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Jesuíta procurou subordinar à Igreja os elementos passivos da

casa-grande: a mulher, o menino, o escravo. Procurou tirar da

casa-grande duas de suas funções mais presti losas: a de escola

e a de igreja. Procurou enfraquecer a autoridal do pater familias

em duas de suas raizes mais poderosas: a de Senhor Pai e a de,

Senhor Marido.

Mas a educação do jesuíta, enquanto pôde fazer sombra à

autoridade do senhor da casa-grande sobre o menino, foi a mesma

que a doméstica e patriarcal nos seus métodos de dorninação,

embora visando fins diversos dos patriarcais. A mesma no em-

penho de quebrar a individualidade da criança, visando adultos

passivos e subservientes. Passivos perante o Senhor do Céu e da

Terra e a Santa Mácire Igreja e não tanto diante do pai nem da

mãe simplesinente de came,

11

#

72 GnaoERTo FRE= SOB~05 E MUCAMBOS - 1.' Tomo 73



Daí a tática terrível, porém sutil, dos educadores jesuítas, de

conseguirem dos índios que lhes dessem seus culumins, dos co-

lonos brancos que lhes confiassem seus filhos, para educarem a

todos nos seus internatos, no temor do Senhor e da Madre Igreja,

lançando depois os meninos, assim educados, contra os proprios

pais. Tornando-os filhos mais deles, padres, e dela, Igreja, do que

dos caciques e das mães caboclas, dos senhores e das senhoras

do ._nho ou de sobrado.

Os padres esforçaram-se em fazer dos meninos, o mais depressa

possível, homens ou adultos, que fizessem frente ao caciquísmo

das tabas e ao patriarcalismo dos velhos das casas-grandes. Rego-

zijavam-se diante dos meninos mais precoces que, logo cedo,

amadurecidos à força, cantassem em latim, pregassem a Paixão,

discutissem teses, parecessem aos pais criaturas superiores, sem

nenhum jeito ou modo de menino. Visando, ao que parece, aquele

domínio social, estimularam a precocidade literária, quê se tor-

nou tão caraterística do menino brasileiro, no regime de vida

patriarcal de nossa formação.

Uma carta enviada do Espírito Santo em 1562, "para o Padre

doctor Torres por cominissão do padre bras Lourenço" refere

o caso de "hú Indiosinho da Baya", menino de seus treze anos,

que Ja pregava a Paixão em português a gente de fora; e com

tanto fervor que movia muito os ouvintes. Desses alunos pre-

coces, aliados dos padres contra os próprios pais, deve ter havido

também brancos ou mestiços. As cartas dos jesuítas5 constituem

precioso documentário do esforço dos padres no sentido de sub-

traírem os meninos mais inteligentes ao dorninio dos pais, em

idade ainda an

,gélica.

E ade era conseguida não só por uma série de

estímulos à vitória do indivíduo mais brilhante, e não do mais

profundo em coisas intelectuais-estímulos muito caraterísticos da

anti,f,a pedagogia jesuítica: a maior responsável, talvez, elas

eso: , as-campos-xie-batalha, com os alunos desafiando-se em fatim

para as competiçoes em que vencia justamente o melhor pole

mista, o argumentador de palavra mais fácil e de memória mais

fértil-como também à custa de vara. A vara, já o bom do An

chieta a considerava a melhor pregação entre caboclos. Deve ter

sido também o auxiliar mais poderoso dos padres-mestres, nos

primeiros colégios que a Companhia fundou no Brasil.

Do Irmão Antônio Rodrigues, tutor num desses primeiros co-

légios, sabe-se por uma carta de Antônio Blasquez, que era tão

camarada dos alunos que andava no meio deles pescando pelas

praias; e quando os meninos tinham vergonha de dizer a dou-

trina "lh'a tirava elle a seu exemplo dizendo que pois elle era

mais antigo e como pae de todos, e com isto não tinha pejo,

quanto mais elles que eram ainda moços"; mas fosse algum in-

terno comportar-se mal durante as aulas ou exercícios de religião

#

que Rodrigues "lhe ia à mão, e lhe fazia estar quedo".



Se eram assim os irmãos, imaginem-se os padres. Representantes

do Senhor e ensinando Gramática e Latim para maior glória de

Deus, eles não deixavam que o ensino sofresse o menor desres-

sito da parte de meninos desatentos ou de estudantes vadios.

s aulas tinham alguma coisa de religioso naqueles primeiros

colégios de padres, alguns funcionando-o da Bahia, pelo me-

nos-em sobrado que Gabriel Soares chama "sumptuoso": casarão

de pedra e cal com todas as escadas, portas e janelas de pedraria

com varanda; "grandes dormitorios e muito bem acabados, parte

dos quaes ficão sobre o mar com grande vista"; "cubículos mui

bem forrados, e os claustros por baixo lageados com muita per-

feição"; grandes cercas até o mar "com agua muito boa por

dentro".'

Na arquitetura escolar parece ter-se antecipado entre nós a

arquitetura urbana mais grandiosa que não foi assim a pr ria-

mente eclesiástica-catedral ou igreja-nem a puramente ci as

casas de governo, as casas de Câmara, as casas chamadas de

função. Nem mesmo os grandes sobrados dos ricos. Os colégios

dos padres, como o da Bahia, com seus cubículos para 80 reli-

giosos, seus dormitórios para 200 meninos, foram talvez as massas

mais imponentes de edifícação urbana no Brasil dos primeiros

séculos coloniais. Urbana e talássica. Alguns daqueles edifícios

mais grandiosos, como o próprio colégio dos Jes~ítas na Bahia,

eram sobrados "com humas terracenas onde recolhem o que lhe

vem embarcado de fora".'

0 que lhes vinha por mar era quase tudo: sementes, ferra-

mentas, livros. Tudo da Europa. E drogas de todo o mundo. Havia

sempre um Antônio Pires pedindo que lhe mandassem de Por-

tugal ferramentas; um Vicente Rodrigues pedindo que lhe envias-

sem sementes; mas principalmente padres Nóbrega, padres Na-

varros, padres-mestres, gramáticos, teól sistindo nos livros

cuja falta não se cansavam de lamentar. e nos fazem muita

os' in

u

iS s



o

Por


minlpa para as duvidas que cá lia que to a se preguntam a

mim , escrevia em 1549 o Padre Nóbrega ao Padre-Mestre Simão.

E muitas dessas coisas es s enciais-sem entes, ferramentas, livros-

não chegaram ao Brasil pelo desembarcadouro geral que havia

nas cidades, mas pelas tais terracenas particulares dos colégios

de padres.

Nesses sobradões de pedra e cal, em que se expandiram as

primeiras escolas dos jesuítas, algumas tão miseráveis nos seus

começos-a de Piratininga, por exemplo, mucambo de palha com

o pobre do Padre Anchieta maum, corcunda, um ar de velho

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74 GILBERTO FREY" SOBRADOS E MUGAMBOS - 1.0 Tomo . 75



aos trinta anos, mal se podendo mover entre os meninos, um

frio horrível a torturá-lo e aos pequenos de manhã cedo, todos

tiritando de frio, e o pró rio Padre tendo de escrever, um a

um, os livros para os alunpos estudarem, em vez de recebê-los

impressos da Europa, em caixotes, nas terracenas dos sobrados;

nesses enormes sobrados de pedra e cal, prepararam-se no Brasil

os primeiros letrados, que seriam os primeiros bacharéis, os pri-

meiros juizes, padres, desembargadores, homens mais da cidade

que da "roça" ou da , mata". Muito lhes deve a cultura literária

com que o Brasil dos primeiros tempos coloniais adomou-se pre-

cocemente.

Os organizadores ou consolidadores da nossa vida civil e inte-

lectual, os revolucionários da Bahia e de Vila Rica, os poetas,

oradores, escritores dos tempos coloniais foram quase todos alunos

de jesuítas. 0 gosto pelo diploma de bacharel, pelo título de

mestre, criaram-no bem cedo os jesuítas no rapaz brasileiro. No

século XVI já o brasileiro se deliciava em estudar a Retórica e

Latim para receber o título de Bacharel ou de Mestre em Artes.

já a beca dava uma nobreza toda especial ao adolescente

álido que saía dos "patios" dos jesuítas. Nele se anuncia~,a o

acharel do século XIX-o que faria a Abolição e a República,

com a adesão até dos bispos, dos generais e dos barões do Im-

pério. Todos um tanto fascinados pelo brilho dos bacharéis.

Mas toda aquela cultura precoce e um tanto trístr)nha, sa-

liente-se mais urna vez que os jesuítas a impuseram aos filhos

mais inteligentes dos colonos e aos CUluminzinhos arrancados às

tabas, à força de muita disciplina e de muito castigo, Tradição

que se perpetuaria nos colégios de padre até os fins do século XIX.

Os Jesuítas-repita-se-d eram no século XVI valor exagerado

ao menino inteligente, com queda para as letras, tomando-o mes-

mo criatura um tanto sagrada aos olhos dos adultos, que se admi-

ravam de ver os filhos tão brilhantes, tão retóricos, tão adian-

tados a eles em conhecimentos. Mas essa valorização artificial era

conseguida, sacrificando-se na criança sua meninice, abafando-se

sua espontaneidade, secando-se antes de tempo sua ternura de

criança. E por meio de castigos e privações é que, mais tarde,

os outros padres, também mestres de meninos, toruaram seus co-

légios ainda mais sombrios que os da S. J. Os jesuítas em parte

falharam na sua brava oposição ao sistema patriarcal das casas-

-grandes: aos seus excessos de absorção do filho pelo pai, do

indivíduo pela família. Mas esses outros colégios vieram no mo-

mento certo de concorrerem para o de-clínio do pátrio poder

no Brasil. Ou paia a ç~lia desintegração em benefício do maior

poder da Igroja.

Garaça tomou-se alguma coisa de sinistro na paisagem social

brasileira dos primeiros tempos do Império, arrebatando os me-

ninos aos engenhos (onde eles, tratados de resto nas casas-gran-

des, pelos mais velhos, eram entretanto uns reis na bagaceira e

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na casa-de-purgar, dominando aí muleques, galinhas, carneiros,



cavalos, bois); às fazendas sertanejas de criar; às casas de sítio;

aos sobrados da cidade. E reduzindo-os a internos, num casarão

triste, no meio das montanhas, dentro de salas úmidas, com estam-

as de São Luís Conzaga pelas paredes, uns São Luis Gonzagas

e olhos doces de mulher, lírios brancos na mão; com imagens

de Santo Antônio, de São José, da Virgem e de São Vicente por

todos os salões de aula. Que todos esses salões pareciam sacristias,

o ar mole de tanto cheiro de incenso e de flor murcha. E sobre-

tudo com padres terríveis, que em vez de lírios brancos como

São Luis na sua mão cor-de-rosa de moça, empunhavam palma-

tórias de sicupira e varas de marmelo.

"Caraçal" "Mando-te para Caraçal" Os mineiros antigos, ira-

quaras e do Norte, dizem que era o nome com e se Fazia

medo aos meninos mais valentes. Caraça-lembroulá anos um

cronista que colhera impressões de alunos da epoca de maior

grestigio colégio, e também de maior crueldade dos padres-

araça era um "nome execrando".'

Não que todos os mestres fossem duros e carrascos: o Padre

Manuelzinho, um negro alto, deixou fama de homem profunda-

mente bom: gênio e modos de moça. Mas havia sadistas. Um

deles, o Padre Antunes. 0 Padre Antunes amarrava o lenço no

braço "para ter mais força de puchar a palmatoria". Outro, lente

de Latim, sentia verdadeiro prazer em fazer a aula inteira "beijar

a Santa Luzia", que era a palmatória terrível. E esse castigo, o

volutuoso do padre impunha aos alunos com todo o vagar, entre

pitadas de rapé. Um aluno, dos velhos tempos de Caraça, diz

que viu uma vez "um pulso eclesiástico erguer no ar... vinte e

quatro vezes consecutivas uma formidável palmatória, que vinte

e quatro vezes estalou nas mãos de um meu colega, criança

como eu." Dias depois "por ocasião do primeiro banho a que

assisti e em que tomei parte, em um poço profundo, longe do

Seminário (pois nessa casa de educação não havia banheiro) vi,

com olhos crescidos de pasmo e de medo, largas equimoses espa-

lhadas pelos bracinhos de muitos de meus colegas, as quais eram

produzidas, pelos dedos brutais de um padre que, por sinal, tinha

o nome cronico de Beriedito". Noutras aulas de religiosos, outro

era o sadismo em que se extremavam alguns mestres. 0 que fez

certo cronista dizer que assim como os 2iomas estrangeiros mo-

demos aprendiam-se corri mais rapidez dos lábios à mulher,

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76 GILBEIRTo FREYRE SOMkDOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 77



muito rapaz aprendeu latim no Brasil com igual rapidez, "sacudin-

do clandestinamente os hábitos dos nossos frades."9

Mas não era só ao sadismo de mestres terríveis que o menino

ficava exposto em aulas de frades de conventos ou nos seminários

e nos internatos de que Caraça tomou-se o símbolo. Nesses co-

légios de padres comia-se mal; havia muito jejum; o menino vivia

com fome. Evidentemente, mais de um colé io ou diretor de co-

légio religioso, prevaleceu-se de motivos teofógicos, para realizar

economias ou lucros à custa da alimentação dos alunos.

Parece ?,ue a situação melhorou, sob certos aspectos de higiene,

cor - - - ~ égios oficiais do tipo do Pedro 11 e com alguns dos par-

ticulares. Colégios com nomes de santos-São Luís Gonzaga, Santa

Genoveva, São José-mas já sem o ar de seminários. Fundados

nas cidades mais importantes do Império e não isolados nas mon-

tanhas. De modo que neles se introduziram mais facilmente me-

lhoramentos que a organização urbana facultava: aparelhos sani-

tários e banheiros, por exemplo. No Santa Genoveva, dirigido no

Recife do meado do século XIX por um bacharel, Barbosa Lima,

o aluno era obrigado a tomar banho uma vez por semana e a

lavar os pés todas as noites. 0 trajo era o de homem. Nos dias

de festas, sobrecasaca e calças pretas. Nos outros dias, paletó preto

e calças bEntretanto, nunca sera exa erado acentuar o vaior que tive-

9

ram para a sociedade brasileira nos seus periodos mais difíceis



de integração-os séculos XVI e XVII, no litoral todo, o século

XVIII, na área mediterrânea: s,-.'culos com tanta tendência para

excessos, rebeldias, desmandos e para a preponderância dos va-

lores materiais sobre os imateriaiS e dos interesses de família, ou

de cheies de família, sobre os gerais-os seminários e colégios de

padres. Foi das mais poderosas, no sentido daquela integração, sua

influência sobre os filhos dos ricos e sobre os meninos caboclos,

e através deles, sobre os elementos social e culturadinente mais

indigestos da população. Os meninos formados nesses seminários

e nesses colégios foram um elemento sobre o qual em vez de se

acentuarem os traços, as tendências, por um lado criadoras, mas

por outro dissolventes, de uma formação excessivamente patriarcal,

à sombra dos pais heróicos, de indivíduos em extremo poderosos,

senhores de casas-grandes quase independentes do resto do mun-

do, se desenvolveram, ao contrário, o espírito de conformidade

e certo gosto de disciplina, de ordem e de universalidade, que os

padres, e principalmente os jesuítas, souberam como ninguém

comunicar aos seus alunos brasileiros.

Esses alunos de colégios de padres foram, uma vez formados,

elementos de urbanizaça(-, e de universalização, num meio influen-

ciado podurosamente pcIos autocratas das casas-grandes e até dos

sobrados mais patriarcais das cidades ou vilas do interior, no sen-

tido da estagnação rural e da extrema diferenciação regional. Nas

#

modas de trajar e nos estilos de vida, eles, alunos de colégios de



padres, representaram aquela tendência. para o predomínio do

espírito europeu e de Cidade sobre o meio agreste ou turbulenta-

mente-rural, encarnado muitas vezes pelos seus próprios pais ou

avós. Outras vezes encarnado pelos homens mais brancos, e cheios

de preconceitos de pureza de família e de cor, sendo eles, alunos

de colé os de padres e de seminários, mamelucos, caboclos, bas-

tardos, tfãos-dos muitos órfãos que a caridade dos religiosos

recolhia ou a sabedoria do Estado português dos tempos coloniais,

antecipando-se a idéias modemíssimas, distribuía entre famílias

de homens de bem. Famílias a quem as Câmaras pagavam um

tanto de subvenção meninos-conforme documentos

P ara criar os

Óoardados em arquivos da antiga Capitania de Minas Gerais e

oje em Belo Horizonte: no Arquivo Público Mineiro. Criados

por essas famílias muitos enjeitados foram depois educar-se com

os padres. 0 caso, entre outros, de Diogo Antônio Feijo.

0 numero de homens ilustres da época colonial e dos primeiros

anos do Império que receberam sua educação rimária e secun-

dária nos colégios de padre sobrepuja o dos eSucados em casa,

com capelães e tios-padres. Capelães e tios-padres que, subor-

dinados mais ao pater familias que à Igreja, não deixavam, entre-

tanto, de representar, sob a telha-vã dos casarões patriarcais,

alguma coisa de sutilmente urbano, eclesiástico e universal-a

IVeja, o latim, os clássicos, a Euro a, o sentido de outra vida,

além da dominada pelo olhar dos s - ~"ores, do alto das suas casas-

-Randes. Das casas-grandes exclusivamente suas: tanto que os pró-

prios padroeiros das capelas patriarcais eram santos, que muitas

vezes os patriarcas faziam substituir por outros.

Foram educados em casa o Morgado do Cabo, depois Marquês

do Recife e provavelmente a maior parte dos seus antecessores,

fidalgos rústicos, Pais Barretos de engenhos; muitos dos Albu-

querques e dos Cavalcantis, que já rapazotes seguiam quase dire-

tamente dos engenhos da "mata" para Coimbra ou para universi-

dades francesas, alemãs e inglesas onde alguns deles se formaram

em Filosofia, em Matemática, em Direito e em Medicina. E Joa-

quíni Caetano da Silva, vindo do extremo Sul do Brasil, dizem

que ganhou fama de "menino prodígio" em Montpellier. Também

Joaquim Nabuco foi educado a principio em casa, sob as vistas

da madrinha, senhora do Engenho Maçangana.

Mas nos colégios de padre é que principalmente se educaram,

em maior número, as grandes figuras da política, das letras e das

ciéricias brasileiras dc~s tempos coloniais e do Primeiro Império.

Eusébio e Gregório de Matos, Bento Teixeira, Basílio da Gama o

i;

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78 Gn-BER-ro FpjryRE SOBRADOS E MucAmBos - 1,' To3,ío 79

Santa Rita Durão. Frei Vicente do Salvador e Rocha Pita, Cláu-

dio Manuel da Costa, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto.

Deve-se ainda salientar a ação disciplíriadora dos colégios de

padre, ou mesmo do ensino particular dos capelães, dos tios-pa-

dres, dos caixeiros de engenho, no sentido de conter os excessos

de diferenciação da língua portuguesa no Brasil. Em meios como

os engenhos, as fazendas, os sítios, na maior parte isolados, fora

do mundo, os meninos criados pelas mucarrias, muitos senhores,

uns ignorantaços, muitas senhoras, verdadeiras negras no falar,

comendo os rr e os ss no fim das palavras, trocando os rr por 11;

dizendo fazê, mandá, comé; dizendo cuié e muié; outras, ainda,

trocando o Ih por 1 e dizendo coler e muler; em meios assim

isolados, a corrução da língua se fazia à grande. As diferenciações

se acentuaram de modo alarmante nas zonas agrárias, não apenas

mais distantes, porém mais atriarcais, com Wescravo negro den-

tro de casa, pessoa da fainJa. Ainda hoje os membros de certas

famílias flustres de engenho ou fazenda se deixam identificar por

vícios de pronúncia particularíssirrios, que pegaram com os negros

dentro de casa. Noutras zonas se particularizou a fala numa acen-

tuação de voz toda especial, quase sempre morosa, mas de um

vagar não já de ternura, e sim fanhoso, arrastado, doentio. A

fala dos Wanderley de Serinhaém e Rio Formoso. Um modo de

falar "enfastiado e dando somno", notava o Padre Lopes Cama

a propósito da Iinguagem bordalenga. . ." de muita gente nossa.

E não só do miuçalho como até de "gerarchia elevada". Assim

certa "Dona Mariquinhas", que ele, no seu 0 Carapuceiro, fez

simbolizar toda uma classe: menina bonita, vestindo-se bem, dan-

çando suas quadrilhas, tocando seu piano, cantando. Mas quando

falava, era só pru mode, cadê, oreia, veiaco, cuié, muié, oxente.

Naturalmente o padre-mestre era quase um purista, desejando

uma língua de casa-grande ou de sobrado que não tivesse mancha

de fala de negro. Que não se deixasse salpicar pelo sujo das

senzalas nem pela lama preta dos mucambos. Que fosse a mesma

de Portugal. Mas, por menor que seja nossa simpatia pelo 1 -

u

rismo de língua, com sacrifício de sua espontaneidade, não Sei-



xamos de imaginar com certo horror os excessos que teriam cor-

rompido o português das casas-grandes e dos sobrados patriarcais

-m -1,'fe-n-iações e partirtil~-ii-i-- -nisn de família, o pessoal

de uma casa quase sem entender o de outra, se a favor da pureza

da língua, e por conseguinte, de sua unidade, e da unidade de

toda a cultura brasileira, não tivesse agido desde o século XVI

1-7

o ensino dos colégios de padre. Foi principalmente por esse ensino



que se conservon vivo e ativo aqtiele nervo de integração.

A ação unificadora da língua-iinificadora e ao mesmo tempo

proffiática, 11r1Vn~7',ICIOY3, C111-01ICiZantC-OS COlélui(S de padre exer-

ceram-na do modo mais inteligente. Pelo menos os do tipo repre.

#

sentado no Centro do país p,elo Seminário de Mariana, que Saint-



-Hilaire observou, nos principios do século XIX, vir adoçando os

costumes das populações mineiras, brutalizadas pelas preocupa-

ções de ouro." No Norte, pelo Seminário e, ao mesmo tempo,

Colégio de Pernambuco, fundado na cidade de Olinda pelo Bispo

Azeredo Coutinho.

Tipo de colégio que já não era o jesuítico, com seu ensino exces-

sívamente retórico, literário e religioso. Com seu ensino, por um

lado, quase antibrasileiro. Ao contrário: Azeredo Coutinho trouxe

ara o ensino não só de n,3ninos e rapazes, no Seminário de Olin-

a, como de meninas e mocinhas, no Recolhimento de Nossa

Senhora da Glória do Lugar da Boa Vista, na cidade do Recife,

uma psicologia nova, muito mais doce que a dos adres da Com-

panhia e que a dos mestres-ré Çurriana na sua

,lios. Muito mais

. o

compreensão do ambiente brasi eiro: dos defeitos a corrigir e das



virtudes a aproveitar, do patriarcalísmo colonial. Um dos defeitos

a corrigir-defeito perturbador de todo o pro esso da cultura bra-

sileira no sentido europeu, e da sua fe, no sentido nacio-

nal-era decerto o daqueles vícios de pronúncia, principalmente

da gente da roça e dos meninos de engenho. Vícios que vinham

se acentuando terrivelmente. Às mestras de ler do Recolhimento,

o Bispo recomendava em 1798 que não se descuidassem de cor-




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