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contram entre nós e em nosso passado. Do que existe de ma-

triarcado na África só os adjetivos, e não o substantivo, che-

garam até o Brasil. Mesmo porque sabemos serem raras as

subáreas africanas caraterizadas pela instituição do matriar-

cado. Ainda há pouco, esclarecida pesquisadora portuguesa,

a Sr.a Maria Archer, em conferência lida em Lisboa de que nos

foi enviada gentilmente pela autora copia datilografada, afir-

mou daquela África hoje lusitana, de onde vieram numerosos

escravos para o Brasil: "A mulher indígena não inf lui, ge-

ralmente, na vida político-social do seu povo. Poucos direitos

possui... É dona dos filhos do casal, como todas as fêmeas

animais, e às vezes pode praticar o amor livre, mas só em

solteira. Após o casamento é considerada como pertença do

marido. . . " De modo que a pouco se reduz nosso facciosismo

em torno da ficção sociológica de um "matriarcado" africa-

no no Brasil.

Numa como compensação às acusaçÓes de "faccioso" que

nos têm feito censores ofendidos, talvez, no seu purismo po-

lítico ou ideológico ou simplesmente acadêmico - o mais in-

tolerante de todos quando encarnado em historiadores ou so-

ciólogos mais caturra e impotentemente revoltados contra

as obras de criação ou renovação - pelo que encontram em

nossas páginas de irredutível a caprichos de seita, críticos

da autoridade, do escrúpulo e da independência do Sr. Ber-

tram Wolfe, no estrangeiro, e do Sr. Moisés Vellinho, no Bra-

sil, se têm generosamente manifestado sobre nossos traba-

lhos noutro sentido: destacando neles ausência de "discri-

minaçÓes tendenciosas". A verdade é que, sem pretendermos

ser indivíduo inteiramente livre de preconceitos, cremos ter

o direito de sorrir quase toda vez que nos acusam de siste-

mática "neqrofilia" ou "lusofilia", de "anti-Jesuitismo" ou

"antibacharelismo" sistemático, de "anti-Marxis?no" ou de

"anti-Catolicismo", de "Judaísmo" ou de "anti-Judaísmo",

de "burguesismo" ou de "proletarismo" sectário. Pois seria,

talvez, impossível um indivíduo reunir sistematicamente

tantos preconceitos em conflito uns com os outros.

Santo AntÔnio de Apipucos, maio, 1949 - março, 1961.

G. F.

#

CX11 GmBFRTo FREYPE INTRODUT~;O I SEGUNDA EDI~,;.O CXIII



dessas questÓes por trás de ruínas de casas e sobrados

velhos, de tachos de doces e de caldeiras de engenhos antigos.

Talvez tenham esses críticos seu bocado de razão. Mas é

possível, por outro lado, que a base de sua crítica seja uma

visão inteiramente falsa da sociologia, que supÓem "escapis-

ta" ou pouco viril, toda vez que o sociólogo se volta para as

origens ou para as raízes dos complexos sociais.

Enquanto para uns, nossos estudos pecam justamente pela

falta do que imaginam "varonilidade sociológica% ou seja,

pela preocupação com a casa e, por conseguinte, com um es-

paço social aparentemente dominado mais pela mulher do que

pelo homem, para outros críticos nosso "equívoco fundamen-

túl" estaria em desprezarmos a influência do que chegam a

,denominar "matriarcado africano" sobre o "patriarcado ro-

mano" em nossa formação social. Desprezo em que se tra-

duziria o estreito ponto de vista "burguês", "capitalista" e,

por conseguinte, monossexual - de classe e sexo dominan-

tes - sob que teríamos empreendido nossa tentativa de re-

constituição e de interpretação da sociedade brasileira rea-

lizando, assim, trabalho faccioso.

Sem termos nos lembrado de opor arbitrariamente ao pa-

triarcado caraterístico da nossa formação um "matriarcado

africano% que decerto não floresceu aqui, cremos ter sido o

primeiro a procurar atribuir sistematicamente à presença da

mulher e do menino - e não apenas a do escravo e a do afri-

cano - em nossa história, a importância merecida , do ponto

de vista sociológico ou psico-sociológico. Não tendo encon-

trado-na história das insurreiçÓes de escravos contra senho-

res, havidas no Brasil, nenhuma figura de Rainha Ginga que

correspondesse à da negra D. Ana de Sousa - a "matriar-

ca" africana célebre por ter encarnado na Angola do século

XVIII, o espírito de resistência nativa à ocupação portugue-

sa - não tínhamos onde nos apoiar para desenvolver a tese

de um "matriarcado africano" equivalente, em nossa forma-

ção, ao "patriarcado romano". Figuras matriarcais entre as

africanas, como entre as ameríndias e as européias e suas des-

cendentes no Brasil - estas houve, decerto, e nós já lhes reco-

nhecemos a presença na pessoa de mulheres como Dona Joa-

quina do Pompeu. Mas foram adjetivamente matriarcais e não

substantivamente matriarcas. Sociologicamente substituíram

patriarcas sem que essa substituição de homèm por mulher

comprometesse a forma dominante de organização da famí-

lia, da economia, da sociedade: o patriarcado. 0 poder tutelar

do chefe de família.

No Brasil, poderia alguém falar, como em Cuba o africa-

nólogo Fernando Ortiz, na contribuição da cultura africana,

através da figura da "mãe negra", para um maternalismo bra-

sileiro. 0 maternalismo a que já nos referimos em páginas an-

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teriores. Mas maternalismo e não matriarcado. "Matriarcado



africano" - acentue-se ainda uma vez - é instituição de que

só fragmentos insignificantes ou sobrevivências vagas se en-

contram entre nós e em nosso passado. Do que existe de ma-

triarcado na África só os adjetivos, e não o substantivo, che-

garam até o Brasil. Mesmo porque sabemos serem raras as

subáreas africanas caraterizadas pela instituição do matriar-

cado. Ainda há pouco, esclarecida pesquisadora portuguesa,

a Sr.a Maria Archer, em conferência lida em Lisboa de que nos

foi enviada gentilmente pela autora copia datilografada, afir-

mou daquela África hoje lusitana, de onde vieram numerosos

escravos para o Brasil: "A mulher indígena não inf lui, ge-

ralmente, na vida político-social do seu povo. Poucos direitos

possui... É dona dos filhos do casal, como todas as f êmeas

animais, e às vezes pode praticar o amor livre, mas só em

solteira. Após o casamento é considerada como pertença do

marido. . . " De modo que a pouco se reduz nosso facciosismo

em torno da ficção sociológica de um "matriarcado" africa-

no no Brasil.

Numa como compensação às acusaçÓes de "faccioso" que

nos têm feito censores ofendidos, talvez, no seu purismo po-

lítico ou ideológico ou simplesmente acadêmico - o mais in-

tolerante de todos quando encarnado em historiadores ou so-

ciólogos mais caturra e impotentemente revoltados contra

as obras de cr%açÓo ou renovação - pelo que encontram em

nossas páginas de irredutível a caprichos de seita, críticos

da autoridade, do escrúpulo e da independência do Sr. Ber-

tram Wolf e, no estrangeiro, e do Sr. Moisés Vellinho, no Bra-

sil, se têm generosamente manifestado sobre nossos traba-

lhos noutro sentido: destacando neles ausência de "discri-

minaçÓes tendenciosos". A verdade é que, sem pretendermos

ser indivíduo inteiramente livre de preconceitos, cremos ter

o direito de sorrir quase toda vez que nos acusam de siste-

mática "r~egrofilia" ou "lusofilia", de "anti-Jesuitismo" ou

dantibacharelismo" sistemático, de "anti-Marxismo" ou de

'(anti-Catolicismo", de "Judaísmo" ou de "anti-Judaísmo",

de "burguesismo" ou de "proletarismo" sectário. Pois seria,

talvez, impossível um indivíduo reunir sistematicamente

tantos preconceitos em conflito uns com os outros.


Santo Antônio de Apipueos, maio, 1949 - março, 1961.
G. F.

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SOBRADOS

E

MUCAMBOS


i.0 Tomo
Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

intenþão de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestaþão do pensamento humano..

 

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~5~ . ;-i-

"Vm


0 SENTIDO EM QUE SE MODIFICOU

A PAISAGEM SOCIAL DO BRASIL

PATRIARCAL DURANTE 0 SÉCULO

XVIII E A PRIMEIRA METADE DO XIX

Com a chegada de Dom João VI ao Rio de janeiro, o patri-

ciado rural que se consolidara nas casas-grandes de enge-

nho e de fazenda-as mulheres gordas, fazendo'doce, os homens

muito anchos dos seus títulos e privilégios de sargento-mor

e capitão, de seus púcaros, de suas esporas e dos seus pu-

nhais de prata, de alguma colcha da lndia guardada na arca,

dos muitos filhos legítimos e naturais espalhados pela casa e

pela senzala-começou a perder a majestade dos tempos co-

loniais. Majestade que a descoberta das minas já vinha com-

prometendo. Crescera desde então o interesse da Coroa pela sua

colônia americana. 0 Brasil deixara de ser a terra de pau-de-

-tinta tratada um tanto de resto por el-Rei, para tornar-se a

melhor colônia de Portugal-sobretudo do Portugal beato e pom-

poso de Dom João V-e por isso mesmo a mais profundamente

explorada, a vigiada com maior ciúme, a governada com mais rigor.

A presença no Rio de janeiro de um principe com poderes

de rei; príncipe aburguesado, porcalhão, os gestos moles, os

dedos quase sempre melados de molho de galinha, mas trazendo

consigo a coroa; trazendo a rainha, a corte, fidalgos para lhe

beijarem a mão gordurosa mas prudente, soldados para des-

filarem em dia de festa diante do seu palácio, ministros estran-

geiros, fisicos, maestros para lhe tocarem música de igreja, pal-

meiras-imperiais a cuja sombra cresceriam as primeiras escolas

superiores, a primeira Biblioteca, o primeiro Banco; a simples

presença de um monarca em terra tão republicanizada como o

Brasil, com suas Rochelas de insubordinação, seus senhores de

engenho, seus Mineiros e seus Paulistas que desobedeciam o Rei

distante, que desrespeitavam, prendiam e até expulsavam repre-

#

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 Tomo



4 GFLBEBTo F&EYRE

sentantes de Sua Majestade (como os senhores de Pernambuco

com o Xumbergas); que já tinham tentado se estabelecer em

repúblicas; a simples presença de um monarca em terra tão anti-

monárquica nas suas tendências para autonomias regionais e até

feudais, veio modificar a fisionomia da sociedade colonial; alterá-

-Ia nos seus traços mais caraterísticos.

Uma série de influências sociais-principalmente economicas-

algumas anteriores à chegada do príncipe mas ue só depois dela

se definiram ou tomaram cor, começaram a Xerar a estrutura

da colônia no sentido do maior prestígio do poder real. Mas não

só do poder real-que se avi orou, mesmo nas mãos moleironas

de Dom João; também das ciSades e das indústrias ou atividades

urbanas. Também estas se avigoraram e ganharam maior prestígio.

A intervenção mais direta da Coroa nos negócios do Brasil,

desde que se descobrira ouro e se desenvolvera a indústria das

minas, intervenção re provocou em Vila Rica a revolta de 1720

à

e a Inconfidência, à tempo que vinha preparando o ambiente



para a maior centralização do governo e o avigoramento do poder

real, Ao chegar Dom João ao Rio de Janeiro a independência dos

senhores de engenho, dos Paulistas, dos Mineiros e dos -faz~ii-

deiros já não era a mesma do século XVII; nem tamanha, sua

arrogância.

Em Pernambuco definira-se o antagonismo entre o patriciado

rústico das casas-grandes da zona chamada da "mata" e a bur-

guesia dos sobrados do Recife-esta prestigiada pelo Rei, já desu-

nido dos senhores de engenho, seus aliados de outrora, e aquela

pelo alto clero-na guerra civil chamada dos Mascates. Guerra

que terminaria com a vitória, embora uma vitória aos pedaços,

incompleta, pela metade, dos interesses burgueses sobre os pri-

vilégios da nobreza rural, tão fortes e resistentes na capitania dos

Albuquerques.

Nessa capitania, porém, como em Minas por efeito da explo-

ração do ouro, se anteciparam condições de vida urbana-a um

tempo industrial e comercial-contrárias àqueles privilégios. Em

Pernambuco, essa antecipação se verificou em conseqüência, prin-

cipalmente, do domínig holandes, que comprometera ao mesmo

tempo o poder dos senhores de engenho e o da Igreja de Roma.

Com o domínio holandês e a presença, no Brasil, do Conde

Maurício de Nassau, este incomparavelmente mais príncipe nas

atitudes e nos gestos decisivos do que o marído de Dona Carlota

Joaquíria-embora Dom João não fosse, corno já demonstrou o

historiador Oliveira Lima, o toleirão das anedotas-o Recife, sim-

ples povoado de pescadores em volta de uma igrejinha, e corri

toda a sombra feudal e eclesiástica de Olinda para abafá-lo, se

desenvolvera na melhor cidade da colônia e talvez do continente.

#

5

Sobrados de uatro andares. Palácios de rei. Pontes. Canais. jardim



botânico- JUim zoológico. Observatório. Igrejas da religião de

Calvino. Sinagoga. Muito judeu. Estrangeiros das procedências

mais diversas. Prostitutas. Lojas, armazéns, oficinas. Indústrias

urbanas. Todas as condições para uma urbanização intensamente

vertical.'

Fora esta a primeira grande aventura de liberdade, o primeiro

grande contato com o mundo, com a Europa nova-burguesa e

industrial-que tivera a col'nia portuguesa da América, até então

conservada em virgindade quase absoluta. Uma virgindade agreste,

apenas arranhada pelos ataques de piratas franceses e ingleses

e pelos atritos de vizinhança e de parentesco, nem sempre cordial,

com os espanhóis. Mas de modo nenhum ferida ou mesmo afetada

nos seus motivos mais profundos de vida nem nos seus valores

essenciais; de modo nenhum perturbada na sua rotina agrícola

nem na essência de sua uniformidade de fé Católica e de moral

nsular A não ser por elementos de diferenciação fracos, diante

om;2po'luso-católico: judeus que só em casa mangavam de

Nosso Senhor, negros mandingueiros, indígenas das santídades.

Nem os judeus, nem os negros, eram gente que hostilizasse pro-

priamente a religião dominante: grancles diplomatas ou contem-

porizadores, corno tendem a ser as nações, os grupos, as mulheres

e os meninos mais inteligentes, quando muito oprimidos, o que

eles principalmente realizaram foi obra de substituição: seus san-

tos ou ritos ficaram com os nomes e a aparência dos Católicos.

Só por dentro diversos.

A grande aventura pernambucana não dera para quebrar a ho-

mogeneidade aparentemente frouxa, mas na verdade, resistente,

e in [ii


~e vinha se desenvolvendo a "consciência de espécie" luso

) 1,


-cato ica entre os colonos do Brasil. Desenvolvendo-se sob aquela

uniformidade de fé e de moral, animada pela ortodoxia intransi-

gente dos padres da Companhia, embora esta agisse pro domo sua

e não no interesse do desenvolvimento dos Brasis num só Brasil.

Desenvolvendo-se pela facilidade~ de comunicação e pela identi-

dade de técnica de produção econômica e de trabalho, permitida,

ou antes, estimulada, pela semelhança de clima e de condições

de solo: a moriocultura latifundiária e eseravocrática. E intensifi-

cando-se pela endogamia geralmente praticada nos vários grupos

colonizadores, embora não se desprezassem contatos com as cha-

madas "negras" da terra e até com as Minas, nem fossem raros

os casos de estrangeiros-Filipe Cavalcanti e Gaspar van der Lei,

em Pernambuco, john Whitall, em São Vicente-admitidos como

genros nas famílias já ricas dos patriarcas portugueses e Católicos

da colonização. Manuscrito há pouco adquirido pela Biblioteca

Nacional-"Journal of a Residence in Brazil written by Cuthbert

#

I

11



1,

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6 GILBERTo FREYRE



Pudsey during the Years 1629 to 1640"-revela que foram nume-

rosos os casamentos de holandeses com filhas de senhores de

engenho e outros grandes da terra.

Passados trinta anos de domínio holandês, o Norte voltaria à

rotina agrícola e à uniformidade Católica, aos vagares da inte-

gração social, no sentido português e Católico, ficando daquela

aventura de diferenciação uma lembrança quase de sonho: o "tem-

po dos framengo", de que ainda hoje a gente do povo fala para

explicar o excepcional, o extraordinário, o maravilhoso, o quase

diabólico de algum resto de obra de engenharia ou de arte que

lhe pareça superior à capacidade técnica do português ou do

caboclo da terra. Uma espécie de "tempo dos mouros" em Portugal.

Mesmo assim, o "tempo dos framengo" deixara no brasileiro

do Norte, principalmente naquele colono-insignificante como rea-

hdade, mas considerável pelo potencial-que não era senhor nem

escravo, mas o primeiro esboço de povo e de burguesia miúda

que houve entre nós, o sabor, o gosto físico, a experiência de

alguma coisa de diferente, a contrastar com a monotonia tristonha

de vida de trabalho à sombra das casas-grandes; o gosto da vida

de cidade-não daquelas cidades antigas, do século XVI e dos

. 1 .

principios do XVII, dependências dos engenhos, bur os de família



onde os senhores vinham passar as festas, reurimI-se para as

cavalhadas e os banquetes-mas o gosto de cidades com vida

própria; independentes dos grandes proprietários de terras. Pro-

vavelmente, deixara ainda o "tempo dos framengo", como elemento

de revolta e de diferenciação, entre o futuro povo-que era então

apenas um aglomerado de mestiços independentes junto com me-

cânicos e mascates de origem européia-o gosto pelo bem-estar

material, experimentado durante as administrações holandesas-

neste sentido mais eficientes que a maioria das portuguesas. 0

flamengo, vindo de unia civilização mais urbana do que rural,

trouxera para uma colônia de matutos-excetuada a quase metro-

politana Bahia-novidades de um efeito quase de mágica: conhe-

cimentos e recursos da nova técnica europeia, isto e, a burguesa-

-industrial.

0 conflito entre Olinda, cidade eclesiástica e de senhores de

engenho, e o Recife, cidade até então de gente burguesa e mecâ-

nica que, no século XVII, reunira a população mais heterogênea

da colônia, não terá sido apenas a reação nativista de que falam

as histórias oficiais: brasileiros natos contra portugueses ou reinóis.

Terá sido principalmente um choque, que os antagonismos polí-

ticos e, confusamente, os de raça, ainda mais dramatizaram, entre

os interesses rurais e os burgueses.

1710, tudo nos leva a crer que tenha sido um movimento dis-

tintamente aristocrático e iiiii tanto antirrionárquico-contra o Rei

SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.0 TOMO

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7



de Portugal-rural e antiurbano, o interesse nacional ostensiva-

mente identificado com os da nobreza agrária: as grandes famílias

proprietárias de terras e de negros e a quem convinha o mínimo

de intervenção da parte del-Rei e das Câmaras dominadas por

ortugueses ou influenciadas por mecânicos, rios negócios da co-

6nia. Pela vontade dessas famílias de patriarcas rurais a legislação

municipal seria sempre obra sua ou a seu favor, como as provisões

régias que haviam proibido execuções contra senhores de engenho.

Franca proteção dos interesses dos devedores rurais contra os

credores urbanos. Ou dos interesses feudalmente agrários contra

os capitalistas.

Essa parcialidade, porém, sofrera alteração profunda, em face

da descoberta das minas e do desenvolvimento, nas cidades, da

riqueza de burgueses cuja força convinha aos reis ir opondo à

arrogância dos grandes roprietários de terra e de escravos. E

como outrora em Portuga~,1 os reis portugueses do Brasil passaram

a prestigiar os interesses urbanos e burgueses, embora sem hos-

tilizar rasgadamente os rurais e territoriais.

Minas Gerais foi outra área colonial onde cedo se processou

a diferenciação no sentido urbano. Nas Minas, o seculo XVIII é

de diferenciação intensa, às vezes em franco conflito com as ten-

dencias para a integração das atividades ou energias dispersas

no sentido rural, Católico, castiçamente português. Da colonização

por Paulistas afoitos, alguns, talvez descendentes de judeus, resul-

taram as primeiras gerações, também afoitas e independentes, de

magnatas do ouro e animadores de cidades que tiveram um caráter

especialíssimo em nossa formação. Atraindo fornecedores de gê-

neros, intermediários de negócios, técnicos na manipulação de

pedras preciosas e no fabrico de moeda falsa, mecanicos, arte-

sãos-provavelmente judeus, alguns deles-essas cidades parecem

ter-se dividido-nos momentos dramáticos, pelo menos-em me-

tades antagônicas. Mas de modo geral, dominaram-nas os grandes

magnatas das minas. Autocratas de sobrados, ou de casas nobres,

levantadas dentro das cidades e envolvendo as casas menores nas

suas sombras. Um alongamento das casas-grandes rurais e semi-

-rurais, que alguns desses magnatas davam-se também ao luxo

de possuir, nada os enchendo de maior orgulho-ob3ervou Saint-

-Ifilaire numa de suas paginas clássicas sobre a gente mineira-do

que intitularem-se de fazendeiros, Sinal de que a mística de pres-

tígio social dominante entre os brasileiros era ainda a patriarcal-

-rural, comprometida embora a estrutura patriarcal-rural da socie-

dade brasileira nas suas próprias bases.

Vila Rica, os interesses que parece ter representado na sua

rimeira revolta-a de 1720-contra os excessos da política fiscal

os representantes de11 Rei--a segunda revolta, a de Tiradentes,

#

8 GILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 9



seria mais popular-foram os interesses daqueles magnatas mais

antigos. Esconderam-se eles por trás da figura de demagogo de

Filipe dos Santos e parece que até o negaram na hora undecima.

Sente-se, porém, a presença dos novos patríarcas-patriarcas antes

urbanos 21 ue rurais-no movimento. Eram homens de vida já

est 1 onos de casarões cujas varandas davam para as ruas

burguesas. Cazas nobres, dizem alguns documentos coloniais.

Sobrados, dizem outros. 0 Sr. Miran de Barros Latif carateriza-as

como casas "rigorosamente citadinas", "comprimidas contra os

morros", "desafiando despefihadeiros" sobre as altas pernas de

pau que eram os seus esteios; situadas "bem sobre as praças e

as ruas". 2

Nos documentos brasileiros do século XVIII, já se recolhem

evidências de uma nova classe, ansiosa de domínio: burgueses

e negociantes ricos querendo quebrar o exclusivismo das famílias

privilegiadas de donos simplesmente de terras, no dominio sobre




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