Escândalo Político e Narratologia: tecendo os fios narrativos dos casos Face Oculta e Lava Jato



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5. O caso Lava Jato



Não é despropositado afirmar que o escândalo Lava Jato se converteu no maior escândalo que a vida pública brasileira já conheceu. O caso eclodiu em Março de 2014 devido a uma investigação das autoridades policiais acerca de uma rede criminosa de lavagem de dinheiro que utilizava postos de abastecimento de combustível e “lava a jato” para movimentar recursos financeiros ilícitos. Todavia, o desenvolvimento das investigações revelou um esquema criminoso que desviou, durante anos, dinheiro da petrolífera Petrobras, um esquema de corrupção que envolveu dirigentes da empresa, políticos, intermediários financeiros (doleiros) e grandes empreiteiras que operavam em “cartel”, manipulando concursos públicos. Para o Ministério Público Federal, essas empresas pagavam propina através de contratos combinados e super-facturados, dinheiro que era posteriormente distribuído pelos intermediários do esquema, dirigentes políticos e partidos com representação parlamentar, alguns da base aliada do governo petista. O escândalo Lava Jato adquiriu uma nova dinâmica quando Paulo Roberto Costa, ex-director da empresa, e Alberto Youssef, operador do esquema de lavagem de dinheiro e responsável por distribuir os recursos desviados a partidos e políticos, acordaram com a justiça “delações premiadas”11, explicando os pormenores do esquema de corrupção e identificando os dirigentes políticos envolvidos, em troca de eventuais reduções nas condenações judiciais. As primeiras denúncias públicas surgiram, no caso da cobertura da revista Veja, na edição de 19 de Março de 2014 e referem-se a alegados subornos por parte de uma empresa holandesa (SBM), que teria pago “propina” a funcionários da Petrobras em troca de contratos para a exploração do pré-sal. Na edição seguinte, as denúncias sobre o caso adensam-se com a publicitação de “negócios nebulosos e denúncias de corrupção” (p. 44) sobre a compra de uma refinaria em Pasadena, no Texas, aprovada quando Dilma Rousseff era conselheira da estatal. A Petrobras teria pago um valor demasiado elevado pela usina, o que originou investigações sobre crimes fiscais e super-facturação. Veja envolve a então presidente no negócio, embora na manchete da edição responsabilize, essencialmente, o “aparelhamento político” da Petrobras pela corrupção existente na estatal, visando, sobretudo, o Partido dos Trabalhadores. De acordo com a matéria, Dilma Rousseff teria dado aval favorável à compra da refinaria devido a um “parecer falho” que omitiu cláusulas do contrato que acabariam por prejudicar a Petrobras. Como constatamos, o escândalo Lava Jato surge devido a pequenas denúncias de corrupção na petrolífera, como o alegado suborno da empresa holandesa SBM ou o caso da compra da refinaria em Pasadena. Porém, importantes reconfigurações semânticas converteram o caso num escândalo político de grandes proporções e que, de resto, ainda se encontra em desenvolvimento. Segundo denúncias publicadas por Veja nos meses de Setembro e Outubro, Paulo Roberto Costa confirmou a existência de um esquema de pagamento de subornos a deputados federais, senadores, governadores, um esquema que sustentava a base de apoio ao governo no Congresso e que teria sido arquitectado no primeiro mandato do ex-presidente Lula da Silva. Por outro lado, na edição de 22 de Outubro Alberto Youssef declarou que a campanha presidencial do PT das eleições de 2010, que culminou na eleição de Dilma Rousseff, beneficiou de dinheiro desviado da Petrobras, naquela que se constituiu como uma das denúncias mediáticas mais marcantes da operação Lava Jato no período analisado. Na edição seguinte (24/10/2014), publicada na véspera do segundo turno das eleições de 2014, Veja coloca Dilma Rousseff e Lula da Silva no epicentro do escândalo com a polémica manchete “Eles sabiam de tudo”12. De acordo com a revista, o doleiro da Lava Jato teria revelado à Polícia Federal e ao Ministério Público que Dilma Rousseff e Lula da Silva tinham conhecimento das “tenebrosas transações na estatal”. Efectivamente, e de acordo com o enquadramento mediático de Veja, aquilo que se iniciou com pequenas denúncias de corrupção na Petrobras, converteu-se numa complexa trama mediática onde é visível que o PT, enquanto personagem colectiva e, sobretudo, Dilma Rousseff e Lula da Silva, adquirem uma notória centralidade, algo forçosamente relacionado com os próprios interesses editoriais da revista na cobertura do escândalo e no seu enquadramento. Se as primeiras denúncias concentraram a atenção pública nas transgressões iniciais, ao caso acabariam por ser acrescentadas novas denúncias ou “transgressões de segunda ordem” que acabariam por adensar o debate público e reconfigurar o acontecimento. Reconstruída a síntese da intriga, ou storyline, no que se refere ao período que nos importa analisar, é possível, com efeito, observar a serialidade temática do escândalo Lava Jato. A recomposição do “acontecimento-intriga” permite a identificação de episódios ou de unidades temáticas, até porque os escândalos mediáticos são, na maioria dos casos, narrativas complexas que se desdobram em núcleos temáticos menores diluídos no interior da intriga. A publicitação das primeiras denúncias e o desenvolvimento das investigações, converteu o caso da Petrobras numa complexa narrativa com episódios principais e secundários, como os casos da compra da refinaria de Pasadena, o episódio do “jatinho” utilizado por André Vargas13, o caso Labogen14, ou o subescândalo relacionado com a fraude da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a averiguar os desvios na empresa. Neste ponto, é interessante ter em conta a noção de episódio tal como é definido por Reis & Lopes, isto é, uma unidade narrativa não necessariamente demarcada exteriormente, de extensão variável, na qual se narra uma acção autónoma em relação à totalidade da sintagmática narrativa (Cf. Reis & Lopes, 1988, p. 33). Os autores sublinham, ainda, que a configuração dos episódios se ajusta, principalmente, a narrativas de composição aberta, o que significa que eles podem ser particularmente visíveis nas narrativas sobre escândalos mais complexos, como aqueles que estamos a analisar. Um dos episódios mais interessantes do caso Lava Jato surge na edição de 6 de Agosto de 2014 sob a manchete “Fraude na CPI da Petrobras”. Segundo Veja, a comissão de inquérito entretanto criada para investigar os desvios da empresa “teria sido montada com o intuito de não pegar os corruptos”, já que as perguntas feitas pelos senadores foram entregues aos investigados com antecedência, numa “conjuração” que foi gravada em vídeo por alguém que participou na comissão. Este caso é paradigmático no que à serialidade temática do escândalo diz respeito, uma vez que se configura como um episódio relativamente autónomo, demarcado no tempo e no espaço, e com personagens perfeitamente identificadas, como o ex-presidente da empresa, Sérgio Gabrielli ou José Eduardo Barrocas, chefe do escritório da estatal em Brasília. Ao nível de estratégias enunciativas, de notar o recurso à metáfora do teatro para instituir os acontecimentos, um plano linguístico construído pelo narrador que permite a apreensão da realidade: “Teatro: parecia uma encenação – e era mesmo (...) um escárnio, um teatro” (pp. 56-57), conclui o narrador. Após a recomposição da intriga e a identificação de alguns dos seus episódios, podemos analisar a personalização do escândalo e a construção das dramatis personae. Na perspectiva de Thompson, o escândalo mediático tem, necessariamente, dramatis personae (2000, p. 112), ou indivíduos directa ou indirectamente implicados nas transgressões ou nas denúncias públicas. As personagens funcionam como “fios de ligação” entre os diferentes episódios, elementos que sustentam o desenrolar e a progressão da “estória” (Reis & Lopes, 1988: 154). Elas são o núcleo essencial da progressão narrativa e do desenrolar da “estória”, sendo consideradas como “unidades funcionais da narrativa”, isto é, como segmentos que desempenham um papel significativo no desenrolar da diegese (Reis & Lopes, 1988, p. 161). Várias edições são, a nosso ver, bastante elucidativas acerca da construção mediática do carácter das personagens envolvidas no escândalo da Petrobras, mas também na importância que estas adquirem para a progressão da estória. A voz do narrador apresenta as personagens como indivíduos com consideráveis falhas de carácter, como “corruptos” ou “saqueadores”. Alberto Youssef, por exemplo, é apelidado de “o cliente”, “um velho conhecido da polícia” (02/04/2014, p. 66), enquanto Paulo Roberto Costa, denominado de “arrecadador”, é identificado como “personagem central do escândalo”, o mediador entre “corruptos” e “corruptores” (p. 67). Já André Vargas, deputado do PT, é descrito como “típico casca grossa”, como “alguém sempre pronto a servir aos líderes, aceitando toda a sorte de trabalho sujo, desde que alinhado com o projeto de poder do PT”, e “entusiasta do controle social da mídia” (p. 54). Na edição seguinte, de 16/04/2014, Veja envolve dois ex-presidentes do Brasil no escândalo. É revelado que a Polícia Federal apreendeu um depósito de 8 mil reais na conta de Fernando Collor de Mello, caracterizado como “decano da turma que confunde o público e o privado sempre em benefício do segundo”, e já no final do texto é feita referência a Lula da Silva como “outro mestre das indicações políticas” (pp. 70-71). Por outro lado, Veja recorre frequentemente à identificação e ao posicionamento das personagens do escândalo mediante infografias15 e demais ilustrações que facilitam a compreensão do enredo, algo típico na cobertura mediática de escândalos políticos, mas também é notório como o narrador as caracteriza mediante adjectivos e alcunhas, como o “gerente” (Paulo Roberto Costa) ou o “caixa” do esquema (Alberto Youssef). É particularmente visível como a revista posiciona e caracteriza as personagens do escândalo referindo aspectos negativos do seu carácter, aspectos psicológicos referenciados que fazem parte da estratégia da narração, isto é, que permitem identificar e caracterizar as personagens como “transgressores”. As narrativas precisam de personagens que representem determinados papéis no enredo e, no caso de narrativas sobre escândalos políticos, as personagens são normalmente identificadas como “vilões” ou “transgressores”. Tal como constata Gomes:

“O personagem político pode ser construído a partir da identificação dos elementos constantes, morais e psicológicos, do seu caráter. Os personagens políticos prediletos do jornalismo-espetáculo são, em geral, negativos, o seu caráter (literalmente, as marcas estáveis da sua personalidade) consiste frequentemente em não ter caráter (no sentido moral do termo). Por isso, a busca da falha gravíssima de conduta, que gera o desejável escândalo político, ou, ainda mais disseminada, a busca da indicação das incoerências do político como forma de identificação de um defeito seu de caráter” (2004, p. 350).




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