#

MULHER BRASILEIRA DO MEADO DO SÊCULO XIX, CUJO



TRAJO E PENTEADO ACUSAM INFLUÊNCIAS DO ORIENTE.

(De."nho de L. Cardoso Ayres, segundo

d~ ol,Z~0 do autor.)

#

132



GIL13ERTo FREYRE

é o laço mais sólido das relaçÓes de família. . ." Família que, para

ele, devia continuar a patriarcal, baseada sobre "a força moral

do pai..." Aquela em que o homem era, como em Portugal

- cujo Código de 16ff' ainda constituía "a base do nosso Direito

Civír'-"o centro da comunhão da família", para o que o arma-

vam "os poderes paterno e marital". Os praxistas portugueses e

que haviam relaxado o pátrio poder, "sugerindo casos novos de

emancipação presumida"; e "o nosso Império secundou-os, subs-

tituindo as Ords. do L. 5.0 pelo Cód. Crim. de 1830 e, sobretudo,

promulgando o Dec. de 31 de outubro de 1831, donde a nossa

jurisprudência inferiu a emancipação da maioridade, reduzida de

25 a 21 anoS.-32

Uma revolução. Pois, depois desse decreto, o filho, desde que

tivesse 21 anos, "podia casar sem licença nem ciência do ai,

gastar quanto ganhasse sem dar-lhe contas, por mais que e ti-

vesse custado, e ainda que já houvesse recebido dele tanto quanto

poderia herdar por sua morte". E defendendo o pai contra os

filhos, a família patriarcal contra a Íni,tisão do Estado O13 do

legislador liberal, acrescentava o jurista: "Seja ele (pai] embon,

fbre e os filhos ricos, passe ele a mourejar a vida enquanto os

i'olhros dissipem os adiantamentos, os anhos e os dotes dos res-

pectivos cOnjuges, de cada três moeâas que conseguir poupar,

deverá necessariamente duas aos seus filhos." A um nai assim

reduzido no poder paternal chamava o Professor CoeLo Rodri-

Cues "galé da paternidade". E lembrava que estava se genera-

ando, entre os filhos, a situação daqueles que se sal-;Pv, à de

dividas inquietantes, com "a morte dos que lhes deram a vida".

Bem dizia em 1885 D. Ana Ribeiro de Góis Bettencourt, ilustre

colaboradora baiana do Almanaque de Lembranças Luso-Brasi-

sileiro, alarmada com as tendências românticas das novas gera-

çÓes-principalmente com as meninas fugindo de casa com os

namorados-que convinha aos pais evitar as mas influências junto

às pobres mocinhas. O mau teatro. Os maus romances. As más

leituras. Os romances de Jose de Alencar, por exemplo, com "cer-

tas cenas um pouco desnudadas" e certos `perfís de mulheres

altivas e caprichosas [. . .. . 1 que podem seduzir a uma jovem

inexperiente, levando-a a querer imitar esses tipos inconvenientes

na vida reaF'.

Romances ainda mais dissolutos estavam aparecendo; autores

ainda mais perigosos escrevendo livros, chegando alguns até a

pretender que "a união dos sexos promovida somente pelo amor

íeja tão santa e pura como a que a religião e a sociedade con-

sagra". E ainda mais, santo DeusI a "desculparem o adultério da

mulher!" Contra o que D. Ana Ribeiro recomendava os romances

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1? To?,io

#

133


de Escrich e os que ela própria escrevera: A Filha de Jephte e o

Anjo do P-rdão. a liber-

Não houve, porém, romance moralista que impedisse

tação da mulher do despotismo do pai ou do marido, embora,

dentro do complexo patriarcal, essa libertação se fizesse princi-

palmente através da substituição do homem pela mulher conforme

normas ou formas patriarcais. Formas que sobreviveram a alte-

raçÓes jurídicas ou políticas ou mesmo econômicas, de substância.

Que sobreviveram ao desaparecimento do trajo oriental de mulher.

Um sistema complexo como foi o patriarcal, no Brasil, tinha

que ser, como foi, um sistema de base biológica superada pela

configuração sociológica. Um sistema em que a mulher mais de

uma vez tornou-se sociologicamente homem X~ara efeitos de di-

rigir casa, chefiar família, administrar fazen a.

Um sistema em que o mestiço, por sua posição, tomava-se

branco para todos os efeitos sociais, inclusive os políticos. Em

que o afilhado, ou o sobrinho, igualmente tornava-se filho, para

os mesmos efeitos: tanto que os indivíduos biologicamente filhos

de padres nada sofriam nas suas oportunidades sociais sob a de-

signação, apenas de etiqueta, de afilhados ou sobrinhos, Em que

o genro superava às vezes o filho biológico nos privilégios sociais

de descendente do chefe da casa ou da família. Em que a mulher

tomava-se sociologicamente o homem da casa, o chefe da família,

o senhor do engenho ou da fazenda, sem que tal substituição

importasse em matriarcalismo senão adjetivo-nunca substantivo-

ou em valorização do sexo considerado frágil. Em que o padrinho

ou a madrinha superava o pai ou a mãe biológica, tornando-se

mais de uma vez o afilhado ou a afilhada não só completo subs-

tituto de filho ou de filha para o casal estéril como substituto de

esposo ausente ou do esposo morto: o caso de Joaquim Nabuco

criado como filho ~mico, por sua madrinha, D. Ana Rosa, viúva,

que procurou mudar o Nabuco do nome de família do afilhado

para Carvalho-o nome de família do marido morto.

Foi, ainda, um sistema em que o nome de família ilustre, pres-

tigioso.ou importante, freqüentemente superou o de família obs-

cura, mesmo quando a uele era o da mulher ou do tio ou avô

ou padrinho e este, o Io homem ou o do pai. Outra simulação

de matriarcahsmo ou avuncularismo dentro do patriarealismo.

Na verdade, o que se verificava em tais casos era a vitória do

elemento sociológico sobre o biológico. Era a preferência pelo

nome prestigioso de família como um nome que protegesse me-

lhor o indivíduo incerto do seu futuro como indivíduo. Também,

em mais de um caso, um processo de dissimulação: o indivíduo

com nome de família pelo lado paterno-normalmente o domi-

nante-obscuro ou desprezível (às vezes por ser nome de imi-

#

134 GILMERTO FRE-iRE S013RADOS E MUCAMBOS ~. L' Tomo 135



grante ou africano ou ostensivamente plebeu), refugiava-se no

nome da famílii materna ou no nome da família do padrinho,

para proteger-se, proteger o seu futuro e proteger os descendentes.

Tais casos foram numerosos*na história da nossa sociedade

patriarcal, ou tutelar, caraterizada pelo complexo de proteção.

Tão numerosos que Um feito alguns estudiosos do nosso passado

acreditarem em sobrevivências não só vagamente matriarcaís-o

que admitimos-no meio do sistema patriarcal vigorou du-

rante séculos no Brasil com um viço quase feuJecomo na coe-

xistência de matriarcado e patriarcado na mesma sociedade. So-

brevivências ou aparências matriarcaís houve, certamente, entre

nós; mas-repita-se-adjetivas, simplesmente adjetivas, de adap-

tação de indivíduos excepcionais do sexo feminino a tarefas nor-

malmente masculinas. Nunca substantivas, que importassem na

substituição de um sexo por outro ou na subordinação do sexo

patriarcal ao matriarcal.

O que se verificou com a transferência do poder atriarcal

das casas-grandes do interior para os sobrados das ciJades fo4

evidentemente, uma diminuição de distância não só física como

social entre a gente senhoril e atividades mecânicas, comerciais,

industriais que começaram a desenvolver-se, nas mesmas cidades,

em relativa independência dos senhores de sobrados, embora,

principalmente, para seu uso e conveniência. Inclusive o uso e

conveniência das senhoras.

A serviço, principalmente, dos sobrados, foram-se levantando,

nas cidades brasileiras do século XIX-às vezes ao pé dos pró-

prios sobrados ou nas suas lojas-marcenarias e carpintarias onde

se fabricavam não só mobílias para as salas e os quartos das

casas ainda patriarcais e já urbanas (dominando nessas constru-

çÓes, na segunda metade do século XIX, os estilos medalhão e

meio medalhão à Luís XV), como caixÓes fúnebres e eças; boticas

ou drogarias que começaram a vender desde o princípio do sé-

culo drogis importadas da Europa e dos Estados Unidos, às

~uais resistiram, por muito tempo-na verdade ainda resistem

f oje-os antigos remédios patriarcalmente caseiros, alguns sob a

orma de drogas comerciais com nomes silvestres ou indígenas-o

peitoral Cambará, a Salsa Moura, Caroba e Tajujá, o Elixir Ve-

etal Rocha (cujo fabricante gabava-se de não conter seu pro-

uto nem mercúrio nem iodureto, nem morfina nem narceína);

sorveterias familiares onde, além de sorvetes, encontravam-se bo-

los, bolinhos, empadas de camarão, pão-de-ló e doces italianos

e franceses que as negras das casas não sabiam fazer nas cozinhas

patriarcais, atingidas, assim, no seu prestígio quase sagrado; co-

cheiras onde podiam alugar carros para passeios, casamentos, ba-

tizados, formaturas dos filhos ou afilhados, os donos de sobrados

mais modestos oue não tivessem cocheiras próprias; lojas de miu-

dezas ou de ferragens e armazéns de secos e molhados onde,

entre outras novidades européias e norte-americanas para o con-

#

forto burguês das casas ou o adorno burguês das pessoas-os



chapéus para senhoras, por exemplo-encontravam-se candeeiros

como os "belgas" e, em vez do ant c fétido e fumarento azeite

il Explosão, Fumaça e Mão

O,

de peixe, a Luz Diamante, "livre



Cheiro", "casas de banhos" onde o burguês patriarcal, enjoado

do banho caseiro de tina ou de gamela, ou mesmo do agreste,

de rio, podia regalar-se com a novidade dos banhos de chuvisco,

mornos ou frios, depois instalados nas casas particulares mais

adiantadas; casas de médicos que a qualquer hora do dia ou da

noite odiam ser chamados para ver doentes ou fazer partos nos

sob- - XOIs patriarcais; lojas de pianos e de música onde havia uma

variedade de pianos e músicas estrangeiras a comprar para as

moças das casas (casas onde já não se cantavam modinhas nem

se tocava viola); colégios onde os meninos dos sobrados patriar-

cais tinham a vantagem de aprender a ler e escrever brincando

com outros meninos e não apenas com muleques de bagaceira,

como em muitos dos velhos engenhos; relojoarias que ocupavam

triunfalmente sobrados inteiros, do alto dos quais grandes reló-

ios, como desde 1869 o do "Regulador da Marinha", no Recife,

avam a hora certa aos sobrados da cidade, desprestigiando assim

os antigos sinos das torres das igrejas ou dos conventos; bancos

onde se podia depositar o dinheiro ou guardar as economias, por

tanto tempo dadas aos frades ara as guardarem nos seus con-

ventos ou sovinamente enteri Tas, com as jóias, no chão ou nas

paredes das próprias casas patriarcais; cafés que, na segunda me-

tade do século, foram juntando aos vinhos de jenipapo e de caju,

rivais dos fabricados pachorrentamente em casa pelas iaiás, vi-

nhos, licores e cognacs importados diretamente da Europa; outros

cafés que foram empolgando os senhores dos sobrados com ingre-

sias de "aparelhos electricos" ou "modernos" para a moagem e a

. torrificação" do café, por muito tempo feito nos sobrados pa-

triarcais, como nas casas-grandes, de modo gostosamente rústico,

isto é, pilado e moído a mão, por pacientes negras ou escravas;

tabacarias que aos charutos para os senhores finos foram jun-

tando "mimosos charutinhos" para as senhoras dos sobrados, a gu-

mas delas-como a Senhora do Conselheiro A-e do mesmo modo

que algumas senhoras de casas-grandes-a Baronesa de L., por

exemplo-tão apreciadoras quanto os homens mais elegantes de

um Vilar e Vilar ou mesmo de um cigarro Barbacena de palha,

dos quais havia por volta de 1870 "finissimos, proprios para dis-

tracção das Senhoras que sabem quanto é bom, util, agradavel

e hygienico o fumar"; retratistas que se encarregavam de tirar

#

136 GILBERTo FREYBE SOBRADOS E 2MUCAMBOS - 1.' Tomo 137



dos grandes da época Melmente retratos a oleo, e a miniatura",

e "não estando copia satisfatoria" não recebiam "paga alguma";

casas de chapéus-de-sol, de bengalas e de chapéus de homem,

onde o ouro e a prata brilhavam nos castÓes e a seda refulgia

nas umbelas; alfaiatarias; estaçÓes de estradas de ferro; casas de

espetáculos de novos estilos, com companhias italianas, francesas,

espanholas, portuguesas, embora entre as operetas fossem apa-

recendo desde o meado do século números de glorificação de

"baianas" e de "mulatas", por tantos senhores de sobrado apre-

ciadas tanto quanto as louras e rivais das louras nos aplausos que

conquistavam do público: um público cujo europeísmo nem sem-

pre ia ao extremo de repudiar as mulatas.

Também principalmente em benefício daquela população, cada

dia mais numerosa, dos sobrados, que precisava de sair à noite

para o teatro, para a sorveteria, para as festas de pátio de igrejas,

e não apenas pela manhã, para a missa, ou à tarde, para uma

ou outra visita, é que foi se aprimorando a iluminação das ruas

e das praças. Das ruas e praças melhores, pelo menos, As cidades

principais do Império viram chegar o fim da era imperial com

as ruas e praças iluminadas a gás. O que diminuiu o número de

crimes de assalto-assalto de vadios, ladrÓes, capoeiras a pessoas

acatas-nas próprias ruas centrais, diminuindo também o número

e apariçÓes de almas penadas, lobisomens, mulas-sem-cabeça,

cabras-cabriolas, que foram, umas, tornando-se fenômenos apenas

rústicos, quando muito, suburbanos, outras, refugiando-se no inte-

rior de sobradÓes abandonados por famílias decadentes, alguns

dos quais grandes demais para serem inteiramente bem ilumi-

nados a bico de gás ou a luz de candeeiro belga. Nas igrejas,

nos cemitérios, nas ruínas de velhos conventos, também se refu-

giaram fantasmas, outrora de ruas mal iluminadas.

Aliás foi, ao que parece, nos teatros públicos, que a iluminação

a gás alcançou, por volta do meado do século XIX, suas primeiras

grandes vitórias no interior de grandes edifícios brasileiros. Daí

é que se estendeu aos sobrados e às casas assobradadas, dando

novos brilhos aos seus jacarandás e vínháticos envernizados à

francesa, aos seus espelhos, aos seus mármores, aos cristais, às

porcelanas, às pratas. A 28 de janeiro de 1847 era o diretor do




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