Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página25/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   21   22   23   24   25   26   27   28   ...   110

comum dos homens. Energia para admioistrar fazendas, como as

Donas Joaquinas do Pompeu; energia para dirigir a política par-

tidária da família, em toda uma região como as Donas Franciscas

do Rio Formoso; energia guerreira, co~no a das matronas pernam-

bucanas que se distinguiram durante a guerra contra os holan-

deses, não só nas duas marchas, para as Alagoas e para a Bahia,

pelo meio das matas e atravessando rios fundos, como em Teju-

cupapo, onde é tradição que elas lutaríam bravamente contra os

hereges.

Langsdorff, nos princípios do século XIX, visitou uma fazenda

no Mato Grosso, onde o homem da casa era uma mulher. Vasta

inatrona de cinco pés e oito polegadas, o corpo proporcionado à

altura, um colar de ouro no pescoço, Molh(- já de seus cinqüenta

anos, andava entretanto por toda parte, a pé ou a cavalo, dando

ordens aos homens com a sua voz dorrunadora, dirigindo o enge-

nho, as plantações, o gado, os escravos., Era uma machona. junto

dela o irmão padre é que era quase uçna moça.

As senhoras de engenho, desse feitio amazônico, embora mais

femininas de corpo, não foram raras. Várias famílias guardam a

tradição de avós quase rainhas que adwinistraram fazendas quase

do tamanho de reinos. Viúvas que conservaram e às vezes desen-

volveram grandes riquezas. Quase rnatriarcas., que tiveram seus

capangas, mandaram dar suas surras, foram conservadoras" ou

"liberais" no tempo do Império.

Tais -mulheres que, na administração de fazendas enormes, de-

ram mostras de extraordinária capacidade de ação-andando a

cavalo por toda parte lidando com os vaqueiros, com os mestres-

-de-açucar, com os jambiteiros, dando ordens aos negros, tudo

com uma firmeza de voz, uma autoridade de gesto, uma segu-

rança, um desassombro, uma resistência igual à dos homens-mos-

traram até que ponto era do regirne social de compressão da

mulher, e não já do sexo, o franzino, 0 mole, o frágil do corpo,

a dornesticidade, a delicadeza exagerada. Mostraram-se capazes

de exercer o mando patriarcal quase com o.mesmo vigor dos

homens. Às vezes com maior energia do que os maridos já mortos

ou ainda vivos porém dominados, excepcionalmente, por elas.

Donde os casos de filhos que tomaram das mães não só mais

ilustres pelo sangue e mais poderosas pelo piestígio da fortuna

como mais energicas pela ação, os nomes de, família.2

#

96 GLLBF.RTo FREYRE



0 conjunto de qualidades exclusivamente doces e graciosas

que se supunha resultar, de modo absoluto, do sexo, era como

o conjunto de qualidades passivas e dos traços inferiores do

negro, que se atribuíam de igual modo-sob o patriarcalismo

escravocrático e ainda hoje-à base física ou biológica da raça.

Quando a verdade é que a especialização de tipo físico e moral

da mulher, em criatura franziria, neurótica, sensual, religiosa,

romântica, ou então, gorda, prática e caseira, nas sociedadás pa-

triarcais e escravocráticas, resulta, em grande parte, dos fatores

econômicos, ou antes, sociais e culturais, que a comprimem, amo-

lecem, alargam-lhe as ancas, estreitam-lhe a cintura, acentuam-lhe

o arredondado das formas, para melhor ajustamento de sua figura

aos interesses do sexo dominante e da sociedade organizada sobre

o domínio exclusivo de uma classe, de uma raça e de um sexo.

Não é certo que o sexo determine de maneira absoluta a di-

visão do trabalho, impondo ao homem a atividade extradomés-

tica, e à mulher, a doméstica. Procuramos indicar em trabalho

anterior que, nas sociedades amerindias do tipo da que foi encon-

trada no Brasil pelos portugueses, a função da mulher estava

longe de reduzir-se à doméstica, cabendo-lhe, ao contrário, ati-

vidades sociais geralmente consideradas masculinas; e notando-se

tendências-como, talvez, a própria couvade-para a domestici-

dade do homem-que era entre certas tribos quem lavava as

redes sujas-e até para a sua efeminação.

Nas sociedades primitivas daquele tipo nota-se, em antago-

nismo com as de feitio patriarcal, urna semelhança física entre

o homem e a mulher, uma tendência dos dois sexos Sara se inte-

grarem numa figura comum, única, que ná- , espercebida

a alguns dos primeiros cronistas e estudiosos das populações

ameríndias cujas observações seriam confirmadas por pesquisa-

dores do sCculo XIX e dos nossos dias. Avé-Lallement disse dos

nossos Botocudos que entre eles não se encontravam homens e

mulheres, porém homens-mulheres e mulheres-homens. 0 Professor

Colini colheu a esse respeito interessantes informações que cons-

tam do seu estudo sobre os Caduveo. E interessantes são também

algumas das observações de von den Steinen sobre os Bororo.3

Os Vaêrting afirmam, no sugestivo ensaio que é Die weibliche

Eigenart im Alãnnerstaat und die ~riliche Eigeriort im Frauens-

tatit (Karlsruhe, 1923), que não só entre os Karrichadales, como

entre os Lapões, encontram-se reminiscências de um período em

que o trabalho doméstico seria o dos homens e o extradoméstico,

o das mulheres. As mulheres duras e angulosas; os homens or-

dos, volutuosos e arredondados. Período que teria corr_ , Jid o

z

a uma organização um tanto amazônica, de domínio político da



mulher sobre o homem. Quase um sistema matriarcal-e não rigo-

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 TOMO ~) -1

#

rosamente um matriarcado-de que teriam chegado impregnados



ao Brasil alguns dos escravos africanos, nem sempre facilmente

adaptáveis à rotina de divisão sexual de trabalho dentro do sis-

tema escravocrático dos dias patriarcais.

Discutíveis os traços ou sugestões de organizaÇão política ama-

zônica entre algumas das sociedades primitivas antes matroní-

micas que matriarcais, o que não exige as mesmas reservas ou

rovoca as mesmas desconfianças é o fato, salientado por mais

e um antropólogo, de as mulheres se apresentarem fisicamente

mais fortes que os homens em certas sociedades africanas, onde

o trabalho mais duro é o da mulher, e o do homem, o mais doce.

Ou igualmente fortes, homem e mulher. É, observação feita por

Fritsch e Hellward com relação aos Bosquimanos, por exemplo:

o homem e a mulher, iguais em qualidades físicas .4

Entre os indígenas do Brasil-ou entre a maior parte deles-a

situação deve ter sido a mesma, ou semelhante: a mulher quase

igual ao homem em qualidades físicas. Porque sendo dela, em

várias comunidades, o trabalho ag ícola, seu físico não era o das

mulheres anêmicas e caseiras do regime patriarcal, embora tudo

indique que homens e mulheres, entre muitos da eles nossos

a

indWienas, tendessem quase todos para a figura gor a Mas urna



1

1

gor ura enxuta, diversa da oriental ou patriarcal.



0 domínio de um sexo pelo outro afasta-se dessa tendência,

tão das sociedades primitivas, para a figura comum ou única

da mulher-homem ou do homem-mulher, e acentua de tal modo

a diferença de físico entre os sexos que, dentro do sistema pa-

triarcal, torna-se uma vergonha o homem parecer-se com mulher,

e uma impropriedade, a mulher parecer-se com homem. 0 mesmo

se terá provavelmente verificado no regime matriarcal, se algum

dia existiu, completo e ortodoxo, como acreditam alguns.

Mas todo um conjunto de fatos nos autoriza a concluir pela

artificialidade ou pela morbidez do tipo da mulher franzina ou

langue, criado pelo sistema patriarcal de sociedade e em torno

do qual desabrochou, no Brasil como em outros países de for-

mação patriarcal, não só uma etiqueta de cavalheirismo exagerado,

de Minha Senhora, Ex.ma Senhora Dona, Excelentíssima, coino uma

literatura profundamente erótica de sonetos e quadras, de novelas

e romances, com a figura de Elvira ou Clarice, de Dolores ou.

Idalina, ora idealizada em extremo, ora exaltada pelas sueestões

de seu corpo especializado para n amor físico. De sens pezinhos

mimosos. De suas mãos delicadas. De soa cintura estreita. De

seus seios salientes e redondos. De tudo ~ue exprimisse ou acen-

tuasse sua diferença física do hernem~ ç~ni (---,peuializaçã~)em bo-

neca de carne para -ser ~imnleQaci~l pelo honicin Pela ii-ria.(:ii i ação

do poeta e pelas mãos do macho.

I

#



~)8 GfLBERTo FREYRE SOBRADOS E Muc.,.mBos - L' Tow) 99

0 culto pela mulher, que se reflete nessa etiqueta e nessa

literatura, e também numa arte igualmente erótica-uma música

açucarada, uma pintura romântica, cor-de-rosa, uma escultura

sem outra coragem que a do gracioso, a não ser a do nu (mas

não o puro, e sim o obsceno); esse culto pela mulher, bem

apurado, é, talvez, um culto narcisista do homem patriarcal, do

sexo dominante, que se serve do oprimido-dos pés, das mãos,

das tranças, do pescoço, das coxas, dos seios, das ancas da mu-

lher , como de alguma coisa de quente e doce que lhe amacie,

lhe excite e lhe aumente a volutuosidade e o gozo. 0 homem

patriarcal se roça pela mulher macia, frágil, fingindo adorá-la,

mas na verdade para sentir-se mais sexo forte, mais sexo nobre,

mais sexo dominador.

Essa especialização e esse culto têm-se feito acompanhar nas

sociedades patriarcais e sernipatriarcais, de diferenças nas modas

de penteado, de calçado e de vestido entre o sexo dominante e o

oprimido, que até em deformação do físico da mulher se extre-

maram às vezes. Basta recordar os pés das chinesas, deformados

ao último ponto.

OS és da brasileira de casa-grande e de sobrado foram tam-

bém Jeformados pela preocupação do pé pequeno, bem diferente

do de negro e do de negra, em geral grande, largo, abrutalhado.

A cintura da mulher que em época bem próxima da nossa-na

segunda metade do século XIX-até na Europa já burguesa con-

servou-se extremamente artificial, entre nós se deformou exagera-

damente pelo uso do espartilho. 0 cabelo grande-tranças, cocós,

cabelo solto, penteados elaboradíssimos, seguros ou completados

por.pentes, que naprimeira metade do século XIX, com os nomes

de 'tapa-missa" e trepa-muleque", atingiram no Brasil a formas

bizarras e a tamanhos incríveis-foi outro sinal de sexo que nas

mulheres brasileiras che ou a exageros ridículos. Ao mesmo tempo

que a moda dos bigoSes e das barbas grandes, dos homens.

Foram modas quase tão caraterísticas do patriarcalismo brasileiro

como haviam sido do chinês, do liebreu, do árabe. Os três patriar-

calismos, clássicos, de homens exageradamente barbados. No Rio

de janeiro, o primeiro galã de teatro que apareceu em cena sem

barba nem bigode-isto já no fim do Segundo ReInado-foí estron-

dosamente vaiado. Aquilo não era homem: era maricas." Maricas

de face cor-de-rosa, bem barbeada, lisa, como a de uma moça

ou mulher bonita.

A mulher patriarcal no Brasil-príncipalmente a do sobrado-

embora andasse dentro de casa de cabeção e chinelo sem meia,

esmerava-se nos vestidos de aparecer ans homens ria igreja e nas

.r

iestas, des4acando-se entan, tanto do outin, enfim das mu-



i ~icres de outra classe e de outra raç~, m e:--agero

de enfeite, de ornamentação, de babado, de remLà, de pluma, de

fita, de ouro fino, de jóias, de anel nos dedos, de bichas nas

#

orelhas. já Cabriel Soares notava no Brasil do século XVI que



as mulheres dos ricos abusavam das sedas e das fazendas finas;

· autor dos Diálogos, crônica do século XVII, que elas pintavam

· rosto; e o Padre Cardim observara nas senhoras de Pernam-

buco o exagero de sedas, de veludos, de jóias. Sabe-se o desen-

volvimento que tomaram no Brasil a arte da renda e do bico,

ara enfeite dos vestidos, e a das plumas, para ornamentação

os. chapéus de senhoras; a das tetéias de ouro, das pulseiras,

dos trancelins, dos anéis, dos brincos, das bichas. Foram artífices

-os dessas especialidades-5ue não faltaram ao nosso pais, na

fase de esplendor ou já de eclínio do sistema patriarcal, alguns

se fazendo admirar pelos estrangeiros mais discriminadores dos

nossos confusos valores estéticos: Ferdinand Denis, ue na sua

Arte Plumária tratou da arte das plumas no Brasil; I%a Pffeifer,

Max Radiguet, Fletcher.6

Essas artes, antes de se industrializarem nos meados do século

XIX, foram, com exceção da de ourives, artes caseiras, em que

se ocupavam as chamadas "mãos de anéis". As mãos das iaiás

dengosas, nos seus longos vagares de mulheres isoladas e tristes.

Os Vaêrting são de opinião ue o lazer estimula o erotismo

na mulher. E que, na ausênc_ 2è homem, o erotismo, assim esti-

mulado, se descongestiona ou difunde na auto-omamentação exa-

gerada .7

Depois de referir-se ao luxo ostentado nas ruas pelos brasileiros

coloniais quando homens de prol ("Such is theír love of shew and

finery, that the sumptuary laws for the regulation of dress are

wholly evaded [ .... ] At home most of them wear either a thin

night-gown or a jacket, whilc others, remain in their shirt and

di:áwers"), Andrew Grant escreve das mulheres da mesma classe:

"The hair, which is suffered to grow to a great length, is fastened

in a knot on the crown of the head, and loaded with powder of

tapíoca." E continuando, escreve das mulheres brasileiras à pá-

gma 234 de sua History of Brazí1 que, além da cabeleira, anun-

ciavam-lhes a condição superior a qualidade e o número das cor-

rentes de ouro que ostentavam: '7n-ir cNO ornament consists of

a gold chain, passed two c- ârcc -,i'm,~,ç n~und ~he neck, and han-

ging down the bosom. [ r2é-,' SlÁpe~,1.0~r Ulork-maikçhip of these

] T'

chains and the number and ualve of orncirrierits attached to



1~

them, indicate the rank of the wectri~,. i à escreN era, aliás, à pá-

giná 131 do mesmo livro, que as mui; , '-Pre2 - do Eio de jarieiro do

século XVIII geralmente usavam o cabelo. "íuin,~ing down ín tres-

ses, tíed with -z'bbaiid2 and Li*;t 4!owers.-

#

100 GIL13ERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo



Wetherell notou na Bahia da primeira metade do século XIX-e

registra o fato à página 126 de suas Stray Notes-que as mulheres

de cor da época geralmente traziam os cabelos cortados e cobertos

com turbantes: moda que lhe pareceu expressão de asseio num

país em que dominava o piolho nas cabeleiras até de senhoras

aristocráticas, que por ostentação de classe alta e também de belo

sexo, conservavam-nas tão compridas quanto lhes era possível. As

negras crioulas e as mestiças é que, de ordinário, deixavam crescer

o cabelo, como para demonstrarem que estavam acima da condição

de usarem turbante.

Os negros crioulos, ao contrário dos africanos, geralmente de

cabelo cortado rente, esmeravam-se em "partir o cabelo". Em

partir o cabelo crescido e em andar calçados ou, pelo menos, em

ostentar à mão os sapatos às vezes tão caros quanto os usados

por brancos. Se não os usavam sempre é que lhes doíam nos Pes.

De Gabriac no seu Promenade à travers l'Amérique du Sud,

publicado em Paris em 1868, recorda ter encontrado em Belém

do Pará, numerosos africanos, muitos deles escravos dos sobrados

e das "belas chácaras" dos arredores da cidade. Alguns, porém,

eram negros livres. 0 que se reconhecia-diz o observador euro-

eu à página 288 do seu livro-pelos sapatos "qu'ils ont seuls le

Vit de porter et qu'ils ne manquent pas de nwntrer avec fierté".

Veremos, em capítulo próximo, que a ostentação de cabeleira

e de pé bem tratado e bem calçado foi, no Brasil patriarcal,

ostentação mais de raça branca ou de classe alta-ou pelo menos

de classe livre-do que de belo sexo. Mas não desprezemos o

fato de que foi também ostentação de sexo belo, ornamental,

como que nascido principalmente para agradar o outro: o forte.

Física e economicamente forte.

0 certo é que o trajo da senhora de sobrado ou de casa-grande

chegou aos maiores exageros de ornamentação para se distinguir

do trajo da mulher de imicambo, ou de casa térrea, e, principal-

mente do trajo do homem, por sua vez um superornamentado,

quando, senhor e dono de outros homens, aparecia nas ruas ou

nas festas. Contentando-se dentro de casa em andar de chambre,

nas ruas ostentava condecorações e insígnias de mando. E tam-

bém de "sexo forte" como esporas, espadas, bengalas revestidas

de ouro. Entre os anúncios das primeiras gazetas ue se publi-

caram no Brasil não são poucos os de deco - ~ - - - S sexo forte

ou sexo nobre: dragonas, fardas, plumas, "becas ricamente bor-

dadas- na China para mat~istrados, "chapeos armados para Ca-

valleiros da Ordem de C~-iristo", "ricas bengallas de canna da

India com castáo, ponteira e fiador de ouro" para fidalgos, "espa-

dins de cor-te", - -,1-,a titularüs.

A superornamentação do homem de sobrado no Brasil consistiu

principalmente no abuso de tetéias, presas à corrente de ouro do

rel io, de anéis por quase todos os dedos, de ouro no castão

datrigala ou no cabo do chapéu-de-sol e às vezes do punhal, de

#

penteados e cortes elegantes de barba, de perfume no cabelo,



na barba, no lenço. Ao mesmo tempo proibia-se aos negros e aos

escravos dos dois sexos o uso de jóias e de tetéias de ouro que

era para ficar bem marcada no trajo a diferença de raça e de

classe.' As mucamas bem vestidas e cheias de jóias, estas repre-

sentavam um prolongamento das suas iaiás brancas quando se

exibiam em festas de igreja ou de rua.

Quanto aos cabelos, repita-se que os negros forros, os caboclos

e os mulatos livres se esmeravam quase tanto quanto os brancos

em trazê-los bem penteados e luzindo de óleo de coco, os homens

caprichando uase tanto no penteado quanto as mulheres; os

adolescentes Je colégio quase tanto quanto os desembargadores.

Ate negros fugidos surgem excepcional e escandalosamente dos

anúnci(~s de i~mais com "cabelo cortado à francesa" e "barbas

à nazarena". Deviam ser escravos privilegiados.

Isto no século XIX, passada a moda Jas cabeleiras empoadas

e dos sinais pintados no rosto: no rosto dos homens graves, e

não apenas no das mulheres finas e dengosas. Moda que marcara

maior diferenciação de penteado, menos do homem para a mulher

fidalga, que do homem para o menino e do nobre para o plebeu.

Diferenciando-se da mulher por certas ostentações de virilidade

agressiva no trajo, nas maneiras, no vozeirão ao mesmo tempo

de macho e de senhor, mas diferenciando-se do escravo pelo

excesso quase feminino de ornamentação que caraterizasse sua

condição de dono, isto é, de indivíduo de ócio ou' de lazer, o

homem patriarcal, no Brasil, com a sua barba de mouro e suas

mãos finas cheias de anéis, foi uma mistura de agressividade

machona e de molície efeminada. No século XIX-século mais

de sobrados aburguesados que de casas-grandes ainda fortalezas

rústicas-o aristocrata brasileiro, sem hereges para combater nem

quilombolas para destruir, foi menos sexo forte, que sexo nobre.

Ou sexo simplesmente privilegiado.

Exagerando-se um pouco o ue alguns sociólogos modernos

chamam "a relação de poder" ~"the pawer relation") entre os

sexos, pode-se dizer, renovando a retórica do orador gaúcho, que

· homem, no Brasil rural patriarcal, foi a mulher a cavalo. Quase

· mesmo ser franzino que a mulher, debilít,ado quase tanto quanto

ela ela inércia e pela vida lângUida, porem em situação privile-

giaTa de dominar e de mandar do alto. E não deixa de ser curioso

ue à mulher, no período ortodoxo do sisteina patriarcal-que

oi também o do cavalheirisino rio seii s,-ntido mais puro, quase

ii

n

#



102

ULLBFRTo FREYRE

literal-tenha se negado ou, pelo menos, dificultado, o uso do

cavalo, que ficou, no Biasil mais ortodoxamente patriarcal, o ani-

mal do sexo dominante e, rigorosamente, cavalheiresco, A mu-

lher, quando saía de casa, era quase sempre de serpentina, de

palanquim, de liteira, de carro de boi. Raramente a cavalo. Já

na decadência do patriarcalismo rural é que foram aparecendo

as amazonas de engenho: as senhoras que montavam a cavalo

sentadas de lado, quase nunca escanchadas como homem.

De modo geral, o homem foi, dentro do patriarcalismo brasi-

leiro, o elemento móvel, militarite e renovador; a mulher, o con-

servador, o estável, o de ordem. 0 homem, o elemento de ima-

ginação mais criadora e de contatos mais diversos e, portanto,

mais inventor, mais diferenciador, mais perturbador da rotina,

A mulher, o elemento mais realista e mais integr-Iizador.

A própria perturbação das modas femininas, dominantes em

nossa sociedade patriarcal, pelas modas inglesas e principalmente

pelas francesas foi, em parte, subproduto da influência de rapazes

brasileiros que iam estudar leis, Medicina, Filosofia, Comércio,

nos centros curopeus. Vinham cheios de novidades, algumas das

quais comunicaram às mulheres.

Em 0 Carapuceiro (Recife, 1843), dizia o Padre Lopes Cama

ue nos "pacíficos tempos coloniaes" raros eram os brasileiros

e Pernambuco que atravessavam o Atlântico: em geral man-

cebos enviados a escolas curopelas, principalmente Coimbra. E

acrescentava: "Por intermedio desses viajeiros e desses doutoraços

é que as doutrinas impías dos philosopliantes da França pouco

e pouco se forão importando no Brasil," As doutrinas e as modas.

Pois o afrancesamento incluíra as modas de mulher: "As nossas

sinhasinhas e yayas ja não querem ser tratadas senão por de-

moiselles, mademoíselle e rwidames. Nos trajes, nos usos, nas

modas, nas maneiras, só se approva o que é francez; de sorte

que já não temos uma usança, uma prática, uma coisa por onde

se possa, dizer: isto é proprio do Brazil." Os antigos, "quando

meninos, accomodando-se à índole da nossa língua, dizião nwmãi

porque em portuguez sempre se chamou mãi; hoje nem aquelle

vocabulo se perm~tte entre os alindados Caliciparlas: deve-se dizer

-a minha maman-porque em francez assim pronunciao os pe-

quenos."


Era a influência irancesa a atingir um dos pontos mais intimos

do sistema patríareal e, ao mesmo tempo, maternalista, do Brasil.

Essa perturbação, porém, através do homem diferenciador.

0 fato tern sid(~ obseivado em sociedades modernas menos

socíologicameute feudais do que a n,,ssa, durante a sua época

patriarcal, dependendo, ~té rerto pnuto, de enndições ou impo-

sições biológi - . --- - 1 .

g cas k_, -i ~ impusições que só o fanatismo ferni-




1   ...   21   22   23   24   25   26   27   28   ...   110


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal