Escândalo Político e Narratologia: tecendo os fios narrativos dos casos Face Oculta e Lava Jato


Escândalo mediático e narratividade



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3. Escândalo mediático e narratividade

Interpretar o escândalo político à luz da teoria da narrativa implica o reconhecimento de alguns problemas conceptuais. Como se sabe, o texto jornalístico é, por natureza, revestido de uma linguagem “dura”, objectivada e eminentemente descritiva. A actividade jornalística pressupõe a descrição da realidade da vida de todos os dias, uma realidade que, muitas vezes, deve ser “desvelada” ou “descortinada” pelo jornalista, até porque os factos nem sempre se encontram à “superfície”, particularmente os factos sobre a realidade política. Todavia, a descrição dessa realidade que se quer narrar deve necessariamente ter uma relação com o referente ausente, com o referente empírico. Não devemos esquecer que a intenção comunicativa da linguagem jornalística é sempre a de produzir um discurso verídico e a de despertar os chamados efeitos de real ou efeitos de realidade. É por isso que a maior parte dos relatos da imprensa que nos surgem no dia-a-dia são pautados por um estilo “duro”, “directo”, “conciso”, “objectivo” e pouco permeado por manifestações subjectivas. O jornalista deve, no chamado lead da notícia, responder de forma simples e directa às questões “o quê”, “quem”, “quando”, “onde”, “como” e “por quê”, aproximando o leitor da realidade ou do acontecimento reportado. Neste sentido, identificar elementos narrativos, estéticos e poéticos nas chamadas hard news, é um desafio aliciante para o analista. De acordo com Motta, encontrar estruturas e elementos narrativos nas “duras” e “cruas” notícias do dia-a-dia só é possível se nos detivermos sobre o modo como essas notícias “lidam com o tempo” e o organizam com o objectivo de reconstruir o acontecimento numa sequência lógica e ordenada:



O tempo no relato jornalístico é difuso, anárquico, invertido. Por isso, a lógica e a sintaxe narrativas só despontarão se pudermos reconfigurar os relatos como unidades temáticas, intrigas que contenham princípio, meio e final de uma estória única (como aliás fazem, de maneira natural, os leitores, ouvintes e telespectadores nos atos de recepção) (Motta, 2013, p. 97).
Assim, para encontrarmos uma lógica narrativa nas chamadas hard news, particularmente nas notícias sobre acontecimentos políticos, que são aquelas que aqui nos importa analisar, será necessário agrupar informações ou notícias sobre um mesmo tema, organizar temporalmente essas informações, pois podem estar separadas por intervalos de tempo relativamente longos, recompor o enredo, as sequências da intriga, identificar as personagens, enfim, juntar as pontas da estória e os respectivos encadeamentos entre essas pontas. Trata-se de “recompor o acontecimento-intriga” (Motta, 2013, p. 98) e de dispor os acontecimentos numa sequência temporal e causal, numa sequência lógica. Não devemos esquecer que os escândalos político-mediáticos começam sempre pelo final da estória, quando uma transgressão cometida no passado se publicita, se converte num acontecimento público. Tratando-se de narrativas eminentemente complexas, compete ao analista organizar os antecedentes da estória, contextualizar a transgressão, posicionar os indivíduos que se encontram no epicentro do escândalo, recompor a serialidade, os episódios, as sequências da intriga, identificar os efeitos de real e os efeitos de sentido inerentes ao acto de reportar um acontecimento e de o instituir. Só reunindo as notícias que vão surgindo sobre o acontecimento, na maioria das vezes a conta-gotas, em fragmentos dispersos e durante um período de tempo relativamente longo, é que podemos encontrar a totalidade significativa dos escândalos mediáticos mais complexos, embora se deva reconhecer a dificuldade metódica em reunir fragmentos de estórias sobre escândalos mediáticos, devido à complexidade, desdobramento e desenvolvimento temporal bastante longo da maioria dos escândalos. Por outro lado, a recomposição das notícias sobre um mesmo tema ou assunto num produto novo, o “acontecimento-intriga”, permite compreender a mimese jornalística não apenas como uma actividade de representação do real, mas fundamentalmente como uma actividade produtora e instituidora de sentidos (Motta, 2013, pp. 99-100). Quando o escândalo político emerge, constitui-se um complexo processo de comunicação mediática que consiste num rol subsequente de revelações, acusações, reacções de defesa, que têm uma característica particular: os acontecimentos são moldados pelos jornalistas e as estórias são criadas e reportadas tendo em conta “códigos narrativos” (Canel & Sanders, 2006, p. 50). As narrativas jornalísticas são sempre constituídas por elementos referentes à vida social, mas o narrador desempenha um papel determinante na selecção e organização temporal das acções ou dos acontecimentos sociais, tendo sempre em conta um determinado propósito ao narrar ou uma determinada intenção comunicativa. Para narrar uma estória, particularmente uma estória complexa como é o caso da maioria dos escândalos mediáticos, os jornalistas procuram criar um todo coerente, organizar os acontecimentos tendo em conta uma lógica espacial e temporal, uma lógica que, naturalmente, se ajusta ao ritmo de produção das organizações mediáticas. É aquilo a que os narratólogos chamam de “tessitura da intriga” (Correia, 2012, p. 34), no fundo, a atribuição de sentido a uma sucessão de acções e de acontecimentos no tempo. Como sublinham Canel & Sanders, “nos escândalos mediáticos, estórias e personagens são criadas e qualidades atribuídas; as estórias têm plots e pontos de viragem; elas recebem uma ordem temporal com vista à criação de um todo coerente” (Canel & Sanders, 2006, p. 53). Porém, deve reconhecer-se que a sintaxe narrativa dos escândalos mediáticos dificilmente se revela à primeira vista. Será fundamental recuperar a sequência episódico-temporal dos acontecimentos, integrar as unidades temáticas e encontrar as microproposições dispersas recompondo um acontecimento unitário. Como refere Ricoeur, tecer a intriga permite configurar a estória na sua totalidade, combinando as dimensões cronológica e configurante, obtendo uma síntese e uma totalidade temática. É necessário, portanto, construir uma espécie de “composição verbal” que converte um texto em narração, composição verbal que Ricoeur designa de “intriga” ou melhor, de “mise-en-intrigue”, de organização da intriga. Correspondente a um plano de organização macroestrutural do texto, a intriga caracteriza-se pela apresentação dos eventos segundo determinadas estratégias discursivas que conduzem à progressão da história (Reis & Lopes, 1988, pp. 211-212): “a intriga é o conjunto das combinações pelas quais há acontecimentos que são transformados em história ou – correlativamente – uma história é tirada de acontecimentos (Ricouer, 1986, p. 16). Só a partir da recomposição de notícias dispersas numa intriga temática é que será possível analisar criticamente o processo de produção de sentidos inerente à actividade jornalística. Mediante o encaixe e a integração das unidades heterogéneas e fragmentadas num todo homogéneo e unificado, o analista conseguirá chegar às significações mais profundas da narrativa jornalística, significações impregnadas de subjectividade presentes em relatos aparentemente objectivos, como é o caso de relatos sobre escândalos mediáticos. De acordo com Motta, trata-se da “experiência estética da recepção jornalística onde esvaece o mundo fático e manifesta-se o mundo subjetivo das ideologias, mitos e modelos de mundos” (Motta, 2013, p. 103). Na nossa perspectiva, as narrativas sobre escândalos mediáticos são, particularmente, propensas ao desencadeamento de efeitos estéticos ou poéticos, de efeitos dramáticos. Ao referir-se à derrogação de valores morais, sociais, políticos, normativos ou religiosos, o escândalo mediático questiona a moralidade pública (Bird, 1997, p. 107), coloca em causa normas e valores socialmente aceites e partilhados e, acima de tudo, desperta efeitos dramáticos no público. Efectivamente, partindo da análise dos actos de fala do narrador-jornalista é possível, muitas vezes, descortinar uma mensagem e um fundo ético nas narrativas sobre escândalos, um plano da estrutura de fundo que ajudará a compreender o sentido integral do acontecimento convertido em estória. Como resultado, as narrativas sobre escândalos mediáticos despertam a atenção pública e, muitas vezes, as “estórias noticiosas sobre escândalos convertem-se em contos morais” (Canel & Sanders, 2006, p. 54).

Entendamos por isso que uma acção só é um começo numa história que ela inaugura. E também que qualquer acção só é um meio se ela provocar, na história contada, uma mudança de destino, um “nó” para desatar, uma “peripécia” surpreendente, uma sucessão de incidentes “lamentáveis” ou “aterradores”, finalmente, qualquer acção considerada em si mesma só é um fim quando, na história contada, ela conclui o curso de uma acção, desata o nó, compensa a peripécia pelo reconhecimento, sela o destino do herói por um último acontecimento que clarifica toda a acção e produz no ouvinte a katharsis da piedade e do terror (Ricoeur, 1986, p. 16).





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