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deiras estufas [. . * * r`. 23

Em 1798 já os médicos chamados a dar parecer sobre as causas

fessor, na vida da família brasileira, esboçada desde as primeiras

décadas do século XlX, veio marear fase nova na situação da

mulher. Também no sistema de relaçÓes da mulher com outros

homens que não fossem os do seu sangue ou o seu marido.

O médico de família passou a exercer influência considerável

sobre a mulher, Essa influência, limitando-se por algum tempo

às cidades talássicas-só no Rio de janeiro, De Freycinet encon-

trou nos principios do século XIX mais de 600 médicos, incluindo

cirurgíÓesll-estendeu-se depois às casas mais ilustres de engenho.

As casas-grandes e, rincipalmente, os sobrados urbanos e subur-

banos, foram reuninSo a figura mais independente do médico de

família à do capelão ou confessor, mais acomodado à vontade

do pater familias. Médico de família e até cirurgião, este para

cuidar principalmente dos negros de senzala.

da insalubridade da cidade do Rio de janeiro haviam se referido Não pretendemos salientar dessa primeira fase de influência

à falta de higiene na vida da mulher, mais confinada que o ho- do médico na vida de família do brasileiro senão a pura

reper-

mem à habitação patriarcal, à camarinha, à alcova; mais seden- cussão sobre a mulher. A mulher de sobrado foi encontrando



no

tária, quase nunca fazendo a iaiá de sobrado o menor exercício; doutor uma figura prestigiosa de homem em quem repousar da

mais presa à casa, que era o sobrado quase mourisco Qu levan- do marido e da do padre, a confissão de doenças, de dores,

de

tino; enfraquecida elo uso quotidiano do banho morno, que só intimidades do corpo oferecendo-lhe um meio agradável de de-



fazia amolecer in lânguidas. Era natural que sobre safogar-se da opressão patriarcal e da clerical. E convém

aqui


uma parte assim opulação nobre se exercesse pode- recordar que nas anedotas sobre maridos enganados-aliás,

rela-


rosamente a ação , como a de outras doençàs sociais. tivamente raros nos dias mais ortodoxamente patriarcais do

Bra-


Que as catacumbas nas igrejas vivessem escancaradas à espera sil-a figura do padre donjuan foi sendo substituída pela do

mé-


de mocinhas que morressem tuberculosas, de mulheres casadas dico. De mais de um médico foram aparecendo histOrias de

adul-


que definhassem de anemia ou de mães cujo ventre apodrecesse tério em alcovas ou sofás patriarcais. Também de castigos

#

tre-



moço de tanto gerar, agredido pelo membro viril do marido pa- mendos em que as vítimas da cirurgia eram os cirurgiÓes; e

não


triarcal com uma freqüência que era uma das ostentaçÓes de apenas padres ou frades contra os quais mais de uma vez, na

era


poder do macho sobre a fêmea, do sexo forte sobre o fraco. patriarcal, voltou-se de modo terrível a ira de senhores

pais ou


Em trabalho anterior, aludimos a idealização do anjo no Brasil senhores maridos feridos na sua honra de donos de mulheres.

Aos


nos tempos coloniais e do Imperio. A idealização da figura do poucos é que foram aparecendo maridos burguesmente pacíficos

a peio uso qu

ulheres já tão

debilitada da p

da tuberculose

menino morto. Também se idealizou nos sobrados a figura decomo o Manuel José da Silva, "morador na Freguezia de Cuara-

moça que morria virgem. Tinha direito a capela de flor de laranja,tiba, no logar denominado Carapiba", que no Diário do Rio de

véu de noiva, bouquet de cravos, caixão azul-claro ou branco.janeiro, de 3 de março de 1825, informava ao público haver

Foi outra idealização mórbida, baseada, sem dúvida, nos mesmos11 querelado da sua mulher, Ignacia joaquina da Conceição, pelo

motivos que a idealízação do anjo: a compensação psíquica, sobcrime de adulterio voluntariamente cominetido com o adultero

forma teológica, da perda do valor social representado pela moça Padre Manoel Nunes".

morta. A figura do médico de família, tornando-se maior que a Aquelas idealizaçÓes de morte, que

tão estranhamente perver-

do confessor, dentro dos sobrados, e mais tarde nas próprias casasteram o gosto da vida, o sentido da saúde, no Brasil patriarcal

de engenho, foi acabando aos poucos com idealizaçÓes tão anti--idealização da morte da criança, idealização da morte da filha

virgem e até do filho rapaz, idealizaçÓes, acrescente-se, mais ou

menos teológicas, animadas pelos padres e pela Igreja, já que

não tinham nem meios técnicos nem independência econômica

para enfrentar as cansas sociais de tanta des , graça-foram se es-

vaindo com a maior influência do médico sobre a mulher e sobre

-sociais.

já nos referimos ao confessionário como um meio que teve a

mulher patriarcal rio Brasil de descarregar a consciência e de

libertar-se um pouco da opressão do pai, do avô ou do marido

sobre sua personalidade. A supremacia do médico sobre o con-

#

122 GILBERIO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 123



o meio social. O médico de família procurando combater tudo

que fosse influência ou sugestão letal, contribuiu grandemente

para restabelecer, na mulher brasileira, o sentido de vida e de

saúde que sofrera nela, e também no homem de cidade, profunda

perversão, através das dificuldades de adaptação do europeu aos

trópicos. Através, principalmente, dos exageros do sistema pa-

triarcal de relaçÓes entre o homem e a natureza, entre o homem

e a mulher, eijtre o adulto e o párvulo.

A transição do patriarcalismo absoluto para o sernipatriarcalismo,

ou do patriarcalismo rural para o que se desenvolveu nas cidades,

alguém já se lembrou de comparar à transição da monarquia

absoluta para a constitucional. A comparação é das melhores e

abrange alguns dos aspectos mais caraterísticos do fenômeno ju-

rídico, tanto quanto do moral e social, daquela transição. O

puramente jurídico foi estudado, em ensaio hoje u ecido, pelo

,esc


Barão de Ourém, Etude sur Ia Puissance Paternelle Sns le Droit

Brésilien, publicado em Paris em 1889. Os demais aspectos per-

manecem quase virgens de estudo.

O absolutismo do pater familias na vida brasileira-pater fa-

mílias que na sua maior pureza de traços foi o senhor de casa-

-grande de engenho ou de fazenda-foi se dissolvendo à mèdida

que outras figuras de homem criaram prestígio na sociedade es-

cravocrática: o médico, por exemplo; o mestre-régio; o diretor

de colégio; o presidente de província; o chefe de polícia; o juiz;

o correspondente comercial. À inedida que outras instituiçÓes

cresceram em torno da casa-grande, diminuindo-a, desprestigian-

do-a, opondo-lhe contrapesos à influência: a Igreja pela voz mais

independente dos bispo`s, o Governo, o Banco, o Colégio, a Fá-

brica, a Oficina, a Loja. Com a ascendència dessas figuras e

n

dessas instituiçÓes, a figura da mulher foi, por sua vez, liber-



tando-se da excessiva autoridade patriarcal, e, com o filho e o

escravo, elevando-se jurídica e moralmente. Também o casamento

de bacharel pobre ou mulato ou de militar plebeu com moça

rica, com branca fina de casa-grande, com iaiá de sobrado, às

vezes prestigiou a mulher, criando entre nós-já o acentuamos-

uma espécie de doscendència matrilincar: os filhos que tomaram

os nomes ilustres e bonitos das mães-Ca-stelo Branco, Albuquer-

que e Melo, Bocha Wanderlev, Holanda Cavalcânti, Silva Prado,

Ar , 5_.,,ôlo, Osório-e não os elos pâis. O elemento ele decoração social

não podia deixar de iepurcutir inoral ou ps.e~,logicarnente, em,

tais casos, a favor (Ia

A Igreja, por cuja autorídIade sobre a f:~mília os jesuítas se

bateram tão ardentemente no primeiro çcç,ii,o de colonizaçao,

tendo de capitular, no segund

k), vencidos p~,%!~)s monarcas das

casa s---rande,,reconquiOnii al,~1iiis d--- ~.-- supostos di-

#

reitos e restaurou parte do prestígio espiritual e moral que per-



dera através da subserviência quase absoluta do capelão ao

pater famílias. Mas sem conseguir o domínio absoluto, a que

aspirava, sobre a mulher e sobre o menino que, libertando-se do

excesso de opressão do pater famílias, foram se submetendo às

influências novas do médico, do colegio, do teatro, da literatura

profana, e não apenas à autoridade mais firme dos bispos e dos

vigarios, cuja voz chegava as vezes tão forte aos sobrados no som

dos sinos da catedral ou da matriz.

Mas não se deve deixar de incluir a Igreja-a Igreja dos bispos

e do Internúncio-entre as forças que concorreram para o de-

clínio do patriarcalismo das casas-grandes e dos próprios sobra-

dos, tantos dos quais aparecem nos anúncios de jornal da primeira

metade do século XIX com oratório ou capela25 particular. No

século XVIII já alguns bispos procuravam reprimir o abuso das

missas em capelas particulares-as capelas ou oratórios das casas

de engenho, de fazenda, de sítio, de sobrado. Capelas ou ora-

tórios que repontam ostensivamente dos anúncios de sobrados

e de casas assobradadas, nos jornais brasileiros da primeira me-

tade do século XIX. No Diário do Rio de Janeiro de 4 de junho

de 1822, anuncia-se "hunia casa de sobrado" com "Oratorio para

Missa, perto do Rocio, em boa rua"; e no mesmo Diário, de 22

de janeiro de 1821, anuniara-se---hum oratorio uzado grande; em

tamanho sufficiente paa se poder celebrar Missa, muito bem

construido de madeira Iribá e por dentro com muito boa intura

de ramage, fingindo seda, e galarn dourado; tem crucifixo de

muito boa facttira". Dois anúncios típicos. Eram numerosas as

casas com oratórío "em tamanho sufficiente para se poder celebrar

Missa": casas onde matronas gordas, moles, sedentárias ouviam

missa sem precisarem de ir à igreja como a pequena-burguesia

ou a plebe.

Em 1886 seria o proprio Internúncio, Arcebispo de Otranto,

2puoem jirigiria aos bispos uma circular sobre o assunto, que fez

ca na vida da Igreja no Brasil; e que marca, ao mesmo tempo,

não diremos o fim-pois seria considerada sem efeito pelo subs-

tituto do Arcebispo de Otranto-mas o declínio, da era do ca-

pelão subordinado ao patriarca e quase indiferente ao prelado,

para acentuar iiovo tipo de relaçÓes entre a casa patriarcal e a

Igreja; e entre o padre e o bispo. Condenava-se aí o abuso de

celebrar-se a santa inissa em casas particulares, nos oratórios de

família. Irregularidade que seria punída com suspensão ad cele-

bratíone Miyvie. 26

Sernelhante cire,ilar levantou forte celeurnq em algumas dio-

ceses mais patriarcais: dioceses onde o int,~,resse econômico dos

padres se achava preso da maneira mais íntima às capelas par-

!i!

#

124 CILBERTo FREYRE SOBRAWS E MUCAMBOS - 1.' To.Nio 125



ticulares. Mas o simples fato de sua publicação é caraterístico

do declínio do sistema patriarcal, com o quá tanto contempo-

rizara a Igreja, agora intransigente na sua ortodoxia. É verdade

que o Bispo de Mariana apresentou ao lnternúncio certas difi-

culdades muito brasileiras para o cumprimento de ordem tão

antipatríarcal: uma delas, o fato de ainda haver freguesias vas-

tíssimas, algumas de vinte, trinta e até cinqüenta léguas de uma

a outra extremidade. De modo que a maior parte da gente não

podia ir à matriz ou à igreja para comungar, não uma vez no

ano, mas uma vez na vida. Daí a tolerância com as capelas par-

ticulares, com os oratóríos das grandes famílias patriarcais. "Os

oratórios em fazendas"-acrescentava o Bispo de Mariana, que

diante do radicalismo ortodoxo do Internúncio pendera para o

lado oposto, numa atitude doce, brasileira, de conciliação-"os

oratórios em fazendas, com entradas francas para todos, tem sido

considerados sempre como públicos, e suprem a falta de capelas.

A única condição que lhes falta para o rigor de públicos é que

têm saída para terras particulares1 e não para terrenos públicos,

condição esta difícil de ser observada no Brasil."27

A proibição de se ouvir missa em casa, nos oratóríos parti-

culares dos engenhos, das fazendas, das chácaras, dos sobrados

de sítio, golpeando em cheio a autoridade patriarcal, teria feito

sofrer particularmente a mulher mais sedentária: a mãe de fa-

mília que quase não saía de casa. Mas deve-se observar que os

oratórios particulares não se limitavam às casas-grandes isoladas,

a que se referia o Bispo de Mariana. Havia-os também nas casas-

-grandes de sítio, quase dentro das cidades; e até-repita-se-em

alguns sobradÓes do Rio de janeiro, da Bahia, do Recife, a um

passo das igrejas e até das catedrais. Na casa-grande do velho

Visconde de Suaçuria, por exemplo, a capela, que ainda conhe-

cemos-e da qual nos foi dado O Sino que or nossa vez, ofere-

cemos ao casal José Tomás Nab 1 Siferença apresentava

da iareja matriz, dela bem próxima.

~n

Transigindo, ainda em 1886, com os oratórios particulares, a



Igreja deve ter transigido principalmente com a mulher que,

desde os princípios do século, estava se tornando, com o filho

pequeno e o escravo, o elemento mais conservador da fé ortodoxa,

os homens dando para liberais e pedreiros-livres. Alguns sobrados,

em vez de conservarem capela ou oratório, foram-se tornando

até uma espécie de templos maçônicos, como, no Recife, a casa

de Antônio Gonçalves da Cruz, decorada com retratos de revo-

lucionários franceses e nortp-anicricanos, em lugar de estampas

de saritos e inártires da Igreja.

Pe-eira da Costa preteiide qii,,, a nia-con.-lG,ía tenha sido intro-

duzida no Brasil em 1501; e pelo ref-e- c, viajante inglês

Lindley~21 nos começos do século XIX já havia loja maçônica na

Bahia, que parecia datar do século anterior. Essas lojas, como as

#

sociedades secretas-"academias", -areopagos", universidades",



oficinas"-que foram aparecendo na mesma época, pelas partes

mais europeizadas do Brasil, desempenharam em nossa sociedade

patriarcal uma função que de certo modo se assemelha à daquelas

associaçÓes secretas de homens nas sociedades primitivas. Asso-

ciaçÓes fechadas às mulheres que, nem de longe, deviam avistar

os instrumentos sagrados. No Brasil, o segredo maçônico das cons-

piraçÓes liberais-conspiraçÓes que, entretanto, importavam, para

muitos "libertadores", na exclusão das mulheres, dos negros e dos

mulatos dos governos democráticos tão idilicamente sonhados-

veio aprofundar o antagonismo, já considerável, entre o sexo

conservador e o diferenciador.

Entre nós, como entre os primitivos, guardava-se da vista e

dos ouvidos das mulheres a atividade mais séria dos homens; no

caso das sociedades secretas, todo o trabalho em prol da Liber-

dade, da Independência, da Democracia. E é possível que al uns

conspiradores liberais fossem com relação às mulheres e fÃos,

maridos e pais duríssimos-dos que as faziam entrar para os re-

colhímentos ou conventos à força ou por simples ostentação social.

Amigos da Democracia e querendo a colônia livre do jugo de

Portugal tinham, entretanto, sua maneira monossexual de ser de-

mocratas e liberais.

Dizia nos principios do século XVIII o Governador das Minas

D. Lourenço de Almeida, que sendo grande na Capitania o nu-

mero de homens solteiros era entretanto considerável o de moças

ue os pais tirânicos faziam recolher aos conventos, onde algumas

efinhavam de triste dorizelice. Uns o faziam pela honra de ter

filha religiosa; outros, ao que parece, pelo embaraço de escolher

genro entre os homens solteiros da terra, de branquidade porven-

tura. duvidosa. Particularmente numa capitania como a das Minas,

célebre pela muita mestiçagem durante a era colonial. Atraindo

famílias ilustres das capitanias mais antigas, famílias com moças

em idade de casar-a filha de Antônio de Oliveira, por exemplo,

que ele próprio apunhalou por suspeita de namoro com rapaz

plebeu ou, talvez, de "cabelo ruim"-por outro lado atraía do

Reino aqueles solteirÓes aventureiros e extravagantes a que se

referia Dom Lourenço de Almeida; e, ainda mais: homens que

sendo no Reino "a escória do povo e o desprezo dos bons, vendo-

-se num país extenso e cheio de liberdade" faziam-se "insolentes"

e queriam ser todos "fidalgoS".29 Eram esses falsos fidalgos que

os patriarcas de famílias mais antigas na terra, embora conspí-

rando pela Liberdade, pela Independência, pela Democracia, fa-

ziam questão de distinguir dos autênticos, insistindo também em

Í .1

#

126 GILBERTO FREYRE SOBRADOS 19 MUCAMBOS - 1.0 Tomo 127



distinguir os falsos brancos dos brancos puros. E era essa preo-

cupação dos patriarcas com a fidalguia e a branquidade dos gen-

ros que tornava difícil o problema do casamento, nas capitanias

de formação mais irregular, como a das Minas.

Em Pernambuco, em São Paulo, e no Recôncavo da Bahia, o

problema resolveu-se mais docemente, com os casamentos entre

primos ou de tios com sobrinhas: a enclogarnia patriarcal. Casa-

mentos que foram fazendo das várias famílias iniciadoras do po-

voamento quase uma só; e tornando tão claros os limites para

as relaçÓes matrimoniais que os aventureiros do Reino e os mu-

latos da terra, ansiosos de se limparem pelo casamento, com difi-

culdade, e só por exceção, conseguiam unir-se a moças afidal-

gadas. Ainda assim, verificaram-se casos de mulatos e aventu-

reiros até das ilhas que, ainda no século XVII, ascenderam pelo

casamento à melhor aristocracia pernambucana, tornando-se tão

bons fidalgos como os sogros.

De Freycinet descreve os recolhimentos de moças do Brasil,

que visavam tornar impossiveis as alianças de moças fidalgas

com aventureiros. Uns, verdadeiros colégios ou escolas-e neste

número deve-se incluir o da Glória, fundado no Recife pelo Bispo

Azeredo Coutinho; outros, estabelecimentos de correção ou con-

ventos "onde ficam reclusas mulheres e moças, não precisamente

de má vida, mas que deram algum grave motivo de descontenta-

mento aos pais e maridos". Pode-se entretanto acrescentar que

nem sempre havia desses motivos graves de descontentamento;

às vezes simples suspeitas de namoro. Desconfiança. E para alguns

maridos nem isso. "Sabe-se até"-escreveu um viajante alemão,

Hermann Burmeister-"que muitos brasileiros internam suas mu-

lheres, sem plausível razão, durante anos, num claustro, simples-

mente a fim de viverem tanto mais a seu gosto na sua casa com

uma amante. A lei presta auxílio a este abuso; quem se quer

livrar da própria es O5a, vai a polícia e faz levá-la ao convento

pelos funcionários, Sesde que pague o. custo de suas despesas ."311

Nos tempos coloniais parece que não eram tão fáceis nas áreas

de população mais estável esses internamentos, a julgar pelos

termos de despachos às petiçÓes, de maridos e pais, que constam

dos livros mss. de Correspondência da Corte com os capitães-

-generais. Mas não resta dúvida de que, durante toda a época

de patriarcalismo, e mesmo durante sua primeira fase de declínio,

a lei favoreceu por todos os modos a subordinação da mulher

ao homem, no Brasil.

A mulher sernipatriarcal de sobrado continuou abusada pelo

pai e pelo marido. Menos, porém, que dentro das casas-grandes

de fazenda e de en(,Y(,iilio. Nos sobrados, a maior vítinia do pa-

triarcalismo em declínio (com o senbor urbano j

à não se dispondo

a gastar tanto como o senhor rural com as filhas solteiras, que

#

dantes eram enviadas para os recolhimentos e os conventos com



grandes dotes) foi talvez a solteirona. Abusada não só pelos ho-

mens, como pelas mulheres casadas. Era ela quem nos dias co-

muns como nos de festa ficava em casa o tempo todo, meio gover-

nante, meio parente-pobre, tomando conta dos meninos, botando

sentido nas escravas, cosendo, cerzindo meia, enquanto as casadas

e as moças casadouras iam ao teatro ou à igreja. Nos dias de

aniversário ou de batizado, uase não aparecia às visitas: ficava

pela cozinha, pela co a, pelos quartos ajudando a enfeitar os

pratos, a preparar c Eces, a dar banho nos meninos, a vesti-los

para a festa. Era ela também quem mais cuidava dos santos-

enchendo de jóias e tetéias o Menino Deus, Santo Antônio, Nosso

Senhor. Sua situação de dependência econômica absoluta fazia

dela a criatura mais obediente da casa. Obedecendo até às me-

ninas e hesitando em dar ordens mais severas às mucarrias.

Na França da Liberdade e da Igualdade, cujas idéias demo-

cráticas desde os fins do século XVIII vieram repercutir sobre

o Brasil, através de livros proibidos, de lojas maçônicas, de ba-

charéis e doutores formados em Paris e Montpellier; na França

da Liberdade e da Igualdade, em 18071, Portalis ainda escrevia

erri seu Exposé de motifs do Código Civil: "La fenime a besoín

de protection, parce qli'elle est plus faible; 1'homme est plus libre

parce qu'il est plus fort [ .... 1 L'obéissance de la fc~ est un

Lmmage rendu au pouvoir que la protège f. . .. J".

Não é de admirar que entre nós os juristas do feitio antes con-

servador que liberal de Trigo de Loureiro continuassem, no meado

do século XIX, partidários da subserviência da mulher ao senhor

patriarcal. Que as solteironas, principalmente, fossem pouco mais

que escravas na economia dos sobrados. As restriçÓes de ordem

jurídica e social-refletindo, na maior par-te, motivos econômicos-

impostas com tanto rigor à mulher brasileira durante a fase pa-

triarcal, explicam-nos muito da sua inferioridade, aparentemente

de sexo.


Mais depressa nos libertamos, os brasileiros, dos preconceitos

de raça do que dos de sexo. Quebraram-se ainda no primeiro

século de colonização, os tabus mais duros contra os índios; e

no século XVII, a voz del-R.ei já se levantava a favor dos pardos.

Os tabus de sexo foram mais persistentes. "A inferioridade" da

mulher subsistiu à "inferioridade da raça", fazendo da nossa cul-

tura, menos uma cultura como a norte-americana, com a metade

de seus valores esmagados ou reprimidos pelo fato da diversidade

de cor e de raça do que, como as orientais, uma cultura com

muitos dos seus elementos mais ricos abafados e proibidos de se

expressarem, pelo tabu do sexo. Sexo fraco. Belo sexo. Sexo do-

#

128 GILISERTo Fiu~)i~i- SOBRADOS E MUCAMBOS - L' To-.~io 129



méstico. Sexo mantido em situação toda artificial para regalo e




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