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à "peculiar verticalidade [da arquitetura do Recife] por motivos de ordem

predominantemente ecológica", que "já era o caraterístico das construções

holandesas na Holanda velha. . ." (II, pág. 41). Salientando essas ante-

cipações, escreveu o historiador José Antônio Consalves de Melo, no

seu Tempo dos Flamengos (Rio de janeiro, 1947): "Condições topográficas

e econômicas - especialmente o elevado preço dos terrenos - do mesmo

modo e quase pelas mesmas razões que na Holanda - condicionaram no

Recife [ .... 1 um tipo curioso de sobrado que persistiu até o século XIX:

o sobrado alto e magro [ .... 1. Os documentos confirmam o que disse

Gilberto Freyre: pela lista dos terrenos e casas vendidos vé-se que, na

maioria, os sobrados mediam de frente 20 pés, que correspondem a 7m42.

Muitos, porém, com 16 pés, ou 5m 93. Os menores com 13 pés (4m 82) ...

Muitas dessas casas davam a impressão de mais altas em conseqüência do

frontão ou da elevação da empena lateral, o que causava uma grande incli-

nação do telhado. É um aspecto de influência inegavelmente holandesa na

arquitetura do Recife e que se conservou até o século XIX" (págs. 85-86).

Vê-se por aí que não são rigc,~losamente exatos os publicistas que atribuem

a outro a sugestão de ter a verticalidade caraterística da arquitetura urbana

do Recife decorrido das condições topográficas e econômicas - ecológicas,

ern resumo - ou da configuração de ilha ou quase-ilha da área em que foi

edificada a cidade, condições a que se juntou a influência da técnica holan-

desa de arquitetura urbana, condicionada por experiência igual, ou seme-

Ihante, à dos construtores do Recife.

2M. de Barros Latif, As Minas Gerais, Rio de janeiro, 1938. Sobre o

assunto veja-se também o estudo de Augusto de Lima Júnior, A Capitania

das Minas Gerais - Suas Origens e Formação, Lisboa, 1940.

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3Em atas da Câmara de Salvador, referentes ao século XVU, já aparece



a figura do mercador de sobrado, destacada do mercador comum. Documen-

tos Históricos do Arquivo Municipal. Atas da Câmara, 1625-1641, Bahia,

1949, 2.0 vol., págs. 129 e 130.

4Abade Raynal, Histoire Philosophique et Politíque des Etablissement3

& du Commerce des Européens dans les Deux Indes, Genebra, MDCCLXXV.

A presença de judeus, desde dias remotos, em cidades como o Recife e

Salvador - cidades cuja economia urbana refletia a prosperidade rural da

região do açúcar - explica-se pela sua situação de capitalistas em face de

senhores de terras e escravos cujo poder feudal não ia ao extremo de dis-

pensar o dinheiro ou o crédito para a fundação de safras e compra de

escravos. Documento que se encontra na Seção de Mss. da Biblioteca Na-

cional do Rio de janeiro ( 1, 32 C 17, n.0 17). "Parecer e tratado feito

sobre os excessivos impostos que cahirão sobre as lavouras do Brasil arrui-

nando o commercio deste, feito Por Joarn Peixoto Viegas enviado ao Sr.

Marquez das Minas concelheiro de S. Mag.de e então g.or g.e da cid.e da B.a

- B.a 20 de 1687 Armes", refere-se à exploração do açúcar do Brasil por

intermediários, responsáveis pelos altos ou excessivos preços por que o pro-

duto brasileiro chegou a ser vendido em Portugal de 1644 a 1654. Enquanto

esses intermediários enriqueciam, os lavradores, já então, viviam endividados.

Note-se, porém, que os intermediários não eram todos judeus no sentido

étnico ou nacional de judaísmo, mas no social, de mercadores ou usurários

espertos. A respeito de "excessos judaicos no comercio" no Brasil do século

XVII, veja-se a nota 440 do historiador José Honório Rodrigues à Memorável

Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, de Johan Níeuhof, São Paulo, s.d.

5Vejam-se sobre o assunto Roberto Simonsen, História Econômica do

Brasil, 1500-1820, 1 (São Paulo, 1937) e Caio Prado Júnior, Formação do

Brasil Contemporâneo (São Paulo, 1942), além de João Lúcio de Azevedo,

Épocas de Portugal Econômico (Lisboa, 1929), que continua obra essencial

ao estudo da história econômica do Brasil, pelas novas perspectivas que

abriu à compreensão do assunto, versado, em obras mais recentes, mas

sem contribuições notáveis no plano rigorosamente histórico, por economis-

tas ilustres, entre os quais os Srs. Humberto Bastos e Celso Furtado.

6Di£ílogos das Grandezas do Brasil, ed. da Academia Brasileira de Letras,

Rio de janeiro, 1930.

7"Exposição Manuscrita sobre o Estado das Minas por José da Costa

Sousa RabeHo", citada por J. Felício dos Santos nas suas "Memórias do

Distrito Diamantino", Revista do

Horizonte, 1910, págs. 65-66.

Arquivo Público Mineiro, ano XV, Belo

SIbid., pág. 66. Note-se que desde os começos do século XVIII e talvez

desde fins do XVII, o ouro atraiu às Minas estrangeiros que, segundo meti-

culoso pesquisador do assunto - o Professor Manuel Cardoso no seu estudo

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GILBERTO FREYRE



"Brazilian Cold Rush", publicado em The Amerícas, Washington, vol. III,

n.o 2, outubro, 1946 - não sendo numerosos, exerceram, entretanto, sobre

a economia e a vida da região, influência "desproportíonately great" (pág.

140). Esses estrangeiros parece que foram principalmente negociantes usu-

rários ou intermediários. E desde os princípios do século XVIII seriam,

vários deles, como os que James Holman conheceu nos começos do século

XIX: judeus ou israelitas. A presença de judeus ricos ou prósperos na área

brasileira de mineração fez o observador inglês filosofar a respeito do assunto:

"How is it that other men cannot succeed so well as those of the Jewish

persuasion? [ .... I is it solely owing to their less scrupulous integrity?"

(Travels in Madeira, Sierra Leone, Teneriffe, S. Jago, Cape Coast, Fernando

Po, Princes Island, etc. etc., Londres, 1940, 1, pAgs. 469-470.) Holman

refere-se principalmente a certo judeu prussiano que "has ammassed a con-

siderable property in this country by dealing in precious stores, in addition

to which traffic he has a general store at Gongo Soco. He has also a brother,

a dealer in jewels who lives at Villa Rica" (pAg. 469).

9Em 1721, Dom Lourenço de Almeida já se referia ao mal-estar nas

Minas Gerais em conseqüência de estarem endividados os moradores: '1 .... 1

procede dos grandes empenhos em que se achão os moradores pela facili-

dade de comprarem escravos fiados, empenhando-se [ .... 1 com a esperança

de desempenho com os lucros que esperão tirar das faisqueiras o qual muitas

vezes se desvanesse. . ." (-Governo de Dom Lourenço de Almeida. Cartas

regias sobre o procedimento que se ha de ter com os povos que se sublevam

e outros assuntos (1721)", Revista do Arquivo Público Mineiro, ano VI,

Belo Horizonte, 1901, pág. 216.) Na "Carta muito interessante do advogado

da Bahia José da Silva Lisboa para o Dr. Domingos Vandelli, Director do

Real jardim Botanico de Lisboa - Bahia, 18 de outubro de 1781" vê-se

que semelhante à da área mineira era a situação da área baiana do açúcar

durante o século XVIII: lucravam com os preços altos do açúcar os nego-

ciantes ou intermediários. "Donde se segue" - diz a carta - "que não

obstante ter, ha 5 annos, quasi dobrado o valor dos assucares, corntudo não

teria dobrado realmente a riquesa dos cultivadores: e com effeito assim sue-

cede. . ." Os senhores, estes, "na continua sujeição dos mesmos negociantes,

verão quasi absorver-se o beneficio da sua cultura pela exhorbitancia das

uzuras dos seus assistentes" (Ms., Arquivo Histórico Colonial, de Lisboa,

antigo da Marinha e Ultramar, 10.319, Inventário Castro e Almeida, Rio

de janeiro, 1914, 11). Em Pernambuco, isto é, na inteira Nova Lusitânia,

os já citados Diálogos das Grandezas do Brasil indicam que não era diversa

a situação; e esse estado de relações entre agricultores e usurários ou comer-

ciantes se manteria até o século XIX quando Joaquim Nabuco, em confe-

rência no Rio de janeiro, salientou que "o antigo fazendeiro trabalhava

para o traficante que lhe fornecia escravos como o atual trabalha para o

correspondente ou para o banco que lhe adianta capitais" ("Conferência

a 22 de junho de 1884 no Teatro Politeama", Rio de janeiro, 1884).

SOBR~ E MUCAMBOS - 1.' Tomo

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27



1OIniciativas como a do Conde de Valadares e as de outros governadores

coloniais no sentido de facilitar-se a ascensão social do homem de cor pelo

exercício de cargos de importância - inclusive comandos militares - deve-se

dizer que foram mais de uma vez contrariadas por atitudes como a do Mar-

quês de Lavradio, que, Vice-Rei, rebaixou em 1771 de posto um índio ca-

pitão-mor por ter casado com uma negra e assim haver manchado o seu

sangue e se mostrado indigno do cargo. Ao assunto refere-se Alfredo de

Carvalho em Frases e Palavras, Recife, 1906, pág. 42. Ao mesmo Lavradio

deve-se a criação no Rio de janeiro de um terço de homens pardos; mas

com comandante e ajudantes de oficiais, brancos Ç'Relatorio do Marquez de

Lavradio", Rev. do Inst. Hist. e Geog. Br., Rio de janeiro, 1843, n.o 16,

pág. 419.)

110 século XVIII foi no Brasil uma época de restrições a privilégios que

vinham sendo concedidos pela Coroa a pessoas importantes ou prestimosas

da terra, inclusive homens de cor. Com relação às Minas houve bandos

como o de 30 de abril de 1720 suprimindo postos de oficiais, bem como

os de oficiais honorários. postos de comando e honras que engrandeciam

socialmente indivíduos nascidos no Brasil. Na mesma época, proibiu-se aos

negros do Serro do Frio - bando de 2 de maio de 1720 - que em suas

festas se coroassem como reis e rainhas, sob severas penas: o vigário que

os coroasse perderia a côngrua (Ms., Arquivo Público Mineiro, códice n.o

11, antigo 10). 0 bando de 21 de novembro de 1719 já estabelecera que

nenhum negro poderia possuir escravos ou bens, proibindo aos vigários ba-

tizarem negros que trouxessem negros por padrinhos (Ms., Arquivo Público

Mineiro, códice n.o 11, antigo 10).

12Vejam-se, sobre o assunto, estudos do historiador Afonso de E. Taunay,

que se tem especializado na investigação do passado paulista. Entre esses:

Estudos de História Paulísta, São Paulo, 1927, Non Ducor, Duco, São Paulo,

1924, São Paulo nos Primeiros Anos (1554-1601), Tours, 1920.

13já vimos, por documento do século XVII (nota 4), que era então

má, sob o aspecto econômico, a situação do lavrador brasileiro, a quem

não aproveitavam tanto quanto aos intermediários os altos preços por que

eram vendidos seus produtos na Europa. Mesmo assim, a agricultura do

Brasil colonial abastecera com algum dos seus produtos populações da

Europa, da África e mesmo da Ásia, como lembrou A. J. de Melo Morais,

no seu 0 Brasil Social e Político - 0 que fomos e o que somos, publicado

no Rio de janeiro em 1872. É que, ao seu ver, além da diminuição de

trabalho nos campos depois da Independência e da perturbação causada na

economia brasileira pelos privilégios concedidos aos ingleses com a abertura

dos portos, o comércio passara a viver, mais do que na época colonial, ---dos

productos do lavrador", gozando "o favor das rnoratorias" enquanto o la-

vrador tinha "prazos fataes". Ao contrário disso, nos tempos coloniais, 11 com

as moratorias, e mesmo privilegies concedidos aos senhores de engenho,

salvarão-se muitas casas que estavão arruinadas. . ." (1, pág. 58). Ainda

segundo o primeiro Melo Morais, cujas observações datarn de pouco depois

heir V16886-

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28 GILBERTO FikrYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1,1 Tomo 29



do meado do século XIX, o agricultor, no Brasil independente, vinha lutando

11 com os juros despropositados dos intitulados commerciantes", além de ter

que pagar ao Coçerno "juros pesadissimos". 0 Banco do Brasil, longe de

favorecer o agricultor, emprestava-lhe dinheiro a 9%, com 8% de amortização

e com hipotecas nGi -valor duplo da quantia que emprestava, reformáveis as

letras "de 6 em 6 mezes improrogavelmente". Sobre as primeiras relações

do Banco do Brasil com a economia subnacional e nacional do nosso país

veja-se o ensaio do Professor Afonso Arinos de Melo Franco, Hist6ria do Banco

do Brasil (Primeira Fase - 1808-1833), São Paulo, s.d.

14Desde os dias coloniais que o comércio no Brasil vinha sendo invadido

pelos indivíduos "sem educação mercantil" que chegavam a comerciantes pelo

.1 abuso que se tem feito do credito". Eram, em grande parte, "gentes naturaes

do Minho [ .... 1 de muita viveza, de um espirito muito inquieto, e de

pouca ou nenhuma sinceridade. Constituíam-se numa, casta de rein6is.

,1 .... 1 senhores do cominercio 1 não admittem filho nenhum da terra

a caixeiros, por Xonde possam algum dia serem negociantes. .." ("Relatorío

do Marquez; de Lavradio" cit., pág. 452).

150 Brasil Social e Político, cit., I, pág. 58. Refere-se o cronista aos

"descreditos espalhados por esses agentes de cobranças, obrigando alguns

homens susceptiveis aos desatinos que se teem dado pelo interior do Brasir'.

16joaquim Nabuco refere-se ao agricultor brasileiro da segunda metade

do século XIX como "empregado agrícola que o comissário ou o acionista

de banco tem no interior para fazer o seu dinheiro render acima de 12%..."

E ainda? -1 .... 1 o Estado tem um aparelho especial chamado apólice, do

qual os bancos são as ventosas para sugar o que reste à lavoura de lucro

líquido. Essas sobras ele as distribui pelo seu exército de funcionários.

("Conferência" cit., pág. 12).

17Em 1784, Alexandre Rodrigues Ferreira salientava, a respeito do Pará,

abusos de comerciantes que, noutras áreas, eram também praticados por

produtores: 'I .... 1 nesse mesmo pouco que se exporta praticão os corrimer-

ciantes o abuso de em prejuiso do Coramercio e descredito seu deixarem

hir ensacados paos, trapos e pedras. Falsificaçã9 esta que em outro tempo,

deu motivo a publicação do Bando que mandou lançar o Senhor Comes

Freire de Andrada quando governava e residia no Maranhão, ordenando

que toda a pessoa que comprasse ou mandasse comprar alguma cousa

com novãos falços de algodão (que era a moeda de terra) em cujos

novellos se achassem paos, trapos, etc... . fosse conderrinado em trez mezes

de Cadêa donde pagava 20000 Rs metade para a Fazenda e metade para

o Denunciante. .." (Ms., na Biblioteca Nacional do Rio de janeiro, "Estado

Presente da Agricultura do Pará Reprezentado a S. Excia. o-Sr. Martinho

de Souza e Albuquerque, Governador e Capitão General do Estado", Pará,

5 de março de 1784, n.o 12.904 do Cat. da Exp.) Veja-se sobre abusos do

mesmo gênero praticados por produtores, a Memoria Analytica acerca do

Commercio d'Escravos e acerca da Escravidão Domestica, de Frederico

Leopoldo César Burlamaqui, Rio de janeiro, 1837, pág. 81.

IsBurlamaqui, op. cit., pág. 82.

19josé da Silva Lisboa, em sua "Carta muito interessante... para o Dr.

Domingos Vandelli, Director do Real jardim Botanico de :Lisboa. Bahia, 8

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de outubro de 1781" cit., refere-se à má situação de vida de muitos dos



senhores de terras não só explorados, ao seu ver, pelos negociantes, como

dados a "exterioridades de pura fanfarronada" do que resultava que "o

interior da familia" estivesse em "desesperação".

20Ê do mesmo observador - José da Silva Lisboa - que conhecia na

intimidade as condições de vida no Recôncavo baiano, durante o século

XVIII, o reparo de que era irregularíssima e precária a produção da maioria

dos negros: "Todos os dias se recebem más noticias de hum. preto morto,

outro doente, outro rebelde, outro que deixou corromper os pés de bichos,

por preguiça e ainda para desgostar o seu senhor." Sobre as condições de

produção e trabalho no Maranhão da era colonial veja-se o Compêndio

Histórico-Político dos Princípios da Lavoura do Maranhão, etc. (Paris,

MDCCCXVIII), de Raimundo José de Sousa Gayozo, obra hoje raríssima que

nos foi possível consultar graças à gentileza do diretor da Biblioteca Nacio-

nal, Sr. josué Montelo, que a obteve de outra biblioteca por empréstimo.

21MCIO Morais, 0 Brasil Social e Político, cit., 1, pág. 20. Veja-se do

mesmo autor Corographia Historica, Chronologica, Genealogíca, Nobiliaria

e Política do Brasil, Rio de janeiro, 1863, V, pág. 320.

22Padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, 0 Carapuceiro, Recife,

1839, n.o 4.

#

e



galega

à

0 ENGENHO E A PRAÇA;



11 - ACASAEA RUA.

A Praça venceu o Engenho, mas aos poucos. Quase sempre

respeitando nos vencidos umas tantas virtudes e gabolices;

procurando imitá-las; às vezes até romantizando-as e exageran-

do-as nessa imitação de "inferiores" por "superiores". Outras vezes

troçando do matuto rico, do fazendeiro opulento mas atra-

sado nos seus modos de falar e nas suas modas de vestir-se, do

senhor de engenho fanfarrão e ate quixotesco, de toda a "gente

do matto", de todo o roceiro de "serra acima". Destacando-lhe

os vícios de linguagem, os atrasos de cinqüenta, cem anos em

estilos de habitação e de meios de transporte, os ridículos de

moral e de etiqueta também atrasada um século, dois, às vezes

três. Porque esses atrasos variavam de região para região, dando

ao pais variedade pitoresca, mas às vezes dramática, de estilos e

estágios de cultura. Variavam de região para região como de

sexo para sexo, de raça para raça, de classe para classe.

Quando no capítulo anterior procuramos salientar o declínio

do patriarcado rural, principalmente em Pernambuco e na Bahia,

onde desde o século XVI se consolidara na casa-grande de enge-

nho ou de fazenda, dominando daí a paisagem do Brasil colonial,

foi pretendendo fixar apenas a tendência mais saliente; e não

sustentando que o domínio da casa-grande de engenho tivesse

sido até então absoluto. 0 Paulista, por exemplo, figura que dra-

matizou como nenhuma a paisagem sertaneja dos primeiros dois

séculos de colonização, imprimindo-lhe traços profundos de sua

ação criadora, a casa que ligou a essa paisagem não foi a grande

e estável, de pedra e cal, mas a palhoça quase de- caboclo, o

casebre quase de cigano, o mucambo quase de negro, que só nos

fins do século XVIII, época de relativa sedentariedade para aqueles

30

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo



31

nômades se europeizaria na habitação urbana de taipa, "isto he"

-explica Casal-"de terra" e "branqueada com tabatinga".'

Em 1720, em carta a Bartolomeu de Sousa Mexia, o Conde de

Assumar, queixando-se de Domingos Rodrigues do Prado "natural

da comarca de São Paulo, homem revoltoso e regullo", informava

que decidira povoar Pitangui de reinoiSI que explorassem melhor

as minas, pois era lugar até então habitado por Paulistas "cujas

#

habitações sempre tem pouca forma, porque a sua vida e a na-



tural propensão que tem de andarem pelos mattos, faz que as

suas povoaçoens não sejam persistentes ... 1

Num país da extensão do nosso e com tão acentuada diver-

sidade não tanto de clima, nem de tecnica de produção e de tra-

balho-aliás a de trabalho foi quase a mesma: a escravidão, pri-

meiro do indio e depois do negro-mas de contatos com outros

povos e com outras culturas-con tatos tão desi~uais, durante o

período da formação brasileira-só podia ter varia c , como variou,

de região para região, o processo de integração social ou na-

cional. Integração ainda hoje incompleta.

É que a diferenciação, intensíssima nuns pontos, noutros foi

quase nenhuma. Quase nenhuma mesmo através da segunda me-

tade do século XIX.

Só depois de bem iniciado o século XVIII é que na área mineira

foram-se radicando, em número considerável, famílias ao solo.

Ate então a zona do ouro se achava salpicada menos de vilas e

de casas de fazenda do que de bandos de aventureiros sem lugar

fixo de atividade nem organização cristã de família. Bandeiras.

Arraiais movediços, atrás de minas e de escravos. Burgos ceno-

gráficos que desapareciam e reapareciam como se fossem cenários

de teatro de feira.

Compreende-se não se ter desenvolvido ou generalizado entre

gente tão móvel, nenhum tipo de habitação sólida ou senhoril,

contentando-se os colonos aventureiros com a palhoça, a casa

de barro, o casebre; com um gênero de vida, de habitação e de

alimentaçao proximo do indígena; com a técnica de transporte,

de pesca, de caça e até de lavoura, da gente nativa. Seus contatos

de cultura com a Europa quase que se interrompiam de todo à

proporção que se distanciavam do litoral; iam-se amortecendo,

rareando, para se avivarem os contatos com a cultura indígena.

E esses aventureiros de palhoça ou de casa de barro, deve-se

notar que eram em grande parte solteirões; mais fáceis, portanto,

de se dissolverem em nômades. "Solteirões"-informava D. Lou-

renço de Almeida em carta a el-Rei, que já compreendera a con-

veniência política dos seus colonos tomarem "estado de casados"

li

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32

GiLBERTo FBEYRE

e se estabelecerem -com suas famílias reguladas." Porque ---por

este modo ficarão mais obedientes ás Minhas reaes ordens, e os

filhos que tiverem do matrimonio os farão ainda mais obedientes,

e vos ordeno me informeis se será conveniente mandar eu que

só os casados possam entrar na governança das camaras das villas,

e se haverá sufficiente numero de casados para se poder praticar

esta ordem..." Reparava D. Lourenço: "[ .... 1 e mostra a expe-

riencia nos poucos casados ue lia nestas terras, que são muito

mayores trabalhadores em Ssentranharem ouro da terra, que

estes solteirões que só lhes leva o tempo a se occuparem em

extravagancias [ .... ]".3

No ue talvez houvesse injustiça, e grande, aos solteirões, da

parte 2è D. Lourenço. Eles descobriram minas, romperam o mato

virgem, abriram caminhos, tendo sido provavelmente mais efi-

cientes que os casados nessa fase de colonização quase núlitar.

É claro que para uma época de vida mais fácil, tudo pacificado,

só faltando mesmo explorar as minas, burocratizar o trabalho,

regularizar e cristianizar as relações entre os sexos, esses român-

ticos tornavam-se figuras incômodas e arcaicas; figuras angulosas,

ajeitando-se mal a uma sociedade de gente arredondada pela

sedentariedade e pela paz. A não ser que se casassem-como fez

em Pernambuco Jerônimo de Albuquerque, depois de muitos anos

de vida solta, libertina mesmo, mas nem por isto inútil.

Não e preciso negar-se ao solteiro nômade todo o valor, para

reconhecer-se a importância enorme do casado e sobretudo da




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