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veremos no ensaio que se segue que a transferência de poder

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de um a outro se fez, muitas vezes, pelo casamento e, por con-



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seguinte, tão suavemente que, à distância de um século ou

dois, quase não se distinguem diferenças de forma, de estilo de

,vida ou de função patriarcal entre tais patriarcas, diversos

apenas na substância. Como as diferenças de forma é que

são as sociologicamente significativas repetimos que as de

substância se tornam, sob critério sociológico ou histórico-

sociológico, desprezíveis.

A tendência para todos os elementos enriquecidos no co-

mércio ou na mineração, na criação de gado ou na explora-

ção de cacau ou de borracha ou de café, adquirirem o ritual

de vida aristocrática estabelecido pelos patriarcas das casas-

grandes dos engenhos de açúcar, parece dominar a história

da sociedade patriarcal no Brasil. Capistrano de Abreu re-

corda que nas áreas pastoris do Brasil colonial, quando as

fazendas aumentavam e ganhavam importância, suas casas

tornavam-se "sólidas" e "espaçosas", isto é, tendiam a repe-

tir as casas-grandes de engenho quanto à nobreza do mate-

rial de construção e à imponência das dimensÓes. E não só

isto: adquiriam "até capelães, cavalos de estimação, negros

africanos não como fator econômico mas como elemento de

magnificência e fausto". 0 "conspicuous waste", de que fala

Veblen, numa de suas manifestaçÓes mais puras. A imitação

do ritual de vida dos grandes senhores de engenho pelos ho-

mens enriquecidos com o gado.

Dizemos grandes porque nem todos os senhores de enge-

nhos foram grandes; nem verdadeiramente grandes tôdas as

suas casas. Em ensaio recente (0 Homem e o Brejo~ Rio de

Janeiro, 1945) o Sr. Alberto Ribeiro Lamego salienta que

Campos foi por muito tempo zona de engenhocas, com casas

de residência de um só piso. A casa de taipa, muitas vezes

ainda coberta de palha, era a residência de "centenas de fw-

zedores de açúcar". Só com os engenhos a vapor, no Segundo

Reinado, apareciam na zona de Campos "a casa grande, o

sobrado, o solar das grandes famílias tutelares". A verdade,

porém, é que ao engenho de açúcar é que está principalmente

ligada a casa-grande como símbolo de supremo poder pa-

triarcal. Daí ter sido imitada ou assimilada pelas famílias ou

indivíduos que foram enriquecendo noutras atividades. Com

a criação de gado, como já vimos. E no próprio Norte com a

plantação de algodão, cacau ou borracha.

0 mesmo se poderá dizer da transferência de poder e de

fausto patriarcais, do Norte do açúcar para o Sul do café,

onde as casas-grandes opulentas foram uma expressão tardia

do sistema patriarcal brasileiro; e como forma de vida, an-

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CV1 GILBERTo FREYRE INTRODU60 k SEGUNIDA EDIg~O CV11



res repetição ou recorrência que criação ou inovação: recor-

rência de formas do Norte agrário sobre substâncias peculia-

res ao Sul. Formas e ritos de vida nascidos ou desenvolvidos

vo Norte foram repetidos no Sul igualmente agrário sobre a

base de nova substância econômica - o café - e dentro de

condiçÓes ecológicas de solo, de topografia e de clima diversas

das do Norte porém contidas ou moderadas , em suas diferen-

ças, não só pela repetição daquelas formas e ritos sociais de

convivência como por um elemento humano e de unidade so-

cial, importantíssimo: o escravo africano ou deácendente de

africano. E o escravo para as fazendas de café e para as ca-

sas-grandes do Sul foi menos o importado diretamente da

Europa, por meios regulares ou pelo contrabando, que o

transferido dos velhos e às vezes decadentes canaviais do

Norte para aqueles cafezais triunfantemente novos.

Simples fenômeno econômico, dirá um materialista his-

tórico, intransigente ou sectário em suas maneiras de con-

siderar tais transferências de poder. Quando a verdade é que

esta se verificou sob influências complexas e várias e nãá

apenas sob a ação, na verdade considerável, do puro ou sim-

ples motivo econômico. 0 motivo econômico, mesmo insidio-

so, como é, talvez influído menos sobre a transferência

de poder que então se verificou de uma região para outra do

Brasil que o fator ecológico, particularmente favorável à

cultura do café nas terras roxas de São Paulo. Mais ainda:

foi um fato dramático de natureza predominantem ente eco-

lógica - a seca de 77 - que intensificou aquela transferên-

cia de poder - de poder e de escravos - para a qual vinham,

entretanto, concorrendo, há anos, secas e perturbaçÓes me-

nos intensas, ou catastróficas, de clima. Secas e perturbaçÓes

de clima menores que a de 77 porém mais insistentes ou mais

constantes em sua influência sobre a sociedade brasileira si-

tuada no Norte. A constância dessas perturbaçÓes de clima

- e não apenas a perda de mercados outrora dominados pelo

açúcar fabricado nos engenhos patriarcais do Norte do Bra-

sil - agiu decisivamente sobre a transferência de poder eco-

nômico e de poder político do Norte para o Sul do Brasil, do

mesmo modo que agiu sobre a transferência de poder político

das casas-gravdes para os sobrados.

Um publicista ilustre, José Maria dos Santos, em seu

ensaio Os Republicanos Paulistas e a Abolição (São Paulo,

1942), observa ter havido em São Paulo "~z2imerosos brasilei-

ros que se fizeram barÓes, elevando-se ao respectivo ví~,el eco-

nômico e social sobre o trabalho escrai~o atraído das provín-

cias do Norte e do Nordeste", sem deixar de recordar que

-também houve no Ceará quem subisse a barão pela grande

opulência adquirida na revenda em grande escala de escravos

para o Sul." Mas a equivalência é antes aparente que real.

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os barÓes do Sul cujos títulos foram ackuiridos com a fortu-



na feita sobre o café plantado e colhido por escravos com-

prados a senhores arruinados no Norte - arruinados pela

constância de crises não só de mercado como de produção -

tornaram-se uma nova força no Brasil; e o seu poder veio

até quase os nossos dias. Renovaram o que o sistema patriar-

cal dos tempos coloniais tivera de sociologicamente feudal.

Os barÓes do Ceará - barÓes em conseqüência de fortuna

adquirida com a revenda dos últimos escravos daquela pro-

víncia aos fazendeiros do Sul - apenas gozaram dos sob.ejos

do poder , feudal tal como o Brasil o experimentou: um po-

der que nunca tenjo sido considerável naquela província ali

se extinguiuquase por inanição, antes de desaparecer de ou-

tras províncias brasileiras. Esse meio poder deu apenas para

levantar sobrados de azulejo numa ou noutra cidade sociolo-

gicamente mais pernambucana do território cearense, em cuja

paisagem mais pura só por capricho se imagina um vulto de"

casa-grande que se aproxime em grandeza ou requinte da de

Ga~reia d'Ávila ou da dç Megaípe; og dos sobrados dos arre-

dores de Recife; ou das casas assobradadas do Rio de Janeiro.

À importação de escravos. do Norte pelo Sul correspondeu

a importação, pela mesma região, magnificamente próspera,

de bacharéis baianos, pernambucanos, maranhenses, cearen-

ses, alagoanos, paraibanos, alguns dos quais, filhos de velhas

famílias empobrecidas ou apenas moços pobres - e nem sem-

pre louros - de extraordinario talento. Talento que às ve-

zes atenuava.a origem humilde e até a cor escura dos porta-

dores de títulos acadêmicos. E ambas as importaçÓes - a de

massa e a de élite levaram do Norte para o Sul rebelados

contra a ordem domift'ante com os quais transferiram-se tam-

bém de uma região para a outra velhas insatisfaçÓes contra o

Govêrno e contra a Igreja*- ou pelo menos, contra os Bis-

pos ou contra os Padres; e contra a Grande Propriedade.

Velhas insafisfaçÓes responsáveis por -movimentos por lan-

go tempo mais caraterísticos do Norte que do Sul: Palmares,

a Guerra dos Mascates, a Revolução dos Alfaiates, a dos Ma-

lés, a de 17, a de 24, a de 48, a Balaiada, a Cabanada, o Que-

bra-Quilos. Luís Gama - filho de africana, nascido na Ba-

hia - foi um desses rebelados desde moço radicado no Sul.

Saldanha Marinho foi outro. E poucos indivíduos tiveram

ação mais vigorosa do que esses dois mestiços do Norte, trans-

feridos para o Sul, contra o sistema patriarcal brasileiro em

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CV111 GMBERTO FREYRE INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO CIX



suas formas ortodoxas de exploração do homem pelo homem:

do escravo pelo senhor, do preto pelo branco, da mulher pe-

lo homem, do súdito pelo rei.

Da mãe de Luís Gama se sabe que fora uma africana livre

da Bahia, chamada Luísa. 0 futuro abolicionista nascera dos

amores dessa preta inquieta com "um moço de boa socieda-

de". De dois "levantes de raça" participara Luísa; e tendo

participado também da Sabinada fugira da Bahia num sa-

veiro, diante da vitória do Governo Imperial sobre os rebel-

des, para vir esconder-se no Rio de Janeiro onde, entretanto,

· polícia a descobrira, embarcando-a , segundo se diz, para

· África. Na ausência de Luísa é que o pai de Luís o teria

vendido como escravo a bordo de um patacho a fazer-se de

velas para São Paulo; e o teria feito "num instante de. ..

depressão moral e financeira". É o que conta Sud Menucci

no seu estudo sobre Luís Gama.

Enquanto o futuro Conselheiro Saldanha Marinho - que

se considerava altivamente caboclo - vinha de Pernambu-

co. Nascera no mais eclesiástico dos burgos da velha capi-

tania: Olinda. Descendente de revolucionário de 17, tivera

talvez, no seu passado, drama semelhante ao de Luís Gama

e que também o predispusera à atividade revolucionária; à

oposição à ordem estabelecida, responsável por injustiças

que a Igreja, pelos seus bispos, não desaprovava, tolerando-

as da parte dos senhores patriarcais e dos governos despóti-

cos. Daí o seu anticlericalismo ao lado do seu antimonarquis-

mo. Daí seu antiautoritarismo e seu ardente fraternalismo

de líder maçônico. É possível que guardasse ressentimento

particular de mestre ou de padrinho ou de algum padre, co-

nhecido na meninice: talvez algum padre-mestre mais sá-

dico nos seus métodos de ensino, principalmente tratando-se

de menino pobre e escuro.

Embora deva-se observar que, de ordinário, os antigos

padres brasileiros cuidavam, como bons patriarcas ou como

bons mestres de primeiras letras e de Latim, de seus discí-

pulos, de seus afilhados, de seus descendentes, de seus apren-

dizes e de seus crias, não os abandonando nem os vendendo

como escravos; e também que vários deles, padres ou padres-

mestres, eram maçons e, por conseguinte, fraternalistas e

não apenas paternalistas em sua visão do mundo, o frater-

nalismo macónico tomou, entre nós, feição rasgadamente an-

ticlerical. Á verdade, porém, é que se os sacerdotes não se

destacaram como abolicionistas, na campanha que se travou,

no Brasil, contra o sistevia patriarcal e escravocrático, pou-

cos fora?n os padres 7)2ais carateristicamente brasileiros que

se celebrizaram como senhores maus ou insensíveis à sorte

dos escravos a ponto de venderem os próprios filhos de cor.

Mesmo porque, com a-estabilidade que lhes dava sua condição

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de funcionários da Coroa não eram tão freqüentes em sua



-vida, como na dos'fazendeiros ou filhos de fazendeiros, ou na

dos negociantes ou, filhos de negociantes menos sólidos, as

"depressÓes fjnanceiras" que se sobrepusessem a considera-

çÓes de ordem -sentimental, isto é, a sentimentos de pais para

com filhos ou de padrinhos para com afilhados, tios para

com sobrinhos, senhores para com crias, acima dos deveres

de paternidade para com todos os descendentes e não apenas

para com os legítimos; ou acima dos deveres de paternidade

espíritual para com meninos pobres e filhos de escravos que

se revelassem, pela inteligência, merecedora de proteção

especial.

Deve-se notar que mesmo em homens eminentemente fra-

ternalistas, como os Luís Gama, os Saldanha Marinho, os Ti-

tos Lívios de Castro e, até certo ponto, os Rebouças, o amor

à imagem materna parece não ter deixado de manifestar-se

simbolicamente em-apegos a instituiçÓes que substituíssem

ou prolongassem as figuras de mães ou de mulheres mater-

nais por eles recordadas como vítimas de pais ou, pelo menos,

do paternalismo viais ou menos despótico então dominante.

Daí, talvez, o carinho quase de filho por mãe, de alguns des-

ses homens - mestiços e, vários deles, bacharéis - por ima-

gens ideológicas femininas em suas expressÓes ou conven-

çÓes simbólicas como "República", "Justiça", "América",

"França", "Revolução Francesa", "Ciência", ligadas a so-

nhos fraternalistas que, mesmo ardentes, pareciam não lhes

satisfazer de todo as solicitaçÓes sentimentais ou.misticas de

homens, psicologicamente`ainda filhos ou ainda necessitados

de mães e mesmo de pais.'que os protegessem. José do Patro-

cínio viria encontrar essa imagem substituta da materna nu-

ma figura de princesa imperial - Isabel a Redentora -

na qual milhares de brasileiros de cor, menos intelectuali-

zados ou menos aliteratados que o famoso abolicionista, en-

contraram a idealização da figura de Mãe que outros, me-

nos trépidantes, já haviam encontrado na pessoa da impera-

triz Dona Teresa Cristina --a chamada "Mãe dos Brasilei-

ros". Os Rebouças - mestiços cujas relaçÓes com o velho

Rebouças, seu pai, parecem ter sido sempre felizes ou sau

dáveis - nunca resvalariam naquele antipaternalismo ini-

migo do monarca ou do governo imperial que caraterizou o

fraternalismo de Saldanha Marinho. Ao contrário: neles a

devoção pela pessoa do Imperador só fez aumentar com a

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CX CU-BERTO FREYRE INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO CM



idade. 0 que neles se desenvolveu - neles e nesse outro mes-

tiço admiravelmente lúcido que foi, no Brasil da primeira

metade do século XIX, o socialista A. P. de Figueiredo - foi

um fraternalismo socialmente mais adiantado que o demo-

cratismo republicano e maçônico de Saldanha Marinho. Um

fraternalisnio já socialista, embora sempre familista, o deles.

E é significativo o fato, de nos Rebouças, nem o mater-

nalismo nem o fraternalismo terem se exaltado em idealiza-

çÓes mórbidas que excluíssem o respeito ou a veneração pela

gura pa erna o mpero, or: o ai os ais como a an a

Madre greja oi, no rasi patriarca , a e as aes, a

sombra da qual se refugiaram tantos revoltados contra o

excesso de despotismo paternal ou imperial. Procura de com-

pensação.

À margem do assunto aqui versado, um escritor paulista,

o Sr. Luís Martins, está para publicar páginas inteligentes,

ainda que algumas um tanto prejudicadas pelo exagero de

doutrina dentro da qual as escreveu - a doutrina psicanalí-

tica. Aprese7ita ele vários dos bacharéis brasileiros que, no

reinado de Dom Pedro II, tornaram-se republicanos militan-

tes para depois se arrependerem do republicanismo revolucio-

nário, como casos que, na terminologia psicanalítica, seriam

considerados de parricidas. Seu remorso teria sido o de par-

ricidas. E não deixou de haver no republicanismo fraterna-

lista ou materna ista e ac areis, nossos campa rio as, o

século passado, aquela espécie de revolta de filhos contra pais

que psicológica ou moralmente importa em parricídio.

Tais parricidas - psico-sociologicamente compreendidos

como tais - concorreram para a desintegração do sistema pa-

triarcal entre nós, ligado, da maneira mais íntima, à escravi-

dão do africano e à monarquia hereditária: as instituiçÓes

mais visadas pela revolta dos bacharéis ou dos mestiços afran-

cesados contra os pais ou os patriarcas, por assim dizer, te-

lúricos. Ligado à escravidão e à monarquia mas ligado prin-

cipalmente ao latifúndio e à monocultura o sistema patriar-

cal quase não foi combatido por aqueles revoltados nesses

dois outros aspectos de sua estrutura. Aspectos cuja sobre-

vivência importou no prolongamento de vida das duas for-

mas de domínio superficialmente combatidas: o trabalho ser-

vil e o. governo monárquico. Com outras substâncias e sob

outras aparências - a servidão do pária de qualquer cor,

nas grandes propriedades, e o despotismo ou o autoritarismo

dos presidentes de República com os quais o Brasil seria por

longos anos uma simples nionarquia sem coroa - o sistema

patriarcal chegaria, vo Brasil, quase aos nossos (lias.

Esta última fase de sobrevivência do pati `arcado em nosso

país, procuraremos estudá-la em ensaio próximo. No ensaio

atual, nossa atenção se fixa principalmente na primeira fase

#

de desintegração do sistema patriarcal, entre nós, quando



este começou a deixar de ser quase exclusivamente agrário

para assumir outros aspectos, Wnando-se, ao mesmo tempo,

menos absorvente do indivíduo e das instituiçÓes teoricamen-

te extrapatriarcais que nos grandes dias dos Garcia d'Ávila.

Menos absorvente não só. em relação com os poderes da Co-

lação com os poderes da Igreja, com os quais

aria a constituir, simbioticamente, novo complexo. Esse

novo complexo, menos puramente patriarcal que nos dois ou

três primeiros séculos de formação brasileira, porém, ainda,

redominantemente patriarcal. Pois a desintegração de força

p

tão enorme como aquela em torno da qual se constituiu o



Brasil não poderia deixar de ser lenta. Tão lenta que ainda

não nos é possível dizer do complexo patriarcal que desapare-

ceu do Brasil. Nossas casas são ainda povoadas por sobrevi-

vências patriarcais. Nossos hábitos, ainda tocados por elas.

Donde não se poder tentar no Brasil obra de Sociologia Ge-

nética que não seja um estudo do patriarcalismo ou do fami-

lismo tutelar sob alguma de sua,,~ formas.

Talvez resultem da incompreensão dessa realidade, alguns

dos reparos críticos à tentativa de sociologia genética do Bra-

sil a que vimos nos entregando através do estudo da casa pa-

triarcal e da sua história mais íntima. Uns, de críticos incon-

formados com uma sociologia apenas de "interior" de casa ou

de "interior de alcova", supondo que "genética" significa so-

mente "sexual" e fingindo ignora~, ou realmente ignorando,

a amplitude atribuída por nós ao domínio da casa-grande ou

do sobrado sobre a vida e a personalidade do brasileiro. Ou-

tros, de críticos ainda convencionais em suas noçÓes de "va-

ronilidade sociológica", para eles ligada somente às questÓes

jurídicas e políticas, aos problemas do dia agitados na ágora,

na praça, na rua, por homens públicos seguros de tudo po-

derem resolver dentro do legalismo ou com a lei, dentro da

Constituição ou com o habeas-corpus. Donde o desdém de tais

críticos pelo que chamam "sociologia de casas velhas": uma

sociologia que lhes sugere preocupaçÓes apenas femininas, em

torno de assuntos melancolicamente mortos ou docemente

inofensivos. Lamentam então que "o grande Ruy" - isto é,

Ruy Barbosa - não tenha continuadores nesta época que

consideram pouco viril, em que alguns dos chamados soció-

logos brasileiros, em vez de agitarem cora , iosamevte no fo-

rum ou no mercado as questÓes do dia como que se escondem

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CX11


GILBERTO FREYRE

dessas questÓes por trás de ruínas de casas e sobrados

velhos, de tachos de doces e de caldeiras de engenhos antigos.

Talvez tenham esses críticos seu bocado de razão. Mas é

possível, por outro lado, que a base de sua crítica seja uma

visão inteiramente falsa da sociologia, que supÓem "escapis-

ta" ou pouco viril, toda vez que o sociólogo se volta para as

origens ou para as raízes dos complexos sociais.

Enquanto para uns, noisos estudos pecam justamente pela

falta do que imaginam "varonilidade sociológica% ou seja,

pela preocupação com a casa e, por conseguinte, com um es-

paço social aparentemente dominado mais pela mulher do que

pelo homem, para outros críticos nosso "equívoco fundamen-

t,dl" estaria em desprezarmos a influência do que chegam a

,denominar "matriarcado africano" sobre o "patriarcado ro-

mano" em nossa formação social. Desprezo em que se tra-

duziria o estreito ponto de vista "burguês", "capitalista" e,

por conseguinte, monossexual - de classe e sexo dominan-

tes - sob que teríamos empreendido nossa tentativa de re-

constituição e de interpretação da sociedade brasileira rea-

lizando, assim, trabalho faccioso.

Sem termos nos lembrado de opor arbitrariamente ao pa-

triarcado caraterístico da nossa formação um "matriarcado

africano% que decerto não floresceu aqui, cremos ter sido o

primeiro a procurar atribuir sistematicamente à presença da

mulher e do menino - e não apenas a do escravo e a do afri-

cano - em nossa história, a importância merecida do ponto

de vista sociológico ou psico-sociológico. Não tendo encon-

trado-na história das insurreiçÓes de escravos contra senho-

res, havidas no Brasil, nenhuma figura de Rainha Ginga que

corre.spondesse à da negra D. Ana de Sousa - a "matriar-

ca" africana célebrepor ter encarnado na Angola do século

XVIII, o espírito de resistência nativa el ocupação portugue-

sa - não tínhamos onde nos apoiar para desenvolver a tese

de um "matriarcado africano" equivalente, em nossa forma-

ção, ao "patriarcado romano". Figuras matriarcais entre as

africanas, como entre as ameríndias e as européias e suas des-

cendentes no Brasil - estas houve, decerto, e nós já lhes reco-

nhecemos a presença na pessoa de mulheres como Dona Joa-

quina do Pompeu. Mas foram adjetivamente matriarcais e não

substantivamente matriarcas. Sociologicamente substituíram

patriarcas sem que essa substituição de homèm por mulher

comprometesse a forma dominante de organização da famí-

lia, da economia, da sociedade: o patriarcado. 0 poder tutelar

do chefe de família.

INTRODUç;iO I SEGUNDA ED1C,;.0

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No Brasil, poderia alguém falar, como em Cuba o africa-

n61ogo Fernando Ortiz, na contribuição da cultura africana,

através da figura da "mãe negra", para um maternalismo bra-

sileiro. 0 maternalismo a que já nos referimos em páginas an-

teriores. Mas maternalismo e não matriarcado. "Matriarcado

africano" - acentue-se ainda uma vez - é instituição de que

só fragmentos insignificantes ou sobrevivências vagas se en-




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