Emilie Richards



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CAPÍTULO V
Júlia ansiava por andar em círculos, mas isso era receita de desastre. Criara-se naquela casa, mas nada ali permanecia no mesmo lugar. Na infância, muitas vezes chegara da escola e descobrira que Maisy mudara os quartos ou transformara a sala de jantar em sala de exercícios. A mobília deslocava-se misteriosamente de cómodo em cómodo, e os tapetes voavam para novas localizações como que saídos das Mil e Uma Noites.

Quando enxergava, vira as mudanças como meros contratempos. Agora, eram letais. Não sabia onde pisar ou se sentar. Apesar da ajuda de Karen, ainda não dominara o quartinho no térreo em que Jake a instalara.

— Ótimo. — Karen já estava mais calma do que no momento da fuga da clínica.

Júlia solidarizava-se com a enfermeira, mas agora estava preocupada demais com a filha para lhe oferecer apoio. Maisy fora a Millcreek buscar Callie, e temia que ela se encrencasse.

— Acertei?

— Bem no alvo. Você vai memorizar este cómodo, depois falo com seus pais sobre arrumarmos o resto da casa para você poder se deslocar com facilidade. — Karen fez pausa. — Realmente, esta não é a minha especialidade, sra. Warwick. Seria melhor contratar uma profissional experiente com cegos.

— Chame-me de Júlia. E poderá trabalhar comigo enquanto quiser.

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- Sua visão pode voltar a qualquer momento. Espero que seja logo.



Eu também. Nesse caso, você automaticamente se tornará minha assistente pessoal. E não pense que não preciso de uma. Fazia tempo que ameaçava contratar alguém, e agora você está aqui.

Apenas lembre-se de que a alertei.

Comentou que tem um filho. Precisa ir ver como ele está?

— Brandon. Minha mãe toma conta dele.

— Por que não tira o resto do dia de folga? Já fez muito. Pode vir amanhã de manhã?

— Às oito? Ou às nove?

— Às nove está ótimo. — Júlia esboçou um sorriso. — Vou me voltar para a cama agora. — Começou a andar, mas parou após alguns passos. Esticou os braços e não encontrou nada. Rígida, Karen nada dizia.

Júlia deu mais dois passos e sentiu a cama. Desta vez, encontrou a colcha sob os dedos.

— Eu me arranjo. Pode ir agora.

— Chego às nove, então. Mando Brandon para a escola e venho direto para cá. Durma bem.

— Como não durmo há semanas.

— Se tiver insónia, tome chá de ervas ou leite quente. Júlia gostava mais daquela prescrição do que as que o médico lhe impusera.

— Um pouco de uísque no leite faz maravilhas. Karen apertou-lhe o ombro. Segundos depois, Júlia ouviu a porta se fechar.

Estava em casa. Não em seu quarto no andar de cima, onde dançara ao som de Depeche Mode e do ”Thriller” de Michael Jackson, onde esboçara mil retratos de colegas da escola e paisagens de suas amadas colinas, onde amargara as derrotas para a trigonometria, onde conversara ao telefone por horas a fio com Fidelity... e com Christian.

Cerrou os punhos no colo. Não dormia sob aquele teto desde que se casara. Embora contasse apenas vinte anos ao desposar Bard, empacotara a infância e a guardara no sótão do inconsciente.

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Lembrava-se dela, claro. Se precisasse, poderia retirá-la em partes, de malas e baús imaginários. Quando Callie pedia, contava-lhe histórias de quando crescera em Ashbourne, do inverno em que contraíra catapora, quando Maisy, para animá-la, vestira-se de Mamãe Noel para lhe dar uma vela de São Valentim aninhada em uma cesta de Páscoa em lilás e amarelo.



Percebia agora que fora uma criança pensativa em um lar feliz. Uma criança quieta em uma casa em que nada deixava de ser dito. Uma criança reservada em um lugar sem mistérios. Ninguém ali a diminuíra nem tentara mudála. Fora aceita e amada. Embora às vezes desejasse as casas e os pais mais tradicionais dos amiguinhos, percebera como era felizarda.

Até o dia em que seu mundo virou de ponta-cabeça.

Uma batida na porta interrompeu-lhe o devaneio.

— Entre — declarou, grata.

— Trouxe um chazinho. Fiz do jeito como você gostava quando era pequena.

Júlia sorriu na direção de Jake.

— Você é bom demais para mim.

— Ninguém jamais será bom demais para você, Júlia. — Ele pousou algo, provavelmente a caneca, na mesa de cabeceira. — É nossa maior caneca, cheia até a metade. Assei biscoitos no fim de semana, e dois deles estão no pires. Quer que eu ponha a caneca na sua mão?

— Por favor. — Júlia estendeu o braço e fechou a mão em torno de cerâmica quente, provavelmente um dos projetos de Maisy.

Maisy vivera uma infeliz fase de cerâmica, e os armários continuavam cheios de canecas tortas e pratos que não podiam ir ao microondas.

Jake certificou-se de que ela segurara a caneca antes de soltá-la.

— Dois torrões de açúcar e bastante leite.

— Fazia anos que não tomava. Que delícia.

O colchão afundou. Jake devia ter-se sentado na beirada.

— Foi um dia e tanto.

Júlia passara anos sem pensar nisso, mas agora recordava

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as muitas vezes que Jake entrara em seu quarto de adolescente, mostrando-se disponível se ela quisesse conversar, retirando-se sem comentários se ela não dizia nada. Nunca especulava, nunca criticava. Simplesmente, sempre estivera lá. Um pai de verdade não teria sido mais afetuoso. O dr. Jeffers ameaçou me prender se eu não concordasse em ficar lá por livre vontade.



— Ele poderia?

— Não conheço a lei, algo em que ele apostou. Era seu ás.

— Bom, a esta altura, ele deve estar jogando sozinho, certo?

— Eu não ia melhorar naquela clínica. Mas talvez não melhore aqui, tampouco.

— O que de pior poderia acontecer?

— Nunca mais enxergar.

— Altamente improvável, mas consideremos a possibilidade. O que vai fazer?

— Aprender a viver sendo cega.

— Conseguiria?

— Teria escolha?

— Só uma, extrema. Jake se referia a suicídio.

— É terrível. Impensável. Ainda tenho minha vida, minha família. Não vou cometer nenhum desatino. — Júlia sentiu lágrimas nos olhos. — Jake, o que Callie vai pensar de mim?

Ele refletiu um pouco.

— Acho que já vamos descobrir. Júlia também ouviu a picape.

— Não quero que ela me veja chorando.

— Tome o chá e enxugue os olhos.

O chá tinha gosto de infância, de tardes chuvosas, de romances de cavalaria, de vento assobiando por entre as sebes de sempre-vivas. Já recobrara a compostura, ao menos exteriormente, quando o velho assoalho de pinho rangeu sob pés pequenos.

A porta se abriu. Jake tirou-lhe a caneca das mãos. Abriu os braços a tempo de capturar o corpinho macio da filha em um abraço bem apertado. Visualizou-a.

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Callie Warwick tinha tranças cor de caramelo e olhos castanhos cercados de cílios bem escuros. Como a mãe, era magra e pequena. Também como Júlia, era espontânea, aberta e destemida quanto a demonstrar os sentimentos.



— Mamãe!

Júlia imaginou se ainda veria de novo o rostinho doce da filha.

— Estou tão feliz que esteja aqui...

— Maisy foi me buscar. E mandou Ramon trazer Feather Foot para cá, para que eu possa cavalgar com ela em Ashbourne. Não é ótimo?

Feather Foot era o pónei de Callie. Aos oito anos, a exemplo da maioria das crianças da região, Callie já era uma amazona completa.

— Maisy é a melhor vovó do mundo — comentou Júlia. A filha riu.

— Brincamos de esconde-esconde com a sra. Taylor. Júlia imaginou que haviam se escondido da sra. Taylor.

Depois de arrumar as malas de Callie, Maisy não ia querer topar com a governanta de Millcreek.

— Deu tudo certo, Maisy? — Júlia ergueu o rosto dos cabelos da filha. Sabia que a mãe estava ali de pé, pela fragrância de violetas.

— Certíssimo. Ainda paramos no estábulo para providenciar a transferência de Feather Foot para cá o quanto antes.

— Vamos mesmo morar aqui, mamãe? Júlia afastou a franja da testa da menina.

— Vamos. Maisy e Jake disseram que querem tomar conta de nós até minha visão voltar, mas acho que eles só querem passar mais tempo com você.

— Acha?

— Sua mãe pensa que sabe demais — ralhou Maisy. — Sempre foi assim. Tenho histórias para contar...



— É melhor que não comece — replicou Jake.

— Maisy disse que posso escolher qualquer quarto lá de cima. Quer ajudar? — Callie esperou enquanto Júlia pensava em como lhe lembrar que era difícil para ela arrumar coisas agora. — Não pode — concluiu. — Esqueci.

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Júlia sentiu o peso tirado das costas. Quase se deixara convencer por Bard de que sua cegueira seria um fardo insustentável para a filha.



Abraçou Callie de novo e então a soltou.

Posso ir junto e contar o que me lembro. Uma vez, escondi-me debaixo da cama no quarto junto ao banheiro porque não queria ir à escola.

— Fez isso?

Fiz. Maisy fingiu não perceber o dia todo. Ninguém sequer foi me procurar.

- Verdade? Maisy explicou:

— Se ela precisava de um dia debaixo da cama, que ficasse lá.

— A cama ainda está lá?

— Não tente imitar — avisou Júlia. — Irá à escola todos os dias. Além disso, embaixo da cama é empoeirado e tedioso.

— Vou ver se ainda está empoeirado. — Callie saiu correndo pelo corredor.

— Foi moleza — gabou-se Maisy.

— Ela não estranhou que praticamente a raptasse? questionou Júlia.

— Não. Imaginou o que o pai diria, mas concluiu que talvez nem reparasse.

— Ah, ele vai reparar — opinou Júlia. — Daqui a pouco, o telefone vai tocar.

— O que quer que digamos?

— Tem telefone neste quarto?

— Trouxe o fone do aparelho sem fio. É mais fácil para você usar.

— Então, deixem Bard comigo.

— Ele também é bem-vindo aqui, Júlia — declarou Maisy, sincera.

— Sob pressão, o que há de pior em Bard vem à superfície. Ele fica mais rígido e autoritário. Mas vai ceder quando se der conta de que estou determinada.

— Vai voltar para casa, então?

Já estava em casa. Por mais estranho que parecesse, era o certo. Imaginava o que isso lhe dizia a seu respeito. Era

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uma mulher adulta, com marido e filha, mas precisava dos pais, que já deixara para trás. Rastejara de volta ao útero



— Um passo de cada vez — opinou Jake, liberando a enteada de uma resposta.

— Maisy, pode ajudar Callie a se instalar lá em cima? — pediu Júlia.

— Com todo o prazer. E se ela quiser seu antigo quarto?

— É só um quarto, não um santuário.

— Maisy! — A voz de Callie desceu pelo poço da escada.

— Quer mais chá? — ofereceu Jake.

Júlia só queria sua vida de volta. Não queria se tornar uma cega histérica, obrigada a depender do padrasto para lhe colocar uma caneca de chá na mão.

— Não, eu mesma pego, obrigada.

— Se prefere assim... — Jake completou: — Se deixar a caneca cair no chão, não faz mal.

— Não é uma de minhas obras-primas — declarou Maisy.

— Não mesmo.

Júlia podia imaginar Jake com o braço nos ombros de Maisy enquanto deixavam o aposento. Sentiu lágrimas nos olhos novamente.

Demorou-se um pouco lamentando tudo o que perdera. Então, sufocou as lágrimas e tentou pegar a caneca.

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CAPÍTULO VI


Fidelity Sutherland, com seus longos cabelos loiros em uma impecável trança francesa, apareceu a Christian naquela noite. Sorria insolente como sempre, o pescoço uma caricatura escancarada, uma horrenda meia-lua com as pontas para cima a despejar um rio de sangue na frente da fina camisa branca.

Ele se levantou sem emitir som e sentou-se rapidamente, mas não purgava Fidelity. Na morte, como na vida, ela era tenaz. Na juventude, descobrira maneiras de ter tudo o que desejava. Morta havia quase dez anos, não perdera a habilidade.

Considerando a débil luminosidade do céu, Christian concluiu que a aurora despontava no horizonte. Havia uma pequena janela gradeada na cela, alta demais para qualquer propósito além de admitir fiapos de luz. Sempre imaginara por que incluir janelas no projeto de uma prisão. Para relembrar aos refugos da sociedade que o sol nascia e se punha sem eles?

Christian apoiou a cabeça nos braços e fitou a janela. Certo ano, um melro de asas vermelhas gostara da saliência estreita e pousara ali de forma intermitente durante todo o verão, cantando sua própria versão de ”nunca mais”, que Parecera apropriada a Christian. Ficava esperando o melro sempre que estava na cela, mas, quando já começara a contar com a presença, o pássaro desapareceu.

Melros costumavam escurecer os céus de Claymore Park. Christian crescera com eles. Os cabos telefónicos se cobriam de corpos penugentos reluzentes como intermináveis fieiras

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de pérolas taitianas. Certa vez, comentara com Júlia Ashbourne que os cabelos dela lembravam as asas do melro



Sim, já fora um rapaz romântico e tolo, sem ideia da rapidez com que tudo em sua vida podia mudar.

— Está acordado?

Christian não desviou o olhar da janela. Seu companheiro de cela, um rapaz chamado Iandis, sempre acordava cedo. Aos vinte e um anos incompletos, Iandis apenas iniciava uma existência de manhãs como aquela. A exemplo de Christian, suas chances de contemplar a aurora em algum outro lugar eram nulas

— Volte a dormir — aconselhou Christian. — Tem tempo

— Nunca durmo. A gente não sabe o que pode acontecer enquanto dorme.

— Não vai acontecer nada aqui. Você não é o meu tipo

— E qual é o seu tipo?

Christian preferia mulheres do tipo enganosamente frágil, de cabelos negros, olhos azuis, séria demais. Na companhia da mais vistosa Fidehty SutherIand, era fácil não notá-la. Mas não para ele.

O céu clareava depressa, o que era mau.

— Meu tipo é mulher. Isso significa que está seguro.

— É, a maioria chega aqui com essa ideia. Mas olhe o que acontece...

— Não olhe. É melhor.

— Como consegue permanecer tão calmo? Não se importa em estar aqui?

— De que adiantaria me importar?

— Nunca conheci alguém tão solitário quanto você — comentou Iandis, incentivado pelo silêncio de Christian. — Não tem família?

— Todos já morreram.

— Nenhuma mulher esperando?

— Teria de esperar muito, não?

— Recebe cartas, mas não as lê.

Christian mexeu-se, aliviando a pressão nos antebraços

— Presta atenção no que não é da sua conta, Iandis. O outro se irritou.

— E daí? Vai tomar alguma providência a respeito?

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Eu não ligo a mínima para sua bisbilhotice, mas outros podem não gostar.



E daí?

Já vi levarem facada por menos.

Eu só comentei que você não lê sua correspondência.

Foi só o que eu disse. Por que não lê?

Não há motivo.

Fica com saudade de casa, não é? Ler a correspondência me dá saudade de casa...

Certa noite, altamente drogado e certo de ser invencível, o jovem veterano das ruas da região sudeste do Distrito de Colúmbia matara um policial em uma perseguição de automóvel, no lado da Virgínia da fronteira. Infelizmente, era também o orgulhoso proprietário de uma bela folha corrida, além de figurar em uma lista de lares hospedeiros pelos quais passara desde os três anos. Não era a primeira vez que Iandis entrava em uma cela, mas quase certamente fora a última.

— Tenho uma garota lá em casa — contou Iandis. — Vou dar o fora daqui algum dia. Ela vai estar esperando.

Christian não respondeu.

— As cartas são de uma mulher? — especulou Iandis. Maisy Fletcher era mulher, com certeza. Uma mãe-terra quente que colocara Christian sob sua asa na primeira vez que o vira. Agora, tantos anos depois, ainda não desistira dele, embora a filha o tivesse jogado fora como patê estragado.

Maisy escrevia a Christian fielmente, cerca de uma carta por mês. As missivas apareciam tão regularmente quanto feijão e pão de milho nas noites de quarta-feira. Não havia mais nada que Maisy pudesse fazer por ele.

Recebera uma no dia anterior, daí a bisbilhotice de Iandis. Não lia mais as cartas. Nos primeiros anos da condenação, lera todas, até se dar conta de que eram como ácido abrindo buracos em suas defesas cada vez mais sólidas. Maisy falava de pessoas com quem ele se criara, falava do casamento de Júlia com Lombard Warwick, contava histórias engraçadas sobre a vida em Ridge’s Race. Ao escrever, Maisy, que na vida cotidiana revelava-se inarticulada e desconcentrada,

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endireitava-se. Capturava com perfeição extrema a vida que ele deixara para trás.



— Chris, está acordado?

— Como posso dormir com você tagareIando?

— Vou parar de ler as cartas também, não vou? Um dia, vou parar de lê-las. Como você...

Christian fechou os olhos.

— Vamos, Seesaw.

Obediente, a cadelinha tomou seu lugar ao lado de Christian e iniciou a caminhada pela pista.

Era um filhote especialmente bonito, esperta e cheia de energia. Mas Christian procurava não se afeiçoar a nenhum animal que conhecia através do programa Cães e Prisioneiros Juntos. Crescera com cães e cavalos. Conhecia o melhor e o pior deles, treinara-os, tratara-os, eliminara-os quando necessário.

Agora, mantinha distância. Os cães que treinava iam para novos donos. Sabia, por relatórios, que eram bem tratados e se tornavam inestimáveis. Às vezes, flagrava-se desejando ver um filhote como Seesaw crescer, mas sabia que tinha sorte por poder ao menos trabalhar com ela um pouco. Treinar cães-guia era o mais próximo de seu passado a que jamais chegaria.

Timbo fez sinal do lado dele da pista, e Christian estacou e se voltou. Seesaw aguardou que ele lhe desprendesse a correia. Timbo a chamou pelo nome e ela correu para ele Christian foi atrás.

— Pois bem, Timbo. Quais as chances dela de passar no treinamento avançado?

Timbo analisou o filhote enquanto o afagava.

— Boas. Não, mais que boas. Eu diria nove em dez. — Ergueu o rosto. — O que acha?

— Oito em dez. Ela é sociável. Vai ser duro ensiná-la a ignorar outros cachorros. Mas é problema menor agora, e espero que desapareça à medida que for crescendo. Informarei sua nova família a respeito.

— Vão levá-la amanhã?

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De manhã. Vamos receber outra batelada de filhotes na semana que vem. Vou concluir a papelada esta noite.



Ela vai ter um bom lar?

Christian ergueu o sobrolho. Para um homem que não imaginava como acabara treinando cães, Timbo envolvia-se rápido.

— Todos os lares são bons. A maioria tem crianças e outros animais para brincar com o filhote. Ela vai ficar bem. E a teremos de volta em um ano.

— Só queria me certificar.

— Realizou um ótimo trabalho com ela.

— Nunca tive cachorro. Mas alimentei alguns, entende? Cães da vizinhança de quem ninguém cuidava. Costumava comprar sacos de comida para cachorro e deixar no beco à noite.

— Você é todo coração, Timbo. O rapaz sorriu.

— Eu sou.

— Faça um bom trabalho aqui e, quando sair, Bertha o ajudará a arranjar um emprego lá fora.

— Como recolhedor de bosta de cachorro em um canil?

— Deve almejar algo um pouco melhor.

— Tenho grandes planos.

Christian agachou-se ao lado da pequena cadela de caça e coçou-lhe as orelhas.

— Um homem pode mudar seus planos.

— Mesmo? Parece até que está querendo mudar os seus... Christian levantou o rosto e viu o guarda em serviço chamando-o. Levantou-se.

— Pode levá-la de volta ao canil? Depois, vá ajudar Javier. Vou ver o que o guarda quer.

— O que ele quer é fazer você se sentir um nada. Sem responder, Christian estendeu a Timbo a correia de Seesaw.

Mel Powers era um magricela que transpirava feito um gordo. Usava cabelos extravagantes, ternos caros que sempre pareciam baratos e óculos de armação dourada com lentes tão espessas quanto seu sotaque de Nova Jersey. O

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efeito estava mais para perseguidor de ambulâncias do que advogado poderoso, mas Mel Powers era o venerado Tubarão Branco nas águas infestadas dessas criaturas. Considerado o melhor advogado criminalista da Virgínia, Mel fora contratado por Peter Claymore para representar Christian. Ele ainda considerava a condenação de Christian uma afronta pessoal.



Peter Claymore, de Claymore Park, era um estudo de contrastes. Aos sessenta anos, vinte anos mais velho do que Mel, só começava a transpirar após horas caçando a cavalo com cães, se começasse a transpirar. Tinha cabelos grisalhos grossos e a visão tão perfeita que detectava movimentos na floresta quando todos acreditavam que a raposa já fugira. Quando usava terno, era de modelo projetado para destacar a largura dos ombros e o bom gosto dos ancestrais. Claymore Park, o maior e mais bem-sucedido haras de Ridge’s Race, era o lar dos Claymore desde muito antes da Guerra da Agressão do Norte.

Christian não esperara encontrar nenhum dos dois a sua espera na minúscula sala de visitas. O guarda que o chamara ao escritório do diretor não dera a menor pista, nem o diretor. Após os cumprimentos, sentou-se à pequena mesa retangular e aguardou que falassem.

— Você parece bem, Christian — comentou Peter, com um braço sobre a mesa e o outro no encosto de uma cadeira. Mostrava-se à vontade no lugar inóspito, se bem que, em todos os anos em que conhecia Peter, Christian jamais o vira pouco à vontade.

— Na medida do possível, senhor. — Christian olhou para Mel, que enxugava a testa com um lenço dobrado.

— Passo mal toda vez que venho aqui. — Mel enxugou as mãos. — Parece que estão me sufocando. Não consigo respirar. Não sei como você consegue...

— Respirar é natural para mim.

— Soube que o programa Cães e Prisioneiros Juntos vai bem — comentou Peter.

— É, parece que não vão cortar.

— Talvez não fique aqui tempo bastante para se preocupar.

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Mel enfiou o lenço no bolso. Pensou melhor, tirou-o, dobrou-o e o guardou de novo.



- Christian, temos boas notícias. — Peter pousou as duas mãos na mesa e se inclinou para a frente. — Notícias animadoras.

Havia tempo demais acompanhando o processo de apelações para sentir esperança, Christian aguardou. Mas, mesmo lutando para não sentir nada, suas entranhas se contraíram, de repente geladas de expectativa.

Bertha Peterson não falou com você?

— Sobre Karl Zandoff? Falou.

— Deve estar com isso na cabeça desde então.

Na verdade, Christian não se permitira ruminar a conversa com Bertha. Nutrir falsas esperanças era mais perigoso do que não ter esperança, e o ”tiro no escuro” fora criado para coincidências como aquela.

— Não pensei a respeito. Para quê? Zandoff está para ser frito, e a única coisa que temos em comum é ter morado na Virgínia, se é que ele andou mesmo por aqui.

Mel fez um gesto fútil, direcionando a conversa como um maestro hiperativo.

— Parece que vocês dois têm mais em comum do que isso. Você foi condenado pelo assassinato de Fidelity SutherIand, mas foi Zandoff quem calmamente lhe cortou o pescoço.

Christian reteve o fôlego. Então, meneou a cabeça.

— Quer dizer que acredita nisso? Que espera isso?

— Zandoff declarou isso às autoridades na Flórida hoje de manhã. Ele confessou ter matado Fidelity. Estava lá, em Southerland, na tarde em que ela foi assassinada. Pegou-a sozinha na casa. Matou-a...

— Como foi que ele conseguiu meu canivete?

Fora com um canivete especial para cavaleiros, com várias lâminas e utensílios, pertencente a Christian, que o assassino degolara Fidelity.

— Encontrou-o no celeiro dos SutherIand, na saliência de uma janela. Você tinha estado lá naquela semana para cavalgar, não? Provavelmente, usou-o para desbastar um casco ou cortar um arreio, depois deixou lá.

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— E as jóias? Li a história de Zandoff. Ele matava só por prazer.



— Mas sempre guardava um trofeu. — Mel abanava-se com a mão. — Naquela ocasião, porém, precisava de dinheiro para voltar à Flórida. Como não havia mais ninguém na casa, ficou procurando algo que pudesse vender. Sabemos que Fidelity não guardava as jóias em cofre. Ele as encontrou, enfiou no bolso e saiu tranqüilamente.

— Foi quando viu você — completou Peter. — Chamando Fidelity pelo nome, a caminho da casa, parecendo furioso. Ele sabia que você ia encontrá-la e ficou com medo de que começassem a procurá-lo antes que estivesse longe o bastante para não atrair suspeitas. Cavou um buraco e enterrou as jóias.

Mel retomou a palavra:

— Nem todas. Depois que ouviu você chamando a moça, ele saiu tão apressado que deixou cair um colar.

Christian o encarou.

— O colar que você encontrou na escada — esclareceu Peter. — E que o colocou nesta prisão.

— Vão procurar as outras jóias. — Mel tirou o lenço outra vez. — Ele disse à polícia onde as enterrou. Se forem encontradas, irão corroborar a história.

Christian inclinou-se para a frente.

— E se não encontrarem?

— Por que não encontrariam?

— Porque já faz nove anos. Onde foi que ele enterrou? Foi Peter quem respondeu:

— Na linha da cerca entre Southerland e Claymore Park.

— Tem ideia de quanta gente entra e sai de Southerland? Qualquer trabalhador temporário pode ter descoberto as jóias e vendido.

— Zandoff contou que planejava voltar para pegá-las — revelou Peter. — Só que nunca teve a oportunidade. Apavorado, fugiu para a Flórida sem elas. Mas garante que escondeu muito bem. Temos chance, Christian. Uma chance muito boa.

— E se encontrarem?

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Voltaremos ao tribunal para pedir sua soltura enquanto correm as investigações.



Christian não se movia, mas seu coração pulava descompassado. Podia controlar a aparência, até os pensamentos, mas seu corpo ainda se lembrava de como era ser livre.

Peter estendeu a mão e a colocou sobre a de Christian.

Imagino como se sente. Creia-me, eu sei, e Mel também.

Como me sinto? — Nem ele mesmo sabia.

— Zangado por ter perdido tantos anos de sua vida. Esperançoso quanto a ter superado o pior. Com medo de que não tenha.

— Por que Zandoff resolveu confessar?

— Ele tem mulher, filhos...

— Talvez queira agir corretamente, para variar, mostrar aos filhos que tem alguma moral.

— Talvez esteja só com pena de você — considerou Mel.

— Ele sabe que outro homem cumpre pena por algo que ele fez.

Christian conhecia outros homens que haviam matado só por prazer. Nenhum deles ligaria a mínima se alguém pagasse o pato por eles.

— Ou talvez queira se gabar. — Peter recolheu a mão.

— Antes de morrer, quer que o mundo saiba como era bom no que fazia, o que fez e quantas vezes fez.

— Ou talvez espere adiar a data da execução confessando mais assassinatos. — Mel pousou os braços na mesa. — Que importa, Christian? Não interessa. De fato, a meu ver, não tem que pensar nisso. É só se sentar e esperar. Vão trazer detectores de metal e começar a cavar na linha da cerca ainda hoje. Zandoff descreveu mais ou menos a área, mas pode levar algum tempo. Não se sabe exatamente onde e a que profundidade ele enterrou as jóias. Mas não vamos deixar de revirar nem um centímetro de terra.

Christian não respondeu, a mente em turbilhão.

— Tínhamos de lhe contar — explicou Peter. — Existe possibilidade de todo esse esforço não dar em nada, mas é Pequena. Mesmo sem as jóias para respaldar a história de Zandoff, ainda podemos apelar à corte. Vai demorar mais,

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a vitória não é tão certa, mas as chances ainda estarão a seu favor.



— Se necessário, vamos tentar encontrar alguém, qualquer pessoa que se lembre de ter visto Zandoff na área quando a srta. SutherIand foi assassinada. — Mel sacou o lenço de novo, desta vez para limpar os óculos. — Vamos vasculhar os registros de hotéis baratos, indagar nos bares

Toda essa ação custaria caro, muito caro. Cada inspiração de Mel custava também. Ele reduzira os honorários já de início, acreditando que libertaria Christian, esperando compensar o desconto com a publicidade do caso. Em uma atitude louvável, mesmo após a derrota vergonhosa, continuara cobrando menos durante o processo de apelação. Não obstante, Christian já devia quantia equivalente a anuidades em universidades da Ivy League e férias na Europa para quádruplos!

O advogado vinha sendo remunerado por Peter Claymore

Christian olhou para Peter.

— Se eu conseguir mesmo sair daqui, descobrirei uma maneira de lhe pagar.

— Você era o melhor amigo de meu filho. É como um filho para mim, Christian. Robby esperaria que eu ajudasse você. Não me deve nada.

Mas Christian sabia que devia tudo a Peter. Sem a ajuda dele, não teria acalentado a menor esperança na vida. A despeito dos instintos, sentia a esperança renascendo. A despeito do passado a atacá-la. A despeito dos amigos que o abandonaram e dos difamadores a reprová-lo em silêncio. A esperança era luz por entre as fissuras de seu coração partido.

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