Escândalo Político e Narratologia: tecendo os fios narrativos dos casos Face Oculta e Lava Jato



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4. O escândalo Face Oculta



Analisando a cobertura do Semanário Sol num período determinado, procuraremos compreender de que forma o acto de fala jornalístico organizou o acontecimento, as suas sequências, a caracterização das personagens envolvidas na trama e o uso de determinadas artimanhas enunciativas que visaram criar efeitos de real e efeitos de sentido. No caso particular do escândalo que ficou conhecido por Face Oculta, podemos asseverar que se enquadra na tipologia de escândalo político-financeiro (Thompson, 2000, p. 159) uma vez que revelou a existência de laços ocultos entre o poder político e o poder económico que serviriam para beneficiar empresas privadas mediante uma rede de corrupção e tráfico de influências. O escândalo eclodiu em Outubro de 2009 e culminou em Setembro de 2014 com a condenação de todos os arguidos, embora tivesse voltado à agenda mediática em Novembro de 2016.3 Os tribunais deram como provada a existência de uma organização criminosa que visava beneficiar a empresa O2 do sucateiro Manuel Godinho4, mediante concursos públicos manipulados nos quais intervieram altos quadros do governo português liderado, na época, por José Sócrates. Todavia, é interessante constatar que apesar desta aparente linearidade, o caso se desenvolveu como uma complexa narrativa mediática que reconfigurou substancialmente a compreensão do acontecimento. É que das escutas telefónicas realizadas durante as investigações a Armando Vara5, um dos envolvidos no esquema, faziam parte conversas entre este personagem e o primeiro-ministro José Sócrates, conversas que segundo o Ministério Público levantavam suspeitas de que o governo teria tentado utilizar e empresa Portugal Telecom (PT) para comprar a estação televisiva TVI e, assim, influir no conteúdo das notícias. Isto é, as escutas revelaram a existência de “transgressões de segunda ordem” que pouco tinham que ver com as revelações iniciais que estiveram na origem da eclosão do caso e que converteram o Face Oculta numa complexa trama jurídico-mediática. Com efeito, análise da cobertura do Semanário Sol permite-nos recompor as sequências do escândalo, identificar as personagens envolvidas, reordenar a cronologia, recompor o enredo, ligar as partes, refigurando uma estória jornalística e identificando uma certa totalidade significativa fundamental para compreendermos o acontecimento. Como refere Gonzaga Motta, “a reconfiguração do acontecimento-intriga tem o mágico poder de tecer a totalidade da estória e realizar a função de integração e de mediação da intriga” (Motta, 2013, p. 99). Combinando eventos noticiosos dispersos, é possível criar uma nova síntese ou um novo acontecimento dramático. É a partir deste novo acontecimento dramático gerado pela recomposição de notícias fácticas e dispersas ao longo do tempo que podemos chegar ao micronível dos processos narrativos, isto é, aos enquadramentos do narrador, à identificação e disposição de personagens, aos conflitos, episódios e núcleos temáticos menores e, também, aos jogos de linguagem e aos efeitos de sentido. A complexidade e o desdobramento do escândalo Face Oculta tornam-se visíveis a partir da edição de 6 de Novembro de 2009. O jornal sublinha, ainda sem grandes desenvolvimentos, que das escutas telefónicas efectuadas a Armando Vara surgiram “novos indícios” que estariam a ser analisados pelo então Procurador-geral da República relacionados com um negócio que envolvia e empresa Portugal Telecom e a estação televisiva TVI. Desdobramento que é, sobretudo, confirmado pelas duas primeiras edições de Fevereiro de 2010. A edição de 5 de Fevereiro intitulada “As escutas proibidas”, revela a existência de um plano que envolvia o primeiro-ministro para controlar a TVI e outros grupos de media. De acordo com as novas revelações que adensam o caso, o plano passava por afastar a jornalista Manuela Moura Guedes da TVI, alegadamente devido à cobertura do Jornal Nacional de Sexta sobre outro escândalo que envolveu Sócrates, o caso Freeport6. O jornal fala de um plano arquitectado pelo então primeiro-ministro e por homens da sua confiança, que envolvia a compra da TVI pela PT, um esquema que configuraria o crime de atentado contra o Estado de direito7, já que o governo teria tentado subverter o Estado Constitucional e colocar em causa a liberdade de imprensa. Um dos aspectos mais interessantes dos escândalos mediáticos, particularmente dos escândalos mais complexos, é a identificação de episódios que se diluem no interior da intriga, alguns sucedendo-se de forma linear e outros configurando-se como escândalos relativamente autónomos. Os escândalos mediáticos são narrativas dinâmicas e a identificação temática é um movimento essencial na compreensão da sua totalidade significativa. Por conseguinte, o caso Face Oculta é paradigmático na identificação de unidades temáticas ou de estruturas semânticas que fizeram progredir a estória. Deve referir-se, não obstante, que estes núcleos temáticos são normalmente articulados pelo narrador-jornalista com vista à produção de determinados efeitos de sentido. Os episódios referem-se a sequências coesas com relativa autonomia no interior de um relato e com início, meio e fim. São “unidades semânticas” que funcionam como organizadores do discurso e que permitem ao leitor fazer inferências relativas à trama (Cf. Motta, pp. 163-164). Se a intriga que identificámos é a estrutura maior ou macroestrutura semântica (Van Dijk, 1998, p. 43), é o tema ou assunto do discurso, também designado por Van Dijk de macroproposição (Idem: 46), é possível, todavia, identificar sequências ou “átomos narrativos” unidos por uma relação de solidariedade e contiguidade. Na análise da cobertura do semanário Sol, são vários os episódios que confirmam a serialidade dos escândalos mediáticos (Prior, 2015). Desses “átomos narrativos”, um dos mais relevantes foi o caso da “mentira parlamentar” de José Sócrates. Trata-se de uma unidade temática de certa forma autónoma em relação às “transgressões de primeira ordem”. Num debate parlamentar, o então primeiro-ministro foi confrontado com a hipótese da PT adquirir a estação televisiva, tendo em conta notícias que começavam a circular na imprensa sobre o negócio. Deputados do Centro Democrático Social/Partido Popular (CDS-PP) e do Bloco de Esquerda (BE), questionaram se o negócio não poderia ser interpretado como o regresso do Estado aos media privados, mas José Sócrates afirmou que o governo não tinha recebido nenhuma informação sobre o assunto. A afirmação de Sócrates causou alguma estranheza nos políticos da oposição, com Manuela Ferreira Leite (Partido Social Democrata) e Francisco Louçã (BE) a considerarem “implausível” e “ingénuo” que o governo desconhecesse um negócio de 150 milhões de euros que envolvia uma empresa onde o Estado estava representado. O caso levou ao pronunciamento do então Presidente da República, Cavaco Silva, que pediu “ética nos negócios” e o governo de Sócrates acabou por vetar a compra da TVI pela PT no dia 24 de Junho, no sentido procurar eliminar suspeitas de intromissão do governo nos media. Não obstante, o caso haveria de voltar à agenda mediática em Novembro do mesmo ano. Segundo o Sol, as escutas do processo “provam que o primeiro-ministro faltou deliberadamente à verdade” quando disse no Parlamento que desconhecia o negócio, já que, “conversas havidas entre Vara e Sócrates em Março já versavam sobre este tema”. O episódio da mentira parlamentar levou à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a averiguar se José Sócrates mentira num órgão de soberania, CPI que concluiu que no dia 24 de Junho de 2009 “o governo sabia que o negócio estava em curso”8. Mas, ao longo da cobertura existem outros episódios igualmente relevantes e que ajudaram a reforçar a complexidade e o desdobramento da trama. O fim do Jornal Nacional de Sexta e a saída de Manuela Moura Guedes da estação televisiva9, ou o escândalo Taguspark e o polémico apoio do ex-futebolista Luís Figo a José Sócrates nas eleições de 200910 são, podemos dizer, episódios secundários do escândalo Face Oculta. Definidos o eixo da estória e os seus episódios, uma outra categoria narrativa que nos importa tem que ver com a personalização do escândalo mediático. De acordo com Todorov, na sequência narrativa cada capítulo é constituído em torno de uma determinada acção e, por conseguinte, de uma personagem, isto é, de elementos responsáveis pelo desempenho do enredo, pelos actos activos ou passivos no interior de uma narrativa. Tal como sublinha o autor: “Não há personagens fora da acção, nem acção independente de personagens” (Todorov, 1979, p. 119). Trata-se do “reino dos homens-narrativas” (Idem, p. 123) já que, como sustenta Motta, as personagens são “elementos-chave na projecção da estória e na identificação dos leitores com o que está sendo narrado” (2013, p. 173), sendo que sem personagens não poderia existir estória. Assim, o escândalo Face Oculta teve, necessariamente, os seus protagonistas e a personalização do escândalo é visível, por exemplo, na edição de 6/11/2009 quando o narrador posiciona as personagens da intriga recorrendo a um enquadramento lúdico. Com o título “A teia de influências do Face Oculta”, o narrador identifica as personagens e os seus papéis na trama, personaliza o enredo e, simultaneamente, coloca José Sócrates como “actante dominante” da narrativa. De resto, a centralidade mediática de José Sócrates é novamente visível na edição de 12/02/2010, num novo enquadramento lúdico-metafórico. Recorrendo à metáfora do “polvo”, um dos enquadramentos lúdicos típicos do jornalismo político, particularmente da cobertura de casos de corrupção, o jornal identifica o ex-primeiro-ministro como figura central da narrativa, como responsável por uma “rede tentacular” que visava controlar grupos de media. Em termos discursivos, trata-se de um enquadramento metafórico que tem não apenas a função de “ornamentar” o discurso jornalístico, mas também a função de despertar efeitos de sentido no público, de captar e reter a sua atenção. De outro modo, no movimento de identificação das personagens da trama, o jornalista-narrador recorre a determinadas estratégias narrativas para caracterizar as personagens do enredo. A ideia é a de que o leitor, no acto de apreensão do texto, atribui, consciente ou inconscientemente, um determinado carácter às personagens que se movem no interior da intriga. Através de “ardis enunciativos”, o sujeito-narrador vai qualificando as personagens (Motta, 2013, p. 177) e estimulando interpretações na audiência. No caso do Face Oculta, Rui Pedro Soares, administrador da PT nomeado pelo governo e um dos responsáveis nos bastidores pelo negócio PT/TVI, é caracterizado como um “boy sem curriculum” para ocupar o cargo de administrador da empresa. É notório como no projecto dramático do narrador, a identificação e caracterização das personagens surge como eminente categoria, mas sempre mediante ardis enunciativos que permitem identificar qualidades ou defeitos, mais defeitos do que, propriamente, qualidades. Ou seja, as personagens são criadas pelo poder de voz do sujeito narrador que, tal como sustenta Mesquita, tende a reduzir a complexidade da descrição ou caracterização, procurando ilustrar ou confirmar os traços dos quais o narrador partiu inicialmente. Tal significa que os procedimentos retóricos aos quais o sujeito-narrador recorre, simplificam os traços característicos das personagens, criando, em alguns casos, actantes estereotipados numa espécie de “mimesis rudimentar” que reduz a complexidade dos seres retratados (Mesquita, 2002, p. 126), e que, simultaneamente, permite que o leitor reconstrua o carácter da personagem em causa. Assim, é conveniente sublinhar que se as personagens assumem determinados papéis e adquirem certas características, isso deve-se ao relato do narrador e à representação discursiva que este faz de figuras reais, mas discursivamente construídas.

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