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Entretanto, em 1670, o Capitão-General de Pernambuco Ber-

nardo de Miranda Henriques, por ter mandado prender o presi-

dente da Câmara de Iguaraçu-uma das tais Câmaras dominadas

pela aristocracia do açúcar-tívera contra seu gesfi~ dura e solene

carta régia. Quatro anos antes, havendo a Câmara de Olinda

deposto o Capitão-General Jeronimo de Mendonça Furtado, o

vice-rei aprovara-lhe o ato insolente. E não precisamos de aqui

relembrar a série de atos e manifestações as mais claras de inso-

lência da Câmara de São Paulo, no mesmo se'culoXVII.12

A política econômica da Metrópole portuguesa que, a partir

do século XVIII, foi a de deixar a grande lavoura um tanto de

SoBRAms E MucAmBos - 1.1 Tomo

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lado, colocando sob o seu melhor favor as cidades e os homens

de comércio, e até a grite miúda, encontraria continuador em

Dom oão VI. Ou me or: nos responsáveis pela sua orientação,

antes Crguesa do que rural, antes capitalista do que feudalista,

de governo.

Acentuou-se com Dom João VI o desprestígio da aristocracia

rural. Acabaram-se aquelas ternuras del-Rei com os devedores

sempre em atraso. As Câmaras deixaram de ser privilégio dos

andes=etários de terras. "Impostos pesadíssimoS" e "juros

ésprop s", diria um cronista do meado do século XIX,

vieram dificultar desde então a vida do dono de terras. Porque

~i o desfavorecido lavrador não pode acudir de prom to aos seus

pa imentos, por lhe ter corrido mal o armo", os proCos do seu

pa

traEalho não chegando Cara "pagar os juros exorbitantes do valor



dos generos comprados , devia considerar-se perdido.113.

Com os ricos das cidades emprestando ao agricultor do século

XIX,,a 9%, com 8% de amortização e com hipoteca no valor duplo

da quantia emprestada, reformáveis as letras de seis em seis

meses improrrogavelmente, os agricultores se sentiam sem ne-

nhum ario para a lavoura. Ao contrário: impunham-lhe os bancos

at

at

razo! atais para suas dívidas enquanto o comércio, descansado



e seu, gozava agora o favor das moratórias. Entretanto era um

comércio-dizia um apologista da agricultura-que ainda por cima

"recorria ao contrabando e à fraude". 14

Bons tinham sido, para a lavoura, os primeiros tempos coloniais,

com os privilégios concedidos aos senhores de engenho: privi-

lè acentuar-que iam quase ao ponto de favorecer o

cafote, quando praticado por alguns dos grandes senhores de

terras e de escravos.

"Todos roubam ao incauto lavrador", lê-se em livro do velho

Melo Morais de 1870.15 Incauto, não: desfavorecido pelo governo,

agora mais chegado ao comércio das cidades e às indústrias

urbanas que começavam a repontar na paisagem brasileira com

seus bueiros e suas chaminés, u'ando de f iligem o verde das

s E sítios. A Icobrança de dividas,

mangueiras e das jaqueiras líricas

atra,~és de agentes que os bancos despachavam para as casas-

-grandes do interior, parecia ao cronista vir concorrendo podero-

samente par2 o desprestígio social dos agricultores. Mas seria

menos um abuso que a regularização de relações entre credor e

devedor-outrora irregularíssimas, o devedor da casa-grande quase

não fazendo caso do credor de sobrado.

Os engenhos, lugare9 santos donde outrora ninguém se apro-

ximava senão na ponta dos pés e para pedir alguma coisa-pedir

asilo, edir to, edir moça em casamento, pedir esmola para

#

v

festa Xe igrejao, peNir comida, pedir um coco de água de beber-



~ li

~I

0



1

#

18 GmBERTo FREYRE SoBRAms E MucAmmos - 1.1 Tomo 19



deram para ser invadidos por agentes de cobrança, representantes

de uma instituição arrogante da cidade-o Banco-quase tão des-

restigiadora da majestade das casas-grandes quanto a polícia

o Conde de Assumar, em Minas, ou a do Presidente Chichorro

da Gama, em Pernambuco.

Para o velho cronista o agente de cobrança desacreditava "o

lavrador por toda a parte, a ponto de produzir no mesmo logar

onde mora, o seu descredito, trazendo assim a ruiria das familias,

pois que muitos casamentos se teem. desmanchado nos nossos

sertões pelos descreditos espalhados por esses agentes de co-

branças, obrigando alguns homens susceptiveis aos desatinos ue

se teeiri dado pelo interior do Brasil". Esses "desatinos^' dos---To-

mens susceptiveis" do interior eram menos o suicídio, que o assas-

sinato. Alguns agentes de cobrança acabaram esfaqueados por

cabras de engenho, de emboscada, pelas estradas de massa e.

A atitude da gente de dinheiro das cidades contra os seXores

endividados teve quase o caráter de uma desforra fulminante. Às

vezes eram filhos e netos vingando-se de humilhações recebidas

pelos pais e avós.

É curioso constatar que as proprias gerações mais novas de

filhos de senhores de engenho, os rapazes educados na Europa,

na Bahia, em São Paulo, em Olinda, no Rio de janeiro, foram-se

tornando, em certo sentido, desertores de uma aristocracia cujo

enero de vida, cujo estilo de política, cuja moral, cujo sentido

e justiça já não se conciliavam com seus gostos e estilos de

bacharéis, médicos e doutores europeizados. Afrancesados, urba-

nizados e policiados.

0 bacharel-magistrado, presidente de província, ministro, chefe

dç polícia-seria, na luta quase de morte entre a justiça imperial

e à do pater familias rural, o aliado do Governo contra o próprio

Pai ou o próprio Avô. 0 médico, o desprestigiador da medicina

caseira, que era um dos aspectos mais sedutores da autoridade

como que matriareal de sua mãe ou de sua avó, senhora de enge-

nho. Os dois, aliados da Cidade contra o Engenho. Da Praça

contra a Roça. Do Estado contra a Família.

Além do que, bacharéis e médicos raramente voltavam às fa-

zendas e engenhos patriarcais depois de formados. Com seu ta-

lento e sua ciência foram enriquecendo a Corte, abrilhantando

as cidades, abandonando a roça. A diplomacia, a política, as

profissões liberais, as vezes a alta indústria, absorveram-nos. Em-

polgaram-nos.

As cidades tomaram das fazendas e dos engenhos esses filhos

mais ilustres-e também os padres e os que se dedicavam à

carreira das armas. Os inferiores em inteligência, ou os sem saúde

para emigrar ou seguir a vida militar, é que foram, em numerosos

casos, sucedendo os avós na administração dos, domínios rurais;

e estes reduzindo-se em importância e extensão; dividindo-se entre

herdeiros distantes, indiferentes à agricultura e fixados nas cidades.

#

Raro um bacharel como Antônio de Morais Silva, que se trans-



feriu com toda a sua sabedoria, seus livros, seu grego, seu latim,

da Corte para um engenho de Muribeca; e aí dedicou-se não só

ao trabalho formidável de escrever o Dicionário, hoje clássico,

como ao de melhorar os métodos pernambucanos de plantar

cana e fazer açúcar. Apenas esse bacharel que no seu engenho

recebia a visita de letrados como o Padre Sousa Caldas e de sua

casa-grande de Muribeca correspondia-se com os maiores filólogos

portugueses do seu tempo, não deixou de manter sobrado no

Recife, com janela para a rua e vista para o mar.

Mas não vá ninguém abandonar-se à idéia de que os grandes

proprietários de terra, tão poderosos a princípio, acabaram todos

uns reis Lear, sempre traídos Sor filhos doutores e por filhas

o

casadas com bacharéis que aban onassern as velhas casas-grandes



de engenho e de fazenda como a navios e não tardassem a

naufragar; traídos por el-Rei que dantes Ses fizera todas as

vontades e todas as festas; traídos pela Igreja que outrora os

adulara. 0 drama da desintegração do poder, por algum tempo

quase absoluto, do pater familías rural, no Brasil, não foi tão

simples; nem a ascensão da burguesia tão rápida.

Houve senhores que esmagados pelas hipotecas e pelas dividas,

encontraram amparo no filho ou no genro, deputado, ministro,

funcionário público, e não apenas rnercador de sobrado. 0 Estado

foi afinal o "Rande asilo das fortunas desbaratadas da escra-

vidão , c sse Joaquim Nabuco.16

Houve os que tiveram no comissário ou no correspondente,

amigo honesto, que em vez de parasita do dono de terras, ao

contrário, conservou e até aumentou a fortuna do comitente des-

mazelado, ignorante de tudo, ate da extensão ou dos limites de

seus dominios e do volume de sua produção. E muito fidal o de

1 C

casa-grande do interior foi caloteiro em toda a extensão da palavra;



e não vítima dos judeus da cidade. Em vez de roubado, na

cidade, ele é que roubou nas remessas de açúcar ou de café.

Houve, enfim, muito velhaco e espertalhão escondido por trás

de barbas patriarcais e engabelando, com suas manhas, comissários,

agentes de cobrança e até ciganos, vendedores de cavalo pelos

engenhos.

No açUcar-dizia em 1833 Frederico Burlamaqui referindo-se

a senhores de engenho vel.hacos-"misturão-lhe diversas qualidades

inferiores e alguma terra* ou arêa e vendem-n'o como de quali-

- " 17 Lei de 28 de fevereiro de 1688 já procurava

dade superior .

conter a falsificação de produtos, promovida não só por inter-

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20

GELBFRTO FREYFLE



mediários-o que iria por conta da tão falada velhacaria de "cris-

tãos-novo s"- como por produtores-quase todos "cristãos-velhos".

Referia-se à "pouca reputaçao 11 que já tinham os açúcares do

Brasil "pelos vícios com que se lavravam" por "estar no arbitrio.

dos lavradores [ .... ] fabrical-os com falsidade [ .... ]." Doncie

a providência severa mas difícil de ser executada em terras a

seu modo feudais como as do Brasil de então: "E achando-se

assucar falsificado, seja logo o senhor de engenho degradado por

tempo de dous annos para uma das capitanias daquelle Estado

e pague 40$000 em dinheiro, e o caixeiro do engenho pagará a

mesma pena pecumaria, e será degradado dous annos para An-

gola [ .... ]." Esses trechos de lei tão significativa, transcrèvemo-

-los, na ortografia alterada da reprodução, das páginas 47 a 48

das Inforniações Sobre o Estado da Lavoura publicadas no Rio

de janeiro em 1874.

É merecedor de nota o fato de que em 27 de abril de 1840,

um correspondente do Diário de Pernambuco, reclamando contra

a alarmante adulteração dos principais alimentos em Pernambuco,

incluía entre os produtos adulterados o próprio açúcar "carre--

gado de cal e farinha de mandioca". Adulteração de que parece

ter continuado a participar, como nos séculos coloniais, o produtor

embora o principal mistificador fosse o vilão, isto e, o mercador

de cidade.

No mesmo Pernambuco, a tradição guarda a memória de certo

fidalgote rural muito sabido que não punha nome nos seus negros:

era tudo número-Dez, Quinze, Vinte. Quando o representante

do comissário o visitava, o manhoso senhor, dono de dez ou doze

negros magros, simulava a maior opulência deste mundo gritando

para o capataz: "Mande Dez para tal trabalho", "Quinze para

isto", "Vinte para aquilo". Com o que, dizem que assegurava o

crédito: o homem da cidade deixava-se emprenhar pelos ouvidos.

Exagero de anedota, sem dúvida. Mas pelo número de escravos

se avaliava, com efeito, a importância do senhor rural: base, aliás

precária, exigindo um aumento tal de população escrava, que só

se fazendo como o velhaco: chamando cada escravo "Dez" ou

"Vinte" ou "Trinta", para efeito comercial sobre o comissário.

"Hum senhor d'Engenho"-argumentava Burlamaqui em 33-"que

tem empregado em escravos, terras e machinas hum capital de

600 a 860.000 cruzados, apenas pode contar com huma renda pre-

caria de 12 a 15 mil cruzados annuaes, que as despezas consomern

e ás vezes excedem ."18 Despesas quase todas com escravos; mí-

nimas com as terras e as máquinas. Que as terras não se explo-

ravam senão pelo processo mais brutal: o dos caboclos, a coivara,

o fogo, o machado. Nada de adubo nem de gasto ou cuidado

com a terra: esta tornando-se maninha, era abandonada quase

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.1 Tomo

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sem saudade, principalmente nas regiões de casas-grandes menos



estáveis. Casas de taipa que não'prendessem o dono com raízes

tão fortes ao solo como as de pedra e cal.

Em toda parte, o processo de agricultura destruidora da natu-

reza dominou com maior ou menor intensidade no Brasil patriarcal.

Grandemente no Norte-no Maranhão, no Pará; em certos trechos

de Pernambuco e da Bahia; em Minas, no Rio de janeiro, em

São Paulo. Em São Paulo, no século XVIII, quando declinou o

furor expansionista e começou a fase mais carateristicamente agrí-

cola, D. Luís Antônio de Sousa, escrevendo em 1767 ao rei de

Portugal, admirava-se do "mau methodci" da lavoura: "só se planta

em matto virgem pelo pouco que custa e pela repugnancia que

tem de se sujeitarem ao maior trabalho de cultivarem os campos,

como nesse Reino"; e em 1781 José da Silva Lisboa escrevia do

Recôncavo para Lisboa queixando-se de que mesmo com o açucar

a preço tão alto os senhores de terras e de negros pouco lu-

cravam.19 Com relação a Minas o seu presidente em 1835, Antônio

Paulino Limpo' de Abreu, lamentava, em relatório, que a faci-

lidade em adquirir-se terra conservasse "como que esquecidos os

recursos com que a Arte costuma tornal-as productivas". 0 mal

não vinha só da facilidade em adquirir-se terra mas também, e

principalmente, da facilidade na sua exploração pelo escravo. 0

mal vinha da base de riqueza e até do crédito rural ter sido, no

nosso regime patriarcal, menos a terra que o escravo. 0 número

de escravos.

Se os escravos-base de riqueza e de crédito-dispensavam o

emprego de máquinas e de adubos caros, pelo proprietário rural,

eram por outro lado, não dez, mas cinqüenta bocas a dar de_

comer, cinqüenta corpos a vestir, mesmo que fosse de estopa

ou de baeta, muitas vezes cinqüenta feridas a tratar. Se havia

senhores rurais que calculavam o valor do escravo pela produção

intensa, de que fosse capaz, matando seus negros de trabalho,

fazendo dez trabalharem por trinta, a maior parte não tinha essa

ánsia toda de lucro nem esse sentido comercial da vida agrícola;

e na conservação dos seus negros, ia-se quase todo o dinheiro

ganho com a cana ou o café. Além do que, muitos eram os negros

me deixavam os pés apodrecer, roídos de bichos, para não traba-

1

1 arem. Vários os que fugiam. Numerosos os que adoeciam.2'



0 período antes sociológico que cronológico de formação social

do Brasil que procuramos estudar nestas páginas, alongando o

esforço de análise e de interpretação empreendido em ensaio já

1

publicado, por um lado continuou um periodo de integração: du-



rante ele é que se consolidou a sociedade brasileira, em torno

de um Governo mais forte, de uma justiça mais livre da pressão

dos indivíduos poderosos, de uma Igreja também mais indepen-

#

11



#

22 GiLBERTo FREYRx SOBRADOS E MUCA2VÍBOS - 1.' Tomo 23

dente das oligarquias regionais e mais pura na vida dos seus

padres. De uma Igreja ue começou a falar mais alto e forte

do ue outrora pel ãos seus bispos, até clamar, pela de Dom

Viá, contra os excessos do próprio Governo de Sua Majestade

e não apenas contra os de Irmandades e Confrarias: expressão

do poder dos ricos, dos letrados, dos próprios mecânicos.

Por outro, foi um período de diferenciação profunda-menos

patriarcalismo, menos absorção do filho pelo pai, da mulher pelo

homem, do indivíduo pela família, da família pelo chefe, do

escravo pelo proprietário; e mais individualismo-da mulher, do

menino, do negro-ao mesmo tempo que mais prostituição, mais

miséria, mais doença. Mais velhice desamparada. Período de tran-

sição. 0 patríarcalismo urbanizou-se.

Maua e os ingleses modernizariam a técnica de transporte.

Os serviços urbanos se aperfeiçoariam e com eles-iluminação, cal-

çamento, e, por fim, saneamento-os estilos de vida nas cidades.

A vida ficaria mais livre da rotina doméstica. A rua-outrora só

de negros, mascates, muleques-se aristocratizaria,

Dentro das cidades, fábricas fabricando 0 sabão, a vela, o pano

que outrora só se fabricavam em casa, nos engenhos, vagarosa e

patriarcalmente. Estrangeiros de procedências e ofícios diversos

-marceneiros, cabeleireiros, químicos, funileiros, ferreiros, mo-

distas, fabricantes de queijo-estabelecendo-se com oficinas, fun-

dições, lojas. As senhoras mais chiques penteando-se não mais à

portuguesa, ou quase à oriental, mas à francesa, vestindo-se tam-

bém à francesa, indo ao teatro ouvir óperas cantadas por italianas

a quem os estudantes ofereciam bouquets, faziam discursos, dedi-

cavam sonetos. Os meninos educando-se em colégios-alguns de

estrangeiros-e em academias; e não apenas em casa, com o tio-

-padre ou o capelão. Nem simplesmente nas escolas de padres.

Período de equilíbrio entre as duas tendêncías-a coletivista e

a individualista-nele se acentuaram alguns dos traços mais sim-

páticos da fisionomia moral do brasileiro. 0 talento político de

contemporização. 0 jurídico, de harmonização. A capacidade de

imitar o estrangeiro e de assimilar-lhe os traços de cultura mais

finos e não apenas os superficiais. De modo geral, o brasileiro

tipico perdeu asperezas paulistas e pernambucanas para abaianar-

-se em político, em homem de cidade e até em cortesão.

É certo que os caturras da primeira metade do século XIX só

enxergavam nos homens das gerações novas, defeitos, fraquezas,

imitações ridículas dos europeus, dentes postiços, desrespeito aos

mais velhos. "Onde estavam"-chegou a perguntar um cronista

da época mais representativo da ortodoxia patriarcal-rural em face

das inovações e das novidades urbanas e europelas-"os capitães-

-generaes do tempo dos reis de Portugal", homens da importância

e da experiência do "famoso Franco de Almeida", que outrora

governavam com tão profundo bom senso os povos das capitanias,

agora províncias desgovernadas por 11 umas criançolas sahidas das

#

escolas de Direito?"2í Referia-se-ao falar em "críançolas" despre-



zíveis-à geração de João Alfredo, de Alfredo de Taunay, de

Sancho de Barros Pimentel, de Alencar, de Caio Prado, de Lucena,

bacharéis que, na verdade, começaram a govern.ar o país quase

uns meninos, com bigodes ou barbas que pareciam postiças.

E o Padre Lopes Cama indignava-se de só enxergar em torno

de si gamenhos com "jaquetinhas pelas virilhas", "barbas e bi-

godes de Mouro", "meias alcatifadas"; bachareletes que j' não

tomavam a bênção aos velhos porque "tal usança cheira a tempos

gothicos e degrada o nobre orgulho de hum jovem uando basta

hum simples cortejo de cabeça assim por modo 1 lagartixa";

elegantes que durante a missa davam as costas ao altar para se

entreterem com o "Madamismo" .22

Os gamenhos eram os bacharéis e doutores formados nos prin-

cípios do século XIX, vários deles educados na Europa: homens

do tipo de Araújo Lima, dos Andradas, de Manuel Ferreira da

Câmara, de Francisco de Melo Franco, de Francisco e Sebastião

do Rego Barros. Do tipo, sobretudo, de Maciel Monteiro-de todos

* mais extremado no culto do "Madamismo".

Contra eles, o Padre conservou-se intransigente nos seus gostos

* estilos de vida: os do seu tempo de menino, criado pela avó.

0 século XVIII ~inda ruralmente patriarcal em seus aspectos mais

caraterísticos. Época de gente boa, de respeito dos filhos aos

ais, de homens direitos e fortes ue chegavam a "grandes idades",

e donas de casa diligentes, de Eces gostosos e lombos de vitela

que vinham à mesa rechinando na frigideira-só os dias da finada

sua avó. 0 século XVIII. 0 Brasil sem carros de cavalo correndo

pelas ruas, sem mecânicos ingleses manejando máquinas miste-

riosas, sem modistas francesas, sem doutores formados na França

e na Alemanha, sem óperas italianas cantadas nos teatros, sem os

moços tomando os lugares dos velhos.

NOTAS AO CAPITULO I

lPelo Inventario das Armas e Petrechos que os Hollandezes deíxarão na

provincia de Pernambuco quando forão obrigados a evacual-a em 1654

(Pernambuco, 1839) vê-se que os prédios da quase-ilha do Recife eram

já em número considerável sobrados altos, confirmando nossa sugestão de

que as condições de espaço físico estimulassem aí, de modo particular, a

arquitetura predominantemente vertical, ao contrário do que se passara em

1

Salvador, nos seus primeiros decênios de vida. Como no Recife - a prin-



cípio povoação de pescadores cujas casas seriam todas de palha - também

1

#



24 GILBERTO FPE"E SOBRADOS E MUCANMOS - 1.' Tomo 25

Salvador começou com "casas cobertas de palha ao modo da terra", como

escreve Teodoro Sampaio na sua História da Fundação da Cidade do Sal-

vador (obra póstuma), Bahia, 1949, pág. 176. Substituída, por ém, a palha

pela "cantaria barata", dos "pedreiros da vizinhança", na construção de

algumas casas de Salvador, é interessante observar-se que estas carateri-

zavam-se pela horizontalidade. Como salienta ainda Teodoro Sampaio, .1 as

dimensões dos prédios particulares, amplos às vezes, no longitudinal, mal

ganhavam em altura, tão baixo o pé-direito que afetavam". E, ainda: "As

casas, nesse tempo, eram tão baixas que um indivíduo de mediana altura

podia deitar para dentro delas, jogado por cima do oitão, um grosso calhau,

capaz de matar homem deitado no seu leito a dormir, como foi o caso

sucedido com o licenciado Jorge Fernandes. . ." (pág. 216). Dessas casas

é que cedo começaram a ser o oposto, pela sua altura, as do Recife, onde

a situação de quase-ilha não permitia que elas se espalhassem como em

Salvador. Daí a predominância de casas "magras", no Recife, em contraste

com as "gordas", da capital da Bahia, predominância por nós assinalada desde

1926 quanto às igrejas (Bahia de Todos os Santos e de Quase Todo&.os

Pecados, Recife, 1926). Predominância também por nós associada às condi-

ções ecológicas da área recifense, desde este ensaio, publicado em 1936, e em

nota às cartas de L. L. Vauthier (Revista do Serviço do Patrímônio Histórico

e Artístico Nacional, Rio de janeiro, 1944, n.O 7, pág. 138) - e, com maior

nitidez, em Sociologia (Rio de janeiro, 1945), onde destacamos, referindo-nos




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