Emilie Richards



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CAPÍTULO VII
Maisy era boa cozinheira, mas Jake a superava. Juntos, prepararam um jantar que arrancou Júlia de seu auto-imposto jejum. Ela devia pensar em Callie, a filha vulnerável que não precisava de mais um exemplo de anorexia. A televisão já os fornecia em excesso. Júlia resolveu enfrentar o constrangimento de frente:

— Está uma delícia. Mas aposto como estou fazendo a maior sujeira.

Callie riu.

— Tem molho no seu queixo!

Júlia sentiu um guardanapo enxugando-lhe a boca. Deixava a filha cuidar dela, grata por Callie parecer mais curiosa do que assustada com seu estado.

— Vou tentar comer de olhos fechados — decidiu a menina.

— Basta uma fazendo sujeira à mesa, por favor. — Júlia sorriu na direção da filha. — A coitada da Maisy vai ter um trabalhão para limpar tudo.

— Mais um biscoito, Júlia? — indagou a mãe, do outro lado da mesa.

Júlia recusou.

— Já comi mais do que minha cota semanal. Estão maravilhosos.

E estavam mesmo. Maisy sempre fora uma cozinheira eclética, que se enjoava de uma cozinha e adotava outra sem pestanejar. Sopa de capim-limão taiIandesa e pupusas salvadorenhas, uns discos de massa de fubá fritos com recheios variados, eram tão comuns à mesa quanto o presunto da terra. Naquela noite, ela e o marido haviam preparado

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um clássico sulista: frango frito, biscoitos com molho de creme, feijão verde com carne de porco salgada e a famosa torta de batata-doce de Jake como sobremesa. Refeição digna de um ataque cardíaco.



— Uma fatia de torta assim que eu terminar com a louça? — ofereceu Maisy.

— Eu ajudo — prontificou-se Júlia. — Posso enxugar. Maisy não argumentou.

— Ajudo você a encontrar o caminho.

— Quero ver Feather Foot — declarou Callie, empurrando a cadeira. — Ela deve estar se sentindo só.

— Eu levo você. — Jake empurrou a cadeira também.

— Aproveito para trancar tudo. Você pode ajudar.

— Posso, mamãe?

— Claro. — Júlia levantou-se e deslizou as mãos na mesa até o extremo. Maisy lhe tomou o braço, e ela seguiu a mãe arrastando os pés para não tropeçar.

A cozinha era grande o bastante para comportar uma mesa de metal laqueado e fria ao toque. Júlia pousou os dedos na borda. Na infância, quando precisava de ajuda nas lições, fazia o dever de casa ali, com Maisy soletrando palavras ou Jake resolvendo problemas de matemática, passo a passo. Abandonara aquele aconchegante ninho familiar ao crescer, preferindo a própria companhia à deles. Seu quarto tornara-se um porto seguro e o telefone, a corda salva-vidas.

Voltou a pensar em Fidelity e, inevitavelmente, em Christian.

— Está com a expressão que tinha quando criança — observou Maisy. — Como se estivesse a milhares de quilómetros daqui. Eu ficava imaginando como chegar tão longe

Júlia surpreendeu-se. Apesar de todo o amor e dos ataques-surpresa à intimidade, Maisy raramente expressava os sentimentos. Decidiu ser franca.

— Estava me lembrando de Fidelity.

— O que provocou a lembrança?

— Estar aqui, acho. Sinto-me de volta à infância.

— Ela fez parte. Christian também. Júlia não conseguia falar dele.

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E Robby. Quanta tristeza...



— Viu tristeza demais.

— Imagino se é por isso que estou assim. Se estou cega por causa do que aconteceu. Como se só agora me desse conta de tudo. O assassinato de Fidelity, a condenação de Christian, o acidente de Robby...

Perguntou ao médico?

Perderia um minuto do seu dia com aquele homem?

Júlia, quer que eu procure um bom terapeuta, alguém com quem você possa conversar mais à vontade?

Júlia podia imaginar o tipo de terapeuta que a mãe arranjaria. Um fugitivo de Esalne, um guru a iniciar cada sessão com antigos cânticos hindus ou um psicodrama orquestrado.

Maisy riu baixo, meio triste.

— Incrível, mas quase consigo ver seus pensamentos agora. Sempre foi boa em ocultá-los, mas isso mudou.

— Maisy...

— Há uma mulher em Warrenton que dizem ser excelente. Nada de estardalhaço ou revelações instantâneas. Apenas sabe ouvir e dá bons conselhos.

Júlia ponderou as alternativas. Telefonar aos amigos pedindo indicações, expondo-se a mexericos? Contar com Bard para lhe encontrar um médico mais adequado?

— Por que não tentar? Se não gostar dela, continuamos procurando. — Maisy apertou-lhe o braço. — Vou lavar a louça. Você pode enxugar e empilhar no balcão.

Júlia posicionou-se com a mãe junto à pia, mas, ao pegar o primeiro prato, já o deixou escorregar e cair.

— Não se preocupe. — Maisy ajustou a torneira a um fluxo menos intenso. — Essa não é a porcelana fina.

Júlia pegou o prato e começou a esfregá-lo com o pano que a mãe lhe passara.

— Fazíamos isso quando eu era pequena, lembra-se? Claro, naquela época, eu enxergava...

— Desde que nos mudamos para cá. Quando éramos só eu e você.

Para Júlia, parecia fazer séculos. Lembrava-se pouco dos

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dias anteriores à chegada de Jake em suas vidas e quase nada do convívio com seu pai na mansão.



— Por que se mudou para cá, Maisy? — Já perguntara isso antes, claro, mas agora esperava uma resposta mais detalhada.

— Quer saber mesmo? Ashbourne é grande demais para se administrar sem ajuda, e achei que precisávamos de um tempo sozinhas para nos conformarmos com a morte de seu pai.

— E depois?

— Apaixonei-me pelo chalé. Não conseguia imaginar nós duas perambuIando por aquele casarão. Aí, apareceu Jake

Júlia não conseguia imaginar Jake na mansão, tampouco Ashbourne fora construída por e para pessoas que, de certa forma, se presumiam maiores do que a vida. Jake não acalentava esse tipo de ilusão.

Como a conversa progredia bem, Júlia ousou mais:

— Ashbourne parece um museu. Um registro da vida no dia em que meu pai morreu.

— Ashbourne pertence a você. Nunca vi por que mudar os móveis ou vender as antiguidades. Gosto de morar aqui Cabe a você decidir o que fazer com Ashbourne, quando estiver pronta.

— Bard gostaria de morar lá. — Ashbourne era mais grandiosa do que Millcreek, embora Millcreek estivesse na família dele desde a Guerra da Independência.

— É o que sempre achei.

— Mas não antes que abrisse a propriedade ao Mosby Hunt. Seria embaraçoso demais para ele morar lá se você não o fizesse.

— Acontece que não vou abrir. — Maisy empilhou mais pratos na pia diante de Júlia. — Não enquanto a terra estiver em meu nome.

A objeção de Maisy à caça à raposa em Ashbourne era legendária. Sua determinação em manter fora da propriedade os caçadores de raposas a tornaram tema de muitas piadas locais. Júlia, por tabela, sofrera também.

— Por falar em Bard... — Maisy fechou a torneira. — Acho que é o carro dele.

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A tarde toda, Júlia aguardara o ronco suave do automóvel de luxo. Agora o ouvia.



Onde quer conversar com ele?

— Em qualquer lugar onde Callie não possa ouvir. Que tal no jardim?

— Está meio frio esta noite...

— Deixei um suéter na sala de estar.

— Vou abrir a porta e pegar o suéter.

Júlia ouviu os passos da mãe se afastando. Preparara-se para o confronto. Seu casamento com Bard sempre fora simples e franco, mas nunca se submetera a um teste, e estremecia à primeira prova, como se o peso de sua cegueira ameaçasse uma bIança precariamente equilibrada.

Os segundos se passavam. Vieram murmúrios da frente da casa, a porta se fechou, passos tomaram sua direção. Enxugou as mãos e se voltou, recostando-se no balcão de braços cruzados. Quando o marido ultrapassasse a soleira, estaria pronta.

— Olá, Bard.

— Júlia. — Ele tinha a voz seca, como se sentisse a garganta bloqueada.

— Esperávamos que viesse mais cedo. Maisy preparou seu lugar à mesa de jantar.

— Gostaria de lhe falar a sós. É possível? Júlia zangou-se com o tom.

— Não precisa ser rude. Maisy?

— Estou aqui. Trouxe o suéter. Júlia estendeu a mão e pegou a peça.

— Precisa de ajuda para vestir?

— Não, eu me arranjo.

Maisy devia ter se deslocado, pois sua voz vinha de um lugar diferente:

Júlia gostaria de ter essa conversa no jardim. Pode ajudá-la a chegar lá?

— Posso acompanhar minha esposa a qualquer lugar a que queira ir.

— E aonde não queira ir, também — rebateu Júlia, sem Pensar.

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— Quem está sendo rude agora? — Bard foi ajudá-la com o suéter.



Ela não pediu desculpas, embora reconhecesse que respondera mal.

— Vamos sair. Callie está no celeiro com Jake.

— Soube que mandou trazerem Feather Foot também. Quanto tempo pretende ficar?

— O tempo que precisar.

Ouviu a porta se abrir e sentiu a mão grande do marido no antebraço.

— Vamos falar lá fora.

Bard era um homem grande de passadas largas. Não diminuiu o ritmo ao puxar Júlia pelo jardim. Ela tropeçou uma vez, e ele esperou um pouco, mas era evidente que estava irado, pelo modo como apertava a mão.

— Devia se submeter a isso pelo menos uma vez. — Júlia estacou quando ele parou. — Ser arrastado por alguém muito maior não é nada agradável.

— Não arrastei ninguém. — Bard expirou sonoramente — Bolas, desculpe-me. Está bem, estou zangado.

— Porque não está conseguindo a seu modo? Ou até hoje não se zangou vezes o bastante para reconhecer os sinais?

— Está determinada a lidar estupidamente com esta situação, não é?

— Estupidamente?

— Foi estupidez fugir da clínica. Tem ideia do ridículo que passei?

— Como marido de uma estúpida?

— Droga, Júlia!

Ela se calou, esperando que ele se controlasse. Embora ansiasse por discutir, seu lado sensato preponderava. Não apenas Callie poderia ouvir, como não resolveriam nada.

Bard demorou um pouco para se acalmar. Ela imaginou o vapor se desprendendo de uma chaleira fervente e então uma mão invisível apagando o fogo. Mas a água continuava quente o bastante para escaldar.

— Vamos nos sentar — convidou o marido.

— Onde estamos?

— Há um banco debaixo da árvore. — Ele a conduziu

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para lá. Após espanar folhas das ripas de madeira, reposicionou-a. Ela sentiu a borda do banco junto à dobra dos joelhos e se sentou com cuidado.



Júlia conhecia o bastante do estilo paisagístico da mãe para visualizar o jardim ao luar. Na iminência do outono, Maisy devia ter plantado crisântemos dourados e cor de laranja. Ásteres púrpura desabrochavam quando o clima começava a mudar, talvez tivessem repolho crespo este ano. Os jardins de Maisy eram caóticos e talvez mais bonitos por causa disso, como se o próprio Deus tivesse salpicado todas as cores do mundo aleatoriamente com sua mão generosa.

— Eu vinha muito aqui quando era adolescente. — Júlia tateava o banco com a ponta dos dedos. — Dá para ver a estrada por entre as árvores. Alguma vez me viu ao passar?

Se percebeu a tentativa de levar a conversa a um nível mais conciliatório, Bard não o demonstrou.

— Onde estava com a cabeça, Júlia? O dr. Jeffers disse que chegou ao topo da escada sozinha. Podia ter se matado.

— Alguém me ajudou. Ele contou também que ameaçou me prender lá?

— Ele só tentou manter você lá, para seu próprio bem.

— Bard, sou psicóloga amadora. Admito. Mas não é lógico que não vou melhorar, a menos que participe do tratamento?

— Talvez não queira melhorar.

Nesse caso, de que adiantaria ficar na clínica? Pense no dinheiro que está poupando. Posso chafurdar na minha cegueira de graça.

O marido lhe tomou a mão.

— Não estou dizendo que é algo consciente, Júlia. Sei que acredita que quer melhorar.

— Quem está bancando o psicólogo amador agora?

— Bem, se quisesse realmente, não voltaria a ver?

— De novo...

— Não sei o que pensar. — Bard lhe apertou a mão. Júlia não o rejeitou, embora quisesse que ele desaparecesse.

Queria que ele desaparecesse. A ideia a surpreendeu, e Por um segundo sufocou a conversa.

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— Não vamos mais falar da clínica — decidiu Bard. — Talvez eu tenha sido muito radical.



Toda concessão tinha um preço. Júlia aguardou.

— Quero que volte para casa. Ela desvencilhou a mão.

— Lamento, mas no momento é aqui que quero ficar.

— Não vou mais insistir em que volte para a clínica, se é o que teme. Esse capítulo está encerrado. Vamos...

— Não está escutando. Mesmo que nunca mais se fale da clínica, quero ficar aqui. É onde me sinto bem.

— O que quer dizer realmente? Que quer ficar aqui... ou que precisa ficar longe de mim?

Como não tinha certeza, Júlia não podia responder.

— Preciso das pessoas que amo ao meu redor. Você trabalha muito. Quase não pára em casa, e a sra. Taylor é que vai acabar cuidando de mim.

— Posso tirar uns dias.

Júlia tentou imaginar o marido preparando refeições e certificando-se de que os utensílios estivessem a seu alcance. Bard enxugando os respingos no chão. Bard conduzindo-a ao banheiro e levantando-a quando caísse.

— Você ia odiar isso. Ele não negou.

Júlia não tinha planos. Sua perda de visão era tão misteriosa, tão repentina que desafiava a lógica. Poderia acordar pela manhã com a visão clara como cristal. Poderia passar o resto da vida em um mundo tão escuro e sem estrelas quanto as noites de inverno.

— Não sei quanto tempo vou ficar. O quanto precisar.

— E eu?


— Que tem você?

— Preciso da minha mulher.

Faltava mencionar Callie. Mas ele não mencionou.

— Para quê, exatamente? Não posso atuar como anfitriã no momento. Terão de abrir a temporada de caça à raposa sem mim.

Bard costumava ser o batedor honorário do Mosby Hunt, e a emoção da caçada fora uma das primeiras alegrias que partilharam.

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Você me faz parecer fútil.



Então, explique por que me quer em casa.

Bard zangou-se mais.

Para quê? É evidente que já se decidiu. Sou o vilão nesta história. Tentei arranjar ajuda para você, mas você rejeitou. Vim lhe pedir que volte para casa, e quer que eu implore.

Júlia baixou a voz para contrastar com a dele.

Não quero que implore. Só quero que perceba que não há motivo para eu voltar para Millcreek, a não ser provocar comentários. Pode me visitar aqui quando quiser. E a nossa filha.

— Isso não é casamento.

Júlia gostaria de saber exatamente do que o marido sentia falta. De sexo? Não conseguia imaginar Bard fazendo amor com uma mulher menos que perfeita. De qualquer forma, o sexo representava pouco naquela união. Apesar de toda a masculinidade, Bard parecia precisar de pouco, e ela nunca insistira em ter mais.

— O que é um casamento? — questionou, sinceramente interessada na resposta.

— Aonde quer chegar agora?

— Você quase não tem tempo para a família. No mínimo, agora terá justificativa para se dedicar ainda mais ao trabalho.

— Você nunca reclamou disso antes. Por que esse assunto agora? Está se vingando de mim por ganhar dinheiro para sustentar você?

— Bard, você já tem o bastante para sustentar um harém. Vamos ser francos. Você trabalha porque gosta de trabalhar. Tem de trabalhar. Tem energia demais para permanecer à toa por mais de um minuto.

— E você nunca me pediu para diminuir o ritmo. Talvez preferisse assim. Não precisa me suportar o tempo todo. Não teve que abrir mão de seus sonhos com outro homem!

Júlia reagiu estarrecida, tanto pelas palavras quanto pela veemência.

— Não é verdade!

— Não? Acha que nunca notei sua frieza? Pensa que não sei o motivo? Pensa que não sei o quanto odeia quando

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tento ser o pai de Callie? É o meu nome que consta na certidão de nascimento dela, mas, a seu ver, não tenho o direito de colocar meu selo nela. Callie é sua filha. Sua e de um assassino.



— Fale baixo!

— Claro, ninguém pode saber.

— Jamais tentei impedir você de se distrair com Callie.

— Desde que fizesse o que você queria. Você determina todos os aspectos de nossa vida, Júlia. Agiu assim desde o começo. E ainda me acusa de controlador!

Por um segundo, Júlia sentiu-se muito arrependida. Estavam casados havia quase nove anos, e Bard jamais dissera nada daquilo. Tentara ser uma boa esposa. Não se permitira chorar por Christian Carver. Acreditara que sua profunda gratidão a Bard se transformara em afeto. Conhecia os defeitos e limitações dele, mas conhecia os seus também. Acreditara que aquela união, ainda que baseada em um segredo, fosse sólida.

— Callie nunca foi minha filha — concluiu Bard, amargurado. — Você nunca permitiu que ela fosse. Sou seu prisioneiro tanto quanto Christian na penitenciária estadual

Júlia enchia-se de culpa, embora não soubesse se merecia. As palavras do marido reverberavam em sua cabeça.

— Se está tentando me convencer a voltar para Millcreek, você mesmo é seu pior inimigo. Não podemos continuar juntos. Não com tudo isso entre nós.

— Não vamos resolver nada com você morando aqui, tampouco. Seria um passo rumo ao divórcio. É o que quer?

Júlia foi salva pelo gongo quando a voz da filha lhes chegou do celeiro.

— Se quiser ver Callie, esta é a hora. Já falamos o bastante por hoje, não acha?

— Não.


— Ela vai ver o carro e saber que você está aqui. Não pode ignorá-la.

— Está bem, Júlia. Vou vê-la. Mas fique aqui até Maisy vir buscá-la. Para variar, deixe-me ser o pai de Callie sem sua ajuda.

— Bard...

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Não diga nada.



Uma brisa fria substituiu o corpo quente de Bard a seu lado e folha secas estalaram sob os pés dele.

—- Se por algum motivo quiser se encontrar comigo de novo, sabe onde estou. Aguardo instruções.

Júlia ouviu os passos do marido no caminho de cascalho. Baixou o rosto e fitou o solo sem o ver.

Maisy viu a neta correr para o pai e então estacar a metros de distância dele, como se temesse a rejeição.

— Oi, papai.

— Oi, Callie. — Bard não abriu os braços, mas tampouco se afastou. — Sua mãe me contou que estava vendo Feather Foot. Ela está feliz aqui?

— Está. Jake trabalha lá todo dia e vai lhe fazer companhia enquanto vou para a escola. Ela tem tudo de que precisa.

Bard olhou para a sogra.

— Parece que conseguiu confiscar toda a minha família. Maisy não mordeu a isca.

— Estamos contentes por poder ajudar.

— Tirei B em história. — Callie avançou um passo. — Era sobre os soldados de Mosby.

— Que ótimo. — Bard não se mostrava crítico nem entusiasmado. Era óbvio que não atentava à conversa.

A menina insistiu:

— B é uma boa nota. Mais alta do que a última, lembra-se?

— Não deve pensar assim, Callie. Um B é muito bom, mas um A é ainda melhor.

Callie fez careta.

— Quer dizer que não devo ficar contente?

— Você pode ficar contente. — Bard concentrou-se na filha. — Um B é bom o bastante para que a gente fique contente.

— Você sempre tirava A?

— Quase sempre.

A menina desanimou-se.

— Acho que não sou tão inteligente...

Maisy quase interferiu a essa altura, mas a réplica do genro a deteve.

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— É inteligente o bastante para me fazer feliz. Callie reanimou-se. Bard achegou-se e lhe embaraçou os cabelos.



— Você me acompanha até o carro?

— Onde está mamãe?

Maisy franziu o cenho. Onde estaria Júlia? O genro informou:

— Júlia está no jardim. Está esfriando. Ela vai precisar de ajuda para entrar. — Tomou o rumo do luxuoso automóvel preto estacionado perto do celeiro, seguido pela filha.

— Parece que ele mexeu em um vespeiro — comentou Maisy com Jake. — Abandonou Júlia lá no jardim.

— Bard é um homem de muitas qualidades, mas lidar com sentimentos não é uma delas.

— Tenho vontade de bater nele quando faz Callie se envergonhar de si mesma.

— Maisy, ele se esforça. Dá para ver isso.

Ela se sentiu repreendida, e não pela primeira vez. Ultimamente, vinha sentindo alfinetadas de Jake cada vez com mais freqüência.

— Callie é só uma criança.

— Mas é mais forte do que pensa. Os dois têm que trabalhar o relacionamento sozinhos.

— Eu sei. — Maisy deixava transparecer a mágoa, embora tentasse disfarçar.

— Você protege demais aqueles que ama. Chega a sufocar. Maisy teve que questionar:

— Eu sufoco você, Jake?

— Só quando permito.

Não havia mais nada que ela pudesse dizer. Jake lhe apertou o braço, para confortar.

— Deixe que eu pego Júlia no jardim, enquanto você apronta Callie para dormir.

Maisy o observou se afastar. Finalmente, respirou fundo e percebeu que era a primeira vez que o fazia desde a resposta dele.

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CAPÍTULO VIII
Mamãe, quando fecho os olhos, ainda vejo luz. Você também vê?

— Acho que não. Volte-me para o abajur.

A julgar pelo entusiasmo, Callie devia achar aquilo divertido. De pé na cama, pousou as mãos nos ombros de Júlia e a orientou.

— Está vendo?

— Mesmo quando fecha os olhos, você recebe luz através das pálpebras. Qualquer que seja o problema em meus olhos, a luz não chega.

— Papai diz que há algo errado com sua cabeça, mas não por ter batido.

Júlia achou bom Bard ter esclarecido Callie quanto a isso, ao menos.

— É difícil entender.

— Se se esforçar bastante mesmo, talvez consiga ver. Júlia ouvia Bard através da filha. Posicionou-se para se sentar na cama.

— Lembra-se de quando estava aprendendo a ler e, por mais que tentasse, não conseguia ver sentido em todas aquelas letras? Lembra-se de que precisou de uma professora especial que sabia qual era seu problema e como ajudar você a superá-lo?

— Ainda não fiz nem nove anos, mamãe — retrucou Callie, com paciência exagerada. — Eu me lembro.

Júlia abriu os braços para a filha, que se encaixou entre eles e se aninhou contra seu peito.

— Bem, é o que está acontecendo comigo. Por mais que

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me esforce para enxergar, não consigo. Vou precisar de uma professora especial para me ajudar a ver de novo, alguém que saiba qual é o meu problema.



— Uma professora de visão? Júlia gostaria que fosse tão fácil.

— Uma psicóloga. Uma conselheira.

— Já estou aprendendo a ler. Talvez você aprenda a ver, também.

— Você está indo muito bem com a leitura. E, por estar sendo difícil, significará mais.

— Tive de ler em voz alta na classe hoje.

Júlia conseguira da professora de Callie a promessa de que isso jamais aconteceria.

— Por quê?

— Veio uma professora substituta. A sra. Quinn foi a uma reunião. Eu disse a ela que tinha dificuldade, e ela me mandou parar. Mas as outras crianças riram.

— E o que você fez?

— Não tive tempo para fazer nada. Leroy Spader se levantou para ler e tropeçou no pé de alguém. Aí, todos riram dele. — Callie fez pausa. — Mas eu não ri. Eu o ajudei a se levantar.

— Isso foi gentil. — Júlia lembrava-se de Leroy. Em geral, quando a classe ria de Callie, o pequeno arrogante liderava.

— Depois, eu o empurrei.

— Não!

— De volta à carteira. Só isso. Para ele não cair de novo. Júlia abraçou a filha com mais força.



— Não faça mais isso, Callie. Sei que Leroy provoca, mas revidar não adianta nada.

— Por quê? Porque devo me comportar como uma dama? As palavras de Bard novamente.

— Em absoluto. Porque é a maneira correta de agir. Para meninas e para meninos.

— Ha!


— Ha?

— É o que Tiffany diz quando fica brava.

— É melhor entrar debaixo das cobertas agora, doçura.

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Primeiro, você tem que se levantar. Está em cima do cobertor.



Júlia levantou-se.

Vou ajeitar a coberta. Será que consigo?

. Gosto do seu quarto. Estou contente por dormir aqui.

Júlia sempre gostara daquele cómodo, também, e não se surpreendeu quando Callie o escolheu. Era um quarto grande e arejado, com janelas em dois lados e árvores quase ao alcance da mão. Quando tinha a idade de Callie, pedira a Maisy que o pintasse de amarelo-sol, cor que permanecera até sua adolescência. A partir daí, começou a pintar as paredes de cores cada vez mais escuras, sem jamais se satisfazer. Em um estranho momento de desafio maternal, Maisy a proibira de pintá-las de preto, e acabaram concordando com azul-marinho.

Agora, o aposento era lilás-claro, ou assim se encontrava na última vez que o vira.

— De que cor são as paredes daqui, Callie?

— Púrpura.

— Púrpura-claro?

— É.

— Pintei dessa cor no meu primeiro ano de faculdade. Christian ajudara, bem como Fidelity. Júlia sentiu nova pontada de dor. Callie jamais saberia que seu pai biológico pintara aquele teto sobre sua cabeça. Nem que a melhor amiga de sua mãe pintara a esquadria, mas deixando escorrer tanta tinta na parede que a fizeram se sentar e só supervisionar.



Callie jamais saberia que fora concebida entre aquelas quatro paredes, dias antes de Christian ser condenado, pelo assassinato de Fidelity, a uma vida inteira longe da filha que nem sabia ter.

— Esse púrpura me dá sono — comentou a menina, em tom de quem embarcava para o mundo dos sonhos.

— Não posso ler, mas posso lhe contar uma história.

— Acho... que não consigo ficar acordada...

Júlia sentou-se na beirada da cama outra vez e encontrou o rosto da filha. Beijou-a na testa.

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— Amanhã, conto uma história mais longa, para compensar, está bem?



— Prontas para dormir? Júlia não ouvira a mãe entrar.

— Esta garotinha está cansada. Maisy aproximou-se da cama.

— Boa noite, princesa. Até amanhã.

— Boa noite... Deixem a porta aberta.

— Vamos deixar. — Júlia sentiu a mão de Maisy em torno da sua.

No corredor, Maisy pousou o braço nos ombros da filha.

— Já vai dormir também?

— Estou cansada.

Ao pé da escada, após descerem bem devagar, a mãe especulou:

— Como foi a conversa com Bard?

Júlia percebeu que Maisy precisava saber ao menos parte do que ocorrera.

— Bard considera um ataque pessoal. E acho que o hostilizei.

— Lamento.

— Mesmo?


— Não quero que sua vida se torne mais difícil do que já está.

— Ele ultrapassou todos os limites. — E, por dentro, Júlia ainda tremia ao rugido dissonante.

— Júlia, o que quer que decida, sabe que estarei do seu lado, não? Não estou tentando convencer você a nada.

Júlia refletiu a respeito. Maisy sempre fora uma mãe liberal. Às vezes, considerava que a falta de regras fora uma forma de controle furtiva, porém útil. Tão pouco limitada pelos pais, vira-se obrigada a se impor regras, tão cautelosa que, se errava, era por excesso de cuidado.

— Não está me obrigando a fazer nada que não quero, mas você me quer aqui, Maisy. Já deixou isso claro.

— Não vou mentir. Estou adorando.

— É impressão minha, ou andou tirando coisas do corredor?

— Resolvi abrir caminhos. Estávamos precisando! Júlia deixou-se conduzir para o cómodo no térreo. Desde

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que conseguira percorrer sozinha os corredores da Gandy Willson tornara-se mais confiante. Ainda arrastava os pés, mas cada passo já não lhe provocava um ataque de ansiedade.



Tirei uma camisola para você. Todos os acessórios de banheiro estão enfileirados na estante sobre o aquecedor. Vai precisar de ajuda?

Eu me arranjo.

— Que tal se formos para o banheiro primeiro, e volto em alguns minutos? A menos que queira tomar banho?

— Vou tomar banho de manhã.

Júlia encontrou tudo de que precisava e se aprontou para dormir. De volta ao quarto, tateou o peseiro da cama à procura da camisola.

— Posso sair para você se vestir e voltar depois — declarou Maisy.

— Obrigada, mas acho que já vou dormir.

— Na verdade, preciso de sua ajuda com uma coisa.

— Então, fique enquanto me troco.

Júlia ouviu o colchão ranger. Aquela cama, como quase tudo o mais no chalé, era uma antiguidade, que Maisy chamava de ”pré-amada”.

Maisy ficou em silêncio enquanto Júlia se despia, até vê-la de calcinha e sutiã.

— Querida, está tão magrinha...

— Estou em desvantagem aqui. Não posso ver você, esqueceu?

— Creia, não emagreci nada.

— Não tenho apetite desde o acidente. Mas vou recuperar alguns quilos.

— Parece Audrey Hepburn. Júlia esboçou um sorriso.

— Lembra-se de quantas vezes assistimos a My Fair Lady?

— Era uma das poucas coisas em que concordávamos. Júlia gostaria de poder contestar, mas a mãe tinha razão.

Haviam partilhado tão pouco, não apenas durante a turbulência normal de sua adolescência, mas ao longo de toda a sua infância também. Nunca entendera. Eram pessoas muito diferentes, porém amavam-se. Também adoravam Ashbourne,

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bem como, cada uma a seu modo, a cultura de Ridge’s Race. Apesar disso, nunca sentira que pisassem no mesmo chão, ou mesmo que pudessem se alcançar através da divisa.



Quando Callie nasceu, sua primeira prece foi para que sua filha não se afastasse tanto quanto ela se afastara de Maisy.

— Tenho pensado muito nisso. — Maisy devia ter-se mexido, pois as molas rangeram de novo. — Sua mão escapou da minha quando você era pequena, e nunca mais a recuperei

Júlia vestiu a camisola por sobre a cabeça e sentiu a queda familiar do tecido sobre os quadris. Mas o farfalhar da seda era a única coisa familiar quanto aos últimos momentos.

— Eu te amo, Maisy — declarou, hesitante. — Sabe que amo.

— Isso nunca esteve em questão.

— Não sei o que mais dizer. Somos muito diferentes. Será que me pareço mais com meu pai?

— Em alguns aspectos, talvez. Ele também não gostava de falar dos sentimentos.

— Você também não gosta — observou Júlia. — Fora isso, é capaz de falar de qualquer coisa.

— Harry tinha um dom de atrair gente que nenhuma de nós apresenta. Quando entrava em uma sala, trazia a luz. Não que se esforçasse para demonstrar charme, pois era confiante demais. — Maisy fez pausa, recordando. — Ele era poderoso, e ninguém queria viver em sua esfera.

Júlia conseguiu contornar a cama e se sentou na beirada

— Não me lembro de nada dele.

— Eu sei. Jake foi seu pai de verdade.

— E não poderia desejar outro. É o melhor.

Júlia desconfiou de que a janela para os sentimentos da mãe se fechava. Mas chegara a se abrir, o que dava esperanças.

— Disse que precisava da minha ajuda?

Maisy demorou a falar. Quando o fez, foi constrangida.

— Júlia, estou escrevendo um romance.

Júlia supunha que qualquer de suas amigas ficaria perplexa se ouvisse tal coisa da mãe. As boas senhoras de

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Ridge’s Race organizavam chás beneficentes e trabalhavam em comitês, levavam filhos e netos a shows de cavalos e póneis, corridas de cavalos com obstáculos, recebiam amigos, supervisionavam o assado de um presunto e a montagem de saladas para piqueniques. A maioria não perseguia uma musa.



Maisy perseguia a dela com fúria.

Júlia recordou as últimas tentativas da mãe.

Desistiu da escultura?

Foi um fracasso.

Nem tanto. Achei interessantes algumas coisas que fez.

— Júlia, ambas sabemos o que ”interessante” significa no mundo da arte. Poupe-me de falsos elogios.

— Gostei do busto de Callie. Verdade.

— Foi a única que reconheceu que era Callie, e só porque a deixou posar para mim.

— Então, resolveu escrever. Não tentou poesia quando eu estava na faculdade?

— Não importava o que escrevesse, rimava. Fiquei com vergonha.

— Bem, se está me contando isso porque quer minha aprovação, sabe que a tem. Acho ótimo.

— Fico contente em ouvir isso. Quero ler para você o que escrevi.

Júlia ficou séria.

— Não vou conseguir me concentrar muito, Maisy.

— Sei que está preocupada.

Maisy tentara ser franca. Agora, era a vez de Júlia de tentar ser franca com a mãe.

— É como se eu estivesse endireitando a minha vida, ou destruindo-a, não sei ao certo. Sinto-me encolher toda, como um porco-espinho ao ser atacado. Tudo o que acontece dentro de mim agora gira em torno de mim e minha vida. Sinto-me egoísta, mas não sei se consigo pensar em alguma outra coisa.

— Entendo.

— Que bom.

Mas ainda assim apreciaria se ouvisse minha história. E explico por quê — prontificou-se Maisy, antes que a filha objetasse. — Acho que você precisa de algo fora de si mesma

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Júlia cultivou a paciência.



Talvez durma enquanto estiver lendo. O que vai pensar, então?

Que está cansada. Só que está cansada.

Que tipo de romance escreveu?

De amor, acho. Pelo menos, é a forma que está tomando. Pensando bem, é o que gosto de ler. Preciso de um final feliz.

E já garantiu um?

Não posso. Os personagens têm vontade própria. O texto vai saindo...

Júlia temia pela qualidade do romance. A cerâmica de Maisy também ia saindo...

— Você costumava ler para mim quando eu era pequena. Toda noite. É uma de minhas melhores lembranças da infância.

— Eu lhe dizia para relaxar e deixar a história tomar conta. Lembra-se?

— Lembro.

— Júlia, relaxe e deixe a história tomar conta. Esqueça tudo o mais. Terá muito tempo para se lembrar de tudo outra vez quando acordar amanhã de manhã.

— Trouxe o manuscrito?

— O primeiro capítulo está bem aqui.

Júlia ouviu um farfalhar de folhas de papel, uma cadeira arranhando o chão e o estalido de um assento de junco quando Maisy se sentou.

— Jake sabe?

— Seu padrasto nunca pergunta nada. Sabe que lhe contarei tudo qualquer hora. Até mais do que gostaria de saber.

Júlia recostou-se. Maisy tinha uma voz calma, melodiosa, e era capaz de injetar muito drama a qualquer texto. Iria se esforçar para que a plateia de uma pessoa só se distraísse com a história.

— Feche os olhos — instruiu a mãe.

Não que vá fazer diferença — replicou Júlia, mas atendeu.

Maisy começou a derramar sobre ela suas palavras em fluxo sereno.

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