Emilie Richards



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CAPÍTULO III
Na manhã seguinte à visita a Júlia, Maisy acordou com batidas na porta frontal de casa. Sentia-se mais energética e criativa tarde da noite. A menos que obrigada, raramente se levantava antes das dez. O relógio na mesa de cabeceira informava que eram sete horas da manhã.

Rolou para o lado e procurou o corpo quente de Jake, mas a outra metade da cama estava vazia. Por um segundo, pensou em ignorar o chamado, mas as batidas na porta recomeçaram, mais fortes e insistentes.

Sentou-se e tentou recordar que dia era aquele. Quando a tarefa se revelou impossível, Iançou as pernas por sobre a beirada da cama e procurou os chinelos. Agarrou um robe de cetim púrpura a caminho da porta e afofou os cabelos em permanente com dedos rígidos ao deslizar escada abaixo. Da janela do poço da escada, viu quem estava batendo e suspirou. Estava nove anos atrasada para rastejar de volta para baixo das cobertas.

A porta não estava trancada. Escancarou-a e espiou o genro por entre pálpebras pesadamente semicerradas. Bard Warwick estava convencido de que bastaria à sogra ajustar o relógio para que sua vida se encaixasse no lugar.

— Aconteceu alguma coisa com Júlia ou Callie?

— Gostaria de saber.

Ela recuou e ele entrou. Bard trajava terno escuro e gravata estampada sob capa de chuva azul-marinho. Só então ela reparou que garoava e que os cabelos castanho-escuros do genro se permeavam de umidade.

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No ver de Maisy, Bard era o melhor e o pior que a Virgínia tinha a oferecer. Tratava-se de um homem atlético e inteligente, condisciunado e cheio de boas maneiras e charme sulistas. Mas poderia ser mais honesto e altruísta.



Bard via a si mesmo como um mapa turístico bem-humorado. A cidade em questão era o centro do universo, muito superior a pontos insignificantes como Los Angeles, Hong Kong e Londres. Desde o berço, tivera tudo o que um garoto poderia querer. Vantagens que qualquer outro homem veria com humildade mas que Bard encarava como instrumentos cedidos para sua conveniência.

Maisy temia que Júlia não passasse de mais uma bênção colocada no caminho dele. Um homem que conseguia tudo com facilidade extrema em geral não tinha muitas referências

— Já que estou de pé, podemos tomar um café. — Ela foi para a cozinha ciente de que o genro já lhe desaprovara os trajes matinais.

— Não quero café. Estou a caminho do aeroporto. Só vim trocar uma palavra com você, Maisy.

— Não consigo falar sem uma caneca de café na mão. Não antes do meio-dia.

Maisy supôs que ele a seguia pelo corredor tortuoso atravancado de bagulhos que ela recolhera durante a surpreendente jornada de sua vida. Dobrou à direita ouvindo os passos dele Na cozinha, ofereceu um assento à mesa e abriu o freezer Para tirar o café.

— A que devo Prazer de sua visita?

Bard sentou-se cuidadoso, como se temesse o que poderia acontecer se enfiasse as pernas debaixo da mesa. A casa não carecia de asseio, de forma alguma, mas não era só o corredor que estava atravancado. Maisy era uma colecionadora. Não uma rata a empilhar jornais e velhas caixas de papelão, mas uma admiradora de figuras, cerâmicas, retalhos de renda, botões, luvas e colchas xadrezes, litografias e livros descartados. Ela via histórias em tudo, sentia vibrações de vidas vividas e emoções experimentadas ao segurar nas mãos o amado tesouro de alguém. Bard a considerava quase uma maníaca.

— Soube que visitou Júlia ontem.

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Maisy levou a lata de café para junto do pote da cafeteira e abriu uma gaveta à procura de um filtro. Revirou velinhas de aniversário, descansos de copos, rolos de barbante e cupons de pizza antes de perceber que abrira a gaveta errada.



Visitei. Você a despachou como correspondência do dia anterior, Bard.

— É uma comparação interessante, mas não verdadeira. Ela precisa de ajuda, e não sei mais o que fazer.

Por um instante, Maisy espantou-se. O genro parecia mesmo subjugado, algo que ela não esperara.

— Ela precisa ficar com pessoas que a amam, não com estranhos.

— Maisy, nestes dez anos em que a conheço, você já foi música, oradora de Mary Kay, divulgadora de um guru do Oriente com mau hálito e pés sujos, vegetariana e crente fanática. Desde quando é psicóloga?

— Não precisa ser psicólogo, Bard. Basta bom senso. Em uma atitude louvável, ele não observou que ninguém consideraria o bom senso um dos pontos fortes de Maisy Fletcher.

— Sabe o que sua filha fez esta noite?

— Tenho certeza de que vai me contar.

— Desenhou na parede do quarto. Pegou um graveto queimado na lareira... na maldita lareira pela qual pago uma fortuna para que ela tenha conforto... e esboçou desenhos. Feito uma mulher das cavernas.

Era uma atitude tão impensável em se tratando de Júlia que Maisy teve que revisar tudo o que sabia a respeito da filha para encaixar o novo dado.

Bard riu sem humor.

— É, parece que ficou surpresa...

— Por que ela não pediu lápis e papel?

— Que tal por hostilidade?

Maisy reconhecia que parecia a atitude de uma pessoa farta.

— Ela podia ter materiais de arte, se pedisse?

— O dr. Jeffers acha que ela precisa de descanso e silêncio.

Maisy começava a entender.

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— Sem materiais de arte.



— Júlia não precisa desenhar. Precisa conversar. Além disso, raios, ela não enxerga! Está cega, ou fingindo estar!

Maisy reagiu atónita.

— Não acredita nela? Acha que inventou tudo? Minha filha não é perfeita, mas não é mentirosa.

— Não? Certas coisas do passado ela com certeza não comenta.

— Bard, Júlia não enxerga. Se acha que ela...

— Sei que ela pensa que não enxerga. Acredito nela. Mas não há nada errado com os olhos dela! Nada!

— Exceto que ela não consegue ver através deles.

O genro bateu o punho na mesa, outra demonstração emotiva altamente não característica dele.

— Não se pode saber, após o modo como agiu esta noite, concorda?

— É só mais um argumento a defender que ela não deveria estar lá.

— Já chega. — Bard apoiou a cabeça nas mãos. — Não quero que volte a visitá-la enquanto ela estiver na clínica, Maisy. O dr. Jeffers acha que foi você quem provocou isso, e eu também. Ele me telefonou há cerca de uma hora, bastante contrariado. — Levantou o rosto — Entenda, não é nada pessoal. Só não posso permitir que interfira no tratamento dela. Trata-se da minha mulher.

— Trata-se de minha filha.

Bard empurrou a cadeira e se levantou.

— Maisy, ouça com atenção. A maior parte do tempo, você é inofensiva, mas não neste caso. Não quero que se aproxime de Júlia até ela recuperar a visão. Ela tem muito em que pensar, e você só vai atrapalhar. — Baixou a voz. — Não permitirei.

Um homem falou da porta:

— O que você não permitirá?

Maisy voltou-se e viu o marido de cabeça descoberta, em capa de chuva de lona. Não importava o clima, Jake inaugurava cada dia com uma caminhada. Ela supunha que fosse sua maneira de injetar alguma previsibilidade na vida, após viver tantos anos com alguém tão imprevisível.

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Quero que Maisy se afaste de Júlia. — Bard aproximou-se de Jake. — Consegue fazê-la ouvir a razão? Jake não sorriu.



— Maisy não aceita bem ordens. É uma de suas melhores qualidades. Se quiser ver a filha, verá.

O rosto de Bard mesclava várias emoções. Fascinada, Maisy nem se zangou ante o fato de ele estar tentando Iançar seu marido contra ela. Decidiu apelar:

— Eu sugeri que ela viesse para cá, se você não a quer em Millcreek. Fico em casa o dia todo. Posso ajudá-la a se orientar...

— Ela não precisa se orientar! Pelo amor de Deus, Maisy, ela precisa voltar a enxergar! Mas com você atrás dela o tempo todo, pronta para lhe fazer tudo, por que se esforçaria?

Jake avançou um passo.

— Acha que sua mulher perdeu a visão porque quer que cuidem dela?

Bard demorou a responder, mas quando o fez foi de sembIante inexpressivo.

— Vocês têm laços com ela. Entendo, mas no momento estou no comando do tratamento de Júlia. Afastem-se. Por favor. Até que ela esteja pronta para voltar para casa. Então, decidiremos o que é melhor para ela.

— Júlia está no comando da própria recuperação — contestou Maisy, espaçando bem as palavras.

Bard avisou:

— Se não concordarem, terei de dar instruções claras ao dr. Jeffers.

— Desconfio de que já fez isso — replicou Jake. — Há algo mais que possamos fazer por você nesta manhã? — Ficou de lado para facilitar a saída.

Bard encaminhou-se à porta.

— Até mais.

Maisy não respondeu, e Jake só voltou a falar quando ficaram a sós.

— Você está bem?

— Tento ter em mente que, pelo bem de minha filha e de minha neta, devo tratar bem Lombard Warwick, mesmo quando ele é tirano.

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— Tem sido difícil para ele também, Maisy. Enfrenta como pode.



— Dando ordens e tomando decisões.

— Não faz por mal. Pensa levar em conta os interesses de Júlia.

Maisy encheu o pote com água fresca antes de ligar a cafeteira.

— Bom, ele reconhece que, normalmente, sou inofensiva. Jake riu.

— Ele não a conhece tão bem quanto pensa!

Ela sorriu, mas logo ficou séria de novo. Contou a Jake que Júlia desenhara na parede do quarto.

— Vou visitá-la hoje outra vez.

— Quer que eu vá junto? Maisy pensou e então recusou.

— Não. Um de nós tem de permanecer nas boas graças de Bard. Se você não for, preservamos a ilusão de que você não concorda plenamente comigo.

— É uma ilusão?

— Concorda?

Jake tirou canecas do armário e as pousou no balcão diante dela. A seguir, foi à geladeira buscar o creme.

— Se vai porque quer se certificar de que ela tem opções, dou todo o meu apoio.

— Só quero o melhor para Júlia. Jake colocou o creme na frente dela.

— FIando assim, você parece Bard...

O brilho quente da rebeldia de Júlia durou só até as primeiras horas da manhã seguinte. Ela acordou quando a enfermeira do primeiro turno entrou para vê-la. Ouviu a mulher engolir em seco e se retirar apressada.

A isca fora Iançada.

Após o banho, saboreou o desjejum sabendo que estava atrasada para a visita do psiquiatra. Tinha que admirar o autocontrole do homem.

Quando o dr. Jeffers finalmente chegou, Júlia estava sentada à janela, ouvindo a chuva cair sobre a paisagem molhada.

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Podia visualizar as folhas do outono, pesadas e resistentes. Mas não resistiriam por muito tempo.



Quer dizer que realizou um pequeno protesto esta noite, Júlia?

Ela se mostrara contrita até notar o tom do médico. Se ele a tratasse como alguém que tinha um Q.I. de minhoca, talvez ela se desculpasse. Mas estava zangada de novo.

— Não vou deixar de fazer o que quero a fim de melhorar.

— E acha que rabiscar em nossas paredes a fará melhorar? Júlia cuidava para não jogar o jogo dele.

— Quando me internei aqui, esperava regulamentos. Mas esse seu capricho é cruel. Insatisfeito com minha pseudofalta de cooperação, decidiu me privar das coisas que mais prezo.

— Parece desconfiar de meus motivos... Júlia refletiu a respeito.

— Pode até pensar que faz isso em meu benefício, mas o resultado é o mesmo.

— Qual seja?

— Vamos parar de andar em círculos. Não vou melhorar se passar o tempo todo batendo a cabeça na sua. Desejo permanecer aqui, mas com direito a visitas e meu material de arte.

— Material que não enxerga.

— Vejo desenhos em minha mente tão claramente quanto antes.

— Fale-me deles.

Júlia refletiu a respeito, também.

— Não até ter certeza de que cumprirá sua parte no trato.

O médico riu.

— Ah, então é um trato? É assim que toca sua vida, Júlia? Retém favores até obter o que quer?

— Uma pessoa saudável não cede demais sem a certeza de que conseguirá algo em troca. Peço coisas ínfimas, que qualquer pessoa teria sem negociar.

— É difícil sabermos o que você tinha em mente ao desenhar. Tenho certeza de que a mensagem estaria mais clara se você pudesse enxergar, ou se tivesse um material melhor. Mas parece uma paisagem. Colinas? Um rio, talvez?

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— Nada feito?



O dr. Jeffers suspirou.

— Terei de analisar.

Júlia ouviu a cadeira arranhar o chão, como se o médico se levantasse. Faltava a última cartada.

— Dr. Jeffers, talvez este não seja o melhor lugar para mim, afinal. Se não houver acordo, simplesmente sairei. Sem ressentimentos.

— Não tenho certeza de poder lhe dar alta... Júlia reagiu estarrecida.

— Eu me internei voluntariamente. Quem acreditaria que uma cega pode representar ameaça a alguém?

— Talvez represente perigo a si mesma, como insinua o fato desta noite. Estou surpreso que não tenha incendiado a clínica.

Júlia foi tomada pelo pânico, um velho amigo seu agora.

— O fogo já se apagara e tomei todo o cuidado.

— Mas em que pensará a seguir? Acredito que se encontre em grave depressão e seja capaz de atos impensados. É uma péssima combinação.

Estranhamente, em vez de raiva, Júlia experimentou uma onda de alívio, a qual ceifou o pânico pela raiz. Agora, sabia o que fazer.

— Creio que estamos conversados.

O médico não respondeu, e ela desejou poder ver-lhe a expressão. Quando falou, o médico já estava distante, na soleira, deduziu ela.

— Tem consulta agora cedo com um especialista.

— Já fizeram todos os exames no hospital.

— Vai brigar por causa disso também? Gostamos de fazer tudo direito aqui. Às quatro e meia, teremos nossa sessão. Até lá.

Não estaria mais na clínica às quatro e meia. Qualquer dúvida que tivera quanto a partir desaparecera na esteira das ameaças do psiquiatra. Às três horas da tarde, Júlia ouviu de novo a picape de Jake. Às três e quinze, adivinhou que Maisy deparara com alguma dificuldade, pois ainda não chegara a seu quarto. Chamou Karen e aguardou impaciente que a enfermeira atendesse.

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Karen, minha mãe veio me visitar outra vez. Pode descobrir por que ela está demorando?



A moça parecia desconfortável.

Não vão deixá-la subir hoje, sra. Warwick. O dr. Jeffers alega que vai contra seu plano de tratamento. A segurança tem ordens. Lamento.

— Ela ainda está aqui?

Karen hesitou, mas respondeu em tom mais baixo:

— Vou descobrir. Algum recado para ela?

— Sim, peça-lhe que me aguarde.

— Aguardar?

Júlia já estava de pé.

— Vou descer. Vou para casa. Isto é ultrajante.

— Mas não pode fazer isso. Internou-se...

— Agora estou me dando alta. Vou sair desta clínica já.

— Mas o dr. Jeffers não está aqui para...

— Ótimo.

— Acontece que não podemos levá-la lá para baixo. Temos ordens...

— Vou sozinha, então. E, se quebrar o pescoço no caminho, minha mãe irá processar a Gandy Willson. — Júlia foi para a porta. Passou pela escrivaninha e pela cómoda, mas então trombou com Karen.

— A senhora vai nos colocar em encrenca...

Júlia vacilou por um segundo, mas não mudou de ideia.

— Lamento. É só dizer a verdade a Jeffers. Tentou argumentar comigo. Eu me recusei a ouvir. Estou me recusando, não é mentira.

— Espere eu telefonar para ele...

— Telefone. Quando ele chegar, já terei partido.

— Deixe-me falar com seu marido...

— Boa sorte. Ele não escuta bem. A enfermeira estava desesperada.

— Por favor, não faça isso. Espere até... Júlia era pequena, mas esticou-se toda.

— Por favor, saia da minha frente.

— Mas vai se machucar...

— Tinha esperança de que se compadecesse. — Júlia avançou e tateou a porta, empurrando Karen para o lado.

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No corredor, deu-se conta de como estava desorientada. Havia elevador na sala das enfermeiras, mas lembrava-se de ter ouvido de que sua operação dependia de uma chave. O dr. Jeffers pedira desculpas por não dispor de um quarto vago no térreo, onde todos eram modernos e equipados para deficientes. Prometera transferi-la assim que algum vagasse. Ao se internar, não dera importância ao fato, mas agora percebia como fora conveniente para ele. Era prisioneira da própria cegueira. Teria de descer a escada sozinha.



— Não vai me dizer nem para que lado ir?

— Não posso — declarou Karen. Em voz bem mais baixa, indagou: — Está mesmo decidida?

— Estou.

— Vá para a direita — instruiu a moça. — No final, dobre à esquerda. A escada fica à direita, no fim do corredor. Estarei lá a sua espera.

Júlia entendeu. Ninguém repreenderia Karen por ceder naquele ponto e ajudar a paciente a chegar ao térreo. Se não ajudasse, sim, poderiam acusá-la de negligência. Mas, primeiro, teria de alcançar o topo da escadaria sozinha.

Respirou fundo, incentivada pela certeza de que, ao menos, não se atiraria de cabeça por um Iance de escada. Deu um passo, depois outro. No corredor, imperava um silêncio lúgubre. Onde estariam os demais pacientes? Fazendo descansos de panela ou bolinhos assados, em terapia ocupacional? Não conhecera ninguém desde que chegara. Ninguém tentara fazer amizade. Pelo jeito, o dr. Jeffers queria que ela ficasse sozinha com seus pensamentos.

Deslizando a mão na parede ao lado, deu mais um passo. Toda vez que descia o pé, esperava tudo, menos chão sólido. Mergulhava em espaço escuro, desorientada e mais amedrontada a cada passo. Mas a alternativa a aterrorizava ainda mais. Se permanecesse internada, a depressão que o dr. Jeffers mencionara se tornaria tão real quanto a cegueira que a mantinha cativa.

A parede sumiu. Apavorada, recolheu a mão. Seus pés continuavam firmemente plantados. Permaneceu imóvel por alguns segundos, tentando avaliar a situação. Devia estar junto a uma porta aberta, pois com certeza muitas davam

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naquele corredor. Ergueu o pé esquerdo e o pousou na frente do direito, sentindo antes com o dedão, para se certificar de que o chão não desaparecera de repente, também. Satisfeita, retomou o avanço. Após o que lhe pareceu um percurso de vários metros, reencontrou a parede, só que mais próxima agora, como se tivesse se desviado ao encontro dela.



Endireitou-se e seguiu em frente. Não tinha a menor ideia da distância a percorrer. Tendo percorrido a clínica umas mil vezes, agora tentava visualizar o prédio. As alas eram extensas? Tratava-se de anexos a uma mansão de antes da Guerra Civil, que agora centralizava a área da recepção, mas as alas eram antigas, também.

Não sabia quanto tempo levara para chegar ao destino. Contou seis portas antes de sentir algo em sua frente. Transpirava, embora o corredor estivesse gelado. Tremia também, temerosa de que o próximo passo a Iançasse em um abismo. Ainda recordava bem demais o terror de ser arremessada no ar, o medo de ficar paralítica, saber que estava para se chocar com o solo.

Descobrir que não enxergava mais nada.

Esticou os braços, mas não tocou em nada. Avançou um centímetro, e sentiu vidro contra a palma das mãos. Chegara ao fim do corredor, a uma janela, imaginava, e agora deveria dobrar à esquerda.

Virou-se com a mão direita na janela, a fim de se orientar melhor. O alívio sobrepujava o pavor. Completaria aquela terrível jornada a tempo de se encontrar com a mãe. Maisy não desistiria sem luta. Mas tinha de se apressar.

Deu um passo, e outro em seguida. Seu dedão enganchou em algo a sua frente e, antes que pudesse se equilibrar, caiu de joelhos.

Sentiu os galhos de uma árvore contra o rosto e sufocou um gemido, tentando se localizar. Tropeçara em uma planta, uma pequena árvore em um vaso. Coisa de decorador de interiores.

Não perdeu mais tempo. Apoiando-se no vaso, levantou-se. Caíra e sobrevivera. Levantara-se. Deslocava-se. Retomaria a jornada. Seguiria até o fim.

Quase no final do segundo corredor, ouviu um alerta segundos

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antes de tropeçar em um tapete e cair de cara no chão. Levou algum tempo para recobrar o fôlego, sentindo uma dor aguda no joelho direito. Quando tentou se levantar, mãos fortes ajudaram-na.



— Droga, não me importo em perder o emprego! — desabafou Karen, à beira do choro. — Tem de haver lugar melhor no qual se trabalhar. Se sua mãe já tiver ido embora, eu mesma a levarei para casa. Sabe, tenho um filhinho. Só não queria que...

Júlia agarrou as mãos da enfermeira.

— Vou precisar de ajuda. Venha comigo. Pelo menos até arranjar um emprego do qual goste mais.

— Prefiro fritar hambúrgueres a continuar aqui.

— Vamos procurar minha mãe.

— Consegue descer a escada? Júlia esboçou um sorriso.

— Faço qualquer coisa para sair daqui.

— Vou estar com o braço em torno de você. É só colocar um pé na frente do outro.

Júlia descobriu que era bem mais fácil andar com Karen a seu lado.

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CAPÍTULO IV


Os companheiros de Christian Carver na prisão estadual de Ludwell deixavam-no em paz. Nem sempre fora assim. Ao chegar lá, aos vinte e três anos e muito amedrontado, ele tivera mais do que sua cota de atenção. Atlético e forte, exibia quadris estreitos e esbelteza. E, aos vinte e três anos, Christian ainda não aprendera a importância de não sentir nada, de modo a não ter nada a esconder de fato.

Em questão de meses, aprendera, do jeito mais difícil, tudo de que precisava para sobreviver a uma condenação perpétua. De quem ser amigo e a quem não perder de vista. Como suportar o barulho e o cheiro. Como encontrar algum denominador comum entre homens que haviam invadido domicílios ou lhes ateado fogo, maníacos que assassinaram velhotas e estuprado crianças. O equilíbrio certo entre raiva e ódio, de modo a agüentar, mas não se deixar consumir pelo fogo em seu interior.

Estabelecera uma espécie de paz com a vida. Um dos guardas, interessado no bem-estar do jovem Christian, colocara-o em uma cela com um velho condenado por matar a esposa. Alf Johnson asfixiara sua amada Dóris a pedido dela mesma, quando o câncer lhe carcomendo os pulmões tornara respirar um tormento. Na época pré-kevorkiana do julgamento de Alf, a morte de Dóris classificara-se como simples homicídio premeditado.

Alf aproveitara os anos na prisão para obter a instrução que a vida lá fora jamais lhe concedera, e adotara o jovem Christian. Antes de morrer, havia um ano, ensinara-lhe como

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ter uma vida atrás das grades, bem como um importante lema sob o qual viver.



Só um homem pode aprisionar seu espírito.

Agora, como sempre, Christian aplicava tudo o que aprendera.

— Não dou conselhos. — Olhou para o filhote de cão de caça dourado a seus pés. Seesaw tinha pelagem brilhante como pepitas de ouro polidas e olhos castanhos aguados que reparavam em absolutamente tudo. — Seesaw, sente-se.

A cadelinha sentou-se obediente, o corpinho gorducho agitado de energia contida. Mas permanecia onde estava, a despeito dos instintos impelindo-a ao contrário.

Christian inclinou-se para afagá-la.

O homem ao lado replicou:

— Não preciso de conselhos, homem. Só quero saber como me livrar de Tyrell.

— Dá no mesmo. — Christian estalou a trela na coleira do animal. — Ajoelhe-se, Seesaw.

— Você já está aqui há bastante tempo... Christian endireitou-se.

— E vou ficar muito mais. Por isso, não digo nada que possa me meter em encrenca.

— Por que me dizer o que fazer o meteria em encrenca?

— O jovem negro Timbo Baines caminhava ao lado de Christian e Seesaw na trilha interna que os treinadores de cães da prisão usavam para exercitar seus protegidos caninos. Novo em Ludwell, estava aterrorizado e escolhera Christian como mentor, encargo que Christian não desejava, mas que tampouco recusava, ainda não amargurado o bastante.

— Timbo, Tyrell tem amigos aqui. Os amigos conversam entre si. Você vai acabar fIando com um deles. E fIando de mim.

— Que tal se eu simplesmente ficar fora do caminho dele?

— Faça disso uma prioridade. — Christian parou para ralhar com a cadelinha, que começava a puxar a correia.

— O intervalo de atenção dele é curto.

— Dele? Pensei que Seesaw fosse fêmea.

— Tyrell.

— Ah, entendi.

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- Quer conduzir? Não erga a voz. Elogie se ela fizer o que você mandar. Não puxe a correia.



— Não sei como vim acabar treinando cães.

— Acho que teve sorte...

Timbo fora condenado por vender cocaína a adolescentes de classe média que faziam turismo no centro de Richmond.

Christian começou a voltar ao canil.

—- Christian?

Não reparara na reverenda Bertha Petersen no final da primeira pista. Obesa de cinqüenta e tantos anos, ela usava calça jeans e suéter com uma bandana cobrindo os cabelos ruivos grisalhos cortados curtos. Um guarda troncudo mantínha-se rígido nas proximidades, atento a toda movimentação.

Christian aproximou-se, mas estacou a vários metros da reverenda para não preocupar o guarda.

— Olá, pastora. Não a esperávamos.

— É um prazer vê-lo. Como estão os cachorrinhos?

— Ainda é cedo para saber. Mas nenhum problema grave até agora. A labrador é um tanto agitada. Talvez se acalme, mas vamos ficar de olho nela.

Bertha era diretora do Cães e Prisioneiros Juntos e ministra ordenada de uma pequena seita fundamentalista de nome comprido. Enquanto muitos de seus colegas se empenhavam em converter pagãos, Bertha dedicava sua considerável energia a boas ações.

O propósito do Cães e Prisioneiros Juntos era criar e treinar cães para ajudar deficientes físicos e mentais. Ludwell era a primeira prisão no programa a treinar cães para guiar cegos, entregando anualmente duas dúzias deles a organizações que executavam a última etapa de treinamento antes da colocação. Christian comandava o programa em Ludwell havia dois anos.

— Passou só para dar uma olhada?

— Gosto de manter contato, na medida do possível. — Bertha olhou para o guarda e de novo para Christian. — Que tal me mostrar os cães em treinamento? Quantos tem no momento?

Ludwell desenvolvia dois programas distintos. O mais novo, do qual Seesaw fazia parte, avaliava filhotes gerados para se tornarem cães-guia. O segundo e mais consolidado

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arregimentava cães jovens já socializados por uma família hospedeira, treinados em boas maneiras e rotinas caseiras. Estes animais recebiam curso intensivo ministrado por funcionários da prisão durante três meses antes do direcionamento a um dos vários programas.



Christian adoraria completar o treinamento de cada cão, mas no último mês os animais começavam a atuar junto ao novo mestre, freqüentemente nas ruas. E não se recomendava enviar os cegos ao presídio, ou os prisioneiros aos cegos...

Mas o que era aquilo comparado a tudo o que se negava a um condenado?

— Restam quatro cães — informou Christian à pastora. — No início desta sessão eram dez.

Bertha voltou-se para o homem armado.

— Seu guarda, vamos para o outro canil, está bem? Ele não respondeu de imediato. Primeiro, pegou o rádio e falou nele. Só então concordou.

O segundo canil ficava além de sólidas portas de aço. Christian e Bertha esperaram que elas fossem abertas e, depois, fechadas a suas costas. Percorreram um corredor curto com muitas câmeras de vídeo. O segundo canil parecia-se muito com o primeiro, mas a pista era consideravelmente maior, com uma janela de onde se via um pátio cercado por arame farpado.

O guarda em serviço aqui estava acostumado com Christian e mal lhe dedicou um olhar. Concentrava-se em vigiar um detento de olhos vendados a vencer um percurso com obstáculos. Uma cadela labrador cor de chocolate com arreios de couro o conduzia pelo labirinto. Javier Garcia, um grandalhão de blue jeans, a seguia confiante.

Christian e Bertha foram até o anteparo à beira da pista e ficaram assistindo.

Christian explicou o que acontecia:

— Aquela é Cocoa. Apresenta dificuldade quanto a obstáculos altos.

Os cães tinham de aprender a não conduzir o dono de encontro a obstáculos pendentes, como galhos de árvore e toldos, mesmo quando o dono insistia. Cães-guia eram treinados a praticar a ”desobediência inteligente”. Seus bons instintos tinham de supIantar as ordens do mestre cego.

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— Ela está aprendendo?



Oh, Cocoa é uma vitoriosa. Brilhante. Vai conseguir.

um de seus companheiros de ninhada foi reprovado na primeira semana. Ele se assustava com barulho alto. Muito distraído para um labrador. De agora em diante, como vamos selecionar os filhotes, esperamos evitar esses contratempos.

A pastora ficou em silêncio por algum tempo, observando Javier e Cocoa deslocarem-se impecavelmente pela trilha. Então, voltou-se para Christian.

— Sabe, pensei muito antes de termos esta conversa. Ele aguardou estoicamente, outra habilidade de sobrevivência adquirida.

— Já comentaram qualquer coisa.

Supunha que Bertha ouvia muita fofoca de prisão em prisão. Ludwell não era a única instituição penal que treinava cães-guia.

— Podem até me acusar de interferir nos procedimentos por lhe contar isto. Com certeza, por violar princípios.

— Sou todo ouvidos.

— Já ouviu falar de um homem chamado Karl Zandoff? Christian devorava jornais sempre que podia. Todo o mundo já ouvira falar de Karl Zandoff.

— Está no corredor da morte na Flórida. Já quase não tem mais o que apelar.

— A execução está marcada para dezembro.

— E parece que não vai ser adiada.

— Ele continua fIando com as autoridades.

— FIando o quê?

— Parece que confessou outro assassinato, um do qual ninguém desconfiava.

— Nada como a perspectiva de um encontro com o Criador para soltar a língua...

— Talvez confesse muito mais antes que tudo se acabe. A contragosto, Christian começava a ficar curioso.

— Confessar faz bem à alma. Acredita nisso, não?

— Você acredita?

— Não tenho visto Deus por aqui, pastora. Se algum dia nos falamos, já faz muito tempo. Se tivesse algo a confessar, eu chamaria meu advogado.

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— Zandoff revelou onde estava o corpo, e o encontraram. Caso encerrado. Os pais da menina finalmente a enterraram para descansar.



— Menina?

— Uma colegial do Tennessee desaparecida há dez anos.

— Pensei que ele tivesse cometido todos os crimes na Flórida.

— Agora, estão investigando outros homicídios não solucionados no Sul. Parece que ele andou por toda a região. Operário da construção civil, empregava-se onde podia. Chegou a se casar e teve dois filhos no Estado do Sol, mas não parou de espreitar mocinhas.

Christian sabia que Zandoff fora pego com um pente de prender cabelos com o monograma de uma jovem e uma pá novinha em folha suja de lama arenosa do Tallahassee. Esse crime o levara à prisão. Quando o cadáver foi finalmente localizado, os dois em covas rasas ao lado renderam-lhe a pena de morte.

Christian fitava o rosto da pastora impassível. Na pista de treino, Javier elogiava Cocoa por um ótimo trabalho. Tinham no máximo um minuto para encerrar a conversa antes que Javier se juntasse a eles.

— Ainda não entendi por que está me contando isso. Não sou Karl Zandoff. Não matei nenhuma mulher, muito menos uma irmandade interestadual. Se acha que o exemplo dele vai mexer com minha consciência, esqueça.

— Christian... — Bertha meneou a cabeça, decepcionada. — Eu o conheço tão bem quanto todo mundo. Você não matou Fidelity SutherIand.

Ele a perscrutou.

— Até gente que me conhecia tão bem quanto a si mesma questionou. — Uma mulher em particular, cujo rosto ainda não conseguira apagar da memória.

A reverenda olhou para a pista.

— Estou lhe contando tudo isso porque parece que Zandoff esteve no norte da Virgínia entre nove e dez anos atrás. Ele dá a entender que matou uma mulher aqui, também.

De início, Christian não estabeleceu relação. Então, deu de ombros.

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Muita gente desaparece ou morre misteriosamente a cada ano.



Ele trabalhava em construções. Estão investigando registros.

Como sabe disso tudo?

Uma pessoa que investiga o caso me contou. Vamos chamar seu advogado, para representar seus interesses.

Javier alcançou o anteparo com Cocoa a reboque. Tinha cabelos pretos lisos na altura dos ombros e rosto estreito que não combinava com o corpanzil.

— Viram isso? Ela está aprendendo, e é muito delicada. Será perfeita para uma mulher.

— Oi, Javier — cumprimentou Bertha. — Falei com sua esposa na semana passada.

O homenzarrão alegrou-se.

— Ela está bem, pastora?

— Ela disse que você tem grande chance de conseguir a condicional. Devo começar a procurar emprego para você?

— Faria isso?

— Claro.

Não havia muito que Bertha Petersen não faria pelos companheiros. Ela acreditava em todos eles, a despeito de todas as evidências em contrário. Sentia-se tão à vontade com assassinos quanto com evangélicos fanáticos pela Bíblia. Não era tola, apenas acreditava em que Deus tinha sua vida nas mãos.

— E então, posso ligar? — indagou a reverenda a Christian.

Ele deu de ombros. Estava desolado por ter quase acalentado a esperança por alguns segundos. Mas, ao contrário da boa pastora, não nutria ilusões quanto a Deus se importar com o destino de Christian Carver. As paredes da prisão eram grossas demais para que os raios o alcançassem.

— Vou interpretar como ”sim” — decidiu Bertha, com um sorriso. — Agora, deixo os cavalheiros com seu trabalho.

— Ela não tem mesmo ideia dos filhos da mãe que somos, hein? — comentou Javier, depois que a reverenda se afastou.

— Ah, ela sabe, mas não liga. — Christian fez careta. — Deus não merece uma mulher como ela.

— Cuidado, pode ir para o inferno por dizer isso! Christian deu-lhe as costas.

— Grande coisa.

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