Emilie Richards



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CAPÍTULO XIV
Diga de novo o que sabe sobre essa mulher! — Júlia afastou os cabelos negros do rosto e desejou ter levado uma presilha.

Esquecera-se de que o ar-condicionado da picape de Maisy e Jake pifara e de que seu padrasto, capaz de consertar tudo para os ricos e influentes, nunca se animara a substituí-lo. A despeito da chegada do outono, o dia estava surpreendentemente quente.

— Você está gritando! — gritou Maisy.

— É a única maneira de me fazer ouvir com as janelas abertas!

— Acho que é por isso que Jake não conserta o ar-condicionado. Tem desculpa para não me ouvir quando viajamos juntos.

Júlia sorriu, considerando que podia ser verdade.

— Diminua a marcha, Maisy. Vai levar outra multa.

— Como sabe a que velocidade estou?

— Pela força do vento que bate em meu rosto. Reduza. Júlia viu-se arremessada para a frente e o vento enfraqueceu um pouco, mas só um pouco.

— Ninguém vai me multar. O último patrulheiro que tentou acabou me implorando para deixá-lo ir embora. Só Porque comecei a explicar sobre Cora Falworth e a floresta amazônica.

Por favor, não me diga o que isso tem a ver com excesso de velocidade. "" Ele também não quis ouvir minha história.

- Ia me dizer o que sabe sobre essa mulher. — Seguiam

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para Warrenton, onde Júlia teria sua primeira consulta com a nova terapeuta, e ela sabia que se comportava de modo infantil. Mas, após a experiência com o dr. Jeffers, queria garantias.



— Ela se chama Yvonne Claxton. É mais nova do que eu e mais velha do que você. Tem doutorado por uma faculdade da Califórnia e treinamento de pós-graduação em alguma instituição de Nova York.

— Não está sendo muito específica.

— Não sou uma garota específica, querida. Nunca me lembro de detalhes inúteis. Fiquei mais impressionada com o que as pessoas dizem a respeito dela. É compreensiva, gentil e se empenha em chegar ao fundo das coisas. Encontrei-a na galeria uma ou duas vezes e gostei demais dela.

A galeria nos estábulos de Ashbourne era o maior triunfo de Maisy. Embora dirigida por um conselho agora, Maisy ainda a freqüentava muito. Tinha amizade com todos os artistas e artesãos que expunham lá e trocava muitas idéias com eles.

— Teme que ela não consiga ajudar, não é?

— Bem, não espero sair do consultório comentando como o céu está azul, se é o que quer dizer.

Se notou o gelo na voz da filha, Maisy não comentou.

— Quero dizer que fica imaginando se adianta alguma coisa tudo isto.

Júlia não ia responder, mas a culpa a obrigou a falar:

— Eu não queria destratar você.

— Estamos quase chegando. Agüente firme.

Quando estacionaram, Júlia teve ainda mais certeza de que aquela fora uma péssima idéia.

Maisy abriu a porta do passageiro e pousou a mão no braço de Júlia.

— Está pronta?

— A que distância fica a porta?

— A uns dez metros.

— Odeio isso.

— É a primeira vez que sai na rua. Claro que acha esquisito.

— Sinto-me uma criança brincando de cabra-cega.

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- Quer que a carregue?

por algum motivo, a sugestão quebrou a tensão, e Júlia riu.

Você é impossível, Maisy, sabia?

— Eu me esforço. Vamos, eu aviso se tiver que baixar a cabeça.

Uma vez lá dentro, Júlia sentiu-se melhor. O consultório era fresco e o sofá na sala de espera, confortável. Maisy lhe informara que não havia mais ninguém no recinto.

— Pediria uma revista, se enxergasse — comentou Júlia. Uma porta se abriu e uma mulher falou:

— Você deve ser Júlia. Júlia levantou-se.

— Acho que é óbvio.

— É. Maisy disse que você era igualzinha a ela. — Yvonne aproximou-se. — Vou conduzi-la a minha sala, está bem?

— Está.


Júlia despediu-se da mãe, e Yvonne a guiou por um corredor estreito, até sua sala. Ajudou-a a se sentar e depois se acomodou também.

— Vou me descrever — começou Yvonne. — A menos que Maisy já o tenha feito.

— Não fisicamente.

— Sou afro-americana, um metro e oitenta de altura, magra, mas não o bastante para ser modelo. Uso cabelos curtos e vestidos longos, e tenho olhos em um raro tom de azul, graças a algum dono de escravos em minha linhagem. Tenho mãos e pés grandes, mas orelhinhas perfeitas cravadas de ouro, até o dia em que puder comprar diamantes. Yvonne fez pausa. — Por que não se descreve também?

Júlia ainda montava a imagem da terapeuta na mente.

— Por quê? Pode me ver.

— Gostaria de saber como vê a si mesma.

— Sou cega.

— Eu sei. Júlia suspirou.

- É assim que me vejo.

"— Sendo assim, creio que está cega sob mais de um asPecto.

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Júlia refletiu a respeito.

— Tenho um rosto sério, feições que nunca execrei, um bico-de-viúva que me atormentou demais na adolescência, um corpo magro que emagrece mais, já que deixo boa parte das minhas refeições cair no colo. Pés pequenos, olhos azuis provavelmente herdados de algum dono de escravos e orelhas que ninguém em sã consciência pensaria em destacar.

— Deixe-me vê-las.

Júlia puxou os cabelos para trás e expressou desgosto.

— Orelhonas.

— Normais, mas as minhas são muito mais lindinhas. Júlia deu um sorrisinho.

- E seu rosto não parece tão sério quando sorri — completou Yvonne. Júlia ficou séria.

— É estranho saber que está olhando para mim, enquanto eu não posso ver você. Faz-me sentir examinada.

— E está sendo.

— Não quero estar aqui. Não quero ninguém me examinando.

— Está farta, não é?

— Não encontraram nada de errado comigo. Absolutamente nada físico. É tudo coisa da minha cabeça.

— Entendo. Mas vou lhe contar um segredinho. Todas as pessoas que vêm aqui têm esse problema. Coisas que só estão na cabeça.

— Já tratou de alguém com cegueira histérica?

— Não. Não é muito comum, não com sintomas tão duradouros, como os seus. Poderíamos demorar muito para encontrar um terapeuta que já tenha tratado de algum caso semelhante. De qualquer forma, ele lhe diria o mesmo que eu: cada caso é um caso. Cada pessoa é diferente. Cada evento que precipita a anomalia é diferente.

— O evento que precipitou? Caí de um cavalo.

— Foi o que desencadeou. Eu sei.

— Eu já tinha caído do cavalo outras vezes.

— Conte-me como é.

Júlia recostou-se. Percebia um ventilador de teto girando

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sobre sua cabeça. Em algum lugar ao longe, um carro foi ligado.



— Acha que pode me ajudar?

— Espero que você se ajude. Conte-me comoé cair de um cavalo, Júlia. Não cavalgo, por isso, descreva a partir do instante em que montou.

Júlia fechou os olhos e começou a narrar o dia em que perdera a visão.

Christian ouvira histórias de vítimas da fome que sobreviveram por meses com pouco alimento, só para morrer quando voluntários bem-intencionados lhes ofereceram comida demais de repente. Ao final de seu primeiro dia de volta a Claymore Park, entendia melhor o drama. Inundara-se de sensações cuja existência esquecera. Sentia-se inchado e drenado ao mesmo tempo. Conscientizava-se de cada inspiração, como se até as funções básicas de seu corpo estivessem sob cerco.

Agora, enquanto o sol se punha nas montanhas, sentado em um dos inúmeros terraços de Claymore Park, tentava controlar as emoções. Sobrevivera ao cárcere. Sobreviveria à liberdade.

— Só podia ser difícil. — Peter estendeu-lhe um copo de chá gelado. — Mas a cada dia parecerá mais fácil.

— Está tão evidente assim? — Christian pegou o copo, mas não conseguia beber. Tinha certeza de que, se introduzisse mais alguma coisa em seu corpo, explodiria.

— Criou-se com mais liberdade física do que a maioria dos garotos. A prisão deve ter sido particularmente insuportável.

Christian conseguiu sorrir.

— Não quero voltar para lá, se é que me entende.

— Foi o que imaginei. — Peter tomou uma cadeira próxima. — Cavalgou hoje?

— Não. — Christian fora conhecer os cavalos, porém sentia-se agitado demais para montar em um deles. Temia, uma vez no lombo de um garanhão, imitar os ancestrais e Partir ao encontro do pôr-do-sol.

O que achou dos cachorros?

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Christian ainda se sentia à vontade com os cães e apreciou a mudança de assunto.

— Está com uma excelente linhagem.

— Acha mesmo? — Peter parecia satisfeito.

— Como se saem no campo?

— Bem. Claro, sabe que colhemos sucessos e fracassos. Felizmente, temos tido mais sucessos, mas dois dos novos filhotes provaram-se uma decepção. Não sei se podem ser treinados. É uma das primeiras coisas que quero que veja, depois que se recuperar.

— Quais são?

— Clover e Balsam. Principalmente Clover. Comprei-a para procriar depois, é uma gracinha. Tem linhagem impecável. A mãe foi campeã americana e o pai ganhou o prêmio máximo na exposição de Bryn Mawr há dois anos. Paguei uma pequena fortuna por ela, porque precisamos de sangue novo. Mas tudo indica que tem cérebro de pulga, característica que não quero passar adiante.

— Darei uma olhada nela.

— Quer ir lá agora para serem apresentados?

Christian gostou da idéia. Corria menos perigo de se desintegrar se se movimentasse.

— Vamos lá. Peter deu-lhe um tapa nas costas.

— Vou buscar a jaqueta.

O canil ficava afastado o bastante da casa para não se ouvirem os latidos e próximo o bastante para facilitar o acesso. Como tudo o mais em Claymore Park, era estado-da-arte.

Três amplas salas arejadas abrigavam de uma a duas dúzias de pares de cães. Como costumavam treinar em duplas, geralmente eram contados assim, e não individualmente. As fêmeas ocupavam uma das salas, com um anexo para procriação, e os machos, as outras duas. Todas tinham plataformas, sobre as quais os animais dormiam, que eram recolhidas pela manhã, na hora da limpeza. Não era difícil ver os cães deitados uns em cima dos outros, sonhando felizes.

Anteparos de correntes separavam as salas de um corredor externo. Na espaçosa sala de alimentação, os animais

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faziam a festa duas vezes ao dia. Havia ainda um gramado de quatro mil metros quadrados cercado, para exercícios e recreação.

Peter cumprimentava cada cachorro com afeto, chamando-os pelo nome e recitando seus pontos fortes e fracos.

.— Este é Darth Vader...

.— Darth Vader?

Peter suspirou.

— Foi uma ninhada "D". Robby o batizou pouco antes do acidente. Ficava latindo para os cães mais fracos, e também para Robby. Está mais calmo, agora que envelheceu e foi capado.

— Mas Robby nunca se interessou pelos cães.

— Darth lhe chamou a atenção, imagino. Christian afagou Darth entre as orelhas.

— Esse era o ponto fraco dele. Qual é o forte?

— Tem mais energia por quilo do que qualquer cão da matilha, e um latido que se ouve até em Leesburg.

— É um cachorro de ótima aparência.

Darth apresentava todas as características físicas que os criadores apreciavam. Pescoço comprido, que facilitava baixar a cabeça para seguir a pista de uma raposa, pés e pernas perfeitos para cobrir muitos quilômetros, peito fundo e costelas amplas, com bastante espaço para o coração e os pulmões.

— E quem é esta? — Na sala das fêmeas, Christian reparou na cadela de língua para fora.

— Ah, é Lizzy. Consegue encontrar uma agulha em um palheiro.

— Desde que encontre uma raposa...

Christian tentou se imaginar controIando aquela matilha. Cada animal era um indivíduo com talentos únicos. Alguns lideravam, outros seguiam. Alguns captavam todos os cheiros, mas logo perdiam o interesse, enquanto outros se mostravam incrivelmente tenazes. Pela primeira vez, experimentou uma breve pontada de entusiasmo pelo novo emprego.

Peter tomou o rumo do pátio.

— Vamos ver Clover e Balsam.

Os filhotes ficavam em um alojamento só para eles. Christian passara só um minuto ou dois ali naquele dia. O canil

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pequeno lhe lembrara demais sua cela. A segunda visita já não o oprimia tanto.

No abrigo dos filhotes, semelhante ao alojamento maior, Peter apresentou Christian a Balsam, um macho de corpo comprido que rosnou ao ver o estranho.

— Nada sociável — constatou Christian, mexendo os dedos na direção do cão, que finalmente os farejou e aprovou, hesitante.

— Deve ter acontecido alguma coisa com ele antes de vir para cá — opinou Peter. — Espero que consigamos reverter, pois planejava colocá-lo para procriar.

Christian coçou as orelhas do filhote, que se achegou mais.

— Já vi isso antes. Vou lhe dar atenção extra, para ver se ele adquire autoconfiança.

— Venha cá, Clover. — Peter acocorou-se e estendeu a mão para um grupo de filhotes a alguns metros de distância. Três dos quatro atenderam ao chamado. O que permaneceu onde estava coçava-se indolente e perdeu o equilíbrio após duas investidas ao acaso.

— Esta só pode ser Clover. — Christian aproximou-se do filhote, que, em vez de se endireitar, deitara-se de costas para agitar as quatro patinhas em êxtase.

— Ou se trata do animal mais retardado que já se produziu na Virgínia, ou é inteligente demais para se submeter aos humanos.

— Eu não apostaria na segunda hipótese. — Christian afagou o ventre do filhote, que estremeceu de prazer. Era bonito, tricolor como os outros, e, pelo que podia ver daquele ângulo, bem-formado. — Qual a idade?

— Mais de um ano.

— Já se exercitou com os demais?

— Já, e parece que adora cavalos. Põe-se na frente deles sempre que tem a oportunidade. Còloquei-a em dupla com um cão mais velho durante duas semanas para ver o que acontecia, e ela só o atrapalhou. Ele não conseguia fazer nada com ela por perto. Não sei quanto tempo ela duraria em um passeio, quanto mais em uma caçada.

— Vou observá-la por algum tempo e lhe dou meu parecer.

— Faça o que achar melhor. Custou-me caro, mas não

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vou insistir em uma cadela que não tem futuro na minha matilha.

Christian afagou o filhote mais uma vez antes de se levantar.

peter também se ergueu e se juntou a ele.

— Você parece bem aqui, filho. À vontade. Como se fosse o Seu lugar.

— Entendo os cães mais do que às pessoas.

— E confia mais neles.

— Talvez.

— Um cachorro sempre fica do nosso lado. Christian passara boa parte do dia pensando nas duas pessoas que haviam permanecido a seu lado durante seus anos na prisão. Já agradecera a Peter pelo apoio, mas ainda não procurara Maisy Fletcher. Percebia agora que precisava cuidar dessa pendência antes de começar vida nova. Jamais voltaria a se sentir à vontade na própria pele, a menos que corrigisse os erros e seguisse em frente.

— Vou ficar mais um pouco aqui, mas não se prenda por mim, se tiver planos para a noite — declarou Peter.

Christian enfiou as mãos nos bolsos.

— Pensei em visitar Maisy.

— Maisy?


— Ela me escreveu todos os meses enquanto eu estava em Ludwell. Nunca respondi.

— Maisy é mesmo inestimável, mas, de todas as pessoas, entenderia por que você nunca escreveu de volta.

— Eu não conseguia — explicou Christian. — Não tinha nada a dizer.

— Tem certeza de que está pronto para vê-la?

— Não estou com vontade de passar mais uma noite sentado. E lhe devo um agradecimento.

— Bem, sabe que pode usar qualquer veículo da propriedade.

Agradeço, mas vou a pé. Acho que minha carteira de habilitação expirou.

" Posso levar você. A menos que queira mesmo ir a pé até a casa dos Fletcher... Vai me fazer bem.

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— Então, dê minhas lembranças a Jake e Maisy.



— Darei.

Separaram-se à porta do canil. Peter ficou para tomar conta do sistema de água, e Christian saiu para iniciar a caminhada rumo a Ashbourne.

Percorrera aquele trajeto milhares de vezes com Robby, de bicicleta, ou a cavalo, ou a pé com varas de pesca, para poderem fisgar o jantar em seu lugar favorito, no córrego de Jeb Stuart. Mapeara atalhos para dias chuvosos, as rotas mais bonitas para apreciar em dias preguiçosos, quando só queria pensar, e também as melhores trilhas para arrancar o máximo de velocidade de um garanhão, ou os maiores saltos.

Agora, sentia-se meio em pânico ao procurar o caminho mais direto, aquele que usara como rapaz que não suportava ficar separado da moça que amava. Esquecera-se da trilha, ou os pontos de referência haviam mudado tão drásticamente que a caminhada fácil parecia se emaranhar em um labirinto.

O crepúsculo se adensava e, por um segundo, estacou imóvel, o corpo rígido e a respiração rasa. Então, aos poucos, obrigou-se a olhar em torno e estabelecer outra rota segura. Que importava ter-se esquecido do caminho predileto para a casa de Júlia? Após a visita a Maisy, duvidava de que precisaria dele novamente.

No fim, indeciso entre mais de dez trilhas possíveis para Ashbourne, desistiu e escolheu a estrada.

— Quando era pequena, eu vinha aqui pegar vaga-lumes. No frio da noite, Júlia e Callie mantinham-se abraçadas no jardim de Maisy. A menina acabara de descrever cada flor.

— Você os colocava em potes de vidro? Acho malvadeza.

— Eu os colocava em potes de vidro, sim, mas sempre os soltava antes de voltar para casa. Uma vez, dei uma festa aqui. Eu e uma amiga capturamos dezenas deles e fizemos Ianternas, para iluminar o jardim. Então, os meninos chegaram, soltaram os vaga-lumes e começaram a nos perseguir no escuro.

— Essa amiga era a moça que morreu?

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Júlia entendia o fascínio da filha pelo tema, embora preferisse que ela o esquecesse.



Era Fidelity.

.E quem eram os meninos?

Júlia cogitou por que começara a contar aquela história.

.Não se lembra dos nomes? — Callie parecia incrédula.

Um deles se chamava Robby. Era o filho de Peter Claymore. Ele também já morreu. Em um acidente de carro, logo depois que você nasceu.

— Você não tem sorte com os amigos. Júlia não sabia se ria ou se chorava.

— Parece que não.

— Quem mais veio à festa? Papai veio?

Por um instante, transtornada, Júlia ficou sem resposta, mas tratou de se recompor.

— Não, seu pai não veio. Havia só mais um menino, chamado Christian. Ele também morava em Claymore Park. O pai dele trabalhava lá.

— Ele também já morreu?

Júlia refletiu. Fora Callie quem contara à família que Karl Zandoff confessara o assassinato de Fidelity. Se ainda não ouvira o nome de Christian, logo ouviria. Em breve, toda Ridge's Race estaria comentando a saída dele da prisão.

— Callie, lembra-se de como fiquei confusa quando me falou do homem mau que matou Fidelity?

— Lembro.

— Bem, foi porque, por muito tempo, todos acreditaram que Christian era o assassino.

— Acharam que um menino tinha matado a moça?

— Não, ele já era adulto na época, querida. E foi condenado pelo crime, embora agora saibamos que era inocente.

Ele ficou preso sem ter matado ninguém? Isso não é Justo.

"— Não mesmo. -- Você tentou libertá-lo? Júlia não respondeu.

Alguém devia ter tentado — opinou a filha, indignada. " Eu teria.

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— A maioria das pessoas acreditou que ele tinha mesmo feito aquilo.



— Você também?

Júlia considerou mentir, mas concluiu que o sentimento de culpa não a deixaria em paz.

— Não, mas nem sempre tive certeza absoluta.

— Ele está louco?

— Louco?

— Louco da vida por ter ficado preso sem ter matado ninguém.

— Deve estar muito louco, sim.

— Eu estaria.

Júlia decidiu encerrar a conversa.

— Hora de dormir. Tem escola amanhã.

— Como vai entrar? Está escuro.

— Isso não faz diferença para mim, lembra-se?

— Pode cair.

— Tenho uma proposta. Você entra e veste sua camisola. Se eu ainda não tiver entrado depois que você escovar os dentes e lavar o rosto, poderá sair de novo e procurar por mim.

— Não preciso tomar banho?

— Não, se prometer tomar amanhã cedo, antes de ir para a escola.

— Prometo!

A menina levantou-se em um salto e abraçou a mãe rapidamente. Então, tomou o rumo de casa pelo caminho de lajes.

Júlia sentiu-se grata pelo silêncio. Aquele dia parecia ter durado umas cem horas. A viagem até Warrenton e a sessão com Yvonne Claxton lhe exigiram uma energia considerável. Descrevera o dia do acidente e suas conseqüências. Explicara por que deixara a clínica do dr. Jeffers e seus motivos para voltar a morar com Maisy e Jake.

— Seu casamento é bom? — indagara a terapeuta.

— Nunca penso nele — replicara, evasiva.

— Está casada há nove anos, não é?

— Isso mesmo.

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Quer dizer que, ao longo de nove anos, nunca pensou no estado de seu casamento?

— É só um casamento. Assinei na linha indicada. Bard tem características que me agradam e outras que me desagradam, como todo mundo.

— E como lida com as características desagradáveis dele?

— Ignorando-as.

— Júlia, percebe que está descrevendo um outro tipo de cegueira?

Júlia voltou ao presente. Não queria pensar na sessão de terapia nem nos problemas que Yvonne parecia determinada a descobrir. Gostava dela e, se alguém podia ajudá-la, era Yvonne. Mas sentia que o processo seria doloroso, não importava o quanto a terapeuta se mostrasse paciente e gentil.

A noite esfriava. Vestira um suéter, mas a peça não a manteria aquecida por muito tempo. Supunha que deveria iniciar a caminhada de volta à casa, mas os sons e aromas do jardim a seduziam. Já não havia pirilampos, mas os grilos continuavam estriduIando, enquanto, ao longe, sapos coaxavam e o gado peludo de Ashbourne mugia. O perfume doce das clematites e das oliveiras impregnava o ar, como em todos os outonos de sua vida.

Sem delongas, colocaria a filha na cama e também se deitaria. Maisy lhe leria mais um capítulo de seu livro e então poderia tentar dormir. Só imaginava que vozes Yvonne libertara naquele dia, e se a manteriam desperta.

Foi quando ouviu uma voz que imaginara perdida para sempre.

— Olá, Júlia.

Girou o corpo no banco, seguindo o som com seus olhos cegos.

Christian?

Eu mesmo, Ela percebia o pânico na própria voz. O que faz aqui? Ele riu áspero.

Calma! Desculpe-me por ter assustado você. Não vim para cortar seu pescoço.

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— Não foi isso que eu...



— Perdão. Parece que me acostumei com piadas tétricas.

— Você me pegou de surpresa. Foi só isso. Christian continuava falando de uma certa distância.

— Está sozinha aqui? Ou corro o risco de levar um soco do seu marido a qualquer momento?

— Bard? Por que Bard agrediria você?

— Tivemos uma conversinha amigável...

— Mesmo assim, você veio?

-— Não teria vindo se soubesse que você estava aqui. Vim visitar sua mãe.

Júlia lembrou-se de que já devia ter entrado, e de que sua filha poderia sair a qualquer momento para procurá-la. Seu pânico aumentou.

— Não quis dizer o que pareceu. Lamento que ele tenha ameaçado você. Se ele o advertiu a não me procurar...

— Foi perda de tempo. Eu não pretendia mesmo procurar você.

— O que quero dizer é que não gosto que ele... nem ninguém, faça ameaças em meu nome.

— Prefere fazê-las pessoalmente?

— Podemos começar esta conversa de novo?

— Como, exatamente?

O silêncio se impôs. Júlia nunca lamentara tanto sua cegueira. Era como se flutuasse em um espaço escuro. Quando Christian não falava, não tinha idéia de onde ele estava ou o que fazia.

Pior, não podia vê-lo. Após nove anos longe dele, imaginando, em seus momentos mais vulneráveis, quanto ele mudara, não podia vê-lo para constatar as diferenças.

Gostaria de saber exatamente o que ele pensava dela, uma cega sentada sozinha na escuridão.

— Não ouvi nenhum carro.

— Vim a pé.

— Pela trilha dos fundos?

— Não. Vim pela estrada, até que reconheci o desvio-

— O fazendeiro que arrendou a terra fez umas mudanças. Arrancou árvores velhas, plantou quebra-ventos, refez trilhas...

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— Nove anos são muito tempo — reconheceu ele. — Tudo mudou.



— Christian, eu...

— Não diga, Júlia. — Ele parecia mais próximo agora.

— Como sabe o que eu ia dizer?

— Não consigo imaginar nada que você pudesse dizer que eu gostaria de ouvir. Que ficou feliz por eu ter saído da cadeia. Que sempre acreditou que eu era inocente. Nem a verdade: que você acreditou que matei Fidelity. Supondo que fosse admitir, finalmente.

Nem que você se casou com outro homem um mês depois que fui condenado e trancafiado na prisão.

Essa última frase, Christian não verbalizou, e Júlia nunca se sentiu mais grata pelo silêncio.

Tinha a impressão de que ele estava bem em sua frente agora.

— Parece que não temos muito o que conversar, então,

— Vim visitar sua mãe. — Christian fez pausa. — Mas continuo chegando na hora errada. Como no dia em que encontrei Fidelity caída em uma poça de sangue. Se tivesse chegado meia hora depois, ninguém teria me acusado de matá-la. Eu não teria sido flagrado com meu próprio canivete na mão. Outra pessoa teria encontrado o colar dela na escada e...

— Christian...

— Júlia, você não consegue nem olhar para mim, não é? Mudei tanto assim, ou está mesmo com medo?

— Eu...


— Mamãe!

Júlia enrijeceu-se. A filha ainda estava dentro de casa, mas em um segundo sairia ao jardim para buscá-la. A filha deles. É sua filhinha?

, Júlia nem respondeu, frenética para impedir que a menina saísse.

- Já vou entrar, querida! — gritou. — Fique aí! Cristian achegou-se mais. Ela ouviu o esmagar de folhas secas sob seus sapatos, o salto arranhando a laje.

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—- Não se preocupe, já estou indo. Não terá de proteger sua filha de mim. Visitarei Maisy noutra ocasião.



Júlia não podia deixá-lo ir embora desse jeito. Não importava o quanto temesse por Callie nem quão humilhada se sentia por ter sido traída por sua visão, fato que Christian não notara devido à escuridão. Amava-o. Juntos, haviam gerado uma vida. Desde então, de infinitas maneiras, ele vivera em seu coração.

— É sempre bem-vindo aqui, Christian — sussurrou. —. Estando eu aqui ou não. E, por mais amargurado que se sinta, espero que um dia nos perdoe a todos.

— Eu também.

Ela pensou detectar um resquício do homem que amara, Ele sempre fora a pessoa mais honesta que já conhecera, aquele que achava impossível mentir.

No entanto, quando ele mais precisara que acreditasse nele, ela duvidara.

— Sei que não quer ouvir nada disto — finalizou, tão baixo que ela mesma mal ouvia. — Mas lamento terrivelmente...

— Acertou. Não quero ouvir.

Júlia ouviu o esmagar de folhas novamente, desta vez mais longe. Arbustos farfalharam. Então, o silêncio imperou. Christian se fora.

— Mamãe, vai entrar ou não vai? — berrou Callie, lá de dentro.

Júlia levantou-se e tomou o rumo da casa aos tropeções, para executar o ritual da hora de dormir. Mas sabia que, quando Callie já estivesse na cama, Maisy tivesse acabado de ler seu capítulo e a casa estivesse silenciosa finalmente, ainda ouviria as palavras de Christian.

Vezes e vezes sem conta.

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