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SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo

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era Colonjal - nas Ordens Terceiras e nas instituições oficiais. Durante



^ os próprios senhores patriarcais juntaram às suas responsabilidades as

de -gnédicos", explicando-se, assim, a fácil aceitação que teve entre eles a

~opatia. Entretanto, anúncios de jornais da primeira metade do século

Xix indicam que vários senhores de casas-grandes foram preferindo abdicar

daquela responsabilidade nas mãos de cirurgiões que, como os capelães, se

integrassem no sistema pa~cal, a serviço do pa~ca e concorrendo com

um técnica para a melhor conservação da vida, da saúde e da energia dos

e~vos. Desde os primeiros anos do século XIX foram aparecendo, nas

gazetas, anúncios como este, recolhido do Diário do Rio de janeiro de 13

de março de 1822: "Necessita-se de hum círurgião habil e que tambem

cuide de Medicina, para huma Fazenda de Engenho [ .... Y'.

210 Sr. Edson Carneiro no seu estudo 0 Quílombo dos Palmares (Rio

de janeiro, 1947) destaca que os aquflombados conseguiram retirar do solo

e da mata regionais o necessário para seu sustento, fabricando com madeiras,

fibras, barro, não só casas, potes, vasilha , como vassouras, esteiras, chapéus,

cestas, abanos e fazendo da hamba ou maconha ou "fumo da AngoW seu

substituto do tabaco. Fumavam o "fumo da AngoW em cachimbos feitos

com cocos de palmeira (pág. 32). Pelas informações reunidas por esse e

por outros pesquisadores do assunto, vê-se que os negros orgânizados em

"república" em Palmares conseguiram ser saudavelmente ecológicos ao mesmo

tempo que cooperativistas ou parassocialistas; nos seus estilos de vida e na

sua técnica de produção.

22Não é sem razão que o historiador mineiro Diogo de Vasconcelos e,

baseado nele, A. Teixeira Duarte em seu estudo sobre as origens do coope-

rativiás;mo em Minas Gerais, vêem na organização de Xico Rei para forrar

"ffihos" ou negros da sua "nação", a antecipação, no Brasil, do cooperati-

vismo ou do socialismo cristão. (A. Teixeira Duarte, "Catecismo da Coope-

ração", Rev. Arq.

págs. 341-342).

Púb. Min., Belo Horizonte, 1914, ano XVIII, nota às

Note-se, também, que enquanto as irmandades de brancos faziam-se

notar, na época colonial, em mais de uma área, por extremos de rivalidade,

cada uma cuidando exclusivamente dos seus interesses, na segunda metade

do séMo XVIII a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, do Rio de

janeiro, procurava conseguir "a reunião de todas as írmandades dos homens

pardos", segundo ofício, de 8 de janeiro de 1765, sobre o assunto, que

consta da correspondência dos Vice-Reis do Brasil no Rio de janeiro

(-0ficios para os Vice-Reis do Brasil no Rio de janeiro", fis. 20, livro I-A,

Ms., no Arquivo Público Nacional, Rio de janeiro).

2SCharles B. Mansfield, Paraguay, Brazil and the Plate, Cambridge, 1856,

pág. 91. Veja-se também sobre c, assunto o estudo do Professor Artur Ramos,

A Aculturaçào Negra no Brasil, São Paulo, 1942.

24Ern livro publicado em 1872, o primeiro Mello Morais, que conhecera

o Brasil da primeira metade do século XIX, indignava-se com o declínio

das modinhas, nas casas e sobrados coloniais, cantadas pelas moças finas,

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64 GILBERTO FREN,RE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 65



ao som dos violões: para macaquear a música extrangeira, as brasi-

e,

leiras se envergonhão de cantar as nossas encantadoras modinhas até nas



reuniões de família" (A. J. de Melo Morais, 0 Brasil Social e Político,

cit., pág. 102.)

2513. P. Kidder e J. C. Fletcher, Brazil and the Brazilians, Boston, 1879,

pág. 356.

26Mansfield, op. cit., pág. 98.

27Sabe-se que o pão de trigo foi, por longo tempo, luxo ou requinte de

raros, no Brasil, tal a generalização do uso da farinha de mandioca, solta

ou sob a forma de beiju, cuscuz ou tapioca. Uso a que se juntou o hábito,

muito brasileiro, de acompanhar de arroz uma variedade de carnes, dis-

pensando-se, assim, o acompanhamento do pão de trigo.

28A Antônio Pedro de Figueiredo, por alguns anos redator da revista

0 Progresso, que floresceu no Recife na primeira metade do século XIX,

devem-se alguns dos melhores estudos críticos que se escreveram, então,

no Brasil, sobre a economia e a sociedade patriarcais e, a seu modo, feudais.

Também sobre as alterações de costumes e de arquitetura civil ou domés-

tica, em cidades como o Recife, onde o feudalismo industrial e capitalista

foi substituindo o agrário mais rapidamente do que noutras áreas e mani-

festando-se na construção de palácios ou castelos em estilo "gótico", "mou-

risco", "italiano", em oposição à simplicidade forte e angulosa das casas-

-grandes.

A Figueiredo não escapou o fenômeno de interpenetração, no Brasil da

sua época, de feudalismo e capitalismo.

Interessante para o leitor brasileiro o capítulo Indole de Ia Economía

Colonial" que dedica à interpenetração de feudalismo e de capitalismo na

economia colonial da América Latina, inclusive na do Brasil, o Sr. Sérgio

Bagu, no seu recente Economía de la Sociedad Colonial - Ensayo de His-

toria Comparada de Ia América Latina, Buenos Aires, 1949. Para esse

economista "hay una etapa en la historia capitalista en Ia cual renacen

ciertas formas feudales con inusitado vigor: la expansión del capitalismo

colonial". Fenômeno por ele analisado à página 102 do seu ensaio.

Foi o que sucedeu, de modo geral, na América Latina, e no Brasil, em

particular, onde ~s engenhos tornaram-se a base feudal da sociedade colonial,

com sobrevivências na imperial: a interpenetração de feudalismo e capita-

lismo. Exigindo o escravo, o feudalismo brasileiro apoiou-se num tráfico que

o Sr. Bagu considera, com razão, do ponto de vista estritamente econômico

em que se coloca, de base capitalista, como salienta à página 137 do

mesmo ensaio.

Mesmo, porém, separando-se, um tanto arbitrariamente o aspecto econô-

mico do todo social, é preciso reconhecer-se, como reconhece o Sr. Bagu,

que o chamado "capitalismo colonial presenta reiteradamente en los distintos

continentes ciertas manifestaciones externas que lo assemejan al feudalismo".

Daí o seu ---perfilequívoco", como escreve a pagina 143. 0 que é inegável

é que, através do comércio internacional, que madrugou entre nós, a Amé-

~ Latina contribuiu, como contribuiu a África, para "el deslumbrante flo-

reci,nento, del capitalista europeo". Mas sem deixarem de ser, em várias

#

áreas, feudalistas a seu modo.



Equívoca na sua economia a ponto de parecer ora feudal, ora capitalista,

a sociedade brasileira da época colonial, e até certo ponto da imperial, foi,

nw suas formas, predominantemente feudal: um neofetidalismo penetrado

por influências capitalistas com as quais chegou a entrar em "conflitos arma-

dos-, como reconhece o Sr. Bagu, para emergir, desses conflitos, uma socie-

Ciade complexa em que - como já salientamos mais de uma vez - "mascates"

corno Femandes Vieira tomaram-se, pelo casamento, senhores feudais, imi-

tadas as formas feudais de vida dos elementos economicamente vencidos pelos

economicamente vencedores. Aspecto que tem escapado à observação dos

estudiosos menos profundos do assunto.

Sobre as revivescências de feudalismo, veja-se principalmente o estudo

de Wilhelin Rüpke, Die GeselIschafterkrisis der Gegenward (1942), tradu-

zido ao espanhol e publicado em Madri em 1947 sob o título La Cr"

Social de Nuestro Tiempo. Salienta o Professor Rõpke à página 145 do seu

ensaio que "os caraterísticos feudal-absolutistas" de organização social podem

apresentar-se em diferenças extremas entre poderosos e fracos que corres-

pondern a razões extra-econômicas, explicando-se assim, segundo ele, a sobre-

vivência do feudalismo dentro do próprio capitalismo.

Em 1822, em Memórias Econopolíticas sobre a Administração Pública

no Brasil (Rio de janeiro, 1822-23), escrevia à página 4 da "Primeira Me-

moria" "Hurn Portuguez" que a organização colonial no Brasil "não diferia

do feudalismo" senão na substituição dos "pequenos senhorios" pelos "pretos

escravos" que lavravam para si e não apenas para os senhores. "Hurn Por-

tugueí' percebia que dentro das mesmas formas podem variar os conteúdos,

sem alteração sociológica das formas.

290 Padre Lüpes; Gama foi, dentro de critério diverso do de Figueiredo

e com visão mais limitada que a daquele mulato afrancesado do Recife,,

dos problemas sociais de sua época, crítico dos costumes brasileiros, na sua

fase de transição da predominância do patriarcalismo rural para a do capi-

talismo urbano nas áreas onde essa transição primeiro se manifestou. Ao

mesmo tempo, e um tanto contraditoriamente, foi ele severo adversário dos

Regos Barros, Cavalcantis, Pais Barretos e outros "senhores feudais" cujos

abusos de mando combateu no seu

3011obert Southey, como outros

canos aos insurretos de 1710.

daquele movimento, acerca do

~ ao qual já se fez aqui alusão

jornal 0 Sete de Setembro.

historiadores, atribui intuitos republi-

É assunto hoje controvertido o caráter político

qual tem interessante trabalho em preparo

- o jovem pesquisador pernambucario Clóvis

Melo. Veja-se também A Guerra dos Mascates como Afirmação Nacionalista,

de Mário Melo, Recife, 1941.

31AIfredo de Carvalho lembra que Francisco de Paula Cavalcanti de

Albuquerque, "adepto fervoroso das idéias liberais, cedo constituiu no seu

engenho uma das famosas academias ou clubes nativistas, onde foram ela-

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CILBERTo FREYRE



borados os generosos projetos de independência prematuramente abrolhados

a 6 de março de 1817' (Frases e Palavras, Recife, 1906, pág. 25).

82Mais de uma vez o alto comércio é que foi, no Brasil patriarcal, o

elemento mais solidamente conservador nas suas atitudes políticas, em con-

traste com a população e com o próprio patriciado rurais, salpicados de

liberais exaltados e até de radicais, participantes de revoltas, insurreições e

agitações. Um dos motivos para essa sensibilidade de moradores e até

senhores rurais a idéias de revolta política talvez fosse o observado pelo

Conde de Assumar com relação a Minas Gerais, cujos moradores "gostam

de inquietações p.a não pagarem a ninguem" (Carta de Vila Rica, de 30

de setembro de 1720, ms., cód. n.0 11, Arquivo Público Mineiro). Viviam,

assim, muitos dos moradores dos campos, entregues à agricultura, em estado

de instabilidade econômica, embora alguns deles fossem "filhos dos antigos

e ricos mineiros" que, enriquecidos nas minas, haviam se estabelecido como

fazendeiros ou senhores de terras, por ser, então, o estado mais nobre. Caídos,

porém, em "vergonhosa pobreza", ocultavam na "solidão das roças" suas

'indigencias", enquanto os negociantes das cidades as ostentavam nas ci-

dades. Comparem-se informações sobre os decaídos das zonas rurais da

Capitania das Minas, na "Memoria sobre as Minas da Capitania de Minas

Gerais", escrita em 1801, por José Vieira Couto, e publicada na Revista do

Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, 1905, ano X, com as que nos

fornece sobre os moradores opulentos dos sobrados das cidades o "Triumpho

Eucharistico", de Simão Ferreira Machado (1733) e publicadas na mesma

R~a, Belo Horizonte, 1901, ano VI. Nesta última crônica se destaca que

em Vila Rica estavam "os homens de maior comercio" e também os de

,, maiores letras, seculares e ecclesiasticos toda a nobresa, e a força

da milicia" (pág. 1.000).

33"Vauthier et Ia Centry Pernambucane", Associação de Cultura Franco-

-Brasileira do Recife, Bulletin d'Octobre, 1949. Vejam-se também nosso Um

Engenheiro Francês no Brasil (Rio de janeiro, 1937) e o Diário Intimo do

Engenheiro Vauthier (anotado por nós), Rio de janeiro, 1940.

MIniciada em 4 de abril de 1846.

35Tomo 11, 1846.

36Rio de janeiro, 1837, n.0 II ao n.0 V.

370 Liberal Pernambucano, 26 de janeiro de 1856.

_São


n

111 - 0 PAI E 0 FILHO

To~R lembra que nas sociedades primitivas o menino e o

homem são quase iguais. Dentro do sistema patriarcal, não:

há uma distância social imensa entre o~ dois. Entre "párvulos" e

a ortu:ruesas. Tão grande

adultos", para usar as velhas expressc~s g_

#

como a que separa os sexos: o "forte , Jo -fraco", o "nobre", do



"belo". Tão grande como a que separa as classes: a dominadora,

da servil-às vezes sob a dissimulação de raça ou casta "superior"

e "inferior".

É verdade que a meninice, nas sociedades patriarcais, é curta.

Quebram-se logo as asas do anjo. E deste modo se atenua o

antagonismo entre o menino e o homem, entre o pai e o filho.

Nos períodos de decadência do patriarcalismo-tal como o estu-

dado nestas páginas-semelhante antagonismo não desaparece:

transforma-se, ou antes, prolonga-se, na rivalidade entre o ho-

mem moço e o homem velho.

Tamanho é o prestígio do homem feito, nas sociedades pa-

triarcais, que o menino, com ver onha da meninice, deixa-se ama-

durecer, morbidame----, -- 1 tempo. Sente gosto na preco-

cidade que o liberta da grande vergonha de ser menino. Da infe-

rioridade de ser párvulo.

Tamanho é o prestigio da idade grande, avançada, provecta,

naquelas sociedades, que o rapaz imita o velho desde a adoles-

cência. E trata de esconder por trás de barbas de mouro, de

óculos de velho, ou simplesmente, de uma fisionomia sempre

severa, todo o brilho da mocidade, toda a alegria da adolescência,

todo o resto de meninice que lhe fique dançando nos olhos ou

animando-lhe os gestos. Se pinta a barba é para não parecer

decrépito.

No Brasil patriarcal, o menino-enquanto considerado menino-

foi sempre criatura conservada a grande distância do homem, A

grande distância do elemento humano, pode-se acresc,.n~ar,

I

1~

H



67

#

68



GiuaERTo FREYRE

Até certa idade, era idealizado em extremo. Identificado com

os próprios anjos do céu. Criado como anjo: andando nu em

casa como um Meninozinho Deus.

Morto nessa idade angélica, o menino era adorado. As mães

regozijavam-se com a morte do anjo, como a que Luccock viu

no Rio de janeiro, chorando de alegria porque o Senhor lhe tinha

levado o quinto filho pequeno. Eram já cinco anjos à sua espera

no céu11

Du Petit-Thouars viu em Santa Catarina, em 1825, um menino

morto francamente adorado: "[ .... ] vi, no fundo da sala, um

estrado sobre o qual estava disposto no altar uma criancinha,

cercada de lírios e vasos com flores; tinha o rosto descoberto e

estava ricamente vestida, tendo na cabeça uma coroa de sempre-

-vivas e um ramo na mão". Em volta do altar com o meninozinho

morto, esteiras; e ajoelhadas sobre as esteiras, mulheres em trajos

de festa, cantando. D~pois houve até danças ale res.2

Essa espécie de volupia em torno da morte 1 criança, já

sugerimos em estudo anterior3 que talvez se derivasse dos jesuí-

tas: do seu afã de neutralizar o rancor dos índios contra os bran-

cos e narticularmente contra eles, padres, diante da grande mor-

talidãe de culuminzinhos que se seguiu aos primeiros contatos

dos dominadores europeus com aXopulaçao nativa. Essa morta-

c

c



lidade, tendo também se verifica o entre as famílias européias

ou de origem européia, a estas se teria comunicado também a

alegria, por assim dizer teológica, estimulada pelos padres, em

torno da morte das crianças. Alegria mórbida, desenvolvida para

consolo das mães em época de condições as mais anti-higiênicas

de vida. Principalmente nas vilas e cidades: as vilas e cidades

dos primeiros séculos coloniais.

Mas essa adoração do menino era antes dele chegar à idade

teoló ica da razão. Dos seis ou sete anos aos dez, ele passava a

g1

menino diabo. Criatura estranha que não comia na mesa nem



participava de modo nenhum da conversa da gentejrande. Tra-

E

tado de resto. Cabeça raspada: os cachos do tei e anjo guar-



dados pela mae sentimental no fundo da gaveta da côn~oda ou

oferecidos ao Senhor dos Passos para a cabeleira de dia de

procissão.

E porque se supunha essa criatura estranha, cheia do instinto

de todos os pecados, com a tendência para a preguiça e a malícia,

seu corpo era o mais castigado dentro de casa. Depois do corpo

do escravo, naturalmente. Depois do corpo do muleque leva-

-pancada, que às vezes apanhava por ele e pelo menino branco.

Mas o menino branco também apanhava. Era castigado pelo pai,

#

pela mãe, pelo avô, pela avó, pelo padrinho, pela madrinha, pelo



tio-padre, pela tia solteirona, pelo padre-mestre, pelo mestre-

PA&


OS ESTILOS DE BARBA MAIS COMUNS NO BRASIL DO SÊCULO XIX-

(Desenho do autor.)

-régio, pelo professor de Gramática. Castigado por uma sociedade

de adultos em que o domínio sobre o escravo desenvolvia, junto

com as responsabilidades de mando absoluto, o gosto de judiar

tambéríi com o menino. 0 regime das casas-grandes continua a

imperar, um tanto atenuado, nos sobrados.

0 domínio do pai sobre o filho menor-e mesmo maíor-fora

no Brasil patriarcal aos seus limites ortodoxos: ao direito de

matar. 0 patriarca tomara-se absoluto na administração. da justiça

de família, repetindo alguns país, à sombra dos cajueiros de en-

genho, os gestos mais duros do patriarcalísmo clássico: matar e

mandar matar, não só os negros como os meninos e as moças

brancas, seus filhos.

#

70 CiLBERTo FRz~ SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 71



Diz-se que até o gesto célebre de Salornão chegou a ser imi-

tado por um desses velhos de casa-grande. Velhos ásperos para

quem julgar e justiçar a própria família era uma das imposições

tristes, porém inevitáveis, da autoridade de patriarca. Tal o cha-

mado Velho da Taipa, grande senhor de Pitangui, na capitania

das Minas, onde nos princípios dQ s'culo XVIII levantara no alto

de um morro sua casa de taipa, daí reinando patriarcalmente

sobre toda a região. Conta-se que um rapaz português, vindo do

Reino, casara-se com uma menina, filha do Velho, chamada Mar-

garida. Um dia-quem de repente chega a Pitangui? A esposa

portuguesa do genro do patriarca. (Os casos de bigamia parece

que foram freqüentes em regiões como a das minas, de Eopulação

flutuante, constituindo um roblema difícil para os ispos de

Mariana, depois de terem siSo o maior espantalho de patriarcas

severos com filhas moças dentro de casa.) Foi quando, diz a

tradição, o Velho da Taipa tendo de decidir a questão, repetiu

o festo do rei hebreu: e ele pró rio-contam em Minas-partiu

pe o meio, a machado, o corpo To rapaz, entregando uma me-

tade à filha, a outra metade à mulher vinda do Reino, em busca

do marido.

A administração da justiça pelo patriarca sobre a própria fa-

mília, a autoridade exercida pelo adulto sobre o párvulo, no

interesse real ou ostensivo da educação, ou da moralização do

menino, não há dúvida que tomou muitas vezes o caráter fran-

camente sádico que, em trabalho anterior, já procuramos salientar.4

Sadismo, que a enas se atenuou ao estender-se o sistema patriarcal

das c - - g Ses aos sobrados das cidades, onde os velhos con-

tinuaram a reinar sobre os moços de modo quase absoluto.

Essa pedagogia sádica, exercida dentro das casas-grandes pelo

atriarca, pelo tio- adre, pelo capelão, teve com a decadência

o patriarcado ruraf seu prolongamento mais terrível nos colégios

de p~dre e nas aulas dos mestres-régios. Mas principalmente nos

colégios de padre do tipo do Caraça. Os país autorizavam mes-

tres e padres a exercerem sobre os meninos ~ o poder patriarcal

de castIá-los a vara de marmelo e a palmatoria.

Afrav s de processo tão cru de ensinar ao aluno o Latim, a

Gramática, a Doutrina, as boas maneiras, conservou-se enorme

a distância social entre o homem e o menino. Nos colégios de

Sadre, aprimorou-se o principio dp ser a meninice, dos seis aos

ez ouaos doze anos, idade teologicamente imunda, durante a

qual o indivíduo, sem as virtudes do adulto, adquiridas a custo,

se fazia tolerar pelas maneiras servis, pelos modos aca-

pelo respeito quase babugento aos mais velhos. Era então

tolerado: mas não se aproximasse dos adultos, nem levantasse

a voz na presença deles, nem se desse a afoitezas de respondão.

Respondesse baixo mesmo aos que falassem com ele gritando,

quase como aos negros; desaparecesse da sala quando os grandes

estivessem conversando; brincasse sem fazer assuada. Em resumo,

#

ardasse dos mais velhos uma distância de inferior, de subor-



Ra

*nado, de subserviente.

Essa distância, quando não conservada pelo próprio menino,

lhe era imposta por todos os jeitos, mesmo os mais cruéis. Através

de castigos e humilhações de que o folclore guarda reminiscências

dramáticas, ao lado da documentação oferecida por autobiogra-

fias e memórias: homens que na meninice sofreram horrores dos

pais, dos tios-padres, do padrasto e da madrasta; e nos colégios,

de mestres terríveis. Homens que, como os escravos, desde pe-

uenos oprimidos por senhores mais autoritários, ficaram gagos

os excessos de despotismo exercido sobre eles por pais ou~a~ós

terriveis e, por delegação de poder patriarcal, por padres-mes-

tres, mestres-régios, professores de Latim. Os anuncios de negros

fu *dos referem numerosos casos de escravos gagos, cuja causa

talvez fosse o terrorismo, o despotismo e às vezes até o sadismo

dos senhores velhos sobre os mulequinhos. E gago ficou também

muito menino de formação patriarcal. Muit(~ áurio de colégio

de padre.

0 colégio de padres, quase sempre sobradão enorme, é um

dos edifícios que marcam na paisagem social do Brasil, a partir

do século XVIII, a decadência do patriarcado todo-poderoso da

casa-grande. No primeiro século de colonização, o colégio de je-

suítas já chegara a fazer sombra, em cidades como Salvador, às

casas-grandes e aos sobrados patriarcais, na sua autoridade sobre

o menino, a mulher, o escravo. Com relação ao poder sobre o

menino o jesuíta antecipou-se no Brasil em ser o mesmo rival do

Patriarca que com relação ao escravo indígena.

Pelo colégio, como pelo confessionário e até pelo teatro, o




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