Ernesto Bozzano Fenômenos Premonitórios



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Ernesto Bozzano
Fenômenos Premonitórios

La paramnésie et les rêves prémonitoires

Revue des Etudes Psychiques

1901


Salvador Dali
Premonição da Guerra Civil Espanhola


Conteúdo resumido


Conforme exposto por Bozzano na Introdução da presente obra, entre os fenômenos metapsíquicos, os premonitórios estão entre aqueles de cuja existência menos se permite duvidar, devido à autenticidade comprovada dos relatos, apesar de desafiarem todas as nossas concepções mais audaciosas para chegar à sua explicação.

Nesta obra o autor faz um estudo, através da classificação metódica de 162 casos selecionados, do intrigante fenômeno da premonição (previsão, por via supranormal, de acontecimentos futuros) – também denominada clarividência no futuro.

Com sua grande experiência nas pesquisas sobre os fenômenos psíquicos, e seguindo rigorosamente a metodologia científica, Bozzano extrai desse estudo importantes conclusões filosóficas, dentre elas a de que o espírito evolui, por um lado, guiado por forças que orientam o seu caminho e, por outro, em função do seu próprio livre-arbítrio, que é proporcional ao seu grau evolutivo.
Sumário


Introdução 6

Primeira Categoria

Autopremonições de doença ou de morte 27

Subgrupo A

Autopremonições de doença


(Caso 1) 27

Subgrupo B

Autopremonições de morte a curto prazo,
e em que a morte se deve a causas naturais
(Casos 2 a 7) 33

Subgrupo C

Autopremonições de morte a longo prazo,
e em que a morte se deve a causas naturais
(Casos 8 a 12) 46

Subgrupo D

Autopremonições de morte, e em que
a morte se deve a causas acidentais
(Casos 13 a 19) 54

Segunda Categoria

Premonições de doenças ou de


mortes que se referem a terceiros 66

Subgrupo E

Premonições de doenças de terceiros
(Caso 20) 66

Subgrupo F

Premonições da morte de terceiros a curto prazo,
e em que a morte se deve a causas naturais
(Casos 21 a 45) 68

Subgrupo G

Premonições da morte de terceiros a longo prazo,
e em que a morte se deve a causas naturais
(Casos 46 a 57) 105

Subgrupo H

Premonições da morte de terceiros a curto prazo,
e em que a morte se deve a causas acidentais
(Casos 58 a 70) 132

Subgrupo I

Premonições da morte de terceiros a longo prazo,
e em que a morte se deve a causas acidentais
(Casos 71 a 77) 156

Subgrupo J

Premonições da morte produzindo-se
tradicionalmente numa mesma família
(Casos 78 a 81) 174

Terceira Categoria

Premonições de acontecimentos diversos 183

Subgrupo K

Premonições de acontecimentos importantes


que não implicam em morte (extração de números,
casamentos, acontecimentos políticos e fatos diversos)
(Casos 82 a 111) 183

Subgrupo L

Premonições de incidentes
insignificantes e praticamente inúteis
(Casos 112 a 125) 227

Subgrupo M

Premonições meteorológicas e sísmicas
(Casos 126 a 133) 249

Subgrupo N

Premonições que salvam
(Casos 134 a 159) 261

Subgrupo O

Premonições que determinam o acidente possível
(Casos 160 a 162) 310

Conclusões 314

Notas biográficas do Autor 333

Do Positivismo ao Espiritismo 333

O que penso da influência do Espiritismo
na evolução moral da Humanidade 338




Introdução


Na linguagem técnica adotada pela Sociedade Inglesa de Pesquisas Psíquicas, o fenômeno “premonitório” recebeu esta simples definição: “Predição supranormal de um acontecimento futuro qualquer”; e esta definição parece feliz e adequada, se considerarmos que, graças à adição oportuna da palavra “supranormal”, todos os casos pseudopremonitórios cuja realização é devida, provavelmente, a um fato de sugestão e de autosugestão, ou a inferências consecutivas a estados anormais de hiperestesia sensório-psíquica, encontram-se definitivamente eliminados.

Daí decorre que o termo “premonição” encontra-se como sinônimo deste outro: “clarividência no futuro”, empregado pelos antigos magnetólogos, e ambos compreendem todos os casos que, segundo suas modalidades particulares de manifestação, tomam na linguagem comum os nomes de “pressentimento”, “aviso”, “predição”, “adivinhação”, “profecia”.

Com relação ao valor intrínseco do fenômeno em questão, encontro-me de acordo com o Dr. Samona, cujo parecer é de que “entre os fenômenos metapsíquicos, os premonitórios, que todavia desafiam todas as nossas concepções mais audaciosas para chegar à sua explicação, estão entre aqueles de cuja existência menos se permite duvidar, pois há casos verdadeiramente autênticos diante dos quais somos forçados a nos inclinar, apesar da sua ininteligibilidade absoluta”. (Psiche Misteriosa, pág. 184.) Tal era justamente a opinião do Dr. Carl du Prel.

Para se chegar à conclusão da freqüência com a qual eles se realizam, basta consultar a história dos povos; aí recolher-se-ão numerosos exemplos, e em todas as épocas. E se queremos recorrer ao critério prático do testemunho humano, constataremos que interrogando um grupo de pessoas pegas ao acaso, é bem difícil que nenhuma delas não tenha um incidente pessoal do gênero para contar; o que não se pode afirmar para a telepatia. De modo que somos levados a concluir que os fenômenos premonitórios tomam lugar entre os mais comuns da casuística metapsíquica.

Eles se dão, na sua grande maioria, durante o sono natural ou provocado; mais raramente em condições de vigília; e mesmo quando isso acontece, é fácil encontrar sempre indícios que permitem reconhecer um estado mais ou menos disfarçado de auto-hipnose leve ou de “ausência psíquica”, no sensitivo.

Com mais freqüência, os fatos que nos ocupam se referem à própria pessoa do sensitivo, menos freqüentemente a de terceiros, e muito mais raramente a acontecimentos políticos, sociais, meteorológicos.

Seus modos de exteriorização são mais variados e compreendem toda a gama da casuística metapsíquica. Na sua forma mais simples, consistem num vago sentimento de ansiedade profunda ou de sombrio presságio, sentimento não motivado e invencível, que leva inconscientemente a pessoa a orientar seu próprio pensamento para o de tal pessoa, ou a esta ordem especial de acontecimentos que constituirão o objeto da premonição. Mais comumente, eles assumem uma forma de visualização alucinatória, tanto espontânea quanto provocada, na qual os quadros de acontecimentos futuros manifestam-se ao sensitivo numa sucessão extremamente fugaz, tanto em agrupamentos plásticos, quanto em ação cinematográfica, às vezes, com a aparência de acontecimentos reais, outras vezes de uma maneira ideográfica e simbólica; em tal caso a verdadeira significação do símbolo não parecerá totalmente desvendada senão após a realização do acontecimento. Não menos freqüentemente eles se apresentam sob forma de audição alucinatória, onde uma voz, reconhecida, às vezes, como interior ou subjetiva, ou revestindo um timbre objetivo, e freqüentemente familiar, efetua uma predição, numa linguagem mais ou menos enigmática, dos acontecimentos futuros. Em outras circunstâncias eles se traduzem num fenômeno fônico com um cunho decididamente objetivo, como, por exemplo, quando batidas, gemidos, ruídos de toda espécie (fiéis em cada um dos casos à sua modalidade de exteriorização) reproduzem-se tradicionalmente numa família para anunciar a morte de um de seus membros. Em todos os casos análogos, as predições da morte de uma pessoa ao seu grupo produzem-se, ao contrário, pela aparição de um fantasma de um defunto, sempre idêntico. Nota-se ainda um gênero de premonições transmitidas sob forma de impulsão motriz irrefreável, que impulsiona o sensitivo a atos que parecem absurdos porque não motivados, como, por exemplo, voltar sobre seus passos, dar uma corrida, trocar de lugar ou de caminho, escapando dessa maneira de um grave perigo que o ameaçava com seu desconhecimento. Contaremos finalmente um último gênero, muito mais raro, premonições que assumem uma forma divinatória, de maneira que o sensitivo é levado, contra a vontade, a exprimir profecias pelas quais não se sente responsável; nesse caso, a forma orácula que assumem de hábito suas palavras faz pensar nas respostas dos oráculos greco-romanos.

Um dos caracteres especiais dos fenômenos que estudamos é o de se referir, originariamente, aos conhecimentos dolorosos, raramente a incidentes alegres. Esse caráter é bem conhecido, embora alguns o coloquem em dúvida, baseando-se no fato da realização freqüente de premonições insignificantes e banais, com prognóstico nem triste, nem alegre. Todavia, se a existência de tais manifestações coloca em evidência a complexidade perturbadora do problema a resolver, ela não basta, a meu ver, para infirmar o caráter evidente de que falo, tanto mais que essas manifestações insignificantes e banais pareceriam suscetíveis de uma explicação particular. Comentaremos no tempo certo esses aspectos tão atrapalhados e tão sugestivos dos fenômenos premonitórios.

Um outro aspecto do seu caráter, digno de nota, consistiria no fato de que um grande número de sonhos premonitórios visitam por várias vezes, e sempre de maneira idêntica, o sensitivo, seja na mesma noite, seja em outras sucessivas, como se quisesse reiterar nele a impressão sobre aquele que dorme, com o objetivo de torná-la mais durável, o que nunca deixa de se realizar em tais circunstâncias. Entretanto, quando se vê esse fenômeno efetuar-se em numerosos casos, poder-se-ia ao mesmo tempo adiantar que o caráter desses mesmos sonhos consiste numa tendência oposta, a de mostrar uma labilidade 1 sui generis; labilidade que difere, entretanto grandemente da dos sonhos comuns, já que, de um lado, o sonho premonitório é, principalmente, muito mais vivaz do que o sonho comum, embora o sensitivo conserve dele uma lembrança muito clara ao despertar, unida a um interesse inabitual através desse sonho (o que leva o sensitivo a contá-lo, ou dele tomar nota), mas que, por outro lado, esse mesmo sonho, ainda que lembrado, repetido, comentado, escrito (todas as circunstâncias que deveriam fixá-lo nos centros mnemônicos),2 está quase sempre sujeito a uma rápida e total obliteração; este, por sua vez, será efêmero e transitório, pois no momento em que se realizarão os incidentes vistos em sonho, a lembrança do sonho surgirá como um relâmpago no espírito do sensitivo com toda sua vivacidade primeira. Seria fácil, nesses processos, reconstruir analogias com os casos de sugestão pós-hipnótica, todavia a sugestão pós-hipnótica pressupõe um “agente sugestionador”, e seríamos induzidos por isso a supor também nos sonhos premonitórios, caso em que seria inútil pesquisar fiando-se em analogias dessa natureza, que poderão, um dia, facilitar as pesquisas para estabelecer através de que vias cerebrais as premonições se exteriorizam, mas nunca se prestarão para resolver a questão árdua de sua gênese.

Os traços característicos citados, ainda que notáveis, especialmente nos sonhos premonitórios, observam-se mais ou menos em toda a fenomenologia que examinamos, sobretudo na que reveste uma forma alucinatória auditiva, e na qual encontram-se, freqüentemente, casos que se repetem, e outros que apresentam as fases habituais de “labilidade” combinada com a “revivescência”. Excetuam-se em cada categoria os casos em que o sensitivo ao invés de desempenhar um papel preponderante ou secundário no acontecimento previsto, serve de instrumento de consulta, como no caso dos “sonâmbulos clarividentes” e de todos os outros gêneros de pitonisas antigas e modernas. Essa forma indireta e provocada de premonições é extremamente interessante, pois concorre para reforçar uma teoria que se apresenta fundamental nessa espécie de manifestações, segundo a qual seria vão pesquisar numa forma unitária a explicação da fenomenologia premonitória, que apontaria, ao contrário, sua origem de causas múltiplas, ora subconscientes, ora exteriores, sempre supranormais.

Um terceiro caráter dos fenômenos premonitórios concerne à “noção do tempo”; essa noção pareceria um elemento impossível de traduzir em nossos termos humanos, do “plano supranormal” ao plano “mental”; por conseguinte, as datas dos fenômenos premonitórios perduram quase sempre imprecisas, e o vidente no sonambulismo, ou um outro em seu lugar, julga aproximadamente o tempo de diferentes maneiras, mas com mais freqüência, de acordo com a distância na qual se apresenta na sua visão interior o quadro dos acontecimentos futuros; se é muito próximo, ele concluirá que o acontecimento deve se produzir em breve, e nesse caso o hábito poderá permitir-lhe precisar até o dia e a hora; se, ao contrário, a visão é mais ou menos distante, apenas chegará a designar a semana, o mês, o ano em que deverá efetuar-se a profecia. Esta regra, entretanto, comporta numerosas exceções, por exemplo, quando o sensitivo visualiza uma data, e não outra coisa, que se pensará ser a data de sua própria morte, ou da morte de um familiar ou de um outro acontecimento memorável que se refere a ele ou ao seu consulente. De outras vezes o vidente se surpreenderá a confundir as coisas do passado com as coisas do futuro; quer dizer que entre os acontecimentos que ele atribui à existência de seu consulente encontrará algo que este último apontará como nunca lhe tendo acontecido e que, todavia, realizar-se-á em todos os menores detalhes numa época mais ou menos recuada. Como se vê, os modos de exteriorização dos fenômenos premonitórios são tão atrapalhados e tão complexos, que parecem contraditórios; e entretanto tudo concorre para provar que essa confusão depende do fato apontado mais acima: que esses fenômenos, ainda que pareçam ter uma origem comum, devem-se, em realidade, a causas múltiplas.

Observarei ainda uma quarta particularidade comum a um grande número de manifestações premonitórias, que consiste nisto: o sensitivo percebe ou registra, inteiramente ou em parte, os dados secundários que se referem a um acontecimento futuro e não percebe ou não registra os dados essenciais, de modo que ele se mantém sobre o acontecimento que o aguarda, prontamente instruído para entretê-lo, mas não para penetrá-lo, razão pela qual não chega a evitá-lo. Esta particularidade reveste uma importância teórica muito grande, como demonstraremos a seu tempo.

Sobre a base do que foi exposto até aqui, vejo elevar-se uma consideração à qual darei uma forma interrogativa: “Levando em consideração alguns dos traços característicos enumerados mais acima, não seria absolutamente lícito adiantar que ao menos para uma parte dos fenômenos premonitórios, um elemento intencional se manifesta com evidência? E isso sem prejulgar a questão tão árdua da gênese, subconsciente ou exterior, dessa intencionalidade?” A Sra. Sidgwick e outros psiquistas não consideram esta hipótese como suficientemente fundamentada, porque distingue-se nessa ordem fenômenos de numerosos episódios que, ainda que formando exemplos típicos de clarividência no futuro, consistem todavia na realização (às vezes maravilhosamente complexa) de pequenos fatos insignificantes e inúteis até o ponto em que não se pode compreender a razão de sua realização, estas circunstâncias tenderiam muito mais a apoiar a hipótese de que os fenômenos premonitórios emergem e se tornam conscientes pela força de um cego automatismo subconsciente desprovido de um objetivo qualquer...

Foi partindo desse raciocínio que a Sra. Sidgwick concluiu nestes termos:

“Não temos razões suficientes para supor que as premonições, se elas existem, consistem numa espécie de minúsculo milagre privado, tendo como objetivo ajudar-nos nos incidentes da nossa vida, espirituais ou temporais. Devemos considerá-los, ao contrário, como manifestações especiais de uma lei até o presente ignorada, ou então imperfeitamente conhecida.” (Proceedings of the Society for Psychical Research, vol. V, pág. 344.)

Prudentes e sábias reservas. Mas desde a época em que a Sra. Sidgwick as formulava (1888), o material bruto dos fatos continuou a se acumular e as pesquisas sobre este último multiplicaram-se; parece portanto que hoje seja permitido aventurar-se em alguma afirmação mais explícita.

Observarei, por outro lado, que a existência de episódios insignificantes e aparentemente vazios de objetivo não pode e não deve fazer esquecer uma multidão de outros casos em que a intencionalidade, e freqüentemente a utilidade, sobressaem com evidência e certeza; e como os fatos são os fatos e nada pode anulá-los, é preciso concluir que a intencionalidade e a utilidade são manifestas e provadas num certo número dentre eles; enfim, como esses últimos não representam a minoria, mas bem a maioria dos fenômenos premonitórios, segue-se que os casos vazios de objetivo deveriam ser considerados muito mais como exceções à regra (e resta ver se eles constituem exceções efetivas ou aparentes), das quais seria necessário estudar as causas, a fim de estabelecer possivelmente as relações que as religariam às outras, e tentar conciliá-las entre si.

Uma última observação: a análise que precede não seria completa se não terminasse por uma alusão à falsidade de muitas manifestações premonitórias, podendo revestir, indiferentemente, uma forma direta e espontânea, ou indireta e provocada. Sobretudo nos sonâmbulos clarividentes, ou nas pitonisas que profetizam (supondo, é claro, que uns e outras estejam de posse de poderes supranormais autênticos), acontecerá com freqüência que uma mesma pessoa, na mesma sessão, tenha a visão subjetiva de acontecimentos futuros que se realizarão nas menores minúcias com uma maravilhosa exatidão, e pouco a pouco descreve, com uma eficácia idêntica de linguagem, as visões cujo caráter completamente espectral aparecerá mais tarde; e tudo isso sem que seja possível, segundo seus modos de exteriorização, discernir as alucinações verídicas das errôneas.

O célebre sonâmbulo Alexis Didier, interrogado a esse respeito pelo Dr. Marcillet enquanto se encontrava em condição de lucidez sonambúlica, explicava as causas disso, através das seguintes palavras:

“Embora exausto pelas preocupações da véspera, o sistema nervoso do sonâmbulo conserva em si – por assim dizer – as tonalidades vibratórias e febris a todas as emoções que o agitaram; e os dissabores de sua vida adiantam-se, como pássaros de mau agouro, para estender a sombra negra de suas asas nas suas visões e impedi-lo de se manifestar com toda sua exatidão sua própria lucidez. Além do mais, se o estado de semi-enfermidade que o distingue, enfraquecendo os órgãos de seu corpo, predispõe-no à vidência, por outro lado engendra condições que, ao invés de ampliar a visão inferior da alma sobre o domínio invisível do tempo e do espaço, despertam, ao contrário, a corte ilusória dos sonhos... Os consulentes se comportam, às vezes, a meu ver, com uma zombaria irritante para meus nervos, a tal ponto, que tudo dança e vacila diante dos meus olhos e nada me é possível apreender distintamente. Outros, ao contrário, dão prova de boa vontade junto a uma confiança entusiasta, mas seus desejos são bastante ardentes para perturbar minha visão, diante da qual passam, com uma rapidez fulminante, aparições de formas imperceptíveis. Muito freqüentemente, o desejo de obter respostas conforme às suas aspirações é de tal maneira excessiva, que me influenciam, me impressionam, e o que vejo, então, é apenas uma transmissão de sensações e de pensamentos. Enfim, muitas vezes o sonâmbulo está maldisposto porque está em relação com naturezas pouco simpáticas, ou porque se encontra num meio de cépticos preocupados em não se deixarem convencer; nesse caso, os fenômenos de lucidez não podem se realizar... Observei, freqüentemente, que uma única junção de um espectador benevolente bastaria para reavivar na minha alma uma atividade extraordinária, conferindo-lhe a força de superar obstáculos que a faziam permanecer inerte. O sucesso das minhas sessões era devido, freqüentemente, à presença de uma mulher ou de um homem cujo fluido penetrava-me, irradiando uma luminosidade muito suave, que me iluminava subitamente como por milagre, dotando minha lucidez de uma extensão sobre-humana...” (Le Sommeil Magnétique Expliqué par le Somnambule Alexis Didier en État de Lucidité, pág. 27, Paris, Dentu Editor, 1856.)

É assim que Alexis Didier explicava os erros freqüentes de sua extraordinária lucidez. E é mais do que provável que as faltas dos sonâmbulos clarividentes provêm, efetivamente, de interferências dessa natureza; assim também para com os erros de numerosas manifestações premonitórias de forma direta e espontânea. Emoções e preocupações da véspera, condições de saúde e de ambiência, desejos mal reprimidos, aspirações secretas, esperanças, ansiedades e assim por diante: eis as causas que, nos sensitivos, escancarariam as portas às invasões psico-sensoriais que provêm da “camada onírica” da subconsciência.

* * *

Resta a considerar as principais hipóteses conhecidas até o presente para penetrar o mistério das manifestações premonitórias – o que farei, resumidamente, de maneira a permitir ao leitor orientar-se através da classificação dos casos, e de se pronunciar sobre a maior ou menor validade de alguns dos comentários dos quais faço acompanhar esses casos, tanto em favor de uma, quanto em favor de outra dessas hipóteses, com a intenção de preparar o terreno para a síntese final.

Para começar, falarei da antiga e muito freqüentemente citada concepção filosófica do Universo, para a qual o passado e o futuro constituiriam um eterno presente, que se segmentariam para nós, em virtude de um estado especial de nossa consciência, dando lugar à criação ilusória do tempo. Esta concepção metafísica, ainda que à primeira vista atraindo e seduzindo o pensador, não resiste a uma análise ponderada, se levamos em conta sua inconceptibilidade absoluta combinada com o amontoado de elementos antitéticos que a compõem.

Limitar-me-ei, portanto, a expô-la, com a ajuda das palavras eficazes de Myers, acrescentando que numa outra parte de sua obra ele não hesita em declará-la inconcebível. Eis suas palavras:

“As premonições em questão pouco ultrapassam a duração da vida individual dos sensitivos; limitemo-nos, portanto, a esta curta medida e imaginemos por um momento que a totalidade de uma existência terrestre mostra-se, na realidade, apenas um fenômeno absolutamente instantâneo, se bem que infinitamente complexo. Imaginemos ainda que o eu transcendental discerne com uma igual facilidade e instantaneidade cada elemento desse fenômeno, enquanto que o eu empírico recebe cada elemento através de um meio que determina fases de atraso variadas, da mesma forma que percebo primeiramente a claridade do relâmpago, depois o ronco do trovão. Nesse caso, os 70 anos de vida colocados entre a percepção do meu nascimento e o da minha morte não poderiam me ser desvendados com a rapidez dos sete segundos colocados entre a visão do relâmpago e a audição do trovão? E não poderiam existir na consciência condições de intercomunicação em virtude das quais o eu mais vasto participaria ao eu mais reduzido, ou então o eu interior ao eu exterior, um aviso como este: “Percebi a luz de um acontecimento que o espera a tal hora; prepare-se para o ronco do trovão”?” (Myers, Human Personality, vol. II., pág. 273.)

Assim é a explicação feliz e pitoresca de Myers; mas não se pode deixar de observar que, “se na realidade, a vida consistisse num fenômeno absolutamente instantâneo”, chegar-se-ia a isto: que a coexistência, no mundo físico, da totalidade dos atos de cada indivíduo em particular, não podendo ser separada da existência correspondente a todos os estados de consciência, referindo-se a cada um desses atos, resultaria que o eu transcendental, de qualquer criança nos seus cueiros, passaria, instantaneamente, através de todos os estados de consciência que correspondem a todas as fases de sua vida! Nesse caso, como conceber a luta pela existência? O progresso humano? A responsabilidade moral e o aperfeiçoamento espiritual do indivíduo, frutos penosamente recolhidos da árvore da experiência humana, conquistada, ela também, ao preço de tantas dores? E depois, como conceber um grupo de acontecimentos absolutamente instantâneos, que, ao mesmo tempo, atrasam? O primeiro dado contradiz o segundo: um abole o tempo, o outro o subentende. É sério, é útil basear-se em especulações desse gênero? É melhor não ultrapassar os limites da indução fundamentada nos fatos, renunciando aos arrebatamentos vertiginosos da metafísica pura, com a ajuda da qual nenhuma obra de ciência jamais se edifica, porque o impensável não pode fornecer a explicação de nada, mas somente alguma vaga ilusão de explicação. No nosso caso, nem Tempo nem Espaço podem ser suprimidos, e se existe um Além, devemos conceber a outra vida como um estado em que deixarão de existir não o Tempo, mas apenas a noção do Tempo; não o Espaço, mas apenas o sentido do Espaço. Ver-se-á, pela seqüência, que existem fatos capazes de excluir inexoravelmente esta hipótese do número daquelas aplicáveis aos fenômenos premonitórios. (Ver comentários do caso 110.)

Esta mesma hipótese só pode se tornar concebível na condição de ser corrigida radicalmente, como a apresenta o Prof. Oliver Lodge neste parágrafo:

“Limitar-me-ei a observar, de uma maneira geral, que a vaga hipótese de uma Anima mundi,3 de uma Inteligência imanente, da qual a humanidade inteira seria apenas um microscópico fragmento, assim como o eu consciente é considerado por alguns como um puro fragmento de um eu mais vasto; de uma Inteligência infinita, para a qual o Espaço e o Tempo não constituiriam as intransponíveis barreiras que nos parecem; de uma Inteligência através da qual o passado, o presente e o futuro não seriam, na realidade, um todo, mas seriam perceptíveis à vontade, ora como simultaneidade, ora como consecutibilidade, e a qual nenhuma translação seria necessária para passar de um lugar a outro, devo convir que uma vaga hipótese dessa natureza – que é, aliás, uma noção familiar aos filósofos – impõe-se freqüentemente à minha visão mental quando me detenho sobre os problemas desse grande e maravilhoso universo.” (Proceedings of the S.P.R., vol. XVII, págs. 54 e 55.)

Como se vê neste belo parágrafo de Lodge, a hipótese em questão apresenta-se radicalmente modificada, pois não se trata mais de coexistência do passado e do futuro no presente, mas sim de uma inteligência infinita capaz de concebê-los, indiferentemente, como coexistência ou como consecutibilidade; e isso pode ser concebível tanto filosoficamente quanto cientificamente.

Com efeito, o grande Laplace já havia expressado nesses termos um conceito análogo:

“Uma inteligência que conhecesse todas as forças das quais a natureza é animada e a situação respectiva dos seres que a compõem; se entretanto ela fosse bastante vasta para submeter esses dados à análise, abarcaria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do Universo e os do mais ligeiro átomo; nada seria incerto para ela e o tanto futuro como o passado seriam, aos seus olhos, presente...” (Laplace, Essai Analytique sur les Probabilités, 1814, pág. 3.)

Apesar de tudo, as considerações de Lodge e de Laplace não servem para explicar os fenômenos premonitórios, pois finalmente, seus autores devem conferir os poderes infinitos dos quais falam a uma inteligência igualmente infinita, o que quer dizer, a Deus.

Decorre daí que, para adotar essas considerações ao assunto do qual nos ocupamos, seria necessário atribuir à “consciência subliminal” os poderes conferidos à onisciência divina, e isso, num sentido literal, pareceria antifilosófico e absurdo. Todavia, poder-se-ia admiti-la em certos limites, no caso em que consideraríamos a alma como uma emanação divina e considerando tantas outras faculdades supranormais cuja subconsciência se mostra efetivamente dotada. Poderíamos, portanto, legitimamente, atribuir a esta uma capacidade muito grande de extensão supranormal das faculdades de inferência normalmente possuídas pela inteligência humana; não suficientemente grande, entretanto, para poder explicar toda a fenomenologia premonitória, se não se quiser atribuir às faculdades subconscientes a onisciência divina. É preciso, todavia, levar em consideração essa terceira hipótese.

Se se quisesse explicar a maior parte, sem colocar de lado os poderes da subconsciência, seria necessário recorrer a duas outras hipóteses complementares, das quais uma, que chamaremos de a quarta, velha como a humanidade, se apresenta irresistivelmente ao pensamento quando se pega a estudar a significação de certas profecias; quero falar da hipótese de uma fatalidade que domina os destinos humanos, para a qual os acontecimentos principais de toda a existência singular seriam preordenados e existiriam de certa maneira registrados num ambiente “metaetérico” acessível às faculdades subconscientes (o inconsciente universal de Hartmann, plano astral dos teósofos); nesse caso, o sensitivo os distinguiria por um fenômeno de “pôr-se em relação” combinado ao da clarividência telepática; o que os tornaria inteligíveis, sem que se seja obrigado a conferir a onisciência divina à subconsciência humana.

Todavia, a existência de uma fatalidade implicaria na negação do livre-arbítrio, diminuindo o homem às proporções de um autômato irresponsável. Não é o momento de examinar até que ponto os fatos autorizam a concluir em favor da fatalidade e até que ponto o fatalismo é inconciliável com a liberdade humana. Contentar-me-ia aqui, para não desviar do meu tema, em dizer que para remediar a essa objeção contra o fatalismo, recorremos a outra hipótese, a quinta, também velha como a humanidade, segundo a qual a existência terrestre representaria apenas uma anel de uma corrente indefinida de “vidas sucessivas”; nesse caso, o “espírito”, no momento de reencarnar-se, estabeleceria, ele próprio, com antecedência – num objetivo de expiação, de prova, de aperfeiçoamento espiritual – os acontecimentos principais aos quais deveria estar submetido na nova existência encarnada; acontecimentos que se apagariam de sua memória fisiológica, com a entrada na vida, mas que permaneceriam gravados na sua subconsciência, de onde emergiriam a seu tempo e se realizariam por força de um procedimento análogo àquele pelo qual exteriorizaram-se as sugestões pós-hipnóticas. Admitindo isso, compreender-se-ia que o vidente tenha, às vezes, a possibilidade de encontrá-los telepaticamente nos recônditos de sua própria subconsciência ou na de outrem; ao mesmo tempo, os mesmos acontecimentos que apareciam antes como obra de uma fatalidade cega se transformariam em atos livremente desejados.

E se não quisermos chegar até à teoria reencarnacionista, conviria pelo menos supor uma “existência espiritual pré-natal”, dando lugar a uma sexta hipótese, na qual Myers pensava talvez, ditando as seguintes considerações:

“No caso relatado, o curso da nossa vida seria comparável à experiência de um indivíduo hipnótico que executa, involuntariamente, no período da véspera o ato que lhe foi sugerido na hipnose. Deveremos então nos perguntar se, por acaso, não houve, na nossa própria história, uma época em que se efetuou em nós uma auto-sugestão capaz de dominar de uma maneira análoga nossa carreira terrestre. Ora, se podemos afirmar que sendo nosso organismo complexo o coroamento final de uma longa evolução histórica, restrita aos limites reduzidos das nossas supostas ações voluntárias, poderíamos crer com uma igual verossimilhança que se existisse uma alma independente do corpo, esta, na sua qualidade de resultado de uma longa evolução histórica (pois uma entidade tão altamente especializada como a alma humana deve ter tido uma precedente evolução histórica) apenas poderia exercer, a seu turno, senão uma influência determinante, mais profunda ainda do que a orgânica, sobre os pensamentos e as ações da existência encarnada. Em suma, poderia se dar que haja uma espécie de “personalidade alternante”, que se manifestaria primeiro em condições de incorporeidade, e depois, de corporeidade; de maneira que a primeira seria a mais profunda e permanente, e que as sugestões originadas nela influenciariam a segunda, embora a consciência empírica que governa a existência encarnada não tenha vindo ao conhecimento. Esta condição não é nova para as religiões e para as filosofias orientais e ocidentais; há muito tempo foi lançada a idéia de que nossa existência terrestre deve ser a resultante inevitável de nossa eternidade passada; uma espécie de peregrinação predestinada que a alma real contemplaria, com uma calma inalterável, porque nenhuma das efêmeras dores terrestres poderia encontrá-la recalcitrante, ou surpreendê-la sem preparação. A alma preexistente e presciente, uma vez ligada indissoluvelmente a um corpo – predeterminado, de uma certa forma, através de uma longa evolução histórica – ambos procederiam de acordo com o que pudessem; mas ao mesmo tempo o problema da liberdade e da necessidade deixaria de se mostrar resolúvel, segundo a experiência terrestre, e pertenceria às sublimes regiões pré-natais onde estariam encerrados os segredos do mundo transcendental.” (Myers, Human Personality, vol. II, págs. 271 e 272.)

Assim fala Myers; que não somente o problema da liberdade e da necessidade parece inevitável, segundo a experiência terrestre, mas ainda as hipóteses supranormais das “vidas sucessivas” ou da “existência pré-natal” não chegariam também a eliminar inteiramente a idéia fatalista, tal como ela emerge da análise dos fenômenos premonitórios, se se leva em conta a existência de certas profecias que ultrapassavam em boa medida os limites de cada existência singular e se estenderiam até os destinos dos povos. Mas nós abordaremos esta questão a seu tempo.

Para retornar às dificuldades que surgem sobre o tema das premonições, devo tocar nesta outra: nem a hipótese reencarnacionista ou pré-natal nem a fatalista conseguiriam explicar os casos de uma ordem insignificante ou banal, pois não parece que esses possam ter sido preordenados, num objetivo de aperfeiçoamento moral do espírito, no momento de encarnar-se ou de se reencarnar; e devem ser considerados tanto menos como efeito de uma fatalidade inexorável, já que resultam de uma futilidade e uma inutilidade completas, moralmente, como materialmente. Para evitar esta nova dificuldade, vemos aparecer uma sétima hipótese, que parece também a única fundada sobre dados indiscutíveis, e consistiria nisso: que as premonições da ordem indicada deveriam ser consideradas como manifestações particulares, cuja responsabilidade competiria às personalidades subconscientes ou exteriores (não me pronuncio, que se note bem, sobre a verdadeira essência dessas personalidades), que primeiramente transmitiriam telepaticamente ao sensitivo, sob forma de visão onírica ou de outra forma, uma dada situação futura, na qual ele ou outros deveriam se encontrar, e utilizar em seguida para provocar sua realização, em virtude de uma sugestão exercida telepaticamente sobre o sensitivo ou os outros interessados; e isso com o fim de impressionar as almas (é o que afirmam as personalidades em questão), de sacudir o cepticismo dos homens, de infundir neles a idéia de um mistério na vida, levando-os a meditar na possibilidade da existência de uma alma sobrevivente à morte do corpo. Ao mesmo tempo, sua ação seria quase limitada aos fatos insignificantes, pois não lhes seria possível, salvo circunstâncias especiais, sugerir telepaticamente, ou determinar de uma outra maneira qualquer, os homens a executar ações de alguma importância.

Por mais audacioso que possa parecer, de um lado, o fato de recorrer a semelhante hipótese, e por mais raros que sejam os casos premonitórios de onde pode surgir a prova de uma maneira evidente, por outro lado existem fatos que provam que as personalidades mediúnicas (subconscientes ou exteriores, pouco importa) chegam, em certas circunstâncias, a influir efetivamente no curso das ações humanas; é claro, não de uma maneira normal e geral, mas apenas nos casos em que podem dispor de sensitivos suscetíveis de ser submetidos às influências telepáticas ou mediúnicas; e alguns episódios, que fazendo parte das sessões com a Sra. Piper e outros médiuns, testemunham, também, sobre o que adianto, como o demonstraremos quando chegar o momento.

O próprio professor Oliver Lodge, a respeito de um episódio das experiências da Sra. Verrall, concluiu, pela análise dos fatos, que nos casos de natureza semelhante, a inteligência subconsciente ou exterior que transmite a mensagem premonitória deve ser o agente que provoca a realização mediando uma sugestão telepática exercida sobre as pessoas interessadas. (Lodge, The Survival of Man, pág. 160.)

Da hipótese exposta decorre uma outra, que chamaremos de oitava e última, e que se refere aos episódios que assumem um objetivo e uma importância reais. Consiste em supor que os acontecimentos futuros, devidos a causas acidentais imprevisíveis, não seriam nem preordenados, nem suscetíveis de ser percebidos pelas faculdades subconscientes, mas se tornariam acessíveis unicamente às entidades espirituais elevadas, às quais seria dado deduzi-los do presente e que transmitiriam algumas vezes telepaticamente aos vivos, servindo-se para isso de “espíritos” recentemente desencarnados e ligados afetivamente aos sensitivos ou aos consulentes. Esta hipótese é sugerida pelos modos de exteriorização de alguns dentre os melhores episódios, mas não se prestaria para explicar outros incidentes; mas isto não é uma razão suficiente para excluí-la do número das hipóteses legítimas; de maneira que poderia ser acolhida, na condição de compará-la pela precedente, que supõe a intervenção direta de entidades subconscientes ou exteriores na realização de mensagens premonitórias de ordem insignificante, porém imprevisíveis, sem esquecer a que atribui às faculdades inconscientes a capacidade de inferir ou de perceber a seu turno um grupo limitado de acontecimentos futuros. Myers sintetiza nestes termos suas próprias idéias sobre o argumento:

“Se existe um mundo transcendental, deve existir também uma visualização do passado e do futuro de extensão muito maior que a empírica; e nós mesmos deveremos participar desta forma de visualização em certos limites, seja diretamente, na nossa qualidade de residentes, desde agora, do mundo transcendental, ou indiretamente, recebendo intuições ou mensagens de entidades espirituais liberadas de um organismo que amesquinha a atividade do espírito... Entretanto, é muito difícil estabelecer de que maneira participamos disso, e as dificuldades que se apresentam são as mesmas que surgem todas as vezes que tentamos distinguir a atividade do espírito, ou do autômato, da que podemos supor em outros espíritos “encarnados ou desencarnados”, ou, talvez também, de uma Anima mundi ou de outras inteligências finitas, mas isentas de qualquer personificação antropomórfica... Creio que a Continuidade do Universo é completa e que por lá a hierarquia das inteligências que se interpõem entre nosso espírito e uma Anima mundi é infinita.” (Myers, Human Personality, vol. II, pp. 263-265.)

* * *

Tais são as principais hipóteses até hoje propostas para a explicação dos fatos premonitórios; sua análise faz realçar de maneira peremptória a justeza da observação de Dale Owen: que em metafísica a experiência ensina como os fenômenos aparentemente idênticos têm freqüentemente sua origem em causas múltiplas. Com efeito, pelas modalidades com as quais eles se exteriorizam, tudo concorre para provar que os fenômenos premonitórios têm como origem causas diversas e que há igualmente entre eles grupos de casos não premonitórios, no verdadeiro sentido da palavra, embora uns e outros constituam um conjunto homogêneo de fatos que poder-se-ia, de um certo ponto de vista, separar uns dos outros, pois parecem encadear-se e completar-se mutuamente: circunstância que confere unidade à fenomenologia. Constataríamos, portanto, que as hipóteses enumeradas mais acima (excluindo a primeira, porque impensável e contradita pelos fatos, e contando com as hipóteses “reencarnacionista” e “pré-natal” como uma única) formam um todo solidário e harmônico, que se diria destinado a triunfar ou a falir integralmente, visto que nenhuma das hipóteses em questão poderia, sozinha, explicar a complexidade dos fatos; que a exclusão de uma qualquer dentre elas comprometeria a estabilidade da série inteira e que não se chegaria a resolver de maneira satisfatória todas as mais árduas perplexidades teóricas, senão na condição de guardá-las todas presentes e utilizá-las todas alternadamente.

Não é aqui o caso de insistir ainda nesse assunto, já que reservo-me para aí retornar quando minha classificação estiver terminada. Exorto, todavia, aqueles dentre meus leitores, aos quais algumas de minhas considerações podem parecer gratuitas ou muito audaciosas, para suspender até então seu julgamento.

* * *

E agora, algumas palavras de esclarecimento a propósito dos critérios que me guiaram na presente obra.

Não existe, que eu saiba, outras classificações desse gênero, a não ser a da Sra. Sidgwick (Proceedings, vol. V), e de Myers (Proceedings, vol. XI), a primeira constituída de uns 40 casos, a segunda de mais ou menos 70. E como encerram casos melhor estudados e os mais autênticos que se conhece, tive que recorrer forçosamente a elas com freqüência, para reafirmar as bases científicas de minha classificação, que conterá, entretanto, na grande maioria, casos novos e igualmente bem demonstrados.

A fim de apresentar teoricamente os fatos sob um novo aspecto, adotava um método de classificação que me é próprio e radicalmente oposto aos escolhidos pela Sra. Sidgwick e por Myers; a primeira tendo classificado os fatos segundo sua modalidade subjetiva de exteriorização; a segunda conforme o encadeamento ascensional dos fatos segundo sua importância teórica; e o abaixo-assinado, classificando-os do ponto de vista de sua significação objetiva como fatos; dessa maneira, os pesquisadores terão a possibilidade de estudar os fenômenos premonitórios considerando-os sob três aspectos diversos; e isto os ajudará enormemente na descoberta das causas presumíveis dos fenômenos dos quais nos ocupamos.

O amontoado de material recolhido foi tal, que fui obrigado a fazer seleções repetidas, com o único objetivo de reduzir minha obra a proporções publicáveis. Os casos acumulados atingiam a cifra de um milhão, e os reduzi à força a 160, embora esse número seja ainda elevado demais para uma monografia.

Tive o cuidado, na minha classificação, de excluir um grande número de episódios que, sob uma aparência de ordem premonitória e achando-se considerados como tais pelos outros, eram, ao contrário, com mais verossimilhança elucidáveis através do recurso de outras hipóteses; é o que aconteceu em muitos casos de autopremonições de doenças ou de morte (auto-sugestão presumível); ou quando um sensitivo tem a percepção antecipada da chegada de uma pessoa (telepatia), ou a chegada de uma carta (telepatia ou criptestesia); ou quando ele tem em sonho a percepção exata do lugar onde encontrará um objeto perdido, ou uma planta rara, ou um inseto, procurados em vão (hipermnésia, criptestesia, criptomnésia); ou quando tem em sonho a visualização de uma localidade desconhecida que ele visitará efetivamente no dia seguinte (lucidez, paramnésia).



Não quer dizer que cada uma das categorias supraditas podem encerrar episódios assinalados por particularidades que as tornam autenticamente premonitórios, e chegarei a assinalar um bom número na categoria complexa e importante das autopremonições de doenças e de morte; porém não terei nada ou quase nada a observar para as outras. Está, portanto, entendido que, salvo circunstâncias especiais, essas categorias particulares de fenômenos não devem ser consideradas como de ordem premonitória. Termino, afinal, reproduzindo para maior clareza, o esquema de classificação escolhido.


Primeira categoria

Autopremonições de doença ou de morte

Subgrupo A

Autopremonições de doença.

Subgrupo B

Autopremonições de morte a curto prazo, e em que a morte se deve a causas naturais.

Subgrupo C

Autopremonições de morte a longo prazo, e em que a morte se deve a causas naturais.

Subgrupo D

Autopremonições de morte, e em que a morte se deve a causas acidentais.

Segunda categoria

Premonições de doenças ou de mortes

que se referem a terceiros

Subgrupo E

Premonições de doenças de terceiros.

Subgrupo F

Premonições da morte de terceiros a curto prazo, e em que a morte se deve a causas naturais.

Subgrupo G

Premonições da morte de terceiros a longo prazo, e em que a morte se deve a causas naturais.

Subgrupo H

Premonições da morte de terceiros a curto prazo, e em que a morte se deve a causas acidentais.

Subgrupo I

Premonições da morte de terceiros a longo prazo, e em que a morte se deve a causas acidentais.

Subgrupo J

Premonições de morte produzindo-se tradicionalmente numa mesma família.

Terceira categoria

Premonições de acontecimentos diversos

Subgrupo K

Premonições de acontecimentos importantes que não implicam em morte.

Subgrupo L

Premonições de incidentes insignificantes e praticamente inúteis.

Subgrupo M

Premonições meteorológicas e sísmicas.

Subgrupo N

Premonições que salvam.

Subgrupo O

Premonições que determinam o acidente possível.






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