Emilie Richards



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CAPÍTULO IX
Do romance não publicado Rio Fox, de Maisy Fletcher.

Meu pai nutria grandes esperanças em relação a mim. Eu deveria me casar na sociedade nova-iorquina e elevar o status de nossa família. Meus irmãos, George e Henry, não tinham muito potencial, de acordo com os altos padrões de meu pai. Fracos e acomodados, conseguiriam administrar a empresa de comércio e importação que conduzira nossa família ao limiar de uma vida melhor. Mas eu, Louisa, com meus cachos dourados e olhos verde-mar, mais o considerável encanto infantil que se prolongava conforme o previsto, nos levaria a todos a transpor a soleira.

Meu pai morreu antes de ver seu plano realizado, mas minha mãe, também fraca e acomodada, tomou a si a missão dele. Convencida de que meus irmãos conseguiriam de fato administrar o património da família, concentrou-se em mim. Embora ainda não contasse dez anos, eu seria uma lembrança dos sonhos de meu pai.

Nossa casa de três andares de pedra marrom ficava só perto da sociedade da Quinta Avenida, mas mesmo assim fui educada por seus mestres mais requintados. Quando completei dezoito anos e prima Annabelle Jones convidoume a passar o verão na propriedade de sua família em Middleburg, na Virgínia, eu já tinha postura perfeita e voz tão musical quanto os trinados de um canário. A elegante escola para moças que eu freqüentara ensinava apenas o

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básico de história, geografia e literatura, mas eu era capaz de dançar até a aurora e cavalgar em sela apropriada. Dominando a fina arte do flerte e a mais avançada técnica da conversação, eu parecia estar pronta para polir os degraus que as futuras gerações dos Schumacher iriam galgar.



Se não conseguisse desposar um nobre europeu, como as filhas de Astor, Guggenheim e Vanderbilt, no mínimo arranjaria alguém que nos colocasse bem no meio do Livro da Sociedade de Nova York.

Hesito em dizê-lo agora, mas, desde o início, cooperei com todos os planos para nosso futuro. Não por fraqueza ou falta de opinião. Nascida na virada do século, eu era produto de uma nova era, obstinada, orgulhosa e perfeitamente capaz de impor a meu modo, quando me convinha. Contudo, sempre tive a certeza de que uma vida confortável, sendo aceita pelas pessoas que eu admirava, seria o melhor para mim. Ao final da Grande Guerra, soube que já era independente.

Durante a adolescência, raramente vi-me na presença de minha mãe sem a companhia de uma professora de etiqueta ou uma modista. Mamãe preenchia os dias supervisionando minha educação ou fazendo propostas a mulheres que a consideravam inferior. Agora, quando penso nela, vejo lábios contraídos e olhos castanhos enfocando rosto após rosto em um salão lotado, em busca do próximo a defender sua causa.

Lembro-me pouco dos dias que antecederam a viagem à Virgínia. Minha mãe chorou. Disso eu me lembro. Podia ser fraca, mas no fundo era sentimental. Em minha última noite em casa, quando me preparava para dormir, ela comentou que o casamento nunca era o que parecia. Os homens não se casavam por amizade, mas para atender a certas necessidades. Depois que me casasse, eu deveria emPregar as habilidades que tanto cultivamos para melhorar a vida de meu marido, nunca para me colocar acima dele.

Ou seja, eu deveria me fundir ao cenário, deixando meu Marido brilhar, sempre. Em resumo, eu seria uma cópia aperfeiçoada de minha mãe.

Tenho certeza de que amava mamãe. Por mais apagada e distante que ela parecesse, eu às vezes vislumbrava a

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mulher lá no fundo. Lembro-me de sua mão fria em minha testa febril, de canecas de chocolate quente às escondidas quando eu sofria uma decepção, de seu sorriso orgulhoso quando eu vencia meus irmãos em alguma disputa infantil.



Tenho certeza de que a amava, mas no momento não consigo me lembrar por quê. Era estarrecedor como ela me entendia pouco.

Annabelle Jones, uma prima distante do lado de mamãe, provinha de uma família várias gerações mais avançada na sociedade do que a nossa. Seu avô paterno, oficial da União de família nova-iorquina, sobrevivera à Guerra Entre os Estados em um escritório em Nova Orleans, concedendo favores cIandestinos a empresários locais. Atento ao ponto principal, o coronel Jones empenhara-se em tornar o mais confortável possível a vida dos preeminentes cidadãos da capital sulista em tempo de conflito. O fato de às vezes ter de contrabandear e até roubar descaradamente não o abalara.

Depois de Appomattox, o coronel aproveitara seus contatos para se estabelecer como exportador de algodão e, mais tarde, como funcionário da companhia de estrada de ferro Southern Pacific. Assim, a despeito das origens ianques, a grande família Jones misturou-se à nata da sociedade da Louisiana e de outras cidades sulistas. Josiah Jones, filho mais novo do coronel e pai de Annie, instalou-se na Virgínia para cultivar seu amor pela vida campestre e pelos cavalos.

Annie provou-se uma grande decepção para a família. Era inteligente e vivaz, porém, infelizmente, nada bonita. Alta como um homem, larga de ombros e mãos, deslocava-se desajeitada em um mundo feito para mulheres menores. Seu rosto comprido apresentava belos olhos castanhos encimados por feias sobrancelhas negras. Vi em primeira mão o efeito de Annie sobre os rapazes disponíveis. Cada pretendente pesava friamente a humilhação de se casar com uma moça sem atrativos contra a sedução de seu nome e influência. Até então, nenhum considerara estes sedutores o bastante.

Annie era minha amiga mais chegada. Em nenhum momento, e posso afirmá-lo sem reservas, amei-a só por causa
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Dos benefícios que tal amizade poderia me angariar. Sem dúvida, era jovem e egocêntrica, mas não calculista. Eu amava Annie por sua perspicácia, seu discernimento, sua lealdade profunda. Sentia, já na infância, que Annie jamais me magoaria.

Na manhã em que Annie e seus pais encerraram sua visita a Nova York e foram me buscar, mais meu considerável guarda-roupa, para irmos à estação ferroviária, despedi-me do lar triste e enfadonho de minha infância. Minha mãe permaneceu na soleira enquanto deixávamos o meio-fio em um táxi. Não acenou, mas levou um lenço aos lábios, como se bloqueasse um protesto latente. Minha última lembrança era de uma pequena figura em roupas escuras recostada em um pilar, as janelas cortinadas de nossa casa lembrando pálpebras cerradas.

— Não vai se arrepender de ter vindo — animou Annie, tomando minha mão enluvada entre as suas, como se temesse que eu já estivesse com saudade de casa. — Vamos nos divertir muito, Luezy. Prometo.

Annie tinha uma risada maravilhosa, livre, que assustava os homens tanto quanto sua altura extraordinária e os ombros masculinos. Sorri ao ouvi-la e lhe apertei a mão com mais força. Estava convencida de que a melhor parte de minha vida estava para se desdobrar.

Lembro-me, oh, lembro-me tão bem, daquela convicção extática de que todos os meus sonhos finalmente estavam a meu alcance.

Um guarda desconhecido foi buscar Christian logo após o café da manhã. Ele já saboreara os indispensáveis ovos mexidos com semolina e o biscoito duro feito pedra. A segunda caneca de café estava mais forte do que água de lavagem e, para variar, mais gostosa. Esperava que isso fosse um bom presságio para o dia que se descortinava.

— Carver?

O guarda, um sujeito magricela de aspecto primitivo, moveu a cabeça para a porta.

— O diretor quer falar com você.

Desde a visita de Peter e Mel, no dia anterior, Christian Praticamente só pensara na possibilidade de libertação. Agora,

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para seu vexame, sentia o coração pular no peito, e não porque o café contivesse mais do que um pingo de cafeína.



Abotoou a camisa de trabalho ao percorrer meio passo à frente do guarda no labirinto dos corredores e guaritas de controle, cuidando para não apressar nem enervar o homem. A vida na prisão era um compromisso entre orgulho e bom senso. Um homem abria mão de partes de si que não importavam de fato e se agarrava a tudo o mais que lhe era caro. Havia muito, Christian desistira de tentar provar sua coragem aos guardas.

Naquela noite, sonhara estar montado em um garanhão branco, que o levara por sobre os muros da prisão, como Pégaso flutuando em correntes aéreas.

O escritório do diretor era grande e confortável, em contraste vivo com o resto da prisão. Uma parede se cobria de diplomas e livros de psicologia, direito e sistemas penais ilustrados. Christian e o guarda esperaram à porta para ser reconhecidos. „

Finalmente, o diretor, um cinqüentão acima do peso, fez sinal ao guarda.

— Pode ir. Chamo alguém para levá-lo de volta depois que acabarmos. Sr. Carver, entre e sente-se.

Christian não se deixou enganar ou animar pelo tom agradável do diretor. Seu relacionamento com Phil Sampsen fora misericordiosamente breve e, quase sempre, cordial. Desde que o programa Cães e prisioneiros Juntos atraísse publicidade positiva para Ludwell, Christian tinha pouco a temer. Mas o diretor era tão caprichoso quanto político, cheio de aversões mesquinhas e um senso exagerado de sua própria importância. Acreditando-se especialmente compreensivo quanto às motivações dos condenados em Ludwell, ele apreciava brincar de Deus com suas vidas e o fazia com alarmante freqüência.

- Teve tempo para tomar o desjejum? — Folheando um documento à escrivaninha, o diretor não olhou para Christian enquanto ele se sentava.

— Sim, senhor.

— Ótimo, ótimo. — O diretor virou outra página.

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Christian não perguntaria por que fora convocado. Ficaria sabendo quando conviesse ao diretor.



Sampsen lia e virava as folhas sem dizer nada. Christian nen se mexia. Finalmente, o diretor levantou o rosto e tirou os óculos de arame, que colocou ao lado da pilha de papéis. Esfregou a ponta do nariz, um tanto grande demais, proeminente demais, como tudo nele.

— Estou sabendo do seu caso, Carver. Este é seu prontuário. Christian presumiu que Sampsen se referia à confissão de Karl Zandoff. Imaginava se as jóias tinham sido encontradas. Mas tentou não demonstrar impaciência.

— Sim, senhor.

— Parece-me que usufruiu todos os benefícios da lei, rapaz. Concorda?

Christian não concordava. Beneficiado pela lei, não teria sido levado a julgamento. Àquela altura, estaria casado com Júlia Ashbourne, talvez fosse pai. Juntos, ele e Júlia estariam gerando e criando os melhores cavalos de caça dos Estados Unidos.

O diretor quebrou o silêncio.

— Talvez não concorde.

— Tive um bom advogado. Recebi ajuda de fora.

— Fala de Peter Claymore, de Claymore Park? Christian confirmou.

— E Karl Zandoff? Ele o ajudou?

Por um segundo, Christian ficou sem resposta. A pergunta do diretor parecia despropositada.

— Não conheço Zandoff, senhor. O que sei dele é o que publicam nos jornais.

— Bem, ele afirma ter trabalhado na Virgínia na época em que a srta. SutherIand foi assassinada. Afirma que trabalhou perto da casa dela, pouco além na estrada. Se não me engano, você também trabalhou no mesmo local, não?

Christian formulou com cuidado a resposta:

— Criei-me em Claymore Park. Precisamos de muita gente para trabalhar no haras, mas a maioria das funções não Paga bem. Os homens desistem depois de alguns meses, vão embora.

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— Ele diz que trabalhou em uma construção. Estava-se construindo alguma coisa em Claymo:re Park na época?



— Peter Claymore tem os melhores estábulos da Virgínia. Está sempre reformando, quer tudo perfeito.

— Então, Zandoff pode ter trabalhado como operário de obras de Claymore.

— Nas construções, homens entram e saem o tempo todo também. Se ele esteve lá, não me lembro.

— Fico imaginando, filho, se o que ele diz é verdade. O diretor formou uma tenda com os dedos grossos manchados de nicotina. — Fico imaginando se não há algo que você sempre quis desabafar, todos esses anos.

Christian sabia que o diretor não esperava uma crítica à política prisional.

— Desculpe-me, senhor, mas não sei aonde pretende chegar com isto.

— Sua vida familiar não era das melhores, você confirma? Christian pensou no prontuário aberto sobre a mesa diante do diretor e apenas resumiu:

— Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos. Meu pai morreu quando eu tinha doze. Peter Claymore me adotou, então.

— Diria que ele é como um pai para você?

— Sempre me tratou melhor do que precisava.

— Está escrito aqui Que seu pai incendiou o estábulo de Claymore.

— Foi o que se concluiu, após a investigação.

— Ele tinha um probleminha com bebida?

— Segundo o relatório, meu pai incendiou o estábulo com um cigarro. Provavelmente, desmaiara.

— Não era o melhor modelo, filho. Um bêbado que não ligava a mínima para a propriedade alheia.

Christian não admitiria injustiça:

— Ele conhecia todos os cavalos daquele estábulo. Criara metade deles e treinara a maioria. Conversava com os animais. Nunca os considerou propriedade. Significavam tudo para ele.

— Está querendo dizer que ele não fez isso?

— Estou dizendo que ele não fez isso em desconsideração a

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Claymore ou aos cavalos daquele estábulo. Mas tinha problema, sim, e acho que, no final, este o venceu.

- Acha?


Christian corrigiu-se:

No final, o problema o venceu.

Veja, fico imaginando se temos um padrão aqui. Quando um homem nega demais, começo a me preocupar.

Como eu sempre afirmei, desde o começo, que não matei Fidelity SutherIand, está conjecturando se tudo isto não é parte da mesma coisa.

Na mosca.

— Eu tinha doze anos quando meu pai morreu. Tratava-se de um bom homem com uma doença terrível. O fogo começou na selaria, onde ele adormecera. Fumava um cigarro atrás do outro e ficava confuso quando bebia. Não há o que discutir nesse aspecto.

— E a srta. SutherIand?

Na tarde em que morreu, eu estava à procura dela. Encontrei seu colar na escada. Subi ao quarto dela...

— Achava-se no direito? Simplesmente entrar no quarto dela, assim?

Naquele momento, a raiva lhe dera o direito.

— Éramos velhos amigos. Enquanto a procurava, achei estranho o colar jogado na escada. Como tinha certeza de que ela estava em casa, peguei a jóia e subi. Ela estava caída em uma poça de sangue.

— E, quando a lei encontrou você, estava com o colar dela em uma das mãos e o canivete que a matou na outra.

— Encontrei o canivete no chão ao lado dela. Peguei-o. Acho que não tinha assistido a filmes policiais o suficiente Para não fazer essa besteira.

- Está escrito aqui que o canivete era seu.

O meu era o único sem explicação. O sr. Claymore mandara confeccionar uma dúzia deles para dar de presente no Natal daquele ano, com a logomarca de Claymore Park no cabo. Eram canivetes especiais, com lâminas para desgastar e furar cascos, pente para afinar e furador de couro.

- E pelo menos uma lâmina bem afiada. Christian não viu necessidade de replicar.

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O diretor ergueu o olhar do prontuário.



— Você teve um bom advogado, mas mesmo assim votou pela sua condenação. Consideraram-no culpado. Eu também considero.

— A maior parte do mundo concorda com o senhor diretor.

— E quantos concordarão quando a confissão de Zandoff fizer as manchetes?

Christian imaginou novamente se as jóias tinham sido encontradas.

— Não sei o que quer dizer.

O diretor pousou o queixo na ponta dos dedos.

— É que muita gente poderá não confiar em você, Christian. Christian sabia que o diretor pusera o ”sr. Carver” de lado propositalmente. Atingiam um ponto da conversa em que ele deveria acreditar que haviam transposto alguma barreira, se tornado amigos.

— Posso falar francamente, senhor?

— Sabe que é o que quero.

— A confiança não é nada perto da liberdade.

— Bem, acho que posso entender isso. — O diretor recostou-se na cadeira. — Nenhum prisioneiro de Ludwell ia querer ficar aqui, se não fosse obrigado. Nenhum, a não ser alguns muito antigos, que teriam pavor de sair e ir para outro lugar. Mas é isso mesmo. Alguns deles, os melhores do grupo, refletiram sobre o que fizeram para acabarem aqui e encerraram a questão. Muitos se confessaram a mim, como se eu fosse seu padre, homens que berraram e gritaram ser inocentes até a hora em que adentraram estes portões.

Christian imaginava o que o diretor fizera àqueles chamados homens.

— Acho que precisavam desabafar.

— Também os respeito por isso. Aquele que confessa seus pecados está a meio caminho de purgar a vida.

Christian quase ouvia os acordes de ”Rock of Ages” ao fundo.

— Se encontrarem as jóias de Fidelity enterradas onde

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Zandoff disse que as escondeu, por que alguém continuaria a desconfiar de mim?



Porque você foi encontrado no local do crime com a arma do crime na mão. Tinha o sangue da moça em suas mãos bem como o motivo. Talvez você e Zandoff tenham feito o serviço juntos.

Christian recostou-se. O cenário era tão artificial que Christian imaginou por que o diretor o montara. Talvez lhe proporcionasse o sabor do que ia enfrentar se fosse mesmo libertado. Apesar de tudo o que fizera e confessara, Karl Zandoff continuava um homem misterioso. Deixaria mais perguntas do que respostas ao ser executado. Entre as incógnitas, as circunstâncias por trás da morte de Fidelity. O diretor devia ter lido algo em sua expressão.

— Gostaria de saber por que Zandoff nunca voltou para desenterrar as jóias. Suponho que valham um bom dinheiro.

— As jóias de Fidelity eram peças únicas, muito personalizadas. Seria impossível passá-las adiante sem correr riscos.

— No relatório, consta que você a matou por estar furioso com ela. Cogitaram que estivesse apaixonado, enquanto ela não demonstrava interesse.

— Não matei Fidelity, e estava apaixonado pela melhor amiga dela. Se algum dia conheci Zandoff ou sequer o vi de longe, não me lembro. — Não havia mais nada a dizer.

— Bem, estou muito decepcionado com você, filho. Esperei que pudéssemos pôr um ponto final nessa história aqui e agora. Entenda, talvez saia daqui por algum tempo, mas aposto como voltará e logo. Os pais da moça são gente importante. Não pense que vão deixá-lo andar pelas ruas da cidade, não convencidos de que é inocente. Se fosse você, eu contaria toda a verdade agora. Deixe Zandoff assumir a parcela dele e assuma a sua. Pode conseguir redução da sentença. Pode sair disto de cabeça erguida.

Christian não pôde evitar o sarcasmo:

— Vejamos: sentença reduzida versus liberdade total. Qual Parece mais atraente?

O diretor Sampsen meneou a cabeça.

Você tem bom comportamento aqui. Tem realizado

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um ótimo trabalho no programa de cães-guia. Estou dando a oportunidade de fazer a coisa certa.

— Diretor, a coisa certa a fazer é me deixar sair daqui. O diretor ergueu o calhamaço e bateu as folhas na mesa para endireitá-las. Então, guardou-o na pasta e a fechou

— Vou lhe dar um conselho de amigo, sr. Carver. Se algum verme de nosso sistema legal decidir soltá-lo, jamais volte a Ridge’s Race. Já andaram me telefonando. Ninguém quer saber de você por lá. No mínimo, você lembra algo que querem esquecer. Vá para outro lugar, qualquer outro lugar. Quanto mais longe, melhor. Mas, tenha em mente, nunca estará longe o bastante. Porque, se a justiça encontrar um motivo para ir atrás de você outra vez, nós o pegaremos

Sampsen ergueu o olhar e sorriu.

— Pode ter certeza.

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CAPÍTULO X
Jake passou o cesto de pães para Maisy.

— Havia uma movimentação hoje em Southerland, ou talvez em Claymore Park. A caminho da loja de ferragens, vi meia dúzia de viaturas da repartição do xerife na estrada de terra que fica entre as duas.

A família saboreava uma ceia de fim de noite. Júlia já consumira meio prato de lasanha, deixando cair uma porção no guardanapo. Fora um longo dia aquele, lutando para se orientar na casa que já fora seu lar.

— O que acha que era? — indagou Maisy, do outro extremo da mesa. — Espero que ninguém tenha se machucado.

— Se tiver sido algum tipo de crime, será usado como novo argumento contra o desenvolvimento — considerou Jake. — Se não, alguém vai observar como é importante manter o condado rural e seguro.

O desenvolvimento era assunto quente no oeste do condado de Loudoun. A pitoresca vida campestre de que todos gozavam ali era constantemente ameaçada por empreendedores ávidos por dividir as fazendas e propriedades da área e construir minipropriedades ou, pior, casas de condomínio. Temia-se que todo um estilo de vida desaparecesse em um subúrbio.

— Não ouviu nenhum comentário enquanto estava na cidade? — Com o dedo indicador, Júlia empurrou um bocado de lasanha para cima do garfo.

— Kay Granville acreditava ter visto homens cavando uma vala ao longo da cerca — informou Jake.

— Estranho, não? Se fosse uma tubulação ou cabo de eletricidade com defeito, não mandariam o xerife, concordam?

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— Até mandariam, se não houvesse mais ninguém disponível e fosse mesmo importante.

— Vou ligar para os SutherIand — decidiu Maisy. - Esperam que eu telefone pelos motivos mais estranhos.

Júlia brecou o garfo a meio caminho da boca.

— Logo saberemos. Flô e Frank já devem ter recebido meia dúzia de telefonemas.

— Se houver algo errado, é bom sabermos, para podermos ajudar.

— Se houver algo errado, logo saberemos — replicou Jack. — Más notícias viajam rápido.

— Como? — Callie mexeu-se na cadeira ao lado da mãe, batendo em seu braço. — Na aula de ciências, a sra. Quinn explicou como o som viaja. Como é que o som sabe se a notícia é boa ou má?

— É só uma expressão. — Júlia baixou o garfo e começou a pegar comida de novo. — Significa que as pessoas gostam de dar más notícias umas às outras.

Callie chocou seu talher contra o prato.

— Eu sei de uma má notícia.

— A mesa do jantar provavelmente não é o melhor lugar para dá-la — avisou Júlia.

— Mas já faz muito tempo. Um homem mau que morava aqui perto matou uma moça.

Todos calaram-se. Júlia percebeu que retinha o fôlego.

— Esta realmente não é a melhor hora para falarmos disso — declarou à filha.

— Por que não? Maisy socorreu Júlia:

— Porque a hora da refeição merece bons pensamentos.

— E as viaturas do xerife são bons pensamentos?

— Eu não devia ter comentado — reconheceu Jake. — A culpa é minha.

— Oh. — Callie ficou em silêncio por algum tempo. Júlia tentava pensar noutro assunto, esforçando-se para não demonstrar a perturbação.

— Pena — comentou a menina, resignada. — Porque eu sei por que estão cavando.

As palavras caíram em um espaço vazio. Só se ouvia o

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tique-taque de um relógio decorado com personagem infantil sobre a pia. Júlia visualizava a cauda do gato indo para lá e para cá.

Está louca para nos contar por quê, não é? — incentivou Maisy.

Júlia baixou o garfo.

— Maisy...

Porque o homem mau enterrou as jóias da moça! — revelou Callie, triunfante. — E agora ele contou onde. Até o tique-taque do relógio pareceu cessar.

— Como soube? — indagou Maisy.

Júlia espantava-se com a capacidade da mãe de especular como se o assunto fosse de pouco interesse. Maisy era melhor atriz do que imaginara.

— Tiffany me contou.

— E como Tiffany soube? — Júlia tentou encontrar o copo de água. Tiffany era a melhor amiga de Callie. Sua mãe, Samantha, treinava cavalos em Claymore Park.

— Tiff disse que a mãe dela e um amigo estavam conversando sobre isso.

— Bem, agora sabemos — concluiu Jake, não tão descontraído quanto a esposa.

— Tiff disse que o homem mau já está preso.

— Callie, acho melhor mudarmos de assunto — ralhou Júlia, quase em desespero.

— Mas, se ele já está preso, não há nada de errado, certo? Ele fez uma coisa errada e agora está ajudando. Essa é uma boa notícia, não é?

Júlia sentia as lágrimas se avolumando, lágrimas que seriam muito difíceis de explicar à filha. Durante nove anos, acreditara na inocência de Christian Carver. Agora, a filha dele falava de sua confissão tão à vontade quanto se comentasse a festa de aniversário de um amiguinho.

— Mas Tiffany disse que ele vai morrer logo. Embora esteja ajudando. Não acho isso justo, vocês acham?

— Chega!

— Júlia... — advertiu Maisy. — Callie, essa história é muito triste e realmente não cai bem à mesa. Voltamos a ela após o jantar, está bem?

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— Ainda não acho justo — murmurou a criança. — Aqueles homens da Flórida são malvados.



A avó franziu o cenho.

— Da Flórida?

— Maisy, não podemos repreender Callie por tocar nesse assunto à mesa e então prolongar a conversa — observou Jake.

Júlia perdera todo o apetite.

— Callie, já acabou de comer?

— Já. Não gosto quando todo mundo grita comigo.

— Só eu gritei com você — corrigiu Júlia. — E peço desculpas. Vamos para a outra sala terminar esta conversa, está bem? Maisy e Jake merecem jantar em paz.

— Não é necessário... — protestou Maisy.

— Júlia tem razão — opinou Jake. — Ela e Callie podem conversar na sala de estar. E, quando terminarmos, teremos a torta. A sua favorita — informou à menina. — Merengue de limão.

— De acordo? — indagou Júlia. Callie empurrou a cadeira.

— Está bem. Mas quero uma fatia bem grande.

— Deixe comigo — retrucou Jake.

Júlia levantou-se e agarrou a borda da mesa. Colocou-se entre sua cadeira e a de Callie antes de soltar as mãos. Então, arrumou a cadeira no lugar e deu meia-volta. Deixou a filha conduzi-la pela porta.

Na sala, parou para se orientar.

— O sofá está ali? — Apontou na direção que imaginava.

— Está.


— Então, vamos nos sentar lá.

Uma vez acomodadas, Júlia pousou o braço nos ombros da filha.

— Desculpe-me por gritar com você. A menina continuava emburrada.

— Eu só estava contando o que Tiffany me contou. Júlia não sabia o que dizer.

— Eu sei. E fomos nós que começamos aquela conversa, certo?

— Foram.


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Callie, a moça que morreu há muito tempo era minha melhor amiga. Ela se chamava Fidelity. Era filha de Flô e prank SutherIand.

É mesmo? — A criança parecia mais fascinada do que chocada.

Júlia brincou com o rabo-de-cavalo da filha.

É por isso que é difícil para mim ouvir a respeito.

Hum... Por que ninguém nunca me contou?

Bem, não é um assunto agradável para mim.

— Por que o homem a matou?

— Ninguém sabe. Ele sempre afirmou que não a matou. Talvez explique agora.

— Você o conheceu?

Sim, Júlia conhecera Christian. De todas as maneiras que uma pessoa podia conhecer outra.

— Ele era meu amigo, também. E de Fidelity. É muito, muito difícil aceitar o fato de que ele a matou.

— Tiff disse que ele era avulso.

— Avulso?

— Trabalhador avulso... ou temporário. Júlia ficou confusa.

— Não. Trabalhadores temporários nunca param em um lugar. Ele morava em Claymore Park.

— Tiff disse que ele matou muita gente — continuou Callie, em tom mais baixo, como se só agora compreendesse a gravidade do caso. — Ainda bem que ele não matou você, mamãe.

— Ele não matou muita gente, querida. Não sei onde Tiff ouviu isso, mas não é verdade.

— Tiff disse que vão colocá-lo em uma cadeira e matá-lo, porque ele matou muita gente na Flórida.

Júlia teve a visão repentina de caçar uma raposa e vê-la desaparecer. Em um segundo, a presa estava à vista, no outro, não estava mais.

— Na Flórida? Callie, o que...

O telefone tocou, e as duas se calaram enquanto Maisy atendia. Maisy entrou na sala com o aparelho na mão.

— É Flô SutherIand, Júlia. Ela quer falar com você. Custou

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um pouco a descobrir que você estava aqui, mas diz que é importante.

Júlia permanecia imóvel. Nas últimas semanas, sua vida mudara incomensuravelmente. Sabia que estava para mudar de novo.

— Júlia?

— Leve Callie para a cozinha, por favor, Maisy. Acho que ela vai querer aquela torta agora.

— Vamos, Callie.

A menina pulou do sofá e só então Júlia pegou o telefone. Esperou a mãe e a filha se retirarem antes de encostá-lo no ouvido.

Maisy nem pensou em pedir a Júlia que ouvisse o próximo capítulo de seu romance naquela noite. Após o telefonema de Flô, ela se controlara o bastante para pôr a filha na cama e se aprontar para dormir, mas era evidente que precisava ficar sozinha.

Lavou a louça, fechou e trancou as janelas e apagou as luzes antes de ir ao encontro de Jake.

Esperara vê-lo no quarto. Como ele não estava lá, saiu pela porta dos fundos e rumou ao celeiro. Ouviu-o conversando com Feather Foot antes mesmo de entrar.

— Que pónei bonzinho, e bonitinho...

Da porta, ela os viu, o homem desajeitado e gentil e o animal coquete.

— Está dando a ela mais cubos de açúcar? Depois de dizer a Callie que não devia exagerar?

Jake nem se voltou.

— São cenouras. Sobras do jantar.

— Nesse caso, sem bronca.

— É muito linda. Rabugenta, mas bonita. Muito parecida com Callie.

— E vai estragá-la do mesmo jeito.

Jake afagou o focinho do pónei antes de encarar a mulher.

— Gosto de mimar as mulheres sob meus cuidados.

— Que noite difícil...

— Quer falar sobre isso?

— Eu quero. Você quer?

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Ele contraiu a boca, nem sorrindo, nem rejeitando.



Gostaria de ter algo a dizer. Algo sábio e profundo sobre o universo e como as coisas sempre se acertam no final.

— Nem sempre.

É por isso que não tenho nada a dizer. — Jake estendeu os braços. Maisy atravessou o chão e se aninhou neles.

— O telefonema foi um choque terrível para Júlia. Ele a apertou contra o peito.

— Descobrir que o homem que ela amava não tinha matado ninguém, afinal de contas?

— Ela sempre soube disso.

Jake pousou o queixo nos cabelos da esposa.

— Quer acreditar nisso porque gosta de manter os olhos fechados a certas realidades.

— Do que está fIando agora?

— Que a vida é muito mais complexa para sua filha do que para você. Que ela nunca desenvolveu defesas como as suas.

Maisy magoou-se, porém disfarçou.

— Ela se casou com Bard Warwick. Uma mulher sem defesas não sobreviveria a isso.

Ele a beijou nos cabelos.

— Não importa em que você acredite, Júlia duvidou da inocência de Christian, ainda que momentaneamente. Agora, ela vai ter de encarar o fato de que não ficou do lado dele quando ele mais precisou.

— Mas ele não quis...

— Porque ela vacilou no banco das testemunhas. Maisy arrepiou-se. A noite estava fria, mas os braços do marido a aqueciam. Supunha que o tremor resultasse de uma fissura naquelas defesas que Jake mencionara.

— Estou tão dividida. Se encontrarem as jóias de Fidelity Amanhã, Christian será libertado, com certeza. Rezo por isso desde o dia em que ele foi condenado, mas vai ser muito difícil para Júlia. Ter Christian de volta agora vai Piorar ainda mais a situação dela, não vai?

— Não vai facilitar. — O marido desvencilhou-se e esfregou as mãos nas mangas de seu suéter, para aquecê-la mais. — O que a faz pensar que ele vai voltar?

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— Porque Peter sempre o defendeu. Tenho certeza de que vai lhe oferecer um emprego em Claymore Park.



— Peter tem contatos em todo o mundo dos cavalos. Pode ajudar Christian a arranjar emprego longe da cena do crime. Chrístian esteve fora por nove anos. Iria se sentir à vontade? Com toda Ridge’s Race e arredores ainda acreditando que ele matou Fidelity?

— Acho que, quando perdemos tudo e então nos dão a chance de recuperar ao menos parte daquilo, não abrimos mão.

Jake refletiu a respeito.

— Você é uma mulher sábia, Maisy.

— Acha?

— Acho que deixa escapar um ou outro ensinamento, quando pensa que ninguém está ouvindo.



Ela franziu o cenho.

— Como você me suporta?

— É fácil.

— Às vezes, ultimamente, não é o que parece... Ele não perguntou o que ela queria dizer.

— O tempo passa e as pessoas mudam. Suas vidas mudam com isso. A vida de Christian está mudando outra vez. A vida de Júlia está mudando, e ela vai ter de enfrentar isso, esteja pronta ou não. Nossas vidas estão mudando, também.

— Em que sentido, Jake?

— Estamos envelhecendo. Temos menos tempo para dizer as coisas que precisamos dizer.

— Que coisas?

— Toda uma existência de coisas não ditas.

Maisy tinha certeza de que o marido se mostrava obtuso propositalmente.

— Tem coisas que precisa dizer? Jake sorriu.

— Estou a caminho de encontrá-las, acho. E você?

Ela pensou nos milhares de coisas que quisera dizer a ele ou a Júlia e nunca dissera. Ela, que tagarelava sem parar. Em vez de responder, questionou:

— Jake, você ainda me ama?

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- Sim, ainda te amo.



Maisy sentiu-se vulnerável, uma sensação inesperada e desagradável.

.— Tem-se mostrado muito crítico ultimamente.

— É mesmo?

.— Parece impaciente comigo e com as coisas que digo.

— Acho que tem a ver com o tempo passando rápido demais, não creio que esteja dizendo as coisas que precisa dizer.

— Isso não faz sentido.

— Não sei como expor o sentido disso. Sinto que nossa vida juntos tem sido um descascar de camadas. Às vezes, imagino se vamos conseguir.

— Eu sinto que conheço você.

— Na medida em que se permite conhecer alguém.

— Agora, está sendo crítico. O marido negou.

— Estou sendo franco. Pode ser o que faltou em nosso casamento. Talvez por isso eu esteja impaciente.

Maisy sentiu que haviam percorrido um bom trecho e chegado a parte alguma. Sentia falta do homem que desposara, do homem que a aceitara inequivocamente.

Jake lhe apertou os ombros.

— Não me olhe assim. Não me perdeu. Não a amo menos. Talvez goste até mais de você.

— Quanto mais de mim vão suportar? — Ela bateu na barriga redonda. — Quanto mais pode haver?

— Acho melhor irmos ver como estão as coisas lá em casa. Se Callie precisar de alguma coisa, Júlia não poderá atender. Não esta noite.

Maisy percebeu que o marido se esquivava, mas aliviou-se. Bastava por aquele dia.

— Sabe, Jake, se quiser mais de mim, podemos arranjar esta noite.

— É mesmo?

— Andamos diminuindo o ritmo. Que tal retomarmos o Passo?

Ele a envolveu com o braço e apertou. Mas, quando finalmente se deitaram e se abraçaram com força, Maisy ainda sentia a distância separando-os.

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