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de mecânicos, noutras, os negociantes de certo gênero-carne ou

peixe, por exemplo. Ou de certa procedência: judeus ou Ciganos.

Os nomes mais antigos de ruas acusam sobrevivência, no Brasil,

do sindicalismo ou do medievalismo das cidades portuguesas. Rua

dos Toneleiros. Beco dos Ferreiros. Rua dos Pescadores. Rua dos

judeus. Rua dos Ourives. Rua dos Ciganos.

A localização de ofícios e atividades industriais e comerciais

obedecia principalmente a preocupações de urbanismo; mas tam-

bém a de higiene. Com essas preocupações é que a Câmara Mu-

nicipal do Recife, nos primeiros anos do Império, limitava à Rua

da Praia a venda de carnes salgadas e peixes secos; e que a

Câmara Municipal de Olinda proibia que se lavasse roupa ou

qual uer coisa imunda nas Bicas Poço do Conselho, Baldo e

Vará%ouro, desde o lugar do Pisa, sob pena de 2$000 ou 4 dias

de prisão, obrigando ao mesmo tempo a indústria de peles a só

deitar couros de animais para enxugar, à Praia de São Francisco

e continuação pelo muro de São Bento; é que a Câmara Municipal

de Salvador proibia fábricas de curtir couros, salgá-los e fazer

cola na cidade e povoados do seu termo.19

A cidade, com todas as suas deficiências de higiene, foi se tor-

aando superior às zonas rurais, se não no saneamento das casas,

em certas medidas de profilaxia e nuns tantos recursos médicos,

de modo a poder socorrer aos moradores de engenhos, de fazen-

das e de povoações do interior, quando atingidos pelas bexigas e

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo

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por outras doenças devastadoras. Os líricos da vida rural não têm



o direito de acusar as nossas cidades do século XIX de focos de

2demias e de inocentar os engenhos, as fazendas, os povoados

o?i interior, onde às vezes se expandiram as doenças mais ter-

ríveis-a bexiga e a peste bubônica, por exemplo-melhor comba-

tidas nas cidades.

Foi a Cidade que, aliada à Igreja, desenvolveu entre nós não

só a assistência social, representada pelos hospitais, pelos hos-

=í *os pelas casas de expostos, pelas santas-casas, pelas atividades

drdens Terceiras e confrarias, como a medicina pública, ge-

ralmente desprezada pela família patriarcal. Esta se revelou tam-

bém desdenhosa das boas estradas, cujo desenvolvimento o esforço

reunido de vários grandes proprietários poderia ter realizado, não

se limitasse a economia patriarcal a produzir uase exclusiva-

1 .


mente para o seu pro no consumo, desinteressão-se dos meios

r

de expansão dos proTutos ou de intercomunicação das pessoas;



contentando-se com simples caminhos para o escoamento, durante

alguns meses, do seu açucarou do seu café. Este fato, mais do

que o empenho político dos capitães-mores, nos tempos coloniais,

em dificultar a solidariedade entre os colonos, nos parece explicar

o vagaroso desenvolvimento das comunicações no Brasil. 0 patriar-

calismo mesmo, criando economias autônomas, ou quase autôno-

mas, aguçando o individualismo dosXroprietários e o privativismo

das famílias, enfraqueceu na gente as casas-grandes o desejo de

solidariedade-ainda hoje tão fraco no brasileiro de origem rural,

uase que sensível apenas ao parentesco próximo e à identidade

a rejigião.20 Quando em 1822-no Diário do Rio de Janeiro de

6 de março daquele ano-os moradores de Maruí rogavam aos

Senhores herdeiros da chacara do Murundu" que derribassem o

mato e limpassem a parte da estrada que estava nas suas terras,

"afim de. que haja livre tranzito a todos os moradores daqueng

lugar pois que se acha intranzitavel. não só gelas crescidas e co-

c

padas arvores e espinhos como ainda pelas em oscadas que ampla-



i,rPiná! offerece aos malfazejos dezertores e escravos fugidos",Xor

eles falavam centenas, milhares, de outros moradores de cida es,

vilas, povoados, prejudicados em seus interesses de intercomuni-

cação de pessoas e de produtos pelo privativismo das grandes fa-

mílias patriarcais, donas de engenhos, fazendas e chácaras e indi-

ferentes àqueles interesses.'

Tanto que, excetuada a confraria Católica, foi no escravo negro

I ue mais ostensivamente desabrochou no Brasil o sentido de soli-

ariedade mais largo que o de família sob a forma de sentimento

de raça e, ao mesmo tempo, de classe: a capacidade de associação

sobre base francamente cooperativista e com um sentido frater-

nalmente étnico e militantemente defensivo dos direitos do traba-

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GILBERTO FREYRE

lhador. Para não falar na forma quase socialista de vida e de

trabalho que tomou a organização dos negros concentrados nos

mucambos de Palmares. Mais do que simples revolta de escravos

fugidos, essa república de mucambos ou palhoças parece ter sido

verdadeiro esforço de independência baseado no prolongamento

de um tipo parassocialista de cultura, inclusive de economia, em

oposição ao sis~erna patriarcal e de monocultura latifundiária,

então dominante.

Os negros reunidos nos Palmares sob uma ditadura parassocia-

lista, que, segundo os cronistas," fazia recolher ao celeiro comum

as colheitas, o produto do trabalho nas roças, nos currais, nos

moinhos, para realizar-se então, em plena rua, na praça, a distri-

buição de víveres entre os vários moradores dos mucambos, pu-

deram resistir durante meio século aos ataques do patriarcalismo

dos senhores de engenhos, aliados aos capitães-mores. 0 sistema

socialista de vida, organizado pelos ex-escravos em Palmares, pôde

resistir à economia patriarcal e escravocrática, então em toda a

sua glória. Viu-se uma cidade de mucambos de palha erguer-se

sozinha, do meio do mato, contra as casas-grandes e os sobrados

de pedra e cal de todo o Norte do Brasil. E só dificilmente as

casas-grandes, os sobrados e o governo colonial conseguiram es-

magar a cidade de mucambos.

Foi a primeira Cidade a levantar-se contra o Engenho-essa

cidade parassocialista de negros; do mesmo modo que foi em sua

técnica de exploração da terra um esboço de policultura em con-

traste com a monocultura predominante nos latifúndios dos se-

nhores brancos. Por conseguinte, a primeira reação de pluralidade

ou diversidade de produção contra o regime mórbido de sacri-

ficar-se a cultura de víveres à produção de um só produto, e este

de exportação; de sacrificar-se a concentracão das populações à

sua disseminação por latifúndios improdAvoS de outro artigo

se não o destinado a mercados estrangçiros ou remotos.

Outro exemplo de sentido cooperativista deram os negros em

Ouro Preto, or(ranizando-se sistematicamente para fins de alforria

e de vida independente. Um historiador mineiro enxerga no fato

a antecipação de socialismo cristão entre nóS.22 Chefiados pelo

preto de nome Francisco, grande número de escravos das minas

de Ouro Preto foram se alforriando, pelo trabalho, primeiro do

velho, que forrou o filho, depois do pai e filho reunidos, que for-

raram um estranho, seguindo-se, por esse processo, a libertação

de dezenas de negros. E os negros forros, operários da indústria

do ouro, terminaram donos da mina da Encardideira ou Palácio

Velho.

0 caráter de sociali,mo cristão que Diogo de Vasconcelos vê



nesse esforço admirável de cooporação prende-se antes à forma

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo

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que à essência da organizaçao dos negros forros de ouro Preto:



esta seria religiosa, mas não Católica. os negros reuniram-se que

nem os negociantes e artífices brancos, numa irmandade: a de

Santa Ifigênia. E levantaram uma igreja-a do Rosário. Aí, dia de

Reis, celebravam corri muita assuada sua festa, antes africana do

que Católica, presidida pelo velho chefe vestido de rei. Ouviam

missa cantada, é certo; mas o principal eram as danças, ao som

de instrumentos africanos. Danças de rua, defronte da igreja.

Danças de negro. Como muito antes do Professor Nina Rodrigues,

observou Mansfield, os pretos no Brasil, em vez de adotarem os

santos Católicos, esquecendo ou abandonando os seus, substituí-

ram os africanos pelos portugueses, exagerando pontos de seme-

lhança e conservando reminiscências dos africanos.23 Às vezes

quase criando novos santos com elementos das duas tradições

religiosas. Uns como santos mestiços, pode-se dizer.

Era o que dava brilho ou ruído de festa às ruas das antigas

cidades do Brasil: a religião. A religião dos pretos com suas

danças; a dos brancos, com suas procissões e suas semanas santas.

Vinha gente rica dos engenhos e das fazendas acompanhar as

procissões pelas ruas das cidades episcopais. Gente vestida de

preto e de roxo. Senhoras gordas ue só faziam assistir das va-

randas dos sobrados à passagern X Senhor Morto. Outras que

C)

acompanhavam o andor com vestidos do tempo dos Afonsinhos.



Também os sobrados, as casas assobradadas, as casas térreas de-

viam enfeitar-se para as procissões; e não apenas as pessoas. Em

1825 vê-se por aviso publicado no Diário do Rio de Janeiro de

18 de janeiro, que o Senado da Câmara do Rio de janeiro dirigia-

-se aos moradores da cidade para que, nas ruas por onde devia

passar a procissão de São Sebastião, "mandassem caiar as frentes

das casas e ornal-as de cortinados, aciando as ruas nas suas tes-

tadas com arêa e folhas".

Desfilavam as irmandades, as confrarias, as Ordens Terceiras

pelas ruas asseadas com areia e folhas e entre casas enfeitadas

com colchas da India. Uma variedade de hábitos e de opas; banda

de música; penitentes nus da cintura para cima, ferindo-se com

cacos de vidros. Os andores dos santos e das santas. 0 governador;

o bispo; os altos funcionários; os militares com as dracfonas relu-

zindo. Algumas senhoras vestidas à última moda; outras arcaica-

mente, como já se notou. Na frente de tudo, o papa-angu com

uma espécie de saco por cima do corpo, dois buracos à altura

dos olhos, chicote na mão. E os muleques atirando-lhe pitomba.

Às vezes havia negro navalhado; muleque com os intestinos de

fora que unia rede branca vinha buscar (as redes vermelhas eram

para os feiidos~ as brancas para os mortos). Porque as procissões

com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos ca-

~I 11

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G11-B-TO FREYRE

poeiras, curioso tipo de negro ou mulato de cidade, correspo

dendo ao dos capangas e cabras dos engenhos. 0 forte do capoefl

era a navalha ou a faca de ponta; sua gabolice, a do pixa

penteado em trunfa, a da sandália na ponta do pé quase de da

çarino e a do modo desengonçado de andar. A capoeiragem i

cluía, além disso, uma série de passos difíceis e de agilidad(

quase incríveis de corpo, nas quais o malandro de rua se iníciav

como que maçonicamente. Voltaremos a figura do capoeira-tã

típica das cidades do Brasil quanto a do capanga ou a do cabr

dos engenhos e das fazendas-em capítulo seguinte.

As festas de pátio de igreja e as procissões de rua, tornaram-s

também ocasião de namoro; as "bandeiras de santo", quase ur

escândalo, as moças cantando quadras a São Gonçalo que ao

ouvidos dos Lopes Cama soavam mal. Depois de dias tristíssimos

representação cte cenas da Paixão, sermão em voz tremida, gent

chorando alto com pena de Nosso Senhor, mulheres de preto

homens de luto fechado, a Semana Santa terminava em ceias ale

gres de peixe, de fritada de caranguejo, de carum, vatapá, cioba

cozida com pirão.

Alguns desses excessos deviam escandalizar a gente dos enge-

nhos que vinha à cidade e voltava às casas-grandes cheia de im-

pressões novas. Os olhos maravilhados de igrejas cheias de ouro

e de prata. Maravilhados do ouro dos altares e da beleza dos

santos.


Os que puderam conhecer a Capela Real do Rio de janeiro

no tempo do Senhor Dom João VI devem ter guardado para sem-

pre, no retiro tristonho das casas-grandes , a memória da tribuna

real coberta de seda e franjada de ouro, donde o príncipe ouvia

missa; a doçura dos sons do órgão tocado por mão de mestre euro-

peu; da orquestra conduzida por Marcos Portugal. A acreditarmos

em alguns cronistas, de tal modo se desenvolveu a música de

igreja nas cidades do Brasil , que o Rio de janeiro colonial chegu

e (

a dar-se ao luxo de ter seus castrati: seus cantores que enve e-



ciani com voz de menino de coro para regalo dos volutuosos da

boa música.

Quanto a música profana, também foi se desenvolvendo nos

sobrados. Em 1820 quem passasse pelas ruas do Rio de janeiro

já ouvia, em vez de violão ou harpa ~24 Muito piano, tocado pelas

moças nas salas de visitas para o gozo único, exclusivo, dos

brancos das casas-grandes; e em vez de modinhas, canções ita-

lianas e francesas. 0 Padre Lopes Cama observava em 1843 no

seu 0 Carap-uceiro (Recife), que, nos tempos coloniais , tocavam-

-se e cantavam-se no Brasil, não árias de Rossini ou Bellini ao

piano, "porem modinhas a duo acompanhadas na citara ou na

violla..." Modinhas como A minha Nise adorada ou Chiquita,

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SOBRADOS E MUCAIMOS - 1.' Tomo



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Chiquita, meu bem querer, às quais se seguiram-ainda na pri-

meira metade do século XIX-outras como Os Melindres de Sinhá,

Velo em teus olhos, Pega na lira sonora, Adeus, Maria, eu vou

~er. Dentre as muitas que passam pelos anúncios de jornais

da época, anotamos estas como típicas dos sentimentos dominantes.

Deve-se reparar ue essas modinhas, por muito tempo expres-

sões melífluas de iJealização ou de romantização de figuras de

mulher, foram-se tornando também, na primeira metade do sé-

cujo XIX, expressões de um brando começo de revolta das mu-

lheres contra a inconstância. de amor da parte dos homens. Re-

volta surpreendida em mulheres da época por compositores Te

procuravam fixar as diferentes ondas sentimentais em torno as

relações entre os sexos; e não apenas aquelas idealizações já

convencionais.

Como expressões dessas ondas sentimentais, às vezes contra-

ditórias, são as modinhas material interessantíssimo para o pes-

quisador do passado brasileiro empenhado em interpretar dife-

renças de atitude em tomo das relações entre os sexos na socie-

dade patriarcal. Inclusive, as diferenças de atitude dos homens

com relação a tipos de mulher-louro, moreno, mulato, pálido,

israelita; ou dengoso, fidalgo, meigo; ou, ainda, quanto à idade:

a menina, apenas vestida de moça à maneira indiana ou oriental,

idealizada por uns; ou a moça já feita, exaltada por outros, mais

europeus ou burgueses nos seus sentimentos.

Wetherell recolheu à página 62 do seu livro sobre a Bahia-a

Bahia que ele conheceu na primeira metade do século XIX-curiosa

modinha onde timidamente se exprimia a revolta da mulher ao

despotismo do homem, a princípio "cordeiro", depois "lobo ma-

treiro". Outras ondas sentimentais se surpreendem nas modinhas

brasileiras do século XIX, da coleção Alinir de Andrade.

Também houve engenhos patriarcais com muleques, meninos

de coro; com bandas de musica; com pianos de cauda; com orques-

tras tocando ouvertures de ópera. já no século XVI opulento

senhor de engenho na Bahia tivera a sua orquestra de negros,

dirigida por um marselhês. No século XIX, um missionário norte-

-americano que viajou pelo Brasil ficou espantado da música que

ouviu na casa-grande do Engenho Soledade, perto do Paraibuna,

em Minas Gerais. A casa de um barão já do Império. Um sobrado

grande e simpático. Quando o dono da casa lhe falou em mandar

tocar uma musicazinha, o norte-americano pensou que seria alg~-

ma coisa rústica: "a weezy plantation fiddle, a fife, and a drum'.

Engano. 0 som que o surpreendeu de tarde foi o de uma grande

orquestra se afinando. Violino. Flauta. Trombone. Quando viu a

orquestra-toda de negros; um sentado ao órgão; e um coro de

Mulecotes, os papéis de solfa alvejando nas suas mãos pretas.

1, ~

#

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GILBERTO FREYRE

Executaram 0 Primeiro número, ouverture de uma ópera. 0 s(

ndo: uma missa que os negrínhos cantaram em latim. Staba

Ralter- A Marcha de La Fayette.23

Mas essas casas-grandes requintadas com negros tocando óper

e cantando em latini, não foram típ,c.;~ de uma aristocracia ruxa

que isolando- e cercando se só de subordinados, fez sempre mais

questão da quantidade que da ualidade dos seus títulos de

grandeza: do número de seus pés 1 café e dos seus pés de cana;

do número das suas cabeças de escravos e das suas cabeças de

gado; do número das salas e dos quartos de suas casas-grandes.

Isso é que, aos olhos da maioria dos brasileiros da era patriarcal

ainda predominantemente rural era grandeza. 0 senhor rural mais

pervertido pelo isolamento, este deSDrezava tudo, ]o regalo de

mandar sobre muitos escravos e de falar gritand com todo o

io

fí si


mundo, tal a distância, não só social como ísica, que o separava

quase sempre das mulheres, dos ÜChos, dos negros, em casas

vastas, com salas largas, onde quase nunca as pessoas estavam

todas perto uma da outra; onde nas próprias mesas de jantar, de

oito metros de comprido, era preciso que o senhor falasse senho-

rialmente alto para ser ouvido no fim da mesa quase de convento.

Música, os senhores mais rústicos se contentavam com a dos

passarinhosq espalhados em gaiolas pela casa toda, no corredor,

na sala de jantar no terraço. Muita casa de sitio tinha seu viveiro

cheio de passarinho, debaixo das árvores. Em alguns sobrados

de subúrbio, os passarinhos rústicos e os pianos mandados vir da

Inglaterra devem ter entrado em conflito. Conflito da arte com

a natureza que era também conflito da Cidade com a Roça. Ve

remos mais adiante que certos orssarinhos, como certas plantas,

r

tornaram-se caraterísticas de s rados nobres, do mesmo modo



que pianos e mobílias de jacarandá.

Viajando pelo Brasil no meado do século XIX, Mansfield já

não se sentiu tão fora & Europa, em visita às casas-grandes, como

cinqüenta anos antes, seu com atriota Luccock. Tocava-se Jano

nessas casas. Algumas, assobraJadas, de engenho, lhe recortam

casas de campo de terceira ordem da Inglaterra. E se em Caraúna,

a dona da casa não desceu para jantar com as visitas, aDareceu

logo depois do jantar e ela é que serviu o chá aos inglese;. Meio-

-termo entre o velho estilo patriarcal do Brasil, da mulher não

aparecer nunca aos estranhos, e o da Europa burguesa, dela pre.

sidir o jantar e participar da conversa dos homens.

. Na casa do Engenho Macujé (Pernambuco) Mansfield teria

impressão ainda mais nítida de estar na Inglaterra e em pleno

#

século XIX europeu. "0 serviço desta casa e quase o mesmo das



melhores casas de campo inglesas", reparou ele.26 E a própria dona

da casa, "senhora de mui belo caráter" e suas três filhas apa-

s , -

SOBRADOS E MUCAMBOS - L' Tomo



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receram ao estrangeiro e participaram do jantar. Não era casa tão

luxuosa como a de Caraúna. Talvez tivesse as mesmas escarra-

deiras, horríveis para um inglês, que Mansfield encontrou por

todas as casas-grandes onde esteve no Brasil. Mas seu estilo de

vida já não tinha o velho ranço muçulmano. Sentia-se em tudo

um sabor mais europeu e até inglês que oriental. E as escarra-

deiras, a julgar pelas que aparecem nos anúncios de jornais da

época, tinham sua dignidade: tal a que vem anunciada no Diário

do Rio de Janeiro de 15 de novembro de 1821: "[ .... 1 huma

euspideira de prata de gosto antigo com sua tampa e aza". Cuspi-

deiras fidalgas que passavam de uma geração a outra.

Como havemos de sugerir mais adiante, o contato com as modas

inglesas, que se acentuou depois da chegada de Dom João VI,

influiria consideravelmente sobre os estilos de vida e até de

arquitetura doméstica do Brasil, contribuindo para o gosto pelas

chácaras cercadas de árvores, para o chá servido pela dona da

casa, para a moda da cerveja e do pão, para a maior limpeza

da rua e o melhor saneamento da casa. São aspectos da influência

inglesa no Brasil que procuramos fixar com maior minúcia na

série de ensaios iniciada com Ingleses no Brasil. Essa influência

arece ter-se acentuado na primeira metade do século XIX, em

ernambuco, na Bahia e no Rio de janeiro, antes de ter tomado

relevo em São Paulo, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul,

pelo fato de ter atraído então o inglês ao Brasil a riqueza daquela

parte da população ou da sociedade patriarcal, enobrecida pelo

açucar.

Na segunda metade do século XIX, com a preponderância do



café sobre o açúcar, as casas do Norte foram começando a perder

em conforto e em luxo para as do Sul. As ruas da Corte, estas,

desde Dom João VI vinham se tornando as mais elegantes do ,

Imperio. A do Ouvidor tornou-se a grande rua do luxo e das

modas francesas. Mas sem que a casa deixasse de ser casa e a

rua de ser rua: dois inimigos.

Vende-se huma preta de bons costumes, muito agil. para todo

o serviço de huma casa, tem 16 annos de idade e sempre tem

sido criada sem sahir à rua", dizia-se num anúncio publicado no

Diário do Rio de janeiro, de 28 de janeiro de 1821. Anúncio

significativo: indica, com outros do mesmo sabor, a diferencíaç , ão

profunda que se estabelecia entre escravo de casa-ou de so-

brado-e escravo de rua. Diferenciação que se prolongou através

#

de toda a primeira metade do século XIX. já quase no meado



do século, anunciavam-se servos para "todo o serviço de uma

casa de portas a dentro", como no Diário de Pernambuco de 19

de fevereiro de 1842, do mesmo modo que se anunciavam outros

para "vender na rua", como no mesmo Diário de 28 de outubro

#

48

GILBERTO FREYRp- S013RADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo49



e, com menos rigor, no Diário do Rio d-' Janeiro da mesma época.

Dois tipos nitidamente diferenciados de escravos: o que se con-

servava no serviço das casas, -de portas a dentro", e o que se

destinava à rua, aos serviços de rua a "vender na rua". Aquele

era contato com os brancos dos sobrados como se fosse pessoa

da família. 0 Outro, menos pessoa de casa que indivíduo exposto

aos contatos degradantes da rua.

A mais de um europeu os escravos de rua da cidade do Relio-

de janeiro deram a impressão de alegres e extremamente in




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