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deixar o Recife em situação de inferioridade para com a Corte,

construir grande pavilhão ou pagode-ainda um orientalismo-na

capital de Pernambuco para o l~aile de máscaras do ano de 48.

Pavilhão guarnecido de cadeiras, as do lado direito destinadas

às senhoras, as do lado esquerdo aos cavalheiros: outro orienta-

lismo. Só os mascarados poderiam dançar. As pessoas sem más-

caras, ou sem "vestidos de mascarados", deviam ocupar camarotes

como simples espectadores. Admitia-se o uso de dominós com

#

meia máscara. A máscara deveria ser considerada sagrada. Não



se admitiam bebidas espirituosas. Nem mesmo o fumar.

Durante as danças deveria reinar "o mais completo silencio".

Toda pessoa que perturbasse a harmonia e o silêncio da assem-

bléia seria mandada retirar do salão pelo mestre-sala, informa

gravemente o mesmo Diário de 19 de fevereiro.

£ certo que esse carnaval elegante, fino, silencioso, de fan-

tasias de seda, não matou o outro: o grosseiro, plebeu, ruidoso,

com oportunidades para os moços ex

,gandirem sua mocidade,

para os negros exprimirem sua africaade (de certo modo re-

calcada nos dias comuns), para pretos, escravos, moças, meninos

gritarem, dançarem e pularem como se não fossem de raça, de

classe, de sexo e de idade oprimidas pelos senhores dos sobrados.

A despeito daquela exigência de silêncio, o carnaval de teatro

Súblico veio dar o f, ortunidades a outros reprimidos para se expan-

irem dentro de antasias de seda e sob máscaras consideradas

.sagradas". A oportunidade a efeminados para se trajarem de

modo semelhante ao das mulheres. A oportunidade a mulheres

meio masculinas para se trajarem de modo semelhante ao dos

homens. A oportunidade a homens obrigados por ofício ou con-

dição social a uma solenidade quase fúnebre a pularem, saltarem

e dançarem como se fossem estudantes de curso jurídico.

Numa sociedade como a patriarcal brasileira, cheia de repres-

soes, abafos, opressÓes, o carnaval agiu, como, em plano su erior,

agiu a confissão: como meio de se livrarem homens, m lheres,

meninos, escravos, negros, indígenas, de opressÓes que, doutro

modo, a muitos teria sobrecarregado de recalques, de ressenti-

mentos e fobias. Os bailes de máscaras juntaram-se ao entrudo

como meios de desobstrução psíquica e, ao mesmo tempo, social

de uma população obrigada, nos dias comuns, a normas de com-

portamento que, em muitos, sufocavam tendências instintivas para

alegrias ruidosas e tradiçÓes extra-européias de danças sensuais.

Que acentuavam um europeismo artificial ou postiço.

Com esse tipo sernipatriarcal de vida mais mundana para a

gente elegante de sobrado, alargou-se a paisagem social de muita

iaiá brasileira no sentido de maior variedade de contatos com a

vida extradoméstica. Esse alargamento se fez por meio do teatro,

do romance, da janela, do estudo de dança,Mas os meios de exIressão da mulher ainda patriarcal e já

dades extra-

burguesa, suas oportun ades de intervenção nas ativiu

domésticas, continuaram, no Brasil da primeira metade do século

XIX, mesmo nas áreas onde se antecipou, entre nós, a urbanização

i ~

#

112



GELBERTo FREYRE

do sistema patriarcal, insignificantes. Reduzidas a formas graciosas.

Graciosas e quase inócuas.

Num país como o Brasil do tempo do Império, com problemas

que exigiam o máximo de objetividade, é impossível exagerar a

ação útil e construtora que teriam tido, através de maridos que

as admitissem à sua intimidade intelectual, mulheres mediana-

mente educadas, com suas qualidades agudíssimas de tato, de

intuição, de realismo, aproveitadas, por aquele meio indireto,

na interpretação e na solução de problemas gerais da sociedade

brasileira. Tantos deles, problemas psicológicos, de conflito e

desajustamento, e não apenas econômicos. Não se pode consi-

derar como o mais útil aproveitamento daquelas qualidades fe-

mininas a ação, quase que só exterior, algumas vezes, apenas emo-

tiva e sentimental, que tiveram em campanhas políticas-na da

Abolição, principalmente-senhoras como Dona Leonor Porto,

como a Princesa Isabel, como Dona Olegarinha, a doce mas ativa

mulher de José Mariano.

O tipo mais comum de mulher brasileira durante o Imperio

continuou o daquela boa Dona Manuela de Castro, mulher do

Barão de Goiana. Muito boa, muito generosa, muito devota, mas

só se sentindo feliz entre os parentes, os íntimos, as mucamas, os

muleques, os santos de seu oratório; conservando um apego doen-

tio à casa e à família; desinteressando-se dos negócios e dos ami-

gos políticos do marido, mesmo quando convidada a participar

de suas conversas. Quando muito chegando às margens sentimen-

tais do patriotismo e da literatura. Alheia ao mundo que não fosse

o dominado pela casa-a família, a capela, os escravos, os mora-

dores pobres do engenho, os negros dos mucambos mais proximos.

Ignorando que houvesse Pátria, Império, Literatura e até Rua,

Cidade, Praça.

Nenhuma mulher ortodoxamente patriarcal, ou sernipatriarcal,

do Brasil-nem de sobrado nem de engenho, nem de fazenda nem

mesmo de estânciacom toda a sua doçura, todo o seu doriaíre,

toda a sua graça, foi capaz de comunicar a algum dos filhos, ao

marido, ao irmão, a algum homem público ou a poeta seu apai-

xonado-quando era uma iaiá mais bonita e mais dengosa-su-

gestão que excedesse às de puro sentimento ou de pura sensuali-

dade. Nunca os dois sexos se ajustaram numa criação comum, de

significado político ou literário. Nada que se aproximasse de inte-

ligente ação extradornéstica da mulher, através do marido, do filho,

do irmão, com quem ela colaborasse ou a quem estimulasse por

meio de uma simpatia docemente criadora. Nunca numa socie-

dade aparentemente européia, os homens foram tão sós no seu

esforço, como os nossos no tempo do Império; nem tão unilaterais

na sua obra política, literária, científica. Unilaterais pela falta,

-W

#

d5b).



I

~m O


O

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114 G"ERTo FREmE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 115



não tanto de inspiração de mulher-que esta houve, e das mais

intensas, sobre os poetas e os romancistas do Império-mas do

que se poderia chamar simpatia criadora.

Essa falta de mulher, não inspiradora, mas colaboradora do ma-

rido, do filho, do irmão, do amante, sente-se no muito que há

de seco, de incompleto, e até de pervertido em alguns dos maiores

homens do patriarcalismo e do sernipatriarcalismo no Brasil. Em

Fagundes Varela, em Feijó, em Gonçalves Dias, em Tobias Bar-

reto, em Raul Pompéia. Homens em quem a ausência de cola-

boração inteligente de mulher ou de profunda simpatia feminina

pelo seu trabalho ou pela sua pessoa, parece ter desenvolvido o

narcisismo ou o monossexualismo sob formas intelectuais e até

pessoais próximas da morbidez.

A repercussão puramente sentimental da mulher sobre o ho-

mem, esta foi sempre profunda nos dias do semipatriarcalismo dos

sobrados, como nos tempos Xatriarcais das casas-grandes de en-

o

mho. A mãe era a aliada ( menino contra o pai excessivo na



c * lina e às vezes terrivelmente duro na autoridade. Sua con-

isc '


solaTora. Sua enfermeira. Sua primeira namorada. Quem lhe fazia

certas vontades. Quem cantava modinhas para ele dormir. Primeiro

foram cançÓes ~le acalento trazidas de Portugal:

. Durma, durma, meu menino."

Mas depois foram modinhas. Modinhas já açucaradas ou ado-

çadas pelo Brasil. Modinhas de amor. O filho era um pouco o

namorado da mãe, e às vezes da avó. Lopes Gama, em fins do

século XVIII, foi ninado pela sua avó com modinhas sentimentais:

Minha Nize ado-rada, És ingrata por costume, Até onde as nuvens

ftram, Ingrata suspende o golpe. Uma ou outra mais alegre: Zabe-

inha come pão, por exemplo. Através do século XIX as modinhas

chorosas, tristes, de namoro infeliz~ de amor abafado no peito,

continuaram a fazer as vezes das cançÓes de berço. O menino

logo cedo estava aprendendo que o amor fazia sofrer, que Maria

era ingrata, que judite era isso, que Elvira era aquilo. Sob esse

ponto de vista, não faltou influência amolecedora da mulher sobre

o brasileiro. Essa influência talvez explique o fato de até nossos

hinos de guerra terem certo sabor de modinha, alguma coisa de

mole, de sentimental, de choroso mesmo.

A influência de mulher que faltou sobre o filho menino ou ado-

lescente foi a da mãe que compreendesse o mundo para o qual

ele caminhava às cegas e sem um esclarecimento. Em 1872, Cor-

reia de Azevedo responsabilizava principalmente a "mãe indolente,

inculta", ao lado da "ama escrava" e da "mucama imoral", pelo

fato de tão cedo o menino brasileiro tornar-se um perdido: "no

corpo a sífilis; no espírito o deboche [ .... 1. Alimentar-se, vestir-

#

-se, deitar-se, e fazer exercício um menino, são cousas que essas



mães vulgares e i&norantes entregam apenas às exigências do sen-

tido do capricho. 16 Mas se ela ropria não sabia vestir-se nem

alimentar-se, nem tinha liberdaTé para vestir-se e alimentar-se,

mas vestia-se e alimentava-se de acordo com o capricho ou a

vontade dos homens? Mesmo a que freqüentava escola ou colégio,

tomava-se mãe de família sabendo apenas falar mais elegante-

mente que as outras, juntando ao Sortugues um pouco de francês,

um pouco de música, um pouco e dança.

"Os nossos colégios de meninos ensinam muito francês, muita

filosofia, mas não explicam o padre-nosso", escrevia em 1861 o

Padre Pinto de Campos. "Ainda é mais grave o ensino em colégios

de meninas", acrescentava ele. "A mulher pode e deve ser o grande

instrumento da regeneração; mas para isso cumpre substituir sua

posição atual de ídolo domado ou máquina reprodutora. Uma

nação é um agregado de famílias: lar doméstico é a mulher."

E concluía: "A nova educação feminina é hoje exclusivamente a

dos bailes, das salas, das ostentaçÓes e as que vivem fora das

cidades, ou não possuem fortuna, vegetam na ignorância por se

entender que a mulher de per si é nadal" Segundo Monsenhor

Joaquim Pinto de Campos, à página 20 da Carta (que dirigiu) ao

Excelentíssimo Senhor Ministro dos Negócios Eclesiásticos e foi

publicada no Rio de janeiro em 1861, era esta a situação da

menina ou da moça brasileira em pleno reinado de Dom Pedro II.

Aceitas as diferenças e os limites de sexo, dentro da especia-

lização de cada um-limites já indicados por Ellis em livro clás-

sico e interpretados por Goldenweiser, em algumas de suas pá-

ginas mais lúcidas e também por L. M. Terman e C. C. Mijes

no seu Sex and Personality: Studies in Masculinity and Femininity

(Nova Iorque, 1936)-nao seria justo deixar de insistir no muito

que as circunstâncias de regime econÔmico no Brasil impuseram

à mulher de sobrado como à de casa-grande, no sentido de sua

especialização em "sexo frágil" e em "belo sexo". RestriçÓes, às

vezes deformadoras do próprio físico. RestriçÓes limitando-lhe a

influência, sobre a vida comum, àquela repercussão de sentimento

e de dengo. sebre os filhos; às sugestÓes de beleza ou de bondade

sobre os poetas, os romancistas, os homens; a pedidos de emprego

de sogras a favor de genros, junto a políticos poderosos. Limi-

tando-lhe a atividade à esfera doméstica ou ao plano da prática

religiosa. Impondo-lhe uma especialização humilhante de tipo fi-

sico: primeiro a virgenzinha franzina: "pálida virgem dos meus

sonhos", de mais de um poeta. Depois de casada, a "mulher gorda

e bonita". Ou simplesmente gorda, caseira, procriadora.

#

I

GILBERTo FPF-YRE



ção, para fins de maior domínio social e de

---ial do homem, realizou-se através de regime todo

alimentação e de vida. Para o primeiro tipo-o da

,,alida-caldinhos de Sintainho, água-de-arroz, confeítos,

.js mornos. Para o segun o-a esposa gorda e bonita-verda-

_~iro regime de engorda, com muito mel de engenho, muito doce

de goiaba, muito bolo, muita geléia de araçá, muito pastel, cho-

colate, toda a série de guloseimas ricas que os cronistas da socie-

dade patriarcal no Brasil notaram ser consumidos à larga pelas

senhoras brasileiras. E que talvez fossem para muitas delas uma

forma de se compensarem dos desgostos ou das frustraçoes no

1 .


amor sexual. Em ambos os casos, uma alimentação impropria e

deficiente. Um regime produzindo as criaturinhas fracas do peito,

meninas românticas de olhos arregalados, de quatorze e quinze

anos, Te os bacharéis de vinte e cinco e de trinta namoravam

, c

passan o de cartola e bengala pelas calçadas dos sobrados, vol-



tados para as varandas como para nichos ou altares. O outro, as

mães de dezoito e vinte anos, mulheres gordas, mas de uma gor-

dura mole e fofa, gordura de doença. Mulheres que morriam

velhas aos vinte e cinco anos, no oitavo ou nono parto, sem outra

intimidade com o marido, que a da cama patriarcal. A intimidade

do ventre passivamente gerador com o órgão ao mesmo tempo

agressivamente viril e senhoril do dono da casa.

Em 1882 escrevia o Barão Torres Homem, um dos médicos

mais notáveis do tempo do Império, que nas casas opulentas, nos

sobrados ilustres do Rio de janeiro, eram muito comuns, entre as

mocinhas, os "casos de tuberculose pulmonar, em cuja etiologia

figura uma alimentação insuficiente pela qualidade". E acrescen-

tava: "Em geral o médico tem de lutar nessas casas com o ca-

pricho das meninas de quinze a vinte anos que passam os dias

comendo gulodices, frutas, doces e pastéis, que olham com repug-

nâncía para um suculento bife, que ficam enjoadas,com a pre-

sença de um pedaço de carne mal assada, e que so gostam de

acepipes que pouco nutrem e muitas vezes fazem mal."17

Mas a falta não era delas. A falta era principalmente de um

regime que criava na mocinha solteira a vergonha de comer ali-

mentos fortes, sujeitando-a à moda de alimentar-se de caldo de

intainho, de doce, de confeito; e'assim mesmo deixando a moça

em educada por cerimônia ou etiqueta sempre um resto do doce

ou do caldo, para não parecer a ninguém que estava com fome.

O perigo que ela evitava não era o da gordura; era o da ro-

bustez de macho. Esse vigor só ficava bem às negras de senzala.

Quando muito às matrGnas menos mundanas, passada a idade

do amor e atingida a de dirigir a casa e criar os filhos. Ou às

viúvas que tivessem de fazer as vezes dos homens na adminis-

#

SOBP-ADOS E MUCAMBOS - L' To-mo



tração das fazendas e engenhos. Mas não às meninas casadouras,

às mocinhas elegantes, às senhoras de sociedade.

Correia de Azevedo, médico que no meado do século XIX

tanto se preocupou com os problemas de higiene e de educação,

não hesitando nunca em denunciar os vícios da organização social

do Brasil do seu tempo, considerava a mulher, dentro dessa orga-

nização, "uma escrava, à qual ainda não chegou, nem chegará tão

cedo, o benéfico 1 influxo da emancipação." É que nem criatura

humana ela era: uma boneca saída das oficinas as mais capri-

chosas de Paris, traria menos recortes, menos babados, menos

.guizos, menos fitas e cores do que essa infeliz criança, a quem

uerem fazer compreender, de tenra idade logo, ue a mulher

eve ser uma escrava dos vestidos e das exterioridals, para mais

facilmente tornar-se do homem a escrava."18

A deformação de corpo da mulher pelo vestuário, particular-

mente pelo espartilho--em grande parte, responsável por diferen-

ças de respiração que algu~s pesquisadores supuseram, ou ainda

supÓem, diferenças de sexo-já foi salientada por Ellis, no seu

Man and Wonuin, cuja primeira edição é de 1894. Lembra ele, a

propósito, os estudos de Sir Hugh Beevor, sobre a maior freqüên-

cia da tuberculose nas moças, fato que esse estudioso associou

ao, menor desenvolvimento do tórax na mulher, e, em Ultima aná-

lise, a diferença de constituição sexual. Ellis considera a con-

clusão precipitada: a maior freqüência da tísica entre as moças

lhe parece resultar em grande parte, de causas sociais e, por con-

seguinte, evitáveis. Vestuário compressor, menos exercício durante

a meninice do que o homem, maiores restriçÓes à atividade física

e à vida ao ar livre.

Essas influências sociais, mais a alimentação deficiente, se fi-

zeram sentir, com a maior intensidade, sobre a menina brasileira

de sobrado. Menina aos onze anos já iaiazinha era, desde idade

ainda mais verde, obrigada a "bom comportamento" tão rigoroso

que lhe tirava, ainda mais que ao menino, toda a liberdade de

brincar, de pular, de saltar, de subir nas mangueiras, de viver

no fundo do sítio, de correr no quintal e ao ar livre. Desde os

treze anos obrigavam-na a vestir-se como moça, abafada em sedas,

babados e rendas; ou a usar decote, para ir ao teatro ou a algum

baile. Dai tantas tísicas entre elas; tantas anêmicas; e também

tantas mães de meninos que nasciam mortos; tantas mães de

anjos; tantas mães que morriam de parto.

"A maneira de trajar das meninas do Brasil"-escrevia em 1855

José Bonifácio Caldeira de Andrade júnior-"como o da genera-

lidade das senhoras, é sobremodo defeituosa." E salientava a moda,

entre as senhoras de sociedade, de trazerem "descobertos e ex-

postos ao capricho das intempéries, o colo. as espáduas, os braços

I

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11

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GILBERTO FREYBE

e a parte superior", moda responsável, ao seu ver, por grande

número de "tubérculos nos pulmÓes", "pneumonias" e "diferentes

es ecies de anginas", contra as quais o Correio das Modas, "Jor-

nW crítico e litterario das Modas, Bailes, Theatros, etc.", publi-

cado na Corte, a 12 de julho de 1840, já recomendava às moças

elegantes, que usassem capetes, ao saírem dos bailes ou das reu-

niÓes, quando o corpo, "por sua agitação", estava "sujeito" a cons-

11

tipar" nas noites de inverno. "Eu não reprovo -acrescentava por



sua vez o Dr. Caldeira de Andrade, com medo de parecer censor

intransigente das moças que mostravam o colo e as espáduas no

teatro ou que se comprimiam em espartilhos para parecerem

finas de cintura e mais bonitas de corpo nos bailes e nos espe-

táculos do que no interior dos sobrados-"eu não reprovo o pre-

vidente cuidado da donzela núbil que por parecer bem nas socie-

dades que freqüenta apela para os recursos que lhe fornecem as

artes, quando compatíveis com a integridade de suas funçÓes; é

em grande parte no poder de seus encantos C ue está firmada a

base de sua felicidade futura e não é de estraZar-se que os pro-

cura domar. . ."19 Mas nunca corri o sacrifício da saúde.

Para o citado Correia de Azevedo, a menina brasileira, desde

criança de peito alimentada inconvenientemente "aos seios de uma

ama de raça africana ou indígena, no geral mulheres sujeitas a

moléstias crônicas da pele, hereditárias ou nao", crescia entre

inimigos que em vez de a protegerem1 pre . udicavam-na, sob a

forma de "Carinhos, de sorrisos, e de um Imasiado amor que

.enerva". Crescia "envolvida sempre em vestuários comprimentes,

prejudiciais ao desenvolvimento das vísceras, e por consequencia

atuando sobre o útero, órgão por excelência digno de atençao no

desenvolviment,) das primeiras idades da mulher".20 As condiçÓes

anti-higiênicas de vestuários se prolongavam quando a menina

era confiada aos recolhimentos ou colégios para se acentuarem

na moça já senhora, já iaiá fina, freqüentadora de teatros e de

bailes, ou, pelo menos, da missa ou das festas de igreja.

Nicolau Moreira, outro médico do tempo do Império que se

ocupou de problemas de higiene social, incluía, em 1868, os de-

feitos de alimentação e o vestuário impróprio entre as causas da

má saúde das moças e senhoras brasileiras. E atribuía, em nítidas

alavras, ---afraqueza orgànica das iiossas mulheres" aos "maus

ábitos sociais".-"

Heáve assim mais de um médico inteligente do meado do século

XIX e cios primeiros anos da segunda metade do mesnic, século,

que, conhecendia melhor que os padres confessores o interior

dos ~ol)nídus ilust~es, soube dar importàoncia às influências de

hábitos e de, educação sobre a vida da mulher

t

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Isr

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O CORPO DA MULHER EM RELAÇÃO COM AS MODAS DE EXAGERO

DOS CARATERISTICOS DE SEXO, TIPICAS DO SÊCULO XIX.

(Desenho do auWr.)

brasileira. Maior importância a tais influências, que aos "ares"

ou ao clima.

Aliás já os precedera nessa interpretação social da situação

patológica da mulher-comprimida moral e fisicamente elo re-

g e de família patriarcal, regime prolongado nos sobraNos com

Ca(s as desvantagens e sem algumas das vantagens da vida nas

casas-grandes de engenho ou de fazenda-a inteligência de mé-

dicos mais antigos. Alguns vindos do século XVIII. Outros, mé-

dicos de província, formados na Europa nos primeiros decênios

do século XIX. Um destes, o Dr. Joaquim de Aquino Fonseca.

Depois de vários anos de estudos e observaçÓes sobre a tísica

pulmonar em Pernambuco, concluiu o Dr. Joaquim atribuindo

o seu extraordinário desenvolvimento na cidade do Recife (desen-

volvimento mais acentuado entre as moças solteiras que entre

as senhoras casadas, e maior entre as mulheres do que entre os

homens)-o que as estatísticas de 1853 a 1897, levantadas com

i: i


#

120 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 121

pachorra beneditina por Otávio de Freitas, deixam clarainente

documentado, a mortalidade de solteiros do sexo masculino tendo

sido, nesse período, de 38,6 e do sexo feminino, de 44,3-a causas

francamente sociais. Entre outras, o arrocho do espartilho, " ara

que se possam corrigir as formas irregulares de certos indiviJuos,

ou fazer sobresahir as regulares". Arrocho que eturbava, "o jogo

respiratorio das costellas e dia hragma", influinNó' "sobre a hema-

toSd'.22 O mal não era, pois, SÓIs . ares . e sim da falta de adap-

tação do trajo da classe alta ao clima tropical.

Principalmente do trajo da moça de sobrado. Trajo que, desde

os princípios do século XIX, se reeuropeizara exageradamente:

. 1 .... 1 os pannos es essos de lã reduzindo os vestuaríos a verda-




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