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nados à dança e à música, parecendo-lhes sua condição-diz o

1

inglês Andrew Grant à página 45 de sua History of BrazíI-su-



perior à dos escravos das plantações. Generalização discutívet

a não ser que por escravos de plantação apenas se subentendam

os de eito sob feitores cruamente exigentes. Ou se comparem

cidades prósperas com áreas rurais já decadentes como na segunda

metade do século xIX o Norte açucareiro.

Na maioria das casas'de engenho do Norte, declarava Coelho

Rodrigues no Congresso Agricola de 1878 que o luxo, se ainda

havia, "era muito pouco e ainda assim e mesquinhez com arado

ao tratamento das grandes fazendas no Sul do Imperio". Rande

numero de senhores de engenho do Norte nem mobília ostenta-

varri mais nas suas salas de visita -Nois para o geral dos agri-

4

cultores, esta [a mobília] não ass~ e algumas mesas, bancos e



tamboretes fabricados na localidade". E na sua mesa, re~ lava

custo enviado '.

P--- ojantar o charque ou o bacalhau, a p cor-

respon ente para sustento da fábrica"; e nos domingos "um pe-

sinho de carne tomado no sábado na feira vizinha". 0 almoço

uma xícara de café com beiju, tapioca, cará, rnacaxeira-"quando

houve tempo para plantá-la". A ceia, a mesma coisa. E o pão e a

bolacha só apareciam a mesa nas casas-grandes mais opulentas;

nas outras era luxo raro.27 Em tais engenhos, a vida do negro

escravo já não podia ser tão fácil e alegre como nos engenhos

fartos e prósperos.

A relativa facilidade de vida na região do açúcar já afetada

pela descoberta das minas foi declinando ainda mais`com o surto

do café. Nas cidades, os sobrados dos senhores de engenho mais

imprevidentes foram ficando casarões onde já não se renovava a

pintura nem se coloriam à moda oriental ou se envernizavam à

moda francesa os jacarandás. Os ratos, os morcegos os mal-

-assombrados foram tornando conta dessas casas mal cuid'adas. Os

negros, as caixas de passa, as latas de ervilha, os pianos ingleses

os vinhos franceses-tudo foi ficando mais caro: mais difícil d_e

#

ser adquirido pelos fidalgos rurais do açúcar. Os fidalgos do



açucar começaram a ser eclipsados pelos do café. As casas-gran-

des do interior a ser eclipsadas pelos sobrados das capitais.

A usura dos bancos foi se exercendo com rigor cada vez maior

sobre os senhores de engenho, ao mesmo tempo que aumentavam

suas despesas com a negraria sempre mais cara. 0 " trafego illi-

cito", diz um publicista da época, Antônio Pedro de Figueiredo,

que avivara a miseria, escravizando de vez a lavoura "ao com-

niercio e aos capitalistas da cidade" .28 o juro do dinheiro chegou

a 24 por cento e às vezes a mais; e a indústria do fabrico de

açúcar parecia a muitos ameaçada de "torpor e de morte". Para

quem não dispunha de meios de mandar buscar os proprios ne-

gros, como o velho Bento José da Costa, ou a coragem de furtá-

-Los dos vizinhos, a aquisição de escravo para os encrenhos tornou-

-se problema angustioso, à medida que os ingleses e o proprio

governo imperial foram redobrando de vigilância contra os ne-

greiros. As fazendas do Sul principiaram a absorver os negros

do Norte. 0 Norte começou a ficar sem negro para plantar cana.

Foi quando os furtos de escravos tornaram-se uma calamidade

e um escândalo nas ruas das cidades do Norte. Esses furtos foram

uma como desforra dos Dons Quixotes dos engenhos contra,os

Sanchos Panças das cidades. Uma vingança da lavoura roman-

tica, sem método na sua exploração do escravo e da plebe rural,

contra o comércio ou o banco ou a finança urbana, mais meto-

dicamente exploradora do homem e, indiretamente; da própria

terra. Uma vingança da Casa contra a Rua, que parecia estar-se

embelezando à sua custa. Os jornais da primeira metade do século

XIX referem casos até de senhoras pobres, roubadas de seus

negros, na própria Corte, insinuando-se que os ladrões agiam à

sombra de pessoas poderosas do Norte, senhores de engenho ou

fazendeiros. Mas foi ao aproximar-se o meado do século que os

ladrões de escravos perderam toda a cerimônia, havendo verda-

deiras quadrilhas de roubar negro nas cidades. Quadrilhas Lie

tinham, ao que parece, seus compradores certos, em algumas %as

mais ilustres casas-grandes da época.

Em 7 de maio de 1828, o Diário de Pernambuco publicava o

seguinte comunicado sobre roubo de escravos: "He facto publico

ue nesta Cidade se furtão escravos, quazi todos os dias, e que

a homens que só se oecupão naquelle trafico: huns que anga-

reiam e seduzem os negros e negras que encontrão na rua, outros

que os recolhem em suas casas, e ali os occultão athé serem

embarcados, ou postos fóra da Praça; outros que com os pri-

meiros os negoceão, e delles vão fazer venda em lugares distantes;

e outros que os comprao para delles se servirem [ .... ]". Mas

evidentemente fazia-se vista grossa a esses crimes: "Roubos de.

negros, roubos de cavallos e crimes de maior monta, ainda com

provas as mais claras não obstão a que se passem ou se tenham

passado daquelles Alvarás corn fiança; não a pessoa do criminoso,

#

li



50

GILBERTo FREYFtE

mas de hum limitado valor de dinheiro que o mesmo ladrão pode

pôr nas mãos do fiador, depois de solto [ .... 1". Enquanto na

Corte havia severa perseguição da polícia aos ladrões de escra-

vos-como nos deixam ver notícias como a que aparece no Diário

do Rio de Janeiro de 12 de fevereiro de 1830-em Pçrnambuco

e nas províncias na primeira metade do século XIX ainda predo-

minantemente rurais em sua economia patriarcal, parece que esses

ladrões não eram nunca eíicontrados.

Os interesses agrários dominavam ainda a presidência da maior

parte das províncias, a justiça e a polícia. Compreende-se assim

a benignidade para com as quadrilhas de ladrões de escravos em

províncias como a de Pernambuco. Os livros das Câmaras Mu-

nicipais, onde vêm registrados crimes, deixam entrever, como o

de 1838, da capital da mesma Província, a extensão de tais rou-

bos, às vezes repontando dentre os indigitados criminosos nomes

do melhor sabor rural: um Carneiro d'Albuquerque e Moura ou

um Gusmão e Moura, por exemplo. E em jornais da época, vêm

denunciados como contrabandistas alguns dos maiores fidalgos

de casas-grandes, com os quais competiam, noutras formas de

contrabando ou de fraude, ricos senhores de sobrados da Corte,

como aquele cujo título de nobreza teria suas iniciais N. F. inter-

pretadas assim pelos maliciosos da época: Notas Falsas.

É provável que grande parte dos negros dos anúncios de Es-

cravos Fugidos do tempo do Império f~ssem negros roubados às

cidades, para os engenhos. Provável não; quase certo. As vezes

são os próprios donos de escravos que gritam, dando o sinal de

alarme contra os gatunos de seus mulecotes ou dos seus preta-

lhões. Assim a "senhora pobre" do Rio de janeiro que a 8 de

janeiro de 1833 gritava pelo Jornal do Commercio que lhe desa-

parecera, levado talvez para algum engenho da Bahia, o mulecote

Antônio, caçanje, de 16 anos: "sua sra. he pobre, e não possue

mais cousa alguma; pede por caridade ás Autoridades a quem

compete dar passaportes, matriculas e vizitão as embarcações,

fação as precisas diligencias, afim de

11 D

que os ladrões desta Córte



e as rovincias não furtem descaradamente os escravos".

Mas também se desviavam escravos de uns engenhos para

outros.. É desnecessário salientar que dos engenhos menores para

os maiores: para as propriedades de senhores mais Protegidos

pela política que estivesse de cima, na Corte e na província. É

possível que, em alguns casos, os grandes proprietários de terra

acusados de acolher ou comprar escravo furtado, fossem simples-

#

mente coiteiros de negros. De negros que por sua própria von-



tade, e não seduzidos por ninguém, deixassem os donos de enge-

nhoca, que os esgotavam de trabalho, as viúvas doceiras que

tendo tini escravo só, faziam-no trabalhar por três, as padarias,

SOBBADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

51

onde o trabalho era loli?,--,o e duro, a prucura dos engenhos gran-



des com a fama de Paternalmente bom para os escravos; engenhos

com muito negro, as vezes fartura de mandioc- e de milho,

cachaça cheirosa, noites de se sambar até de manhã.

Em 1846, quem imaginam que o Padre Lopes Gama acusava

e vo~' Algumas das figuras

,no seu 0 Sete de Set rnbro de furtar escra .

mais ilustres das famílias Rego Barros e Cavalcanti. "Não há

quem ignore que ?: . ) lia muitos annos furta escravos,

teqdo por principal agente desta industria o seu parente ......

................Não que nessas famílias, dizia o padre, não hou-

vesse "homens capazes, e honrados---. 'Mas à sombra desses e do

seu predomínio na política do Império, com "a protecção da fa-

milia", ou, pelo menos, do nome, havia quem se entregasse a

tráficos e contrabandos de negros. "Que importa"-perguntava o

padte-"que o Barão da Boa Vista por uma parte promovesse

obras publicas, e desse impulso a theatros, e bailes, se por outra

parte os contrabandos fervião no norte, e no sul; se as sedulas

falsas introduzião-se escandalosamente na circulação, se as mes-

mas obras publicas eram uma mina para certos sujeitos; se varios

parentes do mesmo Barão roubavão, e matavão a torto e a

direito, e os homicídios se havião multiplicado a tal ponto , que

o Presidente Thomaz Xavier perante a Assembléa Provincial,

dando conta do estado do paiz durante os dous annos prox. pas.,

chegou a dizer que nos íamos tornando um povo de Ismaelianos

de costumes safaros?"2"

Os homens das grandes famílias rurais não tiverain todos, nem

talvez mesmo a maioria deles, a atuação sempre cavalheiresca so-

bre os destinos e a moral política do Império, que llies atribuem os

entusiastas exagerados da nossa nobreza de senhores de terras

e de escravos. A "policia praieira" de Chichorro da Gama, que

em Pernambuco invadiu engenhos, que cercou e varejou "certos

castellos feudaes [ .... 1 donde tem tirado escravos fiirtados", che-

gando a perseguir um parente próxinio do Barão da Boa Vista,

o qual parente, segundo o Padre Gania, "corri o seu bando de sal-

teadores infestava~ os arredores do Recife"; a "policia praieira",

agindo um pouco sob o ódio da Rua da Praia contra as casas-

-grandes do interior, deve ter praticado seus desmandos na reação,

vingança mesmo, ou desforra, da Praça contra o Enaenho; da

1

'Traça~' contra a "Nlata"; da "Praia" contra a Roça. Quase que



#

dos Mascates contra os Senbores de Erigenho; dos Credores contra

os Devedores; de senhores de sobrados urbanos contra senhores

de casas-grandes rústicas.

Mas não vamos diante disto inocentar os senhores de engenho,

imaginando-os liricarnente fidalgos sempre puros, em contraste

'com os homens sofisticados das cidade~_centros de usura e de

I 'I


#

52 GILBERTo FREYRE SO~OS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo 53

1 C

falsificação de dinheiro e de gêneros alimentícios, mas dond,



saíram algumas das maiores figuras de reformadores dos nossos

métodos de administração e de higiene e da nossa vida política,

religiosa e intelectual. Revolucionários de idealismo prático ou

construtor e não simplesmente demagogos de rua, do tipo que

geralmente se associa às cidades, em contraste com "o bom senso

conservador" dos fazendeiros, com o "liberalismo esclarecido" dos

senhores de engenho.

Homens de cidade, e não de engenho ou fazenda, foram os

Gusmões e os Andradas; foi o Deão Bernardo Luís Ferreira Por-

tugal; foi Cruz Cabugá; foi Evaristo Ferreira da Veiga; foi Paula

Brito; foi Machado de Assis; foi o próprio Joaquim Nabuco, nas-

cido num sobrado do Recife, e educado principalmente aí e nas

cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, embora parte de sua

meninice tivesse decorrido na casa-grande de Maçangana.

Seria entretanto tolice, e das maiores , reduzir o assunto a debate

colegial, tipo "Roma ou Cartago?" E negar a ação criadora de

homens de engenho e de fazenda em nossa vida política e admi-

nistrativa e até na literária. Ação não só no sentido chamado

conservador-em que se salientaram o Morgado do Cabo, Araújo

Lima, depois Marquês de Olinda, Carneiro Leão, depois Marquês

de Paraná, Cotegipe, Camaragibe, Paulino de Sousa-como tam-

bém no sentido liberal e no revolucionário, havendo, neste caso,

maior risco físico de aventura para o senhor de engenho que para

homens de cidade marítima.

Southey atribui aos senhores de engenho pernambucanos que

em 1710 se ergueram contra os reirióis, "intentos separatistas e

republican OS".30 Foi então dos engenhos, ávidos de se libertarem

da "economia dirigida" dos capitães-generais de Sua Majestade,

que partiram os "primeiros anseiog de independência e democra-

cia" no Brasil. Deles, também foi a campanha gloriosa contra os

holandeses e os judeus no século XVII-embora suas relaçoes com

os invasores não fossem puramente as de homens que defendes-

sem o solo nativo das garras do estrangeiro: também as de deve-

dores relapsos contra credores impacientes.

Os irmãos Francisco de Paula, Luís Francisco de Paula e José

Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, todos senhores

de engenho, o primeiro do Engenho Suaçuna, foram acusados,

nos princípios do século XIX, de uma das conspirações mais ro-

mânticas que tem havido no Brasil: pela independência de Per-

nambuco debaixo da proteção de Napoleão Bonaparte. Fundou-se

não em nenhum sobrado de cidade, mas num engenho brasileiro

dos tempos coloniais, a "academia" ou "areópago 11 que, no dizer

do Padie Muniz, citado por Oliveira Lima, foi ~ima escola derrio-

ciática onde "adeptos e apreijdizes, não só da provincia e na-

cionais, mas ainda estrangeiros, achavam luz, agasalho e sub-

#

-31



sidios . eralizar, a respeito do Brasil-a exemplo do

Não se pode gen

que se tem feito em estudos sociológicos com relação a outros

países-afirmando que a aristocracia rural, entre nós consolidada

princiValmente, até o meado do século XIX, nas casas-grandes de

engen,10~ e só subsidiariamente nas de fazenda de café ou nas

de estância, encarnou sempre os interesses conservadores e de

ordem, enquanto as cidades, os sobrados burgueses, as próprias

ruas, teriam sido sempre os focos de revoluções democráticas e

de movimentos liberais. A maior ou menor pressão dos interesses

econômicos-a intervenção da Metrópole por intermédio do vice-rei

ou do capitão-general na economia particular e a favor da gente

miúda-deve ter atuado poderosamente nas atitudes políticas dos

propnetarios de terra do século XVIII e da primeira metade do

YJX. Atitudes, tantas vezes, de ressentimento e de insubordinação,

em contraste com a passividade das cidades do litoral, por muito

tempo cidades quase sem povo, só com uma onda movediça de

plebe ou canalha da rua; e dominadas por um comércio ainda

mais interessado que a lavoura na ordem e na estabilidade do

domínio, primeiro português, depois imperial, sobre toda a exten-

são do país.32

Ê verdade que durante certa fase do império, o Engenho de

Açúcar e principalmente a Fazenda de Café viriam a ligar-se de

maneira efetiva com certos interesses conservadores e de ordem,

às vezes contra a demagogia das cidades, isto é, das ruas, das

praças e dos mucambos. Mas mesmo durante essa fase de maior

união com o Império, a casa-grande de engenho defrontou-se às

vezes com o Imperador, com o chefe de polícia da capital, com

o bispo da diocese, com o mesmo ar terrível de inimigo, dos

tempos coloniais, quando suas salas de visita ou de jantar cheias

de gaiolas de passarinho, de mulequinhos nus engatinhando pelo

chão e pelas esteiras, de negros e negras esperando ordens dos

brancos por todos os cantos da casa, transformaram-se em "areó-

pagos" onde eles, senhores de engenho, juntamente com padres,

com frades e até com estrangeiros-franceses e ingleses-conspíra-

ram com cau' telas maçônicas e desassombros brasileiros, pela inde-

enáência, pela liberdade e um pouco pela democracia na terra

Erasileira.

Referindo-se à ação do engenheiro socialista L. L. Vauthier

no Brasil ainda patriarcal da primeira metade do século XIX-ação

'e procuramos analisar e interpretar em mais de um estudo-

U'

observou em interessante ensaio João Peretti que não foram só os



o

intelectuais do Recife os atingidos pela propaganda revolucionária

do jovem francês: 'Uailleurs, itoute l'aristocratie de la Province,

#

I



54

GILBERTo FREYRE

le Baron de Boa Viva en tête, suivait Vauthier sans bien savoir

oà il la menerait avec ses dangereuses doetrínes."33 Recebido em

algumas das mais opulentas casas-grandes de engenho da época

-a do Visconde de Camaragibe e a do Marquês do Recife-Vau-

thier teve também relações com aristocratas da toga como Na-

buco de Araújo-que foi seu advogado-e com elegantes de so-

brado como Maciel Monteiro. E também corri mestiços aristo-

cratizados pela inteligência e pelo saber como Nascimento Feitosa

e A. P. de Figueiredo. Com agitadores como Borges da Fonseca

e com homens famosos pela energia a serviço da ordem como

Figueira de Melo. Mas o ponto que principalmente desejamos

destacar é que esse revolucionário francês se fez estimar por con-

servadores, aparentemente retrógrados, de casas-grandes e de

sobrados patriarcais. A vários deles parece ter comunicado a

curiosidade por idéias socialistas. De alguns desses aristocratas

se sabe que fez assinantes de revistas socialistas francesas como

Phalange Socialiste e Democratie, Pelo que não é de estranhar

ue entre alguns dos insurretos menos políticos e mais sociais

à~ chamada Revolta Praieira estivessem homens afetados pelo

socialismo francês da primeira metade do século XIX. Inclusive

homens do interior. Homens com raizes no interior.

Em série de artigos, "A Agricultura e a Colonização", publi-

cada em 0 Líberal Pernambucano de 4 de abril de 1856, dizia

o redator desse. jornal, quase-socialista na sua orientação, que

... ninguem deixa seus patrios lares para em paiz estrangeiro

submetter-se a um regimen feudal sem garantias. . ." Se no Sul

do Império-onde se sabe ter havido em Saí (Santa Catarina)

comunidade francamente socialista-vinham prosperando algumas

colônias é que ali "os costumes, o clima e outras circunistancias

proporcionão vantagens que nem Pernambuco nem outras Pro-

vincias do Norte podem offerecer". Chegou o crítico, no artigo

de 5 de abril do mesmo ano, a salientar a necessidade de um

.'codigo rural" para o Brasil. Queria por esse meio quebrar a

força do "regimen feudal sem garantias".

Esta série de artigos (1, 11, 111, IV, V), que será analisada em

nosso próximo ensaio, Ordem e Progresso, constitui uma das mais

altas expressões do espírito de inquietação social-e não apenas

política-vivo ou presente em Pernambuco desde a fracassada

"Revolta Praieira . Na verdade desde os motins de 1823 que vinte

e cinco anos depois se alargariam naquela revolta. Enquanto em

Santa Catarina se vivia socialismo, em Pernambuco lutalva-se nos

jornais e nas ruas por idéias socialistas,

"Na hora em que escrevemos estas linhas"-dizia em 1846 a

revista 34 do mulato A. P. de Figueiredo, espécie de "amotinado"

de 1823 que o estudo tivesse su E'limado em "socialista" de 1840-

#

SOB~S E MUCAMBOS - 1? Tomo



55

-C

,Xístern certamente ma de um solicitador de emprego, mais de



um empregado demittido, mais de u~i operario sem trabalho,

que sonharn corri revoluções, etc. etc. Considerava já "desme-

surado" o número dos---nossosalfaiates, sapateiros, pedreiros, car-

s etc.", prejudicados por "uma concurrencia que os ar-

p ~ dos estrangeiros-e "muitas vezes ... sem trabalho". A

solução "pequena lavoura" não lhe parecia fácil. As terras que

poderiam servir para pequenos proprietários, os grandes recusa-

vam-se a vendê-las: em Pernambuco, ou em largo trecho do Norte

do Império, eram precisamente as terras "occupadas pelos enge-

nhW. Esses reparos de quem sentia no ambiente cheiro de revo-

lução social, e não apenas política, fazia-os a revista de Figuei-

redo, 0 Progresso

do Brasil" .35

(Recife), em estudo intitulado "Colonisação

Em 1858 era o General José Inácio de Abreu. e Lima que em

extigo num jornal da Corte, afirmava estar a causa da carestia

ean várias Províncias do império no desequilíbrio entre a grande

e a pequena lavoura, inclusive "os preconceitos dos grandes pro-

artigo, intitulado

netarios contra a cultura dos cereais". Nesse

e, " (jornal do Commercio, 14 de maio de 1858),

Carestia de Vida

Abreu. e Lima voltava a considerar Xroblema por ele já enfren-

tado há anos, principalmente no estu o em A Barca de São Pedro,

sobre "a colonização que convem ao Brasil": o problema dos

abusos da grande propriedade no nosso país. 0 da relação desses

abusos com a colonização do I 'rio assunto que, desde a me-

mória de Raimundo José da C M~tos, publicada em 0 Auxí-

liador da Indústria Nacional~36 vinha preocupando de modo par-

ticular homens públicos e publicistas do Império. E levando alguns

desses publicistas a considerarem o próprio problema da inter-

venção do Estado a favor do homem de trabalho e da redução

do poder feudal dos grandes proprietários não só de escravos

como de terras igualmente cativas.

Ainda no ano de 1856, o advogado Nascimento Feitosa, em

polêmica com o Professor Pedro Autran da Mata Albuquerque,

chegaria mais longe que Abreu e Lima: defenderia a intervenção

direta do Estado na vida econômica: "Qual é a missão do go-

verno? Decidir com razão e justiça todas as disputas entre os

governados; proteger o fraco contra o forte de uma maneira que

a igualdade restabeleça o respeito inutuo. E essa protecção se

refere ás pessoas ou à propriedade e mais rincipalmente, áquellas

#

do que a esta" 0 artigo '.0 Governo Xcve intervir no Forne-



cimento da Farinha e da ~arne"~37 é dos mais interessantes para

a história do desenvolvimento das idéias socialistas entre nós:




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