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S012RAWS E NIUCAMBOS - L' Tomo



; 3

nista ou certa 'í'tica Comunista- Marxista seria capaz de ne,~;.,r)

e não apenas de circunstâncias de formação social, diversas p,~ra

os dois sexos. já se observou a maior capacidade conservadora

da mulher entre os bascos e entre ciganos, e alguns antropólogos

a têm observado em sociedades primitivas, onde é menor a dife-

rença entre o homem e a mulher.

0 fato social dessa divergência entre os sexos-um mais nuLi-

tante, outro mais estável-evidentemente se prende ao físico da

mulher-mãe: mais sedentário; também à variabilidade, ou ten-

dêncía para divergir do normal, tendência, ao ue parece a alguns

estudiosos do assunto como Ellis, maior no Umem do que na

mulher, do mesmo modo que parece a alguns antropólogos, maior

na raça branca do que na ne ra. A mulher se apresenta, nas suas

tendências conserva------ - Socemente conformistas e coletivis-

tas, o sexo que corresponderia à raça negra-a raça "lady-like",

como já disse o sociólogo norte-americano Park; o homem, pelo

seu individualismo, endor para divergir da normalidade, uer

no sentido do geniaf, quer no do subnormal, pela capacidaJe e

gosto de diferenciação, o sexo que corresponderia. à raça branca.

No Brasil, essas duas tendências individualistas, de raça e de

sexo, teriam se unido no homem patriarcal, criador ou orga~a

zador dos valores mais caraterísticos de nossa diferenciação social

ou nacional. Esse criador foi principalmente o colonizador branco

ou apenas manchado de sangue ameríndio ou africano.

As tendências coletivistas, de raça e de sexo, teriam se reunido,

por outro lado, com mais força, na mulher-mãe, amante, esposa

ou ama. Esta, geralmente negra mina e, depois da mulher-mãe,

o elemento mais responsável, ao lado do padre--cuja função so-

ciológica em nossa vida t iarcal teria sido antes de mulher

conservadora ou estabiliza a que de homem inovador ou dife-

renciador, embo-ra devam-se abrir exceções para os padres revp-

luCionários de Minas Gerais e de Pernambuco-pelas nossas con-

dições de estabilidade social. Esse papel social de estabilizadora

ou fixadora de valores, da mulher, na formação brasileira, como

que se acha simbolizado pela especialização acentuada do seu

corpo em corpo de mãe: o rosto, os pés, as mãos acabando sim-

ples retexto para a realidade tremenda do ventre gerador.

0 fato de que a largura do corpo parece se acentuar em dife-

renciação sexual, nas chafriadas raças adiantadas, nas denomi-

nadas atrasadas conservando-se quase o mesmo, é dos mais inte-

ressantes para a interpretação social de antagonismo de sexo. Na

Europa patriarcal, e até na burguesa, as modas procuraram exa-

erar aos últimos extremos essa especialização do corpo da mu-

er: ancas largas, maternais, fecundas, mesmo com as cinturas

extremamente ~Jinas. Mas não a inventaram. Ela existe e, em con-

e.

104 GILBWTo FRE= SOB~OS E MUCAMBOS - 1.` Tomo 105



diçÓes sedentárias, parece desenvolver-se. Topinard foi talvez o

primeiro a notar com olhos de antropólogog essa acentuação de

diferença entre o corpo do homem e o da mulher, à medida que

era maior . o progresso humano"; ou o que ele considerava o pro-

gresso humano.

Donde se poder sujeitar a essa generalização o fato de que a

mulher de sobrado foi, no Brasil, criatura mais frágil que a de

casa-grande. Acentuou-se nos sobrados a delicadeza feminina do

seu corpo como acentuou-se a e ica eza o corpo o i a go,

homem ou mulher, com o maior conforto urbano para a gente

rica ou nobre.

Em 1843 recordava o Padre Lopes Gama n0 Carapuceiro (Re-

cife) ue, nos tempos coloniais cada cadeira de jacarandá "era

carga %'um gallego", de tão pesada; e "uma cama de cazados

era uma bizarma com tantos ramos entalhados, com tantos ca-

lungas, passaros e anjos que era um pasmar. Uma cama destas

passava ilesa de geração em geração e atravessava impassivel.

todas as vicissitudes dos seculos." Cadeiras e camas não as neces-

sitava tão fortes o homem ou a matrona de sobrado, que vinham

como que se extremando em seres aristocraticamente delicados

no alto dos sobrados. A mulher talvez mais do que o homen~.

Não era de admirar que as formas dos móveis ou das coisas

estivessem se alterando com a urbanização, a reetiropeização, a

sofisticação da vida: "O corpo humano de hoje não parece ser

o dos seculos passados", reparou o mesmo padre.

Não só as formas se vinham alterando: também a consistência

e o vigor das pessoas e das coisas que correspondiam às pessoas,

como as cadeiras e as camas. Não havia outrora tantas . gastrites",

"interites", "pulmonites"; e as moças-reparava Lopes Carna-"raras

vezes erão vizitadas por medico e quando incommodadas tinhão

mãe, avó, tia ou comadre que lhes applicavão charopes de bata-

tinha, de lingua de vacca ou clisteis de pimenta, o chá de macella,

avenca com mel de pao e assim se ião curando e chegavam a

idade avançada." Não havia dentes postiços nem cosmeticos nem

ancas para mulheres; e quem era velho não dançava nem ia a

baile.


Com a generalização das modas europeias mais requintada-

mente burguesas e a urbanização dos estilos de vida, outrora

rusticamente patriarcais, as deficiências ou os excessos de formas

de corpo que não correspondessem às modas de Paris e de Lon-

dres foram sendo corrigidos por meio de ungüentos, cosméticos,

dentes e cabelos postiços, ancas, tinturas para barbas e cabelos,

espartilhos. Espartilhos de que, desde a primeira metade do século

XIX, aparecem numerosos anúncios nos jornais brasileiros.

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"Qual é a senhora que com effeito um pouco invejosa de manter



a sua cintura em elegantes proporçÓes não se deixará seduzir por

estes delicados colletes Cintura Regente e estas elegantes formas

da casa Escoffon, rua da Ajuda n. 7, que os tem aperfeiçoado até

alem do impossivel?" perguntava Mme Camille Escoffon em

anúncio no Jarnal do Commercio de 21 de janeiro de 1875. E

acrescentava que -conservar a cintura sem a comprimir em um

collete estreito, apertar a barriga sem opprimir a sua flexibilidade"

era a solução. A solução ideal para o problema de ostentar a

mulher brasileira cintura estreita-segundo a moda européia-sem

sofrer demasiadamente com essa exigência antimaternal e anti-

patriarcal.

Dos jornais da mesma época também se destacam ungüentos,

aguas" ou "leites" Sara brotoejas, assaduras, irritaçÓes da pele

de mulher. Muitas essas irritaçÓes de pele deviam resultar do

uso imoderado, pela gente mais sofisticada dos sobrados, de panos,

chapéus, meias, roupas de dentro, de fabrico europeu e para uso

de europeus, em condiçÓes de clima das quais só no extremo Sul

do Reino ou do Im ério as condiçÓes brasileiras se aproximavam.

Se as mulheres Se sobrados sofriam mais do que os homens

dessas írritaçÓes de pele é que sua vida era ainda menos higiênica

que a dos homens. Diferenças de gênero de vida que, em escala

ou plano mais alto, talvez sejam remonsáveis por diferenças mais

importantes entre os sexos, atribuZas, como diferenças entre as

raças, a irredutiVeis determinaçÓes biológicas.

Entre essas diferenças, as do indioe cefálico-índice em que se

têm baseado estudos de diferença entre os dois sexos, por um

lado, entre as várias raças, por outro. As pesquisas feitas até hoje

indicam maior tendência da mulher para a braquioefalia, embora

se encontrem grupos em uma situação, precisamente inversa: maior

tendência da mulher para a dolicocefalia. A mesma situação de

impureza que entre as raças.

As diferenças de crânio, entre o homem e a mulher, vêm sendo

interpretadas por alguns antropólogos como as mesmas diferen-

ças, entre o branco, o preto e o amarelo.10 É interessante obser-

var que as diferenças encontradas de capacidade de crânio são

maiores entre o homem e a mulher nas raças adiantadas que nas

atrasadas. O que levou Ellis a supor influência considerável, em-

bora de modo nenhum exclusiva, da civilização, através da maior

atividade mental e do físico mais desenvolvido do homem." Fa-

tores cuja significação social não deve ser esquecida, nem no con-

fronto das raças consideradas inferiores com as superiores, nem

do sexo "fraco" com o "forte".

Principalmente quando o ponto de comparação e o cérebro.

As diferenças que sugere seu peso, maior no branco do que no

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106 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS -- 1.0 Tomo 107



negro, maior no homem do que na mulher, prestam-se a interpre-

taçÓes perigosas: conclusÓes de superioridade de raça ou de sexo.

Essas interpretaçÓes, alguns a têm feito sem outra consideração

que a da pura diferença do peso; 'outros vêm procurando com-

parar o peso da massa do cérebro do homem com o peso da

massa do cérebro da mulher, não isoladamente, mas em relação

com a altura e com o peso do corpo inteiro. Mas em todos esses

estudos se encontram deficiências de técnica, ou incoerências,

que tornam os resultados suspeitos.

E a questão do peso do cérebro e da sua interpretaçao per-

manece um mistério. Flutua entre contadiçÓes radicais. Se é certo

que o cérebro de Turguenev e o de Cuvier eram enormes, por

outro lado, alguns dos cérebros maiores ou mais pesados até hoje

encontrados pertenceram a indivíduos vagos, indistintos, um deles

até imbecil.

Quanto aos centros nervosos, pesquisas recentes tendem à con-

,31usão de que quase não existe preponderância sexual sobre sua

organização, alguns estudiosos inclinando-se a aceitar a "supe-

rioridade nervosa" da mulher. Mas é outro mistério.

Que existem entre os sexos diferenças mentais de capacidade

criadora e de predisposição para certas formas de atividade,ou

de sensibilidade, parece tão fora de duvida quanto existirem

diferenças semelhantes entre as raças. Não é certo que a escola

de Boas pretenda ter demonstrado, como supÓem alguns dos seus

intérpretes mais apressados, ou dos seus críticos mais ligeiros, a

inexistência de diferenças entre as raças, cuja variedade'seria só

a pitoresca, de cor de pele e de forma do corpo. O que aquela

escola acentuou foi o erro de interpretação antropológica de se

identificarem as diferenças entre as raças, com idéias de supe-

rioridade e inferioridade; e principalmente, o de se desprezar o

critério histórico-cultural na análise das supostas superioridades

e inferioridades de raça.

O mesmo critério histórico-cultural pode ser aplicado, como

pretendem vários estudiosos da sociologia dos sexos-que convém

não confundir com a genética!-ao estudo da pretendida superio-

ridade do homem sobre a mulher. 12 Mas sem que, no afã de se

fugir de uma mística, se resvale noutra, escurecendo-se as dife-

renças entre os sexos, do mesmo modo que alguns pretendem

negar as diferenças entre as raças.

O Professor Alexander Goldenweiser já se ocupou de um dos

aspectos mais expressivos da diferença entre os sexos-o da cria-

tividade-para concluir com o bom senso admirável de sempre,

e com aquela sua clareza, antes francesa do que inglesa, ou ger-

inânica, de expressão, que a diferença existe, a mulher distin-

guindo-se nas criaçÓes mais concretas, mais ricas de elemento

humano e mais exigentes de perfeição técnica-a indústria, a re-

presentação teatral, a técnica musical de interpretação, a ciência

de laboratório, o romance, a poesia lírica-porém revelando-se

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sempre mais fraca que o homem na criatividade abstrata: a com-



posiçao musical, a filosofia, o drama, a ciência teórica ou ima-

inativa, a alta matemática. A excelência da mulher naquela zona

a criação concreta e a sua deficiência na de criatividade abs-

trata, seria, para Goldenweiser, expressão de caraterístico sexual

remoto, tornando difícil, se não impossível, na mulher normal, per-

feitamente feminina, intensa concentração de imaginação e de per-

sonalidade. Concentração essencial aos grandes esforços criadores

na esfera de atividade abstrata. A mulher tendendo a dissolver-se

no amor e não a cristalizar-se, ou a completar-se, como o homem-

em tudo trairia esse caraterístico sexual: a tendência para a dis-

solução.13

Essa tendência, salientada por Goldenweiser, presta-se a larga

inte retação sociológica. Podemos considerá-la, no seu significado

socU, mais valiosa, ou menos valiosa-diga-se mesmo, superior ou

inferior-conforme o tipo de sociedade e as circunstâncais histó-

ricas e de cultura em que se encontre a mulher. Menos valiosa

nas sociedades particularistas, com a predominância das artes

individuais e a exaltação do talento individual e da personalidade

do criador ou inventor; mais valiosa nas comunistas, com a dis-

solução do indivíduo, da sua iniciativa artística e do seu esforço

intelectual, nos valores da tribo ou nas normas sociais Go grupo.

Os antropólogos sociais reconhecem que nas sociedades primi-

tivas a mulher se revela elemento valiosíssimo na indústria ou

na arte industrial-dado o seu poder, a sua capacidade de disso-

lução, como indivíduo, na massa. Entre os indígenas do Brasil,

já procuramos indicar, em estudo anterior, que a mulher foi o

elemento mais criador-do ponto de vista cristão e europeu, pelo

menos-e aquele de quem a sociedade nova, estabelecida, em

grande parte, pelo contato dos portugueses com as mulheres da

terra, recebeu os valores de cultura mais úteis.

já nas sociedades particularistas, quando burguesas, embora

ainda patriarcais, a tendência da mulher para dissolver-se-no,

sentido que Goldenweiser dá à palavra-tem de limitar-se às ati-

vidades aornésticas. Quando muito estender-se às expressÓes gra-

ciosamente artísticas-o teatro, o plano, o canto, a dança. O ho-

mem, por outro lado, ganha, nas sociedades particularistas, novas

oportunidades para cristalizar-se. Para afirmar-se criador indi-

vidual, inventor, poeta, teórico, intelectual. Para concentrar-se em

esforços isolados, tão essenciais, segundo parece, às formas mais

subjetivas de ciiação.

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108


GILBERTO FREYRE

Estudando-se a história política e literaria do Brasil durante

a fase patriarcal, um traço que nos impressiona nos indivíduos

da classe dominante-na maioria deles-é a preponderância de sub-

jetivismo-embora um subjetivismo, em geral, ralo e medíocre.

Encontramo-lo na literatura como na política. Especialmente du-

rante o Império. Ao lado desse subjetivismo ralo, uma grande

falta de interesse pelos problemas concretos, imediatos, locais.

Uma ausência quase completa de objetividade. O que em parte

se pode atribuir a pouca ou nenhuma intervenção de mulher na-

quelas zonas de atividade artística e política. Isto se admitirmos,

é claro-mesmo com restriçÓes-a tese de Ellis e de outros sexo-

logistas, de que na mulher se encontra, em geral, maior "realismo

prático" do que no homem, em consequência de predisposiçÓes

criadas pelo que o psicólogo inglês chama "afetabilidader: uma

. afetabilidade possivelmente causada pela menstruação e que se

exprimiria psicologicamente no tato e na capacidade da mulher

para ada


,Xtar-se

ínesper as. 14

mais facilmente do que o homem a circunstâncias

Na região americana de colonização inglesa e formação Puritana,

o interesse pelos problemas concretos e a objetividade em encará-

-los foram bem maiores que no Brasil, sentindo-se, nessa atitude,

tão diversa da brasileira, a colaboração, embora fraca e indireta,

da mulher. Ali ela chegou a ser Martha Washington. Essa cola-

boração faltou quase por completo aos nossos homens politicos

e intelectuais da era patriarcal. No Brasil quase ninguém sabe o

nome da mulher de José Bonifácio ou da esposa de Pedro de

Araújo Lima. Da mulher-esposa, ando vivo ou ativo o marido,

não se queria ouvir a voz na sala,` entre conversas de homem,

a não ser pedindo vestido novo, cantando modinha, rezando pelos

homens; quase nunca aconselhando ou sugerindo o ue quer

que fosse de menos doméstico, de menosracioso, 2è menos

gentil; quase nunca metendo-se en-Je homem. Raras as

Donas Veridianas da Silva Prado, cuja intervenção em atividades

políticas superasse a dos maridos ainda vivos: as que existiram

-quase todas já no fim do tempo do Império--foram umas como

excomungadas da ortodoxia patriarcal, destino a que não parece

ter escapado a própria Nísia Floresta com todo seu talento e

todas suas amizades ilustres na Europa.

De modo que os assuntos gerais eram tratados não só de ponto

de vista inteiramente masculino como por processos mentais ou

psíquicos quase exclusivamente masculinos, isto é, com a predo-

minância do elemento subjetivo sobre o objetivo. Sirva de exem-

plo o "romantismo jurídico" que tanto se exagerou entre nós; e

#

que foi típico da maneira exclusivamente masculina de se enca-



rarem problemas sociais e de administração, desprezado o lado

11

SOBRADOS E MUGAMBOS - 1.' Tomo



109

concreto das coisas pelo teórico, desprezados os casos imediatos

pelas generalidades vagas. Deve-se notar de passagem que na

casuística dos padres da S. J.-aparentemente masculina-surpreen-

dem-se processos mentais e psíquicos femininos que concorreram

para o vigor e para a eficiência de sua ação no Brasil.

Da falta de feminilidade de processos-na política, na lite-

ratura, no ensino, na assistência social, noutras zonas de ativi-

dade-ressentiu-se a vida brasileira, através do esplendor e prin-

cipalmente do declínio do sistema patriarcal. Só muito aos poucos

é que foi saindo da pura intimidade doméstica um tipo de mulher

mais instruída-um pouco de literatura, de piano, de canto, de

francês, uns salpicos de ciência-para substituir a mãe ignorante

e quase sem outra repercussão sobre os filhos que a sentimental,

da época de patriarcalismo ortodoxo.

Nas letras, já nos fins do sécluo XIX, apareceu uma Narcisa

Amália. Depois, uma Cármen Dolores. Ainda mais tarde, uma

júlia Lopes de Almeida. Antes delas, quase que só houve bacha-

relas medíocres, solteironas pedantes ou simplórias, uma ou outra

mulher afrancesada, algumas das uais colaboradoras do Alma-

naque de Lembranças Luso-Bra Ero. E assim mesmo foram

raras. Nísia Floresta surgiti-repita-se--como uma exceção escan-

dalosa. Verdadeira machona entre as sinhazinhas dengosas do

meado do século XIX. No meio dos homens a dominarem sozinhos

todas as atividades extradornésticas, as próprias baronesas e vis-

condessas mal sabendo escrever, as senhoras mais finas soletrando

apenas livros devotos e novelas que eram quase histórias do Tran-

coso, causa pasmo ver uma figura como a de Nísia. Ou mesmo

uma mulher como a Marquesa de Santos ou Dona Francisca do

Rio Formoso ou Dona Joaquina do Pompeu.

Contra as senhoras afrancesadas da primeira metade do século

XIX que liam romancezinhos inocentes, o Padre Lopes Gama

-muito citado neste ensaio por ter sido excelente crítico, por meio

da caricatura literária, dos costumes dos grandes dos sobrados15-

bradava, como se elas fossem pecadoras terriveis. Para o padre-

-mestre a boa mãe de família não devia preocupar-se senão com

a administração de sua casa, levantando-se cedo a fim de dar

andamento aos serviços, ver se partir a lenha, se fazer o fogo na

cozinha, se matar a galinha mais gorda para a canja; a fim de

dar ordem ao jantar, que era às quatro horas, e dirigir as costuras

das mucamas e mulecas, que também remendavam, cerziam, re-

montavam, alinhavam a roupa da casa, fabricavam sabão, vela,

vinho, licor, doce, geléia. Mas tudo devia ser fiscalizado pela iaiá

#

branca, que às vezes não tirava o chicote da mão.



Essa dona de casa ortodoxamente patriarcal, o Padre Lopes

Cama não se conformava que, nos princípios do século XIX

#

110 Gn.B"-ro FRE= SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo



estivesse sendo substituída nos sobrados e até em algumas casas-

-grandes de engenho, por um tipo de mulher menos servil e mais

mundano; acordando tarde por ter ido ao teatro ou a algum baile;

lendo romance; olhando a rua da janela ou da varanda; levando

duas horas no toucador "a preparar a charola da cabeça"; outras

tantas horas no piano, estudando a lição de música; e ainda

outras, na lição de francês ou na de dança. Muito menos devoção

religiosa de que antigamente. Menos confessionário. Menos con-

versa com as imicamas. Menos história da carochinha contada

pela negra velha. E mais romance. O médico de família mais

poderoso que o confessor. O teatro seduzindo a mulher elernte

c

mais que a igreja. O próprio "baile mascarado" atraindo sen oras



de sobrado.

Uma das novidades do meado do século XIX no Brasil foi

o baile mascarado pelo tempo do Carnavar em teatro público

e não apenas em casa particular ou em casa semiparticular, semi-

publica, como em Pernambuco a "casa grande do sitio do Sr.

Brito no Cajueiro", onde houve em 1846 um "carnaval campestre"

noticiado pelo Diário de Pernambuco de 19 de fevereiro. "Car-

naval campestre" só para sócios, convidados e suas famílias. Em

ambiente, portanto, ainda patriarcal e meio rústico de casa-grande.

O primeiro baile francamente público, para gente íÇe prol,

arece que foi o do Teatro de São Pedro de Alcântara, no Rio

e janeiro, no ano de 1844. Em 1845, os demais teatros da Corte

fizeram os seus bailes mascarados, distinguindo-se os que se

realizaram nos dois teatros de João Caetano, no da Praia Grande

e no de São Francisco de Paula. Estava lançada a moda e des-

viado o carnaval fino de cidade no Brasil da tradição de "entru-

do", ao que parece oriental ou indiana, para a de baile de más-

caras à maneira francesa ou italiana.

Em 1848 era o Recife que se dispunha a realizar grandioso

baile de máscaras-pois em 1847 no sobradão do Teatro A olo )à

se esboçara um "baile inascarado"-estimulado pelo Diário Sé Per-

nanibuco de 18 de fevereiro com palavras que refletem o espírito

de uma nova época: "Pernambuco cuja capital rivalisa em luxo

e polidez com a corte deste Imperio não deve ser victima dos

prejuízos do seculo XVIII em que as nossas janellas eram cer-

cadas de miudas gelozias, as portas de uruperna, etc., etc."

Com efeito, resolveram os pernambucarios interessados em não




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