Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página24/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   20   21   22   23   24   25   26   27   ...   110

tidos de Padres, já com Oratorios & U', mas "tinhão muito res-

peito, muito medo, de seos paes, ou tutol-es".22

Pobres "meninos travessos" do tempo dos filhos chamarem ao

pai de "Senhor Pai", era deles que o Padre Cama sentia a falta,

escandalizado com os meninos e os rapazes da nova geração:

desavergonhados que conhecíam melhor as quadrilhas que o pa-

dre-nos~o; viciados no charuto Havana e na cachucha; leitores

de "pestilenciaes Novellas" e de "Poesias eroticas", em vez dos

"Evangelhos", das "Epistolas de São Paulo," e "para recreio, os

Contos Moraes de Marmontel, o virtuoso Telemaco, a Moral em

Acção, a Escola de Bons Costumes, a Mestra Bona", re eram

os livros indicados pelo padre para a leitura da mociJade. Ra-

pazes falando alto e dando opinião sobre todas as coisas na pre-

sença dos mais velhos, em vez de se comportarem com o respeito

de outrora, pelos Pais, pelos Avós, pelos Tios. Nas festas de família,

sem que ninguém lhes perguntasse, já os mais salientes davam

o seu voto magistral a respeito da bondade, ou imperfeição do

chá", "applaudindo este pão de 16, reprovando a uelle sequilho 11 ;

durante a Missa, namoravam o tempo inteiro, %ando as costas

ao Santissimo Sacramento para olharem as meninas de frente,

rindo-se para esta, contemplando aquella, galanteando aquel-

Foutra torcendo o bigóde ... penteando com os dedos o furi

bundo passa p;olho"; e quase já não tomavam a bênção aos

pais123


Que tempos sedam esses, santo Deu-,? Esses rc,.pazes tão sem

medo, tão sem respeito pelos ri--ais velbeis e até pelos santos, pelo

próprio Santíssímo Sacramento? Que fim de inwrido seria esse?

Era o declínio do patriarcalismo. 0 de---mi-f-stígio dos avós ter-

1 -

ríveis, suavizados agora em vovós, 0 despre~tigio dos "senhores



pais" que começavarn a ser sn-,~l-srrerit 4, até "-,)ar)ais".

Era o mená,ic, u,~ric;eldo, a se o

#

88

GILBERTo FREYRE



aluno começando a se libertar da tirania do mestre. 0 filho re-

voltando-se contra o pai. 0 neto contra o avô. Os moços assu-

mindo lugares que se julgavam só dos velhos. Era o começo

daquilo a que Joaquim Nabuco chamou de neocracía: "a abdica-

ção dos pais nos filhos, da idade madura na adolescência.. ."

Fenômeno que lhe pareceu "exclusivamente noSSO"24 quando pa-

rece caraterizar, com seus excessos, toda transição do patriarca-

lismo para o individualismo.

Em 1844 um estudante do Curso jurídico de Olinda já se afoi-

tava a escrever ao pai, senhor de engenho: "Olinda, 15 de Jun.o

de 1844. Meu Pae e Serir. Abenção. Recebi duas cartas de Vincê,

uma escripta em Maio, q. me foi entregue pelo Sens. 9., e outra

escripta agora em Jun., q. me foi entregue plo. S.; nesta encom-

mendou-me Vincê, que comprasse 10 arrs. de carne, a ql. remetto

plo. mino. portor. e supponho q. não será into. ma." Mas o

assunto principal não era esse da carne-o Engenho se abaste-

cendo de carne na Praça. Era assunto mais grave: o Filho agindo

sem conhecimento do Pai: "pratiquei uma acção q. era absoluta-

mente opposta ao preceito sagrado de Vince., sim commetti,este

horrendo crime e p. q. conimetti? Seria pr. ventura pr. q. me

vendesse p.0 dinheiro?" E explicava que, sem licença do pai, acei-

tara a proposta de um padre rico, o Rev . ................

..............Albuquerque, para casar com a filha dele, padre

rico .25


São varias as cartas da época em que se refletem atitudes de

independência, quando não de revolta, da parte de moços para

com velhos; de jovens bacharéis para com patriarcas de casas-

-grandes de engenho e de, fazenda. Começavam a ser rivais: o

Filho e o Pai, o moço e o velho, o bacharel e o capitão-mor. 0

adulto respeitável já não era apenas o patriarca velho: também

o seu filho, senhor-moço. 0 senhor-moço retórico, polido, urbano.

Educado na Europa ou na Bahia. Em Olinda ou em São Paulo.

Deve-se notar que, tendo havido no patriarcalismo brasileiro

uma tendência para o trajo se uniformizar no do adulto respei-

tável-donde os meninos de roupa de homem, cartola e bengala,

que Rendu achou parecidos com marionettes das feiras francesaS26

e as meninas vestidas desde cedo como senhoras-ainda assim,

nos seus extremos, as idades se apresentaram por longo tempo

diversíssimas na maneira de vestir. A senhora de idade avançada,

principalmente, não se compreendia sem capota preta. Nem ho-

mem de idade provecta e condição ilustre, sem sobrecasaca e

lenço de rapé. Lnquanto aos m(-ninos em idade de anjo se per-

mitia, mesmo nas meilioles Lanuílias, o prjkilé,11

gio de audarern

nus dentro de ca-i n,j no sitíc, J ) ~obraclo.

#

SOBRADOS E MucAmBos - 1.0 Tomo



NOTAS AO CAPITULO III

89

lJohn Luccock, Notes on Rio de janc,ro and the Southern Parts of



Brazil, Taken During a Residence of Ten Years in That Country from 1808

to 1818, Londres, MDCCCXX, pág. 192.

20bservação feita em Santa Catarina por Abel du Petit-Thouars, que

de 1836 a 1839 fez a volta do mundo na fragata La Venus e cujas im-

o

pressões do Brasil vêm resumidas por C. de Melo Leitão, Visitantes do Pri-



meiro Império, São Paulo, 1934, capítulo X. Vejam-se especialmente págs.

229-230. Wetherell, em Stray Notes from Bahia, escreve A pAgina 85: "The

death of an infant or little child is not looked upon as a misfortune, but

rather as a subject of congratulation. Amongst the Creole blacks, if the

child happens to be whiter than its mother - a circumstance not unusual,

and rather looked upon with pride than otherwise - the corpse is adorned

with peculiar care."

8Do culto dos meninos mortos, sob a forma de um angelismo caraterístico

da nossa organização patriarcal e, tal-ez, compensador das más condições

sanitárias então dominantes, já nos ocupamos, com minúcia, no nosso estudo

Casa-Grande & Senzala, de que este é a continuação.

4Parece que foi na administração de justiça, sob a forma de vingança

da família contra o indivíduo que lhe comprometia a estabilidade moral,

que o sadismo patriarcal manifestou-se de modo mais cru, entre nós. Sobre

o assunto veja-se o recente e sugestivo ensaio do Sr. L. A. da Costa Pinto,

Lutas de Famílias no Brasil - Introdução ao seu Estudo (São Paulo, 1949),

onde o autor se ocupa, no capítulo III, da justiça privada no Brasil patriarcal,

como confusão da autoridade com a propriedade. Sobre o assunto vejam-se

também Alcântara Machado, Vida e Morte do Bandeirante, São Paulo, 1930

e Nestor Duarte, A Ordem Privada e a Organização Política Nacional, São

Paulo, 1939.

5São várias as cartas dos jesuítas, escritas no século XVI, que revelam

o esforço dos padres no sentido de oporem ao poder patriarcal absoluto dos

pais a superioridade moral e intelectual dos meninos, educados por eles,

padres, nos seus colégios, que foram, naquele século e mesmo no seguinte,

sistema rival ao formado pelos patriarcas.

6A descrição do colégio levantado pelos jesuítas na capital da Bahia,

feita por Cabriel Soares, mostra que a arquitetura dos colégios de padres

- padres, ao nosso ver, decididos, desde o início, a enfrentarem, como

rivais, o poder supremo dos pais de família e a reduzirem-no em benefício

da Santa Madre Igreja - foi, para a época, monumental, mesmo em com-

paração com as grandes casas-grandes patriarcais como a da Torre. Diz,

com efeito, Cabriel Soares: "E occupa este terreiro e parte da rua da banda

do mar um sumptuoso collegio dos padres da Companhia de Jesus [ .... ].

Tem este collegio grandes dormitorios e muito bem acabados, parte dos

quaes ficão sobre o mar com grande vista; cuja obra é de pedra e cal, com

todas as escadas, portás e janellas de pedrarias, com varandas e cubiculos

mui bem fwr-i(lu,,, e o~ clanstros pnr baixo lageados com muita per-

#

11

#



90 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E 'MUCAMBOS - 1.0 Tomo

feição [ ... 1" (Cabriel Soares de Sousa, Notícia do Brasil, São Paulo, s, d.,

I, pág. 260).

7É ainda de Cabriel Soares de Sousa a informação: -[ .... 1 o qual

collegio tem grandes cercas até o mar, com agua muito boa por dentro,

e ao longo do mar humas terracenas onde recolhem o que lhe vem embar-

cada de fora." (Ibid., I, pág. 260: Terracenas informa o anotador da edição,

Professor Pirajá da Silva, serem "tulhas, celeiros ou armazéns à beira do

rio ou perto do cais", que completavam, então, as casas-grandes e sobrados

mais importantes.)

8"Caraça, eis o espantalho medonho de que lançavam mão as mães

contra os seus filhos dizendo [ .... 1 Mando-te para Caraçal era uma sen-

tença que penetrava na alma dos meninos como o dobre fúnebre" (Rev.

do Arq. Púb. Min., Belo Horizonte, 1907, ano X11, pág. 249).

9Loc. cit., pág. 250. Ao lado da figura do Padre Antimes, pode ser

evocada, como outro mestre extremamente sadista nos seus modos de lidar

com meninos, certo lente de latim que "abria e mergulhava o polegar e o

índice da esquerda no sutil narcótico com a graça de um tabaquista de raça"

(pág. 251); com a mão direita, porém, era um violento , administrador de

"bolos" nos alunos inermes. Mais docemente que em colégios do tipo

áspero de Caraça foi o latim aprendido por meninos - principalmente meà-

tiços e pobres - em conventos cujas ordens, mantendo e educando rapazinhos

recrutados, às vezes, nas sacristias, pelos seus encantos físicos, tinham frades

que, ao ensino, juntavam práticas sadistas de outro gênero, com seus alunos

amedrontados ou inennes, A informação é de Pires de Almeida que acres-

centa: '1 .... 1 do mesmo modo que, no dizer de, um viajante ilustre, os

idiomas estrangeiros aprendem-se com mais rapidez dos lábios de mulher,

muitos dos nossos melhores latinistas saturarani-se dos perfumes da Eneida

e das odes de mestre Horácio, sacudindo c landestin am ente os hábitos dos

nossos frades." E alguns desses alunos de latim dos conventos "atingiram as

mais altas posições sociais" (Homossexualismo - A Libertinagem no Rio

de janeiro, Pdo de janeiro, 1906, pág. 63).

100s -Estatutos do Colégio de Nossa Senhora do Bom G)nselho", Recife,

1859, podem ser considerados típicos dos estatutos de colégios do meado do

século XIX para onde foram enviando os filhos não só os senhores de

sobrados como de casas-grandes que aí perdiam a rusticidade no convívio

com os meninos de cidade e educados por mestres que os faziain perder

vários dos seus caraterísticos rurais, inclusive vl'r.'cs de piun~reia. Vár~os

dos meninos de engenho ou de fazenda tornavam-se ínternos de Colégios;

outros vinham residir com os comissários dos pais. De qualquer uiodo tor-

navam-se residentes de sobrados urbanos em idade ainda Pl~isnica pois o

costume era, então, serem os meninos internados erii colé ios ainda simples

91

crianças, como reparou um observador iii , 91ès (Braz~l~ ltç Ui,,fr,ru. ico0c.



Natural Productions, etc, The Religiouç Trw, S!;,-t,~,

pág. 183)

1860,

eJa-se so r



#

91

11Saint-Hilaire refere-se à ação do Seminário de Mariana no sentido da



elevação de hábitos e maneiras de meios rústicos, através de meninos vindos

desses meios e que, educados pelos padres, voltavam outros aos seus lares,

São do sábio francês as informações: "Le Séminaire de Afarianna avait été

fon,dé par quelques riches mineurs quí désiraient donner de Véducation à

"rs enfanis sans les envoyer en Europe. On avait attaché à cet établisse-

inent des terres et des esclaves et rien n'avait été négligé , Pour le rendre

digne du but que ron se proposait". (Voyage dans FIntérieur du Brésil,

Paris, 1830, 1, págs. 163-164). já então os mais importantes ou "os mais

recomendáveis" dentre os Mineiros não eram os que se entregavam exclusi-

vamente à mineração mas "certainement ceux qui habitent la campagne et

3urtout les fazendeiros (proprietaires de fazendas) des cantons aurifères du

c~e de la province". Eram, quase todos, chamados "'mineiros" em con-

traste com os roceiros que trabalhavam eles próprios nas suas plantações por

não possuírem, como aqueles, escravos numerosos.

12"Estatutos do Recolhimento de Nossa Senhora da Glória", Recife, cit.

pelo Cônego Antônio do Carmo Barata, "Um Grande Sábio, um Grande

Patriota, um Grande Bispo", Pernambuco, 1921.

l3Ibid.


140 Carapuceiro, Recife, 1842.

150 Carapuceíro, cit.

16Sylvio Romero, História da Literatura Brasileira, 4.' ed.. Bio de ja-

neiro, 1949, 111, pág. 376. Veja-se também o sugestivo estudo de Tulo

Hostílio Montenegro, Tuberculose e Literatura, Rio de janeiro, 1950.

17"Projecto de Resposta à Consulta do Governo Acerca da Origem das

Enfermidades que affligern os Aprendizes Menores do Arsenal de Gueria",

por Luís V. de Simoni, Manuel Feliciano de Carvalho, j(ão ,',Ives -de Moura,

Francisco de Paula Meneses. Anais BrasÚienses de Medicina, Rio de janeiro,

1851, ano 7, n.o 1, pág. 206. Destacava-se nesse relatório que as condições

do internato eram "más": 'liumido, sem ventilação, etc."; que a alimentação,

ainda que "muito variada e de boa qualidade" não estava "isenta de todos

os inconvenientes para a edade tenra dos meninos [ .... Y', Al~m disso, "a

quantidade de duas onças de pão para o almoço de indisiduos que estão

crescendo e a de uma quarta de farinha para trinta indráduos parecein

insuficientes; e conviria augmental-a assim como será util varia- o :almoço

e a ceia, o primeiro com matte e o regundo com sorda de pJo ou outras

comidas temperadas com gordura". Propunham, aiiid~, os m~d;coq, "nio(li

ficações no vestuario" e "na roupa de desta-an,_lo "~) ijuincro defi-

4 - CCia "I ~1,1,`p,1

ciente de banheiras e de bicas", deficiê [Cia c~,ue ~a,1,1.

gação,


das molestias contagiosas, principalmente .~ Uu~-"-s;íç ,

tar o numero de lavatorios, cada uni terd(- vasilhi~ ~~- -: ~ ~ -~, ~ ~ - ~) ro~ -)".

18Richard F. B~irton, Exploatierç of t,Ç~- ~'. ~7- 1~ , ~,1---

dres, 1869, 1, pág, 163.

19V b e o assunto A, J, J,-

- 0 que t, ~ que

#

#

92



GILBERT(-) FREYRE

Almeida e Albuquerque, Breves Reflexões Retrospectivas, Politicas, Moraes

e Sociaes sobre o Imperio do Brasil, Paris, 1854.

20Segundo o arguto observador da transição do poder ainda quase absoluto

dos patriarcas velhos para o dos bacharéis jovens, "depois que a escola de

direito tomou conta do governo da nação e se apoderou dos empregos pu-

blicos, tudo se complicou porque em nome do direito appareceu o governo

da mentira, filho muito do peito da falsa politica. Então sempre em nome

do direito começou a invasão do thesouro publico pela reforma e a com-

phcação dos tribunaes, inventando-se magistraturas desconhecidas [ .... 1

delegados, sub-delegados e um inferno de cousas que só terá demandas

quem não tiver juiso." Passou-se a escolher - segundo o mesmo crítico -

para ministro, qualquer "nullidade" ou "imbecil presumido" contanto que

tivesse "um pergaminho de bacharel em direito" e fosse "protegido por

alguma influencia social". E, ainda: "Quando me recordo, meu venerando

amigo, do passado do Brasil, e o confronto com os tempos que vamos atra-

vessando, de certa epoca para cá, vejo que, apezar da mal entendida politica

da metropole portugueza com relação ao Brasil, erão mandados homens expe-

rimentados para o governo das nossas capitanias; e hoje são mandadas

creançolas sahidas das escolas provinciaes do imperio [ .... 1. Nos tempos

coloniaes não se mandavão para o governo do Brasil senão homens já traque-

jados no governo civil e politico do Estado Em vez disto, o bacharel

jovem passara a tudo dirigir no Brasil:organisar o Exercito e

dirigil-o, sem conhecer o manejo das armas e nem as necessidades [ .... 1

dar ordens à marinha sem conhecer ao menos os nomes das velas de um

navio [ .... 1 providenciar as necessidades da agricultura e corrunercio e

dirigir a engenharia, sem nada conhecer dessas materias [ .... ],,.

Segundo o velho Melo Morais, noutro dos seus livros - hoje obra rara:

A Independencia e o Imperio do Brazil (Rio de janeiro, 1877) - "a Cons-

tituinte do Brazil de 1832 era composta de moços sem experiencia e de

velhos ambiciosos que a tudo se sujeitavam, contanto que se lhes desse

titulos, honras e dinheiro" (pág. 359). Mais: mandavam-se "rapazolas" como

presidentes de província "para namorarem as moças e outros para serem

ridicularisados [ .... ]" (pág. 364).

21joaquim Nabuco, "0 Dever dos Monarquistas - Carta ao Almirante

laceguay", Rio de janeiro, 1895, págs. 18-19.

220 Carapuceiro, Recife, 1839.

2SIbid., 1839.

24joaquim Nabuco, loc. cit., pág. 18.

25Documento da época, ms. hoje da coleção do autor.

26A sept am le jeurie Brésilíen a déià la gravité d'un adulte, il se pro-

mène magestuescirient,' une badine à la main, tier d'une toilette que le fait

plutôt ressembler aux rnarionettes de nos foires qu'à un être humain [ .... 1"

(Alp. Rendu, Etudes Top,~-)graphiques, Medicales et Agronomiques sur ]e

Bresil, Pari~;, 1.848, pág. 14). Sobre o assunto veja-se também Brazil: Its

M,opio, '11,v~ural F-oducti~,in, cie. The Relígous Tract Society, Lon-

IV - A MULHER E 0 HOMEM

#

TAYM~M e caraterístico do regime patriarcal o homem fazer



da mulher uma criatura tão diferente dele quanto possível.

Ele, o sexo forte, ela o fraco; ele o sexo nobre, ela o belo.

Mas a beleza que se quer da mulher, dentro do sistema patriar-

cal, é uma beleza meio mórbida. A menina de tipo franzino, quase

doente. Ou então a senhora gorda, mole, caseira, mat=al, coxas

e nádegas largas. Nada do tipo vigoroso e agil de moça, apro-

ximando-se da figura de rapaz. 0 máximo de diferenciação de

tipo e de trajo entre os dois sexos.

Talvez nos motivos psíquicos da preferência por aquele tipo

de mulher mole e orda se encontre mais de uma raiz econômica:

principalmente o ãesejo, dissimulado, é claro, de afastar-se a pos-

sível competição da mulher no domínio, econômico e político,

exercido pelo homem sobre as sociedades de estrutura patriarcal.

À exploração da mulher pelo homem, caraterística de outros

tipos de sociedade ou de organização social, mas notadamente

do tipo patríarcal-agrário-tal como o que dominou longo tempo

no Brasil-convém a extrema especialização ou diferenciação dos

sexos. Por essa diferenciação exagerada, se justifica o chamado

padrão duplo de moralidade, dando ao homem todas as liber-

ades de gozo físico do amor e limitando o da mulher a ir para

· cama com o marido, toda a santa noite que ele estiver disposto

· procriar. Cozo acompanhado da obrigação, para a mulher, de

conceber, parir, ter filho, criar menino.

0 padrão duplo de moralídade, caraterístico do sistema pa-

triarcal; dá também ao homem todas as oportunidades de ini-

ciativa, de ação social, de contatos diversos, limitando as opor-

tunidades da mulher ao serviço e às artes domésticas, ao contato

com os filhos, a parentela, as amas, as velhas, os escravos. E lima

vez por outra, num tipo de sociedade Católica como a brasileira,

ao contato com o confessor.

C) 11

#

94



Aliás, diante de certas generalizações menos controvertidas da

psicanálise, pode-se atribuir ao confessionário, nas sociedades pa-

triarcais em que se verifique extrema reclusão ou opressão da

mulher, função utilíssima de higiene, ou melhor, de saneamento

mental. Por ele se teria escoado, sob a forma de pecado, muita

ânsia, muito desejo re rimido, ue doutro modo apodreceria den-

tro da pesso~ , Ta e reclada.

Muita mulher brasfleira deve se ter salvo da loucura, que pa-

rece haver sido mais freqüente entre as mulheres das colônias

Puritanas da América do que entre nós, graças ao confessionário.

Pyrard, na Bahia, notou o grande número de mulheres que se

confessavam; e concluiu pela multidão de pecados entre as se-

nhoras brasileiras. Esses pecados não seriam maiores nem mais

numerosos que entre as mulheres européias da mesma e~oca;

1

apenas mais tóxicos para as pobres das pecadoras, c . as a



uma vida de reclusão e segregação maior do que na Europa oci-

dental, já francamente burguesa. Confessando-se, elas desintoxi-

cavam-se. Purgavam-se. Era uma limpeza para os nervos, e não

apenas para as suas almas ansiosas do céu onde as esperavam seus

filhinhos anjos ritando "mamãe!" "mamãel"

A extrema dierenciação e especialização do sexo feminino em

"belo sexo" e "sexo frágil", fez da mulher de senhor de engenho

e de fazenda e mesmo da iaiá de sobrado, no Brasil, um ser

artificial, mórbido. Uma doente, deformada no corpo para ser a

serva do homem e a boneca de carne do marido.

Ainda assim, houve figuras magníficas de mulheres criadoras,

dentro dos sobrados, como no interior das casas-grandes. Como

já salientamos, em ca itulo anterior, às primeiras senhoras de

engenho, mulNas de Portugal, deve-se uma série de co

modidades de habitação e de vida, de assimilações e de adap

tações felizes, de valores de culturas ancilares à imperial. Assi

milações, adaptações e combinações de valores ue logo distin-

1

guiram as zonas de colonização por gente casa2a daquelas em



que os portugueses se estabelecera.m sozinhos, solteiros, ou quase

sem mulher branca. É que nos primeiros tempos de colonização

do litoral, todos os colonos, homens e mulheres, com uma for-

midável terra virgem a dominar, a mulher gozou de uma liberdade

maior de ação. E essa maior liberdade de ação se exprimiu na-

quele conjunto de atividades criadoras. Foi nesse período de

relativa indiferenciação, que uma capitania poderosa-a Nova

Lusitânia-chegou a ser 1 overnada por ilustre matrona: D. Brites,

mulher de Duarte Coer.

Mas através de toda a época patriarcal-época de mulheres

franzinas o dia inteiro dentro da casa, cosendo, embalando-se na

rede, ~ç,~)niancio ç~ pc.,nto dos doces, ~ritando para as mulecas, brin-

CILBERTo FREYRE S(113RADCS E MUCANÇBOS - 1.0 Tomo 95

#

cando com os periquitos, espiando os homens estranhos pela



frincha das portas, fumando cigarro e às vezes charuto, parindo,

morrendo de parto; através de toda a época patriarcal, houve

mulheres, sobretudo senhoras de engenho, em quem explodiu uma

energia social, e não simplesmente doniéstica, maior que a do




1   ...   20   21   22   23   24   25   26   27   ...   110


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal