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rigir tais vícios nas mocinhas. Por exemplo: o de falarem pelo

nariz ou arrastado. Mas principalmente o de pronunciarem as

alavras, invertendo a ordem das letras, como breço, em lugar de

erço, cravão em lugar de cai-vão; ou suprimindo no meio das

palavras algumas letras, como teado em vez de telhado, fio em

lugar de filho; ou, ainda, engolindo a letra última, principalmente

no número plural, e nos nomes acabados em agudo, como muitas

flore em lugar de muitas flores, Portugá em vez de Portuça1.12

As moças em quem se encontravam esses vícios de pronuncia

eram as brancas e filhas legítimas; moças de casa-grande e de

sobrado; que só estas se admitiam no colégio de Nossa Senhora

da Glória. 0 vício de falar arrastado e, ao mesmo tempo, fanhoso,

pelo nariz, este veio a caraterizar não matutos sem importância,

mas grandes famílias rurais. Uma delas, já o dissemos, os Wan-

derley de Serinhaém e Rio Formoso. Destes os próprios escravos,

quando crias das casas-grandes ou dos sobrados, vieram a tornar-

-se conhecidos pela fala do mesmo modo que pelo jeito de andar.

Não deixa de surpreender num padre do século XVIII-embora

esse padre fosse Azeredo Coutinho, descendente de família ilustre

da Paraíba do Sul e formado em Coimbra-idéias, tão adiantadas

para a época, sobre as relações dos adultos corri as crianças. Num

tempo em que a regra era tratar-se o menino como se fora um

! 1


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GILBERTO FREYRE



demônio, passada a fase de ele ser adorado como um anjo-que

era até aos seis ou aos sete anos-Azeredo Coutinho insistia a

favor dos pobres dos párvulos serem considerados criaturas sim-

plesmente humanas. Às crianças perguntadoras, por exemplo-que

eram talvez as mais hostilizadas pelo sistema patriarcal, como

pelo jesuítico, vendo-se na curiosidade não só o desrespeito ao

mais velho como a perturbação daquela suprema faculdade angé-

lica que, para os jesuítas, era a memória-o Bispo de Pernambuco

recomendava que de nenhuma sorte o adulto desse a idéia de

que as tinha por importunas nas suas muitas perguntas: antes

pelo contrario convem dar-lhes mostras de gosto em respon-

der-lhes".

Mas o espantoso é ver Dom José Joaquim da Cunha de Aze-

redo Coutinho aconselhar aos mestres um método quase psica-

nalítico de lidar com as meninas nervosas, que or qualquer coisa

estivessem chorando ou com medo ou com sauXàde de casa: "Em

al%rnas meninas se vê, por qualquer couza, um susto, ou timidês

in il


ivel, ue muitas vezes parecendo propriedades do sexo, não

u

são mais Jo que ef`feitos proprios da educação que lhes derão,



costumando-as a soffrer medos que lhes representavão na tenra

idade para as fazer calar, ou estar quietas." 0 remédio era fazê-las

conhecer o erro em que estavam, "até o ponto de as fazer rir de

sua timidês".13

É oportuno recordar que o Bispo deu ao ensino no Seminário

de Olinda-"um seminário", diz Oliveira Lima, "logo considerado

o melhor colégio de instrução secundária no Brasil"-um caráter

quase escandaloso para o tempo. Em vez de só Religião e Retó-

rica, Gramática e Latim, o Seminário de Olinda começou a ensinar

as ciências úteis, que tornassem o rapaz mais apto a corresponder

às necessidades do meio brasileiro, cuja transição do patriarca-

lismo agrário para um tipo de vida mais urbana e mais industrial,

exigia orientadores técnicos bem instruídos e não apenas mecâ-

nicos e artífices negros e mulatos, que aqui continuassem de oitiva

a tradição peninsular dos artistas mouros, ou a africana, dos seus

avós negros. Exigia, também, o meio em transição, o estudo dos

problemas econômicos criados pela mineração, pela índustriali-

zação, pelo declínio da economia baseada simplesmente na morio-

cultura ou no monopólio: outro aspecto da situação brasileira que

Azeredo Coutinho parece ter compreendido admiravelmente.

Tollenare achou no Seminário de Olinda certo aspecto de liceu

francês-dos departamentais, não dos metropolitanos-com alunos

que se destinavam não só às ordens sacras, mas a outras carreiras:

rapazinhos desejosos de fazer os estudos de Humanidades; e estu-

dando não só Latim e Filosofia, mas Matemáticas, Física, Desenho.

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SOBRADOS E MUCA-~MOS - 1.1 Tomo



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Era a orientação de Azeredo Coutinho que assim rompia com os

restos da tradição jesuítica de ensino colonial.

já outra era a fisionomia dos colégios que pela mesma época

-fins do século XVIII, princípios do XIX- substituíram no Rio

de janeiro as antigas escolas dos Jesuitas. Luccock, pelo menos,

teve impressão má do Seminário de São Joaquim. E um dos

aspectos que mais o impressionaram foi o atraso com relação às

ciências: o ensino era ainda todo literário e eclesiástico. jesulti-

camente literário. Outro aspecto que o horrorizou foi a tristeza

dos meninos. Meninos calados, doentes, de olhos fundos.

Era a precocidade. Era a opressão da pedagogia sádica, exer-

cendo-se sobre o órfão, sobre o enjeitado, sobre o aluno com o

pai vivo mas aliado do mestre, no esforço de oprimir a criança.

Todos-o pai e o mestre-inimigos do menino e querendo-o homem

* mais breve possível. 0 próprio menino, inimigo de si mesmo

* Wierendo ver-se homem antes do tempo.

bem expressiva a alcunha que o povo do Rio de janeiro ôs

nos meninos de São Joaquim: carneiros. Cameirinhos. CalaXÓs,

olhos tristes, sem vontade própria, eram mesmo uns carneiros.

E o trajo ainda lhes dava mais o ar de carneiros: uma batina

branca com uma cruz vermelha no peito; um cinto de cadarço

preto.

No tempo do Império, passada já a época do colegial andar



de batina, os meninos de colégio continuaram meninos tristes,

agora de sobrecasaca preta, roupa de homem, alguns já viciados

no fumo, diz o Padre Cama ue até no rapé. 0 ensino nos colégios

menos eclesiástico, mas a vil de internato ainda triste. E a ten-

dência da pedagogia, ainda a colonial, de amadurecer a criança

à força e animar a precocidade. 0 próprio Dom Pedro II foi um

precoce que aos linze anos já era imperador, cercado de mi-

nistros provectos, Wes titulares de barba longa entre os quais, ele;

logo que pôde, apareceu também com grande barba loura a es-

correr-lhe pelo peito.

Desertor da meninice-que parece ter deixado sem nenhuma

saudade-Pedro II foi, entretanto, o protetor do Moço contra o

Velho, no conflito, que caraterizou o seu reinado, entre o patriar-

cado rural e as novas gerações de bacharéis e doutores. Entre

os velhos das casas-grandes, habituados a se impor por um pres-

tígio quase místico da idade, e os moços acabados de sair das

academias de São Paulo e de Olinda; ou vindos de Paris, de

Coimbra, de Montpellier. Moços a quem o saber, as letras, a

ciência cheia de promessas, começaram a dar um prestígio novo

no meio brasileiro.

Ainda não se atentou nesse aspecto curioso do Segundo Rei-

nado entre nós: a repentina valorização do moço de vinte anos,

il ~

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CILBERTo FREYRE

pálido de estudar, que nem um sefardim. Valorização favorecida

por uma especie de solidariedade de geração, de idade e de cul-

tura intelectual, da parte do jovem Imperador. Devendo-se acres-

centar a esse fato o dos moços representarem a nova ordem social

e jurídica, que o Imperador encarnava, contra os grandes inte-

resses do patriarcado agrário, às vezes turbulento e separatista,

antinacional e antijurídico.

É certo que nos últimos tempos coloniais, a Metrópole, em luta

aberta contra as oligarquias dos Senados das Câmaras, contra os

senhores de engenho, contra os magnatas das minas, já vinha man-

dando ao Brasil, para governar os povos de capitanias mais arro-

gantes, homens moços, rapazes de vinte e tantos, trinta anos,

como o Conde de Valadares. Homens que pela extrema mocidade

escandalizaram os velhos das casas-grandes, cujo roço vinham que-

brar, cujo prestígio místico, em parte baseado na idade, vinham

destruir.

Mas foi com Pedro II que essa tendência se acentuou; e que

os moços começaram a ascender quase sistematicamente a cargos,

outrora só confiados a velhos de longa experiência da vida. P,

verdade que esses moços, agora poderosos, em tudo imitavam

os velhos; e disfarçavam o mais possível a mocidade.

Ainda assim, sua ascensão social e politica não se fez sem a

hostilidade, ou, pelo menos, a resistêr;~ia dos mais velhos. Eles

foram impostos aos mais velhos pela vontade do Imperador que

viu talvez nos homens de sua geração e de sua cultura literária

e jurídica, os aliados naturais de sua política de urbanização e

de centralização, de ordem e de paz, de tolerância e de justiça.

Política contrária aos excessos de turbulência individual e de pre-

domínio de família: às autonomias baseadas, às vezes, em ver-

dadeiros fanatismos em torno de senhores velhos. Contrária, por

conseguinte, aos interesses mais caros das oligarquias agrárias que

formavam ainda as grandes montanhas da nossa paisagem social,

ao iniciar-se o reinado de certo modo antipatriarcal de Pedro II *

Se o Imperador Pedro I! começou a reinar com a sombra de

algumas grandes figuras de velhos vindos dos tempos coloniais

e de casas-grarídes do interior curvadas sobre seu governo, não

tardou que sua cabeça loura de adolescente, nascido e criado

em sobradão inais cie cidade que de mato e ansioso de mando,

cansado de tutores, se afirmasse numa das vontades mais vivas

que ainda governaram o Brasil. Temia pouco os oligarcas das

casas-grandes do Inipério. Temia mais a opinião dos europeus a

11 -

seu respeito. Os europeus dos sobrados de Paris e de Londres.



#

0 Imperador de quinze ati)os era um menino alto, mas nada

elegante de corpo. o que talvez resultasse de sua vida livresca,

1 .


de criança de soluní-lí,~ ---emar }nre. Nisto

1 1


SOBRADOS E MUCAMBOS - 1? Tomo

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não se distinguia de muitos dos rapazes que iam ser seus ministros,



seus presidentes de -províncias, que iam ser juizes, diplomatas e

deSutados, homens ~eios, pálidos, quase cabeças de frades bar-

ha

ba os em corpos franzinos de criança. Falta de educação física,



de exercício, de ar livre. Excetuavam-se os criados mais livre-

mente em engenho, montando a cavalo, rodando de almanjarra.

Ou os criados em estâncias do Sul. Os Araújo Lima, os Barão

de Coiana, os Saraiva, os Silveira Martins. Mais tarde os Saldanha

da Cama e os Joaquim Nabuco-devendo salientar-se deste per-

nambucano que não montava a cavalo.

0 bacharelismo, ou seja a educação acadêmica e livresca, de-

senvolveu-se entre nós com sacrifício do desenvolvimento harmo-

moso do indivíduo. Bernardo Pereira de Vasconcelos aos qua-

renta anos já parecia um velho. E é curioso salientar nos homens

novos que no remado de Pedro TI tomaram tão grande relevo na

política, nas letras, na administração, na magistratura, o traço

quase romântico da falta de saúde.

Não eram só doentes: tinham a volúpia da doença. Os homens

mais velhos tomavam relevos de gigantes, comparados com os

moços franzinos cheios de "gastrítes, enceplialites, bronchites, pul-

monites, splenites, cardites interites, collites, cel~halagras,

hipertrophias, cardi s, nevr~ses de todos os nomes que *à

em 1839 o Padre Lopes Cama tanto ridicularizava. "Hum moço Je

outro tempo"-escrevia o padre alarmado com tanto bacharel pá-

lido, tanto rapaz doente-"era hum Hercules; que bella cor! que

força muscular! que agilidade, que vivesa, que saudel Hoje en-

contra-se por alii hum jovem, que pouco dista duma muinia do

EgyPto."14

Mas tornara-se tão bonito ser doente que até as meninas ele-

gantes da primeira metade do século XIX viviam pondo bichas,

sustentando-se de caldo de pintainho e papinhas de sagu. E os

rapazes, o rosto, o cabelo, a barba que imitavam eram os do

Nazareno-o Jesus convencional, das imagens da crucificação.

0 Padre Gama se alarmava diante dos moços do seu tempo:

aos dezesseis anos já tinham suíças "de fazer medo à gente (me-

nos ás senhoritas)"; aos vinte já estavam calvejando ou encane-

cendo; aos vinte e cinco padecendo de gastrites, enterites, bron-

quites, etc.; e muitos "morrendo bem velhos na idade de trinta

annos " . 15

Alguns morreram aos vinte e um, aos vinte e dois anos: um

#

deles o acadêmico de Direito de São Paulo, Manuel Antônio



Álvares de Azevedo, doce poeta que seria por tanto tempo o ídolo

dos estudantes, o São Luís Gonzaga das devoções literárias do

adolescente brasileirc. .0 poeta Casimiro de Abreu, morrendo

tuberculoso aos vinte e ',rés, ficou outro ídolo: das moças senti-

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GILBERTO FREYRE



mentais. junqueira Freire, esse finou-se do coração aos vinte e

dois anos: e foi mais um santo literário a ser adorado pelos estu-

dantes e pelas moças. Aureliano Lessa, morrendo aos trinta e

três anos e Laurindo Rabelo, aos trinta e oito, aumentaram o

número dos santos de vinte e de trinta anos da nossa literatura

sentimental e até mórbida do tempo do Império.

Em torno dessas figuras de poetas e romancistas pálidos, naza-

renos, olhos grandes e sofredores; em torno desses poetas e ro-

mancistas cujos versos de amor os estudantes e as moças recitavam

ao som da Daffia, naquelas salas escuras do tempo do Império,

com sofás de jacarandá e espelhos de Nuremberg, as velas ardendo

dentro das grandes mangas de vidro, fez-se uma idealização doen-

tia da mocidade doente. Castro Alves, pela saúde, pela firmeza

da voz mais de orador que de poeta, seria uma exceção; mas

também morreu moço. Contribuiu para aquela idealização mór-

bida da mocidade incapaz de tornar-se maturidade.

Chegara a época de ser quase tão bonito morrer moço, aos

vinte, aos trinta anos, como morrer anjo, antes dos sete. Morrer

velho era para os burgueses; para os fazendeiros ricos; para os

vigários gordos; para os negros mais bem tratados de engenho. Os

gênios" deviam morrer cedo e, se possível, tuberculosos. Nada

de saúde. Nada de robustez. Nada de gordura. E os "gênios"

foram concorrendo para a própria morte. Exagerando-se no co-

nhaque. Andando com prostitutas. Sifilizando-se em orgias bara-

tas. Como observou Sylvio Romero eles "tinham seu programa 11 ,

cujo primeiro artigo era a libação do "conhaque" e o segundo

era "a vadiagem".16

junte-se a essa vida de conhaque e de vadiação com mulheres,

o fato de os rapazes mais estudiosos nos colégios, nos internatos,

nas próprias academias (instaladas em conventos velhos, úmidos,

cheios de sombras), desenvolverem um esforço intelectual que a

deficiência ou a irregularidade de alimentação, a falta de exer-

cício, de sol, de ar, de modo nenhum favoreciam. A situação

de higiene dos internatos da Corte e das Capitais, onde o menino

estudioso emagrecia, definhava, às vezes entisicava, pouco devia

diferir da do internato do Arsenal de Guerra, onde um inquérito

realizado em 1851, para determinar as causas de tanta enfermi-

dade entre os menores, revelou condições as mais anti-bigiènicas,

não só de alimentação como de dormida, de roupa de cama, de

vestuário, de umidade e falta de ventilação no edifício. E é curioso

salientar que as principais doenças que afligiam os menores pa-

recia que se derivavam da má alimentação: irritações gastrintes-

tinais seguidas de diarréias, oftalmias, escorbutos. 17

Burton, visitando CongoTilias do Campo, ficara encantado com

a situação do colégio dos padres. Vira os alunos, todos de batina,

SOBRADOS E MUCADJBOS - 1.0 Tomo

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mas parece que sem o ar de doentes de vermes dos meninos do



são Joaquim. Mas até em Congonhas e noutros pontos saudáveis

de Minas, a julgar pelo escrupuloso viajante inglês, a higiene dos

colégios de padre estava longe de ser ideal, havendo graves irre-

2~ridades no sistema de alimentação." Daí a desvantagem q~

9U1

lê ,vavam precisamente os rapazes mais estudiosos, os -gênios ,



os que viviam mais com os livros.

Mesmo romanticamente doentes, ou morrendo aos vinte e pou-

cos, aos vinte e tantos,'aos trinta e aos trinta e tantos anos-aos

quarenta, como José de Alencar e Gonçalves Dias-os moços foram

tomando os lugares de maior importância na administração, na

política, na magistratura e ria diplomacia do Segundo Reinado.

Deslocando das grandes responsabilidades os velhos sadios. Os

bons gigantes de sessenta e setenta anos vindos da época do

Rei Velho ou dos dias dos Vice-Reis,

0 país, que se acostumara a governadores e a bispos arras-

tando os pés e a patriarcas cuja idade era um título de nobreza

e uma condição de prestígio, acabaria vendo bispo de Olinda

quase um menino: Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira.

Bispo aos vinte e tantos anos, a barba de frade Captichinho pare-

cendo quase postiça em rosto tão moço.

E na presidência das províncias, nos ministérios, na Câmara,

foram aparecendo bacharéis de vinte e poucos, vinte e tantos

anos, trinta anos, as suíças e barbas mal conseguindo dar a im-

pressão de idade provecta. Aos trinta anos Honório Hermeto

Carneiro Leão, depois Marquês do Paraná, já estava ministro da

justiça; aos trinta e um, Manuel Francisco Correia governava a

Província de Pernambuco; João Alfredo, aos trinta e cinco, já

era ministro do Império; Rodolfo Dantas, aos vinte e oito; Afonso

Celso, o futuro Visconde de Ouro Preto, ministro da Marinha aos

vinte e sete; Otaviano, ministro dos Estrangeiros, aos trinta e seis.

Era diante desse escândalo de bispos riroços1 de ministros de

trinta e principalmente de presidentes de p,ovíncia de vinte e

tantos anos, que os velhos não se continham. "Ç)iiando me recordo,

Meu venerando amigo"-dizia um deles, em carta que depois se

publicou-"do passado do Brasil, e confronto com os tempos que

vamos atravessando, de certa epoca para cá, vejo que apesar da

mal entendida política da Metropole portiiZiieza em relação ao

Brasil erão mandados homens experimentados para o governo das

nossas capitanias; e hoje são mandadas creançolas, sahidas das

escolas de direito, sem conhecimentos e nem experiencias, para

anarchisar as províncias do Impeiio." A verdade é que nos tem-

pos coloniais "n,~-io se mandavão para o governo do Brasil senão

homens já traquejados nn governo civil e politico do Estado"

Até Mato Grosso, que no Império só se sabia que era província

~4

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86 CILBERTo FREYRE SOBBADOS E MUCAMBOS - 11.' To-mo 87

do Brasil em tempo de eleição, "era olhado com muito carinho

pelo governo portuguez, que só para alli mandava homens de

muita importancia e engenheiros como o famoso Franco de AI-

meida, que, de ois de muitos annos, alli falleceu

Parece fora Te dúvida que a administração pública no Brasil

sofreu um tanto com as presidências de província confiadas pelo

Imperador a bacharéis de vinte e tantos, trinta anos, quase sem

outro saber que o dos livros. Moços brilhantes e letrados, faltava-

-lhes, entretanto, aquele bom-senso terra-a-terra, aquele equili-

brio, aquela solidez, aquela perspectiva das coisas que só se con-

segue com a experiência, aquele profundo realismo político da

maioria dos capitães-generais enviados pelo governo português

ara a sua colônia americana, vários desses administradores co-

óniais da estatura dos maiores que dariam depois a Inglaterra

ou a França. Políticos de astúcia rara. Tal o Conde de Assumar,

em Minas, D. Thomaz de Mello, em Pernambuco, o Conde de

Arcos, na BaMa, o Conde da Cunha, no Rio de janeiro.

já em 1838, diante d eiras gerações de bacharéis de

Olinda e São Paulo invadin m o seu "romantismo jurídico"

os postos outrora ocupados por aqueles velhos realistas políticos,

alguns de olhos já cansados de tanto ver, mas não se deixando

iludir pelas aparências, os ouvidos já ficando moucos de tanto

ouvir, mas não se deixando nunca emprenhar pelas palavras dP

intriga ou de enredo; já em 1838, erguntava João Gualberto

dos Santos Reis onde estavam "aque~es pes de boi chamados",

famosos "pelo caracter, sisudez e brío"-os homens bons de ou-

trora? Os velhos capitães, ouvidores, juízes, homens bons?20

Estavam retirando-se da cena. Começara, vagamente, a vitória

dos moços, que se acentuaria em traços nítidos com o governo

do Senhor Dom Pedro 11. Com a própria Igreja entregando os

cajados de bispo a padres e frades com aparência ainda de no-

viços; e não aos velhinhos de outrora.

"já antes dos quarenta anos, o Brasileiro começa a inclinar a

sua opinião diante das dos jovens de quinze a vinte e cinco anos 11 ,

escreveu anos depois Joaquim Nabuco, impressionado, decerto,

com o contraste entre a predominância dos moços rio Brasil do

seu tempo e a predominância dos velhos na Europa 2 1 E na

verdade, pelo menos com relação ao rapaz de quinze anos que

subiu ao trono de Imperador com o nome de Pedro 11, foram

raros os homens de mais de quarenta anos que tiveram como

Honório Hermeto a altivez, a coragem e a firmeza de suas opiniões.

Os moços imitavam os velhos, é verdade; mas suas bArbas, eram

pretas e louras; não eram brancas como as dos velhos 0 ~ T~,,,iins

anúncios de tintura para as bai-bas nos jJcfi~,~,: In t,-,~.~c d,-~ b,-

pério, mostram que eles as &~cf~;vam

Com a ascensão social e política desses homens de vinte e trinta

anos foi diminuindo o respeito pela velhice, que até aos princípios

do século XIX fora um culto quase religioso, os avós de barba

#

branca considerados os , numes da casa". Os santos, os mortos e



eles, velhos.

os antigos avós poderosos foram se adoçando em vovós ou din-

dinhos a quem já não se tomava a bênção com o mesmo medo

dos tempos rigidamente patriarcais. Ao Padre Lopes Gama não

esca ou a transição, no seu tempo ainda mal definida na zona

rurY porém já evidente nas cidades mais europeizadas e talássi-

cas jopo o Rio de Janeiro ou o Recife. Em 1839 o Padre escrevia

que "os meninos dos tempos antigos erão muito mais travessos,

cavalgavam em canos e paus, fazião regimentos, davão batalhas;

outros macaqueavão as cerimonias do Culto Religioso, já ves-




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