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desenvolvimento mais acentuado, no meado do século XIX, em

Pernambuco que noutra qualquer Provincia do Império, mesmo

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GILBERTo FREYRE



depois que o fracasso da "Revolta Praieira" amoleceu o ânimo

de alguns entusiastas do fal~ngísmo.

A 5 de janeiro de 1856 o proprio Diário de Pernambuco, depois

de noticiar terem entrado no orto do Recife "varios navios de

bacalhau", salientava o fato Je continuar a "necessidade desse

artigo". 0 que devia atribuir-se à "avareza de certos especula-

dores" e a "falta de medidas policiais". Admitia assim o diário

conservador, sob a forma um tanto simplista de "medidas poli-

ciais", a intervenção do Estado na vida econômica. Intervenção

reclamada pelos socialistas de formação francesa como Figuei-

redo e pelos quase-socialistas como Feitosa-ambos, aliás, homens

de cor aristocratizados em líderes intelectuais pela inteligência

e selo saber. Continuadores, ambos, dos homens de cor afrance-

a os da conspiração baiana de 1798 e não apenas dos insurretos

negros e pardos do Recife de 1823, para quem o inimigo estava

no "caiado" e a inspiração no Mei Cristóvão" de Haiti.

Dirigindo-se a esse mesmo Antônio P. de Figueiredo, a 7 de

agosto de 1852, e que o Professor Autran acusara ao socialismo-a

cuja escola lamentava pertencer Figueiredo-de proclamar a "co-

munhão das mulheres", artigo respondido por Figueiredo no

Diário de Pernambuco de 12 do mesmo mês. Escreveu então o

chamado "Cousin Fusco": "0 socialismo não é uma doutrina, ainda

não passa de uma aspiração, mas esta aspiração tende a reformar

o estado atual social em prol do melhoramento moral e material

de todos os membros da sociedade." Inclusive- deria ter acres-

centado-das mulheres, das quais havia no BrasiMomunhão" sob

o regime patriarcal ainda em vigor: patriarcal e polígamo.

NOTAS AO CAPITULO I1

lConfirmando nossa observação neste ensaio, o Sr. Emâni Silva Bruno,

em seu notável trabalho, sobre a cidade de São Paulo, intitulado História

e Tradições da Cidade de São Paulo, Rio de janeiro, 1953, lembra a precarie-

dade das construções paulistas, na era colonial, salientando que as primeiras

casas de Piratininga foram cobertas com sapé ou com palha aguarirana ou

guaricanga. Por conseguinte, mucambos, como aliás as primeiras casas do

Recife e até de Salvador. Em 1590 apareceu em Piratininga o primeiro

sobrado entre casas já cobertas de telha, e em 1594, um correr de casas

altas de sobrado. Nas áreas rurais continuou por muito tempo a ser

precária a construção paulista e nas cidades, também durante muito tempo,

o tipo dominante de casa foi o baixo, acaçapado, descrito pelo historiador

Almeida Prado no seu "São Paulo Antigo e sua Arquitetura", Ilustração

Brasileira, Rio de janeiro, setembro, 1929.

20 Conde de Assumar a Bartolomeu de Sousa Mexia em carta datada

de 9 de fevereiro de 1720. Refere-se particularm ente a Pitangui como habi-

S013RADOS E MUCAMBOS - L' Tomo

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tado por paulistas "cujas habitações sem pre tem pouca forma, porque a sua



vida e a natural propensão que tem de andarem pelos mattos, faz que as

suas; povoaçoens não sejam persistentes. . . " ( Ms., códice n.o 11, antigo 10,

da scoo colonial do Arquivo Público Mineiro, Cartas, ordens, despa-

pachos e bandos do Conde de Assurnar). Evidentemente o tipo de habi-

tação refletia a instabilidade da economia e, talvez, as predominâncias de

temperamento, daqueles bravos aventureiros empenhados em descobrir ouro

ou pedras preciosas. Também a marginalidade de sua cultura, em alguns

pontos mais próxima da dos indígenas do que da dos europeus.

3Um dos empenhos dos Reis de Portugal, desde que eles ou seus con-

selheiros começaram a compreender que o futuro do Brasil estava não no

ouro, ou nos diamantes, mas nos "assucares e tabacos porque estes são estaveis

e perpetuos" (Relatório do Conselho Ultramarino de 26 de outubro de 1706,

códice 232, do Arquivo Histórico Colonial, de Lisboa, citado pelo historiador

Manuel Cardoso no seu estudo "Brazilian Cold Rush", The Americas, Wa-

shington, 1946, vol. III, n.0 2, pág. 149), foi no sentido de que sua colónia

americana se povoasse com gente também estável e, por conseguinte, casada

e moradora de casas estáveis. Donde a carta del-Rei a D. Lourenço de

Almeida, Governador e Procurador das Minas em 1729 - quando se fez

naquela capitania cuidadoso levantamento da população escrava - e na

qual se dizia: "[ .... 1 procureis com toda deligencia possível para que as

pessoas principaes, e ainda quaesquer outras tomem o estado de casadas

e se estabeleçam com suas familias reguladas na parte que elegerem para

sua população porque por este modo ficarão mais obedientes ás Minhas reaes

ordens, e os filhos que tiverem do matrimonio os farão ainda mais obedientes,

e vos ordeno me informeis se será conveniente mandar eu que só os casados

possam entrar na governança das camaras das villas, e se haverá sufficiente

numero de casados para se poder praticar esta ordem [ .... 1". Em resposta,

informava a el-Rei, D. Lourenço: 1 .... 1 Com todas as forças fizera maior

diligencia por executar esta real ordem de V. Mag., assim para obedecer

como sou obrigado; como porque vejo o gde serviço que se fazia a Deos

nosso Senr. conseguindo-se que estes moradores destas minas casassem, por-

que só assim se livrariam do mau estado em que andam quasi todos; porem

é impossivel que se possa conseguir dar-se a execução desta real e santa

ordem de V. Magde. porque em todas estas minas não ha mulheres que

hajão de casar, e quando ha algila, que vivesse em companhia de seus pays

(que são raras) são tantos casamentos que lhe sahem que vê o Pay da

noyva em grande embaraço sobre a escolha que ha de fazer do genro, como

ha esta impossibilidade para haver casados me parece q. V. Magde. não

prohiba que entre na governança das camaras os solteiros porque os homens

casados sam muito poucos, e pela maior parte vivem em fazendas distantes

das villas." Infonnava ainda D. Lourenço: `[ .... 1 e mostra a experiencia

nos poucos casados que ha nestas terras, que sam muito mayores trabalha-

dores em desentranharem ouro da terra que este, solteirões que só lhes leva

o tempo occuparem em extravagancias, e como V. Magde. com a sua real

ordem, e compreliençao tem justissimamente entendido o quanto convem

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que haja grande numero de casados nestas Minas; ponho na real noticia

de V. Magde, que me parece que hum dos meios mais faceis que ha para

que venham mulheres cazar a estas minas é proibir V. Magde. que nenhuma

mulher do Brasil possa hir para Portugal nem ilhas a serem freiras [ .... Y,

(Cartas citadas por Feu de Carvalho, em "Primeiras Aulas e Escolas de

Minas Gerais, 1721-1860", Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Hori-

zonte, 1933, vol. I, ano XXIV, págs. 350-351).

4"[ .... I the planters remain fixed to their ancient habits, without thin-

king of the slightest improvement of their condition. Rich people are there

found, who, though they send in the course of the year several Tropas laden

with goods to the capital, and sell perhaps 1000 or 1500 oxen, occupying

miserable hovels, one story high, composed of mud, and not even white-

-washed; with which all the rest of their domestic arrangements completely

accord, except cleanliness of dress, which is seldom wanting" (Principe

Maximiliano Neuwied, Travels in Brazil in 1815, 1816 and 1817 (trad.

do alemão), Londres, 1820, pág. 53). Sobre o assunto veja-se também o

estudo do historiador Alberto Ribeiro Lamego, 0 Homem e o Brejo, Rio

de janeiro, 1945.

5Padre Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil, 2.a ed., Rio

de janeiro, 1939.

SNo século XVIII, o Vice-Rei Marquês de Lavradio referia-se aos -commis-

sarios volantes que vinham da Europa trazendo infinita fazenda", sem, entre-

tanto, fazerem "aluguel de casas e armazens" ("Relatorio", Rev. Inst. Hist.

Geog. Br., Rio de janeiro, janeiro, 1843, n.o 16, pág. 457). Vinham eles "a

titulo de officiaes de navios e muitos até de marinheiros". Donde, provavel-

mente, terem os mascates e negociantes portugueses se tornado conhecidos, no

Brasil, como "marinheiros" e muitos se feito notar pela sofreguidão de fazer

fortuna com que regressassem a Portugal. Também pelo que Capistrano de

Abreu denominou "transoceanismo".

D'Assier - um dos europeus que melhor estudaram a sociedade pa-

triarcal brasileira quando mais afetada pelo desenvolvimento das cidades

e do comércio do que na época de Debret ou de Luccock, de Saint-Hilaire

ou de Koster - procurou explicar o fato do ---peu de luxe exterieur de cer-

taines demeures qui abritent des senhores plusieurs fois millionaires" -

recordando que -les premiers colons portugais n'étaient venus sur cette terre

de 1'Eldorado que pour faire une fortune rapide- (Adolphe d'Assier, Le

Brésil Contemporain, Paris, 1867, pág. 190). Generalização válida antes

para a grande parte dos portugueses que aqui pretenderam enriquecer no

comércio do que para os que se estabeleceram como senhores de terras.

Mesmo entre os primeiros foi crescendo, com o tempo, o número daqueles

que a voltarem de vez a Portugal preferiram fixar-se no Brasil e dos quais

pode ser considerado típico o caso do açoriano conhecido por D'Assier no

Rio de janeiro: chegado à capital brasileira sem outros bens senão a camisa,

as calças e o colete aqui foi economizando suas patacas através de uma

vida de trabalho e de privações capaz de levá-lo à posição de fazendeiro

e ao título de comendador. A não ser que a tuberculose ou a febre amarela

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SOBP,kDOS E NIUCANIBCS - 1.0 ToNIO



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lho interrompesse a carreira (D'Assier, op. cit., pág- 192). Mais de um

português chegou a ser no Brasil pessoa importante, tendo sido durante

anos caixeiro ou mascate, amigado com negra ou mulata com a qual mais

de um, cristãmente, casou-se, já depois de rico e pai de numerosos mestiços.

Seu etnocentrismo quase sempre limitou-se a procurar fazer do comércio,

,nonopólio de portugueses, como reparou o Marquês de Lavradio no seu

"Relatorio" cit., pág. 452. Não só monopólio: espécie de sociedade secreta

aonde não pudesse entrar brasileiro ou europeu de outra origem. Mas essa

exclusividade por sentimento antes de classe, cedo afirmado no Brasil na

chaniada "Guerra dos Mascates", que, propriamente, de raça.

Sobre a "Guerra dos Mascates" considerada no seu aspecto sociológico,

veja-se o esquecido estudo 0 Matuto, de Franklin Távora, edição de 1929,

Rio de janeiro, onde se sugere: "Enfim a luta era menos de fidalgos e peões

que da agricultura ameaçada de ruína e do comércio que aparecia como um

tirano" (p. 62).

Acerca do assunto prepara há anos interessante ensaio de interpretação

sociológica, do ponto de vista marxista, o Sr. Clóvis Melo, para quem estamos

certos, no presente ensaio - por ele lido na 1.a edição - ao sugerirmos a

'confusão racial" no conflito entre Olinda e o Recife. Destaca o Sr. Clóvis

Melo no seu estudo, ainda em ras.: 'I .... 1 o terço dos Henriques [ .... 1

aderiu aos olíndenses enquanto que os índios de Camarão, aldeados no

interior da Capitania, portanto dentro do mundo rural passou-se

inteiramente para os mascates".

7D'Assier, op. cit., págs, 260-264. Franceses e alemães, principalmente

judeus, e, em certas especialidades ciganos, acabaram suplantando os por-

tugueses como mascates. No Brasil do meado do século XIX já eram raros

os portugueses, mascates.

8Dos mascates da primeira metade do século XIX D'Assier escreve que

"ce mascate (colporteur) fripon qui court fazendas (plantations) avec ses

caisses de faux bijoux" era uma potência num país novo como o Brasil

(op. cit., págs. 261-262). Ao seu ver, através principalmente de mascates

é que as modas e indústrias do Norte da Europa suplantaram as portuguesas,

entre os brasileiros: "Le premier pas une fois fait, senhores et senhoras se

trouvent comme emportés par une machine qui, à chaque tour de son

engrenage, met en pièces quelque vieillerie portugaise" (pág. 262). Veja-se

também o livro de M. H. L. Séris, A Travers les Provinces du Brésil, Limoges,

s. d., pág. 19, que se refere à ação dos "marchands colporteurs" no desen-

volvimento do comércio de produtos franceses e alemães no Rio Grande

do Sul. É também interessante, para o estudo do assunto, o recente ensaio

do Sr. Nilo Bruzzi, Casimira de Abreu, Rio de janeiro, 1949.

90s negociantes ambulantes estrangeiros, no Brasil, passaram a ser co-

nhecidos, em certas áreas, por "gringos" dentro da velha tradição peninsular

de denominar-se "gringo" o cigano ou o vagamundo. Aos negociantes ambu-

lantes estrangeiros juntaram-se, na área do São Francisco, durante o século

XIX, os mascates negros: negros livres a serviço de negociantes fixos da

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60 CALBERTo FRrYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo

Bahia que percorriam esse trecho do interior brasileiro "munis de bijouterie

fausse, de verroterie, ou d'autres objets de bimbeloterie dits articles de

Paris, qu'ils offrent et vendent aux esclaves en les séduisant par les sons

d'un harmoniuni ou accordéon dont ils ont soin de se munir, On connaít le

faible des nègres pour la musique [ .... 1. On compte à Bahia plusieurs

riaísons de commerce que ont à leur service de soixant à quatre vingts de

ces nègres colporteurs" (Séris, op. cit., pág. 90).

A respeito de "gringos" convém lembrar que os ciganos foram, na sua

especialidade - a venda de escravos e cavalos - os primeiros vendedores

ambulantes que se tornaram conhecidos em trechos remotos do Brasil. Talvez

daí se tenha oridriado a generalização do termo "urin,,0" para designar

mascate estrangeiro ou vendedor ambulante exótico, ordinariamente pouco

familiarizado com a língua da terra. r assunto controvertido, havendo quem

suponha ter o termo se originado no México para designar o ianque ou o

norte-americano, ou no Chile, para designar o inglês, que foi também cha-

mado "gringo" no Brasil. Cuidadoso pesquisador que se ocupou do assunto,

Lúcio V. Mancilla, em estudo sobre Rozas, sustenta que "gringo" não deve

sequer ser considerado "americanismo", pois é como "gringos" que se conhe-

cem desde dias remotos, na Espanha, vagamundos, tais como os ciganos.

E no velho historiador brasileiro Pereira da Costa - no seu trabalho, ainda

inédito, sobre ciganos no Brasil, depositado na seçqo de Mss. da Biblioteca

do Estado de Pernambuco - encontra-se a informação de que os ciganos,

chegados ao nosso país, como se sabe, ainda na época colonial, eram conhe-

cidos por "gringos".

Daí é que, talvez, o termo tenha passado a designar ingleses andejos

que, com seu linguajar estranho para os ouvidos brasileiros e com sua apa-

rência também exótica para os olhos da nossa gente colonial, foram, depois

dos ciganos, os primeiros estrangeiros a aparecerem, em grande número,

no Brasil. 0 fato é que passaram a ser chamados "gringos" ao mesmo

tempo que "bifes", 11 godemes", "bodes", "baetas", etc.

Um inglês que se especializou no estudo das atividades inglesas ou bri-

tânicas na América Latina, Koebel, verificou que o termo "grin-o", nos prin-

cípios do século XIX, era aplicado com "imparcial generosidade', por latino-

-americanos, a europeus e norte-americanos. Mas - nota ele - fora antes

aplicado especialmente ao inglês ou ao "Britísher". No Chile, colheu o mesmo

pesquisador pitoresca explicação da origem do termo "grinao", aplicado aos

ingleses antes de ter sido aplicado aos norte-americanos. Teria a palavra se

originado do seguinte: velha balada cantada por marinheiros ingleses de

outrora, enquanto reinavam dos navios para os portos. Dizia a balada dos

marinheiros ingleses:

"Grcen grow the rushes, 0!"

E esse ",reeii arotu" foi parecendo aos omidos chilenos, aos ouvidos

latino-anicric111nos, , ,, iii110--- (W. 11. Koebel, Britisli Exploits ín S0,1t1~ Ame-

rica, NoNa Jorque, 1917, p,'tz.

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-G,een grow" teria se contraído em "gringo" como `god damn" em



-godeme. to, informa-nos do Rio Grande do Sul o Professor V.

Sobre o assun

R,5somano que na área de Pelotas, pelo menos, a gente do povo, ainda

hoje, 'Iriclina-se a englobar sob a mesma denominação - gringo - todos

os estrangeiros." É aplicada aos ingleses "mas sem cunho pejorativo."

nn seu Vocabulário Pernambucano (publicação póstuma, separata do

vOL XXXIV da Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico

de Pernambuco, Recife, 1937) o citado Pereira da Costa dá como "gringo",

no Brasil, "certa ordem de estrangeiro de baixa esfera como o italiano, o

árabe, o turco, e particularmente o cigano", acentuando que nas Repúblicas

platinas e do Pacífico "dá-se, em geral, o nome de 'gringo' ao estrangeiro

cuja fala difere totalmente da castelhana e, no Chile, particularmente, ao

ingla.

IOSobre "negras boceteiras" que foram, a seu modo, mascates e como



tal penetraram no interior de sobrados patriarcais, veja-se o Carapuceiro,

Recife, 1839.

"Veja-se Cabriel Soares de Sousa, Tratado Descritivo do Brasil em 1587,

3.a ed., I, São Paulo, 1938. Teodoro Sarripaio lembra que a cidade do Sal-

vador começou por "uma cerca muito forte de pau-a-pique" dentro da

qual, "segundo os arruarnentos-, foram construídas "casas cobertas de palha

ao modo da terra [ .... 1 uma cidade de palha como uma aldeia de gentio"

(op. cit., pág. 176). já havia a povoação de Diogo Álvares, o Caramuru,

perto da qual se estabeleceram os colonos do Donatário, indicando documento

de 1536 - "Relação de Francisco Martins Coutinho de 1536" - citado

pelo mesmo historiador, que o referido Donatário "[ .... 1 poz a villa no

melhor assento em que tem feito casas para cem moradores e tranqueíras

em redor e uma torre já no primeiro sobrado" (op. cit., pág. 139). Foi um

dos primeiros sobrados no Brasil: 'I .... 1 a primeira obra d'arte que na

Bahia do tempo do donatario se construiu", diz da torre, Teodoro Sampaio.

12Gabriel Soares de Sousa, op. cit., 1, pág. 344. Em nota ao cronista,

salienta o Professor Pirajá da Silva que "as doceiras serviam-se da resina

do caju para fazer alcorça de açúcar", explicando que alcorça é ---massa

fina de açúcar purificado e farinha para fazer ou cobrir doces", segundo

processo assimilado dos árabes pelos portugueses (op. cit., pág. 345, nota).

Salienta também as "virtudes medicinais depurativas" do caju, já salientadas

por Cabriel Soares. Sobre o assunto veja-se também o estudo do Professor

Dante Costa, "Contribuição ao Estudo do Caju e Doces de Caju", separata

da Revista Brasileira de Medicina, Rio de janeiro, fevereiro, 1948, vol.

V, n.o 2.

13GabrieI Soares de Sousa, op. cit., I, págs. 3Z5-326. Referindo-se à

"terrível peçonha" que é "a da agua de mandioca", informa o mesmo

cronista que com ela "muitas indias mataram seus maridos e senhores

[ .... ] do que tambem se aproveitaram, segundo dizem, algumas mulheres

brancas contra seus maridos [ .... ]" (1, pág~ 320).

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14Tollenare, no Norte, e Saint-1lilaire, no Sul do Brasil, chegaram, nos

princípios do século XIX, à mesma conclusão: que - como generaliza Saint-

-Hilaire - "l'intérieur de maisons, rescrué pour les femmes, est un sanctuaire

oà 1'étranger ne penétre jamais [ .... 1 les jardins toujours placés derrière

les maisons sont pour les fcpimes un faible dedommagement de leur cap-

tivité et comme les cuisines on les interdit scrupuleusement aux étrangers"

(Voyage dans I'Intérieur du Brésil, Paris, 1830, 1, pág. 210).

15Saint-Hilaire, op. cit., 1, pág- 151.

16Vários foram os observadores estrangeiros que, durante os séculos XVII

e XVIII e a primeira metade do XIX, ficaram impressionados com o modo

despótico dos brasileiros tratarem as esposas. No meado do século XIX, o

norte-americano Stewart escreveu: "The native female of the better classes

is still to be regarded as a kind of house prisoner [ .... T' (C. S. Stewart,

B'razil and la Plata: The Personal Record of a Cruize, Nova Iorque, 1856,

pAg. 148).

17Também impressionou aos observadores estrangeiros da sociedade bra-

sileira, quer durante a época colonial quer durante' a primeira metade do

século XIX, a reclusão das moças solteiras nas camarinhas das casas-grandes

e na alcovas dos sobrados, quando não nos conventos. 0 geógrafo-historiador

A. W. Sellin, escrevendo já na segunda metade do século XIX, notou que

o tratamento das mulheres pelos maridos tornara-se, no Brasil, "muito mais

atencioso que entre nações que lhe são superiores em civilização". Mas des-

tacando: "Outrora as mulheres, particularm ente as filhas solteiras, eram

muito vigiadas. Só saíam às ruas escoltadas por parentes, eram retiradas

mui cuidadosamente das vistas do estrangeiro, tinham de consentir que nas

janelas de seus quartos de dormir fossem postas grades para garanti-las de

raptos" (Geografia Geral do Brasil, trad., Rio de janeiro, 1889, pág. 105).

18Veja-se o resumo das observações feitas no Brasil por De Ia Salle, que,

durante os anos de 1837 e 1839 fez a volta do mundo na corveta La Bonite,

por C. de Melo Leitão, Visitantes do Primeiro Império, São Paulo, 1934,

pág. 84. Reparou o comandante francês! "[ .... 1 se por seu aspecto, a

cidade do Rio de janeiro lembra as cidades da Europa, o povo que circula

em seus quarteirões mui depressa destrói essa ilusão. Os homens e sobre-

tudo as damas da sociedade brasileira saem pouco de casa. Não as vemos,

como suas semelhantes em França, aparecer nas ruas ou nos passeios

públicos.---

19Livro Ms. da Càmara do Recife, 1828. Livro Ms. da Càrnara de Olinda,

1833, Seção de Níss. da Biblioteca do Estado de Pernanibuco; Posturas da

Câniara de Salvador, 1844, Ms., segundo cópia que nos foi gentilmente

fornecida pela Diretoria do Arquivo, Divulgação e E~tatística da mesma

cidade.

'-")As casas-grandes até certo ponto continuadas pelos sobrados patriar-



cais das cidades, desenipenhanin funções de assistència social e médica no

meio brasileiro, respon,,abilidade que foram aos poucos abdicando nas santas

casas de ini~criLoidia - alias fumUa~, iio Bra~iI, nos primeiros anos da




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