Emilie Richards



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CAPÍTULO XI
Nove anos haviam se passado desde que Karl Zandoff enterrara as jóias de Fidelity Sutherland entre estacas de cerca, entre propriedades, entre a esperança de exoneração de Christian e a realidade de sua condenação. Às dez e meia da manhã de segunda-feira, quando folhas de outono iniciavam sua espiral anual e uma das duas equipes de escavação parava para esvaziar um bule de café fumegante, Pinky Stewart, investigador da repartição do xerife então manejando uma pá, bateu em uma lata metálica que já contivera um ungüento.

Seis horas depois, e somente porque Peter Claymore tinha muita influência política, Christian Carver deixava o Presídio Estadual de Ludwell.

Mel Powers tinha a testa reluzente, mas não tanto quanto seus olhos. Era um homem emotivo, característica que explorava ao máximo nos tribunais, mas não a ponto de não calcular seu movimento para a próxima apelação. Desde que chegara a Ludwell naquela manhã, vinha alternando lágrimas de vitória com sorrisos devoradores.

Christian não sorrira nem chorara. Sentia-se como um gamo surpreendido por faróis, sem saber se ficava ou fugia, incapaz de raciocinar rápido o bastante para tomar uma decisão. Havia anos, desistira do sonho da liberdade, e então o reclamara, à confissão de Zandoff. Agora que o sonho se tornara realidade, não conseguia pensar adiante.

Não tivera tempo sequer para se despedir dos homens com quem trabalhara, de Iandis e de Timbo, que dependiam dele para instruções e conselhos. Em um segundo, vestia a

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roupa de trabalho da prisão, no outro, trajava o terno que claymore lhe comprara para a ocasião. Algemado, transportado em um furgão da prisão para o mesmo tribunal em que perdera a liberdade, agora a reencontrara.

De pé no topo da escadaria do tribunal, assombrou-se com o sol batendo em sua cabeça descoberta. Tomara banhos de sol quase todos os dias desde o encarceramento, mas o ar e o sol pareciam diferentes ali, como se adentrasse um universo totalmente diferente. Por um instante, encheu-se de pânico, temeroso de respirar porque seus pulmões poderiam se envenenar, temeroso de se mexer porque o sol, não adulterado pelas sombras das muralhas e cercas de arame da prisão, poderia lhe derreter a pele.

Recusava-se a dar declarações, mas as equipes de reportagem estavam lá, mesmo assim. As câmeras voltadas em sua direção eram muito mais avançadas tecnologicamente do que aquelas de que se lembrava. Sentiu uma estocada de pânico mais aguda.

Peter puxou Christian degraus abaixo.

— Filho, está livre. Não vão encontrar nada que possa colocá-lo atrás das grades outra vez. Agora, vamos correr para o meu carro.

Christian fez careta, louco para tirar a gravata.

— Vamos logo.

Já estava seguro dentro do clássico automóvel de luxo de Peter antes que alguém voltasse a falar. Conscientizou-se da poltrona de couro sob as mãos, do ronronar de um motor perfeitamente afinado. Percebeu que estava exausto, esgotado, como se uma mão invisível lhe arrancasse tudo o que mantinha um homem andando e respirando.

— Aonde estamos indo? — indagou, finalmente. Peter pôs a mão em seu joelho.

— Aonde você quer ir?

Christian quase respondeu ”para casa”. Mas não existia tal lugar e, provavelmente, nunca existira.

— Um bar — decidiu Mel, já que o cliente não respondia. O primeiro que aparecer. Chris precisa se alimentar, e de uma bebida forte. Eu também.

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Christian jurara nunca beber, antes de tomar o primeiro drinque, resultado de ser filho de Gabe Carver. Agora,imaginava se o pai compreendera algo que a ele escapara.



— Christian? — instigou Peter.

— Isso mesmo. — Christian recostou-se e fechou os olhos — O primeiro bar que aparecer.

Júlia já conseguia se deslocar pela casa tropeçando só de vez em quando. Karen arrumara suas gavetas e artigos de toalete de modo a encontrar tudo de que precisasse. Maisydesatravancara todos os corredores e cómodos. Júlia já aprendera até a sair ao jardim, cujo terreno Jake nivelara para que ela nunca tropeçasse em uma pedra. Agora que haviam estabelecido o básico, ela pouco tinha com que ocupar a mente.

Mas nada a teria livrado de Christian Carver, de qualquer forma.

— Júlia, vou fazer um bolo. Quer misturar a massa? Por hábito, Júlia ergueu o rosto ao ouvir a voz da mãe

Karen saíra pouco antes das três horas, para pegar mais roupas suas em Millcreek, e ainda não voltara. Sabia que o bolo de Maisy era só uma desculpa para mantê-la ocupada, mas estava mais do que disposta a compactuar.

— Vai me deixar lamber a tigela?

— Não contarei às salmonelas se você não contar.

— Não sei se posso ajudar. Talvez acabe com mais louça suja na pia do que o necessário.

— Eu me arrisco. — Maisy parecia hesitante. — Espero você na cozinha, querida.

Certa de que a mãe queria lhe tomar a mão e conduzir, Júlia se surpreendeu quando ela não se ofereceu. Atravessou o corredor sem problemas e dobrou a esquina para a cozinha, onde sua sorte acabou. Tateou a beirada do balcão para se orientar e sua mão tocou em algo frio e liso. O contato durou menos de um segundo. O objeto espatifou-se no chão.

— Droga!


— Calma, Júlia. Era só uma tigela. Eu não devia ter deixado tão na beirada. A culpa foi minha.

— Não, não foi. — Júlia tinha vontade de golpear algo

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ou alguém. E ficar só na vontade não satisfazia nem um pouco.



- A culpa é minha por ser cega.

Estou recolhendo os cacos. Não venha para cá enquanto eu não terminar.

Quando é que isto vai terminar? Se é tudo coisa da minha cabeça, não acha que algum parafuso deveria se soltar e então eu voltaria a ver?

- Acho que, se fosse tão simples, você não teria perdido a visão, em primeiro lugar.

Como vou tomar conta de Callie se não enxergo para onde estou indo? Se não enxergo quem vem vindo?

Maisy não respondeu de imediato. Júlia ouvia o esfregão no chão, o tilintar da cerâmica, o deslizar do pano de limpeza.

É esse o problema, não é? — replicou Maisy, por fim.

— Uma coisa é ficar cega de repente. Já é bastante terrível. Mas estar cega e temer que Christian volte...

— Não é por causa de Christian. -Não?

Desta vez, foi Júlia quem não respondeu. Queria negar a verdade novamente, mas com que freqüência agira assim ao longo dos anos, e quanto dano causara?

— Foi para falar de Christian também que a convidei a me ajudar aqui — explicou Maisy.

— Não sei por que falarmos do que aconteceu. Não posso mudar meu depoimento agora. Não posso recuar nove anos no tempo e dizer o que não disse então.

— Não é do passado que quero falar, querida. Pode se aproximar agora. Já limpei o chão e não há nada nos balcões em que você possa esbarrar.

Júlia deu um passo vaciIante.

Não vai sobrar muita coisa na casa depois que eu terminar com isto.

Fazia muito tempo que precisávamos nos livrar dos retugos. Venha até a geladeira, para trabalharmos no balcão ao lado dela.

— Tem outra tigela?

Está fIando com a rainha da cerâmica. Julia caminhou até a geladeira e dobrou à direita, posicionando-se diante do balcão.

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— Vou colocar a tigela na sua frente, com a mistura do bolo dentro, e então começar a adicionar os ingredientes. Você deve começar a mexer em um minuto. Eis a colher de madeira.



Júlia sentiu o utensílio nas costas da mão e o pegou.

— Qual é o assunto, então, se não se referia à maneira como abandonei Christian?

— Você não o abandonou. Era jovem e tinha acabado de perder sua melhor amiga. Quase todos acreditavam que Christian havia matado Fidelity, e havia provas suficientes para convencer um júri. Sentiu-se dividida. Foi só isso.

— Basta. No banco das testemunhas, quando o promotor me perguntou se eu tinha certeza absoluta de que Christian não tinha matado Fidelity, não consegui responder.

— Júlia, Flô telefonou há pouco.

Júlia apertou a mão em torno da colher. Ouviu a mãe lhe empurrar a tigela. Teve vontade de destruir mais aquela

— O que foi que ela disse?

— Encontraram as jóias de Fidelity onde Karl Zandoff disse que estariam. Isso mais a confissão dele bastaram para libertar Christian, pelo menos até que encerrem as investigações e ele possa ser absolvido. Houve uma audiência de emergência esta tarde. Flô disse que Christian pode sair da prisão ao anoitecer, se não antes.

Júlia fechou os olhos, embora pouco adiantasse.

— Como ela está enfrentando isso?

— Não conversamos a respeito. Ela só queria que eu transmitisse a mensagem a você.

— Ela sabe que estou morando aqui?

— Não sei. Mas parecia pensar que você deveria receber a notícia por mim e não por Bard.

Júlia digeriu as informações. Não contara a ninguém que se mudara para a casa da mãe. Aliás, poucas pessoas sabiam do ocorrido. Bard declarara aos amigos que ela ficara muito abalada com a queda do cavalo e cumpria ordens de repouso do médico. Mas a notícia logo se espalharia.

— Pode começar a mexer agora.

Júlia tateou a borda da tigela até ter boa noção de seus limites, mergulhou a colher com cuidado e começou a misturar lentamente os ingredientes secos e molhados.

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- Para onde ele irá?



Acho que ninguém sabe, mas...

completou para a mãe:

Mas Peter vai se oferecer para acolhê-lo. Acho que ele não monta em um cavalo desde... — A voz lhe falhou. Encostou a colher na lateral da tigela e ficou imóvel, as costas retas como uma estaca de madeira, tentando não chorar.

Se Maisy notou, não deu mostra.

Mas aposto como manteve a forma. Sempre se exercitou. Talvez demore um pouco para recuperar as pernas, mas vai conseguir. Júlia respirou fundo.

— Não o quero aqui.

— Tem muitos motivos para isso.

— Não, é só um. Não o quero perto de Callie.

— Entendo.

— Será?


— Não quer que Christian descubra que Callie é filha dele.

— Não quero que mencione isso nesta casa.

— Querida, Callie está na casa de Tiffany. A casa não vai reproduzir o que dissemos quando ela entrar pela porta da frente.

— Você aborda isso o tempo todo. Comenta que Callie se parece com o pai. Lembra que Christian teve o mesmo problema de aprendizagem quando criança. Observa que Callie inclina a cabeça do mesmo jeito que Christian.

— E inclina.

— Planeja despejar a verdade em cima dela algum dia, Maisy? Deixar escapar, como quem não quer nada: ”Oh, aquele filho da mãe do Bard Warwick não é seu pai verdadeiro!?

— Júlia, não sou eu o problema.

A mãe tinha razão, e Júlia sabia disso. Foi a gota de agua. AS lágrimas que tanto lutara para subjugar rolaram.

Ouviu a mãe empurrar a tigela para o fundo do balcão e então sentiu seus braços estreitando-a. Rodeada pela fragrância de violetas de Maisy e pelo cheiro da massa de bolo, chorou mais ainda.

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-É uma bifurcação na estrada — comparou Maisy,a afagando-lhe os cabelos. — Quando você não consegue sequer andar em linha reta. Mas vai conseguir. Já pode. Vai superar isto, querida, e fazer todas as escolhas certas. Não tenha dúvida

Para variar, Júlia sentiu-se profundamente grata sufocada nos braços gorduchos da mãe. Entre os soluços, imaginou quem estaria confortando Christian. Nessa bifurcação crucial da estrada, quem lhe indicaria o caminho certo? Quem o abraçaria e tranqüilizaria? Sabia, sem sombra de dúvida, que deveria ter sido ela

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CAPÍTULO XII
O bar Horseshoe não ganhara fama por sua cozinha. O cardápio era limitado, o cozinheiro, indiferente. Não obstante, Christian nunca comera nada mais gostoso do que o sanduíche de bife e as batatas fritas que Peter pedira para ele.

Já não dominava a fina arte de fazer seu próprio pedido. Diante do menu restrito, paralisara-se. Após quase nove anos em que a comunidade da Virgínia decidira por ele, o cardápio lhe parecera tão incompreensível quanto um texto de neurocirurgia.

Sentindo seu dilema, Peter recomendara o sanduíche de bife, e então pedira uma rodada de cerveja para todos. Christian já degustava o segundo copo, enquanto esperavam o cheesecake descongelar.

— Está melhor? — indagou Peter.

Christian desenhava anéis na condensação do copo.

— Estou. Obrigado.

— Tudo aconteceu muito rápido.

Christian tentou sorrir, mas estava sem prática.

— Ou não rápido o bastante.

— Nove anos, não rápido o bastante — opinou Mel.

— Vai levar uns dias para se adaptar, filho — avisou Peter. — Tem de se dar um tempo. Não espere demais logo de cara. Relaxe e vá com calma.

Mel poliu os óculos e então os ergueu contra a lâmpada incandescente pendurada sobre a mesa.

— O que nos leva ao que pretende fazer. Não teve muito

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tempo para pensar nisso mas deve ter passado por sua cabeça.

— Preciso arranjar um emprego e começar a ressarcir Peter por tudo o que fez.

— Já pensou em que tipo de emprego?

— Talvez Bertha Peterson me ajude a encontrar algo. E tirei meu diploma de Biologia enquanto estava atrás das grades. Deve haver emprego por aí para um ex-condenado formado em biologia.

— Eu tenho vaga para alguém com essas características. — Peter, que parecia tão à vontade naquela espelunca quanto montado em um cavalo de caça premiado, inclinou-se para a frente e e pousou os braços na mesa. — Quero que volte para Casa, Christian. Preciso de você lá.

Christian tivera quase certeza de que Peter lhe ofereceria emprego, e a mesma certeza de que recusaria. Mas não esperara ouvir peter dizer que precisava dele. Pego de surpresa, não sabia o que dizer.

— Christian, falta menos de um mês para a abertura da temporada de caça, e Mosby Hunt precisa de um organizador de caçadas. Testei dois homens, mas nenhum se mostrou capaz de fazer o tipo de trabalho que espero, e já estou velho demais para fazê-lo eu mesmo. Precisamos de alguém que entenda da reprodução e treinamento, para trabalhar com o veterinário e o pessoal do canil. Você teria ajuda, claro. Toda minha equipe estaria a sua disposição. Mas...

— Não POSSO. — Para um homem incapaz de escolher entre um sanduíche de bife e um filé de frango, essas duas palavras saíram facilmente.

Peter calou-se, e Mel tomou a palavra:

— Teve tanttas ofertas que já se decidiu por algo melhor, Chris?

Christian ignorou o advogado.

— Peter, não precisa de mim. Deve haver cem homens mais qualificados do que eu para ser seu organizador de caçadas. Não monto em um cavalo desde...

— Eu levaria isso em conta em se tratando de qualquer outra pessoa, mas você aprendeu a montar antes de andar. Seu pai cuidou disso. E eu mesmo ensinei você a caçar. Nunca vi alguém com instintos tão aguçados. Tornou-se batedor

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antes de completar quinze anos e, metade do tempo, era quem conseguia acompanhar os cachorros, quando Samuel começou a falhar.

Samuel Fincastle fora o organizador de caçadas do clube por quase vinte anos, e falecera enquanto Christian estava preso, tanto que não pudera lhe prestar a última homenagem. Apenas mais um entre muitos desgostos.

. Vai recordar tudo em um piscar de olhos, e então se sentirá em casa — assegurou Peter. — Enquanto isso, eu mesmo comando as caçadas. Você participa pelo resto da temporada, até se sentir apto a assumir. — Esboçou um sorriso. — Não gostaria de estar na sua pele após a primeira ou segunda cavalgada, após tanto tempo parado.

— Mesmo que eu me adaptasse logo, o que mais sei? Por que voltar ao passado?

Peter recostou-se.

— Quer saber por quê? Porque foi você quem ensinou meu filho a montar, Christian, quando todos já haviam perdido a paciência. E inúmeras vezes ficou de vigília cuidando de éguas que teríamos perdido, se não fosse você. Foi quem me convenceu a nos concentrarmos em cães de caça americanos para fortalecer as linhagens no nosso canil, e estava certo, embora todos fossem contrários.

Christian ergueu a mão.

— Eu era um garoto, e aquela era outra vida.

— Depois, apesar de tudo, conseguiu tirar seu diploma em curso superior e administrar um programa de cães-guia bemsucedido. E ainda pergunta por que quero você? Por que tenho certeza de que vai trabalhar com afinco e honestidade, ajudando um velho a preservar aquilo por que tanto trabalhou?

— Não estou vendo nenhum velho por aqui. Peter expressou tensão.

— Estou com sessenta e dois anos. Quero diminuir o ritmo e preciso de alguém de confiança com quem contar.

Christian jamais ouvira Peter pedir ajuda. Peter era sempre aquele que dava a mão. Por isso, não tinha certeza se se tratava de um estratagema para induzi-lo a aceitar assistência.

— Será que o problema é voltar para Ridge’s Race? —

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sugeriu Mel. — Ficar próximo demais ao que aconteceu? Seria apavorante demais?

— Ponha logo todas as cartas na mesa — recomendou Peter, seco.

— Por que não tocar no assunto? Christian não é exatamente um herói local, concorda? As pessoas levam tempo para mudar de opinião a respeito de coisas assim. Não admitem a possibilidade de terem cometido um erro tão grave.

— Ainda estou aqui — protestou Christian. — Posso não ser capaz de pedir um sanduíche sem começar a suar, mas ainda consigo falar.

— Responda — exigiu Mel.

— Sim e não.

— Eu sempre disse que a diplomacia era uma arte perdida. Talvez não. — Peter liberou a mesa para que o homem de braços peludos lhes servisse o cheesecake.

Christian pegou sua porção antes que derretesse mais. Tentou recordar a última vez que saboreara uma sobremesa a se desmanchar para fora do prato.

— Christian? — Mel indicou o relógio de pulso.

— Sabem, aprimorei-me em cuidar de minhas costas e ainda mais em ignorar o que não me diz respeito. Tenho outro motivo para voltar a Ridge’s Race.

— Se pensa que pode retomar sua vida de onde parou... — advertiu Mel.

— Nada disso. — Christian não tinha a ilusão de que encontraria tudo igual em Ridge’s Race, supondo que assim o desejasse.

— O que seria, então? — especulou o advogado.

— Quero saber exatamente o que aconteceu com Fidelity.

— Sabemos o que aconteceu com Fidelity — replicou Mel, de boca cheia. — Karl Zandoff a matou. O que mais quer saber?

— Ninguém o colocou na cena de fato.

— Ele mesmo se colocou lá — observou Peter. — Que é o que interessa agora. Para que cutucar mais?

— Até que apareça alguma testemunha, o povo vai continuar duvidando, não é?

— Quem se importa? — retrucou Mel.

— Quero saber o que aconteceu com ela — declarou Chris-

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- Quero saber como Karl Zandoff conseguiu fazer algo, se ninguém se lembra sequer de tê-lo visto no condado de Loudoun. Quero saber por que ele escolheu Fidelity, como soube que ela estaria sozinha e como conseguiu surpreendê-la desprevenida. — Bateu a palma da mão contra a mesa. Quero esclarecer esse crime de vez. É só no que penso. Preciso descobrir, para poder seguir em frente.



Os outros dois homens calaram-se. Finalmente, Peter manifestou-se:

— Christian, é melhor deixar isso para as autoridades. A polícia da Flórida não vai permitir sequer que se aproxime de Zandoff, não gosta de leigos se metendo em suas atribuições. O fato de terem condenado você quando era inocente bastará para que limpem sua ficha. Eles que investiguem e apurem os detalhes a sua maneira.

— Eu, pelo menos, disponho do que restou de minha vida. Fidelity não teve a mesma sorte. Éramos amigos. Ela foi a primeira garota que beijei. Era enjoada e mimada, mas tinha bom coração. Não merecia morrer, e agora merece repousar em paz. Em paz mesmo.

Peter pousou a mão no braço de Christian.

— Não cabe a você providenciar isso.

Peter estava certo, mas Christian sabia que não conseguiria cruzar os braços e apenas assistir ao desdobrar daquela história, sem participar. De qualquer forma, não envolveria Peter.

— Quero você em Claymore Park — reforçou Peter. — Mas só se não for prejudicar você nem ninguém mais em Ridge’s Race. Quero que se cure, não que reabra feridas. — Fez pausa. — Vamos lá para casa, filho. Perdi meu menino, e você, nove anos de sua vida. Talvez possamos ajudar um ao outro, um pouco.

Christian não era filho de Peter, mas algo nos olhos deste revelava que o rapaz poderia preencher parte do vazio deixado pela morte de Robby. Peter permanecera ao lado de Christian durante aquele pesadelo, e agora Christian deveria ficar junto do benfeitor.

Eu vou, mas, enquanto não recuperar as pernas, vou exercitar só as éguas mansinhas.

Péter apertou-lhe o braço e então ergueu o copo de cerveja.

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— Um brinde à nova vida e ao novo organizador de caçadas do Mosby Hunt.



Christian e Mel ergueram suas bebidas em resposta. O tilintar dos copos de vidro lembrou a Christian a risada de Fidelity SutherIand.

— Foi uma noite difícil — comentou Jake, ajudando Maisy com a louça.

A liberdade de Christian não permanecera em segredo por muito tempo. Bard aparecera logo após o jantar para exigir novamente que Júlia voltasse para Millcreek, onde estaria segura.

Maisy gostaria de saber do que exatamente Bard queria proteger a esposa.

— Que recepção para Christian — retrucou, ao guardar o último prato no armário.

— Não é das melhores — concordou o marido.

Ante a recusa de Júlia em voltar a Millcreek, Bard deixou claro que advertiria Christian a se manter afastado de sua família, e ninguém conseguiu demovê-lo da idéia.

— Após Passar nove anos preso injustamente, ele volta e dá de cara com Bard Warwick fora de si - resumiu Maisy

— Mas terá apoio.

Do que está fIando?

— De Peter Claymore. De você. Ela não respondeu.

— Você lhe escreveu todos os meses, desde que foi condenado.

— Como sabe?

— Moro com você, esqueceu?

— Nunca disse nada.

— Dizer o quê? Que é uma mulher maravilhosa, de coração enorme?

- Um elogio sempre faz bem.

E não me custa nada. — Ele a beijou no topo da cabeça. — Vai visitá-lo, não?

— Você me conhece.

O marido lhe deu um tapa no traseiro e saiu. Maisy foi ao quarto de Júlia após se certificar de que a neta adormecera.

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- Tudo bem aí?



júlia contraiu a boca.

Estava pensando em Bard. Ele se sente ameaçado por tudo o que está acontecendo. Só fica à vontade quando sabe exatamente o que vai ocorrer em seguida. Mas isso é impossível, concorda?

Maisy achava que o genro era infeliz porque não tinha controle total sobre aquela situação.

Não importa o que faça, ele não vai conseguir impedir Christian de se aproximar de vocês duas. Callie vai acabar topando com ele. É inevitável.

— Um problema de cada vez, sim?

Que tal mais um capítulo do meu romance? Júlia não disfarçou o desânimo, mas, por amor à mãe, concordou.

— Acho que seria bom me distrair um pouco agora.

— É para já! — Maisy sentou-se em uma cadeira, enquanto Júlia se aninhava na cama. — Está gostando da história? Paramos no ponto em que Louisa viaja para a Virgínia, certo?

— Na verdade...

— Não está gostando?

— Na verdade, estou surpresa. Maisy riu.

— Por quê?

— A história é interessante. Já tinha escrito algo antes?

— Oh, rascunho há anos...

— Nunca me contou. Maisy refletiu a respeito.

— Talvez porque escrever signifique mais do que qualquer outra atividade para mim. Parece-me que as coisas mais importantes são aquelas de que não falamos.

— Refere-se a mim ou a você? Maisy revirou as páginas.

— Vamos ver como Louisa foi apresentada ao mundo das Caçadas. Relaxe e esqueça tudo o mais por alguns minutos.

Você nunca pede demais, não é? — Júlia fechou os olhos.

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CAPÍTULO XIII
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher

Avistei Sweetwater pela primeira vez da margem oposta de uma lagoa sombreada por salgueiros-chorões. Azaléias em todos os tons de rosa ladeavam o caminho de tijolos que levava à casa, e rododendros em botão espiavam do luxuriante dossel de uma floresta perene. A casa, do mesmo tijolo marrom, ficava em uma pequena elevação, orgulhosamente sustentada por colunas tão espessas quanto os troncos das magnólias e bordos que adornavam o tapete de grama esmeralda.

Annie me preparara. Durante a viagem, contara histórias sobre os homens e mulheres das propriedades próximas. Eram muito mais interessantes do que a maioria dos representantes de nossa classe, vivos, exuberantes, às vezes esmagadoramente ricos. Iríamos visitá-los, prometera Annie, todos eles. Davam-se chás, bailes, mas também compareceríamos a corridas e shows de eqüinos, e daríamos longos passeios a cavalo pelos bosques. A caça à raposa era um esporte de outono, mas poderíamos ajudar a exercitar os cães junto ao rio Fox, se tivéssemos vontade. A matilha se abrigava na fazenda Rio Fox, pertencente a Ian Sebastian, um dos melhores cavaleiros da Virgínia. Iríamos lá a cavalo após a sesta.

Eu não apreciava eqüinos tanto quanto Annie, mas os eventos sociais ali pareciam planejados para moças fogosas. Ao desembarcarmos da carruagem e tomarmos o rumo da

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casa, senti esvaírem-se de meus ombros jovens todas as expectativas. Espantei-me com os estábulos de Sweetwater, extremamente limpos e eficientes. O cavalariço-chefe, chamado Major, orgulhava-se de produzir as melhores montarias de uso geral do condado. Já se quisesse cavalos de caça campeões, explicou Annie, um cavaleiro deveria procurar a fazenda Rio Fox. Nossos cavalos também servem, mas os de Rio Fox papam todos os prémios e raposas.



A caminho da fazenda Rio Fox, minha prima esclareceu que a diferença entre os cavalos de Rio Fox e os de Sweetwater estava no temperamento. Ian Sebastian era destemido, capaz de domar até o garanhão mais recalcitrante. Apurava as linhagens visando à adaptação, beleza e inteligência, mas as montarias de Rio Fox não se destinavam aos covardes. Eram os cavalos mais ligeiros, que saltavam mais alto e derrubavam mais cavaleiros do que quaisquer outros na Virgínia. Era preciso um homem como Ian Sebastian para domá-los, e homens como ele eram raros. Havia demanda para os cavalos de caça de Rio Fox no mundo todo, mas somente os cavaleiros mais valentes os queriam.

A cavalgada foi gloriosa, através de bosques acarpetados de lírios silvestres e campainhas-da-virgínia, com cada colina prometendo uma vista nova e mais espetacular. Sempre, a distância, as montanhas estendiam-se ao céu, mas no instante em que atravessamos o leito de um córrego rumo a Rio Fox, foi como se o mundo de repente se ampliasse, com um céu mais azul, relva luxuriante como em uma pradaria e montanhas impondo-se mais altas e majestosas.

— Este é o cenário mais lindo do campo — informou Annie. — O ar parece mais puro aqui. Boa parte da floresta ainda é virgem, e fico imaginando se está aí a diferença.

— Já adentrou a floresta?

— A caçada ultrapassa as bordas. Ian é Mestre dos Cães e conhece cada árvore e leito de córrego. Sem ele como guia, um cavaleiro pode passar dias perdido.

Cavalgamos pelo que me pareceu um longo tempo e, no qual, eu já me cansava. Quando alcançamos uma larga

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corrente de água, limitada por denso bosque na margem oposta, Annie freou a montaria.



— Este é o rio Fox, o rio da raposa. Decepcionei-me.

— Nem parece um rio.

— Nunca foi, não como o James ou o Mississippi. A maior parte da água foi desviada há algum tempo para irrigar fazendas próximas. Isto é tudo o que resta dele. Só um córrego, infelizmente.

— A casa fica longe?

— Fica a uma boa distância, ainda. Vamos tomar o Ianche.

Adorei a ideia. A cozinheira de Sweetwater preparara uma bolsa de couro, que Annie prendera à sela. Dentro, encontramos biscoitos de presunto e ovos apimentados, maçãs desidratadas com nozes-pecã e fatias de bolo de limão que devoramos com todo o apetite da juventude saudável

— Aonde iríamos parar se acompanhássemos o curso do rio? — Eu vadeava na água a essa altura, com a saia verde do traje de montaria arregaçada até os joelhos e as botas largadas na margem alta.

A metros de distância, Annie conduzia os cavalos a uma faixa de pasto pouco além de uma elevação suave, para se alimentarem.

— Na floresta.

Disso eu já sabia. Annie comentara que seguiríamos pela borda da floresta até vermos a casa.

— Mas acaba lá?

— Não. Atravessa a fazenda Rio Fox e então vai lá para as montanhas. — Annie desapareceu além do rego.

Uma borboleta pousou em um narciso silvestre à beira da água, e a segui quando retomou o voo, pisando nas pedras do fundo. A água já me cobria as panturrilhas, e eu sentia as pedras redondas e lisas sob os pés descalços.

Não temia me perder, a despeito da advertência de Annie. Só existia um córrego e seria fácil voltar subindo a correnteza. Na tarde quente, a água era um contraste agradável. Vi-me na mata antes de pensar muito no assunto.

A copa da floresta sobre minha cabeça lembrava um guarda-sol no tom verde mais impressionante. Quando o sol ficou

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atrás, o ar se resfriou, úmido e carregado das fragrâncias a ninho e abeto. Trepadeiras-da-virgínia e videiras silvestres enroscavam-se em carvalhos e bordos mais velhos do que nosso país, e pássaros agitavam-se nos arbustos. O córrego se bifurcava, mas ainda seria fácil subir a correnteza depois, e escolhi o braço direito.

Não sei por quanto tempo vadeei. Fazia um dia preguiçoso e eu me sentia grata por andar com meus próprios pés novamente. No final do verão, eu já estaria acostumada a cavalgar por horas seguidas todo dia, mas ainda estávamos na primavera.

Quando ouvi um barulho alto vindo de minha frente, não me assustei. Os sons amplificavam-se na floresta. Um pássaro puIando em um ninho de agulhas de pinheiro podia soar como o galope de um cavalo em uma estrada vicinal. Parei e esperei, mas havia só silêncio e prossegui.

Na segunda vez que ouvi o barulho, cogitei se deveria continuar. Já não via a borda da floresta nem réstias do sol para me orientar. Estava na hora de dar meia-volta e subir a correnteza ao encontro de meu cavalo e de Annie. Preparava-me para fazer isso quando os arbustos altos na margem se abriram reveIando uma ursa preta com dois filhotes já bem crescidos.

Paralisei-me. Naquele dia tão encantador, não considerara nem uma vez o perigo. O rio Fox parecia um reino de conto de fadas e, até aquele momento, eu me sentira como uma princesa.

A água não deteria uma ursa. Disso eu sabia. E, mesmo que conseguisse escalar uma das árvores imensas na outra beirada, eu sabia que os ursos poderiam subir também. O urso preto não era a besta mais perigosa, mas uma fêmea com filhotes a reboque podia se mostrar agressiva. De início, a ursa pareceu não reparar em mim. Seus filhotes eram desordeiros, como toda criança, e ela bateu a cabeça de um deles, por mau comportamento. Então, orrorizada, vi que ela me notou. Equilibrando-se nas patas traseiras, rugiu um som aterrador que espero nunca mais ouvir em minha vida.

Não tinha nenhum plano. Planos eram para pessoas capazes

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de raciocínio. Tomei a pior atitude que poderia. Corri. Não pela água, mas adentrando a floresta, onde o solo mais plano permitia mais velocidade. Desviando-me de árvores e chocando-me contra arbustos, eu fazia mais barulho do que produziriam os três ursos juntos.

Não olhava para trás, temerosa de ver a ursa ganhando terreno e perder minha capacidade de avançar. Meu chapéu caiu e minhas roupas foram se rasgando, mas não diminuí o ritmo. A mata se tornava mais fria e úmida, com cheiro forte de folhas mortas, quanto mais eu me aprofundava nela. Finalmente, certa de que meus pulmões explodiriam espiei por sobre o ombro e descobri que estava só. A ursa permanecera na margem do rio com seus filhotes.

Agachei-me atrás de um toco de árvore e esperei, resfolegante demais para continuar. Por fim, minha respiração se normalizou e o coração se acalmou. Ouvia sons da floresta ao meu redor, mas nada dos ursos.

Creio que fiquei lá por uma hora. Sabia que Annie devia estar frenética, certa de que eu me perdera. Finalmente, levantei-me e avaliei minha localização. Tinha certeza de que encontraria o caminho por onde viera e, uma vez no rio, bastaria subir a correnteza de volta à clareira.

Após várias partidas falsas, lembrei-me de atentar aos sinais de minha fuga. Não adentrara a mata tanto quanto imaginara. Com calma, descobri uma trilha de volta ao rio, parando de vez em quando para captar a presença dos ursos. Entrei na água.

Percebi então que meus pés arranhados sangravam. Não sentira nada ao correr, mas agora as pedras e a água faziam arder os ferimentos. Vadeei devagar, mantendo-me no lado mais distante para poder sair da água outra vez, se necessário. Os primeiros raios fortes de sol através da copa da floresta lembravam pinturas da abertura do céu. Quase caí de joelhos em uma prece de agradecimento.

Ao sair da mata, descobri que Annie, minhas botas e os cavalos haviam desaparecido. Gritei seu nome, mas a única resposta foram trinados de pássaros e a música do rio. — Annie! Latidos seguiram-se ao meu segundo chamado. De trás

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da elevação sobre a qual Annie conduzira nossas montarias, surgiram quatro cães de caça e um cavalo negro desconhecido. Sobre o animal estava um homem tão magnífico, tão perfeitamente conjugado à montaria que acreditei estar mesmo em um conto de fadas, afinal. Ele tinha cabelos tão negros quanto o cavalo e ombros muito largos, mas seu corpo adequava-se perfeitamente à tividade, esguio e gracioso de um jeito nada relacionado à feminilidade. Após reparar em minhas roupas rasgadas, em meus cabelos soltos e embaraçados com gravetos e folhas mortas, mais o rosto e os braços arranhados e sujos, ele fez uma mesura zombeteira.

Srta. Louisa Schumacher?

Estiquei-me ao máximo e endireitei o que restava de minha saia.

— Quem mais?

Ele riu, um som cavernoso que me lembrou o rugido da ursa preta.

— Viveu uma aventura, srta. Schumacher?

Imaginei que talvez estivesse para viver outra, ainda mais espetacular.

— Pode me dar uma carona?

— Claro. É capaz de montar em um cavalo de verdade, srta. Schumacher, não um desses pangarés de Sweetwater?

— Se enfrentei um urso, creio que consigo montar em seu cavalo exibido. — Estaquei e pus as mãos nos quadris. — Mas não antes de saber seu nome.

Embora já soubesse. Annie me contara histórias, e eu sabia em que propriedade estávamos. Esperei Ian Sebastian se apresentar e avancei alguns passos.

— Perdi o chapéu e as botas, molhei e rasguei meu vestido e estou com cheiro de chão de floresta.

Sua amiga está na minha casa, organizando equipes de resgate para saírem a sua procura. Não é melhor irmos ao encontro dela antes que mais alguém veja sua figura lamentável?

Ri. Não pude evitar. Era jovem. Estava livre da vigilância de minha mãe. E sobrevivera. Estava para montar na garupa

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de um grande garanhão negro e partir com o homem mais lindo que já vira em toda a minha vida.



Ian Sebastian inclinou-se para me ajudar a subir atrás dele. Não sei por quê, mas pareceu-me normal que ele não desmontasse e me conduzisse para a casa dele, como a maioria dos cavalheiros teria feito.

Ergui os braços, encaixei o pé no estribo e, dali a pouco flutuava no ar.

A casa de Claymore Park exibia um estilo descaradamente caipira em uma região que valorizava a arquitetura colonial ou clássica. Telhados assimétricos com largas projeções abrigavam pátios e terraços delimitados por pilares de tijolos quadrados e floreiras horizontais. Dentro, o teto excêntrico ora subia às alturas, ora se acaçapava bem baixo e dobrar cada esquina era um convite à surpresa.

A construção original, uma mansão neogrega de antes da Guerra Civil, incendiara-se ao mesmo tempo que os projetos de Frank Lloyd Wright começavam a chamar a atenção. O avô de Peter contratara um amigo da universidade de Chicago para desenhar a nova casa, e o resultado causara o maior furor em Ridge’s Race. Aliás, ainda se comentava a respeito, de vez em quando.

Ao herdar a propriedade, Peter optara por uma decoração eclética. Como oficial da Marinha, viajara o mundo todo, despachando para casa móveis e obras de arte de cada porto. Quando voltou para ficar, a sede da fazenda já se transformara em museu de suas viagens e exposição digna de chás de caridade.

De pé sob a lua cheia que se erguia, Christian contemplava a lateral de cedro prateada e as janelas estreitas que Robby descrevera como buracos por onde a alma da casa vazara após a morte de sua mãe. Para Robby Claymore, a construção deixara de ser seu lar naquele dia.

— É grande demais. — Ao lado de Christian, Peter também apreciava a moradia. — As pessoas ainda precisavam de casas grandes quando esta foi construída. As famílias eram maiores, e os hóspedes permaneciam por semanas. A outra, que se queimou, tinha vinte e cinco quartos.

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Quando menino, Christian contara os quartos de Claymore Park. Eram onze. Havia ainda dois chalés para hóspedes, um alojamento para os empregados e uma casa menor, no mesmo estilo da sede, para o administrador da propriedade.

Peter voltou-se.

Agora que Edith e Robby se foram, só o que ouço à noite são meus passos.

Após nove anos ouvindo soluços e arrotos, tosses e risos dementes, Christian tentou imaginar essa paz. Certa noite, sem poder fazer nada, ouvira um homem assassinar o colega de cela antes que os guardas pudessem intervir.

Mudou muito? — indagou Peter.

Christian mudara, e agora olhava tudo através desse filtro.

— É difícil imaginar a casa sem Robby dentro.

— Ele nunca cogitou a hipótese de você ser culpado. Morreu como seu melhor amigo.

Robby jamais escrevera ou visitara Christian na prisão, mas era compreensível. Certos assuntos eram dolorosos demais para se abordarem.

— Onde quer que eu fique? — Tinha pouco consigo. Um barbeador, um pente, duas camisetas, uma camisa, duas calças jeans. Precisava de uma cama e de uma gaveta. Até no estábulo as encontraria.

— Mandei Rosalita arrumar um quarto para você lá em cima. Estamos reformando a casa do administrador. Será sua quando a obra terminar, no mês que vem.

— A casa do administrador?

— E quero que a mobilie por minha conta. A última família quase a destruiu. Prefiro que você fique lá. Sei que...

— É muita generosidade. Peter o encarou.

- Christian, o que esperava? Um monte de palha e um cobertor velho? Você vai administrar este haras para mim quando eu não puder mais. É toda a retribuição de que Preciso.

—- Mas...

Chega desse assunto. Não seria candidato a santo, ainda que nós, batistas, os venerássemos. Claymore Park Precisa de alguém jovem que se sinta ligado à propriedade.

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Espero que assuma cada vez mais a administração, depois que descansar e se readaptar à vida aqui fora. E será bem recompensado pela dedicação.

— Já me recompensou.

— Tudo o que fiz foi por seu pai. Gabe era um bom homem, talentoso, mas com uma doença terrível. Eu devia tê-lo ajudado mais. Devia ter insistido em que se tratasse. Deus sabe que os sinais eram mais do que evidentes. Ajudar você era a única maneira de compensar o fato de ter dado as costas a ele.

— Não sei por quê. Uma das primeiras coisas que aprendi na prisão foi a cuidar de mim mesmo e não me preocupar com mais ninguém.

Peter esboçou um sorriso.

— Está assim agora? Christian viu o ceticismo dele.

— Não sou o homem que imagina. Não mais.

— Veremos. Nesse ínterim, vamos levar sua bolsa lá para cima, para você se instalar. Nestas primeiras semanas, quero que vá com calma. Acostume-se com o espaço aberto outra vez. Cavalgue. Exercite os cães, se quiser, e conheça o pessoal. Só depois vai encarar um dia inteiro de trabalho.

O som de pneus no cascalho da entrada lhes chamou a atenção. Um automóvel de luxo preto estacionou a cinqüenta metros de distância, em um espaço iluminado.

— É Bard Warwick — avisou Peter. — Está preparado?

— Para quê? — Christian observou o homem saltar do veículo. Lombard Warwick nunca fora seu amigo. Agora, era o marido da mulher a quem sonhara desposar.

— Só se pode ter dois tipos de conversa com Bard — lembrou Peter. — Um papo-furado do mais tedioso ou uma discussão.

— Acho que vamos ter a segunda — concluiu Christian, quando o visitante fechou a porta do carro com violência.

Peter baixou a voz.

— Ele parece um cavalheiro, grasna como um cavalheiro, mas não tem nenhuma qualidade de cavalheiro. Pelo menos, nunca reparei.

Bard aproximou-se.

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- Carver, quero uma palavra com você.



Mais de uma, imagino. — Christian cruzou os braços e aguardou.

Bard olhou para o dono do haras.

Gostaria de ter esta conversa em particular, se não se importa, Peter.

- Não admito ser dispensado em minha própria fazenda. Vou ficar e garantir que este rapaz não tenha ainda mais dissabores hoje.

Pelo que ouvi dizer, hoje puderam comemorar. Ele está livre. Pode contemplar o luar e não se encontra exatamente acorrentado.

Não faço a menor ideia do que teríamos a conversar declarou Christian. — Mas desembuche, Warwick.

Bard olhou carrancudo para Peter, que nem se mexeu.

— Que seja. Eu não queria envolver você, Peter, mas acho que merece. Um juiz bonzinho soltou este sujeito da prisão hoje, e sei por quê. Deve ter mexido pauzinhos como nunca no sistema legal para conseguir tal proeza, mas isso não torna certo o que fez.

Peter meneou a cabeça, como se espantasse uma mosca enfadonha.

— Sabia que outro homem confessou ter assassinado Fidelity SutherIand?

Bard trajava terno, como se tivesse ido lá direto do escritório, mas a camisa parecia amassada e o nó da gravata estava frouxo. Christian concluiu que Bard não envelhecia bem. Começava a se assemelhar ao pai, um obeso mal-humorado com ideias retrógradas sobre valor pessoal e classes sociais. Em seus primeiros dias na prisão, torturara-se imaginando Júlia casada com um homem muito diferente, educado, inteligente, culto, que lhe daria tudo o que merecia e rapidamente tomaria seu lugar no coração dela.

Agora, corrigia o quadro.

— Soube de toda a história, sim. Mais furada do que rede de pescador.

Peter começava a se zangar.

— Felizmente, o juiz enxergou mais claramente do que você.

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— Já terminou? — indagou Christian. – Dispensamos sua opinião especializada

— Vim alertar — informou Bard, encarando-o. — O juiz pode até ter libertado você, mas o povo de Ridge's Race sabe cuidar dos seus. Minha propriedade faz limite com Claymore Park e não quero que ponha o pé nela. Nunca. Jamais será bem-vindo lá e, completando, quero que deixe minha família em paz. Você e minha mulher podem até ter sido amigos há muito tempo...

Christian ergueu o sobrolho.

— Amigos?

Bard ficou vermelho.

— Não se atreva a dirigir a palavra a Júlia ou minha filha. Vai se juntar a Zandoff no inferno se eu descobrir que encostou um dedo sequer em uma das duas.

Peter segurou Bard pelo braço.

— Já chega. Vá embora. Bard desvencilhou-se.

— O que há com você, Peter? Não enxerga o que é esse sujeito?

— Enxergo. Tanto que o quero aqui, e a você, não. Fora daqui.

— Se ele se aproximar de Millcreek...

— Sendo assim, terá de fechar sua fazenda ao Mosby Hunt — avisou Peter. — Christian é nosso novo organizador de caçadas e, como tal, irá cavalgar em todos os lugares onde temos permissão para caçar. É o que quer?

— Só pode estar brincando.

— É a sério. Bard riu forçado.

— Acha que os membros do Mosby Hunt vão concordar com que este homem seja o organizador de caçadas?

— Renunciarei como Mestre dos Cães se o conselho for contra mim.

Christian quis protestar, mas não o faria na frente de Bard.

— Já deu seu recado, Warwick, e tive um dia muito cansativo. Gostaria de entrar e me instalar.

— Jesus, talvez deva mesmo renunciar — declarou Bard a Peter.

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Meneou a cabeça, como se o vizinho fosse o maior idiota a leste do Mississippi. Então, retornou a seu automóvel.



- Vamos ver seu quarto de hóspedes — convidou Peter, enquanto o som do motor de Bard enfraquecia.

Foi só uma amostra do que vai enfrentar se eu ficar - alertou Christian. — Não quer voltar atrás?

Christian, estou curioso. O que você viu?

Vi um homem, provavelmente dentre muitos, que não me quer aqui.

Realmente, passou muito tempo afastado, filho. O que viu foi um homem tentando manter algo sobre o que já não tem mais controle. — Peter meneou a cabeça, exausto. — Bard Warwick não representa a comunidade. Ele fala por si só, aliás, berra. Ele está preocupado, sim, mas não com a possibilidade de você ser um maníaco assassino.

Calados, percorreram o caminho rumo ao terraço frontal.

Parecia o cúmulo da ironia que Christian, à meia-noite, permanecesse acordado, apesar da cama macia e da casa em silêncio. Não sentia falta de Ludwell, embora sua mente teimasse em retornar à antiga cela enquanto admirava o luar dançando no teto. Lamentava não ter tido a oportunidade de se despedir de Iandis, e pensava se deveria entrar em contato com a família dele, agora que estava livre. Imaginava se Javier o procuraria quando ganhasse a liberdade condicional, e se Timbo Baines permaneceria no programa de cães-guia, agora que não estava mais lá para supervisioná-lo.

Imaginava se Bertha Petersen soubera de sua libertação. Ela voltaria a Ludwell para se certificar de que o programa Cães e Prisioneiros Juntos continuaria com sucesso?

Talvez estivesse enlouquecendo.

Estava livre. Já tinha um emprego, para fazer o que mais gostava, pelo tempo que quisesse. No mês seguinte, disporia de uma casa, que poderia chamar de sua. Seria responsável Pelos melhores cavalos da Virgínia, por uma das mais belas Propriedades do Estado, e tinha a consciência tranqüila. Não obstante, seu coração continuava em Ludwell.

Não confiava no destino. Uma parte sua esperava que lhe arrebatasse a liberdade justificando: ”Sabe, houve

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um equívoco e você vai mesmo passar o resto da vida na cadeia, afinal". Talvez se preparasse para essa eventualidade.

Ou talvez pensasse na prisão por não querer mergulhar demais nas lembranças, recordar a vida que tivera ali mesmo, em Claymore Park, em uma época distante.

Recordar implicava um retorno inexorável ao passado, a autêntica abertura das comportas. Por um segundo, sentiu-se mal, acometido de vertigem e náusea. Sentou-se para aplacar os sintomas e percebeu a pele pegajosa. Uma caverna teria parecido menor do que aquele quarto. Uma cripta apresentaria mais sons.

Atirou as cobertas para o lado e fincou os pés no chão, segurando a cabeça nas mãos.

Era um homem adulto, porém sentia-se como aos dez anos novamente. Assim que a náusea passou, levantou-se e foi à janela. A sua frente descortinava-se um dos mais belos panoramas do Estado. Hectares e mais hectares de criações de cavalos puro-sangue, divididas por pitorescas cercas de pedra e madeira, com uma ou outra árvore ancestral provendo sombra nas colinas onduladas. Os celeiros e estábulos moderníssimos tinham sido projetados pelo mesmo arquiteto que construíra a casa. Invisíveis agora, mas sempre dominando a paisagem, erguiam-se as montanhas Blue Ridge.

Lembrava-se da primeira vez que vira Claymore Park. E percebeu que, se ficasse, estava fadado a recordar cada instante desde então.

— Estou com calor, papai. Estamos viajando desde que amanheceu.

Gabe Carver olhou para o filho, a visão não muito focada.

— Acha que não estou com calor também, garoto?

— Estamos andando em círculos. Não sabe onde fica esse haras Claymore Park, sabe?

— Sei o mapa. — Gabe bateu na cabeça e sorriu. — Não preciso de mais nada.

Christian sabia que era mentira. Aos dez anos, era muito mais perspicaz do que os outros meninos de seu tamanho. Sabia que o pai precisava de cuidados, que ele era bom com

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cavalos e péssimo na vida cotidiana, que ele começara a beber demais depois que sua mãe morrera e agora não parava em nenhum dos empregos mal-remunerados que arranjava nos estábulos.



— É melhor parar e pedir informações. Já estamos atrasados.

— Não existe atraso em uma região de haras. Se eu chegasse na hora, sim, ficariam encafifados.

Christian estava de olho no pai ao voIante. Sabia que Gabe bebera escondido antes de assumir a direção da picape pré-histórica naquela manhã, mas não tivera acesso a álcool desde então. Se encontrassem Claymore Park, Gabe arranjaria um emprego. Pelo tempo que conseguisse segurá-lo.

Christian gostaria de ter um mapa. Jurou arrancar um do atendente no próximo posto de gasolina. E, segundo o marcador de combustível da picape, logo procurariam.

— Lá está a estrada. Não falei? — Gabe realizou uma ampla curva na pista de cascalho e reduziu a marcha quando começaram a galgar uma colina suave.

Christian não acreditava que estivessem se aproximando do destino, mas mordiscou o lábio e aguardou até chegarem ao topo, só para ver. Alegrou-se por não ter dito nada quando o pai brecou a picape e apontou para a frente.

— Claymore Park. Leia a placa. O menino já lera.

— Como conseguiu?

— Eu já disse. — Gabe bateu na cabeça outra vez. — E nem estamos atrasados.

Christian contemplou a magnífica propriedade que se estendia diante deles e sentiu o coração afundar. Fazia quatro anos que ele e o pai viajavam no rumo leste, a partir da fazendinha no Wyoming que Gabe vendera para financiar a última estada da esposa no hospital. De início, até que conseguia empregos decentes, mas foram baixando de nível a medida em que sua reputação de beberrão o precedia.

Agora vendo Claymore Park, apostava como Gabe não conseguiria nada. Não se tratava de nenhuma fazendola caindo aos Pedaços, e os cavalos que pastavam lá embaixo nunca

aviam transportado caubóis.

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— Olhe só para este lugar, garoto. — Gabe meneou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas. — Olhe só para isso. Consegue acreditar?



Christian esperava que o pai não chorasse. Às vezes, os acessos de choro de Gabe duravam horas.

— É só um haras, pai. E você entende de cavalos mais do que qualquer um no mundo.

Gabe suspirou e apertou o chapéu de palha na cabeça.

— Vamos lá ver se os convenço. — Mas soava derrotado. Christian já vira mais dos Estados Unidos do que gostaria e não se deslumbrava ante florestas ou montanhas. Atravessara as Rochosas e vivera algum tempo no interior do Kentucky com seu famoso capim-do-campo azulado. Da estrada, vira fazendas equivalentes a Claymore Park, mas nenhuma tão perfeita. Mesmo aos dez anos, reconhecia a qualidade. Éguas com potros pontilhavam os padoques, es-guias puro-sangue de pernas tão longas quanto uma corrida para casa. As construções se harmonizavam com a paisagem e suas vizinhas, todas de cedro cinzento e tijolos, como a casa transparecendo por entre as árvores adiante. Cães de caça latiam e homens gritavam.

O celeiro principal impunha-se como um castelo e devia ter custado tanto quanto, ao menos no entender de Christian. Estacionaram ao lado de uma fileira de picapes com a logomarca de Claymore Park, um cavalo pairando entre céu e terra, nas duas laterais. Gabe alisou o cabelo para trás com a palma da mão e ajeitou o chapéu de palha no topo da cabeça.

— Tem camisa limpa na mala — lembrou Christian. Sabia porque lavara e passara as roupas de ambos no último acampamento.

— Não vai fazer diferença. — Gabe parecia triste, mas ao menos não chorava.

Christian saltou e espanou a calça jeans. Felizmente, era fim de maio e ninguém indagaria a Gabe por que seu filho não estava na escola. Não ia bem nos estudos e não via por que freqüentar o ensino com regularidade. Nunca seria ninguém. Mal sabia ler.

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— Está pronto? — indagou, quando o pai contornou o veículo.



— Estou. — Gabe estampou um grande sorriso no rosto.Vamos dizer a eles como se toca o negócio.

Dentro do celeiro, Christian deixou o queixo cair. Já vira criações muito bem operadas, mas nenhuma como aquela. Os cavalos atrás das meias-portas eram magníficos, e as instalações em si pareciam tão limpas quanto a cozinha de uma velha senhora.

— Está vendo isso? — comentou Gabe. — Parece que chamaram um desses decoradores de interiores. Compara-se à nossa fazendinha em Douglas como uma mula e um cavalo de corrida.

Christian não gostava de pensar no Wyoming, onde tinha uma mãe que o amava e um pai que conseguia se manter inteiro.

— Onde estão todos?

— Sei lá. Talvez estejam procurando a gente. Podem ter achado que me perdi. — Gabe golpeou o filho no braço.

Christian duvidava de que os empregados do estábulo sequer se lembrassem da vinda de Gabe.

— Vamos olhar por aí.

Percorreram o corredor central rumo à porta oposta. Christian tinha a mesma sensação de quando entrava em uma nova escola. Receoso de tocar em qualquer coisa, receoso de ser notado.

Novamente ao ar livre, depararam com um conjunto confuso de prédios anexos, celeiros e pasto. Um homem de pele curtida vestindo camisa de malha esporte com a logomarca de Claymore Park saiu de um dos anexos e já ia passar Por eles.

Gabe lhe bloqueou o caminho.

— Estamos procurando Jinx Callahan. Sabe onde ele está?

O homem conseguiu avaliar Gabe sem mover os olhos. Deu de ombros e tentou passar.

Christian o barrou de novo.

O sr. Callahan não vai gostar de esperar.

O homem fez careta.

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— No galpão de procriação. — Deslocou a cabeça para a direita e retomou seu caminho.



— Aquele deve ser o galpão de procriação. — Gabe referia-se a uma das construções de tijolo menores ao longe. — Vamos tentar lá.

Apesar das pernas longas, Christian tinha de correr para acompanhar o pai. Gabe parecia determinado a tratar logo do assunto e partir.

A julgar pelo barulho quando se aproximaram do galpão, aquele era o lugar certo.

— Esse é escandaloso — comentou Gabe. — Parece que está se divertindo um bocado, não?

Christian, tão acostumado com o som dos eqüinos procriando quanto com o cheiro de estrume, não prestava atenção. Vira um menino de sua idade espiando pela porta aberta. Tinha cabelos castanho-escuros e era menor do que ele, usava short com muitos bolsos e camiseta listrada preta e branca que provocava tontura em quem a olhava.

O garoto voltou-se quando se aproximaram, no instante em que estourava a maior confusão no galpão.

— Mas que... — Gabe estacou.

Adivinhara o problema, assim como Christian. Garanhões eram bestas que se empolgavam muito, e o garanhão naquele galpão perdera completamente o controle após cobrir a égua. Os dois homens que supervisionavam a operação deixaram escapar os arreios e agora tratavam de escapar dos coices. A égua, com as patas traseiras amarradas juntas, também pulava de um lado para o outro, querendo se mostrar. Com dois animais agitados dentro do curral, não demorou para que seus pesos somados mais os coices derrubassem um lado da cerca.

Christian viu quando o garanhão, um brutamontes castanho, deu ré e se voltou, partindo na direção do menino no galpão.

— Deus do céu! — Gabe disparou para a frente, mas Christian vira o perigo primeiro.

Atirando-se em cima do garoto paralisado, derrubou-o um segundo antes que fosse atingido pelo garanhão. Prensou-o firme contra o chão enquanto o cavalo passava a galope.

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Ainda esperou sentir o peso das patas do animal, ouvir Ossos se quebrando e carne se rasgando, mas agira a tempo.

.— Não! Não! — gritou Gabe.

Christian levantou o rosto e viu o pai pendurado nas rédeas do cavalo. Gabe foi arrastado por cinqüenta metros ou mais. Finalmente, o garanhão parou, com Gabe ainda segurando-o.

— Mas quem é esse sujeito? — Alguém passou por Christian prostrado, seguido de outro homem.

Christian levantou-se devagar e então estendeu a mão ao menino.

— Vamos lá, ver o que aconteceu.

— Quem é você? — O garoto levantou-se em um pulo. Tinha rosto estreito com grandes olhos castanho-escuros.

— Christian Carver. Meu pai veio ver um emprego aqui. Os olhos do menino encheram-se de lágrimas.

— Você tentou me matar! Christian estranhou.

— Não, eu salvei você daquele cavalo que ia na sua direção. Quem é, afinal?

O menino projetou o beiço inferior trêmulo.

— Robby!


— Nunca lhe disseram para sair da frente de um cavalo disparado?

— Eu só queria ver!

Um dos homens deixou o garanhão aos cuidados do outro e Gabe, e se aproximou dos garotos. Era velho como as montanhas e tão enrugado quanto elas.

— Robby Claymore, se não fosse o filho do patrão, eu lhe arrancaria o couro! Já lhe disse mil vezes para ficar longe dos garanhões. — Olhou para Christian. — Salvou este pequeno idiota. Quem é você?

— Christian. — Olhou para o pai. — Filho de Gabe.

— Nunca vi ninguém agarrar a rédea de um cavalo disparado e segurá-lo como seu pai fez, garoto. Que atitude mais cretina! Ele podia ter perdido os dois braços. — Mas era evidente que estava impressionado. — E parece que você herdou alguma coisa dele. Fazia muito tempo que Christian não se orgulhava do pai.

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— Sim, senhor.



— Você agradeceu? — indagou o homem a Robby. — Estaríamos recolhendo seus restos agora se este menino não tivesse corrido para salvar você.

O menino contraiu os lábios.

— Jinx?

Christian ergueu o rosto para ver o homem de meia-idade de cabelos ruivos grisalhos.



— Patrão, eu já disse várias vezes que esse garanhão precisa de um intervalo maior entre as coberturas. Se o forçamos demais, ele fica doido...

— O que aconteceu? — O homem falava com Robby em voz suave, porém com notas metálicas. — Quero saber exatamente o que aconteceu, filho.

— Eu... eu... — O garoto só fazia gaguejar. Parecia prestes a se dissolver em lágrimas.

— A culpa foi minha — adiantou-se Christian. — Acho que assustei o garanhão. Robby tentou sair da frente, mas trombou comigo. Se eu não tivesse atrapalhado...

O homem mandou Christian se calar.

— Robby?


— A-aconteceu... muito rápido... — tartamudeou o garoto.

— Parece-me que este jovem tentou salvar seu pescoço pela segunda vez hoje.

— Eu... eu lamento, papai.

O homem olhou bem para Christian.

— Quem é você? Eu sou Peter Claymore, dono de Clay-more Park.

Christian limpou a mão na calça antes de estendê-la.

— Prazer em conhecê-lo, senhor. Sou Christian Carver. Aquele ali é meu pai.

Peter ergueu o sobrolho e olhou de esguelha para Jinx.

— Você e seu pai vão trabalhar aqui? O capataz sorriu.

— Por mim, os dois começam hoje mesmo.

— Coloque-os na folha de pagamento da última segunda-feira. — Peter sorriu. Ficou sério ao olhar para o filho. Meneando a cabeça, afastou-se.

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Jinx voltou para junto do garanhão, que, sob a mão conhecedora de Gabe, parecia dócil como um carneiro.

— Por que... por que tentou me ajudar? — indagou Robby a Christian.

Christian refletiu um pouco e deu de ombros.

— Ah, sei lá. Sei como são os pais. — Gabou-se da própria sabedoria.

— O seu também?

Christian volveu os olhos ao céu.

— Principalmente ele.

— Vocês vão... ficar aqui?

— É o que parece. — Enquanto Gabe conseguisse se manter no emprego.

— Posso lhe mostrar umas coisas.

— Que coisas?

— Tenho um forte. Quer ver?

— Um forte? — Christian abandonara a infância havia tanto tempo que se sentia como o avô de Robby. — Claro. Vamos lá.

Gabe juntou-se a eles. Deixara o garanhão aos cuidados de Jinx Callahan.

— Bem, consegui o emprego. E vão pagar você também, para ajudar a alimentar e exercitar as éguas, se quiser. Parece que vamos nos dar bem aqui, garoto.

Robby não parecia impressionado com a boa sorte dos Carver.

— íamos ver meu forte.

— Posso ir? — pediu Christian ao pai.

— Claro, vá lá. É bom se conhecerem. Talvez fiquem amigos...

Christian sabia exatamente o que isso significava, mas estava mais do que disposto a se agarrar àquela nova vida, com unhas e dentes.

Robby o puxou pelo braço.

- Vamos!


E não se separaram mais depois daquilo. Os dois meninos pareciam peças de quebra-cabeça mais fáceis de encaixar quando estavam juntos. Robby era bom aluno na escola e,

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ao perceber que Christian mal conseguia ler, decidiu mudar isso. Nenhum dos dois sabia o que era "deficiência de aprendizagem", mas Robby, criativo e muito inteligente, descobriu maneiras de ajudar o amigo a concatenar sons na mente de modo que a leitura finalmente fizesse sentido e um mundo inteiro de conhecimentos se abrisse para ele.

Em retribuição, Christian ensinou Robby a montar em cavalos. Peter Claymore contratara os melhores instrutores de equitação para o filho, mas só Christian percebeu que Robby, sempre questionador, precisava "pensar" em como montar em um cavalo. Enquanto Christian aprimorava a leitura, estudaram raças e linhagens, selas e arreios, técnicas de equitação e história dos eqüinos. Finalmente, Robby, que só se sentia confortável com o que entendia plenamente, tornou-se um cavaleiro competente.

Agora, Christian contemplava os hectares de terra que ele e Robby haviam explorado em cada centímetro juntos. O acidente de automóvel que tirara a vida do amigo parecia especialmente injusto. Robby devia ter ficado desalentado com sua condenação. O menino magricela de rosto estreito tornara-se um homem atraente, mas jamais considerara fácil fazer amigos. Com a prisão de Christian e a morte de Fidelity, perdeu duas das três pessoas com quem se sentia mais à vontade.

Quando Júlia se casou com Bard, provavelmente perdeu a terceira.

Christian sabia que o amigo, se estivesse vivo agora, era quem mais estaria festejando sua libertação.

Só mais uma ironia trágica.

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