Escândalo Político e Narratologia: tecendo os fios narrativos dos casos Face Oculta e Lava Jato



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6. Considerações finais



Despertando efeitos fácticos ou efeitos poéticos, a reconfiguração dos escândalos mediáticos produzida pelo campo do jornalismo articula os antecedentes e os consequentes do acontecimento, a temporalidade e a serialidade do desenrolar desses acontecimentos, as acções perpetradas por personagens, ordenando e colocando em relação uma síntese de elementos heterogéneos, dispersos no tempo e fragmentados que, no entanto, são ordenados, são colocados em relação. Como procurámos demonstrar com o seguinte empreendimento, a reconfiguração dos escândalos mediáticos é particularmente sensível a uma lógica narrativa que possibilita a compreensão do mundo prático da acção através de uma rede de intersignificação que integra e articula elementos heterogéneos numa narrativa dramática. Assim, a compreensão e experimentação do escândalo faz-se pela via da narratividade e por uma certa atitude argumentativa do narrador no momento de “costurar” e configurar o acontecimento. Mediante um processo de “tessitura da intriga”, o escândalo desenvolve-se, literalmente, nos meios de comunicação que através de determinadas marcas enunciativas transformam o acontecimento numa “estória” inteligível, numa “estória” que pode ser apreendida e experienciada pelo público. Por outro lado, no caso de escândalos mediáticos particularmente complexos, como os processos Face Oculta e Lava Jato, as investigações iniciais podem conduzir a novos indícios ou novas transgressões que acabam por aumentar a complexidade do acontecimento e o próprio quadro enunciativo do escândalo. Este foi, de resto, um dos nossos objectivos essenciais: concentrar a atenção na eclosão dos casos e compreender o seu posterior desdobramento numa narrativa mais complexa. Acreditamos que mediante os pressupostos da narratologia é possível tecer um todo coerente, costurando notícias dispersas sobre um mesmo tema e, por conseguinte, discernir aspectos simbólicos dos escândalos mediáticos que de outro modo passariam despercebidos. Fios narrativos que, ligados, permitem configurar uma trama e visualizar uma sintaxe narrativa entre notícias dispersas. Os dois escândalos tiveram início a partir de denúncias de corrupção que acabaram por se converter, do ponto de vista mediático, em elementos secundários: em Portugal, a corrupção na adjudicação de obras públicas e a manipulação de concursos; no Brasil, essencialmente as denúncias de subornos da empresa holandesa e a suspeita compra da refinaria de Pasadena no Texas. Posteriormente, importantes reconfigurações semânticas transfiguraram os dois escândalos em narrativas mais complexas que acabaram por envolver os governos dos dois países. De outro modo, é visível como no Face Oculta é a José Sócrates a quem o jornal atribui maior centralidade, tal como ao Partido Socialista enquanto personagem colectiva. Já no Lava Jato, há uma clara tentativa de converter Dilma Rousseff, Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores em personagens centrais da intriga. Em várias edições, os dois veículos culpabilizam o Partido Socialista, no primeiro caso, e o Partido dos Trabalhadores, no segundo, pela existência de denúncias de corrupção na vida pública dos dois países, o que deixa a antever um determinado posicionamento político e ideológico do Semanário Sol e da revista Veja face aos dois governos. Neste ponto, é interessante constatar a prevalência da categoria do conflito como estrutura dramática (Gomes, 2004, p. 348; Motta & Guazina, 2010), não só do conflito evidente entre actores políticos e jurídicos que se confrontam na arena pública, mas também do conflito bipolar entre a esfera política e o campo dos media. Na base da relação de conflito estabelecida entre a esfera jornalística e a esfera política, verifica-se a existência de lutas simbólicas pela conquista de credibilidade, constituindo-se os escândalos como uma forma de legitimação do discurso jornalístico, dos seus valores e da sua função social de campo vigilante do poder político. Por outro lado, na análise à cobertura dos dois escândalos, é notório como no período analisado ambos os processos se pautaram por uma forte mediatização da justiça que acabou por alimentar as duas narrativas. O processo Face Oculta progrediu, essencialmente, devido a fugas de informação e devido à publicidade das escutas telefónicas que envolviam José Sócrates, enquanto o caso Lava Jato tem sido alimentado através da publicidade dos processos de “delação premiada”, como a posterior delação da Odebrecht, que voltou a reconfigurar o caso, confirma. Verificou-se, ainda, uma certa circularidade da informação que visou manter os dois casos na agenda pública. Quando não há novas denúncias, os veículos informativos recuperam os principais episódios da trama, num processo que acabou por “alimentar” a discussão pública sobre os casos mas que, simultaneamente, também permitiu a progressão das intrigas mediante uma certa serialidade temática. Para concluir, queremos sugerir que muitas vezes os escândalos políticos se convertem numa representação com enredos e personagens, mas também com uma dimensão lúdica inerente ao seu cariz extemporâneo que enche os olhos, que é notável e que, por isso mesmo, permite a spectatio, o desfrute visual da dramaturgia política. De outro modo, não devemos esquecer que na máquina narrativa dos media a realidade é mediada por esquemas comunicacionais que enquadram, moldam, configuram, “efabulam” (Vattimo, 1992) e, em alguns casos, deformam a realidade. A experiência mediática é uma realidade em segunda mão e o escândalo não escapa a uma lógica artefactual e de maquilhagem inerente às estratégias e artimanhas enunciativas do medium.

Referências

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Relatório final da Comissão eventual de Inquérito Parlamentar relativa à relação do Estado com a Comunicação Social e, nomeadamente, à actuação do Governo na compra da TVI”, 2010.




1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho de Comunicação e Política do XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017.

2 LabCom.Ifp/Universidade da Beira Interior/ Universidade de Brasília. Doutor em Ciências da Comunicação. Realizou estágio pós-doutoral (PNPD/CAPES/2013) na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. helder.prior@gmail.com.

3 No dia 22 de Novembro, o Jornal I e o Sol online noticiaram que a equipa da Operação Marquês, no âmbito da investigação a outro escândalo envolvendo José Sócrates, descobriu novas evidências acerca do alegado plano do ex-primeiro-ministro para controlar a estação televisiva TVI. O plano teria sido baptizando de “Projecto Aljubarrota”, numa alusão à empresa espanhola Prisa detentora da estação televisiva e à histórica batalha de 1385 que dividiu o Reino de Portugal do Reino de Castela e Leão. http://sol.sapo.pt/artigo/535084/compra-da-tvi-operacao-marqu-s-descobre-novas-provas-do-plano-de-socrates.

4 Manuel Godinho, foi condenado pelos crimes de associação criminosa, corrupção activa para acto ilícito e tráfico de influências. Empresário do sector privado, Manuel Godinho financiou campanhas do Partido Socialista.

5 Armando Vara foi deputado na Assembleia da República, secretário de Estado, ministro da Juventude e do Desporto (2000), e administrador dos Bancos Millennium/Banco Comercial Português e Caixa Geral de Depósitos, onde exerceu a sua influência para conceder crédito ilícito. Esteve envolvido nos processos Face Oculta e Operação Marquês, outro escândalo de corrupção que envolve a governação de José Sócrates. Foi condenado a prisão efectiva no âmbito do escândalo Face Oculta por crimes de tráfico de influências.

6 O caso Freeport eclodiu em 2005, em véspera de eleições legislativas, e refere-se a alegados subornos para viabilizar o projecto do outlet, aprovado quando José Sócrates era ministro do Ambiente do governo liderado por António Guterres. A polícia inglesa suspeitou que o intermediário inglês Charles Smith terá distribuído “luvas” por várias pessoas, entre as quais Sócrates, para que a construção do centro comercial de Alcochete fosse viabilizada. O caso foi arquivado, mas teve grande impacto na agenda mediática portuguesa, nomeadamente no jornal Nacional transmitido pela estação TVI.

7 O crime de atentado contra o Estado de direito está previsto no Art. 9º dos Crimes de Responsabilidade de Cargos Políticos: “O titular de cargo político que, com flagrante desvio ou abuso das suas funções ou com grave violação dos inerentes deveres, ainda que por meio não violento nem de ameaça de violência, tentar destruir, alterar ou subverter o Estado de direito constitucionalmente estabelecido, nomeadamente os direitos, liberdades e garantias estabelecidos na Constituição da República, na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Convenção Europeia dos Direitos do Homem, será punido com prisão de dois a oito anos, ou de um a quatro anos, se o efeito se não tiver seguido”.

8 Vide “Relatório final da Comissão eventual de Inquérito Parlamentar relativa à relação do Estado com a Comunicação Social e, nomeadamente, à actuação do Governo na compra da TVI”, 2010, p. 148.

9 A administração da TVI decidiu suspender a transmissão do Jornal Nacional de Sexta apresentado por Manuel Moura Guedes e o caso levantou suspeitas de intromissão do governo e de pressão política. José Sócrates considerou que o jornal era uma “caça ao homem”, devido ao facto do jornal de sexta-feira apresentar semanalmente novos dados sobre o escândalo Freeport, que também envolveu o ex-primeiro-ministro. A oposição acusou o governo de censura.

10 O caso Taguspark diz respeito a eventuais contrapartidas que a administração do parque tecnológico situado em Oeiras, por intermediação de Rui Pedro Soares, teria dado ao ex-futebolista Luís Figo para este apoiar a candidatura de José Sócrates nas eleições legislativas de 2009. O processo foi iniciado na sequência de uma certidão extraída do processo Face Oculta e em causa estava um contrato no valor de 350 mil euros por ano para que Figo promovesse internacionalmente a imagem do parque tecnológico.

11 A delação premiada está prevista na doutrina jurídica brasileira e refere-se a eventuais benefícios concedidos a um réu na redução de condenações judiciais. No caso da operação Lava Jato, os avanços nas investigações muito se devem às denúncias dos investigados que aceitaram colaborar com a Justiça brasileira.

12 Veja antecipou a publicação da sua edição semanal de domingo para sexta-feira, publicando uma reportagem onde afirmava que o doleiro Alberto Youssef teria declarado, no processo de delação premiada, que Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula da Silva tinham conhecimento dos desvios de dinheiro na Petrobras. No mesmo dia, na propaganda eleitoral da TV, Dilma Rousseff criticou a revista e classificou a matéria e a antecipação da publicação como um acto de “terrorismo eleitoral”. http://veja.abril.com.br/brasil/dilma-e-lula-sabiam-de-tudo-diz-alberto-youssef-a-pf/.

13 André Vargas viajou com a família para João Pessoa num jacto particular providenciado pelo pivô da operação Lava Jato, Alberto Youssef. O caso levantou suspeitas, já que Alberto Youssef estava a ser investigado pelas autoridades policiais pelos crimes de lavagem de dinheiro. André Vargas acabou por ser condenado a mais de 14 anos de prisão devido ao envolvimento no escândalo.

14 Na edição 2371 de 30/04/2014, Veja noticia que a Polícia Federal suspeita que o ex-ministro Alexandre Padilha e mais dois deputados do PT estariam envolvidos “num golpe milionário contra o Ministério da Saúde” (p. 70), um “golpe” engendrado por Alberto Youssef que teria fundado a Labogen, uma empresa fictícia, e conseguido um contrato de 31 milhões de reais para fornecer medicamentos ao Ministério da Saúde. O esquema serviu, essencialmente, para a evasão de divisas e lavagem de dinheiro, através de negócios fictícios.

15 Vide, por exemplo, a representação visual da edição de 29 de Outubro de 2014.


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