Emilie Richards



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CAPÍTULO XV

Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Quando minha estadia em Sweetwater completou um mês, tornou-se óbvio que Ian Sebastian me cortejava. Era quase vinte anos mais velho do que eu, viúvo desde os vinte e três, o homem que todas as mães da Virgínia cobiçavam para suas filhas havia mais de uma década.

— Nunca pensei que Ian fosse se casar de novo — comentou Annie. — Alguns homens parecem não suportar a idéia, como se uma mulher não se comparasse aos cavalos e às caçadas.

— Parece que Ian me considera tão atraente quanto um cavalo, ao menos — repliquei.

Annie nunca ria falso. Começava nos dedões dos pés dela e varria tudo em seu caminho. Ri também, de sua exuberância. Ri muito naquele mês.

Nunca me sentira tão feliz. Em Nova York, tinha admiradores, mas não recebia carinho. Sentia-me mimada na presença de Ian. Ele me tratava como uma boneca de porceIana, mas não do tipo que se expunha em uma estante. Seria mais como um brinquedo favorito, a boneca que participava de todas as aventuras, que era apresentada a todos os amigos. Paparicada e só deixada de lado na hora de dormir.

- Acha que ele vai esperar até o fim do verão para pedir

sua mão em casamento a seus irmãos? — indagou Annie.

- Se ele demorasse tanto assim, seria só por precisar daquele

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tempo para refletir e tomar a decisão. Eu disse isso a minha prima e ela concordou.

— Acha que ele pode se manifestar logo, então? No baile desta noite, por exemplo?

Naquela noite, ocorreria o primeiro evento social oficial do verão. O clube Rio Fox Hunt daria um baile à luz das estrelas em sua sede para arrecadar fundos para a próxima temporada de caça à raposa.

— Não faço idéia do que Ian Sebastian pretende. Passamos mais tempo cavalgando do que fazendo qualquer outra coisa. Ele vive me chamando a atenção para a postura, as mãos, a colocação dos tornozelos. Parece até que quer me exibir, como uma de suas éguas premiadas.

— Ser instruída pelo maior cavaleiro da região não é nenhum sacrifício, Louizy.

Na verdade, eu achava meio sacrificado, sim. Por mais entusiasmada que estivesse por ser o centro das atenções de Ian, não apreciava ter de me concentrar em como distribuir meu peso na hora de um salto ou na decisão de usar entre chapéu-coco e boné de veludo guarnecido de cortiça.

— Sempre senti algo primitivo em Sebastian — revelou Annie. — Algo elementar, que todo seu dinheiro e sucesso jamais tocaram.

— Sonhou em tê-lo para si? — questionei, direta.

— Eu? Em absoluto — garantiu a prima, também objetiva. — Ele me assusta um pouco.

— Ian? —- Eu não conseguia imaginar isso.

— Trata-se de um homem impetuoso, poderoso, acostumado a ter a seu modo. Fico imaginando o que seria capaz de fazer se alguém se recusasse a satisfazê-lo.

Como nunca vira sinais preocupantes, desconsiderei a opinião de Annie. Eu queria um homem que vivesse a vida em um veleiro imenso. Um homem a fluir pela existência deixando um furacão em sua esteira.

Vestimo-nos primorosamente para a ocasião. Annie com um dourado-escuro que lhe realçava o bronzeado que a mãe abominava. Eu de verde-claro, em um vestido que minha mãe escolhera por causa da sobressaia de renda. Nenhuma das duas se decidira por enrolar os cabelos, e acabamos

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usando aplique. Peguei os brincos de pérolas e esmeraldas que minha mãe ganhara de meu pai esperando que me dessem sorte.

No trajeto à sede do clube Fox River, a sra. Jones nos passou um sermão acerca de comportamento apropriado. Havia mais informalidade lá no interior, mas não podíamos passear com nenhum homem sem acompanhante. Devíamos dividir a atenção e não permitir que ninguém nos monopolizasse. Imaginei se a sra. Jones passara o último mês com a cabeça enterrada na areia. Certamente, alguém comentara sobre o interesse de Ian em sua jovem hóspede.

Quando saltamos da carruagem, a festa já estava em andamento. Embora boa parte dos sócios morasse no norte e fosse ao sul só para a temporada de caça à raposa, o clube não poupara despesas. A pequena orquestra contratada provinha de Richmond, e os acordes dos violinos enchiam o ar de verão. Criados nos tomaram as capas, e integrantes do conselho de diretores nos conduziram, com o sr. e a sra. Jones logo atrás.

A sede do clube, uma graciosa casa de fazenda reformada, centralizava as atividades sociais. Em um raio de muitos quilômetros, o campo achava-se em fluxo, sua cultura bucólica transformando-se noutra, mais acelerada. Os ricos de metrópoles como Nova York e Detroit, ao descobrir aquele terreno quase perfeito para caça à raposa, haviam iniciado uma invasão destinada a mudar os velhos costumes para sempre. Desde o início de minha estadia, vinha reconhecendo os nomes de algumas das famílias mais abastadas e influentes da nação.

A família de Ian possuía terras na Virgínia desde a Guerra da Independência. Após a Guerra Entre os Estados, os Sebastian conservaram sua propriedade estabelecendo acordos que homens de mais princípio teriam recusado. A fazenda Rio Fox quase foi vendida em leilão antes que um ancestral de Ian descobrisse cartas de Thomas Jefferson no sótão, com as quais chantageou para quitar impostos atrasados. Anos depois, descobriu-se que as cartas tinham sido forjadas, mas àquela altura, a fazenda Rio Fox já não corria perigo.

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No salão de baile, procurei por Ian, porém discretamente. Quando um amigo do pai de Annie a tirou para dançar juntei-me a um grupo de moças que fofocavam em um canto. Eu as conhecia e gostava de algumas delas. Elogiamos os vestidos e jóias umas das outras, até que, uma a uma, todas foram convidadas a dançar. Declinei um homem que eu não conhecia, explicando que acabara de chegar, e conversei com um senhor idoso demais para me conduzir pela pista. Discutíamos os méritos de plantar centeio ou soja, assunto que eu ignorava tanto quanto a etiqueta dos canibais da Nova Guiné à mesa, quando Ian apareceu.

Eu raramente vira um homem tão bonito quanto Ian estava naquela noite. Trajava casaca preta, e a camisa branca lhe realçava as feições bronzeadas.

— Não está dançando — comentou ele, à guisa de cumprimento.

Olhei-me.

— É, parece que estou totalmente parada.

— Você foi feita para dançar, Louisa. É quase um crime que a música prossiga.

— Em vez de processarmos a orquestra, eu poderia começar a dançar. Se um certo cavalheiro me convidasse.

Ele pensou.

— Não a instruíram quanto ao comportamento apropriado a observar esta noite?

— Quem?


— A sra. Jones. Ela parece do tipo que instrui.

— Não me diga que ela lhe passou um sermão, também.

Ele riu, exibindo dentes alvos.

— Nem pensar. Mas já olhou severa na minha direção uma ou duas vezes.

— Acho que no fundo tem medo de Annie, e Annie vai cobrir nossa retaguarda.

— Onde está a prima?

— Dançando.

Ele estendeu o braço.

— Sendo assim, deve se juntar a ela.

Eu vivia imaginando como seria estar nos braços de Ian Sebastian. Ao seguir para a casa dele na garupa do garanhão

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naquele primeiro dia, a sensação de seu corpo musculoso contra meus seios me arrancara o fôlego tanto quanto meu encontro com os ursos. Desde então, porém, ele guardara distância ao me cortejar. A sra. Jones, obcecada por comportamento apropriado, não tinha com que se preocupar.



Agora, enlevava-me sentindo-o. Não que ele tomasse liberdades ou me apertasse demais. Mas o espaço estreito entre nossos corpos seduzia tanto quanto a respiração dele em meu rosto. Ele dançava tão bem quanto cavalgava.

— Vamos dar um passeio lá fora após a ceia — convidou Ian, antes de nos separarmos.

— Teremos de escapulir.

— Estarei a sua espera sob os plátanos, ao norte da sede, assim que a música recomeçar.

Antes que fosse servida a refeição, dancei com outros e rodopiei gloriosamente pela pista mais uma vez com Ian. Acompanharam-me ao bufê e então a nossa mesa, para me sentar ao lado da sra. Jones, quando reencontrei Annie pela primeira vez desde nossa chegada.

— Estou me divertindo imensamente — festejou ela, em voz baixa, quando a mãe lhes deu as costas para falar com uma matrona da mesa vizinha.

Reparei nos olhos brilhantes e no rubor incomum nas bochechas de minha prima. Ela estava quase bonita.

— Conheceu alguém?

— Não exatamente. Conhecemo-nos desde sempre. A família dele passa parte do ano aqui, mas ele estava na Europa e depois serviu ao Exército em Boston, de modo que acaba de voltar para casa.

— Quem?


— Paul Symington. — Annie inclinou a cabeça à esquerda, sem olhar nessa direção. — Está com Lillian Albright e família.

Olhei à esquerda dela e vi um rapaz digno, de ombros arredondados. Pareceu-me não ter nada de mais, até que rriu para a sra. Albright, e de repente entendi por que Anie estava tão arrebatada. Talvez se tratasse da mais rara das criaturas, um homem do qual uma mulher podia ser amiga.

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— É, ele parece adequado a você — opinei.



— Eu o amo desde meus dez anos, quando me encontrou chorando por causa de um coelho que caíra em uma armadilha. Ele libertou o pobrezinho.

— Nunca me contou isso.

— Tentei esquecê-lo. Pensei que ele fosse se casar com Helen Faraday quando voltasse para casa, mas ele disse que não, que a guerra lhe mostrara o que era realmente importante.

— E o que é?

— Os prazeres da alma de uma mulher.

Era possível que eu também me apaixonasse por Paul Symington.

Durante o resto da ceia, eu não sabia se ficava mais feliz por Annie ou por mim mesma. Ian captou meu olhar duas vezes. A mesa de honra em companhia de outros diretores e suas famílias, era o homem mais jovem e, de longe, o mais bonito. No encerramento da ceia, ele foi convidado a discursar, o que fez sem a menor relutância. Considerando que só uma parte dos membros do clube comparecera naquela noite, optou por concisão e bom humor. Foi aplaudido entusiasticamente, e meu coração se inchou de orgulho, até perceber que não tinha por que me orgulhar. Ian Sebastian ainda não declarara nenhuma intenção em relação a mim. Qualquer dia, eu poderia acordar e descobrir que ele transferira o interesse para outra qualquer.

Dei-me conta de como ficaria decepcionada se isso acontecesse. Em minha imaginação, já me instalara na fazenda Rio Fox, para gerar os filhos de Ian e levar uma vida de riqueza despojada e grande respeito. Não tinha o menor desejo de voltar para a sociedade da Quinta Avenida, tão pretensiosa e limitada. Estava encantada com a liberdade que experimentava ali no campo.

Naqueles momentos de pânico, jamais me ocorreu que o casamento com Ian poderia cercear minha liberdade sob outros aspectos.

A refeição terminou e a orquestra, bem-alimentada e descansada, recomeçou a tocar.

Estava na hora, e pedi licença. A caminho da saída, Annie

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puxou-me pelo braço e me apresentou a Paul Symington. Conversamos um pouco e então Paul conduziu Annie, totalmente ofuscada, à pista de dança. Procurei novamente a saída, certa de que a sra. Jones ainda não sentira minha falta.

Lá fora, contornei a sede do clube, evitando cavalheiros que fumavam próximos à entrada, e segui no rumo norte à procura de Ian. Estava muito escuro, com apenas uma lua crescente difusa, embora escapasse luz das janelas do casarão. Os plátanos pareciam mais distantes do que eu recordava. Cavalos relinchavam uns aos outros e, em algum lugar, um pássaro entoava um noturno. Cobri os últimos vinte metros na ponta dos pés, cuidando para não me es-borrachar aos pés de Ian.

— Até que enfim. — Ian saiu de trás da árvore maior e abriu os braços.

Eu era bem-nascida. Sabia o que era próprio de uma dama e o que não era, mas não obstante atirei-me nos braços dele com todo o fervor da juventude. Quando ele me beijou, o que restava de minha reserva desapareceu.

Separamo-nos, enfim. Sentia os lábios machucados pela força dos dele, o sabor da aguardente de milho local na língua.

— Não podemos continuar assim, você sabe. — Ian me segurava pelos quadris, como se temesse que eu fugisse, embora isso nem me passasse pela cabeça. — Já fui casado e confesso que não gostei da experiência. Nunca pensei em arranjar outra esposa.

Eu tinha curiosidade a respeito da mulher que morrera ao dar à luz o filho dele, conforme soubera por Annie, mas sabia que havia assuntos mais prementes a resolvermos.

— E agora?

— Agora, considero seriamente me casar de novo.

— É mesmo? E já tem alguém em vista?

— Uma raposinha astuta que talvez atenda a necessidade. Imaginei que, em se tratando de um caçador, ser comparada a uma raposa era o maior dos elogios.

Levei as mãos aos ombros dele.

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— Se pedisse a raposinha em casamento, qual acha que seria a resposta dela?



— Acho que ela se atiraria em meus braços.

— Só se fosse muito tola. Todas as mulheres sabem que devem deixar o pretendente na dúvida até a hora de ele pedir a mão.

Ian riu.

— Não quero só a mão dela. Quero seu corpo quente em minha cama. Quero que seu útero gere muitos filhos meus.

— Só meninos?

Ele fechou a expressão, mas só por um segundo.

— Perdi um filho antes que ele respirasse pela primeira vez. Quero outro.

Até então, eu nunca desejara algo tanto quanto dar um filho a Ian. E sabia que podia. Era jovem e saudável, cheia de vitalidade. Tinha certeza de poder dar a ele tudo o que quisesse.

A tristeza, conforme a interpretei naquele momento, desapareceu do rosto dele.

— Quer se casar comigo, Louisa Elisabeth Schumacher? Quer ser a senhora da fazenda Rio Fox e a mãe de meus filhos?

Pensei rapidamente nos outros homens que conhecera. Eram todos imitações baratas daquele, fadados a sofrer a sua sombra. Eu contava dezoito anos, e Ian era um homem de trinta e sete, mas naquele instante éramos só duas pessoas, equivalentes em tudo, decidindo o futuro.

— Sim, quero me casar com você — respondi.

— No final de julho. Quando sua família vier nos visitar. — Ian já decidira.

— Tão já? — Cogitei se conseguiria me preparar em tão pouco tempo. Imaginei o que minha mãe diria.

— Se fizermos assim, teremos tempo para uma viagem de lua-de-mel. Devo estar de volta no outono, não posso perder a temporada de caça.

— Nem por mim? Ele me afagou o rosto.

— Sou Mestre dos Cães. É algo que terá de entender.

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Entendi. Eu me casava com um estilo de vida, não apenas com um homem

- Vamos dar uma festa grande ou pequena? — indaguei.

Podemos nos casar em Rio Fox? Ao ar livre, nos jardins?

À noite, quando começa a esfriar. Assim, poderemos convidar quantas pessoas quisermos.

Fechado. — Só então ele me abraçou de novo. — Vamos para a Itália. Quero que conheça Veneza.

Eu sempre sonhara com uma lua-de-mel na Inglaterra, mas Ian parecia tão satisfeito que desisti na hora. Não importava para onde iríamos, pois teríamos um ao outro. Além disso, em Veneza não havia caça à raposa. Ao menos, durante a viagem, eu seria a única ”raposinha” no pequeno mundo de Ian.

Desta vez, quando ele me beijou, derreti-me.

Mais tarde, de volta à sede do clube e na presença dos Jones, Ian presenteou-me com um anel de esmeralda que combinava quase perfeitamente com os brincos que meu pai dera a minha mãe. Tive a certeza de que era um sinal de que nosso casamento estava escrito nas estrelas.

Ao deixar Ashbourne, Christian decidiu voltar para casa por uma trilha desconhecida. Não corria o risco de se perder, mas também não se apressava, pois não tinha uma vida verdadeira a sua espera.

Vencia o caminho sem incidentes. À beira do córrego de Jeb Stuart, onde passara muitas tardes de verão, sentou-se em uma pedra e ouviu uma coruja piando de algum ponto ao longe. Era melhor do que pensar em Júlia.

Um mocho também piara na noite anterior à morte de seu pai. Não pensava nisso havia anos, mas recordava-se agora. Ao pousar junto ao alojamento dos Carver, o animal o acordara. Saíra da cama para vê-lo e tropeçara no corpo inconsciente do pai. Gabe desabara no chão, bêbado demais Para chegar à cama.

Gabe não era um alcoólatra violento. A maioria das vezes, simplesmente perdia os sentidos. Pela manhã, despertava rabugento, mas nunca abusivo. Desta vez, como era ainda cedo, zangou-se. Sem imaginar quem caíra em cima

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dele, desferiu um soco e então mergulhou de novo na letargi alcoólica.



Christian não fora rápido o bastante para escapar ao golpe do pai. Gritou de dor, mas Gabe já estava inconsciente de novo. Arrastou-se até a janela, soluçando de raiva, Ouvindo o pio da coruja.

No dia seguinte, justificou o olho roxo e a bochecha inchada com um acidente no estábulo, mas Robby não se deixou enganar. Aos onze anos, era imaturo em certos aspectos mas sábio quanto a outros. Sabia o quanto o alcoolismo de Gabe embaraçava Christian.

Gabe era o melhor treinador que já pisara em Claymore Park. Engraçado e inteligente, conquistava tanto as pessoas quanto os cavalos... quando estava sóbrio. Costumava se manter sóbrio somente no trabalho. Quando precisava estar alerta e se concentrar no trato dos cavalos que tanto amava, controlava-se. Na hora de atender ao filho, porém, não conseguia.

Gabe já constrangera Christian na frente de Robby mais de uma vez, andando aos tropeções, tartamudeando sobre pessoas que ele não conhecia, chorando a morte da esposa. Robby também tinha problemas com seu pai, reconhecia a humilhação de Christian e se mostrava solidário. Os dois meninos fortaleciam a amizade.

O dia em que Christian apareceu de olho roxo foi diferente. Robby ameaçou contar ao pai o que Gabe fizera, e os dois brigaram. Christian entendia algo em que o amigo não pensara. Considerando o talento de Gabe, Peter Claymore fazia vista grossa a seu alcoolismo, mas, se o filho lhe chamasse a atenção para o problema, teria de tomar uma atitude. E a atitude poderia ser demitir Gabe.

— As coisas se ajeitam — assegurou Christian a Robby. — Talvez ele pare de beber, agora que sabe do que é capaz sob efeito do álcool.

Convencera o amigo a não contar nada ao dono do haras. Agora, anos depois, ainda cogitava se seu silêncio condenara Gabe à morte pelo fogo. Ao encobrir a gravidade da doença do pai, acendera o fósforo que incendiara o celeiro? Naquela noite, Gabe se excedeu outra vez, provavelmente arrasado por ter esmurrado o próprio filho. Talvez pensando em proteger

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o menino, fora dormir na selaria, com um cigarro aceso na mão.

AS regras em Claymore Park eram claras. Ninguém podia fumar a menos de cinqüenta metros dos celeiros. Se alguém fosse pego, era demissão na hora. Gabe fumava do mesmo jeito que bebia, incontrolavelmente. Ao final do dia de trabalho, ia para casa e fumava um maço inteiro, um cigarro atrás do outro, ao mesmo tempo que esvaziava as primeiras seis latas de cerveja do dia. Christian nunca vira o pai fumar no celeiro, mas Gabe sempre fumava quando bebia. E era evidente que bebera naquela noite. Junto ao corpo carbonizado, encontraram latas de alumínio retorcidas.

As últimas seis cervejas de Gabe.

Quando foi dado o alarme, Gabe já estava morto dentro do celeiro em chamas. Jinx e os demais empregados conseguiram retirar a maior parte dos cavalos, mas um garanhão premiado e uma égua que parira naquela manhã morreram. A admirável coleção de trofeus de Peter, álbuns de recortes de jornal, documentos e livros contábeis inestimáveis, tudo virou cinzas. Assim como o passado e o presente de Christian, e, por algum tempo, ele temera não ter mais futuro, tampouco.

Então, Peter Claymore lhe disse que poderia ficar em Claymore Park o tempo que quisesse. Para sempre, se tivesse vontade. Sentiu-se profundamente grato.

Robby o convidou para morar na sede, mas decidiu se instalar no alojamento com Jinx Callahan. O cavalariço-chefe lembrava seu pai, com um estilo de vida quase tão despojado quanto o que Gabe cultivara. O velho solteirão adotou o menino órfão.

Se tivesse ido embora, Christian jamais teria feito amizade com Júlia ou Fidelity, certamente jamais teria sido condenado por um crime que não cometera. Talvez, não abalado pelo julgamento do melhor amigo, Robby não tivesse atirado seu carro contra uma árvore.

As vidas dos quatro amigos haviam se entrelaçado tão coesas quanto as fibras de um cobertor. Impossível destacar uma delas sem destruir o tecido.

Agora, contemplando o luar sobre a água tranqüila do córrego e ouvindo o piar do mocho, voltava-lhe à lembrança

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o dia em que Fidelity e Júlia entraram em sua vida para valer. Preparava-se para a Corrida da Primavera de dleburg, e de repente todo seu futuro mudou.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — Robby observava Christian escovando Night Ranger, um potro malhado cinzento de crina branca e uma cauda que era o orgulho de Claymore Park.

— Por que ainda não se convenceu? — Christian recuou para apreciar o trabalho. O pêlo do potro brilhava, masainda não estava satisfeito.

— Não entendo o porquê desses eventos. — Robby levantou-se, esticando seus um metro e oitenta e sete.

Naqueles anos desde a chegada de Christian, transformara-se em um rapaz que costumava chamar a atenção das moças. Nenhum dos dois já atingira a plenitude física mas agora, conforme adentravam a idade adulta, seus corpos estavam a caminho de atender às expectativas. Aos dezoito anos, Robby passava mais tempo debruçado à escrivaninha do que cavalgando ou jogando tênis, mas não obstante parecia um atleta.

Já Christian, aos dezenove anos, sempre fora magérrimo e leve o bastante para correr por Claymore Park, mas era evidente que esse tempo findava. De qualquer forma, sempre chamara a atenção das moças. Como trabalhava no haras e freqüentava a faculdade comunitária, quase não tinha tempo para namorar, mas se interessava muito por mulheres.

— Você nunca entendeu o porquê de nenhum evento com cavalos — ralhou Christian. — É preciso amar as montarias, e você não ama. É preciso amar a competição, e você não...

— É preciso amar Claymore Park, também, e não amo.

— Não diga isso.

Robby arrancou uma lasca que se desprendia da parede.

— Não amo, não como você. Se fosse obrigado a morar lá para sempre, acho que ficaria louco.

O relacionamento de Robby com o pai não era nada fácil. Peter nutria grandes expectativas em relação ao filho. Robby queria estudar física no ano seguinte, em uma universidade da Ivy League, no nordeste do país e bem longe da Virgínia. Peter orgulhava-se das consideráveis realizações acadêmicas

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do filho, mas esperava que ele voltasse para Claymore Park ao se formar e começasse a tomar as rédeas da propriedade. Christian temia que isso não fosse acontecer.



Há pelo menos uma dúzia de universidades de primeira linha que você poderia freqüentar indo e voltando de carro todos os dias — argumentou Christian. — Tem a American, a George Washington, a Georgetown...

Conheço todas.

— Depois de formado, poderá arranjar emprego em uma delas, ou na capital, em algum departamento de pesquisa. Tudo isso sem deixar de morar em Claymore Park.

Só se você prometer ficar e administrar a propriedade.

Christian gostou da ideia. Já ia concordar quando, pela porta da baia, viu o par de olhos azuis mais lindos do mundo.

— Olá, rapazes. Lembram-se de mim? Robby voltou-se, mas não disse nada.

— Céus, será que mudei tanto assim? — A loira abriu a tramela da porta e entrou.

Robby recuperou a voz.

— Fidelity?

— Não passei por nenhuma cirurgia plástica, Robert Claymore. Continuo eu mesma.

Christian a reconhecia agora. A família Sutherland era tradicional em Ridge’s Race, e South Land fazia limite com Claymore Park. Na infância, ele e Robby haviam brincado muito com Fidelity e sua amiguinha Júlia Ashbourne nas tardes quentes de verão. Antes que a adolescência complicasse tudo.

Certa vez, comparecera a uma festinha em Ashbourne, iluminada por vaga-lumes em potes de vidro, a convite de duas risonhas pré-adolescentes. Fidelity, com a boca cheia de aparelhos ortodônticos, o desviara para trás de uma velha catadulpa e o beijara até seus lábios sangrarem.

— Eu não diria que continua a mesma — flertou, sorridente. Calculava que Fidelity estivesse com uns dezessete anos, a desabrochar gloriosamente, ora entre botão e flor aberta, sua cabeleira loira derramava-se sobre os ombros em ondas luminosas, a pele era fina e perfeita, o corpo... Bem, o corpo dentro do suéter rosa-choque e calça jeans de grife o fazia

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se sentir como se acabasse de cruzar a linha de chegada após uma disputa acirrada.

— Sentiu minha falta, Chris? — Ela sorriu, revelando dentes perfeitos... a um alto custo. — Eu estava logo ali, em Foxcroft.

Foxcroft era um colégio caríssimo para filhas de donos de haras. Debutantes de calça-culote.

— E sua amiga Júlia? Vocês duas não andam sempre juntas?

Fidelity examinou as unhas. Aparentemente, não gostou do que viu, pois as poliu no suéter.

— Não na escola. A mãe dela a manda para escolas públicas, embora tenham dinheiro para pagar coisa melhor. — Só então percebeu a gafe. — Oh, desculpe-me. Você também deve ter freqüentado escolas públicas...

Christian sorriu.

— Que remédio? Até consegui aprender a ler e escrever. Ela riu, lembrando o borbulhar de um riacho.

— Você sempre foi engraçado. Mas Júlia está lá fora. Ela fica bem longe do estábulo.

— Não gosta de cavalos? Fidelity deu de ombros.

— Tem medo deles. Não monta.

Christian estranhou, considerando que Ashbourne tinha um dos melhores pastos do condado.

Fidelity, que não temia os eqüinos, aproximou-se e afagou o focinho de Night Ranger, como se ele não valesse tanto quanto o automóvel de luxo de seu pai. Seu sotaque de Scarlett O’Hara era tão exagerado quanto tudo o mais nela, e surtia efeito.

— Soube que vai correr com este pangaré hoje.

— Isso mesmo.

Ela se voltou para Robby.

— E você, por que não compete, Robert? Robby deu de ombros.

— Porque não ligo para ganhar. Chris liga.

— Gosto de homens que não têm que se provar... Christian viu o amigo enrubescer ao elogio, e então a moça se voltou para ele.

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E também dos que têm que se provar.

Em outras palavras, gosta de homens. Ponto final.

Você é esperto, hein?

Fidelity?

Christian viu uma beldade morena de jaqueta azul-royal? fora da baia e soube imediatamente de quem se tratava. Chegaram a freqüentar a mesma escola pública, mas ela era mais nova do que ele e, por isso, jamais estudaram em uma mesma classe.

— Júlia Ashbourne. Há quanto tempo.

— Christian. — Ela sorriu. — E Robby. Como estão?

— Tem lugar para você também aqui — convidou Fidelity.

— Prefiro ficar onde estou. Não quero assustar o cavalo.

— Bem pensado. — Christian ainda não acabara de escovar a crina de Ranger, e precisava polir suas botas antes de se pesar e vestir o uniforme verde e dourado de Claymore Park, mas não conseguia desviar a atenção de nenhuma das garotas. Pareciam Branca de Neve e Rosa Vermelha, saídas de um conto de fadas.

— Que garanhão magnífico — elogiou Júlia. — É enorme.

— Tem de ser, para saltar sobre os obstáculos. — Relutante, Christian voltou ao trabalho.

— Jura que não monta? — questionou Robby. — Só pode estar brincando.

— Bem, não criamos cavalos — explicou Júlia. — Minha mãe não quer. Nunca reparou nisso?

— A mãe de Júlia não regula muito bem — comentou Fidelity, brincando.

Júlia defendeu a mãe:

— Cavalos dão muito trabalho, Fidelity. E Maisy também não monta. Para quê, então?

— Quem é Maisy? — indagou Christian.

— Minha mãe — esclareceu Júlia.

— E você a chama de Maisy?

— Todos a chamam de Maisy.

Christian lembrava-se de uma senhora simpática e afetuosa que se vestia como uma integrante de banda de rock. Supunha que a chamara de Maisy, também.

Mais uma voz se juntou ao grupo.

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— Como vai aí, Christian? — Peter se colocava ao lado de Júlia diante da baia.

— Estou quase terminando, senhor.

— Posso terminar para você, se quiser, ou dispersar a platéia para que possa se concentrar.

— Acho melhor, pois ainda tenho de me trocar.

— Você sobrecarrega demais o Christian — ralhou Fidelity com Peter, o sotaque ainda mais carregado. — Um rapaz na idade dele precisa se divertir.

Era um convite velado, e Christian sorriu. Peter riu.

Srta. Sutherland, costuma deixar seus pais acordados até tarde, preocupados com sua demora?

— Quer saber mesmo, sr. Claymore? Eles não dormem direito desde que completei treze anos.

E por onde estes dois andaram desde esse dia glorioso?

Nos lugares errados, parece — reconheceu Christian. Todos riram e começaram a se retirar.

— Boa sorte, Christian — desejou Júlia. — Vamos torcer por você e Night Ranger.

Fidelity dedicou-lhe um último sorriso.

— Vamos torcer, sim, Chris, mas não tire os olhos da pista, hein? Não queremos ser responsáveis por um acidente...

Ele ainda sorria dez minutos depois, ao dar a última polida nas botas. Dali a uma hora, porém, estava sério. A corrida de cavalos com obstáculos exigia muita concentração. A nível nacional, aquela era uma indústria que distribuía milhões de dólares em prêmios. A Corrida da Primavera de Middleburg não se Comparava ao Kentucky Derby ou à Virgínia Cup, mas era un evento inportante. No Derby, os cavalos competiam em pista limpa, mas na Virgínia Cup as melhores corridas eram aquelas com uma série de obstáculos a transpor. Cavalos puro-sangue corriam em Middleburg desde 1911, e alguns dos garanhões do Estado especializados nesse tipo de competição Participavam.

Nigíht Ranger era Um exemplar de quatro anos com potencial. Começara em pista limpa e já competira em corridas com obstáculos com outros novatos, mas aquela disputa era entre estreantes, para Cavalos que ainda não conheciam a vitória.

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Ia ser Seu primeiro teste de verdade. O prêmio não chegava aentusiasmar, mas o ganhador teria muito prestígio.

Peter supervisionara o treinamento de Ranger pessoalmente, mas Jinx Callahan e Christian haviam realizado a maior parte do trabalho. Christian não se considerava dono de nenhum animal do haras de Claymore Park, mas, se lhe indagassem a qual se sentia mais ligado, diria que era Nigíht Ranger.

Escalados para a terceira corrida do dia, estava quase na hora de Christian montar. Àquela altura da primavera, esperava-se clima estável, mas o dia estava frio e nublado, e as colinas verdejantes à sombra das montanhas Blue Ridge viraram lama após a chuva do dia anterior. Mas nem por isso cancelariam o evento. A cidade de Middleburg adorava tudo o que se referia a cavalos, conforme comentou um observador ao ver um clássico automóvel de luxo rebocando um trailer. A corrida era um acontecimento social, desculpa para a realização de piqueniques chiques, completos com toalhas rendadas e arranjos de flores exóticas. Ambulantes vendiam de tudo, de cachorros-quentes a botas de cano longo. Estabelecimentos entretinham clientes fiéis, famílias reuniam-se, gente do mundo dos cavalos trajando jeans surrados ou fatiotas de grife comparavam observações e fechavam negócios, enquanto os garanhões disparavam sobre relva ondulante salpicada de dentes-de-leão e botões-de-ouro. Jóquei-aprendiz, Christian provavelmente competia pela última vez. Crescera devagar, alimentando suas esperanças de fazer carreira, mas no final da puberdade já ultrapassava um metro e oitenta de altura, cada vez mais robusto. As competições com obstáculos admitiam jóqueis maiores do que aqueles que disputavam em pista limpa, mas Christian, na próxima temporada, já estaria pesando bem mais do que os sessenta e três quilos médios dos veteranos. Teria de se contentar com eventos amadores e como batedor do Mosby Hunt. Desde que pudesse montar, não se importava.

— Está pronto? — Peter o procurou na barraca antes da pesagem do jóquei e da sela e da fixação dos pesos apropriados.

Jinx Callahan, agora com mais de setenta anos, estava no Padoque exercitando Ranger, este elegante sob manta

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verde com trança dourada, combinando com o uniforme do joquei.

Christian colocou o capacete e afivelou a tira sob o queixo, conforme se aproximavam de Jinx.

— Cuidado com Samson’s Pillar — advertiu o cavalariço-chefe do haras, cuspindo no chão. — Não confio naquele cavalo. Ele não tem temperamento para corridas. E fiq,. de olho em Jenny’s Idea. É sua concorrente mais forte

— Ouça Jinx, ele entende — aconselhou Peter. — Foi para o camarote. — Não lhe desejou sorte. Era seu jeito de não fazer pressão.

Jinx selou Ranger e o segurou enquanto Christian montava

— Não quebre nenhuma perna, ouviu? — recomendou por último. — Principalmente dele.

Christian tomou as rédeas e começou a contornar a pista de olho em Samson’s Pillar, um baio esguio com mancha branca montado por um joquei de vermelho e branco. Jenny’s Idea, uma potranca baio-escuro, agitava-se como se não visse a hora de arrancar em disparada. Ora, Ranger também estava no páreo.

Captou um borrão azul e, de esguelha, viu Júlia Ashbourne sorrindo-lhe. No celeiro, ofuscado por Fidelity, não reparara em mais do que sua cor dos cabelos e altura. Agora, ao sol, constatava como era bonita, corada, com um rosto oval e olhos afastados que davam a feições patrícias um toque de nobreza. Longe de Fidelity, Júlia brilhava.

Ela ergueu a mão com o indicador e o médio esticados, formando o ”V” da vitória. Ele sorriu e então, relutante, concentrou-se em Ranger. A concentração exigia disciplina, e não podia se distrair agora. Havia muito em jogo.

Aquela competição específica compreenderia um percurso de quatro mil metros com obstáculos sintéticos, usados na maioria das pistas dos Estados Unidos e de fácil transporte. Claymore Park reservava um terreno considerável ao treinamento dos cavalos que competiam em trilhas com obstáculos, garantindo que os animais os reconhecessem na hora da disputa. Night Ranger tiraria de letra os obstáculos de cento e trinta e dois centímetros, mas talvez estranhasse ver a pista coalhada de competidores. Era forte e velozmas não tinha experiência. Podia acontecer qualquer coisa

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Circundaram o padoque várias vezes, e Christian deu uma espiada nos espectadores, mas Júlia desapareceu, provavelmente para guardar lugar junto à cerca. Sem dúvida, os Sutherland haviam alugado o melhor camarote, próximo à bancada do júri, para sua reunião particular, e Júlia teria uma ótima vista da reta de chegada.



Os cavalos começaram a deixar o padoque rumo à área de largada. Quando todos já estavam na pista, o corneteiro tocou o sinal de posicionamento. Não havia cancelas. Os cavalos agrupavam-se por número em uma área comum na largada

ao erguer da bandeira, percorriam a maior parte da pista três vezes. Christian guardou distância de Samson no trajeto até ali e se congratulou pelo cuidado ao vê-lo trombar de ré em um outro puro-sangue, cujo jóquei, um treinador de Upperville, despejou uma torrente de impropérios.

Oito cavalos e jóqueis colocaram-se em posição, cautelosos, e Christian flexionou os dedos.

— Dê o melhor de si, Ranger — murmurou à montaria. — Eu também vou dar.

As bandeirolas se ergueram e os cavalos dispararam pela pista. Peter, Jinx e Christian haviam elaborado estratégias, levando em conta tudo, desde a condição do campo até o desempenho dos competidores. Night Ranger, embora jovem, era cauteloso e só imprimia velocidade quando ganhava mais confiança. Com isso em mente, decidiram deixá-lo ficar para trás, até se sentir confiante o bastante para investir. Nesse ponto, Christian poderia instigá-lo, mas não deveria interferir.

Estavam a meio-caminho do primeiro obstáculo quando Christian verificou sua posição. Quatro cavalos preparavam-se para saltar a primeira cerca. As abas brancas projetando-se em ângulo das laterais atraíam como os braços abertos de uma mãe. Os cavalos voaram por sobre o obstáculo, e Christian preparou-se para fazer o mesmo. Ranger também saltou, ao lado de Gone for Good, um capão castanho. Ranger ultrapassou Gone ao galopar rumo à próxima cerca, ganhando terreno até se aproximar dos quatro primeiros colocados. Um destes ficou para trás, e Christian conduziu Ranger para a vaga aberta. Logo reconheceu o baio a seu lado como Samson, mas não

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havia nada que pudesse fazer agora, exceto evitar movimentos erráticos. Àquela velocidade, entretanto, equivalia a tentar ultrapassar um conjunto trator-trailer ladeira abaixo.



Venceu o obstáculo seguinte com os outros cavalos e ao aterrissar, começou a deixar Samson Para trás. Jenny’s Idea liderava com quase um corpo de vantagem, mas era surpreendente que não abrisse mais distância. Ao contrário de Ranger, Jenny era famosa Por dar o melhor de si no início da corrida. Nada fizera para incitar Ranger, mas ele corria como se sua vida dependesse da Vitória-

Considerou reter o garanhão, mas não o fez. Ranger merecia uma chance de mostrar a que viera. Mesmo que cometessem erros naquela competição, Jinx e Peter Poderiam analisar os dados obtidos para planejar estratégias para a próxima corrida. Ranger tinha uma longa carreira Pela frente.

Ranger permaneceu na terceira posição pelos quatro obstáculos seguintes, atrás de Jenny’s Idea e um ruão chamado Somebody’s Baby. Samson permanecia em seus calcanhares, mas não incomodava. Quando tomaram a pista pela segunda vez, estavam pescoço a pescoço com Somebody’s Baby, abrindo vantagem após um salto, ficando um pouco para trás no seguinte. Jenny’s Idea liderava com apenas meio corpo de vantagem e parecia se cansar. No terceiro e último assalto sobre os obstáculos, ouviu cascos logo atrás e viu Samson pular avançando por fora.

Ranger colocara-se à frente de Somebody's Baby novamente e já diminuía a lacuna entre ele e Jenny's Idea quando Ghristian sentiu, antes de ver, Samson desviando-se em sua direção. O instinto o salvou. Esquivou-se, saindo um pouco do curso para saltar a penúltima cerca, e instigou Ranger com o chicote. Ranger disparou avante. Christian ouviu uma comoção às costas, mas não quis ver o que era. Era tudo ou nada. Agora, precisava conduzir Ranger de volta à posição e tentar compensar os passos perdidos. O obstácul" surgiu, e o ultrapassou ao lado de Jenny's Idea.

Estavam pescoço a pescoço na reta de fundo agora, rumo ao último obstáculo, e Ranger, instigado por Christian, dava tudo de si. Ainda no páreo, Jenny's Idea saltou a última cerca um ou dois segundos depois deles. Desse ponto em diante, a corrida era de Night Ranger. Impelido por Christian,

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ele percorreu a reta final como um raio e terminou três corpos à frente de Jenny’s Idea.

Aos poucos, Christian fez Night Ranger diminuir a velocidade e dar meia-volta. Na área de chegada, encontrou Jinx e Peter à espera.

Sabe o que aconteceu? — gritou Jinx.

Christian fez que não.

Aquele filho da mãe do Samson foi para cima de Somebody’s Baby. Tive vontade de matar os dois!

Matou?


Não, mas aposto como nenhum dos dois volta a competir nesta temporada. Samson não compete mais, não com os cavalos de Claymore.

Corrida esplêndida! — festejou Peter. — Pensou rápido o tempo todo. E evitou uma catástrofe. Tem todos os instintos de um jóquei. Por que tem de crescer tanto, filho?

Era a primeira vez que Peter o chamava assim. Sorriu.

— Adiei o quanto pude, senhor.

— Ele está crescendo para mim — intrometeu-se uma voz feminina.

Christian viu Fidelity Sutherland e Júlia Ashbourne aproximando-se. Não tinha idéia de como tinham tido acesso à pista, mas supunha que uma Sutherland e uma Ashbourne pudessem ir aonde bem entendessem.

— Não gosto de baixinhos — completou Fidelity. — Adoro caubóis altos e fortes, como Christian. — Sorriu-lhe, exibindo covinhas, que ele devia ter previsto.

Ainda tinha o coração disparado. De soslaio, viu Júlia Ashbourne sorridente, como se estivesse mesmo feliz com sua vitória. Fidelity Sutherland oferecia-se despudorada, contudo, misteriosamente, ele só tinha olhos para a amiga.

— Tenho uma festa hoje — informou Fidelity. — Quer ir comigo... conosco?

— Você vai? — indagou ele a Júlia.

Claro, vamos comemorar. — O sorriso dela era mais discreto do que o de Fidelity, porém igualmente lindo.

- Vá — incentivou Peter. — Você merece. Leve Robby Junto. Outro peão cuida de Ranger esta noite.

Christian não sabia ao certo o que ganhara naquele dia, mas com certeza a corrida valera a pena.

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