EntoaçÃo e domínios prosódicos



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Capítulo 2



2. Entoação e domínios prosódicos




A relação entre entoação e domínios prosódicos, definidos segundo a abordagem da Fonologia Prosódica, é o tema deste capítulo. Conforme a abordagem que assumimos neste trabalho, a entoação é tomada como um dos meios pelos quais a hierarquia prosódica se manifesta. Em PB, são encontradas, segundo Frota & Vigário (1999), evidências entoacionais da relevância do domínio da frase fonológica. Esse fato, ainda segundo as mesmas autoras, não ocorre em PE, que tem a frase entoacional como domínio prosódico relevante.

Neste capítulo, o propósito é verificar se existem evidências entoacionais a favor dos dois domínios mais altos da hierarquia prosódica, isto é, a frase entoacional (I) e o enunciado fonológico (U). Nosso olhar busca evidências desses domínios em PB, tendo por base duas noções fundamentais da teoria entoacional adotada, que foram resumidas por Frota (1998: 199) nos seguintes termos: “(i) intonation has a phonological organization; (ii) intonational features relate with independent features of the phonological organization of speech, which are established on the basis of (some sort of) prosodic strutucture”. Essa fundamentação nos permite não apenas relacionar entoação e estrutura prosódica no PB, como também comparar a organização entoacional do PB com a de PE com vistas a identificar em que difere a prosódia dessas duas variedades do Português.

Ainda segundo a teoria autossegmental e métrica da entoação, os contornos melódicos são representados fonologicamente como seqüências discretas de eventos tonais (cf. seção 1.1, capítulo1). Esses eventos são basicamente de dois tipos: acentos tonais (pitch accents) e tons de fronteira (edge tones). A distinção entre esses dois tipos de eventos tonais implica reconhecer que algumas partes do contorno melódico são as mais proeminentes e, por isso, são denominadas de ‘cabeças’ (pitch accents); e outras partes caracterizam os limites entre os contornos melódicos e são, por isso, chamadas de ‘fronteiras’ (edge tones). Essas partes importantes se caracterizam por carregarem os acentos tonais os quais podem ser definidos “as a local feature of a pitch contour – usually but not invariably a pitch change, and often involving a local maximum or minimum – which signals that the syllable with which it is associated is prominent in the utterance” (Ladd, 1996: 45-46). Em outras palavras, à distinção entre acentos tonais e tons de fronteira está relacionada a concepção de estrutura prosódica, sendo que os acentos tonais são estabelecidos com base nas relações de proeminência dentro dos domínios prosódicos e os tons de fronteira, com base justamente nas fronteiras que delimitam esses domínios.

Como afirma Frota (1998: 200), trata-se de uma questão empírica saber se a hierarquia prosódica proposta pela Fonologia Prosódica, cuja motivação é baseada em processos segmentais, é a estrutura relevante para a definição de como se dá a associação dos eventos tonais à cadeia segmental. Dos trabalhos realizados para as diferentes línguas, ainda não se obteve consenso sobre essa questão. Em Bengali, por exemplo, Hayes & Lahiri (1991) argumentam que a associação dos contornos melódicos à cadeia segmental é pautada pela estrutura prosódica do mesmo modo que o são as regras de assimilação de vozeamento e de r-association. Em Hebreu Tiberiano, Dresser (1994) estabelece relação entre os domínios para aplicação de regras e para a associação dos contornos melódicos, mas não verifica que haja uma relação direta. Em Inglês, as várias pesquisas apontam para interpretações diferentes. Gussenhoven & Rietveld (1992) argumentam que o contorno entoacional não pode ser consistentemente identificado com um constituinte prosódico em particular e, embora seja determinado pela estrutura prosódica, o contorno entoacional não é parte dela. Ladd inicialmente propõe que o contorno entoacional não é diretamente relacionado a um domínio prosódico, mas depois reinterpreta os resultados e estabelece a relação entre estrutura prosódica e estrutura entoacional ao introduzir a noção de domínios prosódicos compostos (Ladd, 1992, 1996).

Nosso objetivo neste capítulo, é justamente examinar como se dá a associação dos eventos tonais à cadeia segmental, de modo a encontrar evidências no PB que possam contribuir para a compreensão de qual seja a estrutura prosódica relevante para os contornos entoacionais. Antes de tratarmos dos dados considerados nesta dissertação para alcançarmos esse objetivo, discutimos a seguir como as diferentes propostas de hierarquia prosódica concebem os domínios I e U.

A motivação para a distinção entre os domínios I e U é encontrada em Nespor & Vogel (1986). Em Selkirk (1980) são discutidas evidências a favor do domínio U com base em dados do Sânscrito, mas em Selkirk (1984: 420) há apenas uma nota em que a autora justifica a exclusão desse domínio da sua proposta de hierarquia prosódica: ‘we believe there is little motivation for it, and because it engenders little debate’ (cf. nota 33 do capítulo 1). Selkirk (1984) trabalha somente com cinco domínios prosódicos, a saber: frase entoacional, frase fonológica, palavra prosódica, pé e sílaba (cf. Selkirk, 1984: 26). A frase entoacional é motivada pela necessidade de definir o contorno entoacional em relação a uma unidade de representação que seja, ao mesmo tempo, maior do que uma palavra e variável em extensão. A natureza desse domínio difere dos demais por ser essencialmente semântica, na visão da pesquisadora. A estrutura sintática da sentença não determina a organização dos contornos entoacionais de modo que a relação entre estrutura sintática e estrutura entoacional é tal que pode ser vista como sendo de um-para-muitos mapeamentos.

Voltando aos dados do Sânscrito discutidos por Selkirk (1980), Nespor & Vogel (1986) afirmam a pertinência de postular o domínio U, além do domínio I, na hierarquia prosódica e listam várias regras de diferentes línguas que têm U como domínio de aplicação, como o flapping no Inglês Americano, o r-insertion no Inglês Britânico e a assimilação do vozeamento no Espanhol Mexicano. Em PE, Frota (1998) encontra evidências segmentais e entoacionais para a relevância de I, mais especificamente para Imax, um domínio prosódico composto. Neste capítulo, buscamos identificar evidências entoacionais a favor da relevância de um domínio acima da frase fonológica em PB e, em caso afirmativo, queremos verificar se é um domínio composto como em PE. Esclarecer qual é a estrutura prosódica relevante para os contornos entoacionais é o nosso objetivo.

Para alcançar os objetivos deste capítulo, restringimos a pesquisa a apenas enunciados declarativos neutros. Na seção 2.1, apresentamos os resultados de um experimento realizado para identificar as características entoacionais de enunciados declarativos neutros. Em seguida, em 2.2, servindo-nos de experimentos em que as fronteiras prosódicas relevantes são controladas, buscamos verificar como se dá a relação entre os contornos melódicos e a estrutura prosódica. Após a discussão dos resultados obtidos, na seção 2.3, passamos a comparar as características entoacionais das duas variedades do Português.



2.1. A entoação declarativa neutra em PB

2.1.1. O experimento

Para investigar as características do contorno entoacional do PB, foi construído um corpus de sentenças declarativas, tendo sob controle o número de sílabas pretônicas em posição inicial de frase entoacional1. O controle dessa variável toma por base a afirmação feita por Frota & Vigário (1999), a partir de uma descrição de um pequeno conjunto de dados do PB, de que a presença antes da sílaba tônica de um evento tonal está relacionada ao número de sílabas pretônicas da palavra inicial de . Até duas sílabas antes da sílaba acentuada, ocorre um evento tonal H associado à sílaba tônica, como ilustrado em (1.1)2. Acima de três sílabas antes da acentuada, ocorre um evento tonal adicional H numa distância de duas sílabas à esquerda da sílaba tônica da palavra e a esta se encontra associado um tom complexo LH, como ilustrado em (1.2)

(1) Esquema A Esquema B

1. professor 2. governador

| | |

H H LH


Nota-se que esse tom adicional H ocorre apenas quando guardada a distância de duas sílabas antes da sílaba portadora do acento primário e a sílaba pretônica a que pode se associar é passível de receber acento secundário.

As investigadoras portuguesas não especificam, porém, se estão levando em conta o domínio da palavra morfológica (w) ou da palavra fonológica ().3 Considerando-se tal distinção necessária para uma adequada descrição da distribuição dos eventos tonais, foi elaborado um conjunto de sentenças para as quais a variável controlada foi a presença versus a ausência do artigo antes da palavra morfológica em posição de início de I. Nessa posição inicial é possível controlar o número de sílabas pretônicas que ocorrem, uma vez que também foram evitados contextos segmentais em que algum tipo de processo fonológico pudesse levar à queda ou redução do número de sílabas (como por exemplo, a elisão, degeminação ou ditongação). Assim, as sentenças têm uma a quatro sílabas átonas no início absoluto de I, sendo que ora a primeira sílaba átona pertence à palavra morfológica, como ilustra (2.i); ora a primeira sílaba átona é um artigo e constitui, junto com a palavra morfológica que se segue, uma palavra fonológica, como ilustra (2.ii).4

(2) 1.i. [ [ [Batata]] [combina] ] [com peixe.] ]] I

1.ii. [ [ [A casa] ] [ficou] ] [bonita.] ]]I

2.i. [ [ [Camelôs] ] [atacaram] ] [policiais] ]] I

2.ii. [ [ [O menino] ] [gostou] ] [do presente] ]]I

3.i. [ [ [Comerciantes] ] [elegeram] ] [seus representantes] ]]I

3.ii. [ [ [O vendedor] ] [chegou] ] [atrasado] ]]I

4.i. [ [ [Panificadores] ] [ganharam] ] [a disputa] ]]I

4.ii. [ [ [A pesquisadora] ] [terminou] ] [os trabalhos] ]]I


Todas as oito sentenças são do tipo SVO e formam uma única I, sendo constituída por três s não-ramificados5. Desse modo, cada  é formado por uma única palavra fonológica, como exemplificado abaixo. Para cada sentença, foram realizadas duas leituras por três informantes de mesma faixa etária, mesmo sexo, mesmo grau de escolaridade e mesmo dialeto. Desse modo, foi considerado um total de 48 realizações. O resultado obtido é apresentado na próxima seção.

(3) 1. [ [A casa]  [ficou]  [bonita]  ]I




2.1.2. Resultados e discussão

Nesta seção, damos início à descrição da entoação de um enunciado declarativo neutro em PB a partir da característica do acento tonal (pitch accent) que identifica essa entoação declarativa. Em todas as ocorrências, sem exceção, o acento principal da sentença recai sobre a última sílaba acentuada e a essa sílaba é associado um evento tonal HL*, como ilustra (4). Mais especificamente, verifica-se que o tom L é alinhado à sílaba tônica e o tom H, à sílaba imediatamente anterior, independentemente de essa sílaba pertencer ou não ao mesmo  ou à mesma palavra à qual está associado o tom L, como ilustram os exemplos em (4.2) e (4.3) e figuras correspondentes. Também se observa um tom de fronteira Li que deve ser interpretado como associado à fronteira direita do domínio I. Nota-se que esse tom de fronteira apenas não é encontrado nos contextos em que a última sílaba acentuada ocupa a posição final do domínio, como em (4.4). Esse fato deve ser visto como decorrente da ausência de material fônico para que esse evento de fronteira possa ser implementado. Cabe enfatizar, no entanto, que fonologicamente o tom Li sinaliza, juntamente como acento tonal HL*, o valor declarativo da sentença.





(4) 1. [ [ O menino]  [gostou]  [do presente]  ]I



LH* HL* H L* Li

2. [ [Batata]  [combina]  [com peixe] ]I



LH* L* H L* Li

3. [ [A casa]  [do Pedro]  [ficou]  [pronta] ]I



LH* L* H L* Li

4. [ [As alunas,] ]I [ [até onde sabemos,] ]I [ [aceitaram vir] ]I



LH* H* L* L* H L*



Figura 2.1. (a) F0 de (4.1) [O menino gostou do presente]I.


Figura 2.1. (b) F0 de (4.2) [Batata combina com peixe]I.


Figura 2.1. (c) F0 de (4.3) [A casa do Pedro ficou pronta]I.


Figura2.1. (d) F0 de (4.4) [As alunas,]I [até onde sabemos,]I [aceitaram vir]I.

Essa descrição da entoação declarativa neutra encontra respaldo nos trabalhos já realizados para o PB segundo outras abordagens teóricas. Nos trabalhos de Gebara (1976) e Cagliari (1981), que seguem o modelo descritivo de Halliday, o enunciado declarativo neutro se realiza com um tom descendente médio-baixo na sílaba tônica. Na abordagem de Fernandes (1976: 80), que considera tanto os níveis tonais quanto a direção da curva melódica, a declaração neutra é descrita como um movimento descendente final localizado na sílaba acentuada, atingindo sempre o nível mais baixo da pauta entoacional. Essa pesquisadora ainda observa que há “freqüentemente na pós-tônica final uma leve ascensão em relação ao nível mais baixo atingindo pela tônica”, mas não atribui nenhum valor lingüístico a esse fato (cf. nota 1 da p. 83 de Fernandes, 1976). Nos dados analisados também observamos o mesmo fato e o interpretamos como um tom de fronteira Li. Desse modo, a caracterização do enunciado neutro como HL* Li traduz a mesma afirmação encontrada nos trabalhos sobre a entoação do PB, acrescentando, porém, uma descrição de como os tons estão relacionados aos domínios de uma hierarquia prosódica.

Outro aspecto a ser descrito da entoação em PB diz respeito ao início da frase entoacional. Nesse momento da análise não estamos fazendo distinção entre I e U, uma vez que esses dois domínios são co-extensivos nas sentenças consideradas. A essa discussão retornamos na seção 4.3. Antes de apresentar os resultados encontrados para o início da frase entoacional, colocamos em questão a interpretação do evento tonal inicial. Frota & Vigário (1999) interpretam o evento tonal inicial do PB como sendo um H*. Basicamente, os movimentos de F0 que encontramos são foneticamente semelhantes ao que Frota & Vigário (1999) encontram em um conjunto de vinte sentenças do PB. Argumentamos, porém, que o tom LH* pode ser uma interpretação mais adequada para o evento tonal inicial em razão da estrutura entoacional do PB.

A distinção entre H* e LH* traz à tona o problema da representação dos tons acentuais a partir da realização fonética. O problema específico é definir quando interpretar o início de uma subida de F0 como um tom L que faz parte de um evento bitonal. Na proposta da fonologia métrica e autossegmental, um tom H* é um pico local alinhado com a sílaba acentuada e um tom LH* se caracteriza por movimento que se inicia na sílaba que precede a sílaba acentuada à qual está alinhado o pico de altura. No entanto, Ladd (1996: 84) afirma que ‘L+H* is basically like H*, that is, a local peak, but is rises from a much lower level. The difference between L+H* and H* is particularly clear if there is a preceding syllable to display the level of the leading L. On a phrase-inicial accented syllable, L+H* and H* can be difficult to distinguish’.

Uma solução a esse problema é dada por Anderson, Pierrehumbert & Liberman (1984), apud Ladd (1996: 84), ao proporem que um pequeno pico local seja interpretado como H* e que o tom LH* seja reservado para os casos em que há uma subida de F0 de um nível mais baixo. Essa solução está fundamentada em uma noção básica também para a teoria autossegmental e métrica, segundo a qual tons são identificados com os pontos em que ocorre um ponto de mudança no contorno de F0. Ladd (1996: 103), porém, põe em questão essa equação entre tom e mudança de F0 por ela limitar as possibilidades de interpretações fonológicas de um dado contorno, especialmente em línguas entoacionais, mas reconhece ser um problema ainda maior simplesmente abandonar essa relação. De qualquer forma, a interpretação do que constitui um tom deve ser feita com vistas a encontrar uma organização fonológica dos tons, pois essa é uma das principais asserções da proposta de Pierrehumbert (1980) que fundamenta a abordagem que seguimos. Ladd (1996: 108) chama a atenção para o fato de que uma vez identificado um tom a partir de um ponto de mudança de F0 (que consiste na interpretação do sinal fonético), o passo seguinte é decidir como um dado tom se encaixa na estrutura fonológica.

Um caminho a ser trilhado para interpretar como H* ou LH* os tons que ocorrem no início da frase entoacional passa pela consideração da organização dos tons na língua. Mostramos, a partir dos resultados da Tabela 2.1 abaixo, que é preferível a interpretação LH* para o tom de início de I. Também argumentamos que os dados analisados atestam a importância do número de sílabas pretônicas para a distribuição dos eventos tonais no início de I, mas não se verifica exatamente a mesma tendência observada por Frota & Vigário (1999).



Tabela 2.1. Ocorrências de eventos tonais em início de I

Nº de s







Nº de s







1

1. I [’

2. I [#’

3

5. I [’

6. I [#’




Batata

A casa




Comerciantes

O vendedor




LH*

LH*




LH*

LH*







L*










2

3. I [’

4. I [#’

4

7. I [’

8. I [#’




Camelôs

O menino




Panificadores

A pesquisadora




LH*

LH*




LH*

LH*













H LH*

H LH*

Para estruturas com até duas sílabas pretônicas, um evento tonal é alinhado à sílaba tônica da estrutura de modo categórico. Esse evento preferencialmente se realiza como LH*, como mostrado por meio da figura 2.1.c, podendo haver ocorrências de eventos simples como L*, como ilustra a figura 2.2. Ambas as ocorrências de eventos tonais se verificam para a mesma sentença em (5).





(5) [A casa do Pedro ficou pronta.] I



LH* L* H L* Li



L* LH* H L* Li


Figura 2.2. F0 de (5.ii) [A casa do Pedro ficou pronta]I

Nota-se que o evento tonal sempre tem como alvo a vogal da sílaba tônica que ocupa a posição inicial de I. Essa associação do evento tonal não se altera em função do número de sílabas pretônicas, mesmo quando essas sílabas são um elemento clítico que forma uma palavra fonológica, como se observa do contraste entre os exemplos ‘batata’ versus ‘a casa’ versus ‘o menino’ na tabela 2.1, para os quais é dado, a seguir, o esquema de associação do evento tonal à cadeia segmental: um tom H é alinhado ao núcleo da sílaba acentuada e é precedido por um tom L. Nota-se que há uma variação de F0 que sugere que o evento bitonal LH* está alinhado à sílaba acentuada (cf., por exemplo, nas figuras 2.1.a-d as realizações do tom LH). No entanto, nesse contexto considerado, verifica-se que também a sílaba imediatamente anterior à acentuada apresenta patamares de F0 mais baixos ou tão baixos quanto àquele observado no início do movimento ascendente de LH dentro da sílaba acentuada. Essa realização de F0 nos leva a preferir LH* a H* como um evento tonal de início de I.



Esquema de associação de evento tonal à cadeia segmental


V

C

V

C

V’

C

V



























H













L













O fato novo encontrado em relação ao trabalho de Frota & Vigário (1999) é que, para estruturas com até três sílabas pretônicas, não se observa uma outra configuração, mas a mesma se verifica: um evento tonal LH* alinhado à sílaba tônica da estrutura, como ilustra a figura 2.3.a, relativa ao exemplo em (6). Para estruturas com até quatro sílabas pretônicas, não é possível afirmar se há uma tendência à configuração H LH*. Em outras palavras, não foi atestada a tendência em ocorrer um evento tonal adicional H em estruturas com mais de duas sílabas pretônicas, como verificado inicialmente por Frota & Vigário (1999), mas sim em estruturas com quatro sílabas pretônicas. Nas estruturas em (5) e (6) da tabela 2.1 foram satisfeitas todas as condições previstas para ocorrer um evento tonal adicional, porém o evento H não ocorreu. Por outro lado, esse evento ocorre nas estruturas exemplificadas em (7) e (8). O contraste entre as estruturas em (5) e (8), da tabela 2.1, revela que o elemento clítico parece contribuir para a configuração entoacional na medida em que o evento tonal adicional H surge em (8) e não em (5) (cf. figuras 2.3.b-c, relativas aos exemplos em (6.2) e (6.3)), embora ‘comerciantes’ e ‘pesquisadora’ tenham um mesmo número de sílabas pretônicas.





(6) 1.[O vendedor chegou atrasado.]I



LH* L* HL* Li

2. [Comerciantes elegeram seus representantes.]I



LH* L* HL* Li

3. [A pesquisadora terminou os trabalhos.]I



H LH* L* HL* Li



Figura 2.3. (a) F0 de (6.1) [O vendedor chegou atrasado]I.

Figura 2.3. (b) F0 de (6.2) [Comerciantes elegeram seus representantes]I.


Figura 2.3. (c) F0 de (6.3) [A pesquisadora terminou os trabalhos]I.

Com base nos resultados da tabela 2.1, pode-se afirmar que para a ocorrência de um evento tonal adicional H em início de I são levadas em conta as sílabas átonas que formam uma palavra fonológica e, portanto, não é o número de sílabas pretônicas de uma palavra morfológica uma informação suficiente para a descrição da organização dos eventos tonais. No entanto, nas estruturas da tabela 2.1 a palavra fonológica é co-extensiva à frase fonológica que ocupa a posição inicial de I, ou seja, a sílaba portadora de evento tonal é simultaneamente a primeira sílaba acentuada de I, a sílaba mais proeminente do  em posição inicial e a sílaba tônica de . Portanto, falta verificar a que domínio prosódico o evento tonal inicial está associado.

Para encontrar a resposta, consideramos sentenças em que o  inicial é ramificado (por ser formado por duas s), como exemplifica (7.1.i), em que a primeira sílaba acentuada de I não é a sílaba mais proeminente dentro de , diferentemente do que ocorre em (7.2.i). As realizações encontradas mostram que preferencialmente o evento tonal inicial LH* é associado à primeira sílaba acentuada de I (cf. 7.1.ii), independentemente de essa primeira sílaba acentuada não ser a sílaba mais proeminente de , como em (7.1.ii). Também pode ocorrer de o primeiro evento tonal estar associado apenas à sílaba proeminente de , como em (7.1.iii).6 Já em (7.3.ii), em que há uma distância de três sílabas átonas entre a primeira sílaba acentuada e a sílaba proeminente de , permite-nos constatar a ocorrência de dois eventos tonais LH* e L*, cada um associado a uma sílaba acentuada do  inicial. O contraste da realização em (7.1.ii) com a apresentada em (7.2.ii) leva-nos a afirmar que o primeiro tom, associado à primeira sílaba acentuada, deve ser interpretado como característico de início de I, e o segundo, associado à segunda sílaba acentuada, dever ser interpretado como tom associado ao elemento proeminente de .





(7) 1.i. [ [[A nova] [astróloga]] [[usa] [sempre]] [[roupa] [clara]] [em festa] ] I

1.ii. 

LH* L* LH* L* L* H L* Li

1.iii. 

H* LH* L* L* H L* Li

2.i. [ [[A astróloga]] [[age] [sempre]] [com discrição] [em público] ] I

2.ii.

 LH* LH* L* H L* Li

3.i. [ [[O novo] [marajá]] [aceitou] [o papel] [de bandido. ] ] I

3.ii. 

LH* L* L* H L* Li



Figura 2.4. (a) F0 de (7.1.i) [A nova astróloga usa sempre roupa clara em festa]I.

Figura 2.4. (b) F0 de (7.1.ii) [A nova astróloga usa sempre roupa clara em festa]I.

Figura 2.4. (c) F0 de (7.2) [A astróloga age sempre com discrição em público]I.


Figura 2.4. (d) F0 de (7.3) [O novo marajá aceitou o papel de bandido]I.

Os resultados da tabela 2.1 também mostram a não obrigatoriedade da ocorrência de um evento tonal adicional quando a distância entre o início absoluto de I e a localização da sílaba acentuada for igual ou superior a três sílabas átonas (cf. estruturas 7 e 8 da tabela 2.1). Mas o fato principal encontrado confirma os resultados iniciais de Frota & Vigário, a saber: se houver um evento tonal adicional, esse é implementado de modo a resultar em uma configuração entoacional do tipo L H L H. Essa configuração é confirmada pela análise de estruturas como as exemplificadas em (6). Basicamente em relação à realização do início de I foi identificada uma tendência à configuração de uma alternância entoacional L H L H e essa tendência obedece a uma distância mínima entre os elementos proeminentes de . Esse quadro, em última instância, mostra que a configuração entoacional obedece à estrutura prosódica que se articula em dois domínios: o da frase entoacional e o da frase fonológica.

No que concerne à frase fonológica, é fundamental analisar as características entoacionais dos s que não ocorrem em posição inicial de I, isso porque a ocorrência de eventos tonais associados a esses s intermediários pode ser tomada como evidência de que é , e não I ou U, o domínio relevante para a associação dos eventos.

Se considerados todos os enunciados utilizados neste trabalho, soma-se um total de 4746 s, dentre esse total, 1524 s ocorrem em posição intermediária dentro de I, ou seja, são s que não coincidem com a posição inicial ou final do domínio imediatamente superior. Em 82% dos 1524 s ocorre um evento tonal associado ao elemento proeminente de 7. Esse resultado encontra respaldo no estudo de Frota & Vigário (1999: 13) que já haviam verificado que os s intermediários são assinalados com, pelo menos, um acento tonal, isto é, um evento tonal associado a uma sílaba tônica. Portanto,  é um domínio relevante para a organização fonológica da entoação em PB.

Outro ponto importante a ser destacado é a correlação entre eventos tonais e o número de sílabas em jogo. Do experimento apresentado na seção 2.1.1, encontramos que a implementação de um evento tonal adicional depende da distância do início absoluto do enunciado à sílaba acentuada. Esse resultado leva-nos a salientar o fato relevante para a organização fonológica dos eventos tonais: a alternância entoacional é implementada obedecendo a uma distância ótima, dada em termos de número de sílabas, entre os eventos tonais dentro de  e entre s. Em outras palavras, esses resultados revelam que a configuração entoacional em PB é pautada por um princípio em otimizar a alternância dos tons guardada uma distância mínima entre os elementos proeminentes do domínio prosódico relevante para a organização dos tons.

Essa característica da organização do contorno entoacional do PB será importante para a análise do contexto em que há choque acentual ou a configuração de cadeias rítmicas mal-formadas, como mostraremos no capítulo 4. Vale antecipar que o encadeamento de eventos bitonais que encontramos depende da distância entre as sílabas acentuadas que são interpretadas como os elementos mais fortes de .

É importante observar também que a argumentação de que a característica da fonologia entoacional do PB é baseada na preferência pela alternância tonal L H L H corrobora nossa proposta de que LH* é preferível em relação à H* como um evento prototípico no PB. O evento LH* traz em seu bojo uma alternância tonal básica entre os tons que o compõem, além de constituir uma descrição mais próxima do que ocorre foneticamente.

Resumidamente, a análise da entoação de um enunciado declarativo neutro revelou que há evidências da relevância de I e de  como domínios em que são organizadas informações entoacionais do PB. Mais especificamente observamos que:

(i) é obrigatória a atribuição do acento tonal HL* associado ao elemento proeminente do último  de I, o que caracteriza a declaração neutra;

(ii) ocorre um tom de fronteira Li associado à fronteira direita final de I. A ausência desse tom apenas se observa se não houver material fônico após a última sílaba tônica;

(iii) ocorre preferencialmente um tom LH* associado à primeira sílaba acentuada de I, independentemente de essa sílaba ser ou não a mais proeminente de . Nos casos em que não se observa o tom LH*, a primeira sílaba acentuada não é o elemento mais proeminente de . Isso ocorre quando é ramificado o  que ocupa a posição inicial dentro de I;

(iv) há a possibilidade de ocorrer um tom adicional quando houver uma distância superior a três sílabas entre o início absoluto de I e a primeira sílaba acentuada nesse domínio;

(v) há a tendência em atribuir tons aos s intermediários e não são constatados tons de fronteira associados a esse domínio;

(vi) constata-se uma preferência pela alternância L H L H entre os tons de forma a obedecer à distância mínima de três sílabas átonas entre os eventos tonais seja dentro de  ou entre s.



1 Nesse momento, não estamos colocando em questão qual o domínio prosódico relevante. Na seção 2.2, colocamos em questão se os resultados devem ser relacionados ao domínio , I ou U.

2 Os exemplos apresentados em (1) são de Frota & Vigário (1999).

3 A palavra fonológica é o domínio em que ocorre a interação entre os componentes fonológico e morfológico da gramática, embora não haja necessariamente isomorfismo entre os componentes. Na hierarquia prosódica,  é um constituinte n-ário acima do pé métrico que possui apenas um acento primário. A palavra fonológica corresponde, mas não necessariamente, ao elemento terminal de uma árvore sintática. Em Português, a distinção se observa em compostos como guarda-chuva que é uma palavra morfológica, mas duas fonológicas (porque possui dois acentos primários), cf. detalhes em Bisol (1996c: 233).

4 A presença em (2.i) versus a ausência em (2.ii) do artigo altera o referente de menos determinado, no primeiro caso, para mais determinado, no segundo caso. Essa diferença na construção do referente afeta o sentido das sentenças, mas acreditamos que isso não acarreta mudança no contorno entoacional, uma vez que essas sentenças foram lidas como enunciados que figuram em título de seção de jornal.

5 Cabe observar que, segundo o algoritmo de formação de , os s ‘atacaram policiais’ da sentença (2.i), por exemplo, podem ser reestruturados e passar a um único . Discutiremos mais detidamente no capítulo 4 a formação de .

6 De 12 realizações consideradas, em 11 verificou-se um evento tonal LH* associado à primeira sílaba tônica de I que não é a sílaba mais proeminente de .

7 Suspeitamos que essa porcentagem de associação de tons ao elemento mais proeminente de  pode aumentar (e possivelmente não diminuir) caso um outro algoritmo de  seja adotado. Esse cotejamento não foi possível fazer neste trabalho, mas se apresenta como uma pesquisa interessante a ser desenvolvida para avançarmos na descrição entoacional do PB.





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