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casas-grandes não só -na arquitetura como nas funçÓes de

assistência dos ricos aos pobres através menos dos senhores

que das mulheres, ou das mÓes-sinhás. Tudo isso doce e pa-

cificamente. Sem os conflitos em que se deixaram envolver

bispos ilastres porém ésperos como Dom Vital Maria e Dom

AO~5nio de Afacedo CoRta, para quem,va paisagem social bra-

.Rileira, eram as eate(,írais q?~e de7-iam aumentar de propor-

çórs de ?;,o(lo a sobreivi , iarc~i, --oz i~anto as casas-

g~and,,s como os sol)~,ados. Tani(~,, ?~- en.,z,~s-.nrande.R e os so-

brados dos velhos patriarcas, capitães-mores, barÓes, vis-

condes como as casas-grandes e os sobrados do Estado ou do

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Governo: aquelas em cujos salÓes nobres passaram a sentar-



se, como em tronos, bacharéis e doutores revestidos das in-

sígnias de ministros, de juizes, de presidentes de província.

Desenvolvido o plano de Ibiapina, entre essas culminân-

cias antagônicas de arquitetura não só material como moral

teriam se elevado as "casas de caridade", através das quais

o Catolicismo desde dias remotos teria vindo ao encontro das

inquietaçÓes e dos distúrbios da organização social brasilei-

ra de modo mais largo e compreensivo que por intermédio

das santas casas ou das casas de misericórdia. Porque a fun-

ção destas boas casas tem sido antes de socorro aos doentes,

aos pobres e ecos órfãos que a de aproveitamento dos desajus-

tados ou renegados do sistema dominante. Ou a de integra-

ção desses desajustados ou renegados num sistema novo de

indústrias e atividades independentes da organização pa-

triarcal.

Tal sentido de valorização - a de desajustados - encon-

tra-se nas "casas de caridade" de Ibiapina, como se cada

uma delas pudesse ser uma arca onde se salvassem da de-sin-

tegração do sistema patriarcal brasileiro, representado pelas

casas-grandes e pelos sobrados, os melhores valores, para que

com, esses salvados se formasse nova sociedade, continuadora

da antiga no que esta tivesse de cristã e brasileiramente bom.

Daí a insistência do padre cearense no ensino não só de, artes

domésticas como de agricultura e de ofícios, cuja dignidade

exaltou, exaltando franciscanamente o trabalho manual sem

desvalorizar o intelectual. Daí sua insistência no que o seu

biógrafo mais recente, o Sr. Celso Mariz, chama de "instrução

e formação da mulher nas camadas pobres das populaçÓes".

Também do Sr. Celso Mariz é o reparo de que só meio século

depois de Ibiapina governos e particulares começaram'a cui-

dar no Brasil de "escolas domésticas", de "reformatórios",

de "escolas de artes e ofícios". 0 que significa que só mais

de meio século depois de Ibiapina e de suas casas de caridade,

começou a cuidar-se, entre nós, daquele ensino ou daquela as-

sistência a desajustados que se adaptassem às condiçÓes de

uma sociedade, como a brasileira, desde o meado do século

XIX em processo de transição do patriarealismo rural para

o industrialismo urbano e capitalista; do familismo para o

individualismo.

Sob certos aspectos genial, parece ter sido Ibiapina. Mas

dos gênios incompreendidos de que muito se fala e que na

verdade existem, embora em número reduzido. Incompreen-

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XCV111


GiLBER-) FREYRE

dido tanto pelos bispos como pelos particulares ricos do seu

tempo, pretendeu que suas "casas de caridade" concorressem

para dar àquela transição o sentido do que os ingleses cha-

mam "revolução conservadora". As "casas de caridade" guar-

dariam valores das casas e dos sobrados patriarcais, liber-

tos porém, o mais possível, tais valores, de arcaísmos e de

excessos. Tanto que sendo casas de ensino, nelas não se en-

contravam palmatórias nem cafuas de prender menino, co-

mo em muitas das casas-grandes e dos sobrados da época.

Do familismo guardaram, porém, as casas do padre ou, an-

tes, das mães-sinhás, destinadas à formação de novo tipo de

mulher, o cuidado dos patriarcas e das sinhás das casas-

grandes pelo casamento e pelo dote não só das filhas como

das mucamas de est~mação.

E orientadas por um inteligente sentido regional do ensi-

no, davam ao preparo das moças a diversidade exigida pelas

diferenças de condiçÓes regionais nos sertÓes. Ou como ob-

serva o Sr. Celso Mariz no seu Ibiapina (Paraíba, 1942):

" [ .... ] as órfãs de Ibiapina sabiam cozinhar, fiar, tecer, cos-

turar, plantar sementes em tempo certo, fazer chapéus de

palha, conforme o tipo, a necessidade, a determinação âimá-

tica e social de cada zona". E como tinha também o sentido

exato de que já começara a desintegração do sistema das ca-

sas-grandes onde iaiazinhas e mucamas de- estimação só

aprendiam a bordar e a fazer doces, para que suas mãozinhas

finas não se estragassem, o padre cearense bradou um dia

do púlpito de Cajazeiras: "Que é família grande, família no-

bre, poderosa? Hoje dizeis enfatuados: - a nossa família.

De hoje a cinqüenta anos ninguém se lembrará de vós!"

Era o antifamilismo no sentido da oposição às famílias ab-

sorventes das casas-grandes e dos sobrados patriarcais. Ibia-

pina sonhava com um Brasil de famílias independentes que

residisse cada umana sua casa de caboclo, na sua casa térrea

ou no seu sobradinho. Sem senzalas nem mucambos mi-

seráveis. Das "Cazas de Caridade" do missionário cearense

se sabe que, ao contrário dos grandes conventos brasileiros,

não possuíam escravos. Nem os compravam nem os recebiam

de presente. 0 trabalho era feito por gente livre e considera-

do ocupação digna de qualquer indivíduo, por mais branco

e por mais ilustre.

No estatuto escrito por Ibiapina para suas "Cazas de Ca-

ridade" se encontra: "Logo que as Orphans tenhão completa-

do a primeira e a segunda educação, estando em edade con-

veniente serão cazadas à custa da Caridade". Por esse esta-

tuto se vê que as casas, além de meninas, acolhiam "mulhe-

INTR0I)U9;0 k SEGUNDA EDIg,~O

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XCIX



res para o trabalho", às quais também se ensinava a ler e

Doutrina nas horas vagas do trabalho. Essas mulheres não

querendo permanecer nas casas como "irmãs", podiam "ser

apresentadas para serem cazadas como as Orphans", o que

mostra que o fim principal das casas-grandes fundadas por

Ibiapina era se desentranharem em casas pequenas, através

de meninas e mulheres cujos casamentos favorecia ou pro-

movia. Tão democrática era a organização de uma "casa de

caridade" que havia nela "um conselho das mulheres mais

prudentes e discretas" que "com a Superiora" ocorríam ~cas

precizÓes da Caza com a lembrança dos meios vantajosos" de

"melhorar os costumes maos[ .... ] augmentar e facilitar o

trabalho, corrigir qualquer abuzo que se va introduzindo. . . "

Dentro desse ambiente de reação suave ao governo autocrá-

tico das casas-grandes e dos sobrados patriarcais, meninas

e mulheres preparavam-se para a vida de casadas com um

sentido de sua dignidade que dificilmente obteriam, no Brasil

de então, noutros ambientes: nem em casa nem nos colégios

elegantes.

Aceitavam as casas, pensionistas. Mas dentro do seu espí-

rito democrático, tratavam essas meninas do mesmo modo

que as órfãs. Que trouxessem seu enxoval: "2 cobertas de chi-

ta, 2 lenços brancos, 2 travesseiros, 4 fronhas, 4 saias e duas

toalhas, 2 guardanapos, 6 camisas, 4 pares de meias, 4 de sa-

patos, 2 lenços de mão e 1 sacco para roupa servida, 1 bahu,

agulheiros, agulhas, dedaes, thesoura, 1 manual de missa, 1

diccionario portuguez, 1 cama ou rede, 1 pente fino e 1 de

alizar". Mas que não esperassem tratamento diverso do das

órfãs. Pois "na Caza de Caridade se passa como na caza do

pobre, se muito bom tem muito bom come". Evidentemente,

em muitas das casas do padre se comia bem, pois as órfãs

engordavam, segundo carta do próprio Ibiapina a uma de suas

auxiliares. Em Santa Luzia, segundo carta do missionário, a

superiora realizava excelente obrà. Tanto que fizera de "hua

caza velha e feia, e mal repartida, hum bello edificio [ .... 1 .

Não lhe esqueceo a bella cor amarella com bom azul na frente

do edifício". Amarelo e azul: as cores dominantes na pintura

das antigas casas particulares do Brasil, das quais as casas

do padre assimilaram tantos dos caraterísticos mais simpá-

ticos adaptando-os à sua condição de casas'coletivas onde se

preparavam me)iz)ias, va maioria pobres e até órfãs, para

mães de família.

Várias das "casas de caridade" do padre substituíram ca-

sas-grandes de fazevdas patriarcais. Santa Fé organizou-se

sobre doação carateristicame)ite patriarcal: a de uma casa-

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GILBERTo FnEypE



grande de fazenda e de outras, de taipa, com suas terras, duas

vacas paridas, cinco garrotes e cinco novilhotos. Isto em

1858.:Em vezãe sustento de uma família patriarcal essas ca-

sas e sxas terras e seus animais tornaram-se o sustento de

uma comunidade organizada dentro de um Cristianismo an-

tes familial que -ascético, antes maternal que patriarcal. Pois

só o seu animador era padre; e. a devoção principal das ca-

sas, a que esse padre votava não só à Mãe como ao Pai de Je-

sus - homenagem talvez à memória do pai, mártir da Revo-

lução de 24. As principais figuras das casas eram as mães-

sinhás ou as superioras. Eram mulheres. Eram brasileirís-

simas sinhás, algumas de casas-grandes. Morreria, aliás,

Ibiapina, entre algumas dessas mães-sinhás, devotas, como

ele, de Maria e de José, vendo ao seu lado o vulto da Mãe de

Deus e querendo que as mães-sinhás a vissem: "Minha filha,

você está vendo Maria? Olhe, minha filha, lá está Maria!"

Poucas vezes se terá feito do culto ou da mística de Maria

no Brasil a base de um Cristianismo tão ativamente social e

tão brasileiramente maternalista como foi o do Padre Ibia-

pina. E um dos aspectos sociologicamente mais significativos

desse Cristianismo social - aparecido, entre nós, quando nas

áreas econômica e socialmente mais expressivas do país co-

meçava a desintegrar-se o patriarcado agrário para tornar-

se dominante o urbano - foi a valorização social da mulher,

da mãe, da moça pobre, da órfã.

Cremos que esse sentido do esforço de educação - edu-

cação adaptada a condiçÓes novas de convivência humana no

Brasil - desenvolvido pelo grande cearense, não teve ainda

quem o destacasse. Nem destacado parece ter sido o fato do

fracasso, 'no matrimônio, do jovem bacharel formado em

Olinda em 1832 - a noiva de Ibiapina, Carolina, filha do re-

volucionário de 1823 Tristão Gonçalves de Alencar Araripe,

fugiu de casa para casar com um primo - haver encontrado

sua compensação no sacerdócio: substituição da desejada con-

diffio de pai pela de padre, para a qual, aliás, ainda menino,

o extraordinário cearense mostrara vocação. A compensa-

ção ao casamento frustrado parece afirmar-se particularmen

te na preocupação de fundar casas de caridade com aparência

de casas patriarcais de família ou de casas-grandes de fa-

zenda ou de engenho; e também na de dirigir paternalmente

religiosas e órfãs - suas "filhas" e suas "filhinhas"; na de

educar moças para o casamento.

Tal preocupação caraterizou sempre a ação missionária e

pedagógica de Ibiapina. Sua concepção de família - mesmo

de família espiritual - era a democrática, em que as mu-

hNTR0DTJ(;,K0 I SEGuNDA Emg;io

I

#

C1



lheres participassem da direção da casa e o trabalho se fi-

zesse sem auxílio de braço escravo. 0 que parece indicar que

o grande missionário trouxe para o Catolicismo brasileiro

do seu tempo tanto sua experiência democrática de família

numa província já então quase livre da economia escravo-

crática e do patriarcado absoluto como o Ceará - a provín-

cia, por excelência, do mutirão - como as liçÓes recebidas,

no Curso Jurídico de Olinda, de mestres impregnados de no-

vas idéias francesas e inglesas. Seu ilustre biógrafo, o escri-

tor Celso Mariz, recordando as atividades de Ibiapina como

magistrado, descreve-o como "adepto convicto do sistema li-

beral"; e, realmente, num ofício dirigido em 1835 ao Presi-

dente do Ceará o então juiz Ibiapina refere-se às "ideas do

seculo XIX" que ele desejaria ver triunfantes sobre "antigos

prejuisos que não podem casar com o nosso systema liberal".,

Num desses "prejuiSos" talvez ele não tivesse cogitado no

momento: o prejuízo das moças casarem não por amor, mas

por conveniência - A conveniência dos pais ou da família.

Neste particular, Ibiapina foi de certo modo vítima do nas-

cente "sistema liberal" em conflito com o "feudal". No

Ceará, como noutras partes do Brasil, semelhante liberalis-

mo se manifestou através de fugas de moças com os homens

de sua predileção, ficando os noivos oficiais - ou seus pais,

ou os pais das moças - frustrados na sua escolha ou nos

seus planos; e quebrando-se num dos seus fundamentos a

ortodoxia patriarcal: a absoluta obediência da filha ao pa-

tríarca, que era quem escolhia não só noivos para as filhas

como profissÓes para os filhos. Já o pai de Ibiapina - o

mesmo que em 1824 se rebelara contra o Imperador - rebe-

lara-se contra a decisão da família de fazê-lo padre, fugin-

do com uma moça, Teresa de Jesus, nas vésperas de partir

de Sobral para o Seminário de Olinda. Desintegração do pa-

triarcado. Enfraquecimento do poder dos patriarcas. Rebe-

lião dos filhos contra os pais, ao mesmo tempo que das mulhe-

res contra os homens, dos indivíduos contra as famílias, dos

súditos contra o Rei. 0 que indica que, na história de uma fa

mília ou de uma personalidade caraterística, se resume mui-

tas vezes a história de uma sociedade se procurarmos consi-

derá-la e interpretá-la não só econômica como cultural e psi-

cologicamente. E também ecologicamente: em termos de re-

lação dos subgrupos com o grupo e deste com o meio ou com

o espaço. Em termos de posição ou da situação de pessoas ou

grupos no espaço social.

Foi, aliás o que o Sr. Diogo de Melo Meneses e eu esboça-

mos na seleção de ?naterial - inclusive a documentação foto-

#

C11 GILEERTo FREY-RE INTRODU~'_RO ~ SEGUNMA EDIg;,O C11



gráfica reunida pacientemente pelo Sr. Ulysses de Melo

Freyre - que constitui o livro de memórias do velho Félix

Cavalcanti de Álbuquerque, a que demos o título de Memórias

de um Cavalcanti e no qual, valendo-nos principalmente de re-

líquias e apontamentos de família, procuramos resumir a vi-

da de um indivíduo nascido menino de engenho opulento -

o Engenho Jundiá - mas que as circunstâncias degradaram

em morador de casa de sítio e de sobrado de aluguel; e em

patriarca decadente, forçado, para conservar o prestígio do

nome de família, a empregar os filhos bacharéis na Alfânde-

ga e a tolerar filhas, professoras de meninas.

Dentro desse critério é que, no ensaio que se segue, pro-

cura-se considerar e interpretar a história da sociedade pa-

triarcal brasileira na primeira fase da desintegração do po-

der ou do sistema patriarcal ou tutelar nas áreas econômica

e politicamente mais expressivas do Brasil: como um pro-

cesso de alteração de status em que o indivíduo, desprotegido

pela família, torna-se desde adolescente uma espécie de pro-

tetor individual da mesma família, em começo de desinte-

graçÓo.


Essa desintegração seguiu ritmos diversos em áreas dife-

rentes sem que tal diversidade nos obrigue a evitar falar em

desintegração do patriarcado no Brasil desde o Primeiro Rei-

nado por não ter o processo seguido o mesmo ritmo em tô-

das as áreas; e ter se antecipado nas agrárias às pastoris, por

exemplo; ou nas semi-urbavas, às puramente rurais. Cons-

telação de áreas - como é socialmente o Brasil - o que nos

deve orientar na classificação da sociedade brasileira é o

ocorrido nas áreas econômica e politicamente decisivas que

nem semp-re têm sido as mesmas quanto a limites de espaço

físico. Essas áreas decisivas ou esses espaços sociais prepon-

derantes moveram-se do Norte - de Pernambuco e da Ba-

hia - para o ce?ttro mineiro e, depois, para o Sul do café.

Moveram-se, conservando u2na constância de caraterísticos

sociais, de forma, ou psico-sociais, de proce~,,so e função. que

explicam, em grande parte, a unidade brasileira no meio de

toda a diversidade que a contraria ou a dificulta. Dentre

tais caraterísticos é que se salienta, como forma ou estilo de

organização social, o sistema patriarcal: o de dominação da

família, da economia e da cultura pelo homem às vezes sá-

dico noexercício do poder ou do Mando, embora o poder ou

o domínio ele o exerça menos como indiríduo ou como sexo

chamado "forte" ou "nobre" do que como expressão ou re-

presentante do poderio familial. Daí o, fn4~,-~ ~e 7 ido esse

, te st

poder exercido às vezes por mulher: mulher ruja função era



de patriarca e cuja forma de domínio era a patriarcal.

Semelhante constância nos autoriza a falar de uma socie-

#

dade predominantemente patriarcal que, com substâncias di-



versas, foi, -no Brasil, sociologicamente a mesma - a mesma

nas formas, nas funçÓes, nos processos - nas varias áreas

por onde se expandiu. Como notas identificadoras dessa ex-

pansão - a do sistema patriarcal no Brasil - é que repeti-

mos não conhecer melhores símbolos, do ponto de vista da

caraterização social da paisagem, que as casas-grandes e os

sobrados acompanhados de senzalas ou de mucambos ou dos

seus equivalentes sociais; e completados por capelas, e, prin-

cipalmente, por irmandades e túmulos correspondentes às

diferenças de status entre os moradores dos vários tipos de

casa.

Também a decadência moral e material dessas mesmas



casas e sobrados e dos túmulos de família, às vezes monu-

mentais, constitui índice valioso de desintegração do patriar-

cado nas diversas áreas onde sua presença foi um dia impe-

rial. Sob esse critério poderia traçar-se mais de um mapa

ilustrativo da formação e da desintegração da sociedade ou

da família patriarcal no Brasil: trabalho em que colaboras-

sem sociólogos, historiadores e arquitetos. Também dentro

desse critério poderia empreender-se a classificação ou a se-

leção de retratos de família - das famílias patriarcais em

quem mais tipicamente se encarnou a família ou a sociedade

patriarcal no Brasil - segundo áreas e épocas diversas quan-

to à integração ou a desintegração do sistema. Semelhante

material revelaria, talvez, a unidade de tipo social e, até cer-

to ponto, físico, da aristocracia brasileira da época patriarcal.

Chamada, numa área, aristocracia do açúcar, noutra do ca-

fé, noutra da banha, noutra disto, noutra daquilo, ela foi

sempre a mesma em sua forma sociológica, e quase a mes-

ma em sua composição étnica: predominância do elemento

europeu e, dentre o elemento europeu, do lusitano, com pre-

sença às vezes acentuada do ameríndio e, acidental ou dis-

tante, do africano. É pena que sejam raros hoje os daguerreó-

tipos, que chegaram a ser tão numerosos: Carlos D. Fre-

drick, especialista em "retratos coloridos e daguerreotypos",

pôde anunciar no Diário de Pernambuco de 10 de setembro de

1847 que só "na cidade do MaranhÓo" - de onde se retirara

há três meses - tirara "mais de tres mil retratos". Raros os

daguerreótipos relativos à prinieira metade do século XIX,

são felizmente ainda muitas as fotografias de família, rela-

tivas à segunda metade do mesmo século, através das quais

#

CIV GiLBERTo FREYRE INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO



mais de um estudo sociológico ou antropológico poderá vir

a ser feito sobre a sociedade patriarcal no Brasil. Enquanto

os anúncios de negros fugidos, de uma exatidão ou minúcia

às vezes clínica, que enchem as gazetas brasileiras do século

passado, nos permitem levantar milhares de retratos antro-

pológicos e sociológicos de escravos de senzalas, muitos dos

quais passaram, pela fuga bem sucedida, a habitantes de mu-

cambos nas cidades e não apenas nos ermos.

Elucidativos são também os anúncios de casas, de sobra-

dos, de móveis, de louça, de prata, de palanquins, de carrua-

gens, de cavalos, de vacas, de cachorros, de papagaios, de re-

médios, de alimentos, de trajos da época patriarcal, ao lado

de*gravuras e mapas, que ainda se encontram de alguns des-

ses valores, carateristicamente patriarcais, quer na sua fase

ainda íntegra, quer na de começo de desintegração. E elu-

cidativo é, ainda, o exame de documentos nos quais se refle-

te quer a integridade do patriarcado escravócrático, quer o

seu começo de desintegração; quer o declínio do patriarcado

rural quer o desenvolvimento de poder do urbano: os testa-

mentos, os inventários e os compromissos de irmandades re-

ligiosas. Nesses compromissos, as condiçÓes de sócio foram

significativamente democratizando-se desde o meado do sé-

culo passado. Foram perdendo as antigas asperezas de ex-

clusividade que fechavam irmandades a seu modo aristocrá-

ticas a toda gente de cor ou de ofício, outras a pretos e par-

dos, e ainda outras, só a pretos, admitindo pardos.

É também interessante acompanharmos nos documentos

de instituiçÓes profundamente representativas da sociedade

patriarcal no Brasil como as santas casas de misericórdia -

a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, por exem-

plo - a transferência de poder das mãos de fazendeiros, ou

senhóres de casas-grandes ruraís, para as de senhores de so-

brados urbanos, embora nem sempre seja fácil estabelecer

a distinção entre tais senhores. Pois os antigos senhores de

casas-grandes de fazendas ou engenhos quase sempre tinham

sobrados nas cidades mais próximas onde passavam com as

famílias os meses de chuva. E os senhores de sobrados, enri-

quecidos no comércio ou na mineração, quase sempre adqui-

riam, logo que sua fortuna o permitia - e às vezes de fa-

zendeiros ou senhores de engenho arruinados - fazendas,

sítios ou engenhos onde iam com as famílias passar a festa,

ou as festas, vivendo então um gênero de vida que se asseme-

lhava ao dos senhores de terras natos. Confundia-se assim,

nas exterioridades, o patriarca de cidade com o do campo. E




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