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mulher-matrix, da mulher estável e mãe de família em nossa

formação. Sem essa figura quase matriarcal de mulher-matrix, não

se imagina a casa-grande de engenho que foi o centro da nossa

integração social.

0 tipo nobre de casa que ficou se chamando "casa-grande~,

desenvolveu-se na região dos engenhos de cana; e menos em

torno da figura do homem, que do vulto gordo da matrona por-

tuguesa do século XVI. As Donas Brites, as Donas Genebras, as

Donas Franciscas, as Donas Teresas, as Donas Marias. Mulheres

casadas que acompanharam os maridos ao Brasil.

Onde elas se instalaram, gordas e pesadonas, com seus conhe-

cimentos de coisas de cozinha e de higiene da casa, com seus

modos europeus e cristãos de tratar de menino e de gente doente,

pode-se afirmar que aí a civilização européia aprofundou-se mais

e fixou-se melhor. As iaiás foram sempre as estabilizadoras de

civilização européia no Brasil.

Donde, em grande parte, a diferença regional de estilos de

vida na América Portuguesa: a maior predominância de padrões

europeus de cultura, nos pontos de colonização por homens ca-

sados; e menor, naquelas regiões colonizadas por homens, em

SOBRADDS E MUCAMBOS - 1.1 ToNio

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sua maioria, solteiros, ou simplesmente amasiados com cabo-



clas da terra.

0 Príncipe Maximiliano, viajando em princípios do século XIX

elo interior do Brasil, encontrou em São Salvador dos Campos

os Goitacases, fazendeiros ricos, vivendo a mesma vida relassa

que no século XVII. Homens de enviar para a cidade próxima

tropas e mais tropas cheias de produtos, donos de mil, mil e qui-

nhentas cabeças de gado, morando em casebres inferiores aos

dos camponeses alemães mais pobres .4 Casas térreas de barro e

nem ao menos caiadas. Verdadeiros mucambos. Faltava talvez, a

esses colonos, a ação da mulher portuguesa, no sentido da maior

dignidade moral e do maior conforto físico da casa, do móvel,

da vida doméstica.

Em São Vicente, no Recôncavo da Bahia, em PerDambuco-os

pontos de colonização portuguesa do Brasil que mais rapidamente

se policiaram-a presença da mulher europeia e que tornou pos-

sível a aristocratização da vida e da casa. E com esta, a relativa

estabilização de uma economia que tendo sido patriarcal nos seus

principais caraterísticos, não deixou de ter alguma coisa de "ma-

triaical": o maternalismo criador que desde o primeiro século de

colonização reponta como um dos traços caraterísticos da formação

do Brasil.

No fim do século XVI, o Padre Cardim se admirava de encon-

trar em Pernambuco "(,,randes senhoras". E os homens e as mu-

~n

lheres vestindo-se pelos mesmos estilos que em Lisboa; banque-



teando-se com as iguarias e os vinhos de Portugal; dormindo em

camas forradas de seda que nem os príncipes e as princesas do

Reino.`I

Senhores de encienho morando em casas isoladas, reuniam-se,

c

entretanto, os colonos em Olinda para suas festas de igreja e de



casamentos, suas cavalhadas, seus jogos, suas danças, suas repre-

sentações de comédias, seus recitativos. Aí não tardou a aparecer

o primeiro poema mpirado pela paisagem brasileira, ainda que

escrito, talvez, por judeus; e onde vem exaltada a figura da

mulher do donatário: "Doii(z Bcatriz preclara e excellentc." Mu-

lher que foi o primeiro indivíduo do sexo chamado frágil a gover-

nar capitania ou província ria América, embora o fizesse não

como matriarca mas em substituição ao patriarca ausente ou

enfêrmo.

A presença da inulher europeia em maior ni 1 imero é, talvez o

elemento mais vivamente respon,~ível pelo fato de se ter descri-

volvido desde o século XVI em Pernambuco, ira Bahia, em São

Vicente e, niais tarde, em Minas Cerai,~. rio MaranIi-ão, rio P~irá,

em Santa Cautrina, no Eio Grand,- do Sul, rim tipo cle hábit~Icão

mais nobre que noutros pontos de colonização portuguesa e espa-

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GILBERTO FREYRE

nhola na América. Esse tipo de habitação tendo a princípio se

especializado na casa-grande de engenho, depois se requinlou

na casa-grande assobradada, de cidade. A arquitetura de residên-

cia elegante e o estilo de vida doméstica a ela correspondente

se acham ligados, na formação brasileira, ao maior domínio da

mulher portuguesa sobre a vida colonial.

0 patriarcalismo brasileiro, vindo dos engenhos para os so-

brados, não se entregou logo à rua; por muito tempo foram quase

inimigos, o sobrado e a ~ua. E a maior luta foi a travada em

torno da mulher ~or quem a rua ansiava, mas a quem o pater

familias do sobrai o procurou conservar o mais possível trancada

na camarinha e entre as mulecas, como nos engenhos; sem que

ela saisse nem para fazer compras. Só para a missa. Só nas quatro

festas do ano-e mesmo então, dentro dos palanquins, mais tarde

de carro fechado.

De modo que a vida da moça de sobrado era dentro de casa,

entretendo-se com a fala dos papagaios dizendo-lhe "Meu bem",

"Meu amoí', "laiá", "Sinhá", "Dondon", na falta de voz grossa

de homem que lhe acariciasse os ouvidos; com afagos de sagüim

e de macaco, na ausência de mãos fortes de varão que agra-

dassem as suas. E com cafunes afrodisíacos de mucamas na sua

cabeça de moça que às vezes talvez se imaginasse "moura-encan-

tada" das histórias contadas pelas negras velhas, com algum en-

canto escondido nos cabelos.

As lojas mandavam aos sobrados seus chapéus de abrir e fe-

char, suas botíninhas de duraque, suas fitas, seus "pentes de mar-

fim para desembaraçar e tirar piolhos", suas travessas, seus filós,

seus cetins; e a moça escolhia à vontade, muitas vezes, talvez,

espalhando, como em cidades do interior quase nos nossos dias,

as amostras pela esteira ou por cima do sofá, e ela, de cabeção

e saia de baixo, o cabelo solto, rodeada de negras, feliz como

uma menina doente entre brinquedos espalhados na cama.

Quando não se mandavam vir mercadorias da loja, charnava-

-se o mascate. Os baús de flandres cor-de-rosa e as caixas de

papelão dos mascates-a princípio, homens do Oriente e por-

tugueses, chamados "marinheiros",6 depois, europeus de outras

origens inclusive judeus da Alsácia, quase todos armados de varas

de medir pano que eram verdadeiras matracas a quebrarem o

silêncio das ruas-se escancaravam diante dos olhos gulosos das

mulheres dos sobrados. De dentro dos baús começavam a der-

ramar-se pelas mesas de jantar de jacarandá ou pelas esteiras

de piripiri tanto cetim, tanta fita, tanto pano bonito, tanto frasco

de cheiro, às vezes até vestidos já feitos, que era uma festa nas

casas tristonhas.

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo

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Esses mascates iam também pelas casas-grandes de engwho,



os baús carregados a mula. D'Assier não pôde deixar de con-

trastar a importância do mascate, no interior do Brasil-quase

um lorde, hospedando-se nos engenhos e andando de burro ou

de mula-com o "colporteur" dos Alpes e dos Pireneus, que carre-

ava seu bauzinho às costas, subindo e descendo humildemente

fE

adeiras. 7Mas no Brasil escravocrático tinham esse ar importante



os barbeiros, os ferreiros, os carpinteiros, os pintores de parede,

todos donos de escravos que lhes carregavam as ferramentas e

lhes preparavam as tintas: os senhores quase não sujavam os

dedos; andavam de chapéu de três bicos e de sobrecasaca. Até

os mendigos, notaram alguns estrangeiros que tinham modos de

fidalgos; alguns pediam esmola de rede, nos ombros de dois

escravos. Outros a cavalo.

No interior, os mascates-muitos deles repita-se que judeus da

Alsácia e do Reno depois de terem sido homens do Oriente e do

Minho-continuaram no século XIX a praticar espertezas que nem

as daqueles mercadores a pé do século XVI que escandalizavam

o autor dos Diálogos. As matutas deixavam-se engabelar pelos

mascates ruivos. Precisamente o meado do século XIX foi a idade

de ouro desses novos mascates. Lucros de 100%. Ou mais. Às

vezes lucros monstruosos. Anéis comprados na Europa por 100

francos eram vendidos a senhores de engenho por 800$000, pagos

à vista. A crédito, o senhor de engenho assinava uma letrinha de

1:000$000, isto é, 2.500 francos; e ainda por cima, hospedava o

judeu. Uns mascates se especializavam em vender jóia; outros,

franceses, em frascos de cheiro; os italianos, em imagens de santo

Sara as capelas das casas-grandes, para os oratorios dos sobra-

os.8 Em algumas regiões, a boca do povo os foi chamando "grin-

gos", ou por serem alourados como os ingleses ou por se pare-

cerem, nos modos, com os ciganos-outros que, desde dias re-

motos, foram denominados gringos" no Brasil.9

Com todas as suas espertezas.e até gatunices, esses mascates

tiveram sua função útil junto a um sexo recalcado, cuja vida

eles de algum modo alegravam com suas jóias, suas fazendas,

seus vidros de perfume, seus santo-antoninhos de faces cor-de-rosa

I ue as iaiás solteironas "trocavam" às vezes por enormes rolos

e renda fina feita em casa por elas e por suas mulecas. Esses

santo-antônios bonitinhos ficavam então o objeto de uma devoção

intensa e, em certos casos, de práticas de fetichismo sexual, recor-

dadas pela tradição oral.

Mas não eram só os mascates que quebravam a rotina da vida

nas casas-grandes e nos sobrados da aristocracia das cidades,

levando para o interior desses quase-conventos um pouco do ruído

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36 GILBERTo FREYRE S~OS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 37



da rua e das novidades da praça. Também as pretas chamadas

boceteiras e as quitandeiras que iam vender bico e doce às iaiás.

Diz-se que algumas dessas boceteiras traziam recados de namo-

rados para as meninas; as mais velhas parece que se especiali-

zavam em contar numa casa o que tinham ouvido na outra,

armando às vezes intrigas e fazendo circular enredos e mexericos.

0 Padre Lopes Gama diz que conhecera "uma matronaça" que

era toda denguices com as tais boceteiras. Era che ar negra em

casa com seus baús ou suas latas e a sinhá-dona a fazer-lhe per-

guntas: "adiante de suas proprias filhas indagava com a maior

meudeza da vida de seus senhores, e de suas senhoras moças,

pretendendo saber com quem estas se namoravão, que homens

frequentavão as casas, &c &c". 0 que o padre-mestre achava

uma "indigna curiosidade".10

Mas que haviam de fazer as senhoras de sobrado, às vezes mais

sós e mais isoladas que as iaiás dos engenhos? Quase que só lhes

permitiam uma iniciativa: inventar comida. 0 mais tinha de ser

o rame-rame da vida de mulher patriarcal.

Várias inventaram comidas, doces, conservas com os frutos e

as raízes da terra. Os filhós de mandioca "saborosos, sadios e de

boa digestão", "mantimento que se usa entre gente de primor",

quem os inventou foi a mulher portuguesa: "o que foi inventado

pelas mulheres portuguesas que o gentio não usava delles"," diz

Gabriel Soares, senhor de engenho do seculo XVI. 0 processo-o

velho processo português do filhó de que falam as crônicas mais

antigas de Portugal; o novo elemento, o que a terra bruta dos

índios apresentava de mais carateristicamente seu-a mandioca.

E não só a mandioca; também o caju foi europeizado pela

senhora de engenho em doce, em vinho, em licor, em remédio.

Da castanha ela não tardou a fazer "todas as conservas doces que

costumavam fazer com as amendoas, o que tem graça, na suavi-

dade e no sabor", informa o senhor de engenho regalão. Do sumo

"de bom cheiro e saboroso" do caju, o vinho adocicado ue se

tomou o vinho oficial das casas-grandes: quase o símbo' X sua

hos italidade. E o licor e o refresco. Da polpa, fez doces de

cal, doces secos, conservas, além dos cajus doces que Gabriel

Soares tanto recomendava, "para se comerem logo cosidos no

assucar cobertos de canella não tem preço". E ainda se utilizou

a senhora da casa-grande do caiu para lavar a boca de manhã:

. por fazer bom bafo a quem os come. .."12 Tudo isso foi, no Brasil,

arte da mulher com as sobras do açúcar que o marido fabricava

no engenho, com as frutas que os colomis e mais tarde os mule-

quinhos apanhavam pelo mato, pelo sítio ` pelo quintal.

E não foram só filhós de mandioca, cuscuz de mandioca, doces

e vinhos de cajuí, tan-Iém a banana comprida "cosida no assucar

com canella"; cará cozido com carne; bolos de milho com ovos,

açúcar e pão; milho uebrado e pisado no pilão para se comer

1

#



com caldo de carne, 1 peixe e de galinha-pirão "mais saboroso

Nue o arroz~, 13 diz-nos Cabriel Soares, que deve ter sido o senhor

e e nho mais glutão do seu tempo. 0 milho, as senhoras de

eT

c



eng- o conservavam em fumo, "para se não danar": durava

assim de ano a ano. Nas casas-grandes e nos primeiros sobrados,

o fumo fez as vezes do gelo, para a conservação de certos ele-

mentos de ue as donás de casa se utilizavam o ano inteiro, no

preparo deLes e quitutes.

0 mesmo que com o caju, a banana e o cará se terá dado com

o jenipapo, com o araçá, com o mamão, com a goiaba, com o

maracujá, com o marmelo; mais tarde com a manga, com a laca,

a fruta-pão, o coco-da-índia-frutas que misturadas com mel de

engenho, com açúcar, com canela, com cravo, com castanha, tor-

naram-se doce de calda, conserva, sabongo, marmelada, geléia,

enriquecendo de uma variedade de sabores novos e tro icais a

sobremesa das casas-grandes de engenho e dos sobrados Cgue-

ses; e chegando a ir em latas e caixas ao próprio Portugal. Parece

que mesmo a palavra marmelada, hoje tão comum no vocabulário

inglês, é brasileirismo.

Nos sobrados e nas próprias casas-grandes de sítio, ou assobra-

dadas, de subúrbio, a cozinha não teve a mesma importância que

nas casas de engenho; nem a mesa, a mesma extensão de mesa

de convento das casas maiores de engenho, onde se sentava para

almoçar, para jantar, para cear quem aparecesse. Viajantes e mas-

cates, além dos compadres que nunca faltavam, dos papa-pirões,

dos parentes pobres, do administrador, do feitor, do capelão, dos

das visitas de passar o dia: famílias inteiras que vinham

='engenhos em carro de boi. Eram mesas de jacarandá às

vezes de seis, oito metros de comprido como a que ainda conhe-

cemos na casa-grande-vasto sobrado rural-do Engenho Noruega.

Não que nas casas-grandes de sítio e nos sobrados a mesa de

jantar, também quase sempre de jacarandá (que ficou a madeira

nobre das casas-grandes como das igrejas, das cOmodas patriar-

cais como das cômodas das sacristias), não fosse também grande,

comprida, para se sentarem em volta dela famílias enormes. 0

pai, a mãe, os filhos,'os -netos, os parentes, as visitas de passar

o dia, os hóspedes, os compadres do interior. Mesas de cinco x dois

metros. Mas nas cidades e nos subúrbios, a vida era, em certo

sentido, mais retraída e menos exposta aos hóspedes que nos

engenhos. Nos engenhos as leis de nobreza à brasileira obrigavam

a se receber o viajante a qualquer hora com bacia de prata, com

toalha de linho, um lugar na mesa, uma cama ou uma rede para

dormir. Tudo trabalho que as mucamas faziam com mãos de anjo;

I

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GILBERTO FR~EYRE

mas dírigidas pela senhora de engenho ou pela dona da casa que

raramente aparecia a quem não fosse parente próximo pelo sangue

ou pelo compadrio. Instituição brasileira-o compadrio-que não

teve ainda o estudo merecido.

A senhora de engenho quase nunca aparecia aos estranhos, é

verdade; era entrar homem estranho em casa e ouvia-se logo o

ruge-ruge de saias de mulher fugindo, o barulho de moças de

chinelo sem meia se escondendo pelos quartos ou subindo as es-

cadas. 0 que se dava tanto nos sobrados das cidades como nos

engenhos. Nos princípios do século XIX, São Paulo já capital de

certa importância, com alguns sobrados, sucursal do Banco do

Brasil, teatro, boas chácaras, lojas tão bem sortidas quanto as

da Corte-suas senhoras não apareciam às visitas. Do mesmo

modo ue no interior de Minas, as mulheres da cidade de São

Paulo 3esaparecíam, ao se anunciar visita de homem, nas som-

bras da camarinha ou entre as plantas ou as palmas dos jardins-os

jardins por detrás das salas ou no centro das casas, que eram

também lugares tabus, lugares da maior intimidade, onde as mu-

lheres podiam tomar fresco sem ser vistas da rua ou por estranhos.

Saint-Hilaire queixa-se quase amargo de não ter visto senhoras

nas casas de São Paulo; de ninguém o haver convidado para

jantar. Indo certo dia à casa de um aristocrata da cidade, encon-

trou-o quase à mesa e foi convidado para jantar; mas nem a

mulher nem filha nenhuma apareceram. Em Vila Rica fora a

um baile no palácio de D. Manuel de Castro e Portugal e aí

dançara com mais de uma senhora ilustre. Mas durante todo o

tempo ue passou na cidade mineira não tornou a ver uma só

das s Eras com quem dançara no baile do fidalgo. Visitou os

maridos de muitas, mas nunca lhe aparecia a dona da casa .14

Tollenare, no Recife, nos princípios do século XIX15 teve a mesma

experiência que Saint-Hilaire nas cidades do Sul: foi ele entrar

na casa de certo morador da cidade, pessoa de importância, e

as mulheres se sumiram como mouras-encantadas. Mas deixando

bordados e trabalhos de agulha sobre a mesa. Saint-Hilaire, no

sobrado do Alferes Machado, em São Nicolau, foi mais feliz:

pôde ver as moças da casa fiando algodão e fazendo renda. Sinal

de que nem todas passavam o dia inteiro de cabelo solto, a

cabeça bamba no colo de alguma imicama perita no cafuné.

Foi rio Rio de janeiro, corte, primeiro dos Vice-Reis, depois do

Regente e do Rei, e finalmente do Imperador, que a mulher co-

meçou a aparecer aos estranhos. Mas aos poucos. Em 1832 um

viajante ainda se queixava das casas de "muros altos, janellas

pequenas e portas ainda mais estreitas" onde um estrangeiro difi-

cilmente conseguiria penetrar porque 1á dentro imperavam ma-

ridos ciumentos e brLit~tes"."'~ Maria Graham notara, alguns anos

SOBRADOS E NIUCANIBOS - 1.11 To.,,io

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antes, que moça solteira nem às festas de casamento comparecia. 17

E o Comandante La Salle debalde procurou mulheres da socie-

dade nos passeios públicos e nas ruas do Rio de janeiro."' Elas

principiaram a aparecer de rosto descoberto nos bailes e nos

teatros.

Nas ruas só se encontravam as escravas negras e as mulatas

com quem às vezes, de noite, os velhotes do Recife namoravam,

na ponte da Boa Vista. La Salle diz que também os homens pouco

saíam de casa. No Rio de janeiro dessa época talvez saíssem

pouco: no Recife como em São Luís do Maranhão é tradição que

viviam quase a tarde inteira na rua. No Recife, namorando com

as mulatas, falando do governo e da vida alheia sentados nos

bancos das ontes, combinando p~catamente negócios debaixo das

gameleiras Se cais. Às vezes negocios importantes: transações de

contos de réis. Os burgueses de sobrado foram naquelas cidades

do Norte do Brasil homens de praça ou de rua como, outrora, os

gregos, da ágora, ao contrário dos do Rio de janeiro e da Bahia

que raramente deixavam o interior dos sobrados. Pensando decerto

nestes é que escrevia em 1855 o médico Lima Santos nos seus

"Conselhos Hygienicos" transcritos pelo Diário de Pernarribuco

de 18 de agosto:

"De facto: os Brasileiros, quer sejam por natureza, quer pelo

clima, he de observação, que não fazem exercício sufficiente ao

desenvolvimento de sua energia physica, e espiritual; mettidos

em casa, e sentados a mor parte do tempo, e entregues a uma

vida inteiramente seclentaria não tardam que não caiam em um

estado de preguiça mortal. Verdade he que o grande luxo da

terra-um dos signaes de fidalguia, de grandeza e de grande dis-

tiricção-he, o sahir à rua o menos possível, ser o menos visto

assivel e se confundir o menos possível com essa parte da popu-

ção que os grandes chamam povo, e que tanto abominam. Bem

certo, que não fallamos em geral; muitos não terão essa miseravel

monornania, sobre tudo em certas províncias como, por exemplo,

na de Pernambuco; mas em certas outras provincias, na Bahia,

or exemplo, uma grande parte de homem, (não fallamos nas

V- porque essas vivem como aves nocturnas, que s0 apparecem

com as trevas) não só não salierri ás ruas por inercia, corno por

distiricção e gravidade. Estes exemplos são nocivos e tristes, e

delles o homem de senso deve fugir para não conderrinar o seu

corpo, e à sua vida a um habito tão abominivel. Para que se fuja

pois destes inconvenientes que trazem a queda do corpo, que afu-

gentam as forças e a energia, he mister uma vontade forte, e que

resistindo ao clima e ao calor, despreze os habitos maus e os

maus exemolos Dromovendo um exercicio

1 necessaTio, moderado

e regulado por uma boa hygiene; pois que a energia moral sempre

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i,

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40

GILBERTO FREYRE

foi de um grande recurso para que saffia-se victoriosamente da

lucta travada corri o clima de um paiz quente e os habítos da

molleza." E concluía o higienista do meado do século XiX:

"Debaixo do ponto de vista da hygiene geral, o Brasil deve

confessar-se, ha vinte cinco annos tem feito algum progresso, mas

isto só se observa nas grandes cidades; sendo para lamentar que

o systema de encanamento esteja ainda no maior atrazo possivel,

quando delle dependeria a hygiene das cidades. A hygiene pri-

vada, esta sim, tem-se conservado em grande atrazo."

Noite de escuro, é que sair de casa, nas cidades brasileiras dos

princípios do século XIX, tinha seu quê de aventura. Tudo escuro;

becos estreitos; poças de lama; "tigres" estourados no meio da rua;

bicho morto. Na Bahia, em Vila Rica, em Olinda, ladeiras por

onde o pé escorregando em alguma casca de fruta podre, a pessoa

corria o risco de ir espapaçar-se nas pedras e até perder-se em

despenhadeiros. De modo que o prudente era sair-se com um

escravo, levando uma luz de azeite de peixe que alumiasse o

caminho, a rua esburacada, o beco sujo.

As ruas, parece que tiveram nas cidades mais antigas do Brasil

seu vago caráter sindicalista ou medievalista, numas se achando

estabelecidos, se não exclusivamente, de preferência, certa ordem




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